Vestido de organdi e outras histórias

Vestido de organdi e outras histórias

Rose Marie Lynch, Escritora

 

 

Antigas memórias

Dizem que antigas memórias irrompem das regiões mais profundas da mente, instigadas por impressões poderosas. São cheiros, sabores e sons que de repente nos transportam no tempo e no espaço. Em “O caminho de Swann”, a propósito de um chá com bolinhos, Proust descreveu essa sensação com toda a mestria de que era capaz. Com isso, não pretendo nenhuma comparação; simplesmente invoco seu testemunho em socorro de minhas ideias. Sucedeu-me algum tempo atrás, a caminho da casa de uma amiga, na Região Serrana, avistar da janela do carro um mangueiral em plena floração. Intimamente associado à esplêndida florada, um dulcíssimo e quente perfume misturado ao cheiro de terra fofa e úmida penetrou minhas narinas.

– Que perfume maravilhoso!

– Perfume de quê? – quiseram saber.

– De mangueiras em flor, claro.

Meu marido, reputado farejador, para fazer jus à fama fungou o ar repetidas vezes. Com irritante senso de humor arrancou risadinhas das duas viajantes no banco de trás.

– A imaginação dela é mais forte que meu olfato.

Só então percebi que impressões associativas presenteavam meus sentidos. Relembrei o som de abelhas e besouros zumbindo inebriados e um brilho morno de sol em folhas de mangueiras frondosas. Revi sombras bailarinas indo e vindo pelo chão. Ah! Que precioso momento fugazmente recuperado do breve espaço-tempo de minha memória inconfidente! Subjugada por tão formosas lembranças, deixei-me levar por distantes paragens e anos longínquos, aos intangíveis dias de minha infância, em que crianças eram crianças e homens e mulheres confundiam-se com seres míticos e majestosos.

O lugar era a casa de uma de minhas tias, um casarão de cidade do interior já antigo naquele tempo. Várias janelas muito altas, com venezianas e vitrais coloridos, enfileiravam-se na fachada. A porta da frente, sempre fechada, dava direto na calçada. O telhado espichava-se amplamente sinuoso. Telhas com as pontas reviradas para cima arrebitavam-se nas quinas. Sob tempestuosos aguaceiros de verão, a água descia em catadupas e escoava com grosso ruído por calhas que jamais deixaram de dar conta do recado. Serviço de branco, ouvia comentar. Mas naquela época o significado implícito na frase, assim como em outras pronunciadas por adultos na presença de crianças, escapava completamente à minha compreensão. Eu não estranhava, já percebera que uma língua viva e completa palpitava escondida dentro da outra. Conhecer o significado de palavras não garantia a compreensão das conversas de gente grande. No entanto, decifrar a natureza semioculta das coisas era apenas questão de tempo. Um belo dia, sem aviso prévio, uma chave girava em minha mente, escaninhos se abriam e a luz inundava a escuridão. O mundo era um profundo reservatório de inesgotáveis surpresas. Mistério e magia, curiosidade e admiração, algumas vezes, espanto e dor.

Tia Ceci era a irmã mais velha de minha mãe. Lembro-me dela, miúda e linda, uma bonequinha de porcelana penteada como estrela de cinema. Vestia tailleurs de saias curtas, ombros armados e lapelas onde frequentemente brilhava alguma joia. Suas blusas eram alvas como as nuvens mais alvas ou espumantes de rendas como a fímbria de ondas desfeitas na areia.

Apesar da aparência, fragilidade não fazia parte de seu rol. Era professora, daquelas que se faziam respeitar. Firme nos saltos muito altos de seus sapatos diminutos, falava baixinho, sorria com seus meigos olhos cor de mel e mandava e mandava em todo mundo, sem jamais erguer a voz ou franzir as sobrancelhas delicadas. À sua volta, o mundo girava ordenado e obediente como um relógio bem acertado.

O quintal daquela casa era um paraíso encontrado. Jamais perdido. Um misto de pomar e jardim generosamente perfumado e sombreado por mangueiras, jabuticabeiras, goiabeiras e outras “eiras” e “eiros” que seria longo demais enumerar. Uma variedade infinita de frutas deliciosas pendia ao alcance das mãos. Nos galhos mais altos, bem-vindos ao banquete da vida, sabiás e sanhaços fartavam-se esbanjadores. Também ali vivia contente e ramalhudo o mais formoso pé de carambolas que jamais vi. Vergados ao peso dos frutos luminescentes, seus ramos desciam em cascatas e rastejavam pelo chão. Formavam sombrias cavernas verdejantes, refugio seguro contra tarefas escolares, purgantes amargos e palmadas prometidas.

Enfiada debaixo da densa ramagem, sentindo os bracinhos de minha prima ao redor de meus ombros, ouvia os chamados de Leontina nos procurando. Quando via suas pernas escuras passarem rente em firmes passadas, meu coração batia disparado. Assim que se distanciavam, meus priminhos espremiam risadinhas endiabradas. Leontina jamais nos descobriu.

Tia Ceci reclamava:

– Umas boas palmadas é o que bem mereciam!

Vovó, mansa como um cordeiro, acudia com panos quentes.

– Deixe as crianças, Ceci. Ainda são muito pequenas.

– É de pequenino que se torce o pepino.

Embora ignorasse o significado do aforismo, eu não ignorava o óbvio destino da citada hortaliça e vagamente receosa intuía a inquietante existência de outros tipos de pepinos.

Escadas de pedra com belas grades de ferro batido desciam das varandas para o jardim. Era um prazer aprontar estripulia por ali também e depois gritar e chorar com os joelhos ralados ardendo no fogo dos terríveis curativos de tintura de iodo com que nos medicava a querida tia Ceci. Ainda me recordo arrepiada de horror de que, secundada por minha mãe, adotava com inabalável firmeza outras atrocidades de uso medicinal na época, como pincelar a garganta inflamada e nos aplicar no peito cataplasmas ferventes que nos matavam de medo e dor.

No fundo do quintal havia um velho barracão coberto por trepadeiras bravias, melões de São Caetano e ramas de maracujá que nos atraía como um ímã. Por receio de cobras e escorpiões acaso ali domiciliados, éramos constantemente advertidos contra qualquer aproximação. No entanto, não conseguíamos resistir ao apelo de caixotes cheios de quinquilharias, louças antigas, baús do tempo das bisavós, fotografias e só Deus sabe mais o quê. Dois Fordinhos, tão antigos que o fundo ainda era de madeira, também ali se encontravam. O marido de minha tia era aficionado de carros velhos. Passava as tardes de sábado futucando as duas relíquias até que os motores roncassem e outros milagres acontecessem. Tal gosto em nada contribuía para a harmonia conjugal. Com suas brancas blusas impecavelmente passadas, tia Ceci fugia dele como o diabo da cruz. Todos se divertiam com o jocoso espetáculo, menos Leontina. Eternamente atormentada por nódoas de frutas e manchas de graxa, fechava a cara em tromba descomunal. Quando Leontina ficava trombuda era um corre-corre geral com mimos e prendas destinados a aplacar agravos e abrandar mau humor. Mais tarde fiquei sabendo que Leontina era cria especialmente querida da casa do Doutor Barcellos, finado sogro de tia Ceci.

Durante os sete primeiros anos de minha vida, convivi estreitamente com a família de minha mãe. Naquele tempo, os homens desfrutavam de privilégios quase divinos, mas na ausência da assomante figura de um patriarca, tanto do lado materno quanto do paterno, meu universo era aparentemente feminino. Quando nasci, minhas duas avós já eram viúvas. Carregavam no corpo e na alma a marca deixada por aqueles machos de antigamente, heroicos senhores da vida e da morte, homens de uma só palavra, guardiães da honra e mestres de virtudes incontestes. Tão completamente extintos quanto tenebrosos espécimes de antediluvianas eras, suas glórias são passadas. Um poder funéreo e difuso desprendia-se ainda do tênue deslizar de suas sombras sobre nós. Antigos valores, velhos costumes repassados de uma geração para a outra persistiam ainda, mantidos sem muito alarde pela geração de meus pais. A diferença de tratamento entre os sexos muito cedo chamou minha atenção. Era todo um conjunto de regras patriarcais imutáveis, direitos e restrições. Jogando sozinha o jogo das palavras, encontrei interessantes analogias. Tudo parecia se reduzir a simples questões de luminosidade. O sol, o dia, o homem. A lua, a noite, a mulher.

À luz mediana do espaço próprio das mulheres aprendi a proteger-me do brilho excessivo do sol, a cerrar os olhos para ver melhor. Completamente abertos não enxergavam o mundo dentro do mundo, nem encontravam caminhos buscados na obscuridade sublunar.

Desvendar o enigma das palavras, decifrar seus segredos, traduzir a língua escondida dentro da outra descerraria o véu que toldava o horizonte da vida?

Ingenuamente, eu pensava que sim.

 

Iniciação

Um dia, mal cheguei ao casarão do Portão Vermelho, ainda segura pela mão de minha mãe, Lucinha chamou-me para brincar. Com ares misteriosos, puxou-me para o quintal. Longe dos ouvidos apurados de Leontina fez-me jurar segredo de vida e de morte. Jurei por Deus, por minha mãe, meu pai, meu irmãozinho e até pelo filhote de capivara criado com muitos agrados em nossa casa na fazenda. Um grito de Leontina, vindo da janela da copa, perturbou a solenidade.

– Nada de brincadeiras no barracão, entenderam?

Minha priminha limitou-se a um muxoxo de desdém. Agarrou com força minha mão.

– Vamos logo para o barracão.

Ao ver-me hesitar intimidada pela advertência, deu-me um forte puxão.

– Depressa, sua medrosa.

No barracão mostrou-me Menina, gata das vizinhanças, com seus gatinhos recém-nascidos. De tão embevecida nem vi meu primo chegar.

Lucinha mandou-me sentar. Com hábeis mãozinhas alisou a saia de meu vestido para com muito cuidado ali, sobre meus joelhos, acomodar os recém-nascidos. Segurando Menina nos braços enquanto o irmão ajeitava o ninho, sorria para mim, dentinhos de leite à vista e olhos radiantes de meiguice.

Foi sentindo o calor e a vibração dos corpinhos amontoados em meu colo que pela primeira vez me transportei ao espaço obscuro dos antigos saberes femininos. Perdida entre as sombras da Terra e as sombras da Lua, precocemente intuindo o emaranhado de fios forjados na transparência da invisibilidade, percebendo quão frágil era o tecido e quão tênue a trama da vida, acatei no coração o exemplo modesto de velhas fiandeiras. O esgarçado véu da vida, cerzindo, remendando, com nós invisíveis arrematando, teceria para sempre, com grande devoção.

Com Menina e filhotes devolvidos ao ninho, Fernando segurou um dos recém-nascidos e indicou o cordão umbilical.

– Tio Milton disse que em três ou quatro dias isto vai secar e cair.

Fiquei olhando para aquela tripinha sem saber o que o pensar. Notando minha perplexidade Vera Lucia veio ao meu auxílio.

– É por aí que eles se prendem dentro da barriga da mãe.

Fernando resolveu explicar melhor. Os esclarecimentos que se seguiram foram tão difíceis de dar quanto de receber.

– Tinha uma espécie de pelanca. Era a coisa que grudava dentro da mãe. Quando tudo saía, Menina lambia o filhote e comia a pelanca. Sobrava essa tripinha.

Fiquei boquiaberta. O menino quis saber qual era a dificuldade.

– A prima estava pensando que a cegonha trazia os gatinhos?

– Eu não.

– E os bebês?

– Também não.

– Então, qual é o problema?

– É que eu não sei por onde eles nascem.

Com masculina segurança, Fernando deu ordens à Vera Lucia. Afinal, aquilo era mesmo assunto de mulheres.

– Mostre a ela.

Naquele tempo, eu ainda não ouvira falar na Santíssima Trindade, nem na transubstanciação do pão e do vinho. Portanto, quando minha priminha afastou o rabo da gata e apontou o local exato, o estranho fato de objetos maiores conseguirem transitar por orifícios diminutos configurou-se no mais insofismável de todos os mistérios.

– Não acredito. Só uma formiga passaria espremida por ali.

Os dois desataram a rir. Preocupados com Leontina, tapavam a boca com as mãos e quase sufocavam de tanto riso. Eu olhava para o chão, mortificada. Depois de um momento que durou uma eternidade, meu primo notou meu sofrimento.

– Que bobinha. Está quase chorando.

Pegou-me pela mão. Longe do barracão, mordiscando carambolas meio verdes, voltou a compartilhar seus conhecimentos.

– É uma coisa perfeita. O buraquinho se alarga para o filhote passar. Depois torna a fechar. Entendeu agora?

Eu fazia que sim, mas, insistia impressionada com a espécie de pelanca.

– E a pelanca?

– Menina comeu a pelanca. É da natureza. É coisa natural.

A bizarra informação só fazia por aguçar minha curiosidade.

– Então, é assim que acontece sempre?

A paciência de meu primo não tinha limites. Já ensaiava uma resposta quando as risadinhas da irmã o interromperam. Estranhando a oportunidade da súbita manifestação de bom humor ele a reprimiu imediatamente.

– Está rindo de quê?

– Dela.

– Posso saber por quê?

– A burrinha está achando que a mãe da gente também engoliu aquelas porcarias todas!

Ao invés de admitir a analogia comecei a chorar.

– É mentira, é mentira.

Lucinha arremedou o meu choro.

– É verdade, é verdade.

Parecia um diabinho. Eu quase enxergava os chifrinhos pontudos e o rabinho comprido balançando a ponta de flecha. Antes que a situação piorasse Fernando optou por um recuo estratégico.

– Vamos apanhar umas goiabas.

Pegou minha mão e saiu puxando sem olhar para trás. Ainda usando seus casquinhos de bode, o projetinho de diabo nos seguiu chutando frutas caídas no chão.

Lembrando-se dos gatinhos, apenas com o olhar, Fernando indicou o barracão.

– Não conte para ninguém.

O filhotinho de demônio também parecia saber de coisas que eu ignorava. Apontou o dedinho para meu nariz e, quando falou, fez o sangue gelar em minhas veias.

– Nem um pio, ouviu? Se minha mãe descobrir manda o Berilo jogar no rio.

Por coincidência, no mesmo dia em que fui iniciada nos mistérios da vida, travei conhecimento com a ambiguidade que permeia o caráter cambiante da mentira e a plasticidade indefinida da verdade. Para ajustar minha projeção do mundo a outras tantas realidades, compreendi a importância do silencio e aprendi a calar.

 

Gataria

Não me recordo se algum dia minha tia ficou sabendo da existência dos gatos no barracão. Mas lembro-me bem da ocasião em que, já firmes nas perninhas, se esgueiraram para o quintal. A princípio, cautelosos com o mundo novo a explorar, assustavam-se com tudo e fugiam para os canteiros da horta com os rabinhos arrepiados de pavor. Aos poucos, foram ganhando coragem e finalmente, com grande atrevimento, corriam e saltavam por toda parte, numa folia sem fim.

Ao ver Berilo munido de suas ameaçadoras enxadas ou manejando aquela foice que zunia de tão afiada, meu coração quase parava. Mas o preto velho de fala aveludada acompanhava com olhos mansos as travessuras dos gatinhos. Tanto parecia divertir-se com elas quanto admirava as valentes virtudes da caçadora Menina. Com poucas palavras, mas muita clareza, Lucinha explicou a situação.

– Minha mãe manda. Ele só obedece.

Eu sentia calafrios. Porém, exceto pelos episódios de iodo e cataplasmas nunca fui capaz de estabelecer qualquer ligação entre a terrível mãe à qual Lucinha frequentemente aludia e minha querida titia.

Ao cair da tarde, Menina sumia. Voltava sempre caminhando ligeiro com algum pequeno animal trincado entre os dentes. Quando eram coelhos, ela mantinha a cabeça erguida e os arrastava entre as patas, por debaixo do corpo. Eu ficava dividida entre a pena que sentia por aqueles bichinhos, vítimas inocentes dos instintos de Menina, e a admiração por sua habilidade em descobrir tamanha quantidade de caça absolutamente invisível enquanto viva. Eram preás, ratazanas e enormes cuícas as suas presas favoritas. Uma vez ou outra, aparecia com um sanhaço, e minha prima fazia cara de zanga. De testa franzida, ralhava com Menina.

– Passarinhos não, sua malvada. Se minha mãe souber manda meter você no saco e jogar no rio.

Também aplicava corretivos cuja eficácia jamais comprovei.

– Matou, mas não vai comer.

Tirava à força o pássaro morto dos maxilares fortemente cerradas e ia enterrar bem longe. Menina corria atrás de seus direitos, mas Lucinha não era páreo para ela. Eu observava aquilo tudo e admirava as decisões de minha priminha, mas nem sempre as entendia. Hoje sei que me solidarizava com Menina, porque tanto quanto ela, dentro de meu pequeno coração selvagem, era completamente incapaz de formar qualquer juízo de valor entre a colorida vida de um sanhaço e a furtiva existência de ratos e cuícas.

Conforme cresciam, os filhotes começaram a demonstrar interesse pelo resultado das caçadas maternas. Menina entregava-lhes o bicho já abatido e, deitada feito uma esfinge, assistia sem interferir à disputa que se seguia. Era um tal de puxar pra lá, puxar pra cá e uma rosnação infernal. Os gatinhos não ignoravam que o negócio era fincar os dentes, mas ainda não sabiam direito por onde começar. Na dúvida, distribuíam patadas entre si e ferravam mordidas nas cabeças uns dos outros. Meu primo dava risadas.

– Olhem só as ferinhas!

Quando se cansavam daquilo, Menina pegava a carcaça e em poucos minutos a devorava. Depois de cuidadosa toalete, deitava-se para amamentar. Exausta da peleja com a caça, a família inteira tirava uma boa soneca.

Com o passar dos dias, os filhotes aprenderam a devorar também. Preocupados com Menina exaurida pela amamentação e as caçadas para sustentar aquele bando de esfomeados, Nando e Lucinha começaram a escamotear dentro de casa coisas boas de comer. Os gatinhos gostavam de tudo. Engoliam na mesma hora, com apetite exemplar, qualquer coisa oferecida. Adoravam pelancas de carne, entranhas de peixe, restos de comida, pão com leite e até miolo de abóbora crua. Não recusavam nada. Roíam espigas de milho com imenso prazer. Cresciam a olhos vistos, nada lhes fazia mal. Eram gatos de antigamente, dos bons, muito diferentes desses remelentos de hoje em dia que vomitam charutos de pelo na cama da gente e a cada troca da marca da ração nos agridem vingativamente com vômitos, diarreia e ameaça de desidratação.

Embora os filhotes de Menina fossem todos gatinhos encantadores, um se destacava e cedo atraiu todas as preferências. Era um pimpolho irresistível. Sabia virar as cambalhotas mais engraçadas, e sua imaginação transformava qualquer graveto em brinquedo. Não por acaso foi o primeiro a aparecer rosnando diante de Menina com um minúsculo camundongo apertado entre os dentinhos de leite. A façanha provocou enorme reboliço. Ávidos em arrebatar-lhe o camundongo, seus irmãozinhos uniram-se em esforço bem orquestrado. Atropelando couves e alfaces, aos trambolhões de encontro a repolhos duros que nem pedras derrubaram pimentas malaguetas, destroçaram moitas de hortelã, esmagaram agrião e ervas de cheiro. Um apetitoso aroma de salada temperada com salsinhas e cebolinhas encheu o ar morno da tarde.

Atraídos por nossa algazarra, os adultos da casa acudiram curiosos. Berilo largou o café fresco na cozinha e saiu às pressas em socorro das hortaliças. Vovó e tia Ceci apareceram na varanda. Mamãe e tia Joana – que só tinha dezessete anos – em menos de um minuto já estavam no quintal. Jovens como eram, começaram a rir e a gritar como nós.

Com tanta gente gritando e correndo, era de se esperar que os gatos esquecessem o camundongo. Qual nada! Enxotados por Berilo, retomaram a correria longe dos canteiros. Iam e vinham em galope desenfreado, fechavam curvas entre nossas pernas e quase nos derrubavam no chão.

Afinal, cansado daquilo, sem afrouxar o arrocho em que mantinha o camundongo, nosso bravo gatinho grimpou até aos últimos talos do mamoeiro. Empoleirado na junção das frágeis hastes, rosnando furioso agarrado ao seu troféu, dardejou olhares ameaçadores para baixo. Só então, convencido de sua invulnerabilidade, deliciou-se com o microscópico resultado de sua primeira caçada. Foi assunto rápido.

Tão intrépido filhote, mais tarde metamorfoseado em tremendo e aventureiro gatão, reinou soberano absoluto pelas vizinhanças e no quintal. Briguento, criador de casos, incorrigível marcador de território, exímio abridor de portas e de latas de biscoito, são seus feitos e malfeitos bem reconhecidos, mas sempre muito querido, meigamente atendia pelo doce nome de Catitolindo.

 

lynchdelynch@gmail.com

 

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