Sudão do Sul

Sudão do Sul

Alexandre dos Santos, Jornalista

 

Aconteceu no dia 9 de julho de 2011. Acompanhei daqui o que acontecia lá em Juba, a capital do mais recente país a nascer no planeta, com um misto de satisfação, incredulidade e inegável esperança. Foi um nascimento cheio de pompas e circunstâncias, com festas nas ruas. Todos orgulhosos de um bebê que já nasceu crescido, repleto de responsabilidades e expectativas e já desfraldado. Aliás, sem ter tido a chance de promover um chá de fraldas ou de poder usá-las antes da estreia efetiva no mundo dos adultos.

 

O Sudão do Sul nasceu. O 52º país africano a se tornar independente desde a libertação do Gana, em 1957. Uso 52 – e não 54 – porque Etiópia e Libéria estão de fora dessa conta, pois, no fim do século XIX (entre novembro de 1884 e fevereiro de 1885), ficaram de fora das discussões a respeito das regras de ocupação das potências coloniais no continente africano. Esse fato ficou conhecido como Conferência de Berlim e ganhou um lugar de destaque na História porque as charges e desenhos publicados nos periódicos europeus da época refletiram a ideia de que o continente – do Saara para baixo – estava sendo fatiado e entregue aos representantes dos impérios europeus como um pedaço de bolo confeitado. A tal “partilha da África” – pelo menos aquela que se imagina feita com régua e compasso por homens ávidos por um naco de terra e debruçados por cima de um mapa da África, sob os olhos vigilantes do kaiser alemão Otto von Bismarck – nunca aconteceu. Pelo menos não dessa maneira. O encontro em Berlim, que se estendeu por cerca de três meses, reuniu, majoritariamente, representantes de segundo e terceiro escalões dos seus respectivos governos.

Nascido exatos 126 anos depois do fim da Conferência de Berlim, o Sudão do Sul conta com a indulgência do pai severo, o Sudão (do Norte), presidido há pelo menos 22 anos pelo homem-forte Omar Hassan Ahmad al-Bashir, recentemente reconduzido ao cargo nas primeiras eleições multipartidárias do país, em 2010. O presidente recebeu 68% dos votos num pleito contestado pelos pouquíssimos observadores internacionais que a acompanham.

Al-Bashir é o mais recente governante de uma linha sucessória de golpes de Estado que ocorreram no Sudão desde 1964. Dos que ainda estão no poder depois dos sopros da Primavera Árabe (que, até agora, derrubaram Ben Ali, Mubarak e Kadafi) é ele quem mais tem “experiência empírica” com a abrangência de levantes populares. Já viu um pouco de tudo. Testemunhou a “revolução de outubro” sudanesa, de 1964, que puxou o tapete do general Ibrahim Abboud e da primeira das ditaduras militares sudanesas. Tempos depois, viu Jafar Numeiri cair do trono em 1985, enquanto fazia uma visita aos EUA. Nas duas ocasiões os golpes militares tiveram apoio das classes política, intelectual e popular.

Numeiri, inclusive, perdeu a sua base de apoio ao trair os acordos feitos com os insurgentes do Sul, com quem Cartum já vinha se envolvendo em combates desde 1955, um ano antes da independência. Essa primeira fase da guerra civil com o Sul se estendeu até 1971, quando foi interrompido pelas promessas de Numeiri de autonomia à região. A lua de mel já havia azedado em fins da década de 1970, mas o reinício da guerra entre Sul e Norte recomeçaria em 1983, ano em que Jafar Numeiri impôs a Sharia (Lei islâmica) a todo o país, inclusive sobre o Sul cristão e animista. O reacender das brasas do conflito, depois de quase 11 anos de trégua, foi um dos motivos que levaram à derrubada do governo.

A bem da verdade, as duas regiões sempre representaram realidades sociais, políticas e econômicas distintas e foram forçadas a forjar um país único tanto pelo interesse dos egípcios em exercer influência e controle políticos e econômicos sobre o novo país quanto pela falta de maiores ambições dos britânicos. O Sudão já era administrado por um “condomínio anglo-egípcio”, tendo as partes Norte e Sul tão independentes que era necessário o uso de passaporte para atravessar de uma e outra. No Sul falava-se – e ainda se fala – o inglês como língua franca (agora oficial), além dos dialetos locais. No Norte, o árabe e o islã se mantêm até hoje como língua e religião oficiais. No Sul, os pouco mais de 30% de católicos dividem suas crenças religiosas com as diversas manifestações animistas.

Em 1943, as autoridades britânicas iniciaram a preparação para o processo de independência, de forma distinta para cada parte, sendo pressionados por representantes de várias correntes políticas: a dos que defendiam uma união com o Egito e criando um super-Estado, mantendo os antiquíssimos laços históricos entre os dois países; a dos que defendiam a independência per si; a da elite política e intelectual muçulmana de Cartum, que desejava manter o poder que já usufruíam e exercer poder político sobre um novo país independente; e os defensores da divisão, mantendo a ideia original dos ingleses de criar duas regiões administrativas e, consequentemente, dois países. A partir de 1947 os britânicos se decidem pela independência integrada. Os conflitos saem do plano ideológico e partem para as ações organizadas. Ganham força e, mesmo com a “garantia” de que a autodeterminação seria concedida, em 1956, a um Estado laico, os conflitos se iniciam um ano antes.

A segunda guerra civil entre Sul e Norte aconteceu entre 1983 e 2005. Foi nesse cenário que surgiu Omar al-Bashir, que, apoiado pelos correligionários das Forças Armadas do Sudão, derrubou o governo democrático de Sadiq al-Mahdi, em 1989. Na época al-Bashir já tinha experiência na liderança das tropas sudanesas contra o Exército Popular de Libertação do Sudão (SPLA, no acrônimo em inglês). Após um curto período no qual exerceu o poder amparado por um Conselho de Comando da Revolução, ele logo diria a que veio. Em 1993 autoproclamou-se presidente e comandante das Forças Armadas. A partir daí, vem se reelegendo em pleitos amplamente criticados pela comunidade internacional. O último deles, justamente o de 2010.

Foi durante a primeira metade dos anos 1990 que Osama bin Laden estabeleceu no Sudão – sob os beneplácitos de al-Bashir – as bases para a criação da futura al-Qaeda. Depois de apoiar um atentado malsucedido contra Hosni Mubarak, já presidente do Egito desde 1981, Bin Laden por pouco não foi extraditado para o seu país natal, a Arábia Saudita. Não faltaram pressões e tentativas de acordo entre os representantes de Bill Clinton (EUA) e de al-Bashir com a família real saudita. Porém, a impossibilidade do acordo fez com que Osama e seus correligionários fossem expulsos para o Afeganistão em 1996. Foi lá que a Qaeda planejou os atentados (desta vez bem-sucedidos) contra as embaixadas norte-americanas na Tanzânia e no Quênia (ambas em 1998) e contra o contratorpedeiro USS Cole, no litoral do Iêmem, em 2000.

Fazul Abdullah Muhammad, colaborador de Bin Laden e um dos organizadores dos ataques de 98, ainda era um dos terroristas mais procurados do mundo – cabeça da Qaeda na região do chifre da África, e talvez o mais influente líder dentro da Shabab (a organização islâmica que controla, hoje, mais da metade da Somália pelo terror e impondo uma visão estreita e distorcida da sharia) – quando foi morto no início de junho de 2011 por soldados do Governo de Transição somali. A morte dele aconteceu um mês depois de Bin Laden ser abatido no esconderijo em Abbottabad, no Paquistão.

A instauração da ditadura sudanesa, em 1993, e a associação – feita pela comunidade internacional e pelos governos vizinhos – da figura de al-Bashir com o islã radical, mesmo depois da expulsão de Bin Laden em 1996, forçaram uma mudança no modus operandi do presidente sudanês. Havia muitos olhares de soslaio. Hay que enternecerse pero sin perder la dureza jamás!

Internamente a oposição também se organizava. Um grupo de 13 partidos políticos – entre eles o Movimento Popular de Libertação do Sudão (SPLM, no acrônimo em inglês), braço político do Exército Popular de Libertação do Sudão (SPLA, em inglês), principais organizações de luta pela independência do Sul – criaram a Aliança Democrática Nacional (NDA), que, desde o golpe de 1989, promoveu as idas e vindas do debate político interno. Entre julho de 2002 e dezembro de 2004, uma série de acordos e protocolos foram assinados entre o próprio al-Bashir, John Garang (o principal líder do SPLA) e seus representantes, abrindo caminho para que, em janeiro de 2005, o Acordo de Paz Global (ou Acordo de Naivasha, uma cidade do Quênia) fosse firmado, encerrando um total de 37 anos de conflitos, com mais de 1,5 milhão de mortos.

 

É quase irônico pensar que, ao encerrar o capítulo da mais extensa guerra civil do continente africano e no momento em que colhia os frutos desse acordo de paz, al-Bashir tenha se visto jogado dentro de outra crise que havia surgido em 2003 e vinha se agravando desde então. As populações nômades do ocidente sudanês entravam em conflitos cada vez mais recorrentes e sangrentos com as populações sedentárias. Dentro desse velho e secular conflito entre pastores e agricultores de Darfur, outrora um califado importante porém relegado ao esquecimento e à marginalização pelo poder político de Cartum, al-Bashir se viu novamente no centro das atenções da mídia internacional ao ser acusado de armar e dar apoio às milícias janjaweed (os “árabes”) contra a população não árabe (os “negros”) da região. Um conflito que até agora já teria deixado milhares de mortos. Na falta de um número oficial ou minimamente confiável, o total varia de acordo com o freguês: indo de menos de 40 mil mortos (números divulgados a fórceps pelo governo norte-sudanês) a mais de 600 mil, números calculados pelas ONGs que atuam fora das fronteiras do Sudão, principalmente no vizinho Chade, recebendo e assistindo os refugiados do conflito, que já passaram dos dois milhões.

O prolongamento do conflito em Darfur e os indícios do envolvimento de Cartum no apoio à perseguições étnicas, extermínios e práticas genocidas na região, renderam a al-Bashir mais uma coroa. Em 2009 o presidente do Sudão se tornou o primeiro chefe de Estado no exercício do poder a ter prisão decretada pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) por crimes de guerra e contra a Humanidade. O mandado de prisão ainda está válido, por sinal.

Em 9 de julho de 2011 o mesmo Omar Hassan Ahmad al-Bashir participava, na cidade de Juba, das cerimônias e festas comemorativas pela criação do Sudão do Sul. O novo país, fruto direto de suas negociações dele com John Garang, tornou-se independente após um referendo no qual 98% dos cidadãos do Sul optaram pela secessão.

Porém, John Garang de Mabior, menino pobre do Sul, teve sorte de ganhar ajuda para começar seus estudos em Economia nos EUA e terminar na Tanzânia, não viveu para testemunhar o momento histórico. Em janeiro de 2005, como parte do acordo de paz com Cartum, o carismático líder do SPLA assumiu a Presidência do Sul semiautônomo, cumulativa com a vice-Presidência do Sudão, mas ficou pouquíssimo tempo no cargo. Garang morreria em um acidente de helicóptero no fim de julho. Coube a seu segundo em comando, Salva Kiir, um dos fundadores do SPLA, a tarefa política e diplomática de assumir os dois cargos e dirigir com cuidado redobrado o processo de independência do país. Sempre acompanhado de seu indefectível chapéu de caubói e sob a vigilância serrada de al-Bashir.

No dia 14 de agosto de 2011 o vice-presidente do novo país africano, Rick Machar, esteve na sede da ONU para a cerimônia de hasteamento da bandeira do 193º integrante da organização. Prometeu trabalhar pela paz, deixando para trás um passado de opressão exercida pelo Norte. Em seu primeiro discurso frente à Assembleia Geral, Machar exortou o diálogo e a cooperação e garantiu que o Sudão do Norte e o do Sul não entrarão em guerra (promessas que, por enquanto, e levando-se em consideração o histórico da região, não significam muita coisa além de boas intensões). Mas a aparente disposição dos sul-sudaneses em trabalhar pela paz é um alento para os olhos das Nações Unidas. Afinal, a região da qual o novo país faz parte é uma das mais belicosas, instáveis e perigosas do planeta.

Uma das aparentes vitórias para a paz e a estabilidade regionais é o corte, ao menos geograficamente, das ligações entre Cartum e o Exército de Libertação do Senhor. Grupo terrorista liderado pelo messiânico Joseph Kony, que alega ter contato direto com o Espírito Santo. Desde 1987 Kony vem usando a desculpa de combater o governo de Uganda e o presidente Yoweri Museveni, para tentar construir a mais extensa folha corrida de violações contra os direitos humanos no planeta: assassinatos, mutilações, escravizações, sequestro de crianças para treinamento paramilitar, estupros, torturas… Com os vazamentos dos telegramas diplomáticos norte-americanos pelo Wikileaks, “descobriu-se” o que todos já sabiam: que o governo de Uganda tinha indícios mais do que contundentes de que al-Bashir financiava a longevidade do movimento de Kony para enfraquecer o governo de Museveni, seu desafeto.

 

A possível existência de uma presença moderadora na diplomacia regional talvez incuta um pouco mais de discernimento para a resolução de um problema com mais de 20 anos. Desde a derrubada do ditador Mohammed Siad Barre, em 1991, a Somália vive fraturada por diversos grupos armados que se revezam no controle das principais regiões do território sem efetivamente formar um governo coerente. Pior, invariavelmente exercem poder e controle sobre as populações por meio do terror. A ONU, por sua vez, insiste na mesma tecla: forma governos interinos sem qualquer legitimidade e sem a menor possiblidade de exercer qualquer tipo de controle político, econômico ou militar que não o figurativo. Prova da ineficácia e fragilidade do governo “oficial” da Somália foi a decisão, em 2006, de transferir a gabinete da Presidência e ministérios para a cidade de Baidoa, a mais de 250 quilômetros de distância da capital. O motivo? Mogadíscio era perigosa demais.

Ao mesmo tempo em que insiste na criação e na manutenção de um governo de fachada comprovadamente inóquo (essa insistiência já dura ao menos 18 anos) que mais se parece com um condomínio fechado, cercado de guaritas e seguranças cedidos pela União Africana, as mesmas Nações Unidas negam o reconhecimento à Somalilândia, no noroeste, que se tornou independente em 1991, ao mesmo tempo em que restante da Somália mergulhava no mesmo caos em que continua até hoje. Os clãs envolvidos no resgate da autonomia dessa parte do território somali – que havia sido colônia dos britânicos – resgataram um instrumento cultural próprio utilizado na resolução de conflitos, superaram divergências, construíram uma ilha de relativa paz e estabilidade que vem passando por sucessivos processos democráticos legítimos na escolha de seus líderes. É um país com todas as letras, pobre, mas plenamente funcional e estável. Porém, vive à margem do sistema internacional porque a ONU se recusa a reconhecê-lo. A independência do Sudão do Sul trouxe um sopro de esperanças para o presidente da Somalilândia, Ahmed Mohamed Silanyo, eleito em 2010, que acusa as Nações Unidas de defender a herança mais retrógrada do período neocolonial: o dogma de que as fronteiras africanas têm que respeitar os desenhos traçados durante os anos em que as administrações coloniais foram sendo implementadas.

Mas a Somália ainda representa um desafio maior para a nova diplomacia sul-sudanesa, já que, por estar há quase duas décadas sem um governo efetivo, o país se tornou o paraíso dos traficantes de armas e drogas. Mogadíscio e seus subúrbios viraram sinônimo do mais completo mercado negro de todo o norte da África e Oriente Médio. Foi lá que há alguns anos o repórter Simon Reeve, da BBC, comprou um passaporte diplomático somali e, em menos de 15 minutos, saiu da cidade como representante do governo e partiu para a Somalilândia com sua escolta de seguranças (imprescindível naquele lugar) e sua “imunidade diplomática” garantida, pelo menos em teoria. Toda a aventura foi documentada e fez parte de uma série de cinco episódios chamada “Places That Don’t Exist” (Lugares Que Não Existem), que foi a ar pela BBC em 2005 e está ao alcance de uma busca no You Tube. Como toda terra sem lei, a Somália também se tornou a melhor colônia de férias para o treinamento terrorista do planeta. Professores não faltam. Escolas também não. E é no seu litoral que há pouco mais de 15 anos acontecem os mais ousados e atualmente mais rumorosos ataques piratas de que se tem notícia.

Parece pouco? Tem mais. A região também abriga um dos dilemas de segurança mais difíceis de se lidar no continente: a escalada armamentista entre Etiópia e Eritreia. Esta última foi entregue à administração etíope pelos controladores ingleses, em 1952, que, por sua vez, a receberam para tutelagem depois que italianos (que estavam lá desde o início do século XX) foram derrotados na II Guerra. Ironicamente, a mão pesada da administração italiana legou ao povo eritreu um sentimento de identidade nacional que se fortaleceu quando, ao deixar a região, a Inglaterra passou a “soberania” da area para os etíopes. O concubinato forçado forjou a golpes de bigorna a “nacionalidade eritreia”, que se refletiu numa guerra civil que terminou apenas em 1991.

O referendo que decidiu pela independência do Sudão do Sul nada mais foi do que uma repetição da experiência bem-sucedida realizada na Eritreia. Os eritreus votaram pela sua secessão em meados de 1993, tornando-se o primeiro país africano nascido da separação de outro país soberano desde o processo de descolonização no continente.

As discussões sobre a inspiração que a independência do Sudão do Sul pode dar aos movimentos separatistas africanos nada mais são do que um retorno aos mesmos pontos explorados com muito mais apreensão e veemência na época em que se decidiu pela autonomia da Eritreia. As discussões de 1993 tentavam exumar, principalmente, dois dos mais aterradores fantasmas dos anos 60: a tentativa de separação da rica província do Katanga, na atual República Democrática do Congo – logo depois da independência do país – e a declaração unilateral de independência da República do Biafra, região dos ibos no sudeste da Nigéria, que se transformou numa das mais escandalosas situações de emergência humanitária já vistas até então. Acreditava-se também que a Eritreia serviria como fonte de inspiração para outros movimentos separatistas que já perdiam fôlego no início dos anos 90, como a Flec, a Frente de Libertação do Enclave de Cabinda, em Angola, e o MFDC, o Movimento das Forças Democráticas da Casamansa, no sul do Senegal.

 

Durante a década de 90 esses fantasmas foram se desvanecendo aos poucos. Ensaiaram um retorno por agora, mas voltam rapidamente aos seus túmulos. As discussões de hoje têm outro vulto. As revoluções populares no Norte e os ataques terroristas nos moldes do cometido pelo Boko Haram contra a representação da ONU na Nigéria são as preocupações mais prementes.

A maior lição que o Sudão do Sul tem a aprender com a independência da Eritreia é justamente com relação à definição das fronteiras. A separação entre eritreus e etíopes subiu rapidamente na escala do ódio por causa de uma simples e poeirenta cidade chamada Badme e da região de mesmo nome. A falta de qualquer tipo de preocupação oficial na hora de definir o traçado entre os dois países – ou de uma decisão efetiva a respeito do status de algumas áreas desérticas – bastou para que Badme se tornasse, além do centro de uma disputa insana por um naco de terra inóspito, o pivô das acusações, cada vez mais irascíveis, de invasão e desrespeito à soberania por ambos os lados. A escalada armamentista e a violência nessas regiões sob disputa se tornaram insustentáveis a ponto de a ONU interferir localmente, em 2000, para tentar dar fim ao impasse. O Conselho de Segurança impôs um embargo de venda de armas ao governo eriteu, que reagiu rompendo relações com o governo etíope, o qual acusou de ser protegido por Washington e pelo ocidente. Não satisfeito, em 2007 o governo de Asmara também cortou relações com todos os países vizinhos e retirou-se formalmente do bloco regional chamado de Autoridade Intergovernamental para o Desenvolvimento (Igad), criado em 1986 e composto por Djibuti, Etiópia, Quênia, Somália, Sudão e Uganda.

Acusado formalmente pela ONU de financiar e armar a Shabab (o grupo que atualmente controla as regiões Centro-Sul da Somália), o governo da Eritreia se enxerga e se vende como um primo pobre e perseguido. Vive uma mania de perseguição tão profunda que beira a antiga paranóia da Guerra Fria. Cercada de inimigos reais e imaginários, a elite política eritreia se protege contra espiões, sabotadores e falsos filantropos da maneira que mais facilmente lhe convém e lhe dá alívio psicológico: perseguindo e punindo sua própria população. O atual presidente, Isaias Afewerki, vem tentando, até agora em vão, inverter o isolacionismo esquizofrênico do país garantindo aos vizinhos que as mais básicas liberdades civis de seus cidadãos estão garantidas e que os milhares de refugiados eritreus, que diariamente chegam ao Sudão, são espiões, colaboradores dos inimigos, conspiradores etc.

A falta de um traçado específico em trechos de algumas áreas fronteiriças entre os Sudões já se descortina como a típica negligência de ocasião com potencial para se transformar em conflitos mais sérios. Essa é exatamente a situação da cidade de Abyei, que também fica numa região disputada entre os dois países. Alguma semelhança com Badme? Pois aqui a história tem altíssimas chances de se repetir. E não como farsa. Ainda mais se levarmos em consideração que Abyei é uma importante cidade produtora de petróleo, além de possuir reservas de água importantes para a região semidesértica do entorno, e que seu status já deveria ter sido decidido, num segundo referendo, na mesma data em que se decidiu pela emancipação do Sudão do Sul. O referendo de Abyei não aconteceu. Tropas do Norte e do Sul disputam a cidade e o temor é de que o plebiscito de Abyei venha a ser postergado ad inifinitum, fazendo da cidade e de toda a região do Cordofã do Sul uma ferida aberta cada vez mais supurenta. Por enquanto, qualquer tipo de conflito local está sendo evitado pela a presença dos capacetes azuis, que conseguiram manter as tropas de cada um dos lados numa distância além dos limites suburbanos da cidade.

Os contratos de extração e transporte do petróleo também são pontas soltas que precisam ser resolvidas pelo novo país e seu antigo padrasto. Cerca de 75% das reservas petrolíferas ficam no Sudão do Sul, porém todos os oleodutos são de propriedade do Norte e escoam 100% da produção para a cidade de Porto Sudão, no Mar Vermelho, área do Sudão do Norte. De lá o petróleo é embarcado em navios chineses, que cuidam do escoamento da produção sudanesa de maneira tão eficiente quanto os metais preciosos brasileiros seguiam para a Grã-Bretanha, depois de um rápido pit stop em portos portugueses, durante o século XVIII.

O acordo feito entre os dois países – ainda provisório e carente de uma definição mais completa – define a divisão equânime dos lucros da exploração e do transporte do petróleo entre os dois. Uma discussão a respeito de “royalties”, da maneira como temos visto acontecer aqui no Brasil, é simplesmente inimaginável no caso dos Sudões.

 

Vale lembrar que também há ainda diversas questões ecológicas, pouco reveladas pelos documentos oficiais apresentados até agora e carecendo de atenção da mídia, que podem se tornar questões estratégicas mais sérias e focos de tensão. Os recursos hídricos representados pelo Nilo Branco, um dos dois principais formadores do Rio Nilo, são importantíssimos para a integração e agricultura do Sudão do Sul. Além disso, tem importância estratégica como rio de integração, já que desce do Uganda, atravessa o Sudão do Sul, segue pelo Sudão até se encontrar com o Nilo Azul, na capital Cartum, e de lá, já como Rio Nilo, segue Egito adentro até o famoso delta que desemboca no Mediterrâneo. É no Sudão do Norte e no Egito que o Nilo se torna importantíssimo por prover as principais áreas de agricultura nas suas margens alagáveis.

É curioso notar que o respeito pelos acordos firmados entre Omar al-Bashir e John Garang, que culminaram pela escolha democrática da secessão sul-sudanesa, ofuscaram e relegaram ao esquecimento uma outra manifestação popular diametralmente oposta. Há pouco mais de um ano, cresce entre os basotos a influência do Movimento Constitucional Popular do Lesoto. Ao contrario do Sudão do Sul, a população desse pequeno país de dois milhões de habitantes (um terço deles HIV positivos) pressiona o governo da África do Sul (país que o cerca totalmente) a anexá-lo como a 10ª província sul-africana. O movimento, cada vez mais organizado, luta contra a incapacidade de seu próprio governo em lidar com problemas internos – como a estagnação da economia, a baixa expectativa de vida (38 anos) por causa da AIDS e a grande quantidade de órfãos do HIV – da maneira mais eficaz que encontraram: um abaixo-assinado nacional exige que o rei Letsie III e o presidente sul-africano Jacob Zuma entrem num acordo político e econômico para a integração do Lesoto. Na proposta do PCM o rei manteria seu poder figurativo, como uma espécie de governador, da mesma maneira que os reis Zulu e Xhosa mantêm seus status regionais na África do Sul.

Estabilidades econômica, política e social são o objetivo de qualquer país, seja em que continente estiver. Para alguns o desafio é maior. Para um país recém-nascido, o desafio parece ainda mais hercúleo. O Sudão do Sul, maior do que Espanha e Portugal juntos, nasce com uma população estimada entre oito e 10 milhões de pessoas e uma situação econômica das mais calamitosas do mundo. Quase 90% das crianças com menos de 13 anos estão fora das (poucas) escolas e a taxa de analfabetismo atinge 85% das mulheres. Essa é a herança mais evidente dos anos de guerra civil e das políticas excludentes da antiga capital do Norte árabe para com as populações cristãs e animistas do Sul.

O governo foi dividido entre os dois principais grupos étnicos do Sul. O presidente Salva Kiir, um típico dinka e cristão fervoroso, divide o poder com o vice-presidente Riek Machar, um nuer. Além de nueres e dinkas, xiluques e baris também compõem os quatro principais grupos do Sul.

 

Algumas rivalidades locais antigas ainda se mantêm candentes, mas o novo governo de Kiir vem conseguindo manter os ânimos pouco exaltados. Ao todo, sete grupos rebeldes ainda estão ativos no Sudão do Sul. Por conta disso, muitas empresas de segurança particular encontraram ali um mercado ávido. As possibilidades de emprego na área de segurança parecem infinitas com tantas demandas: presidência, ministérios, empregados da construção civil – responsáveis pelas obras das futuras embaixadas em Juba – representantes diplomáticos e de empresas privadas etc.

Os jornais que circulam, ao menos na capital, prometem uma situação de liberdade de informação que, se for confirmada e mantida nos próximos anos, fará do Sudão do Sul um estranho na região centro-noroeste do continente. Os principais veículos são o Juba Post, jornal diário em circulação na capital, e a rádio Mirror, administrada pela ONU e com conteúdo produzido na própria região, além dos jornais e rádios controlados pelo novo governo.

Os prognósticos são mais otimistas do que pessimistas a respeito da viabilidade do novo país. A ONU dá apoio logístico e administrativo para esse começo de vida independente. Mas é sempre bom que se lembre: a capacidade de manter a coesão social é um desafio tão grande quanto se manter de pé. E mesmo que Omar al-Bhasir e o Sudão do Norte representem a ameaça sempre presente do vizinho encrenqueiro, é preciso muito cuidado para que o pior inimigo dos sul-sudaneses não sejam eles próprios. •

 

O articulista é editor-chefe do programa Globo Universidade e professor de História da África no Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio.

alexandredossantos@tvglobo.com.br

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *