Três poderes dos economistas

Três poderes dos economistas

Rubens Penha Cysne, Engenheiro

 

Três pontos importantes para a evolução de economias guardam relação com instrumentos pertencentes à área de atuação dos economistas. Primeiro, instituições estáveis e bem desenhadas são apontadas como cruciais para a inclusão social e desenvolvimento econômico. Segundo, vez ou outra, economias mergulham em crises em função de alavancagens algo exageradas no mercado financeiro. Terceiro, não é raro observarem-se governos agindo de forma míope. Valorizam o câmbio e elevam subsídios, majorando o poder de compra da população e apoio político durante seu período de mandato, para depois deixar a conta para seus sucessores.

A profissão de economista dispõe de poderes (aqui entendidos como “treinamentos específicos capacitadores de uma bem treinada argumentação e mobilização intelectual”) relacionados à construção desses três pontos, quais sejam, prover subsídios ao desenho institucional, regular a alavancagem financeira e fomentar ou reduzir a troca de futuro por presente. Quando bem utilizados, corrigem em parte os problemas apontados acima. Quando mal utilizados, os fomentam.

O primeiro poder, que remete à ideia das instituições subjacentes a um sistema econômico, reside na utilização de instrumentos conceituais que têm o poder de transformar ordens em opções. Chega-se, através de tais opções, desenhadas caso a caso pelo praticante da teoria econômica, a resultados, se não iguais, ao menos bem próximos do resultado original pretendido com a respectiva ordem.

Tomemos, a título de privilegiar a didática, o exemplo da troca de uma mãe administradora que faz um bolo e gosta de equidade entre seus dois filhos imberbes pela mãe economista, com os mesmos atributos culinários, e também conhecedora do forte impacto sobre o ser humano decorrente do conceito de justiça percebida (fairness). Supõe-se, de forma não muito distante da realidade usual, que cada um dos filhos imberbes é desprovido de altruísmo e tenta sempre maximizar o seu próprio ganho.

A mãe administradora dá a ordem direta: dividam o bolo ao meio, e cada um pega a sua parte. A mãe economista, que também objetiva equidade distributiva entre os filhos, percebe a possibilidade de trocar tal ordem por um conjunto de duas opções. A cada um dos dois filhos dá a opção de escolher entre ter a faca que corta o bolo ou escolher a fatia após o corte. Uma vez determinado o resultado da primeira opção, ou seja, quem ficará com a faca, a mãe dá ao segundo filho a opção de escolher o pedaço que será seu.

Cada filho percebe após as opções providas pela mãe economista que, independentemente de quem venha a cortar o bolo, o resultado do jogo será sempre idêntico, cada um ficando com a perfeita metade do mesmo. De fato, aquele que corta preverá que se cortar em partes desiguais ficará com a parte menor, já que será seu irmão que terá o direito, após o corte, de escolher a fatia que melhor lhe convém. Isso posto, corta o bolo em partes iguais, porque se assim não proceder ficará com a parte menor.

Através de tal prática, a mãe economista consegue exatamente o mesmo resultado de equidade entre as partes que obtém a mãe administradora através de um comando direto. Mas troca a ordem “cortem ao meio e cada um fica com a metade” por um conjunto de opções onde se respeitam e exercitam escolhas individuais (o que não acontecia no caso da ordem). A mãe economista usou seus conhecimentos de “desenho de mecanismos” para desenhar opções de forma a obter o resultado desejado.

O exemplo é importante para que se entenda como a profissão de economista pode usar seus conhecimentos para fomentar a formação de instituições que provejam resultados coletivamente desejados. Através do desenho de regras claras, pode-se chegar, respeitando-se escolhas individuais, e não necessariamente através de comandos centralizados (em geral dependentes de insumos provedores de coerção e explicitação de força), a resultados se não iguais, pelo menos próximos.

Boas instituições, daquelas que fomentam o crescimento e o bem-estar econômico, podem ser visualizadas como um conjunto de mecanismos (regras estáveis, respeitadas e bem conhecidas por todos) que levam a ações que favorecem o bem-estar coletivo, ainda que exercidas de forma descentralizada.

Muitas vezes atribuem-se resultados econômicos a indivíduos ou a etnias específicas, quando na verdade parte majoritária dos mesmos decorre do ambiente institucional onde tais indivíduos interagem. Comparações, por exemplo, das colonizações norte e sul americanas são prolíficas nesse sentido. Claro, também, que um outro insumo crucial para a obtenção de boas instituições é o tempo, sem o qual a cultura não se altera.

Um segundo poder dos economistas deriva do fato de ele poder, quando assim o escolhe, trabalhar tendo como insumo estoques, em vez de apenas fluxos (como ocorre em boa parte das profissões liberais). E, ao mesmo tempo, de poder limitar ações sobre estoques através de regulação adequada.

Assumindo-se que alguém com ilimitado poder de ordem sobre estoques possa identificar dois ou mais mercados com preços estáveis e diferentes de um idêntico produto, este poderá alavancar sem limites a sua posição, no caso tentando comprar no mercado com preço a se materializar mais baixo e tentando vender no mercado com preço a se materializar mais alto.

Claro que o processo de arbitragem não é assim tão simples. Em geral envolve apostas sobre evolução futura de preços de mercadorias distantes no tempo e no espaço físico, apostas essas que costumam ser feitas não de forma não ilimitada, mas, pelo menos, digamos, bastante elásticas. Para o bem ou para o mal, perdas e ganhos de cada lado podem ser extremamente elevados.

Como acompanhamos na Crise de 2008, se a regulação econômica não impõe freios a processos de assimetria de informação e azar moral, o acúmulo de ações alavancadas pode levar a resultados coletivos bastante problemáticos. Observe-se que a provisão de regulação faz uso aqui do processo de desenho de mecanismos ao qual nos referimos anteriormente.

Um terceiro poder dos economistas diz respeito à troca que pode sugerir ou simplesmente implementar, entre futuro e presente. Isso pode se dar através de valorizações artificiais da moeda doméstica, de elevação de subsídios ou redução de impostos indiretos. As três políticas conferem ao tempo presente maior poder de compra, evidentemente, deixando a conta para o futuro.

A conta pode chegar através de um passivo externo líquido mais elevado (devido à redução dos saldos da conta corrente do balanço de pagamentos, no caso da valorização cambial), ou através de um endividamento público que precisa ser revertido pelo aumento de impostos.

De forma didática e figurativa, tome um indivíduo X, que possui uma ilha com um único coqueiro. Esse coqueiro lhe provê um coco por dia, que é igual ao seu PIB e igual ao seu consumo. Todos os indivíduos das dez demais ilhas próximas têm ilhas com dez coqueiros que lhes dão dez cocos por dia (um coco por dia para cada coqueiro, sendo que cada indivíduo das demais ilhas tem uma ilha com dez coqueiros). Dada a assimetria de consumo, o indivíduo X é considerado muito pobre nessa sociedade. De fato, todos consumem dez cocos por dia e ele, apenas um.

Um dia o indivíduo X ouve um economista especializado na venda de futuro e compra de presente. Ele sugere ao indivíduo X importar dez cocos, um de cada uma das ilhas com as quais convive. Para isso, ele emite uma dívida de um coco por dia para cada ilha, passando a acumular um passivo externo líquido que aumenta à razão de 10 cocos por dia. Mas, diz-lhe o economista, são apenas papéis com a assinatura dele.

A partir daí, o indivíduo X passa a consumir 11 cocos por dia e todos os demais apenas 9 cocos por dia (10 produzidos na sua ilha menos um exportado para a ilha do indivíduo X). Com a majoração temporária do seu consumo, passando a consumir mais que todos os demais, o indivíduo X passa de muito pobre a rico, e a gozar de grande prestígio local e bem-estar.

Até que um dia os habitantes das demais ilhas começam a desconfiar da capacidade do indivíduo X de honrar suas dívidas. Reduzem suas exportações a zero e passam a cobrar do indivíduo X, mediante persuasão adequada, metade da sua produção diária. O indivíduo X fica com apenas meio coco por dia.

Em suma, o conselho do economista terá feito o indivíduo X passar o seu consumo de 1 para 11 cocos por dia e, a partir desse ponto, a meio coco por dia. Pior, meio coco por um número de dias no mínimo igual a vinte vezes o número de dias que gozou de riqueza e prestígio artificiais. Essa instabilidade no consumo, obviamente, lhe provoca severa perda de bem-estar. Melhor teria sido ficar com um coco o tempo todo.

Vários países passam por processos como esse, nos quais à bonança se segue período estendido de vacas magras. Com forte perda de bem-estar em função da majoração de um ciclo que se quereria suave. Os conselheiros do consumismo fácil, é claro, tendem a proliferar à medida em que se reduz a memória pública.

 

O autor é diretor da Escola Brasileira de Economia e Finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV/EPGE)

rubens.cysne@fgv.br

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