Salomé e seus sete véus

Salomé e seus sete véus

Marcia Neder, psicanalista

 

A meu pai, Alfredo
A meu filho, Adriano

“Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses, no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso; …”
If – Rudyard Kipling

“Serás um homem, meu filho!”
Emoldurado e preso na parede acima da cama de meu pai ao longo de sua vida, “If”, poema de Kipling, tinha quase a sua voz. Hoje, pensando nele, parece uma carta de apresentação, uma espécie de código familiar para cada um dos seis filhos (três homens e três mulheres) que não era preciso ser ensinado. Não estava ali para ser discutido também. Talvez como inspiração, norte dos valores que realmente importavam a meu pai e minha mãe. Foi essa espécie de símbolo ou insígnia do avô e da família que meu filho escolheu do legado do meu pai quando de sua morte e, desde então, ele também o mantém preso na parede de sua cama.
Rudyard Kipling, autor e poeta britânico que ganhou o Nobel de Literatura em 1907, escreveu “If” para John, seu filho caçula então com 12 anos, que morreria aos 18 no front da Primeira Guerra Mundial.
Assim, quando há algum tempo uma voz começou a me dizer: “Meu filho, não seja um herói”, eu estava em casa. Eloquente demais para ser ignorada, a voz convidava mais a associar e interpretar do que a calar. Ela vinha participar da conversa a qual me dedico há anos em busca das imagens de homens e mulheres criadas pela cultura: que significações nosso imaginário cultural associou a feminino e masculino?
Qualquer dia, qualquer hora, aquela voz insistia. Parece ter sido ouvida por uma lembrança; vinda de outro tempo, a voz do Adriano, meu filho, me dizia: “Sabe o que me irrita quando você me pede para resolver alguma coisa [no computador]? É que, quando eu não consigo, você acha que é porque eu tô de má vontade e não porque eu não sei. Só que eu não posso tudo!”. O episódio antigo deu sentido à voz recente confirmando a direção traçada por minha carta de navegação, meu livro “Déspotas mirins: o poder nas famílias”, de onde retomo, no ponto em que os deixei, aos temas da virilidade e da masculinidade, o que inclui o patriarcado ou história da família (da maternidade-feminino, da paternidade, da criança). Era para meu filho que eu (ou a voz em mim) dirigia aquele pedido, e não para a Julia, minha filha.
A pesquisa e a escrita desse artigo já iam avançadas quando vi a notícia da morte do músico carioca Marcelo Yuka no Rio de Janeiro (19 de janeiro de 2019). Marcelo morreu com 53 anos e foi chamado de “herói” por tentar salvar uma mulher de um assalto. Atingido por vários tiros, o heroísmo rendeu-lhe os louros de uma paraplegia na qual viveu durante os 18 anos seguintes, até sua morte. O pai comentou que esse não fora seu único “ato heroico”; meses antes investira contra um assaltante para proteger outra mulher. Arrependeu-se depois, dizendo ter feito uma loucura, mas na hora não pensou.
Não sei se Marcelo se culpou por isso. Entendo que não tenha pensado em sua vida; afinal, há mais de dois mil anos nossa cultura oferece ao homem o ideal da virilidade com o qual aprende a ser um herói, muito embora a história desse ideal o transforme com a época. Alguns historiadores começam a chamar a atenção para a diferença entre virilidade e masculinidade. Sem esse ideal, como levar os homens para a guerra, século após século? Como defender, conquistar, criar Estados e nações sem guerreiros dispostos a sacrificar suas vidas? Como formar equipes de resgate de meninos presos na gruta da Tailândia (julho/2018) ou de trabalhadores e moradores de Brumadinho (janeiro/2019)?
Podemos nos emocionar com a perícia e o heroísmo da comandante Karla Lessa, de 38 anos, que pilotava o helicóptero durante o resgate em meio à lama da barragem, na imagem que virou símbolo da tragédia. Major do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais, ela é a primeira mulher do Brasil a pilotar helicópteros. Mesmo considerando a entrada das mulheres na esfera militar – e há bons estudos dedicados ao assunto – é interessante observar que nesse início do século XXI, 97% dos exércitos regulares do mundo inteiro é composto por homens. E, caso nos limitemos ao campo de combate, a presença das mulheres é ínfima: “Dentro das tropas designadas para o combate nos exércitos atuais, 99,9% são homens”, escreve Stéphane Audoin-Rouzeau, cientista social francês especializado nas guerras contemporâneas.
Por outro lado, meninas também aprendem a não pensar em si, já que seu destino “natural”, aquele que a natureza atribuiu à mulher, é o de padecer no paraíso da maternidade. Padecimento no paraíso compensado com a canonização da santa mãezinha já aqui mesmo na terra, pelo sacrifício de si que a idolatria do seu pequeno deus exige (cf. “Os filhos da mãe”). Cada mulher se avalia e será avaliada e medida pelo tanto de si que abandona, pela renúncia à existência como ser individual de que é capaz para que, em seu lugar possa emergir aquela pequena divindade que começamos a cultuar no Ocidente desde fins do século XVIII e início do século XIX. A partir daí e apesar das resistências, as mulheres acabaram aderindo à nova imagem da maternidade e da criança, e as famílias tornaram-se devotas convictas do novo culto. Mais uma vez foi “na natureza” que os defensores da “boa mãe” encontraram os argumentos para responsabilizar as mulheres pelos ritos da nova maternidade, agora estendida para uma vida muito além do parto.
Até o final do século XX muitos já eram os convertidos à nova fé. A tal ponto que um novo regime foi instituído na sociedade, conforme argumentei em “Déspotas mirins: o poder nas novas famílias”. Chamei de pedocracia esse novo regime social no qual vivemos, com ou sem filhos, tendo sido obrigada a inventar uma palavra inexistente em nossa língua – o que mostra o ineditismo do fenômeno a que minha pesquisa me levou.
Por esses dias a Gillette lançava nos EUA sua nova propaganda provocando intensa polêmica na internet e fora dela, com ameaça de boicote por homens que se sentiram ofendidos. O filme publicitário dirigido por uma mulher declara apoio ao movimento “Me Too” e desfila cenas em que homens “azaram, paqueram, cantam mulheres”, é como dizíamos aqui antes de aprendermos que, quando a iniciativa parte dos homens, o nome certo é “bullying, abuso, assédio…” Fico pensando quanto vai demorar até pedirem a cabeça da “Garota de Ipanema”, a cantada mais tocada e conhecida no mundo. Em outras cenas do comercial, meninos brigam, homens se orgulham da agressividade masculina, enquanto outros homens – sempre eles, quando se trata de iniciativa guerreira – saem a campo para proteger as mulheres ameaçadas pela “masculinidade tóxica” dos homens. Em off, uma voz masculina convoca-os a melhorar seu comportamento perguntando: “Isso é o melhor que um homem pode conseguir?”.
Vi homens indiferentes ao anúncio, “nada demais”. Outros disseram: “ridículo”. Outros ainda ofenderam-se com o que sentem como calúnia difamatória, falando deles como se fossem, todos, violentos e desrespeitosos. Ao fim e ao cabo, eles é que estariam sendo sistematicamente agredidos, insultados e desrespeitados pela disseminação desses estereótipos. Alguns armam contra-ataques, como o psicólogo clínico canadense Jordan Peterson, com imensa penetração na internet, onde costuma elevar o tom contra o politicamente correto e o identitarismo.
Duas coisas chamaram minha atenção na propaganda. Nas cenas em que mulheres estariam ameaçadas – por exemplo, quando passam em frente a um grupo de homens e um deles vai atrás – é de um homem que se espera proteção. Critica-se a “masculinidade tóxica” como um mal a combater e simultaneamente apela-se à “masculinidade tóxica”. A essa ambivalência vem somar-se uma imagem da mulher na cultura que a desenha como terna por natureza, avessa à agressividade, à violência e ao poder. Tanto é assim que até hoje apela-se sem corar a uma autoridade “paterna”, sempre com a ressalva de “mesmo que exercida pela mãe”.
Eddy de Pretto, jovem músico francês, compôs “Kid” aos 21 anos, música que se diferencia da abordagem da Gillette e na qual ele retoma algumas das injunções por ele confrontadas. Em entrevistas, o compositor refere-se a “Kid” como parte do conflito interno que teve que enfrentar e que tem na música um meio para elaborar o que o inquieta. O refrão repete “virilité abusive” e o clipe oficial pode ser visto na íntegra no Youtube. Diz uma estrofe:

« Tu seras viril, mon kid
Tu brilleras par ta force physique
Ton allure dominante, ta posture de caïd
Et ton sexe triomphant pour mépriser les faibles
Tu jouiras de la rude étincelle
Virilité abusive”1

Entre “virilidade abusiva” e “masculinidade tóxica” há a diferença de pelo menos dois mil anos de uma cultura e de um ideal que atravessaram o Ocidente e sofreram transformações. Mas há também a diferença entre uma forma de pensar que apela à dimensão histórica de um código sentido também pelos homens como opressor e uma adesão a uma forma de pensar que se restringe a patologizar a existência humana em todas as suas instâncias e a inscrever novos rótulos identitários. Patologizar a masculinidade adjetivando-a de “tóxica” tornando o homem um doente necessitado de tratamento – quando não de correção e repreensão – é uma repetição invertida da história no Ocidente que, por longos séculos, fez da feminilidade a sua doença.
“Kid” recusa a “virilidade abusiva” herdada do “legado icônico de Apolo” (“Tu tiendras, dans tes mains, l’héritage iconique d’Apollon… Et deviendras mon petit héro historique”). A música reúne o pilar do código viril que, apesar de todas as mudanças ao longo desses dois mil anos, permanecerá como sua sustentação: força, domínio de si e do outro; potência sexual, coragem e heroísmo.
“Virilidade abusiva” evoca exagero, excesso, e não é à toa que no clipe oficial da música o artista apresenta-se de jeans, tênis, sem camisa, com o peito liso, mas suado e sentado relaxadamente numa sala de aparelhos de ginástica, evocando o body-building analisado por Jean-Jacques Courtine em “Robustez na cultura: mito viril e potência muscular”. O autor apresenta a Muscle Beach em um bairro de Los Angeles, onde as classes médias celebram a cultura do músculo. A difusão desses modelos viris da hipermasculinidade tornou-se um elemento central na cultura do corpo superando os limites geográficos – espalhando-se para além da América – e os limites sexuais: o músculo “deixou de ser privilégio de apenas um sexo e o signo esmagador de sua dominação sobre o outro”.
E aqui está o alvo de ataques e contra-ataques: a dominação. Há mais de um século discute-se se a culpa pelo domínio dos homens sobre as mulheres é ou não do patriarcado. Qualquer que seja a escolha, uma pergunta se impõe: por que o patriarcado sobreviveu a tanto, inclusive em concepções psicanalíticas consideradas antipatriarcais?
Em janeiro (2019) a American Psychological Association (APA) publicou as “Novas Diretrizes para a Prática Psicológica com Meninos e Homens” em função de pesquisas que mostram a “masculinidade tradicional” como psicologicamente prejudicial, e “a socialização dos meninos para reprimir suas emoções” como “causa de danos interna e externamente”. Isso os leva a experimentar “uma pressão terrível para cumprir essas regras de masculinidade que podem ter aprendido dentro de seu próprio contexto cultural”. Daí as diretrizes, cujo objetivo é ajudar os profissionais a atender seus pacientes “apesar das forças sociais que podem prejudicar a saúde mental”.
Preocupação interessante a da APA, mas preocupante como a propaganda da Gillette. Essa abordagem psicológica, que se detém no manifesto, no “comportamento”, é prisioneira do binarismo que opõe indivíduo e sociedade e resulta sempre na vitimização de um – no caso, do menino. O psiquismo humano é mais complexo e não cabe nessa polaridade. Só de um ponto de vista superficial podemos dizer que meninos tornam-se meninos porque “aprendem regras de masculinidade” e estas regras os levam a “reprimir suas emoções” para adequar-se ao “padrão da masculinidade tradicional”. Não é exatamente isso, e veremos a dinâmica psíquica, os conflitos entre forças no próprio menino que provocam sofrimento e que não podem ser desprezados.
Ninguém se torna homem ou mulher dessa maneira plana. A “socialização” não transforma o bebê humano em adulto simplesmente porque o ser humano não é um espelho que recebe as projeções do “social”, e o “social” não é um éter desencarnado, sem corpo impondo suas regras. As importantes contribuições da abordagem comportamental americana e de sua tradição na psicologia social são limitadas pela pesquisa empírica fundamentada no uso da estatística, que identifica o psíquico/psicológico com comportamento, habilidade, atitude.
Com Freud temos um “método de investigação”, como o é a psicanálise, que nos permite mergulhar mais fundo naquilo que se manifesta como comportamento indo além dessa superfície em busca do que a sustenta. Se estamos diante de uma criação humana, procuramos a assinatura desse nosso coautor que é o inconsciente e que não depende do nosso convite para comparecer aos nossos atos, sonhos e pensamentos.
Isso posto, voltemos à diferença sexual, à superioridade “natural” dos homens sobre as mulheres, cuja “natureza” as teria feito inferiores. Que superioridade “natural” é essa que precisa ser reafirmada e reiterada pela violência? Ou, que precisa que o Estado, suas leis e suas instituições (a cultura) a torne real?

O legado icônico de Apolo: angústia e fardo
Faz tempo que a “herança icônica de Apolo” vem sendo recusada por aqueles que conseguem perceber ou vislumbrar o peso e a angústia de carregá-la e não só os seus benefícios. Uma das maneiras (inconscientes) de aplacar essa angústia é a atuação, no sentido de agir impulsivamente com uma agressão, para não pensar, lembrar ou elaborar. A angústia não desaparece; voltará sempre e sem que o conflito tenha sido enfrentado.
Em “História da Virilidade”, os autores e organizadores Alain Corbin, Jean-Jacques Courtine e George Vigarello estabelecem já no primeiro volume o que será repetido ao longo dos outros dois: a virilidade é diferente da masculinidade. Pode-se ser masculino sem ser viril. Da mesma maneira que é possível ser uma mulher viril.
Vir – o homem viril – designa ao mesmo tempo o homem e os órgãos genitais masculinos, mas também virtus, a virtude, a coragem e a firmeza moral. Seja como andreia grega, seja como vir, virilitas, virility, virilité: virilidade não é o homem, mas a “parte mais nobre”, até a “mais perfeita” do masculino.
Qual o interesse em valorizar essa diferença? Para nossos propósitos é o caminho que essa distinção abre até a hegemonia viril. Pois é a virilidade que, em si, é um ideal de superioridade do homem; é ela que, por definição, implica o domínio do homem sobre a mulher e é transmitida como um código natural. A masculinidade não se define por essa hegemonia viril ou hierarquização dos homens (entre si e em relação às mulheres). “Masculino” era apenas um termo gramatical e, diz Jean-Jacques Courtine em “Impossível Virilidade”, nos séculos XIX e XX, até por volta de 1960, exortava-se o homem a ser “viril”, o homem verdadeiro, e não “masculino”. O masculino suplantou o viril, diz ele, o que é um sinal de que algo mudou no império do macho.
Na segunda metade do século passado é que começam a aparecer estudos consistentes sobre a masculinidade; o historiador britânico John Tosh registra o desinteresse pelo tema: até meados da década de 1980 a história da masculinidade não existia na Grã-Bretanha. A ideia estava ausente tanto do discurso acadêmico quanto do popular, e não é muito difícil imaginar as razões dessa ausência. Por que fazer a história do que é transmitido como um dado da natureza?
Não por acaso Philippe Ariès e Elisabeth Badinter provocaram polêmica quando publicaram, respectivamente, os seus clássicos “A Criança e a Vida Famíliar no Antigo Regime” (1973) e “Um Amor Conquistado – o Mito do Amor Materno” (1980). Com suas fontes históricas Ariès mostrava quando foi que a criança surgiu no Ocidente como esse ser diferente do adulto como a vemos. Da mesma maneira, a filósofa, reunindo outras tantas fontes riquíssimas da história ocidental, recusou a noção de “instinto materno” inscrevendo a maternidade sob a rubrica da história.
Depois da mãe, Badinter voltou-se para o filho afirmando que, para o menino, a masculinidade define-se pela negação: o masculino é o que não é o feminino (cf. “XY Sobre a Identidade Masculina”, 1982). Essa negação é fundadora da masculinidade: “não sou a mãe, não sou a mulher” é a tarefa do menino. Nascido de um ventre feminino, o menino tem que opor-se à mãe para se constituir como indivíduo sexuado. “A formação do macho é comandada por um dado natural, universal e necessário: seu lugar de nascimento materno. Essa particularidade do menino – ou seja, ser alimentado física e psiquicamente por uma pessoa do sexo oposto – determina seu destino de modo muito mais complexo e dramático do que o da menina” (p. 45).
Ariès e Badinter forneciam, assim, importantes pontos de inflexão para todos os que estudam o ser humano. Destronar a natureza seria o mesmo que descartá-la? Não, ela só não é o determinante único da maternidade, da criança, da sexuação. O biológico, o corpo, o corpo sexuado não é descartável, e a diferença dos sexos é um limite. Vale repetir: o lugar de nascimento do macho é o ventre feminino, é o sexo oposto e este é um dado exclusivo do masculino, que determina o seu destino de um modo complexo e específico.
O corpo é condição e limite da existência do indivíduo: sexuação (diferença sexual); ordem geracional (pais/filhos) e ordem de nascimento (primogênito/caçula) são condições da existência individual. Só podemos viver como indivíduos em um corpo, com suas produções, suas questões e suas fantasias. Sangue, esperma, saliva, leite, feto, fezes, urina, vômito – tudo isso é produção do corpo, universal, atemporal e matéria-prima de mitos, ritos e fantasias que culturas desde tempos e espaços remotos continuam a registrar. Fantasias não são um supérfluo em nossa vida psíquica: elas fazem parte da sexualidade para a psicanálise. Freud não fala em um “comportamento” sexual surgido de um instinto em busca de união genital com fins de procriação da espécie. “Sexualidade” em psicanálise envolve fantasias inconscientes, desejo, pulsões parciais para além das genitais.
Se a masculinidade só tornou-se objeto da atenção dos historiadores e demais estudiosos no final do século passado, a virilidade, ao contrário, pode ser traçada em sua história desde a andreia grega e a virilitas romana. Uma como a outra formaram-se no confronto guerreiro e, apesar de suas diferenças, é possível aproximá-las nas mais importantes exigências que faziam: bravura, força muscular, firmeza moral, coragem e dominação sexual.
Os romanos tornaram a virtus da virilidade mais exigente e ainda muito difícil de alcançar: domínio, mestria, contenção, autocontrole eram indispensáveis. Reagir impulsivamente ou ser incapaz de controlar sua cólera, suas paixões, seu impulso sexual atesta falta de virilidade. O viril é, ou deve ser, senhor de si mesmo, já que pretende dominar o mundo. E o homem romano tem essa característica: domínio sobre a mulher, sobre o outro, sobre o estrangeiro. Essa soberania foi determinante no modelo latino do paterfamilias, quer dizer, na legitimação pelo Direito romano da figura do pater (diferente de vir) como chefe da família.
Na premiada série norte-americana de televisão “The Good Wife” (2009-2016), Peter Florrick é um promotor do Estado que foi preso por um escândalo sexual envolvendo prostituição e corrupção. Por isso sua mulher, Alicia Florrick, volta ao trabalho de advogada e continua a cuidar dos filhos. Escândalos sexuais de políticos americanos como Bill Clinton inspiraram a série. O ex-presidente poderia ser um exemplo da masculinidade sem virilidade.
Com o tempo a virilidade torna-se mais complicada e contraditória, como a ilustra o período moderno, questionando o modelo tradicional e valorizando menos a força do que a sabedoria, a ponderação, a prudência, o poder das palavras. A vida palaciana exige novas habilidades dos que a frequentam. O historiador e sociólogo francês Georges Vigarello, em “Virilidade moderna: convicções e questionamentos”, narra o diálogo entre uma dama e um fidalgo num baile oficial na corte espanhola do século XVII. Ela o critica dizendo que já que seus pés sabem combater, mas não sabem dançar “seria bom pendurá-los na parede junto com as armas” esperando o momento de usá-los.
O apogeu da virilidade na Europa foi o século XIX, e já no final os homens a sentiam como obrigações dando origem a ansiedades contraditórias, como o domínio das pulsões e o exercício desenfreado do vigor sexual. E sentiam-se obrigados a dobrar-se a tais exigência para afirmar sua identidade (para si mesmos e para os outros) e para mostrar “um soberbo domínio sobre os órgãos” que devem ser vigorosos, “verdadeiramente submetidos à vontade do sujeito viril”, como diz Alain Corbin em “A obrigação da virilidade, fonte de ansiedade e angústia” (p. 461).
No século XX, a virilidade está em crise, como esteve ao longo de sua história. A diferença é a Grande Guerra de 1914-1918, marco fundamental da crise da virilidade nesse século. Embora o combate seja um dos elementos fundadores da virilidade, a Grande Guerra foi um golpe mortal na virilidade guerreira porque “o aço triunfou sobre a carne”. O tiro de metralhadora reduziu a mingau o corpo do soldado e dos seus companheiros (a quem ele deveria proteger, lembre-se). Novas armas de guerra e novos modos de combate, aliados a novos elementos da urbanização, do trabalho e de outras instâncias além do movimento das mulheres, entraram em cena para provocar a turbulência cultural inédita na hegemonia viril, nessa ideia de uma superioridade natural do homem sobre a mulher. A diferença entre esta crise e as anteriores é que esta é provavelmente profunda.
A origem da crise está no interior da própria virilidade. Ela “é” crise porque, em si mesma, comporta angústia e ansiedade. Pierre Bourdieu, professor e sociólogo francês, já o havia dito em “La domination masculine” (1998): a virilidade é um “privilégio” e um fardo, uma “carga”, uma “armadilha”. Ela é um ideal que obriga cada homem a afirmar todo o tempo sua virilidade – sexo, combate, violência – e o faz carregar sua sombra de vulnerabilidade corporal e impotência sexual. O “ideal da impossível virilidade” tem tudo para ser “o princípio de uma imensa vulnerabilidade”.
Para Alain Corbin essa fragilidade pode ser mais bem percebida na imagem do homem erétil com a qual ela é associada. O homem viril tem a cabeça levantada, sexo levantado, queixo levantado, a postos para o desafio – crescer, aumentar. “É a ereção que confere ao homem a sua dignidade, o seu caráter; é ela que manifesta a sua importância; é ela que funda a sua dominação”, escreve em “A obrigação da virilidade, fonte de ansiedade e angústia” (p. 439).
Mas o princípio da ereção sobre o qual ela se funda não comporta abatimento ou queda. O tempo todo ela é assombrada pelo fantasma da falha, do fracasso. A virilidade é um ideal exigente que a cultura faz ao masculino, fonte de prazeres, mas também de angústia, ansiedade e medo.
Só é possível ser viril na posição superior – e quem mostra seus sentimentos, isto é, quem se deixa afetar pelo outro retira-se da posição de superioridade para tornar-se um igual. Essa é uma maneira de situar a angústia vivida pelos meninos e homens diferente da sugerida pelas Diretrizes da APA e pela “masculinidade tóxica”, que responsabilizam uma “pressão terrível” imposta pelo “social” para que eles cumpram as “regras de masculinidade”, entre elas “reprimir suas emoções”. Angústia, ansiedade são experiências individuais que irrompem do nosso interior, tanto quanto desejos, ciúmes, inveja e nos afetam, produzindo os comportamentos que aparecem na superfície como vindos exclusivamente “de pressões sociais”.
Não existe almoço de graça, e “reprimir suas emoções” não torna o menino ou o homem uma vítima “do social” – exceto se não puder avaliar custo e benefício e escolher. Trocam-se lágrimas, para ficarmos num dos comportamentos apontados pela Associação Americana, pelo benefício de ser o superior.
E o espectro do fracasso, sempre à espreita: para onde vai? A mulher desempenha papel importante na economia psíquica da virilidade, pois sobre ela será projetada a sombra da vulnerabilidade, e por esse mecanismo inconsciente ela é transformada em naturalmente inferior.

A boca do útero, caverna misteriosa e insaciável
“A biologia afirma, definitivamente, a hierarquia dos sexos”
Auguste Comte

“Entre os animais, é a fêmea que procura o macho; reconheça-se que também assim age a mulher… A única diferença entre ela e as demais fêmeas é que seu cio é permanente”
Proudhon, fundador do anarquismo

Desde a Antiguidade até as portas do século XX – se não até hoje (o que é a TPM?) – a mulher é o útero. Era assim para Hipócrates (460 a.C. – 377 a.C), pai da medicina, que retomou concepções médicas antigas, particularmente dos egípcios, atribuindo ao útero o sofrimento das mulheres. Foi assim para Galeno, no século I d.C., para quem o útero errabundo fazia da mulher um ser insaciável em sua voragem sexual. Órgão tirânico, peregrino, ele perambulava pelas entranhas femininas vagando pelo interior do corpo da mulher até ser satisfeito pelo sexo. Se não o fosse, provocaria sufocação ou histeria. No “Timeu” Platão diz que, “nas fêmeas, aquilo a que se chama matriz ou útero é como um ser vivo possuído do desejo de fazer filhos”.
São muitas as figuras mitológicas que encarnam a luxúria ou a mulher na história da civilização, e não é preciso retomar aqui o que já escrevi em outros lugares. Basta dizer que essa antiga associação do feminino com a sexualidade atravessará os séculos, e na Era Cristã será associada ao pecado, ao Diabo. Já no início do cristianismo, São Paulo explicou bem que essa sexualidade insaciável é a causa da inferioridade natural das filhas de Eva, e, por dois mil anos, suas palavras continuarão ecoando: o homem é a cabeça da mulher e a mulher é o corpo do homem, pois “não foi Adão que se deixou seduzir, mas a mulher que, seduzida, caiu na transgressão”.
Tertuliano, um dos primeiros “Pais da Igreja”, não deixa a mulher esquecer que ela cedeu à sedução do tentador e por isso deve permanecer sob tutela: “E ignoras que Eva és tu? Está viva ainda, neste mundo, a sentença de Deus contra o teu sexo. Vive, como se impõe, como acusada. És a porta do diabo”.2
O saber médico dos séculos XVI, XVII e XVIII seguiu fundando no útero a feminilidade. Daí a metáfora usada pela civilização medieval, que chamava o ventre da mulher de “turbilhão de Caríbdis”. A antiga teoria de Hipócrates continuava viva e atual: o útero, órgão voraz e insaciável, tiraniza a mulher e a define por sua servidão ao sexo. A mulher é só sexo, a mulher é o sexo.
Na medicina das Luzes do século XIX, a mulher é uma eterna doente, a sexualidade feminina é uma doença: puberdade, gravidez, parto e menopausa revelam a patologia do feminino. Nesse mesmo século Comte escreverá (1843) para Stuart Mill: “a biologia afirma definitivamente a ‘hierarquia dos sexos’”. O naturalismo de Comte provoca a ruptura com o amigo, que não aceita que a biologia imponha-se como a verdade última da relação entre os sexos e sim a educação.
Tamanho poder de encantamento provoca o útero e por tantos séculos que costumo me perguntar por que não foi celebrado como uma das maravilhas do mundo. “As mulheres fazem pessoas no seu corpo. Isso é loucura!”. O maravilhamento dos antigos é o nosso até hoje, tendo ou não consciência disso. Quem assim expressou sua surpresa foi Joe Rogan, homem de 51 anos, americano, comediante de stand up entrevistando, nos EUA, o brasileiro Rafinha Bastos, de 42 anos. Em um vídeo que acaba de ser gravado (fevereiro de 2019) Rogan está tentando mostrar sua luta com as ideias para conseguir chegar à ideia buscada em uma piada quando conversam sobre o processo de criação. É nesse contexto que ele diz essa frase genial:
Numa época em que cinema, tecnologia, conquistas espaciais realizam nossos sonhos mais absurdos ampliando nosso imaginário, um homem sem qualquer pretensão de descobrir a pólvora expressa, com extrema simplicidade, seu assombro com um fato da natureza humana que passa batido por tantas teorias relativas aos… humanos. Cara! Mulheres estão fazendo pessoas no seu corpo! O mesmo encantamento e assombro que os antigos expressaram em mitos e ritos da fertilidade.

Salomé e sua dança: sexualidade e fecundidade femininas
Foi nesses ritos antigos que nasceu a dança do ventre, com seus movimentos sinuosos de serpente reproduzindo o ato sexual. Maribel Portinari escreveu, em sua “História da Dança”, que a dança do ventre foi uma das principais manifestações do culto da fertilidade, também ritos da deusa-mãe. Sua “primeira” dançarina, a princesa Salomé.
O mito de Salomé é uma das melhores representações da diferença sexual. De um lado ela, a mulher – o corpo sem cabeça, o sexo, a matéria. De outro João Batista, o homem, cabeça sem corpo, espírito sem carne como a divindade, perfeito, sede da razão e do poder. A mulher é o corpo do homem e o homem é a cabeça da mulher.
Cantada em prosa e verso, invocada nos textos eclesiásticos, desenhada, pintada, filmada, temida e desejada, a filha de Herodíade correu os séculos. Até hoje a princesa continua atraindo público para vê-la dançar. Em 2018 a Opéra de Saint-Etienne apresentou “Hérodiade”, composição de Jules Massenet, e o Festival de Salzbourg abriu sua temporada lírica de 2018 com uma nova produção de “Salomé”, de Richard Strauss, que esteve também no Metropolitan Opera House, em Nova York. Em março de 2019, a obra chegou a Sidney, indo para Alemanha, Japão, Estados Unidos – enfim, parece eterna a carreira da dançarina. Antes de ir à ópera com Richard Strauss, Salomé foi pintada por artistas célebres em telas que registram versões e detalhes próprios a cada um, entre os quais Boticcelli, Caravaggio, Moreau, Picasso, Klimt, Dali. Salomé virou peça de teatro com Oscar Wilde e filme com Carlos Saura.
Oscar Wilde escreveu sua “Salomé” (1893) em francês e provocou um escândalo que levou à proibição de sua montagem na França. Duramente criticada, a peça sobre esse episódio bíblico de mais de dois mil anos, no qual a execução do santo é provocada pela vingança de Herodíade, na versão de Wilde esta é desdobrada pela vingança de Salomé, por ter sido rejeitada pelo homem que deseja. O tetrarca pede-lhe que dance e ela se recusa, até que ele diz que dará a ela o que quiser. A princesa diz que é para seu próprio prazer que pede a cabeça de Jokanaan em uma bandeja de prata, e Herodes tenta fazê-la recuar. Propõe muitos tesouros em troca, mas nesse diálogo só há uma frase: “Peço a cabeça de Jokanaan”.
Morto João, ela dirá: “vou beijar sua boca agora, Jokanaan, vou mordê-la com meus dentes, como se morde uma fruta madura. Eu não disse que faria isso? Você foi o único homem a quem amei. Todos os outros são abomináveis. Tenho sede de tua beleza. Tenho fome de teu corpo. Nem o vinho, nem as frutas podem aplacar o meu desejo”. Depois de beijar sua boca ela diz: “Havia nos teus lábios um gosto amargo. Era o gosto do sangue…?”.
Todas as versões pintadas ou encenadas até aqui continuarão fiéis à representação dos homens como vítimas das mulheres: João Batista vítima de Herodias e Salomé, e Herodes, “obrigado”, “triste”, “com medo” por “ter” que matá-lo.
Richard Strauss fez dessa peça de Wilde o libreto de sua ópera “Salomé” que estreou em 1905. O compositor manteve o texto original, inclusive a cena “escandalosa” do beijo de Salomé na boca ensanguentada de João, que continuava a provocar aplausos e repúdio.
Em 2002 Carlos Saura apresentou a sua “Salomé”. Reunindo as origens da lenda e da Espanha, usou música e dança árabe, cigana e flamenca. Luzes, cores, coreografia, espelhos, movimentos sutis da expressão facial dos dançarinos completam o essencial dos “personagens” que o diretor espanhol põe em cena para contar a sua história de Salomé.
Conforme a narrativa bíblica, diz o personagem que faz o diretor do espetáculo filmado por Saura, Herodes prendeu João Batista por causa de Herodíade, mulher de seu irmão Filipe e com quem havia se casado, motivo pelo qual foi repreendido por João: “Não podes ter a mulher de teu irmão”. Herodes queria matar João Batista, mas tinha medo da reação do povo judeu, que o considerava um profeta. No aniversário de Herodes, a filha de Herodíade agradou-o tanto com sua dança que ele jurou dar-lhe o que pedisse para repeti-la. Já instruída por sua mãe, ela disse ao tio e padrasto: “Entregue-me numa bandeja a cabeça de João Batista”. Embora triste, o rei mandou decapitar São João pelo juramento. Ao final de sua dança dos sete véus, Salomé recebeu, ainda cheia de sangue, a cabeça do homem que desejava.
A história de Salomé cativou-o, continua o diretor, porque ela é a única em que “o amor, ou melhor, a paixão levada ao extremo e a vingança são o eixo motor, a motivação de toda a tragédia”. Nessa “história de amor levado ao limite da loucura” três personagens desejam a morte de João Batista: Herodes, que o prendeu; Herodíade, porque João Batista disse à rainha que ela seria castigada como adúltera, e Salomé, que, na história bíblica, parece mais uma vítima das intrigas da mãe, mas para ele “é mais interessante pensar que é a paixão amorosa, o desmedido do amor de Salomé por São João, a luta entre o carnal e o espiritual, o que leva essa história até a destruição do ser amado”.
Entretanto a montagem de Saura conta uma versão mais complexa, menos linear da história. Os espelhos em cena – como em outros filmes do diretor espanhol – evocam outras versões ou perspectivas. Impossível desprezar os movimentos faciais sutis e a rápida troca de olhares de ódio, desejo, ciúme entre Herodes e Herodíade quando o rei mal consegue resistir ao ímpeto de se lançar sobre a princesa durante a dança do ventre, e mais ainda quando o sétimo véu cai para deixá-la inteiramente nua diante do padrasto e tio.
Com Saura estão em cena o desejo, o ciúme, a vingança, a sexualidade, o incesto, a rivalidade e a morte, dentro e fora do triângulo edípico no qual mãe e filha disputam o mesmo homem: o marido de Herodes, tio e padrasto de Salomé e vítima da sedução da enteada.
Finalmente, além do desejo do rei pela enteada, do desejo de Salomé por João Batista e do ciúme de Herodíade pela filha, Saura cria um João Batista humanizado, um homem em conflito com um desejo sexual que irrompe e que o faz sofrer. O São João de Saura é uma espécie de Santo Agostinho, o grande patriarca da Igreja, que no início da Era Cristã escreveu as suas “Confissões”. Nessa espécie de diário da guerra travada por sua conversão, Agostinho registra em detalhes a intensidade do seu sofrimento diante dos apelos da carne, que ele chama de concupiscência e combate como manifestação do demônio, venha ela do paladar, do olfato, do tato, da audição, dos órgãos sexuais, da imaginação, das lembranças. Cada um dos chamados do corpo, dos sentidos, deve ser vencido até a vitória final que é a conquista da castidade, a liberdade do espírito imaterial em relação à carne.
O João Batista de Saura não é o Adão do Gênesis. Adão é a vítima da libidinosa e voluptuosa Eva, que para saciar sua lascívia deixou-se seduzir por Satã, seu mestre. O São João do cineasta arde de desejo, lutando para não perder a cabeça. João, até então representado como objeto do desejo e vítima, com Saura torna-se um homem em luta para manter a cabeça no lugar: o domínio sobre seu desejo sexual e aquela que faz parte do seu corpo. A cabeça que Salomé recebe na bandeja de prata não é, pois, seu troféu, porque o vencedor da guerra foi ele, aquele que soube manter o “soberbo domínio sobre os órgãos” de que falava acima Alain Corbin sobre o código viril. Salomé é também a mãe, Herodíade, e assim aparece em algumas das versões da lenda; mas João Batista não é igual a Herodes. Ela, qualquer que seja ela, Herodíade, Salomé, Eva, é sempre a encarnação, a representação da sexualidade. Ela é o sexo, a vida e a morte.

“E os homens, por que eles não se cobrem
para evitar que eu fique tentada?”
“Eu ficava assombrada com a abundância de ilustres pensadores maometanos que filosofavam exaustivamente sobre a exata quantidade de pele feminina que se podia desnudar sem precipitar o mundo no caos”.
Ayaan Hirsi Ali – “Infiel”

Um dos episódios mais dolorosos de acompanhar Ayaan Hirsi Ali, entre tantos de sua vida que desvelam uma realidade desconhecida por nós, ocidentais, está no começo da sua autobiografia, logo no Capítulo 1, “Linhagens”. Em “Infiel: a história de uma mulher que desafiou o Islã” (2007), ela conta como foi a sua “purificação” pela “ablação da genitália”, quando tinha cinco anos de idade. A operação escava, raspa ou, nos lugares mais “benevolentes”, simplesmente corta e extrai o clitóris e os pequenos lábios da menina. Depois, toda a região é costurada “de modo a formar uma grossa faixa de tecido, um cinto de castidade feito da própria carne da criança. Um pequeno orifício no lugar adequado permite um fino fluxo de urina. Só com muita força é possível alargar o tecido cicatrizado para o coito”.
A “purificação” é anterior ao Islã, não é praticada por todos os muçulmanos, é adotada por alguns povos que não praticam o islamismo e é um costume ancestral em muitas regiões. Agora exilada nos Estados Unidos e vivendo sob proteção, Ayaan tem sua fundação e luta para sensibilizar o país para que proíbam legalmente a mutilação das meninas imigrantes. Como na apresentação de um caso clínico, tenho que usar aqui as suas palavras, pois o modo como se diz é tão importante e revelador da pessoa quanto o que é dito.
Quando entrou para a Escola das Meninas Muçulmanas, por volta de 9 anos de idade e começou a aprender o Alcorão, a “linda irmã Aziza” marcou a sua vida. “Era espetacular” ver Aziza totalmente coberta com o hijab (véu), e Ayaan adotou o traje que, paradoxalmente, a acordou para a feminilidade: “por baixo daquele tecido se ocultava uma feminilidade até então insuspeitada, mas potencialmente letal”. Vestia aquela roupa e “subitamente tornava-me interessante, misteriosa, poderosa”. Só o hijab poderia impedir a mulher “de excitar os homens e de levar a sociedade” ao caos. A professora ensinava que “por sermos mulheres, éramos imensamente poderosas”. Alá nos criou de tal maneira que “o cabelo, as unhas, os calcanhares, o pescoço e os tornozelos – cada pequenina curva do nosso corpo era excitante”.
Nas aulas sobre islamismo ela “ficava assombrada com a abundância de ilustres pensadores maometanos que filosofavam exaustivamente sobre a exata quantidade de pele feminina que se podia desnudar sem precipitar o mundo no caos”. A simples nudez da pele feminina “levava os homens a sentirem um incontrolável frenesi de excitação sexual. Mas nem todos os sábios estavam de acordo quanto à parte exata do rosto e das mãos da mulher que era tão desejável permanecer coberta”.
Para alguns, a fonte de provocação sexual mais poderosa da mulher estava nos olhos, que o Alcorão mandava esconder. “Outra escola de pensamento garantia que a mera visão de um par de lábios femininos, principalmente se fossem carnudos, firmes e jovens, deixava o homem em um estado de libidinagem capaz de levá-lo à danação. Havia ainda os que passavam páginas e páginas digressionando sobre a sensualidade da curva de um queixo, ou de um nariz bem-feito, ou de dedos longos e finos, e sobre a tendência de certas moças a movimentar as mãos de modo a chamar a atenção para as suas tentações. A cada limitação, citava-se o profeta”.
Ainda que todas as mulheres se cobrissem da cabeça aos pés “eis que se abria outra corrente de pensamento” para a qual isso não bastava. “Um toque-toque de saltos altos no chão podia evocar no homem a imagem de pernas bem torneadas; para evitar o pecado, elas deviam usar sapatos baixos e não fazer barulho. A seguir, havia a questão do perfume:” qualquer cheiro agradável “afastava a mente dos homens da adoração de Alá, entregando-o a fantasias pecaminosas”. A maneira mais segura de não causar dano a ninguém seria não ter contato com os homens. “Neles, as ideias eróticas, pecaminosas, surgiam sempre por culpa da mulher que as incitou. Um dia, finalmente me levantei e perguntei: ‘E os homens? Eles não devem se cobrir? As mulheres não têm desejo pelo corpo masculino? Não podem ser tentadas ao ver a pele de um homem?’. Isso me parecia lógico, mas toda sala caiu na gargalhada. Foi impossível prosseguir com as minhas objeções” (p. 143).
Renato Mezan analisa a relação do uso do véu com a dominação masculina em “Nasrah e seus irmãos: sobre os limites da tolerância”. O psicanalista retoma a análise de Fethi Benslama, analista tunisiano, sobre a opressão das mulheres no Islã e no uso do véu (hijâb). O véu “serve para proteger os homens do poder de encantamento e fascínio atribuído ao corpo feminino: ele é um ‘filtro que evita seus poderes de perturbação’. É portanto um instrumento de controle, (…)”.
Ocultar a mulher seria o modo dos homens evitarem pecar. Renato Mezan cita a Ayaan Hirsi em seu outro livro, “A Virgem na Jaula”, e a análise por ela feita da jaula das virgens: “No que se refere à sexualidade, a cultura islâmica vê os homens como feras temíveis, irresponsáveis e imprevisíveis, que perdem de imediato todo autocontrole ao ver uma mulher (…). Um homem muçulmano não tem por que aprender a se controlar. Não precisa e não é ensinado a fazê-lo (…)”. O psicanalista conclui: “o repúdio do feminino não é bom para ninguém – nem para as vítimas, nem para os algozes”.3
Ayaan foi nomeada pela revista Time uma das cem pessoas mais influentes do mundo e dirige sua fundação, AHA Foundation, lutando para sensibilizar o Ocidente sobre a opressão das mulheres e das meninas. Em especial ela tenta levantar o silêncio sobre a “mutilação genital feminina” e para o equívoco que tem sido o de respeitar essa prática considerando-a um costume religioso e cultural por países para os quais elas emigram violando suas leis de proteção à criança. O objetivo da remoção dos genitais é controlar a sexualidade das meninas e mulheres, e a opressão prolonga-se depois no velamento, na proibição de sair à rua, do direito à educação, enfim, na condenação das mulheres à invisibilidade total cuja desobediência pode ser punida com a morte. A palavra Islã, ela aprendeu desde cedo, significa submissão, nome do curta-metragem que fez com o holandês Theo Van Gogh, assassinado por tê-lo feito.
Aos 23 anos, fugindo de um casamento no Canadá arranjado pelo pai, Ayaan pisou sem véu pela primeira vez um espaço público. Era um campo de refugiados da Holanda e surpreendeu-se: “Não vi nenhum homem perder a cabeça”.
Quem é você? “Sou Ayaan, filha de Hirsi, filho de Magan, filho de Isse, filho de Guleid, filho de Ali…”: aos cinco anos ela conseguiu enumerar seus ancestrais até trezentos anos, aprendendo a recuar até oitocentos anos nos ancestrais do seu pai.
Aprendia assim que ela era ele – um ele remoto, mas sempre e apenas um ele que se perde no tempo e no qual não há lugar para ela, exceto como sombra dele. Quem é você? Sou a sombra de um homem, do qual descendo diretamente, sem passar pela feminilidade, tal como Atena parida da cabeça de Zeus.

Zeus e o parto de Atena: o legado de Apolo
Aquele que se costuma chamar de filho, não é gerado pela mãe
Apolo nas “Eumênides”

“És deus, e nos roubas um matricida”, disse a Apolo o coro das Erínias nas “Eumênides”, tragédia de Ésquilo cuja história é a do julgamento de Orestes, filho de Clitemnestra e Agamenon.
Orestes matou a mãe para vingar seu pai, Agamenon, por ela assassinado. Perseguido pelas pavorosas Erínias gregas ou Fúrias romanas, deusas vingadoras dos crimes contra a mãe e o pai, recorreu a Apolo. O deus o levou para o julgamento presidido por Atena apresentando-se como defensor do matricida “e, mais ainda, como responsável máximo pelo crime de morte contra sua mãe”. Foi ele, Apolo, que comandou o matricídio, e no debate com o Corifeu defende seu protegido com a teoria que retira da mãe o poder fecundante para atribuí-lo, inteiro, ao pai:

– “Aquele que se costuma chamar de filho
não é gerado pela mãe – ela somente
é a nutriz do germe nela semeado –;
de fato, o criador é o homem que a fecunda;
ela, como uma estranha, apenas salvaguarda
o nascituro quando os deuses não o atingem.
Oferecer-te-ei uma prova cabal
de que alguém pode ser pai sem haver mãe.
Eis uma testemunha aqui, perto de nós
– Palas, filha do soberano Zeus olímpico –,
que não cresceu nas trevas do ventre materno;
alguma deusa poderia por si mesma ter
produzido uma criança semelhante?”
Apolo, nas “Eumênides”, 870-885

“Nasci sem ter passado por ventre materno e estou totalmente do lado do pai”, diz Atena. Não há mãe a quem devo a vida. Nasci de um deus, nada devo à sexualidade feminina: ela não nasceu do útero de uma mulher, mas irrompeu como relâmpago da cabeça de Zeus. A deusa é a prova de que não é a mãe que engendra sua criança, mas o homem. A mãe a conserva como uma estrangeira. Ela é a única entre os habitantes do Olimpo que não têm mãe, diz Mircea Eliade. Conforme a narrativa de Hesíodo na “Teogonia”, Zeus engoliu sua mulher grávida, Métis, a deusa da inteligência, e uma forte dor de cabeça pôs fim ao período de gestação-digestão. Auxiliado por Hefesto, o deus ferreiro que lhe abriu uma fenda na cabeça, Zeus pariu Atena, assim viril, conforme suas palavras.
Duas vezes Apolo coloca-se do lado do pai: ao atribuir a si a responsabilidade pelo matricídio e ao defender Orestes com a teoria da gestação paterna. Esse é o legado do deus Apolo.
A teoria da gestação paterna não é uma criação de Ésquilo; ele apenas a colocou na boca de Apolo e de Atena. Aristóteles também a repetia que os antigos a viam como incapaz de gerar vida, um ser estéril, com o corpo “inacabado como o de uma criança” e “desprovido de sêmen como o de um homem estéril” (Aristóteles). O poder de procriar era tão somente do homem. Essa teoria dos antigos, depois repetida por Aristóteles, teve vida longa entre leigos, médicos e parteiras. Ainda no século XVIII as parteiras tentam convencer as mulheres de que elas pouco servem para gerar um filho: o filho continua a ser do pai.
O fascínio provocado pelo corpo feminino capaz de criar outros humanos nunca foi um dado natural “naturalmente” aceito. Esse poder fecundante, poder criador que tem o corpo feminino, continua a ser tão assombroso quanto nos tempos mais remotos e capaz de provocar sentimentos tão diferentes quanto ambivalentes. Será por acaso que a punição divina escolhe como alvo, justamente, a natureza criadora de Eva e suas imitadoras, amaldiçoadas com as dores do parto? “Eu multiplicarei os sofrimentos das tuas gravidezes, no sofrimento darás luz os teus filhos”.
A antropóloga francesa Françoise Héritier chamou esse poder das mulheres de o poder de “engendrar os dois sexos”, de “privilégio exorbitante”. Em sua teoria da diferença sexual ou “valência diferencial dos sexos” ela atribui a dominação masculina ao poder fecundante da mulher; a dominação masculina surgiu para controlar esse poder feminino de fecundidade. Isso é fundamental na teoria de François Héritier: a causa da hierarquização da diferença masculino/feminino é uma das principais diferenças entre ela e Pierre Bourdieu sobre a dominação masculina. Para a antropóloga, é da vontade dos homens de controlar a fecundidade feminina que a dominação masculina surge.
A suposição da naturalidade da superioridade do homem, ou da hierarquização da diferença masculino/feminino, é fundamental para garantir essa supremacia e controlar as mulheres – e sua sexualidade, acrescento eu. A antropóloga vai além ao afirmar que é a dominação masculina que vai permitir que os homens realizem o desejo de engendrar homens viris, e é esse poder de gerar meninos que funda a virilidade e, pois, o legado viril.
O mito viril ou a lenda do engendramento dos machos por eles próprios – que aqui estou chamando de legado de Apolo – situa-se no fundamento antropológico da cultura. E vem contestar o privilégio exorbitante da criação, que dá às mulheres a “capacidade incompreensível” de criar “corpos semelhantes, mas também diferentes delas próprias: os homens, eles também, podem criar outros homens, ou mais exatamente, da parte mais masculina destes, daquilo que faz o homem dentro do homem, a virilidade. As mulheres podem muito bem dar à luz meninos assim como os homens reproduzirão homens viris”, explica Jean-Jacques Courtine em “Robustez na cultura: mito viril e potência muscular”, p. 572.
O legado de Apolo é, pois, uma teoria imaginária da geração de machos por eles mesmos pela transmissão da virilidade entre eles. O código da virilidade se transmite de pai para filho, com lugares e ritos de passagem exclusivamente masculinos (bordéis, quartéis, fratrias, gangues, mesa de pôquer, pesca, caça, enfim, ritos, nome e lugares de homens).
Cabe aos homens escolher, para concluir como Jean-Jacques Courtine, se querem continuar carregando essa carga milenar que é o preço que pagam por sua superioridade, o sexo superior mimetizando o pênis em ereção, ou se desejam livrar-se desse peso renunciando a suas vantagens.

A autora é pós-doutora em Psicologia Clínica e autora de “Os filhos da mãe”
marcia@marcianeder.com.br

NOTAS DE RODAPÉ

1. Você será viril, meu kid (minha criança/menino)
Você brilhará por sua força física
Seu porte dominante, sua postura de caïde (chefe)
E seu sexo triunfante para desprezar os fracos
Você vai gozar da sua faísca primitiva
Virilidade abusiva

2. Cit. in Monique Alexandre, “Do anúncio do Reino à Igreja. Papéis, ministérios, poderes femininos” in História das Mulheres, vol. I, p. p. 511

3. Renato Mezan em “Nasrah e seus irmãos: sobre os limites da tolerância” in Sociedade, Cultura e Psicanálise, Renato Mezan, Editora Karnac – Edição do Kindle.
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