Sobressimbolismo – uma imersão na obra de Carlos Nejar

Sobressimbolismo – uma imersão na obra de Carlos Nejar

Oscar Gama Filho, Escritor

 

Carlos Nejar, em entrevista ao jornal A Tribuna, de 20/12/2015, declarou: “Há um grande crítico em Vitória, que é Oscar Gama Filho, também romancista. Ele me revelou que, na poesia e na ficção, trago um novo movimento literário, o Sobressimbolismo. Depois verifiquei que há muito busco essa perspectiva. Ele descobriu o que me inventava”.

De fato, Nejar, na apresentação de sua “História da Literatura Brasileira”, já confirmava a sua existência: “E, hoje, talvez estejamos em um novo Simbolismo.” (São Paulo: Leya, 2011, p. 23). A mesma frase se repete na 3ª edição da obra, pela Editora Unisul, em 2014, na p. 11. Mas de que se trata? Vamos a ela.

 

Linhas sobre a superfície

Qual música ecoa de linhas sobre a superfície? Não de linhas complexas: — linhas simples, como as das letras.

Que quadro compõem essas linhas desunidas, que apenas se tocam nos seus vértices? Pontos em que se interseccionam, mas não se penetram.

Toda escrita é formada de linhas sobre a superfície. As linhas podem ser cordas suspensas, como a língua inca. Ou gravadas na areia da praia.

Quem se dedica a descobrir o ritmo e a musicalidade dessas linhas sobre a superfície é. Música sem harmonia nem arranjos além da escansão greco-latina ocidental.

Quem se dedica a transformar letras em tintas espalhadas na tela branca da página e a compor cenas em quadros sem perspectiva, mas dotadas de plasticidade é.

É sobressimbolista.

Este estilo de época apresenta Carlos Nejar como seu autor clássico, no sentido de modelo a ser estudado em classes de aula. O único 100% sobressimbolista.

O simbolismo buscava a musicalidade; o Sobressimbolismo tem poemas musicais, com melodia, mas sem arranjo ou afinação. A contemporaneidade fragmenta o verso ou o elimina. Mas um novo estilo de época tem de apresentar novas técnicas e figuras de linguagem como marcas que o diferenciem dos demais.

No meu romance “Ovo Alquímico”, o capítulo “O Naufrágio” reduz as frases a sinais de pontuação. E o caco inicial concentra todas as palavras em um único signo, o “Ovo Alquímico”.

O “Ovo Alquímico” possui uma estrutura eidética desmontável, o eidos, que pode se transformar em qualquer forma de arte e ser lida em qualquer linguagem — mais do que em qualquer língua. Ele é um computador quântico onisciente, onipresente e onipotente. Melhor, um computador quântico autoconsciente, um invariante universal absoluto. Alguns chamam de deus, mas não é verdade. É apenas uma chave descriptografadora do todo que permite o acesso a qualquer elemento do conjunto universo.

Desenvolver uma coisa defronte da outra, destilando os sonhos do mundo: o “Ovo Alquímico” é o pórtico entre o impossível e o real. Recolhe os detalhes constituintes da inteligência humana de hoje e do futuro, semeando-os em um computador quântico autoconsciente que produzirá milagres, curas, casas e cidades que se erguerão instantaneamente em um clique do mouse. E que também será capaz de reconstruir florestas e de criar personagens e amores consistentes e reconhecíveis que se esticarão e se delinearão nas vidas dos leitores, dando o sentido diferenciado que todos desejam.

Carlos Nejar confirmou a existência de uma figura de linguagem similar em conversa comigo. De fato, ele afirmou que se autocaracteriza pela existência da técnica da “Imagem Eidética”, varando sua obra de fora a fora. Desde há muito tempo, Nejar a definiu e a vem definindo como uma imagem “que continua na outra imagem que continua na outra imagem que continua na outra imagem na outra imagem e assim vai infinitamente”. Ao final, formam um conjunto, um bloco associativo de imagens em subdivisão prismática das imagens.

A base lógica do Sobressimbolismo é a “vontade de poder fazer”. Da expansão da consciência dela oriunda, adviria o apuro métrico, rítmico e imagístico.

A “vontade de poder” fazer inclui a tendência à memória absoluta. Não queremos esquecer de nada, nem ao menos do que não vivenciamos. Nem aceitamos a perda que decorre do envelhecimento. Rejeitamos qualquer tipo de perda de informação, mesmo que pela idade.

Esta característica sobressimbolista abrange os dispositivos externos de memória, como livros, computadores, o inconsciente coletivo, a realidade e a memória do ar, que abriga tudo que envolveu, que a envolve e que envolverá — também a ela. O ar constitui o meio físico e a forma de funcionamento do computador quântico a que pertencemos.

Pretendemos efetuar uma sociopsicanálise do Brasil, expressa no que Lacan considera a linguagem do inconsciente, cujo discurso é metaforonímico e só pode ser pontuado pelo tempo lógico, com suaves toques de beleza que apontam para o significado do desejo do sujeito, não para a sua demanda por poder. Em troca da vontade de potência, de Nietzsche, fornecemos, em amálgama, a “vontade de poder fazer”. Sua expressão é que criará a cidadania e a nova identidade cultural brasileira. Sobressimbolismo é uma coisa séria. Nós é que somos alguns ou os palhaços. Mas, segundo Baudelaire, poetas são tão ridículos quanto o albatroz no convés, e eu continuo: como todos os seres humanos. Apenas conseguem transformar o ridículo implícito em uma forma bela, estruturada segundo a “vontade de poder fazer”.

E da “vontade de poder fazer” do Sobressimbolismo, regra lógica, é que adviria a obsessão pela métrica, pela compreensão de tudo que há, da musicalidade e da filosofia em uma imagística complexa que inclui figuras de linguagem inusitadas e a lógica mágica.

O nome Sobressimbolismo é só um significante — viva Saussure! Não tem um significado apenas. São formas que significam, um significante com significados múltiplos e, às vezes, contrastantes. O leitor cria seu sentido. Uma gastronomia estética: arte muito boa até com ingredientes ruins.

O signo sobre a superfície é o “sobre símbolo”. Pode ser gramatical, matemático, virtual, um invariante universal absoluto ou uma imagem eidética. Ao final, formam um conjunto, um bloco associativo de imagens em subdivisão prismática.

Podemos enxergar estes cristais como as subdivisões prismáticas da ideia, a que Mallarmé se refere em “Un Coup de Dés Jamais n’Abolira Le Hasard”: cada um vai refratar a luz e produzir algo diferente, outra ideia, outro texto-cristal edipicamente diferente de seu pai-livro, apesar de ser uma continuação sua. As pérolas só se tornam colar quando estão reunidas. Cada prisma se subdivide em outro que se subdivide em outro — e todos são doadores potenciais de sêmen e capazes de produzirem fotos, músicas, romances, contos ou…

Portanto, nossos símbolos são arquétipos, fôrma em busca do mundo que tentam moldar, utopias que propõem realidades em um lugar estético, paralelo ao nosso, em que eventos e ideologias se reproduzem de maneira parecida, mas com pequenas alterações aleatórias, em progressão geométrica, tal como seus cristais poéticos, contas em dois colares.

Quando a contemporaneidade impõe que qualquer estratégia seja provisória, a literatura se torna uma forma de terapia absoluta. Na sequência, o papel em branco se converte no analista perfeito e a “associação livre” de temas e imagens, regra básica da psicanálise, parece mirar em uma fôrma eidética arquetípica e ideal.

Esse processo de construção de uma realidade misteriosa que tem de ser adivinhada e não entendida é a base do Sobressimbolismo. Manuel Bandeira nos orienta, citando Mallarmé, para explicar o símbolo, em “De Poetas e de Poesia”:

 

“Nomear um objeto, dizia Mallarmé, é suprimir
3/4 partes do gozo do poema, que é feito da felicidade de adivinhar pouco a pouco: sugeri-lo,
eis o ideal. É o emprego deste mistério que constitui o símbolo: evocar pouco a pouco um objeto para mostrar um estado de alma, ou, inversamente, escolher um objeto e desprender dele um estado
de alma.”

 

Características do Sobressimbolismo em Nejar

Leitmotiv: Toda escrita envolve linhas sobre uma superfície.

Sua inspiração provém da arte, mas a preocupação com a destruição dos valores humanos, naturais, culturais e sociais é fundadora de uma nova ciência.

Presente em artistas contemporâneos em que o hibridismo dos gêneros fez com que se tornassem posteriores a fronteiras.

A obra híbrida e desmontável é típica do Sobressimbolismo.

Insatisfação com o cientificismo, com o neoliberalismo, com o desmantelamento das instituições brasileiras e com a destruição dos valores humanos e culturais pela globalização.

Emprego do “Método do Delírio da Razão Criadora”, que leva a técnica a esgotar os mínimos detalhes dos caminhos estéticos, por ele bifurcados até o cruzamento inumerável de cada possibilidade.

Interesse pelo aspecto plástico, visual e musical da literatura. Sem abandonar a letra e a palavra.

Criação da literatura mítica, não figurativa, mas comprometida com a mensagem e dotada de uma cosmogonia e de uma teogonia próprias.

Propõe uma épica do futuro, em que a ação pertence a um mundo que está sendo inventado e criado por ele.

Visionário e profético em sua criação, o sobressimbolista a sacraliza quando luta contra o mal. Quer eliminá-lo com a arte, pois a sua existência conspurca a dele. O mal o adoece, seja sua origem física, psíquica, espiritual estética, política ou econômica. Por isso se lança contra o adversário, contra o feio, contra a dor, contra a injustiça, contra a corrupção e contra a angústia.

Assim, enxerga o homem como responsável pela mudança da história para melhor.

O ritmo e as imagens de Nejar falam por si sós, alcançando uma musicalidade que não chega à música e uma plasticidade que não chega às artes plásticas.

O ritmo é sua maior preocupação, esteja ele no papel de poeta, de romancista, de dramaturgo ou de crítico.

Poeta, romancista, dramaturgo e crítico em mesmas dosagens.

Para ele, escrever é falar imagens. Faz falar as imagens mesmo dentro da prosa. Não abomina a história, mas sua épica de imagens é que vai desenvolver o enredo até o mito se tornar história.

Psicologismo: foco na visão do indivíduo, no mundo interior do artista ou no dos seus personagens.

Interesse por símbolos, em que o sentido deve ser descoberto, não revelado de pronto. Trabalha com metáforas arquetípicas do inconsciente, como é o caso de “Memórias do Porão” e de “O Túnel Perfeito”.

Sua obra é uma enciclopédia que reúne os mais variados recursos usados por escritores desde Homero: metáforas, aliterações, assonâncias, paronomásias, metonímias, comparações, rimas internas, sinestesias, antíteses — e inúmeras outras — tocam o barroco sem deixar o Sobressimbolismo.

Culto da forma sem se preocupar com a clareza, mas sim com a claridade, de que é sedento.

Hibridismo dos gêneros e das artes. As fronteiras entre gêneros e artes são anuladas: qualquer coisa é a mesma coisa e deságua na literatura. Romance = poema = conto = novela = teatro = música = artes plásticas.

Paixão pelo mistério, pela noite, pela origem e pelo fim de todas as coisas.

A liberdade só é possível no sonho, na imaginação e na fantasia. Inventor de palavras, brinca com elas feito criança, divertindo-se enquanto cria.

Sua preocupação com a essência o tornou um especialista em aforismos capazes de explicar o impossível.

Temperamento utópico e crítico.

Misticismo agnóstico: objeto do desejo humano, existe o Lugar Simbólico Inconsciente de Deus, construído pela crença humana em algum tipo de entidade divina por milhares de anos. Senti-lo é uma experiência para a qual destinar a vida não é muito e para a qual a compreensão é inapreensível.

O Lugar Inconsciente Simbólico de Deus foi criado desde o homem das cavernas, mas pode ser ocupado por dinheiro, sexo, política ou drogas. Por isso, crer em algo é inevitável para o homem. Até a crença no vazio o constrói como homem. Mas crer no amor parece a melhor escolha, já que ele é mais importante do que a fé ou a esperança, segundo Paulo em Coríntios.

Preocupação com o cultural propriamente dito e com o cultural no natural e na natureza.

Subjetividade contra a sociedade objetiva.

Preocupação com o inconsciente e com o psicológico.

Nefelibata recluso, anda nas nuvens e se aprisiona em torres de cristal de que suas palavras o libertam.

Na narrativa, o enredo e ação ficam em segundo plano. Contar uma história é importante, mas o conteúdo e a forma são muito mais.

Afastamento e crítica da sociedade burguesa.

Idealismo — arte pura — crença nos espíritos da razão e da escrita.

Tom literário, mesmo na prosa, não o banal.

Temas elevados ou elevação de temas vulgares até a altura em que se acha o estético

Arte pela arte, sem interesse comercial. A diferença entre ele e o pop é que o Sobressimbolismo deseja o impossível: uma nova forma de arte. O pop se contenta com o possível: a fôrma da arte, o segredo do sucesso, a que almeja equivocadamente. Ele visa o desejo secreto que sua estética procura enquanto descobre novos rumos. Cabe ao espectador encontrá-lo na leitura das conexões sugeridas pelos artistas.

Retoma os clássicos, desconstruindo-os para assim plasmar, em amálgama, uma ruptura revolucionária com a tradição, que é assumida com a missão de dar à luz a nova forma Sobressimbolista.

O núcleo da sua criação é resistente. Seguindo o conselho de Pound, ele testa as palavras e lança mão apenas das que funcionam. Escolhe as que lhe apresentam a garantia de que funcionarão pela eternidade que já começamos a recordar antes de a termos vivenciado.

Prevenção contra rimas fáceis e adjetivos que chegam com facilidade, mas são ladrões que mendigam em busca de sua luz própria. Com gentileza ele os afasta da soleira da porta em que reside sua arte.

Não procura rimas. As rimas o procuram. Devem ser dosadas, em entretons, pelo espírito suave que rege a assonância das rimas toantes.

Emprega adjetivos proparoxítonos tentando substantivar o texto. O verbo fornece a ação; e o substantivo, a coisa, a matéria. O adjetivo dá a cor, mas é um tempero raro que deve ser usado para colorir o texto sem empanar os outros ingredientes.

Sua “A Vida Secreta dos Gabirus” só pode ser lida por meio da chave decifradora criada por Mallarmé e lançada em “Un Coup de Dés Jamais n’Abolira Le Hasard” — a subdivisão prismática da ideia. O brilhante conceito, entretanto, jamais foi executado como estrutura de romance, pois é lógico, rígido, e não permite excessos: cada cristal vai refratar a luz e produzir algo diferente, outra ideia, outro texto-cristal edipicamente diferente de seu pai, apesar de ser uma continuação sua. Não é uma obra aberta nem um romance desmontável, como preconizava Umberto Eco. As pérolas só se tornam colar quando estão reunidas.

Qualquer texto é capaz de gerar novos personagens de que nascem vários outros acontecimentos que assim se bifurcam, à Borges, referindo-se aos caminhos que se abrem para o ser enquanto escolhas existenciais: as nossas escolhas nos produzem.

O mesmo fenômeno ocorre em cada um dos condensados parágrafos de Nejar, que fornecem material, eventos e personagens suficientes para a produção de outros romances mais ou menos intercambiáveis no seu conjunto e totalmente independentes entre si. Nejar larga pérolas em sementes que não colhe e de onde outros livros poderiam nascer, se suas histórias e figuras singulares não fossem cortadas pelas Parcas mãos de Carlos,
que tecem, cruzam ou cortam o fio do destino e deixam pelo caminho o texto-tecido-mãe-de-que-muitos-que-seriam-capazes-de-nascer-dele.

Ou seja, o livro é seminal. Cada prisma se subdivide em outro que se subdivide em outro — e todos são doadores potenciais de sêmen capazes de produzir outros romances ou contos ou…

Em “A Vida Secreta dos Gabirus”, segue uma falsa pista do autor quem acreditar que Pompílio de fato roía livros com a boca. Nejar explica que ele era banguela. Portanto seus olhos é que mastigavam pela leitura voraz:

 

“(…) e era de vazios contados a dedo. Sem dentes. Nem os olhos se apresentavam, dentuços — ele viu.” (p. 13)

 

Pompílio, como fazia Nejar em sua juventude, estraga os volumes, manuseando-os até se desfazerem. E a verdade, caro Watson, é que ratos não degustam livros nem os memorizam quando os comem. Homens é que o fazem:

 

“E Pompílio aventou, num átimo: o livro é vingança contra o esquecimento. E digeri-los é se alimentar de memória.” (p.17)

 

E repito: a verdade, caro Watson, é que Nejar criou uma belíssima sinestesia, que une impressões de sentidos diferentes como fez o simbolista Baudelaire em seu soneto “Correspondances”. Nejar retoma a sensorialidade e o subjetivismo, renovando-os pelo Sobressimbolismo que inaugura.

Mas é uma nova sinestesia. Ele criou uma nova figura de harmonia sua, que nomearei de sinestesia complementar, com alto teor de Sobresssimbolismo. Dirão meus críticos que não dei um exemplo adequado de sinestesia, pois o que relato como sinestesia é uma metáfora. Um gabiru mastigar livros com os olhos é uma metáfora. Mesmo sendo a sinestesia uma forma de metáfora, tenho de incluir, complementarmente, a informação de que eles mastigavam livros com os olhos e que eles tinham sabor:

 

“Quando, certa vez, mastigou o papel e os vocábulos de As confissões, de Agostinho, eram de outro gosto ressabiado: o de ostras e frutos do mar. (…) E os instantes com que mastigara Laços de família, de Clarice, na epifania, eram uvas cortadas de um vinhedo. Saberes e sabores são indiscutíveis.” (p. 123)

 

O fato é que a sinestesia cruza duas sensações diferentes e que mastigar apenas não é algo necessariamente olfativo ou gustativo. É a complementaridade do mastigar com sensações ao longo do livro que permite chamá-la de sinestesia complementar, pois só podemos tomar conhecimento das percepções diferentes usufruídas pelos gabirus, ao degustarem diversos livros, se percebermos a existência do cruzamento que as caracteriza como tais, gerador de uma nova estrutura em que uma se une à outra em comunhão: os gabirus mastigam com os olhos (visão) e sentem gosto (paladar) de frutos do mar ou de uvas. Veem o gosto e o cheiro. Trata-se de uma visão degustativa, de uma gastronomia pantugruélica dos livros, à moda de vinhos e comidas. Um dado de origem semântica permite a compreensão da imagem.

E recordo que a sinestesia tem sido vista pela neurociência como o processo pelo qual são criadas não só as artes, mas também as ciências e a possibilidade da evolução humana — desde a pré-história. Cada novo evento é encaminhado por sinapses neuronais que se interligam a todas as outras partes do cérebro, como os círculos dentro de círculos a que se referia Dante. Não, Dante, não é o amor que move o Sol e as estrelas e funda o humano. A sinestesia é que permite a sensação do amor e a criação da linguagem e da raça humana a partir da formação de um todo que é mais do que a mera soma das partes que se interligam sinestesicamente. Sim, qualquer pensamento humano se forma com base nela.

Levando à frente sua própria herança de continuidade de imagens em que metáforas se contradizem complementarmente e de forma dialética, gabirus se tornam homens e homens se tornam gabirus pela sua livre escolha, em mais uma outra criação sua: a metáfora complementar dialética.

Em “Os Degraus do Arco-Íris” surgem novas técnicas: a “metametamorfose” e o romance por complementaridade.

Apesar das referências à obra de Kafka — “A Metamorfose” — e à de Ovídio — “Metamorfoses” —, a proposta de Nejar é mais radical. Não só qualquer pessoa, mas também qualquer coisa — seja dos reinos animal, vegetal ou mineral — podem se transformar em outro corpo, por força de sua opção pela barbárie ou pela humanidade ou pelo acaso: “Cíntia e eu possuímos uma casa que nos morava, como eu moro nela, ela em mim e o que moramos é eterno”(p.79). De fato, essa perpétua e alucinante transformação sem fim merece o nome de metametamorfose: a metamorfose dentro da metamorfose. E constitui uma nova técnica Sobressimbolista do autor.

No inusitado romance por complementaridade cada romance seu é uma continuação, uma “metametamorfose” do anterior. É impressionante a semelhança estilística entre eles, assim como a estrutura de subdivisão prismática da ideia que alotropicamente os perpassa como fio condutor, semeando um em outro.

É a complementaridade de imagens ao longo do livro que permite chamá-la de imagem complementar dialética, pois só podemos tomar conhecimento das percepções diferentes usufruídas pelas personagens, se percebermos a existência do cruzamento que as caracteriza como tais, gerador de uma nova estrutura em que uma se une à outra em comunhão às vezes semanticamente diferente ou frontalmente oposta.

A coerência é profunda: aliterações, alegorias, metáforas, aforismos e manipulações sobressimbolistas da realidade inundam todas as frases, deixando o leitor sem fôlego, como se estivesse diante de um filme em clipes rápidos, característicos do cinema moderno. Explico: os filmes antigos eram lentos, possuíam uma ação vagarosa. O cinema contemporâneo acolheu, em sua teoria eisensteiniana da montagem, a linguagem de clipes dos anúncios publicitários. Qualquer cena é completa e se constitui em uma surpresa sensorial, tal como cada frase sua, pois carrega em si imagens — no sentido literocinematográfico — eletrizantes, comoventes, surpreendentes, condensadas, que prendem a leitura à maneira de um filme-romance. Qualquer oração tem sua beleza em si e explode na cara do leitor em imagens inusitadas típicas do cinema contemporâneo.

Assim, cada romance que Nejar escreve na verdade é um capítulo do livro maior, o conjunto-universo que converte as subdivisões prismáticas da ideia no mais gigantesco romance desmontável já escrito. O todo supera “A Comédia Humana”, de Balzac, e o “Em Busca do Tempo Perdido”, de Proust. É o mesmo processo empregado por ele nos poemas de “Os Viventes”, que tem reescrito e ampliado por mais de trinta anos.

Há uma unidade de técnicas, da estrutura, da palavra como forma de luta no duplo sentido (bíblico e literário), de personagens como os Gabirus, que saem de “Carta aos Loucos” e vão compor “A Vida Secreta dos Gabirus”. Em “Os Degraus do Arco-Íris”, Nejar fala da pensadora Hannah Arendt (p.18), de Pedra das Flores — onde se passa seu “Matusalém de Flores”. E o próprio Matusalém é citado (p. 71). O imaginário cristão sempre está presente em sua luta, em prol da condição humana, contra uma barbárie demoníaca que tenta impedir que seus personagens cheguem ao paraíso.

Vou deixar falar o próprio Nejar, em um trecho de sua obra inédita Senhora Nuvem:

 

“Mas falarei, sim, de livros de poesia e ficção, que escrevi, onde já aparece a ‘metametamorfose’. Afirma um excelente crítico, Oscar Gama Filho, que é um novo estilo, o Sobressimbolismo. E tal, como ele afirma, não está apenas na ‘metametamorfose’, também está na invenção particular de novas figuras de linguagem e de estruturas do texto, além do caso da sinestesia complementar, da ‘subdivisão prismática da ideia’, e no próprio romance de complementaridade, em ‘Os Degraus do Arco-Íris’. Mas não se escreve para inovar, escreve-se porque ‘ninguém nos escuta’ ou porque as palavras se encantam em mim e não sei expressar diferente do que faço. E exprimo às vezes o que não quero, mas se impõe. Há casos de ‘metametamorfose’ em ‘O Campeador e o Vento’ (1966), pois da morte do lavrador surge o campeador e vai executar o novo tempo (tese, antítese e síntese). Nos ‘Viventes’ (agora em 3ª edição), a poesia se transforma em ficção e essa em poema. Ou na construção ficcional, desde ‘Riopampa (O Moinho das Tribulações, 2000)’, A ‘Negra Labareda Alegria’, até o mais recente, ‘A Vida Secreta dos Gabirus’, editado pela Record, e o volume no prelo, ‘O Feroz Círculo do Homem’, bem como os dois inéditos, ‘O Cavalo Humano’ e ‘Os Degraus do Arco-íris’. Nesses dois aprofundei a ‘metametamorfose’. De maneira nova, ainda que tenha a tradição de Ovídio, que passa por Swift, Kafka, Bruno Schultz, James Joyce e Guimarães Rosa (Riobaldo: rio cansado; Diadorim: dia-do-fim, homem guerreiro que esconde uma bela mulher revelada na morte). Repito. Minha visão é diferente. Kafka e Schultz transformaram um ser humano em inseto e não há volta. Criei a possível volta pela palavra, de uma natureza à outra e até o retorno. Vou atrás, dentro de meus limites, das pegadas que se inventam — não do caos, mas do abismo. (…) Porque o humano é interminável. E a ‘metametamorfose’ é das palavras que se movem em outras e outras, até virarem seres vivos. E tão vivos, por mudarem para outras formas de existência. O que gera tal processo é do corpo por dentro da alma. Apenas conto o que as palavras me contaram.”

 

Enfim, apesar de cada um de seus romances constituir uma obra completa e acabada, eles formam, contudo, um conjunto em que as narrativas se fundem e abastecem uma à outra. O conjunto-universo é desmontável, mas seus elementos, os capítulos do romance, não. E aqui está presente, de novo, a ‘metametamorfose’.

E veja que interessante, dileto leitor: o romance é metonímico, e a poesia é metafórica. A metáfora é um tropo por similaridade. Apesar de os seus poéticos capítulos-romances serem altamente metafóricos, sua união no todo, que as torna o grande romance, também estabelece o reinado da metonímia, que é um tropo por contiguidade. É a relação de proximidade de seus romances que os tornam metonímicos. Pérolas que, unidas, se tornam um colar.

E o protótipo das “metametamorfoses” é o próprio Nejar, que se transformou em vários livros. De fato, o corpo de Nejar parece ser apenas o cavalo em que o escritor se incorporou e a que a entidade estética não dá muita atenção, não lhe permitindo tomar cuidado algum com sua saúde ou com seu aspecto físico. A monástica ascese de seu corpo serve somente para cumprir o destino de escrever a sua obra literária. Mas essa máquina de escrever ambulante possui alma e gênio.

Vivendo em um jogo de palavras, enquanto elas existirem, Nejar estará vivo, pois elas o sustentam, assim como ao universo intercambiável envolto em “metametamorfoses”.

Com um dos grandes poetas brasileiros ainda vivos, herdeiro de tradições, aprendi, com ele, a exercer o sobressimbolítico “ato poético”, que diferencia o poeta de quem escreve versos. Muito bonitos, mas não funcionam, diria Pound. Ato poético é tudo que o poeta executa, embebido pela beleza, mesmo que não seja literatura. Minha boca foi aberta depois de saber que poetas falam como poetas e que as pessoas acham estranhas nossas palavras. Mas “estranhamento” é o que os formalistas russos, do início do século XX, definiam como a reação diante do novo. O lançamento do Sobressimbolismo é, portanto, também um ato poético.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *