Transgênicos: toda a semente será perdoada

Transgênicos: toda a semente será perdoada

Francisco Linhares, Cientista-biólogo

 

Paleoantropólogos estimam que o Homo sapiens anatomicamente moderno teria surgido cerca de 150.000 anos atrás.2 Durante a grande maioria de sua história, os seres humanos adquiriam seus alimentos por meio da caça de animais selvagens e/ou coletando alimentos a partir de plantas silvestres; esse estilo de vida sendo definido como de caçador-coletor.3 Já a agricultura tem sido praticada esporadicamente por cerca de 10 mil anos e de forma mais estabelecida por cerca de 5/6 mil anos, ou seja apenas 3 por cento da história humana. Embora seja um fenômeno relativamente recente, a agricultura teve profundos efeitos na saúde humana e no crescimento das sociedades. Já a partir de 10.000 a.C., no que é também definida como revolução neolítica, houve uma gradual transição do estilo de vida de caçador-coletor a agricultor-criador, e se acredita que essa transição tenha ocorrido em várias partes do mundo contemporaneamente, especialmente na região do crescente fértil, uma região do Oriente Médio, onde se originaram as primeiras civilizações de que temos conhecimento. Já por volta do ano 5000 a.C., a agricultura era praticada em todos os grandes continentes, exceto Austrália.4

O motivo dessa transição não é bem conhecido, mas o fato mais importante da revolução neolítica é que com o advento da agricultura e o consequente aumento de recursos alimentícios disponíveis, se começaram a criar sociedades complexas e hierarquizadas. Até poucos anos atrás a teoria mais aceita do porquê da formação de sociedades complexas e hierarquizadas era que, com o excedente alimentar, o ser humano teria a possibilidade de se libertar da escravidão da busca contínua por alimentos, permitindo a ele ter mais tempo livre para poder se especializar. Mas uma teoria recente sobre esse tema tem apontado para outras possíveis causas. Segundo Mayshar,5 o que desencadeou a hierarquização societária foi o cultivo de espécies acumuláveis e desapropriáveis, em especial os grãos, e não alimentos em geral. A constatação desse fato deriva das culturas indígenas da América Central, que não chegaram a criar estruturas sociais hierarquizadas, pois cultivavam tubérculos, como a mandioca, os quais, apesar de fornecerem um enorme aporte energético, eram perecíveis e portanto não acumuláveis.

Note-se que essa teoria contempla também as culturas Mayas e Aztecas na categoria dos acumuladores, pois possuíam uma alta especialização agrícola e eram capazes de cultivar alimentos acumuláveis, como milho e outros grãos, além de serem capazes de armazenar e acumular até a batata, por meio de processos de exposição a baixas temperaturas. Segundo essa teoria, o cultivo de alimentos acumuláveis acarretaria riscos de roubo da colheita, por parte de grupos vizinhos, obrigando as sociedades agrícolas a se especializarem em classes de defensores da colheita e classes de produtores de alimentos e seguidamente em organizadores de atividades, até chegarmos aos sistemas hierárquicos teocráticos. O interessante dessa teoria é a demonstração matemática de que a especialização cria um excedente calórico, se comparado com sistemas produtivos não acumuláveis, com a diminuição do risco para a população.

Dessa forma se explica que o sistema hierárquico e especializado foi o mais bem-sucedido na formação de sociedades mais avançadas, porque produz mais com menos, por meio da especialização e hierarquização, que também favoreceria o avanço tecnológico. Simplisticamente, pode-se interpretar que a produção de alimentos acumuláveis leva indiretamente a formação de sociedades complexas e hierarquizadas, enquanto a produção de alimentos não acumuláveis e perecíveis leva a um sistema alimentar anárquico mais distribuído e equitativo, que porém não favorece o avanço do conhecimento, posto que toda a sociedade está sempre diretamente ocupada com a produção de alimentos.5 Portanto fica claro desde a revolução neolítica que o crescimento das sociedades e o avanço tecnológico estão intimamente ligados ao êxito da agricultura especializada.

 

Ciclos alternados de abundância e escassez alimentar

Embora a agricultura seja claramente uma força motriz para o crescimento de civilizações, ela nunca foi uma salvaguarda contra o colapso. Ao longo da história, os sistemas alimentares das sociedades têm alternado tempos de prosperidade e de dificuldades. Ciclos de aumento na produção global de alimentos competiram seguidamente com excessivos crescimentos populacionais, degradação dos recursos naturais, mudanças climáticas, secas, inundações, doenças, guerras e muitas outras forças que, periodicamente, levavam as civilizações novamente à fome.

Como muitos de seus equivalentes modernos, os primeiros agricultores muitas vezes trabalhavam a terra até esgotar o solo fértil. As inovações tecnológicas que surgiram em seguida, tais como a irrigação (cerca de 6000 a.C.), a utilização da tração animal na preparação do solo em conjunção com o arado (cerca de 3000 a.C.) trouxeram ganhos de produtividade e crescimento das populações. Só que isso acontecia muitas vezes agravando as perspectivas de fertilidade do solo a longo prazo, por causa da erosão e outros meios. Em resumo, a máxima camponesa “aquele agricultor que se enriquece muito hoje vai deixar a pobreza nas mãos dos filhos”, valia tanto nos albores das civilizações humanas como nos dias de hoje.

Um exemplo clássico de vulnerabilidade alimentar pode ser dado pelo Império Romano, que, devido à depleção dos solos limítrofes a Roma, ficou dependente de fontes alimentícias cada vez mais distantes, chegando a virem por via marítima até do norte da África. De fato o imperador romano Tibério escreveu: “A própria existência do povo de Roma está diariamente à mercê de ondas incertas e tempestades.” Exatamente como aconteceu na Suméria e na Grécia, o declínio do Império Romano foi auxiliado pelo esgotamento dos solos férteis e pela escassez de alimentos.6

Ao longo dos séculos seguintes o mau tempo, mudanças climáticas e solos degradados diminuíram ciclicamente a produção agrícola que não conseguiria manter o passo do crescimento populacional, o que foi um dos fatores que levaram às guerras, fome e miséria, característicos da idade média.

 

Introdução de novas espécies e distribuição

No século XVII os agricultores europeus tinham já introduzido estratégias agrícolas avançadas para evitar a erosão dos solos como a rotação de culturas, a utilização de estrume animal e outras práticas que melhoravam a fertilidade do solo. Mas exatamente como já tinha ocorrido anteriormente, o crescimento populacional ultrapassava ciclicamente o aumento da oferta de alimentos, deixando grandes segmentos da população em estado de desnutrição. Mesmo assim a população mundial aumentou drasticamente, passando de 550 milhões em 1650 e a 1,2 bilhão em 1850, chegando a atingir 1,65 bilhão por volta de 1900. Esse aumento populacional é muito provavelmente devido à introdução de espécies importadas das Américas, como milho, batata-doce, tomate e batata, que se espalharam rapidamente ao redor do mundo.

De especial importância parece ser a história da batata, que fascinou Charles Darwin em sua expedição à Patagônia, por sua grande adaptabilidade. Charles Darwin escreve em seu livreto de anotações: “é notável que a mesma planta possa ser encontrada tanto nas montanhas estéreis do Chile central, onde não cai uma única gota de água por mais de seis meses, como nas florestas úmidas das ilhas do Sul”.7 A batata é acreditada como a principal causa do aumento populacional que ocorreu na Europa a partir de 1750, devido ao seu alto conteúdo calórico, adaptabilidade, facilidade de cultivo e estocagem. Apesar dela não ser aceita inicialmente pela população geral, a batata teve, desde sua introdução na Europa em 1600, grande importância na alimentação animal, aumentando a produção de porcos da Inglaterra. Somente depois de muita insistência por parte das classes dominantes, que conseguiam enxergar na batata um enorme potencial calórico, ela gradualmente virou o alimento favorito das classes pobres da Europa, após receber o selo de aprovação real por parte de Louis XVI. Muitos pesquisadores indicam a batata até como um fator determinante para o acontecimento da Revolução Industrial, já que a utilização dessa planta aumentou o aporte calórico gerado pelas cidades, quase sem aumento de trabalho, e criando assim as condições para uma parcial liberação de recursos humanos que gerou novas tecnologias e a concentração populacional nas cidades, ambos elementos cruciais para o advento da Revolução Industrial.8

Outros fatores que influenciaram a concentração populacional em cidades, foram o melhoramento de técnicas de processamento para a conservação de alimentos perecíveis e o surgimento de uma rede de ferrovias e rotas de navegação para a distribuição de alimentos. Essas inovações permitiram que os agricultores enviassem seus bens excedentes a distâncias cada vez maiores, modificando assim a relação entre a quantidade de alimentos produzidos localmente e o tamanho das cidades. A partir de 1850, uma parte dos alimentos consumidos na Europa começou a vir dos Estados Unidos, onde um clima favorável, grandes áreas planas com solos férteis permitiram que os agricultores norte-americanos passassem a produzir grande excedente de grãos e, eventualmente, de carne, para suprir grande parte Europa.

 

Revolução Verde e industrialização da agricultura

Os trabalhos desenvolvidos pelo melhorista italiano Nazzareno Strampelli entre 1920 e 1930, que desenvolveu espécies de trigo anãs capazes de aumentar o rendimento agronômico e resistir melhor a pragas, colocaram as bases para a Revolução Verde. A situação mundial pós-guerra era de escassez alimentar, e muitos camponeses encontravam grandes dificuldades em reestabelecer os rendimentos agronômicos pré-bélicos, devido ao empobrecimento dos solos. A partir das espécies criadas por Strampelli, um grupo multidisciplinar de cientistas começou um programa de pesquisa cooperativo para aumentar a produção de trigo no México.9 Por meio da integração do trabalho mecanizado, a utilização em larga escala de tratores movidos a combustíveis fósseis, associado à utilização de inseticidas, herbicidas e fertilizantes químicos e a escolha de espécies mais produtivas, se conseguiu produzir um aumento enorme no rendimento agrícola do trigo, o que converteu rapidamente o México em nação exportadora. Essas metodologias integradas, chamadas conjuntamente de Revolução Verde e que são a base da agricultura moderna, foram exportadas inicialmente para Índia e Paquistão, rendendo similares resultados, e depois para o mundo inteiro. Entre os vários projetos que visavam aumentar o rendimento agronômico mundial, o que foi reconhecido como o idealizador da Revolução Verde foi o projeto capitaneado pelo agrônomo americano Norman Borlaug, que recebeu em 1983 o prêmio Nobel por diminuir a fome e desigualdade no mundo.10

Cabe ressaltar a importância do petróleo como fonte energética barata, para realizar trabalhos mecânicos, tanto de lavoura como de transformação química, importantes na produção de fertilizantes químicos baratos. O excedente da produção de alimentos acumuláveis produziu, por um lado, uma melhora na qualidade de vida ao redor do mundo e, por outro, uma grande industrialização do sistema alimentar. A problemática pós-guerra de alimentar uma população mundial crescente tinha sido vencida pela Revolução Verde. Exatamente como descrito acima sobre as sociedades arcaicas, a abundância de alimentos acumuláveis que a Revolução Verde gerou foi um dos fatores fundamentais para a especialização, aumento da complexidade social e hierarquização, característicos das sociedades modernas, ricas e opulentas que vivenciamos hoje. A saúde pública começou a melhorar notavelmente a partir da diminuição de deficiências alimentares, as cidades começaram a crescer, o bem-estar socioeconômico começou a se espalhar pelo globo, todos, parâmetros que contribuíram enormemente para a formação da sociedade moderna atual.

 

Industrialização e concentração de capitais

Como a produção e processamento de alimentos tornou-se mais especializada, o trabalho tornou-se mais simples e mais rotineiro, permitindo um maior grau de mecanização. A industrialização caracterizada pela especialização, simplificação, mecanização, padronização e consolidação, transformou o fornecimento de alimentos num sistema similar às cadeias de produção. Essas práticas agronômicas favoreceram também a especialização e o estabelecimento de monoculturas em áreas impressionantemente grandes como, por exemplo, o cinturão do milho, conglomerado de regiões agrícolas do interior dos EUA que chegaram a produzir quase 40% da produção mundial de grãos. A produção agrícola tornou-se gradualmente mais dependente dos recursos fabricados fora da fazenda, tais como produtos químicos agrícolas, combustíveis fósseis, fertilizantes sintéticos e grãos elite. Os excedentes de grãos começaram a ser aproveitados para alimentação animal, que conjuntamente a tratamentos com hormônios e antibióticos e atuação das mesmas práticas industrializantes aplicadas à agricultura, conseguiram acelerar o crescimento animal para criar a atual indústria alimentícia de carnes.

A industrialização do sistema alimentar foi tremendamente bem-sucedida em fornecer enormes quantidades de alimentos, com uma quantidade mínima de trabalho, a preços cada vez mais baixos, o que ajudou a controlar a inflação e manter um desenvolvimento econômico sustentado. Com o sistema alimentar tornando-se cada vez mais industrializado, a capacidade de armazenamento e o volume das operações cresceram ainda mais, e os produtos alimentícios passaram de ser bens primários locais a commodities cotadas na bolsa. Porém, uma das tendências mais recentes na história do sistema alimentar tem sido a mudança na direção de uma maior concentração da indústria para um número, a cada dia, menor de empresas, que controlam a maioria do mercado. As condições econômicas estabelecidas pela industrialização do sistema alimentar e a globalização têm tido um papel relevante em amplificar esse efeito, através de processos de integração horizontal, vertical e de globalização.11 Aquisições contínuas, concorrência desleal, campanhas de marketing agressivas e condições favoráveis de financiamento favoreceram o estabelecimento de um sistema agroindustrial emergente, fortemente especializado e concentrado, que controla diferentes etapas da cadeia de produção. Por exemplo, uma única multinacional controla hoje uma grande fatia dos mercados de produção de sementes, pesticidas, fertilizantes, produtos de alimentação animal, estocagem e distribuição de grãos, produção e processamento de carnes avícolas e até indiretamente cadeias de alimentação fast-food.

Tem sido dito que a agricultura dos EUA tornou-se a mais eficiente do mundo, pelo menos em termos de custos em dólares e centavos de produção. Todos esses benefícios aconteceram longe dos olhos da sociedade e do imaginário coletivo, enquanto o foco dos acontecimentos já tinha sido transferido há muito tempo do campo para a cidade. Porém esses benefícios têm trazido custos para a saúde pública, a equidade social, o bem-estar animal e o ambiente natural. Posto que esses custos não são refletidos no preço dos alimentos, eles são chamados de externalidades ou custos ocultos, que hoje estão recaindo sobre a população geral. Outra consequência da especialização e mecanização foi que o campo se esvaziou socioculturalmente, enquanto os pequenos produtores perderam totalmente o controle sobre qualquer componente da cadeia de produção de alimentos, ficando à mercê dos conglomerados alimentícios.12

 

Marketing agroindustrial e imaginário coletivo

A competição entre as diferentes empresas de agrobusiness que começaram a surgir a partir da Revolução Verde foi se acirrando nos anos 70 devido à crise petrolífera, induzindo a integração horizontal e vertical entre empresas. A competição entre empresas que atuavam basicamente no mesmo nível da cadeia de valores (nível horizontal), num mercado de produtos homogêneos como o das commodities, se concentrou em dois pontos; a criação de produtos alimentícios de mais rápida e fácil preparação, que tinha a função de atender um mercado de donas de casa que estavam gradualmente saindo para o mercado de trabalho e que, portanto, tinham menos tempo para acudir às necessidades domésticas familiares e batalhas de marketing e estratégias comerciais. As empresas do setor, para se tornarem os grandes players do mercado, investiram fortemente em campanhas de marketing de produtos e de imagem corporativa, focando a imagem da empresa ou produto não no atual sistema de produção alimentar, mas sim em valores de agricultura tradicional, com relativas imagens bucólicas, fortemente associados ao bem-estar familiar e à saúde. Essa estratégia de marketing, associando uma retórica de valores opostos aos que se praticavam na realidade, obteve muito sucesso. A retórica narrativa de valores tradicionais, puros e naturais para produtos agroindustriais impediram que a realidade da agricultura moderna industrializada chegasse ao imaginário coletivo por muito tempo. Anos de estratégias de marketing ilusórias levaram, porém, a uma quebra de confiança na sociedade que analisaremos mais à frente.

 

Manipulação genética dos alimentos ao longo da história

Um dos principais elementos no êxito mundial de produção de alimentos ao longo da história está ligado à manipulação genética das plantas de interesse alimentar, também chamada de domesticação dos alimentos. A manipulação genética é a modificação dos genes e portanto das características físicas das plantas e pode ser realizada por metodologias de cruzamento clássicas ou mais recentemente por meio de metodologias transgênicas. Essa estratégia foi utilizada pelo homem desde os albores da agricultura. Estudos sobre a evolução e seleção focada, realizada pelo homem, das espécies naturais que hoje utilizamos como alimentos demonstram o quanto o trabalho de manipulação genética levou à melhoria tanto no sabor como no rendimento e tamanho dos alimentos. Por exemplo, se analisarmos o antepassado do milho, um capim chamado Teosinte, existente aproximadamente há 7.000 anos, podemos entender que a planta original tinha muitas ramificações e espigas, com cascas de difícil remoção, grãos pequenos e pobres em fontes calóricas; mas, graças ao processo de domesticação humana, transformou-se no milho atual, muito menos ramificado, com uma única espiga, grande, com muitos grãos, ricos em nutrientes e extremamente mais fáceis de se debulhar.13 O exemplo da banana é ainda mais impressionante, posto que até poucos séculos atrás o fruto originário era pequeno, cheio de sementes e com um sabor ranço. As cenouras da antiguidade eram raízes peludas fibrosas, que apresentavam diferentes colorações, variando do violeta até o branco, e possuíam um sabor muito forte, chegando a ser desagradável para alguns. A berinjela era um fruto pequeno, esbranquiçado e muito amargo. As melancias, ainda no século XVIII, eram cheias de sementes e possuíam pouca polpa vermelha. Por último, vale a pena relatar o exemplo da mandioca, cuja planta originária tem variantes de sabor acre e que é extremamente tóxica, devido a presença de cianetos. A mandioca silvestre, portanto, é um caso de uma planta natural tóxica, que através da manipulação genética se tornou menos tóxica e hoje representa a terceira maior fonte de calorias para as populações da América Central.14

A manipulação genética efetuada por meios clássicos, tais como cruzamento, mutagênese e seleção dos caracteres de interesse, está à base de nosso atual sistema alimentar. O advento dos transgênicos simplesmente modificou a metodologia por meio da qual a manipulação poderia ser realizada, diminuindo o tempo de realização da manipulação e o risco de introdução de caracteres não desejados.

 

Transgênicos e agroindústria

A agroindústria foi sempre fortemente ligada direta e indiretamente ao âmbito acadêmico, mesmo porque este era a fonte onde se buscar o melhor capital humano e tecnológico para crescer e competir em um mercado fortemente especializado e globalizado. Na década de 80, o âmbito de pesquisa acadêmico começaria a desvendar alguns segredos da natureza que permitiriam efetuar o melhoramento genético de forma muito mais focada e rápida. Por meio do estudo de uma bactéria causadora de tumores em plantas (mecanismo totalmente diferente à formação de tumores em animais), chamada Agrobacterium tumefaciens, descobriu-se que essa bactéria era capaz de infectar plantas, transmitindo parte de seu DNA para elas. As plantas infectadas por Agrobacterium reconhecem a informação genética da bactéria como própria, decodificam os genes da bactéria e produzem, como se fossem próprios, os hormônios vegetais que induzem a formação do tumor, além das enzimas necessárias para a biossíntese das opinas, uma especial classe de açúcares que quase somente a Agrobacterium consegue aproveitar. De uma forma elegante e completamente natural, a bactéria não só obtém uma fonte de alimento exclusiva, mas esta acaba sendo produzida em grande escala por todas as células tumorais.

Os cientistas, uma vez descoberto o mecanismo de base, identificaram a região que era transferida estavelmente para o genoma da planta e a esvaziaram dos genes que induziam a formação tumoral e a produção do açúcar, transferindo para essa região genes de resistência a um meio antibiótico e criando o espaço para inserir qualquer outro gene. Os genes de resistência ao antibiótico servem somente para selecionar as células transformadas das não transformadas e não produzem resistências em humanos. A metodologia de transformação de plantas com genes oriundos de outras partes é chamada de transgenia. A indústria se interessou prontamente por essa metodologia, pois além de ser facilmente patenteável, permitia modificar de maneira focada o genoma da planta para introduzir modificações específicas, sem ter que trabalhar através do melhoramento clássico tradicional, que envolvia mutagênese, cruzamentos e integração de porções muito grandes de genoma de plantas diferentes. O mercado das plantas transgênicas chega às prateleiras do mundo ocidental em 1994 com o tomate Savr Flavr, da Calgene. Ao ser o primeiro OGM a chegar ao mercado e ser diretamente comprado pelo consumidor final, o produto teve pouco êxito comercial e foi logo retirado do mercado, devido ao fervor da opinião pública sobre o assunto. Nos anos seguintes muitos novos produtos OGMs foram introduzidos no mercado das commodities, mas os que se fixaram e prosperaram enormemente foram principalmente de dois tipos: os que conferiam resistência a um herbicida específico e os que expressavam um gene tóxico para os insetos.

 

Herbicidas e transgênicos resistentes ao glifosato

A metodologia transgênica de resistência ao herbicida foi criada como estratégia para diminuir a utilização de herbicidas na agricultura moderna. Herbicidas são utilizados massivamente em monoculturas, independentemente que se trate de culturas naturais ou não, porque o crescimento de outras espécies, chamadas daninhas, roubam luz e energia dos cultivos, diminuindo assim o rendimento agronômico. Os herbicidas são compostos químicos que atuam sobre vias fundamentais do crescimento vegetal (e não, animal) impedindo assim seu crescimento e levando à morte essas plantas. Porém, os herbicidas podem ser de tipo seletivo ou de amplo espectro, ou seja, podem matar somente algumas ou diferentes espécies. Na agricultura moderna os herbicidas de amplo espectro são utilizados amplamente antes da semeadura, enquanto os seletivos são utilizados em etapas posteriores e em concentrações específicas para matar seletivamente outras plantas que atrapalhem o crescimento do cultivo de interesse. Mesmo antes da introdução dos transgênicos, a utilização massiva de herbicidas tinha selecionado plantas daninhas que resistiam a certos herbicidas. Os agricultores, portanto, se viram obrigados a utilizar diferentes herbicidas e em quantidades crescentes para manter altos os rendimentos agronômicos, o que incidiu também sobre o custo final do produto.

A metodologia transgênica permitiu criar plantas capazes de resistir a um herbicida específico. O sistema que obteve maior êxito foi o de plantas resistentes ao herbicida glifosato, denominado comercialmente RoundUp, e presente no mercado agrícola desde 1974, com capacidade de matar 76 das 78 pestes que afetavam a lavoura. Além do mais, esse era um dos herbicidas com menor sobrevida e toxicidade para o solo e, portanto, era tido como o herbicida que menos danos ambientais criaria. Por meio da utilização dessas plantas transgênicas, se poderia diminuir o uso de pesticidas, evitando a aplicação pré-semeadura e aplicando uma única vez o herbicida quando as plantas já tinham alcançado um estágio de vida mais avançado, resultando assim numa economia de trabalho e despesas com herbicidas para o agricultor. Em 1996, a Monsanto introduziu no mercado uma variedade de soja transgênica resistente ao glifosato, e a partir daquele momento muitas outras espécies resistentes ao glifosato foram comercializadas. Hoje, 89% do milho, 94% da soja e 89% do algodão produzidos nos EUA são resistentes a esse herbicida.15

 

O gene inseticida de Bacillus thuringiensis

Antes de falar dessa estratégia transgênica, vale a pena ressaltar o potencial nocivo dos insetos na agricultura, posto que a maioria das pessoas que vivem na cidade podem não perceber o problema. Alguns insetos adultos se alimentam de plantas, como por exemplo os gafanhotos, e criam verdadeiras pragas até descritas na Bíblia, mas são especialmente as larvas dos insetos as que causam maiores estragos na lavoura, atacando especificamente os grãos e estruturas reprodutoras, que são o objeto de interesse do agricultor. Especialmente na agricultura moderna, em que a especialização e regionalização levou ao cultivo de monoculturas em áreas de tamanhos equivalentes a países, o manejo dos insetos é de extrema importância para que o rendimento não seja decimado e para que verdadeiras pragas não se formem.

Bacillus thuringiensis (Bt) é uma bactéria descoberta em 1901, que produz uma endotoxina capaz de matar seletivamente alguns tipos de insetos. Estudos feitos seguidamente levaram a utilização dessa bactéria como inseticida biológico, sendo uma prática ainda muito utilizada na agricultura orgânica. Trabalhos de biologia molecular de 1985 individuaram inicialmente os genes responsáveis pela toxicidade, denominados genes cry, e seguidamente as diferentes variantes da endotoxina letal para os insetos, para por último transformar, com esses genes plantas de tabaco como organismo teste. Dados os bons resultados, em 1995 foi aprovada como segura para o consumo humano a batata transgênica para o gene Bt. Essa foi a primeira planta modificada geneticamente pelo homem que produz um pesticida, sendo que muitas plantas produzem pesticidas naturais naturalmente. A batata transgênica não teve muita aceitação pelos mercados e, com o tempo, foi retirada; mas hoje temos que o milho Bt e grande parte do algodão produzido no mundo provêm de plantas transgênicas contendo o gene Bt.

 

Casos de transgênicos de valor social adjunto

Nem todos sabem que existem transgênicos que foram criados para resolver questões socioambientais específicas. Um desses exemplos é o caso do mamão do Hawaii. O Hawaii sempre foi um dos maiores produtores de mamão para o mercado dos EUA, e a introdução de agricultura de escala na plantação de mamoeiros levou ao alastramento do vírus da mancha anelar que decimou a produção de mamão da ilha nos anos 90. Afortunadamente o problema tinha sido individuado, ao tempo em que um grupo de pesquisadores americanos já estava testando a expressão, por transgenia, de uma proteína da capa viral em algumas espécies comerciais do mamão. A planta transgênica, denominada mamão “Rainbow”, ao produzir a proteína viral, criou seu próprio sistema de defesa, num mecanismo parecido com a defesa imunitária de animais. Esse mecanismo levou a planta transgênica a se tornar resistente ao vírus, e sua introdução fez recuperar a agricultura de mamão naquela ilha. Esse é um claro exemplo de como a metodologia transgênica, não difundida por multinacionais, mais sim por institutos de pesquisa financiados publicamente, pode ter valor agregado em questões socioambientais. Outro caso interessante sobre o tema é o do arroz transgênico chamado “Golden Rice”; dessa vez, desenvolvido em conjunção com multinacionais do setor. O arroz natural, que carece de vitamina A, é o principal alimento de uma enorme fatia da população mundial, principalmente no continente asiático, e seu uso como única fonte calórica primária pelas fatias mais pobres da sociedade está associado à cegueira noturna infantil, uma doença responsável pela morte de aproximadamente 670.000 crianças/ano com idade abaixo dos 5 anos. Com o intuito de diminuir essa carência vitamínica, um grupo de pesquisadores introduziu, por via transgênica, genes para a biossíntese do ß-caroteno (precursor de vitamina A) no arroz. O arroz transgênico, que possui uma coloração amarelada devido à presença dos carotenoides e, portanto, é chamado de arroz dourado, foi desenvolvido e distribuído sem fins lucrativos como ferramenta humanitária na prevenção da doença. Mesmo tendo sido cientificamente comprovado que não produz riscos para a saúde e o ambiente, continua sendo hostilizado por pelos movimentos antiglobalização, por motivos que têm mais a ver com a hostilização da concentração de capitais na indústria agroalimentar que por razões de saúde ou ambiental.

 

Estudos científicos sobre os efeitos dos transgênicos baseados em 20 anos de cultivo

Em um estudo recente, feito pela Academia Nacional de Ciências dos EUA, foram revisados inúmeros estudos realizados sobre transgênicos ao redor do mundo ao longo de seus mais de 20 anos de introdução no mercado, trazendo conclusões interessantes.15 Esses dados, que foram analisados por cientistas desvinculados do setor agroindustrial, colocaram as bases sobre as quais efetua-se uma análise profunda sobre aspectos de saúde pública, ecológicos, ambientais, econômicos, sociais e científicos.

Primeiramente, o que ficou evidente a partir desses estudos é que a metodologia das endotoxinas de Bacillus thuringiensis (Bt), trouxe claras vantagens econômicas e de saúde para os agricultores, tanto grandes quanto pequenos, enquanto as plantas transgênicas permitiram diminuir as aplicações de inseticidas, quando comparadas com plantas não transgênicas. As estratégias para evitar a insurgência de resistências contra o Bt, quando aplicadas corretamente, funcionaram em evitar o aparecimento de insetos resistentes às proteínas Cry. No que se refere ao impacto ambiental criado por essa metodologia transgênica, os resultados de diferentes estudos apontam que, nas regiões onde se utilizou essa metodologia, a biodiversidade de insetos era até maior se comparada com regiões onde se utilizavam plantas não transgênicas associadas com a adoção de inseticidas químicos. Por outro lado, os dados sobre a influência de plantas transgênicas sobre a diminuição da população da borboleta monarca são controversos e insuficientes para se afirmar de maneira unívoca algo em prol ou contra essa metodologia, indicando que serão necessárias pesquisas mais aprofundadas a respeito.

Já no que se referem às metodologias transgênicas que levam à resistência ao herbicida glifosato, as conclusões são menos confortantes, já que inicialmente a utilização dessas espécies prometia trazer benefícios, principalmente no que se refere a uma menor utilização de herbicidas. Essa afirmação foi verdadeira nos primeiros anos de cultivo; mas, já após 4 anos de plantação, esses benefícios foram esvaecendo, devido à insurgência de resistências ao glifosato em plantas daninhas, levando os agricultores a terem que aumentar e integrar diferentes herbicidas no cultivo. No que se refere a questões ecológicas, os dados apresentados apontam para níveis similares de biodiversidade em monoculturas transgênicas e não transgênicas, indicando que não há diferenças entre cultivos dessas monoculturas.

No que se refere a questões de saúde pública, os pesquisadores apontaram que muitos dos estudos realizados sobre saúde animal (posto que é eticamente impossível efetuar estudos em humanos) estavam mal feitos, mas que mesmo assim o grosso dos dados apontam com uma razoável confiabilidade o fato de que os transgênicos não têm afetado a saúde humana, pelo menos não mais que plantas provenientes de monoculturas não transgênicas.

Já no que se refere aos impactos socioeconômicos ligados aos transgênicos, esse estudo aponta que diferentes parâmetros, tais como o custo das sementes, o tipo de variedade utilizada para diferentes tipos de solos e diferentes latitudes e climas, geram dificuldades intrínsecas na realização de uma análise adequada. Como é sabido por grande parte da população, diferentes climas e regiões favorecem alguns tipos de cultivos, e outros, não; portanto, uma generalização sobre o tema resulta mais difícil no âmbito mundial, que deveria ser analisado por microrregiões. O que fica claro analisando individualmente algumas microrregiões é que a introdução dos transgênicos trouxe inegáveis vantagens socioeconômicas para algumas determinadas regiões, mas não trouxe vantagens claras para outras.

 

Ativismo e criação de mitos e medos sobre os transgênicos

A partir dos anos 70, com o crescimento da agroindústria e o começo da globalização, houve também a criação das primeiras organizações não governamentais ambientalistas. Com o intuito de combater os problemas da época (energias e bombas atômicas, caças às baleias e aquecimento global, entre outros) os ativistas começaram a fazer campanhas de marketing e ações demonstrativas impactantes para se financiar e chamar a atenção sobre problemas relacionados a globalização e destruição do ambiente. Mesmo tendo, sem dúvida, as melhores intenções, mas devido ao pouco ou nulo embasamento científico, essas organizações nunca surtiram efeitos tangíveis no âmbito legislativo. Por outro lado, por meio de campanhas publicitárias muito bem desenhadas, algumas ONGs conquistaram o coração de uma parte da sociedade mundial preocupada com o destino do planeta, o que permitiu que essas ONGs se transformassem em verdadeiras multinacionais e máquinas de arrecadação de doações.

Com o advento dos transgênicos, também chamados de organismos modificados geneticamente, o foco das campanhas foi modificado para criar o imaginário coletivo de que verdadeiros monstros (Frankenstein Food) estavam sendo engendrados pelas multinacionais agroindustriais. E para corroborar a imagem de alimentos não naturais, foram utilizadas muitas meias verdades ou suposições lógicas sem base científica. Por exemplo, em debates sobre os transgênicos, ainda hoje vêm à tona argumentos vazios como os que os transgênicos são estéreis, e, por isso, os agricultores têm sempre que comprar novas sementes das multinacionais. Primeiramente, no sistema agroindustrial moderno, a maioria dos agricultores já tinha feito a transição para as sementes elite, antes mesmo do advento dos transgênicos, por óbvias razões do maior rendimento agronômico delas. É o caso, por exemplo, dos híbridos vegetais, plantas derivantes do cruzamento entre espécies ligeiramente diferentes, e que ao manterem os dois genomas parentais, integraram as características de ambos, produzindo plantas mais resistentes a pragas e maior rendimento de massa e de grãos.

O problema dos híbridos é que a utilização dos grãos produzidos pelo agricultor, a partir das espécies híbridas, leva à segregação dos caracteres de interesse agronômico, e, portanto, a progênie criada no campo pelo agricultor que as plantou acaba não tendo, na geração seguinte, o mesmo rendimento que comprando às sementes híbridas da agroindústria. É portanto uma questão de rendimento que levou o agricultor a preferir comprar as sementes da indústria, em vez de continuar produzindo suas próprias. Além do mais, apesar de que a tecnologia para a formação de plantas estéreis já existisse (se chamava “Terminator”), esta nunca foi introduzida no mercado. Por outro lado é verdade que o agricultor acaba sendo obrigado a comprar as sementes transgênicas de empresas, não podendo produzi-las por si mesmo, mas isso é porque a estratégia empresarial de venda de sementes transgênicas passa pela assinatura de contratos vinculantes entre agricultor e empresa. Em vista da dificuldade de se vender, no mundo moderno, a ideia de que estratégias de livre mercado sejam prejudiciais ao agricultor, utilizaram-se estratégias de marketing nas que se contava parte da realidade para cativar o doador.

Entre as várias mistificações que ainda se ouvem sobre os transgênicos, outra muito difundida é que os genes de resistência ao antibiótico, introduzidos para selecionar as plantas transgênicas das não transgênicas, poderiam causar a transferência dessa resistência aos humanos ou às suas bactérias intestinais. Estudos científicos desmontaram esse mito completamente; e, para explicar a falácia, utilizarei uma analogia simplística.

É sabido que nós humanos nos alimentamos de matéria orgânica, animal e/ou vegetal, que contem milhões de genes. Se o mecanismo de transferência gênica acontecesse da forma hipotisada pelos antagonistas dos transgênicos, não seria de pensar que outros genes de plantas ou animais seriam transferidos para nosso organismo também? Deveríamos, portanto, estar cheios de genes de plantas e outros animais? E por analogia, cultivos biológicos orgânicos que fazem controle dos insetos por meio da bactéria Bt, não deveriam apresentar o mesmo risco de transferência de genes de bactérias para nós? Existem muitas outras mistificações sobre os transgênicos que foram veiculadas por leigos, e que se revelaram completamente falsas, sem bases científicas e que depois de mais de 20 anos de cultivo massivo de transgênicos ao redor do mundo, não podem mais ser sustentadas. Uma das mistificações mais grosseiras, que deixa clara a pouca seriedade dos argumentos espalhados pelos antagonistas dos transgênicos, é o fato deles tratarem os transgênicos sempre como um todo. O que está claro para cada cientista do ramo é que o risco potencial de cada transgênico reside na produção de um eventual produto tóxico, devido a inserção do transgene. Dado que os diversos transgênicos (Bt, resistência ao glifosato, proteína da capa viral, entre outros) derivam da inserção de diferentes transgenes e, portanto, produzem diferentes produtos, classificá-los todos como tóxicos não tem nenhum sentido científico. Na prática, cada transgênico deve ser considerado como um caso separado, e colocar todos os transgênicos dentro da mesma categoria de frankensteins da natureza é outro erro crasso que, ao ser uma falácia propagandística, nunca foi nem será levada em consideração em qualquer debate regulatório. A propagação de mitos e falsidades não vai diminuir a produção de transgênicos, mas sim acaba tirando o foco da atenção sobre questões agroambientais, enquanto não se colocam na pauta do debate temas reais e importantes. Por exemplo, um estudo recente veiculado pela Abrasco e Fiocruz evidenciou que boa das frutas e verduras (não transgênicas) que chegam a nossa mesa estão excessivamente contaminados por agrotóxicos. Essa prática, possivelmente provocada por excessivo e/ou mau manejo dos agrotóxicos na lavoura, tem efeitos diretos e comprovados na saúde humana e é pouco discutida.

Muitos antagonistas dos transgênicos acreditam firmemente que os cientistas trabalhem a favor das indústrias do agrobusiness, pois imaginam que exista um certo conflito de interesses em falar mal dos transgênicos, mas pelo contrário, é por meio do trabalho científico que tem se entendido a necessidade de regulamentações mais rígidas e extensivas, antes de permitir a introdução de outros produtos transgênicos no mercado. Os eventuais riscos para o ambiente e saúde poderiam ser minimizados ainda mais com regulamentações que exijam análises com metodologias de última geração, tais como genômicas, proteômicas e metabolômicas, mas esses conceitos não são passados pelos antagonistas dos transgênicos para a população leiga, pois a única estratégia é o combate cego e absoluto dos transgênicos. Aliás, todo o argumento da eliminação completa dos transgênicos do mercado, depois de mais de 20 anos de sua introdução, deveria ser repensado, pois claramente não tem surtido efeitos.

 

Discrepância entre dados científicos e campanhas ambientalistas

Um dos quesitos que atualmente mais preocupa os cientistas é por que continua existindo uma parte da sociedade que se obstina em apontar os transgênicos como o grande vilão da agricultura e do ambiente, mesmo existindo um forte corpo de evidências científicas que demonstram o contrário. Em minha opinião, parte da sociedade se sente traída pela industrialização em um de seus valores mais profundos e sagrados, a alimentação. Como escreveu Luneau “a agricultura de atividade, que produz alimentação, se transformou em uma máquina de dinheiro que perdeu completamente de vista tanto o produto como o consumidor. Porém, o ato de comer não pode ser reduzido a uma dimensão comercial”.16

A capacidade de observação não é uma prerrogativa científica e acadêmica, e é normal que existam muitas pessoas que, mesmo sem conseguir definir exatamente os termos da equação, sejam capazes de compreender que algo de errado existe na atual equação alimentar-ambiental. E nisso muitos cientistas concordam, existe um claro problema de como sustentar uma população crescente, com meios de produção renováveis e sustentáveis, e que essa problemática choca com a lógica puramente mercadológica e liberista de nossa época. O advento da internet, que globalizou imagens expondo o atual estado da agricultura moderna, e que se demonstrou ser o exato contrário do imaginário coletivo criado, acabou gerando descrença e desconfiança na ciência e no sistema industrial.

É nesse cenário que algumas ONGs ambientalistas se enraizaram e cresceram até virarem verdadeiras agências propagandísticas, capazes de influenciar a opinião de milhões de pessoas ao redor do mundo. Porém esses movimentos, que se autoproclamaram defensores do planeta, combateram uma batalha inútil contra os transgênicos, baseando seu discurso em grosseiras falsidades, tanto que vários anos de ativismo fervoroso e campanhas de grande impacto não geraram nem resultados ecológicos, nem legislativos. Em um sistema globalizado não sustentável, com uma população em contínuo crescimento, em um planeta de recursos finitos, foi fácil apontar os transgênicos como frankensteins da história. Porém, a falta de informação e, pior ainda, a desinformação praticadas como estratégia de marketing, tanto pelas empresas do agrobusiness, para esconder a ideologia mercadológica que permeia o business agroindustrial, como pelas ONGs ambientalistas, que necessitavam de imagens fortes para cativar a atenção da sociedade sobre um tema que eles mesmos não comprendiam a fundo, criaram simplesmente uma cisão entre a sociedade e a ciência. A estes fatos, some-se uma comunidade científica que sempre teve grandes dificuldades de comunicação, especialmente com a população geral, exatamente por se negar em eliminar variáveis de difícil interpretação e simplificar o discurso, o que nos levou à atual situação paradoxal em que a população acredita em mitos mais que na ciência.

Dentro do panorama atual e complexo de conhecimento, as posições polarizadas expressas pelos dois lados da disputa nos distanciam da realidade dos fatos. Além do mais, tudo indica que ambas as partes conflitantes na disputa pró-contra transgênicos se avaleram da mesma estratégia ilusória para garantir a própria sobrevivência em um mercado de opiniões volúveis. Como muitos experts do setor clamam, o que falta é um pouco de fact checking. Problemas complexos e extremamente interligados como o da equação alimentar-ecologica não podem ser lidos em chaves simplísticas, de matriz somente mercadológica ou antiglobalização, mas deveriam integrar conhecimento profundo dos fatos, multidisciplinariedade e imparcialidade. Nesse sentido, o mundo acadêmico e o científico representam, através da análise científica, a melhor maneira de entender os paradigmas da atualidade.

É importante frisar que mais que as discussões entre cientistas, é o conhecimento que a sociedade possui sobre um tema que pode exercer pressão sobre os legisladores para criar novas legislações, assim que fica evidente que ações propagandísticas como, por exemplo, a destruição de campos de transgênicos experimentais de algumas empresas, não produzem nenhum efeito concreto no aspecto regulatório, mas acabam desviando o foco das atenções sobre os problemas reais. A tão aclamada sustentabilidade passa por uma agricultura moderna, especializada, mas renovável, que devolva protagonismo aos agricultores, por meio de um sistema capitalista de valores reais e que preze a saúde humana levando em consideração o fator ambiental.

 

Olhando para o futuro

Os últimos 30 anos se caracterizaram por um enorme avanço de conhecimento biológico básico e de tecnologia aplicada. Dados científicos apontam que existe ainda ulterior potencial para a manipulação gênica, especialmente se realizada com instrumentos mais precisos. As pesquisas realizadas nas últimas três décadas sobre temas de fisiologia e genética vegetal nos permitem olhar para o futuro com um pouco de esperança. Exemplos como a ativação de mecanismos de resposta natural à seca, resistência à alta salinidade e indução de interação entre fungos micorrízicos e espécies vegetais que normalmente não atuam esse tipo de simbiose podem realmente mudar o panorama mundial de produção de alimentos.

Nos próximos anos assistiremos inevitavelmente à introdução de várias novas tecnologias que dificultarão ainda mais a diferenciação entre plantas OGM e plantas naturais; portanto, devemos analisar com cuidado o corpo de evidências que acumulamos nas últimas décadas, tanto sobre os sistemas produtivos da agricultura moderna como sobre os transgênicos, para aprender com os erros cometidos. O próprio conceito do que é definível como natural é extremamente complexo e representa uma negação do passado de domesticação dos alimentos que consumimos. Ao longo dos últimos 10.000 anos, os sistemas alimentares do mundo têm sofrido enormes mudanças. O sistema industrializado verticístico atual representa apenas um breve momento no longo período da história humana, até mesmo a agricultura é um fenômeno relativamente recente. As muitas transformações do sistema alimentar ao longo do tempo nos devem lembrar que a forma atual não está necessariamente aqui para ficar, nem nós necessariamente desejamos que ele permaneça inalterado. A compreensão de como o sistema atual veio a ser estabelecido deve ser levado em consideração para analisarmos os pontos fortes e externalidades por ele criadas. Somente assim seremos capazes de transformar o declíno do sistema alimentar que as externalidades de nossa agricultura moderna criaram em uma revolução verde 2.0 e evitar uma nova idade média.

 

O autor é professor de Biologia do Desenvolvimento Vegetal no Centro de Energia Nuclear na Agricultura/USP

francisco.scaglia@gmail.com

 

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