Soy loco por ti, america

Soy loco por ti, america

Dawisson Belém Lopes, Cientista político

 

Cheguei cedo ao local onde assistiria à partida. Encontrava-me devidamente fardado com o agasalho amarelo gema de ovo da Confederação Brasileira de Futebol – item que me fora presenteado, vejam bem, muito antes de tornar-se anátema para as esquerdas do mundo. Pouco a pouco, o público foi tomando os assentos da praça de alimentação. Estava eu em um mall, desses bem americanizados, situado em região outrora elegante de Caracas, capital da República Bolivariana da Venezuela. Um telão com centenas de polegadas conectava-me a Belo Horizonte, minha cidade natal, em cujo estádio Magalhães Pinto, o popular Mineirão, se passaria a peleja entre Brasil e Alemanha pela semifinal da Copa do Mundo de 2014. Um tanto ingenuamente, pensei por um momento estar na Guadalajara de 1970, cidade-sede da Copa do México – abrigo acolhedor daquela que, para muitos, foi a melhor equipe de futebol de todos os tempos. Num arroubo verbal, o finado historiador Eric Hobsbawm chegou a registrar que o escrete de Pelé & Tostão elevara o ludopédio à condição de arte. Exagero ou não, o Brasil e os brasileiros, rezava a cartilha, eram amados pelos anfitriões mexicanos. Diante de tal pano de fundo, fazia sentido apostar que o uniforme “canarinho” serviria como uma espécie de laissez-passer diplomático. Era a credencial para desfrutar de uma gloriosa hospitalidade no país caribenho.

Tudo pronto para rolar a bola. Apita o árbitro. Começa a partida. O entusiasmo da torcida brasileira media-se em mais de uma centena de decibéis. Os donos da casa, sabedores de suas responsabilidades cívicas, foram com tudo para o ataque, com lançamentos longos e muita correria. A disposição dos amarelinhos compensava a falta de um plano tático e o baixo estoque de talento. Nos primeiros lances do jogo, avistou-se o paraíso. Cada par de olhos vidrados na tela já podia imaginar a vitória épica, a que se seguiria a sagração final, no estádio do Maracanã, templo maior do futebol. Afinal, aquele era o nosso destino. Faltava pouco, muito pouco para o Olimpo. Mas a Alemanha – ah, a Alemanha! – era tinhosa. Tratou de botar água na fervura. Controlou os ânimos. Impôs implacavelmente o seu ritmo. Veio tocando a bola de pé em pé, da maneira mais envolvente, com a velocidade e a precisão de um modelo automotivo fabricado em Munique. Não tardou para a casa cair. Contavam-se onze minutos no relógio do Sr. Marco Antônio Rodríguez quando aconteceu o fatídico escanteio. O roteiro já é bem conhecido: cruzamento de Toni Kroos, defesa vacilante, Thomas Müller desmarcado, gol. Gol da Alemanha.

 

Anticlímax? Muito antes pelo contrário. Naquele memorável 8 de julho, mais pungentemente até do que os gols marcados pelos alemães – que não foram poucos –, tombou o mito da bem-querença ao Brasil na América Latina: a cada tento que o arqueiro Júlio César sofria, explodia de alegria a praça do shopping center. Os comensais caraquenhos, que não apresentavam evidentes traços fenotípicos germânicos, celebravam o “Mineiratzen” como se não houvesse amanhã. Diante da brutal reversão de expectativas, cogitei diferentes hipóteses, que iam da psicanálise barata (“enfim um uso apropriado para a quase pornográfica expressão Schadenfreude”) à sociologia sem fundamento empírico (“extravasam porque ressentidos com o desemprego, a instabilidade política, a criminalidade urbana…”). Lembrei-me até de uma corrente teórica, hoje tornada obsoleta na ciência política, a qual atribuía ao imperialismo ianque – e, por extensão, ao subimperialismobrasuca – quase todos os problemas imagináveis, inclusive a pobreza da América Latina. De um jeito ou de outro, pouco importava: naquela noite, eu e meu nacionalismo narcísico voltaríamos abalados para o hotel.

Os sinais de que minha temporada na Venezuela não seria fácil estavam patentes desde o princípio. Eu só não soube reconhecê-los de pronto. Estava no país com o objetivo de coletar dados para uma investigação acadêmica, patrocinada por órgãos de fomento à ciência dos governos federal e estadual mineiro, acerca dos padrões de produção da política exterior na América Latina. Já havia passado, anteriormente, por Argentina, Chile e Peru. Depois de palmilhar a República Bolivariana, eu rumaria para Colômbia e México, regressando ao Brasil ao fim de quase um mês de périplo. Além de fundamentação documental, interessavam-me as pessoas. Meu plano de ação, elaborado com antecedência de quase um ano, previa numerosas entrevistas com diplomatas, professores, pesquisadores, burocratas de alto escalão, lideranças da sociedade civil. A julgar pela quilometragem a cumprir e pela densidade da agenda, aquilo era praticamente uma versão atualizada, e só um pouco menos glamorosa, do filme Diários de Motocicleta.

Assim que pus os pés no aeroporto internacional Simón Bolívar, construído na fantasmagórica municipalidade de Maiquetía, distante 30 quilômetros da capital federal, eu me deparei com um estranho esvaziamento de pátio. Se não me havia equivocado na contagem, as aeronaves estacionadas na pista e nos hangares não ultrapassavam uma dezena. Uma dúzia, com muito boa vontade. Era meio-dia e o terminal estava às moscas, com poucos e mal-humorados funcionários a fazer o controle da imigração. Tudo isso decorria da “crise aérea” vivida à época, fruto de uma retaliação concertada das companhias de aviação à política governamental de confiscar parte das suas receitas. Segundo cálculos da Asociación de Líneas Aéreas de Venezuela, em junho de 2014, o governo já acumulava dívidas de 3,4 bilhões de dólares com as empresas. O boicote, com sensível redução dos voos operados para e desde Caracas, era negado veementemente pela Presidência da República, que alegava haver mera revisão das rotas, com o remanejamento do pessoal. O dado objetivo, porém, era que a Venezuela havia perdido recentemente a conectividade direta com sete destinos: Toronto, San José da Costa Rica, Milão, Valência, Nova York, Dallas e San Juan de Porto Rico. Uma das companhias que suspenderam atividades, a Air Canada, emitira comunicado oficial em março daquele ano, alegando “incapacidade de garantir a segurança das suas operações”, em virtude dos distúrbios civis. A mala que despachei em Lima, meu porto prévio, foi a última a despontar na esteira, o que só aconteceu alguns minutos depois de todas as outras terem sido recolhidas pelos passageiros do voo. Nem sei quanto tempo permaneci em agônica espera, mas não foi pouco. Nesse intervalo, ninguém para me informar nadica de nada – apenas os militares e seus imponentes fuzis, bloqueando as passagens de uma sala a outra do aeroporto, acompanhados de cães farejadores. Já tinha, àquela altura, a convicção de que minha bagagem houvera sido extraviada ou, quem sabe, retida para averiguação. Felizmente, não seria o caso. Ao que tudo indica, ela apenas recebera um “cuidado especial” por parte da segurança aeroportuária.

Admitido no país pelas autoridades competentes, fui trocar dinheiro para sobreviver pelas próximas horas, até que conseguisse me instalar e chegar ao centro comercial de Caracas. Saquei cem dólares da minha carteira e dirigi-me ao câmbio do aeroporto. Algum tempo antes, ouvi falar de certo descolamento entre a cotação oficial e a paralela do bolívar. Sabia que o governo andava às voltas com uma política monetária malsucedida. A meta de resistir à desvalorização imposta pelo mercado internacional, apreciando artificialmente a moeda local frente ao dólar, ao euro, ao real, ao peso colombiano, não parecia surtir efeito. Ao trocar a minha platita no aeroporto, eu perderia, como de praxe, algum valor aquisitivo. No pasa nada, aquilo era parte do pacote, elaborei mentalmente. Peguei no balcão um punhado de notas e moedas e segui confiante para a área dos táxis, louco para chegar à hospedaria. Nem conferi quanto dinheiro tinha em mãos. Uns trezentos, trezentos e cinquenta bolívares. Seria mais do que suficiente, pensei. Todavia… Qual não foi a minha surpresa? Ao chegar ao lado de fora, na rua em frente ao aeroporto, li numa placa grande, visível ao longe, que a corrida de Maiquetía até a região central de Caracas me custaria obscenos 700 bolívares. Pela taxa de conversão do governo, aproximadamente 200 USD. Por uma corrida de 30 km?!? Não batia. Não cabia. Não podia ser. O valor tabelado era impraticável. Acostumado a viajar pelo mundo livre S/A, nunca antes havia estado em enrascada de tal natureza. Tentei barganhar com o chauffeur de praça. O melhor que obtive, depois de alguma acrobacia verbal e muita autocomiseração, foi um eventual abatimento da conta para 650 bolívares – a contragosto e sob protestos.

Olhava ao redor e tudo o que via era o aeroporto desértico, meia dúzia de taxistas ociosos, quatro ou cinco carregadores de mala em uma charla animada e, mais ao fundo, alguns militares e seus fuzis. Das duas, uma: ou me deixava extorquir e pagava logo os 700 bolívares (no câmbio oficial), ou inventava outra maneira de cruzar a metrópole venezuelana. Acadêmico profissional, não possuía exatamente os dotes de um atleta fundista. Uma caminhada não iria funcionar. Teria de entregar os meus parcos recursos ao taxista e sobreviver a uma semana naquela cidade, a um custo de vida comparável ao de zonas devastadas por guerras civis? Tal como num Show de Truman, eu era observado, literalmente, por todos os que estavam no aeroporto. A certa altura, sentei-me sobre a mala, já contabilizando perdas materiais. Tudo somado, dividido, multiplicado e subtraído, talvez desse para bancar a estada sem pedir arrego à família no Brasil. Iam os anéis, ficavam os dedos, certo? Ok, eu já estava resignado. Levantei-me e comecei a marchar para o patíbulo, digo, para a banquinha de câmbio. Adentrei novamente a área coberta do Simón Bolívar. Nada me deteria. A não ser um jovenzinho magricela, pós-adolescente, quase adulto, vestindo camiseta branca e jeans surrados, que, saído sabe-se lá de onde, gritou um estridente “amigo”, acercou-se de mim, tocando-me levemente a espalda, como quem guiasse um cego, e disparou: “quanto você quer?” Assustado, sem saber o que dizer, emudeci e encarei o rapaz. Ao que ele, articulada e didaticamente, prosseguiu: “amigo, mirá: aqui é como na Argentina. Não se usa casa de câmbio jamais! Quanto você tem para trocar? Juan [um dos carregadores de malas], venha cá…”

Sim, o universo voltava a sorrir para mim. Mas não sem uma pitada de tensão. Afinal, os militares permaneciam ali ao lado, com seus vistosos fuzis, espreitando o horizonte, como convém a guardiães da revolução bolivariana. E fazer câmbio paralelo, convenhamos, é ilegal em qualquer quadrante do planeta. Desrespeitar as regras estipuladas pelo governo, bem debaixo das barbas dos milicos, sei não, era ousadia demais para alguém com temor à vida. Rapidamente, o tal Juan, amigo do “amigo”, trouxe-me bolos e bolos de cédulas bolivarianas. Era ridículo aquele volume de dinheiro! Temi pela sorte. Os guardas estavam próximos e podiam ver o que se passava. A sensação era a de quem negociava um baseado em praça pública. Pedi discrição. Disse que seríamos presos. Ele deu generosa gargalhada e retorquiu com uma pérola de sarcasmo: “Se preferir, posso levá-lo ao meu escritório.” A mensagem era clara: minha ingenuidade havia ultrapassado os limites do aceitável.

A rigor, existia um negociante de moeda dentro de cada venezuelano ao meu redor: primeiramente, os cambistas-cambistas, sob a supervisão oficial. Mas os taxistas, esses também eram cambistas ocasionais. Os carregadores de mala, idem. Os vendedores de balas, os garotos de recado, o rapaz que fazia a manutenção dos banheiros. Talvez até os milicos. Vá saber. Fato é que todos aqueles exemplares traficavam moeda. E, naturalmente, o tecido social não admitia delações. Estavam irmanados na inobservância à lei. Um alívio para mim, por suposto. Na matemática de lascalles, 100 dólares pagavam 10 mil bolívares. Estupefato, perguntei novamente a meu corretor cambial: “Tem certeza da taxa? É 1 para 100 mesmo?” Ao que veio a resposta consagradora: “Se tiver euros, posso chegar até 120.” Sem nenhuma convicção, arranquei do bolso uma cédula de 100 euros, filha única, dessas que a gente guarda para a eventualidade que nunca chega. Se o cara me entupisse de notas falsas, paciência. Eu não estava em condições de resistir, de bancar o consumidor consciente. Com os bolsos internos do paletó recheados de maços de mil bolívares, fiz a travessia de táxi do aeroporto Simón Bolívar até Caracas. Não sem antes presenciar o início de um pugilato pelo “direito” de me conduzir. Ora: depois daquele câmbio clandestino, além de contraventor, tornara-me aparentemente um nouveau riche desejável. Superada a desinteligência entre os colegas motoristas, iniciamos o passeio de quarenta e poucos minutos. Um verdadeiro banquete para os olhos de um cientista social.

Simón Bolívar, El Libertador, assumiu desde muito jovem o protagonismo nos esforços pela independência venezuelana, concretizada em 1811 – embora não de maneira inconteste ou pacífica, como os enfrentamentos com a Espanha mostrariam. Rico fazendeiro de cacau, ele não acreditava em um projeto espanhol que pudesse levar a Venezuela a superar a condição de colônia de exploração, de eterna provedora de recursos primários à metrópole. O mesmo raciocínio aplicava-se ao prognóstico, então realista, de Napoleão Bonaparte vencer as guerras que movia pela Europa e colonizar, por vias tortas, a América espanhola. Inspirado na saga dos federalistas estadunidenses, o objetivo original de Bolívar consistiu na geração de condições propícias ao autogoverno venezuelano – ou, numa chave contemporânea, a algo próximo daquilo a que se tem chamado, em linguagem pomposa, de “autodeterminação dos povos latino-americanos”. Ao contrário do que as versões bolivarianas correntes podem dar a entender, Bolívar não era exatamente um antiamericanista. Demonstrava respeito – quando não admiração – pela trajetória política dos Estados Unidos da América. Rotulou os Pais Fundadores de “visionários benevolentes” com seus “experimentos fantásticos”. Deixaria clara a sua inclinação por um governo unitário e centralizador, ao rejeitar, para a Venezuela, o modelo federativo. Isso porque, na sua visão, as forças desagregadoras ainda atuavam muito fortemente no território, e as províncias grão-colombianas, constitutivas do novo Estado independente, não se haviam integrado em um projeto político efetivamente nacional. A mescla de republicanismo liberal oitocentista com o desejo de reprimir as convulsões domésticas marcava, portanto, o cerne do pensamento bolivariano de raiz. Seria necessário corrigir excessos em nome da estabilidade e da autoridade constituída. Tanto assim que, quando foi redator da Constituição da Bolívia, nela inseriu um dispositivo que previa, para o presidente, as prerrogativas da vitaliciedade e a capacidade de nomear o próprio sucessor. Ou seja: o presidente seria o equivalente funcional de um monarca, ainda que não ostentasse título nobiliárquico. A concentração de poderes nas mãos do Poder Executivo contrariava o liberalismo de Montesquieu e de Jefferson. No entanto, desde uma mirada histórica, a hipertrofia da Presidência da República – defendida, às escâncaras, por Bolívar – ajuda a entender uma série de fatos e tendências, relativamente à emergência e à cristalização do modelo bolivariano do século XXI.

Em referência à organização da sociedade, a historiografia não registra impulso mais consistente de Simón Bolívar pelo igualitarismo estrito entre os cidadãos, pelo estabelecimento de uma ordem socialista, comunista ou assemelhada. Após a independência, o poder seria mantido nas mãos de uma pequena elite letrada, visto que o critério para participar do sufrágio (universalizado, na Venezuela, para os homens, somente em 1853) era a alfabetização, precondição das mais exigentes numa sociedade agrária. O escravismo seria abolido lentamente – restando indícios de que, por volta de 1830, existissem ainda 45 mil escravos na região. Como provocava o professor Malcolm Deas, da Universidade de Oxford, seria grande anacronismo imaginar que algum líder latino-americano da independência tivesse trabalhado por uma ordem rural igualitária. De fato, o raciocínio faz sentido: o movimento de libertações nacionais latino-americanas foi, antes de tudo, um processo conduzido pelo alto, em nada fazendo lembrar as revoluções de massa – sobretudo, a soviética e a chinesa – do século XX. À luz do exposto, o bolivarianismo do século XXI parece, isto sim, subverter as concepções que, alegadamente, lhe teriam dado origem.

Tão logo cumprida a profecia bolivariana da libertação, a República da Grã-Colômbia desmembrou-se em três unidades político-territoriais: Equador, Nova Granada (Colômbia) e Venezuela. Três repúblicas que tinham muitas características em comum, mas que também apresentavam as suas particularidades. Eram majoritariamente formadas por pequenos povoados, racialmente diversificados e pouco coesos. Nisso, Equador, Nova Granada e Venezuela apenas refletiam o padrão da colonização espanhola. Porém, no referente à economia, as diferenças eram sensíveis. A Venezuela mostrar-se-ia, desde o começo, a mais dinâmica entre as três repúblicas. O motor para a atividade econômica era o cacau, de qualidade superior, transformado em produto de exportação para o México e a Europa. Ao cacau somava-se a cultura do café, desenvolvida a partir do século XVIII, líder na relação dos produtos venezuelanos exportados, em valor, em meados dos anos 1830. Note-se, contudo, que a Venezuela não conseguiria, por todo o século XIX, encontrar um produto básico para exportação contínua. Tampouco era país atraente para investimentos estrangeiros, dado o seu insulamento do mundo. Mesmo com todas as dificuldades acarretadas pelas flutuações de preço no mercado internacional, o café continuou a ser, até o início do século XX, o arrimo da economia de exportação. Outro aspecto relevante é que esse cultivo do café serviu como impulso para a libertação efetiva de escravos – que, frequentemente, se evadiam das fazendas, em busca dos riscos e das oportunidades do trabalho livre e assalariado. Tudo guiava a uma maior dinamização da atividade econômica. No entanto, a dificuldade de auferir receitas também levava os governos da região a desenvolver técnicas mais eficientes de tributação da população. Além disso, boa parte das receitas provindas da taxação revertia-se para a “militarização” – sob a sombra de terem de travar uma eventual guerra de reconquista contra a Espanha. Embora as informações a respeito da economia venezuelana do século XIX sejam truncadas e incipientes, estima-se que, por volta de 1870, o país contasse com população de aproximadamente 2 milhões de habitantes (o dobro da registrada ao tempo da sua independência), tendo ingressado no seu segundo grande ciclo de exportação de café.

A gênese da indústria petrolífera venezuelana remete a 1878, ano da fundação da Compañía de Petróleo delTáchira. A primeira concessão do governo para exploração estrangeira é feita, em 1883, a uma empresa americana – a New York andBermúdezCompany. A partir de então, o petróleo torna-se moeda das transações políticas na Venezuela. Concessões eram feitas com base nas relações personalistas mantidas com o presidente da ocasião. No entanto, é só com o fim da Primeira Guerra Mundial que o petróleo começa a figurar como produto de exportação com alguma relevância no mercado internacional. Em 1926, o líquido negro já era a principal commodity da pauta de exportações do país. Logo em 1928, a Venezuela tornara-se a segunda maior produtora mundial de petróleo, respondendo por 8% da produção mundial, além de sagrar-se a maior exportadora do mundo, em toneladas do óleo. Como é razoável supor, após o advento da indústria do petróleo, os vínculos da Venezuela com a economia mundial são robustecidos, e as relações bilaterais com os Estados Unidos da América passam a constituir pedra de toque da política externa venezuelana. Ao contrário de Equador e Colômbia, a terra de Bolívar conseguia atrair para si a atenção das potências da época. Em 1928, o somatório de importações e exportações correspondia a mais de 120% do PIB nacional. Rapidamente, a economia extroverteu-se por completo, reorientando-se para o comércio exterior. Há que citar, como efeito colateral da “marcha do petróleo”, a urbanização acelerada por que passou o país, o que minou a economia agrícola e fez expandir as classes médias e o proletariado. Burocratizou-se o Estado e modernizou-se a sociedade. Ou seja: por volta de 1930, estava, finalmente, pronto o alicerce da Venezuela moderna.

A “Crise de 1929”, devastadora para a maioria dos países da América Latina, não surtiu efeitos apreciáveis sobre a Venezuela. O petróleo havia se incumbido de fazer blindagem à economia, de modo que, no ano de 1932, o volume de exportações do país era rigorosamente o mesmo registrado em 1928. A queda nos preços das commodities, no ciclo de depressão econômica, foi amplamente compensada pelo rápido crescimento das exportações, ocorrido na segunda metade dos anos 1920. Além disso, a Venezuela soube aproveitar-se da condição de ser o país produtor de petróleo com custos mais baixos em todo o continente americano. Na política, o aspecto notável do período foi a manutenção de Juan Vicente Gómez no poder, a despeito da turbulência generalizada na política latino-americana. O autocrático presidente permaneceria no comando do Estado de 1908 até 1935, ano de sua morte. Contribuíram a relativa estabilidade propiciada pelo setor petrolífero e as boas relações cultivadas pelo ditador com investidores estrangeiros – principalmente, ingleses e estadunidenses.

A década de 1930 significou, para a Venezuela, crescimento na renda nacional da ordem de 6% ao ano. Aumentou também, de forma considerável, o volume de importações e de exportações feitas pelo país, aprofundando-se a inserção mundial. Os dados agregados da economia venezuelana obscureciam, porém, a falência maciça dos cultores de café e de cacau, bem como dos criadores de gado, duramente afetados pelas oscilações do mercado internacional após o crack da Bolsa de Nova York. A tendência seria agravada com a eclosão, em 1939, da Segunda Guerra Mundial, e a diminuição de demanda que se seguiu. Em 1940, embora a Venezuela detivesse a sexta maior economia da América Latina, a participação da indústria na renda nacional não passava de 14%. A enorme receptividade internacional ao petróleo havia, ironicamente, desarranjado a matriz produtiva do país – fenômeno que a literatura universitária batizou de “doença holandesa”, em alusão ao análogo ocorrido, no século XVII, com as tulipas dos Países Baixos.

A concentração de recursos nas mãos do Estado – a um só tempo, empresário e aparato do fiscalismo – produzia sobre os cidadãos a impressão de que todo desenvolvimento social passava, necessariamente, por ações governamentais, encetadas de cima para baixo. Apesar de o presidente Rómulo Betancourt ter empreendido políticas para o desenvolvimento industrial no imediato pós-Guerra, um novo governo ditatorial, de Marcos Pérez Jiménez, estancaria, em boa medida, o referido processo. A deposição de Rómulo Gallegos, aos oito meses do exercício presidencial, representou o aborto de uma experiência de governo democrático até então inédita na Venezuela. A década seguinte, sob Pérez Jiménez, não veria traço de democracia no país. Por outro lado, os anos 1940 também simbolizaram, do ponto de vista da política institucional, a consolidação da centralização administrativa do Estado, ou o “último suspiro” do caudilhismo. A intensa polarização político-partidária do início dos anos 1950, contrapondo, de um lado, a Ação Democrática (AD), nacionalista e anticlerical, e, de outro, o Comitê de Ação Política Eleitoral Independente (COPEI), conservador e católico, desaguou em uma clássica solução de compromisso, a qual geraria efeitos duradouros para a política venezuelana: o Pacto de PuntoFijo, formalizado em 1958. De acordo com o Pacto, os líderes dos três maiores partidos venezuelanos – AD, COPEI e URD (União Republicana Democrática) – comprometiam-se a aceitar os resultados das eleições, a formar um governo de unidade nacional e a acionar mecanismos de consulta recíproca sobre os temas políticos mais palpitantes. Garantias adicionais também foram concedidas à Igreja, aos militares e à indústria nacional.

O hotel em que me hospedei estava no distrito de Las Mercedes, zona de lazer e entretenimento que fazia lembrar, remotamente, o centro de São Paulo. Era um cinco estrelas, fundado em 1953, mas as suas diárias, arrematadas via Booking.com, tinham preço de albergue da juventude. Apesar de tradicional, fora recentemente encampado por uma cadeia americana, situando-se, em termos estilísticos, a meio caminho entre o relicário e a boutique. A habitação standard era grande e luxuosa, indiciando que o estabelecimento já vivera dias melhores. A sua piscina, de arquitetura arrojada, noutros tempos o refúgio de diplomatas estrangeiros que se encontravam em Caracas, era hoje uma sombra pálida dos anos de apogeu, com azulejos quebrados e vazamentos por todos os lados. O serviço do hotel, esse era irremediavelmente precário. Conjugavam-se robe de seda no guarda-roupa e mobília de madeira nobre com ausência de conexão wireless e o contingenciamento do papel higiênico no banheiro (perdão pelo clichê, mas os efeitos da escassez desse bem de consumo não durável são realmente desconcertantes). Do quarto, a vista era particularmente privilegiada. Como me puseram em um dos últimos andares da torre, que, construída sobre uma colina, dava visão panorâmica para a cidade, as grandes janelas translúcidas permitiam identificar ao longe os enfrentamentos entre milícias a favor e contra o regime socialista. Na base do pau e da pedra, os grupos digladiavam-se, seja nas avenidas do centro da cidade, seja nas ruelas dos barrios. A fumaça branca e o estampido das bombas logo se tornaram parte do meu dia a dia. Enquanto isso, no saguão amplo e suntuoso, ainda que pouco povoado, um belo piano de cauda era executado automaticamente, alternando trilhas clássicas e contemporâneas, alheio a tudo. Quando percebi pela primeira vez a sua existência, tocava “Sentimental Journey”, de Frank Sinatra. Tratava-se da representação musical mais pronta e acabada da esquizofrenia social que permeava Caracas.

As décadas compreendidas entre 1950 e 1980 mostraram-se cruciais para a formação da Venezuela contemporânea. Mais do que isso: projetaram, por um instante, a sombra de uma “Grande Venezuela” para o futuro. Economicamente, o desempenho do país foi impressionante. O produto interno bruto expandiu a uma taxa média anual de 4,4%. No rastro dos “anos dourados” do século XX, a Venezuela foi, efetivamente, “rebocada” pelo crescimento econômico dos mercados desenvolvidos, com ênfase para os Estados Unidos, a Europa e o Japão. A pujança da atividade industrial daqueles países fazia necessário o incremento nas importações do petróleo, o que içava a Venezuela a uma posição privilegiada no contexto do Terceiro Mundo. Haja vista que, enquanto a maior parte dos Estados do seu entorno entrava em recessão em 1973, diante do primeiro Choque do Petróleo, o país registrou aumento sem precedente nos ganhos procedentes das exportações – que subiram de US$ 3,1 bilhões, em 1972, para US$ 11,3 bilhões, em 1974. Politicamente, o Pacto de PuntoFijo funcionou como um tipo de marco constitucional. Inaugurou um regime de cooperação partidária, que resistiria por quatro décadas – mais precisamente, até a ascensão ao poder de Hugo Chávez Frías, em 1999. Até 1958, a Venezuela conhecera 25 constituições, alternando ditaduras estáveis e instáveis; e oito anos de governo civil (dos quais apenas três em democracia). Doravante, sob o signo da moderação e o Texto Constitucional de 1961, AD e COPEI fariam civilizada alternância no poder, estabelecendo, a despeito da aparente improbabilidade, um regime democrático competitivo, no coração de uma das regiões menos democráticas do planeta, durante o período da Guerra Fria.

Entretanto, o gigante tinha pés de barro. Os anos 1980 significaram, da dupla perspectiva da economia e da política, duros golpes para a Venezuela. O esgotamento do keynesianismo econômico no mundo, e do Estado de bem-estar social na Europa, desencadeou uma crise de liquidez mundial que, em pouco tempo, levou os países da América Latina, um após o outro, à bancarrota – a começar pelo México, em 1982. O exemplo venezuelano tem um componente dramático: o subdesenvolvimento do seu setor industrial – o qual, em 1980, respondia por menos de 19% da renda nacional. A histórica falta de investimento na indústria não petrolífera acarretava altos coeficientes de importação, principalmente dos bens de consumo. De 1981 a 1990, a renda bruta venezuelana cresceu a 0,6% ao ano, denunciando, se nada mais, a falta de dinamismo econômico. De resto, a deterioração dos termos de troca no comércio internacional conduziu a Venezuela ao endividamento internacional e à necessidade premente de reformas institucionais. Em fevereiro de 1989, um levante popular – conhecido como “Caracazo” – terminaria em derramamento de sangue, após o aumento dos preços das tarifas de transporte público, acordado entre o presidente Carlos Andrés Pérez e o Fundo Monetário Internacional. Críticos venezuelanos, na academia e na imprensa, fazendo eco à insatisfação popular, passam a tratar o regime democrático ali instalado por “partidocracia”, sugerindo o insulamento do povo em relação ao processo decisório. O paradigma do PuntoFijo não se sustentaria no médio prazo. Aspectos demográficos também ajudavam a entender o desmoronamento do projeto “Grande Venezuela”. Entre 1930 e 1990, a população do país cresceu quase sete vezes, enquanto a da América Latina quadruplicou. Isso se explica tanto pelas altas taxas de fecundidade quanto pelas imigrações – legais e ilegais – que, sob a miragem do eldorado petrolífero, aconteceram em larga escala. Acrescente-se a rápida e desordenada urbanização da sociedade venezuelana. No intervalo de meio século, a população nas cidades saltou de 14 para 83%, concentrando-se, sobretudo, em Caracas. Em face do que se expõe, não surpreende que o PIB per capita venezuelano, em 1992, tenha regredido ao patamar de 1963.

No ano passado, em um evento acadêmico realizado em Porto Rico, dividi mesa com um painelista venezuelano. Feitas as nossas apresentações, puxei assunto e ele, receptivo e simpático, retribuiu. Contei-lhe brevemente a minha experiência em Caracas e, em especial, o episódio do 7 a 1. Rápido no gatilho, ele disparou: “É o apoio que vocês dão ao regime. As classes mais altas não os toleram. Associa-se o Brasil ao descalabro que a capital – e o país como um todo – vivencia”. Bem ou mal, era uma hipótese inovadora sobre a gratuita hostilidade à seleção brasileira de futebol, detectada por mim em 2014. Os modelos analíticos da ciência política costumam apontar a relativa apatia dos eleitores sobre temas de diplomacia e política externa. Em regra, o mundo lá fora, para um cidadão comum, conta muito pouco. Na América Latina, em particular, quase ninguém vota com base em plataforma política de relações internacionais. É importante, entretanto, notar a relatividade dessa conexão, já que, em determinados contextos e circunstâncias específicas, como a escassez alimentar ou as guerras, a mencionada apatia pode ser substituída pelo engajamento ferino. Se o presidente Fulano de Tal é responsabilizado pela má condução de uma estratégia de defesa nacional, da qual resultem mortes banais, ele será severamente punido nas urnas. Ora: se o motivo intuído pelo colega pesquisador era, de fato, o que explicava o antibrasilismo nos estratos superiores da população de Caracas, a percepção prevalecente poderia ser a de que os venezuelanos estivessem em meio a uma verdadeira guerra. Ou, no mais eufemístico dos registros, em conflito civil de considerável gravidade.

A posição da diplomacia brasileira sobre a Venezuela alterou-se significativamente ao longo dos últimos 20 anos. Enquanto FHC manteve relações protocolares com o regime de Caracas, Lula da Silva aproximou-se fraternalmente de Chávez, fazendo da aliança com a nação caribenha uma das pontas de lança da política externa de Brasília. A estratégia, conhecida como “paymastering”, consistia em o país mais rico e poderoso – Brasil – arcar com a maior cota das despesas relativas à integração regional, haurindo daí o direito de liderar os mais pobres e frágeis nos arredores. A polêmica, fartamente alimentada pelos meios de imprensa em 2015, de que o metrô de Caracas fora reformado com verba do BNDES, banco desenvolvimentista mantido pelo contribuinte brasileiro, insere-se em tal dinâmica de política externa. O referencial histórico exitoso desse tipo de prática é a Alemanha Ocidental, que, depois da queda do Muro de Berlim, em 1989, reunificou-se, absorvendo para si os custos do atraso econômico do lado oriental e, por conseguinte, tornou-se a locomotiva da União Europeia. Dilma, apesar de menos calorosa com o bolivarianismo do que o seu antecessor e correligionário, conservou as linhas gerais do relacionamento diplomático durante o seu termo presidencial; se não era exatamente amiga dos seus homólogos Hugo e Nicolás, ao menos parecia cordial com os venezuelanos. Desde a chegada ao poder de Temer, porém, o que era riso, fez-se pranto, e das mãos espalmadas, fez-se o espanto.

circular pela região central de Caracas era um exercício pedagógico acerca de contrastes sociais. Nos bairros mais pobres, o suporte ao regime bolivariano aparentava ser maciço. Não se nega que a petropolítica chavista logrou traduzir-se em efetiva assistência social aos carentes e vulneráveis. Donde a hegemonia obtida nos últimos ciclos eleitorais. Uma referência marcante para o transeunte é a streetart saudosista, com vivas representações do falecido Coronel. Numa delas, sob o mote da revolução, via-se um Chávez altivo e jovial, ombreado por Bolívar e Che Guevara. Noutra, o Comandante era retratado como um boxeador, que golpeava com um direto no estômago o presidente americano, George W. Bush. Não saberia dizer se Lênin ou Mussolini teriam sido mais cultuados em sua própria aldeia do que Hugo Chávez. Seja como for, a adoração ao herói permanecia intensa. Nas zonas caraquenhas mais sofisticadas, sobressaía o que o sociólogo ThorsteinVeblen chamou de “padrão de consumo conspícuo”: misses pré-fabricadas e seus garbosos acompanhantes desfilando imperturbáveis, em carros SUV importados, blindados, com tração nas quatro rodas – e movidos a óleo barato, subvencionado pelo Estado. CorradoGini e seu coeficiente de concentração de renda enviavam saludos. Enquanto isso, as longuíssimas filas nos supermercados, para a aquisição de gêneros básicos, perturbavam e desvelavam. As prateleiras das vendas não tinham reposição de estoque. A sensação de impotência era estranha: ter o dinheiro no bolso e, sistematicamente, não encontrar o produto disponível em lugar algum. Nesse diapasão, até um lanche no McDonald’s ganhava contornos aventureiros. Não era incomum ter de contentar-me com um sanduíche do cardápio em que dois ou três dos seus ingredientes constitutivos estivessem “em falta”. Ok, vida que segue, nunca gostei mesmo de picles. Para comprar uma garrafinha de meio litro d’água, ou eu encarava de duas a três horas de pé, à espera da fatura, ou desembolsava uma fábula pelo artigo de subsistência em algum restaurante de luxo. Uma cerveja, então, era utopia. Fiscais armados faziam a segurança dos comércios, impedindo os saques. O impulso inicial, diante da configuração dantesca, era sacar o telefone e fotografar – o que, depois de hesitar por um instante, julguei indigno. Por mais que quisesse registrar, disseminar, denunciar o drama da classe trabalhadora – que já é um segredo de polichinelo a esta altura –, não cabia agir como se aqueles homens e mulheres fossem bichinhos exóticos da fauna nativa. Uma dose de empatia não faz mal a ninguém. Noblesseoblige.

Em minha estação de trabalho improvisada – uma mesinha lateral do hall de entrada do hotel – recebia colegas venezuelanos, conversava demoradamente, trocava presentes, experimentava drinks, recebia conselhos turísticos. Um dos professores com quem tratei, Carlos Antonio Romero, titular da Universidade Central da Venezuela, fez-me gentileza adicional: trouxe-me exemplares de cinco diferentes diários de Caracas. Queria manter-me atualizado, a par da situação. Inadvertidamente, provou um ponto que talvez nem fosse sua intenção: a existência de liberdade de imprensa por aquelas bandas. O arco de tendências editoriais ia do oficialismo do Partido Socialista Unido de Venezuela (PSUV), com sua propaganda infantilizante sobre o país, ao mais desbragado putschismo da oposição, bem expresso pelo editorial que incitava sem cerimônia a guerra civil e a invasão popular do Palácio Miraflores. Em Caracas, o meio-termo não tinha vez. Os anos 1990 abriram a “caixa de Pandora” da política venezuelana. Sob o pretexto do fracasso da partidocracia em atender satisfatoriamente às demandas populares, dois golpes de Estado foram tentados em 1992. Em meio ao que significava, para a América Latina, o advento de uma era de amplas reformas estruturais, Carlos Andrés Pérez falhou em implantar a sua agenda reformista e, como decorrência, sofreu o impedimento constitucional, tendo de deixar o posto. O sistema de partidos venezuelano começou a ruir: AD e COPEI, que dominavam a cena política desde 1973, perderam a presidência para Rafael Caldera, candidato independente, nas eleições de 1993. Na sequência, em 1998, AD e COPEI não lançaram sequer candidatura própria, decidindo apoiar outro candidato independente, Henrique Salas Römer – derrotado por Hugo Chávez, artífice da primeira tentativa de golpe. As linhas do bolivarianismo do século XXI haviam sido tramadas.

Chávez é o responsável pela instauração de um novo regime político no país. Uma nova Constituição é fabricada, passando a vigorar em 1999. Novas leis eleitorais são aprovadas, oficiais corruptos são julgados e condenados, o sindicalismo nacional é democratizado. Não obstante, a tradicional matriz democrática liberal – que inspirou, em certa medida, o libertador Bolívar – é gradativamente substituída por um modelo baseado na ideia de soberania popular, na vontade das massas. O presidente recém-eleito soube desvencilhar-se de parcela considerável das travas institucionais que constrangiam seu exercício de poder, mesmo que, para tanto, houvesse de proceder com algumas quebras constitucionais. Fê-lo em duas etapas: eliminando os velhos atores, em condição de fazer frente ao presidente; e garantindo a lealdade dos novos jogadores. Inicialmente, foi convocada uma Assembleia Nacional Constituinte, o que suprimiu, no curto prazo, algumas das amarras ao Poder Executivo: extinguiu-se a Corte Suprema de Justiça, criando-se, em contrapartida, o Tribunal Supremo; nomeou-se um novo conselho eleitoral; apontou-se um novo controlador geral da República – todos propensos a colaborar com o regime chavista. Paralelamente, a Assembleia Nacional Constituinte designou um Comitê Legislativo Nacional, que assumiu, provisoriamente, o lugar dos parlamentares eleitos, até que novas eleições pudessem ser realizadas. Apenas em agosto de 2000, uma nova legislatura, democraticamente eleita, assumiu os assentos no parlamento, tornado unicameral. Chávez reelegeu-se à presidência com 57% dos votos válidos, contando com o apoio ostensivo de pelo menos 99 dos 165 congressistas eleitos – os quais passaram, em novembro de 2000, uma lei que concedia amplos poderes para o presidente expedir decretos sobre um variado leque de assuntos. Poucos governadores permaneceram na oposição política; e os que decidiram arcar com os custos, tiveram a sua capacidade de governar minada. O resumo da ópera: entre dezembro de 1998 e agosto de 2000, Hugo Chávez conseguiu remover ou enfraquecer todos os seus freios e contrapesos institucionais.

Já no fim de 2001, depois do alijamento de determinados setores sociais do processo decisório nacional, Hugo Chávez passa a ser alvo de campanhas de descrédito. Líderes empresariais declaravam que o presidente havia abusado dos poderes delegados pela Assembleia Nacional Constituinte, o que incluía a aprovação de duas leis, uma sobre reforma agrária e outra sobre hidrocarbonetos, sem a devida consulta democrática. Parcela expressiva da imprensa e as altas patentes do Exército mobilizam-se contra Chávez. Em meados de 2002, o suporte popular ao presidente despencou, passando de aproximadamente 2/3 para 1/3 do eleitorado. Sobreveio o inevitável: em abril daquele ano, uma conspiração militar-empresarial-sindical tentaria tomar o poder na marra. Liderada por Pedro Carmona Estanga, uma junta anunciou a dissolução da Assembleia Nacional e da Suprema Corte, o repúdio à Constituição de 1999 e a prisão imediata dos governadores chavistas. Só que o contragolpe veio rápido: incapazes de fazer Chávez renunciar, os usurpadores tiveram de haver-se com os protestos pró-Chávez que tomaram as ruas da Venezuela. Instâncias democráticas latino-americanas condenaram com veemência a tentativa de golpe. Passados alguns dias, os articuladores da deposição viram-se sem alternativa. Haviam-se esgotado seus recursos e argumentos. Chávez retornaria à presidência, fortalecido, ficando como saldo um país ainda mais dividido.

Em 2006, o presidente venezuelano era reeleito democraticamente para um novo termo de seis anos de duração, contados a partir de janeiro de 2007. Pelo que se afirmara no discurso da vitória, a “transição” havia acabado. Isso queria dizer, fundamentalmente, ainda maior autonomia do chefe do Executivo para agir de ofício, no cumprimento das promessas de campanha. Chávez governaria com mãos de ferro, rumo à revolução. Dentre as medidas concretizadas, destacam-se a não renovação da concessão para funcionamento da RCTV – emissora de TV que deu guarida aos golpistas de 2002 –, a estatização de companhias dos setores de energia e telecomunicações, e a aprovação, em referendo, da emenda que limava da constituição o limite ao número de reeleições presidenciais. O fato novo, que reorientou todo o curso da história venezuelana recente, foi o adoecimento do líder. Um tumor maligno, revelado em 2011, levaria Chávez a diversas visitas a Havana, para fins de tratamento médico. Com a remissão do câncer, a situação política nacional deteriora-se profunda e aceleradamente. A oposição, capitaneada por Henrique Capriles, ganharia terreno, a ponto de ameaçar a longa hegemonia do PSUV. Ainda que tenha sido reeleito em outubro de 2012, o Coronel não tomaria posse do seu quarto mandato presidencial, em função da piora do quadro clínico. Seu ministro de relações exteriores, tornado vice-presidente da República, o sindicalista Nicolás Maduro, credenciava-se como herdeiro natural do chavismo. Não tardou para que, em março de 2013, aos 58 anos de idade, Chávez finalmente sucumbisse ao imperador de todos os males. Rei morto, rei posto: ato contínuo, elegeu-se Maduro presidente, numa disputa em que a diferença entre os dois contendores foi de menos de 1,5% dos votos válidos. A polarização política atingia o paroxismo.

Uma das vantagens inesperadas da privação de internet no meu hotel em Caracas – pois, para completar o cenário, o roaming internacional do telefone também não funcionava – foi a redescoberta de um velho hábito: zapear a televisão. Além da enxurrada de enlatados gringos, algo tão compreensível quanto previsível, o hóspede podia deliciar-se com a programação da rede pública venezuelana, cuja grade exibia Nicolás e seus redcaps em diferentes ângulos. Em um dos lances mais pitorescos que presenciei, o presidente da República em pessoa oferecia carros zero quilômetro aos para-atletas que competiram nos Jogos Pan-Americanos Juvenis. Um deles, sentado em sua cadeira de rodas, pediu a palavra e, chorando copiosamente, agradeceu ao líder nacional por levar adiante os ideais chavistas. O que deveria parecer um gesto de generosidade e desprendimento, eu tomava como cesarismo canastrão. Minha referência óbvia, uma vez mais, era a Copa de 1970, quando o indefectível Paulo Maluf, então prefeito da cidade de São Paulo, presenteou cada um dos campeões mundiais de futebol com um fusca novinho. Contrariando o título do documentário, posso afiançar-lhes que, na Venezuela, a revolução bolivariana é televisionada o dia inteiro. Todos os dias da semana. Sem intervalos comerciais.

Depois de alguns dias coletando informações para a minha pesquisa, chegava a hora de partir. A missão havia sido parcialmente cumprida. A próxima paragem seria a capital da Colômbia. Num trecho que geralmente seria feito em menos de três horas, por voo direto, eu levaria doze. Em função da crise aérea (crise? que crise?), o agente de viagens desdobrou-se para encontrar-me uma conexão em Santiago do Chile, fazendo-me percorrer nada menos que 9,2 mil quilômetros, em vez dos costumeiros 4,8 mil. Isso para não mencionar a antecedência recomendada de seis horas para chegar a Maiquetía e não perder o embarque. As filas de passageiros no Simón Bolívar tinham extensões de sumir de vista. Além do time dos chiques & famosos, trajando echarpes de seda e chapéus vitorianos, sob um calor incapacitante de 35 graus, outro perfil recorrente no aeroporto era o de retirantes. Gente que tentaria a sorte em Madri, Paris ou… na vizinha Bogotá. Depois de enfrentar duas ou três dessas filas intermináveis, quando eu finalmente me livraria da mala que empurrava para cima e para baixo, eis que me inventam o pagamento compulsório de uma “taxa de impacto ambiental para turistas” – ou não me seria permitido deixar Caracas. Caraca! Como já havia dilapidado toda a minha fortuna bolivariana, tive novamente de trocar dinheiro, com base na cotação do dia da agência oficial de corretagem, dado que não se aceitava sequer cartão de crédito no guichê de cobrança. Mais uma lição para tomar nota: a extorsão governamental podia ter várias formas – e nomes.

Quitada minha dívida ambiental com a República Bolivariana da Venezuela, submeti-me à checagem de segurança. Com os fuzis pendurados sobre os ombros, os militares ordenavam um tanto rispidamente que objetos avulsos dos passageiros fossem colocados dentro dos bolsos dos casacos. Mal dos pecados, apesar de cartazes demandarem repetidamente que líquidos fossem descartados no caminho até o raio-x, não me livrei da garrafinha d’água que trazia comigo. Pura distração. Pus a mochila sobre a esteira e… Só depois me lembrei daquele maldito líquido! Tarde demais. “O bicho vai pegar”, pensei. Projetei um esporro monumental, desses que deixam a gente sem o rumo de casa. Humilhação à vista. E ainda havia os cães farejadores! E os fuzis!!! Bobagem. Obviamente, eu estava enxergando monstros inexpugnáveis onde só havia moinhos de vento: eles sequer notaram a água no interior de minha mochila; se a viram, nem deram bola. O detector de metais em Maiquetía era uma peneira: até as moedas que eu guardava no bolso de trás da calça passaram ilesas. Superada a penúltima etapa do trajeto, alcancei o birô de emigração. Estava a um carimbo de completar o circuito de provações aeroportuárias, iniciado umas cinco horas antes, e poder voar para o alto e avante. O funcionário do controle de passaporte abriu o meu documento, olhou para a minha cara, balançou a cabeça e disse: “Brasil? Brasilero? Quévergüenza… Los brasileñosestán todos llorandoahoramismo…” Carimbou a esmo uma folha do passaporte. Preguiçosa e desdenhosamente.

Entendi que melhor teria sido a admoestação verbal dos militares, de cicatrização rápida, aos efeitos psicológicos tardios do 7 a 1. Como fosse uma epifania, na iminência de adentrar o avião, eu me dei conta de que aquela treta era, sim, comigo. Tendo testemunhado de perto o “socialismo do século XXI”, não cabia mais no repertório o silêncio obsequioso. Tampouco usar de meias palavras para caracterizar o que se passava. Notem bem: não se trata de explorar o tema pela surrada angulação político-partidária brasileira, ou de reverberar o discurso nórdico e irremediavelmente etnocêntrico. Essa é a isca fácil, que gera mais calor do que luz. Depois de tomar o pulso venezuelano por alguns dias, eu abandonei definitivamente o tom blasé, a postura meio-intelectual-meio-de-esquerda, condescendente e até amistosa em relação ao experimento político dos filhos da Grã-Colômbia. Senhoras e senhores, o sonho acabou – e é preciso dizê-lo. A revolução bolivariana fracassou rotundamente. O país é um barril de pólvora prestes a explodir. Ou não – o que talvez seja ainda mais massacrante, pois o cozimento em fogo brando vai degenerando tudo e todos. E o Brasil, como ensinara o constrangedor evento da praça de alimentação, tem lá o seu quinhão no latifúndio.

O autor é professor de ciência política da Universidade Federal de Minas Gerais dawisson@gmail.com

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