Roca – O Homem Pedra

Roca – O Homem Pedra

Gustavo Maia Gomes, economista

 

Meu fascínio pela Argentina aumentou muito desde a última vez que lá estive, com minha mulher, Lourdes Barbosa, em julho de 2017. Visitando os sebos de Buenos Aires, encontrei “Soy Roca”. É um livro excepcional. De leitura agradável, descreve uma era de intenso crescimento econômico e grandes transformações políticas, demográficas e sociais vividas por um dos seus protagonistas.

O país de Julio Roca
Que país era a Argentina, entre meados do século XIX e a primeira década do século XX? Especialmente, como se comparava ao Brasil? Desde logo, em população, no ano de 1870, nossos vizinhos (1,8 milhão) eram muito menos numerosos do que nós (9,8 milhões); 40 anos depois, a diferença percentual tinha diminuído, mas ainda era muito grande (Maddison).
A principal semelhança da Argentina com o Brasil não consistia em terem sido ambas as economias “especializadas” na exportação de produtos primários (carnes, lã, trigo e milho, no caso da Argentina; açúcar, algodão, café e borracha, no caso do Brasil), mesmo porque especializadas elas nunca foram. Com efeito, em torno de 1850, as exportações respondiam por apenas 20% do PIB (Produto Interno Bruto) da Argentina (10%, do Brasil.) E apesar de que, em 1913, no auge do chamado modelo exportador, a participação das exportações nos PIBs de cada país tivesse se elevado a 30%, mesmo assim, ainda, dois terços do que era produzido se destinavam ao consumo interno. (Bulmer-Thomas)
A característica comum mais importante entre as economias da Argentina e do Brasil, nessa época, foi a de que a expansão da demanda internacional representou a principal fonte de crescimento disponível aos dois países. Nisso, os vizinhos se deram melhor do que nós. Conseguiram uma taxa maior de crescimento das exportações (6,1% ao ano, em 1850-1912; contra 3,7% do Brasil) e evitaram a excessiva concentração em um único produto. Como consequência desse duplo êxito, a Argentina experimentou taxas de crescimento do PIB muito maiores que as do Brasil. Partindo, em 1870, de um produto interno bruto que pouco ultrapassava um terço do PIB brasileiro, a economia argentina, em 1900, já era do mesmo tamanho que a brasileira. E, em 1910, passou a ser 50% maior, mesmo sendo o Brasil muito mais populoso e territorialmente extenso. (Bulmer-Thomas)
O produto por habitante do país vizinho foi maior que o brasileiro durante todo o tempo em que Julio Roca andou pelo mundo. E foi ficando ainda maior, com o passar do tempo, até alcançar níveis surpreendentes. Em 1910, por exemplo, a Argentina tinha um PIB per capita ($3.822) maior do que os da Dinamarca ($3.705), França ($2.965), Alemanha ($3.348) e Itália ($2.332). E não fazia feio diante dos Estados Unidos ($4.964) e do Reino Unido ($4.611) (Maddison). Esse crescimento, e o que ele significava em realizações materiais, impactou positivamente a psicologia dos portenhos, em especial, porque as riquezas convergiam para Buenos Aires. Falando por meio de Félix Luna a respeito do país que entregava aos argentinos ao final de seu primeiro mandato presidencial (1880-86), assim se expressou Julio Roca:

Um otimismo irresistível, um frenético entusiasmo contagiava a todos. Aos argentinos, que viam a súbita transformação de nossa modesta República em uma nação rica e opulenta, e também aos estrangeiros, que embarcaram na aventura fascinante do progresso, da riqueza e da transformação mágica de suas vidas. (Luna, pág. 223, edição de bolso)

Mudavam os hábitos, alterava-se a arquitetura, instalavam-se bordéis dirigidos por madames francesas. Numa velocidade espantosamente rápida, a Argentina se europeizava.

As formas crioulas simples e sóbrias em que todos nós havíamos sido criados foram deixadas para trás, e hábitos europeus foram adotados, que impuseram maneiras de receber e comer, de se vestir e se divertir, de falar e escrever. (Luna, pág. 223)

Não apenas realizações econômicas ou mudanças de costumes: a era Roca foi, também, de grandes transformações demográficas devidas, sobretudo, ao afluxo de imigrantes europeus. Seis milhões deles, entre 1870 e 1914, principalmente, espanhóis e italianos, dos quais metade permaneceu no país. Em seu devido tempo, essa gente iria alterar não apenas a demografia, mas também a dinâmica política da Argentina.

A história começa em Tucumán
Julio Argentino Roca (1843-1914) nasceu em San Miguel de Tucumán, atualmente, a quinta maior aglomeração urbana do país, atrás de Buenos Aires, Córdoba, Rosário e Mendoza. Em meados do século XIX, era um lugar pobre. Como, aliás, toda a Argentina, com a exceção parcial da província de Buenos Aires que, graças ao porto e à localização geográfica, concentrava o comércio internacional.
Aos 13 anos, ou seja, no início de 1857, Roca foi estudar em Concepción del Uruguay, Província de Entre Rios, no Colégio fundado em 1849 pelo general Justo José de Urquiza (1801-1870), caudilho (líder político com força militar própria), herói local e nacional, presidente da República de 1854 a 1860. A instituição educacional entrerriana começou a existir seis anos antes do Colégio Nacional de Buenos Aires. Ambos desempenharam papéis importantes na formação da classe dirigente daquele país.

Em Concepción del Uruguay, tudo estava organizado para que nos sentíssemos bem encaminhados na vida. Meninos da mesma idade que, a despeito de desentendimentos ocasionais, se sentiam unidos por serem alunos do melhor colégio desta parte da América. (Luna, pág. 22)

Tanto o colégio de Concepción del Uruguay quanto o de Buenos Aires ganharam personalidades próprias devido a reitores notáveis. Alberto Larroque “foi [em Concepción del Uruguay] o que Amadeo Jacques foi em (…) Buenos Aires. (…) Sob sua direção, os meninos, mesmo ainda sendo garotos, sentiam que estavam vivendo um processo de formação para a responsabilidade de serem líderes”.

Eu havia sido um aluno regular na escola franciscana de Tucumán, mas no Colégio encontrei matérias que me fascinaram: história antiga, geografia, latim, filosofia. Nessas áreas, me senti confortável e consegui obter várias notas excelentes, tanto em espanhol como em gramática. Devorava-me a ansiedade de ler e procurei livros por toda parte. (Luna, pág. 24)

Com 16 e 18 anos, antes mesmo de terminar o curso, Julio (que havia optado por receber formação militar) participou de duas batalhas na guerra entre a Confederação Argentina e a província de Buenos Aires. Lutou pelos confederados, cujo chefe supremo era Urquiza. Venceu uma (Cepeda, 1859) e perdeu a outra (Pavón, 1861). Depois dessa derrota, a Confederação desmoronou. Bartolomeu Mitre (1821-1906) assumiu o comando do país e, em julho de 1862, a Presidência da República, cargo que ocuparia pelos próximos seis anos. Logo após a batalha perdida, por seu turno, o jovem Roca precisou decidir sobre a vida:

Oficial de um exército inexistente, defensor de um governo em colapso, o que eu faria? Voltar para a escola era absurdo, e meus estudos, por outro lado, estavam quase terminados. (…) Então, para onde ir senão para Buenos Aires? Lá havia meu tio Marcos [Paz] e meus irmãos mais velhos; eles me aconselhariam e poderiam me ajudar. (Luna, pág. 32)

Marcos Paz havia sido aliado de Urquiza, mas tinha espírito conciliador e liberal. Buscando apaziguar as relações entre as províncias e Buenos Aires, após a Batalha de Pavón, Mitre convidou-o para integrar sua chapa como candidato a vice-presidente. Foram eleitos. Ele logo redirecionou o sobrinho para defender a nova ordem, que precisava se consolidar no país. Roca foi, assim, designado para secretariar o tio numa missão a Córdoba. O objetivo era desalojar do poder os remanescentes do governo derrotado.

Nós faríamos o caminho inverso ao que eu tinha viajado algumas semanas antes. Mas, a inversão do itinerário definia toda a situação em que eu vivia agora. Dois meses antes, eu estava lutando contra Buenos Aires; agora eu estava a seu serviço. (…) Eu teria dado minha vida por Urquiza e agora estava colaborando em um projeto cujo propósito era eliminar os remanescentes da influência de Urquiza no interior. (…) Eu posso ter me sentido algo oportunista, nas profundezas mais escondidas do meu espírito, (…) mas devo dizer que nunca foi minha vocação me juntar ao lado dos vencidos. (Luna, págs. 38-39)

Tudo aconteceu como Mitre havia imaginado em seus melhores sonhos. A quase nenhuma resistência oposta aos enviados de Buenos Aires por parte dos antigos aliados de Urquiza, entretanto, surpreendeu Roca. Devido a essa missão e, sobretudo, a outra, secreta (destituir de todo poder al coronel Martín Cornejo, comandante das forças nacionais de Salta, capital da província de mesmo nome), que lhe viria a ser confiada por Domingo Sarmiento (1811-88, presidente, 1868-74), Roca passou a ser um ator e, pouco tempo depois, protagonista da política nacional, comandada por Buenos Aires.
Nos decênios seguintes, incluindo os anos em que, por duas vezes, ele foi presidente da República (1880-86 e 1898-1904), a Argentina experimentaria impressionante crescimento econômico, permeado, entretanto, pela instabilidade política evidenciada em frequentes revoltas provinciais. Criar e impor as leis e instituições nacionais que lastreassem a construção de um Estado nacional forte foi o desafio ao qual Julio Argentino Roca dedicou a maior parte da sua vida.

A instabilidade política
Em 1861, o tucumano Roca, fugindo da derrota que aniquilara o exército e o governo confederados, chegou a Buenos Aires. Era a segunda visita, menos de quatro anos depois de ali ter passado uns dias, em seu caminho para o colégio em Concepción del Uruguay. Naquela ocasião, diz ele,

Minha [primeira] passagem pela cidade portenha foi rápida e marcada pelas sensações que podem pesar sobre uma criança separada dos seus pais; agora meu humor era muito diferente. (…) Buenos Aires me encantou desde que cheguei. (Luna, pág. 36)

Passa, então, a descrever aquilo que mais o impressionara na metrópole ainda desprovida de muitos imponentes edifícios, que apareceriam mais à frente no tempo.

Não era a arquitetura que impressionava o visitante, mas o movimento, a atividade, o formigamento das pessoas. (…) As carruagens, as lojas, os teatros, os cafés, a iluminação a gás nas ruas centrais, a ferrovia que a cruzou para o Oeste, o espetáculo do rio com centenas de navios dos mais diferentes portos e bandeiras, tudo dava a sensação de poder em expansão irresistível. (Luna, pág. 36)

Admirando esse movimento, Julio compreendeu porque Buenos Aires antepunha tantas resistências a integrar-se com o resto do país, sendo essa a causa subjacente a muito da instabilidade política e das guerras internas que marcaram a história argentina nos 1800. [Era tanta a] diferença entre o progresso da província rebelde e a pobreza do interior, que dificilmente Buenos Aires aceitaria associar-se incondicionalmente aos treze ranchos. (Luna, pág. 36) Para os portenhos,

Buenos Aires fora chamada a ser a potência mais importante da América do Sul. Como, então, eles [os portenhos] iriam unir seu destino com o daqueles pobres povos do interior, atrasados em tudo, carentes de talentos, invejosos, medíocres? (Luna, págs. 36-7)

Com certeza, havia um fator econômico subjacente às disputas políticas entre Buenos Aires e as outras províncias: a cidade portenha controlava a aduana, principal fonte de receitas dos governos de então. Qualquer ameaça a esse monopólio, como a perspectiva de repartir as rendas do comércio exterior com as demais províncias num sistema federativo, era vista com desconfiança pela região mais rica. Os distúrbios locais ameaçavam a estabilidade política do país, prejudicavam a atividade econômica e inibiam a entrada de gente e de capitais. Comprometiam, enfim, a sustentação em longo prazo do crescimento econômico que a todos beneficiava.

A Conquista do Deserto
No Brasil, a tomada do território aos índios, necessária para a expansão da civilização de origem europeia, já estava, para todos os efeitos práticos, completada no início do século XVIII, com a vitória dos colonos brancos na Guerra dos Bárbaros (1683-1713). Na Argentina, em contraste, a mesma conquista somente se consumaria em 1879, como resultado da campanha militar liderada por Julio Roca, no que veio a ser chamado de a Conquista do Deserto.
Tratava-se de um tema longamente debatido e que já tinha sido objeto de ações anteriores, na Argentina independente. Juan Manuel Rosas (1793-1877, caudilho de Buenos Aires que comandou a província e o país na maior parte da década de 1820) havia tentado resolver o problema dos índios que atacavam as fazendas de gado com um misto de repressão e subsídios. No governo Sarmiento (1868-74), o ministro da Guerra e da Marinha, Adolfo Alsina, apostava em uma estratégia defensiva. Acreditava que melhorando os fortins, encurtando suas linhas, unindo-os com o telégrafo, se estabeleceria uma fronteira invulnerável a que finalmente os selvagens respeitariam. (Luna, pág. 124)
Bem outra era a posição de Julio Roca a respeito do mesmo assunto, como ele a expressou (via Félix Luna) de uma maneira simples e direta:

Nenhum país em expansão abdica da possibilidade de incorporar espaços vazios em seu território: foi isso que os Estados Unidos fizeram com o Oeste e a Rússia com a Sibéria. Poderíamos nos sentir inferiores aos ianques ou aos russos? (Luna, pág. 104)

A verdade é que a expansão da área dominada pelos brancos já vinha acontecendo desde os primórdios da colonização. Contra a progressiva perda dos seus territórios de caça, os índios reagiam roubando gado, matando gente, raptando mulheres e crianças, incendiando fazendas. Esses conflitos parecem ter se exacerbado nos anos 1870, possivelmente devido às condições favoráveis à expansão da pecuária voltada para a exportação.
Em 1871, os índios atacaram em toda a extensão da fronteira, desde o sul de Mendoza até Carmen de Patagones. Em março de 1872, o cacique dos mapuches devastou as cidades de Vinte e Cinco de Maio, Alvear e Nove de Julho, com 6.000 lanceiros. (…) Pobres selvagens! Eu queria ver esses juízes do futuro em frente aos bairros devastados, as moradias incendiadas, os cativos retirados de suas famílias, as riquezas destruídas… (Luna, 11, pág. 103) Com a morte do cacique Calfucurá, contido e derrotado em sua incursão aos redutos brancos, os índios estavam na defensiva, mas prontos a se manifestar a qualquer momento. Daquela gente, pensava Roca, não se podia esperar nada de bom.

Os índios sempre foram abomináveis para mim. (…) Como povo, achei-os dignos do maior desprezo. Por várias razões. Em primeiro lugar, porque não consigo entender como, depois de três séculos de contato com a civilização, não puderam aproveitar nada que não fosse o pior: o álcool, o vício do jogo, as doenças venéreas, as artes do engano. (Luna, pág. 101)

Roca as odiava, sobretudo, porque aquelas tribos miseráveis impediam aos brancos de ocupar de maneira efetiva as terras ao sul da fronteira até o Rio Negro e, mais abaixo, a Patagônia. Quando, em 1878, conseguiu reunir apoio político e respaldo da opinião pública (além da concordância do presidente Avallaneda), o general partiu para a sua missão. E a concluiu com êxito, jamais encontrando as resistências enormes que muitos haviam antecipado: a posteridade surpreenderá quando historiadores apontarem que o problema secular do índio terminou com uma caminhada quase sem confrontos. (Luna, pág. 144) Em 25 de maio de 1879, às margens do Rio Negro, limite prefixado para aquela etapa da guerra, os soldados comemoraram:

É que todos nós sentimos naquela época protagonistas de um feito nacional. Terminamos uma obra que nem os espanhóis, nem os governos patrícios, nem Rosas, Urquiza, Mitre ou Sarmiento tinham conseguido realizar. Nós estávamos dando à Pátria no dia de seu aniversário, 500.000 quilômetros quadrados, para que naquela área enorme ela aumentasse. (Luna, pág. 150)

A campanha militar ainda durou por mais seis anos, tendo terminado com a completa eliminação do perigo antes representado pelos índios. Claro que houve protestos, na época (mas não devem ter sido eficazes, pois Julio Roca voltou da frente de batalha com a candidatura presidencial já lançada, em Buenos Aires; seria presidente, um ano depois) e os há, sobretudo, nos dias atuais. Por exemplo, numa publicação de 26 de julho de 2017, no site Historia Siempre, se pode ler que: um verdadeiro genocídio foi perpetrado.
Roca viu as coisas de uma forma diferente. Recorrendo, mais uma vez, a Félix Luna, o general vitorioso teria dito algo muito próximo disso:

O importante da Conquista não foi a aniquilação do selvagem, que já havia sido derrotado, mas o fato de se ter adotado uma atitude enérgica de posse naquela parte da Argentina que, até então, não era nossa de fato. (…) Foi um ato possessivo, a afirmação ritual da soberania, e não uma expedição militar. (Luna, pág. 152)

Opiniões fortes como as que Julio Argentino tinha em relação aos índios e ações enérgicas comparáveis às que ele empreendeu (e justificou) não são fáceis de encontrar, nos dias de hoje. Essa é uma razão pela qual as expus aqui, em certo detalhe. A outra é que, se se trata de avaliá-las moralmente, ambas – opiniões e ações – precisariam ser examinadas desde uma perspectiva histórica menos contemporânea do que aquela adotada pela matéria citada acima, que qualifica de genocídio a Conquista do Deserto.

A História real e a idealizada
Um comentário mais extenso merece ser feito. Não apenas na Argentina, no Brasil, ou nas Américas, tornou-se moda enaltecer os fracos e oprimidos. Em princípio, nada tenho contra isso, mas observo que tal atitude, levada ao extremo, estimula uma parte da população a viver da própria pobreza e incapacidade (arrancando esmolas ou compensações de consciências pesadas), em vez de lutar por superá-las. Também me incomoda quando a ideologia dos coitadinhos agride os fatos (como, frequentemente, ocorre) e pretende impor uma leitura romantizada da História. Interpretação essa que, no extremo do pensamento politicamente correto, desemboca na tese de que os conquistadores deveriam indenizar os índios pelo seu quase extermínio, e os negros africanos, pela escravidão a que lhes submeteram os brancos.
Pensando, especificamente, na Conquista do Deserto, é razoável emitir juízos de valor sobre ações desse tipo? Na época em que elas estão sendo decididas ou executadas (e quando, consequentemente, ainda podem ser modificadas), sim; passados 138 anos, não o creio. Parece mais adequado lembrar que a História, em todos os lugares e épocas, foi feita dessa forma. De modo que, se formos distribuir culpas, não escapará ninguém. Onde houve disputa por território, recursos naturais ou quaisquer ativos de importância econômica, a solução da pendência sempre se deu, no final das contas, pela força. Essa generalização inclui a história de índios e de negros, os quais, se foram dominados na América pelo invasor europeu, haviam vencido guerras ou promovido a escravidão em muitas ocasiões anteriores.
Dou exemplos. Os nativos massacrados pelos espanhóis no México tinham uma história de lutas das quais haviam saído vitoriosos. “Povo guerreiro, os astecas (…) conquistaram outros povos da região. Em 1428, já formavam um império que ocupava a região do México atual, do Atlântico ao Pacífico, com 38 províncias e cerca de 500 cidades”. Por sinal, os astecas eram brutais e, por isso, odiados pelos índios a que haviam subjugado, uma circunstância da qual Hernan Cortés soube tirar proveito. A mesma coisa ocorreu com os índios do Peru e região andina: “Por volta do século XV os incas estabeleceram um processo de expansão territorial que buscou os planaltos encravados entre as montanhas andinas e as planícies do litoral do Pacífico. Sob a tutela do imperador Pachacuti Yupanqui, outras populações foram militarmente subordinadas ao poderio inca. Com isso, a civilização passou a tomar a feição de um grande império”. Que, igualmente, nunca foi excessivamente bondoso com os conquistados (História Mais).
O próprio cacique Calfucurá, a que já fiz referência, derrotado na Argentina ainda antes da Conquista do Deserto, foi dominador de outros povos indígenas. No Brasil não foi diferente. Quando os tripulantes da armada de Cabral desembarcaram na Terra de Santa Cruz, os tupis e os guaranis efetuavam denodados esforços para completar a conquista do litoral. A quem tinham expulsado da quase totalidade desse território? Aos índios gês, depreciativamente referidos por eles como “tapuias” e pelos jesuítas como povos de língua travada. (Couto, págs. 48-49)
Se a ideia de indenizar os índios brasileiros pela conquista de suas terras vier a prevalecer, quem deveria ser indenizado? Os tupis, expulsos pelos portugueses, ou os gês, expulsos pelos tupis? E quem deveria pagar a indenização?
Os negros, escravizados pelos brancos no Brasil, também querem ser compensados. Entretanto,

Apesar de o tráfico negreiro ser geralmente caracterizado como obra dos países europeus e americanos, os africanos também participaram ativamente dessa atividade. O tráfico exigia uma organização comercial complexa para a venda e o transporte dos escravos. Essa organização encontrava-se baseada nos três continentes do Atlântico. Na África, ela concentrava-se nas mãos dos próprios africanos, que determinavam quem embarcava ou não para o Novo Mundo (Fascinante Universo da História).

Portanto, conforme nos lembra a mesma fonte, o tráfico transatlântico de escravos desenvolveu-se em parte graças à participação dos próprios africanos. Na História politicamente correta, os vencidos devem ser indenizados. Talvez, devessem, mesmo, contanto que fossem irretorquivelmente identificados, o que torna a ideia uma impossibilidade prática. Na História real, os mais fortes vencerão; sua vontade prevalecerá. O resultado será sempre justo? Claro que não, mas é assim que as coisas acontecem. Com o passar do tempo, a conquista converte-se em direito.

O primeiro governo Roca (1880-86)
Julio Roca voltou da campanha contra os índios com a candidatura lançada a presidente da República. Na época, decisões desse tipo eram tomadas por um grupo muito reduzido de pessoas e ratificadas pelo Congresso escolhido em eleições manipuladas. Nem sempre, contudo, a elite governante produzia candidatos por consenso. Com frequência, as rivalidades regionais obrigavam a que o postulante vitorioso tivesse de ser imposto pela força das armas. Para tentar impedir que Roca assumisse a presidência, em 1880, o então governador de Buenos Aires, Carlos Tejedor, botou sua milícia nas ruas, provocando uma guerra civil: foram três dias de batalhas em diferentes pontos dos arrabaldes da cidade, mas o número de mortos, mais de 3.000, prova que não faltou valentia. (Luna, p 182).
A vitória do governo nacional nessa guerra civil de três dias abriu o caminho para a federalização da cidade de Buenos Aires e a consequente criação de uma nova capital (La Plata) para a província. Ao recordar, em 1912, as realizações principais de seus primeiros seis anos na Presidência (1880-86), assim se expressou Julio Roca:

Não vou aborrecê-lo com o relato detalhado do meu governo, [mas] posso afirmar com orgulho que, em 1880, foram lançadas as fundações da Argentina moderna; aqueles que me substituíram na cadeira de Rivadavia não fizeram nada além de construir sobre fundações que eu implantara e cuja solidez foi bem comprovada ao longo de três décadas. (Luna, págs. 196-97)

Num assomo de modéstia (que não parece ter sido seu forte), o tucumano reconheceu que o ambiente internacional facilitara o sucesso de sua administração:

É verdade que as condições externas e internas eram, naquela época, excepcionalmente favoráveis. Uma era de paz e prosperidade estava acontecendo em todo o mundo. (…) Havia muitos capitais disponíveis na Europa… Grandes massas de imigrantes estavam dispostas a se mudar para o continente americano, em busca de novos horizontes, e apenas os Estados Unidos e a Argentina ofereciam condições ótimas para eles. Novas invenções, como o telefone, a lâmpada elétrica, os altos-fornos, o frio artificial, o vácuo de alimentos, abriram campos promissores para a engenhosidade humana. Mas, este quadro favorável não teria sido útil se não tivéssemos oferecido um país como aquele que apareceu naquele momento aos olhos do mundo, modelando-o em uma atmosfera de tranquilidade, liberdade e segurança. (Luna, pág. 197)

De qualquer modo, a situação externa era favorável, e uma parte das tensões internas estaria atenuada nos próximos anos, graças à subjugação de Buenos Aires pela força militar do governo nacional. Nessas condições, a tarefa dos responsáveis pela Nação, em 1880, foi claramente delineada. Em primeiro lugar, era essencial fortalecer a força do Estado, para que sua função propulsora, administrativa e arbitral fosse exercida com a maior capacidade possível. (Luna, pág. 197)
O governo criou as repartições necessárias para garantir sua institucionalidade: o Banco Hipotecário, o Registro Civil, o Conselho Nacional de Educação, entre outras. Contra a oposição da Igreja Católica, a Lei 1420 impôs o caráter obrigatório, gratuito e laico à educação primária: embora valesse apenas na Capital Federal e nos territórios nacionais, o espírito da Lei 1420 foi estendido a todo o país. (Luna, pág. 210) Trinta anos depois de promulgada a Constituição, a Argentina ainda não tinha moeda própria: passou a ter no primeiro mandato de Roca. Um tratado com o Brasil para resolver pendências de limites foi assinado (em 1885). Também foram feitas importantes obras na Capital Federal: avenidas, prédios públicos; o porto foi completado e modernizado. A construção, em pouco tempo, de toda uma nova cidade (La Plata) para servir como capital da província de Buenos Aires foi entregue à iniciativa de Dardo Rocha, cujo desempenho mereceu elogios de Roca.
Aquele foi, também, um tempo de mudanças tecnológicas marcantes, o que contribuía para infundir otimismo.

Seria interminável rever as notícias daqueles anos. Algumas tinham a ver com formas de vida, individuais e coletivas. A generalização da luz elétrica, por exemplo… Ou o telefone: como é maravilhoso transformar essa manivela que fez uma voz feminina aparecer no fone de ouvido e pedir a ela para se comunicar com o Fulano ou Mengano, a vários quarteirões de distância! Uma enorme quantidade de jornais apareceu em todos os lugares. Novas escolas e faculdades foram instaladas. Instituições de todos os tipos foram fundadas… Foram construídos teatros em todas as cidades importantes; foram construídas sedes para sociedades de ajuda mútua, geralmente de italianos e espanhóis. (Luna, págs. 227-28)

Foram anos, aqueles do primeiro governo, se não de paz, de menores turbulências internas. Quando terminou seu mandato, Julio Roca viajou para a Europa (abril de 1887), numa estada de 19 meses. Em Paris, que se preparava para a Exposição de 1889, encontrou-se com o imperador do Brasil, Pedro II, “um homem encantador, que teria sido um grande cientista, se não tivesse tido a sorte de receber uma Coroa, que dali a dois anos ele perderia”. (Luna, pág. 258) Também foi a Grã-Bretanha, Holanda, Bélgica, Alemanha. Em 31 de outubro de 1888, Julio Roca estava de volta a Buenos Aires. Na sua ausência, havia sido eleito senador e, agora, devia assumir seu mandato. Refletiu:

Quanto à própria Europa, o que ela me havia deixado? Uma confusa memória de belas paisagens, cidades antigas e hotéis de luxo, a noção de um continente antigo e sábio, mas, cercado por sérios problemas. Problemas que, em nosso país, só conhecíamos remotamente: um crescente mal-estar social, diferenças abismais de classe, horizontes fechados para o povo empreendedor e também nacionalismos agressivos, sustentados por uma corrida armamentista lenta, mas irrefreável: em resumo, o revanchismo francês, o militarismo alemão, o imperialismo britânico, a miséria das massas da Itália e da Espanha, todas cobertas por pompas e esplendores que não logram esconder essas realidades. (Luna, pág. 260)

O segundo governo Roca (1898-1904)
Dez anos depois de retornar do Velho Mundo para assumir sua cadeira de senador, Julio Roca seria, novamente, presidente da República (1898). Às vésperas de iniciar seu mandato, ele reflete, na reconstrução de Félix Luna, sobre a Argentina que recebia, pela segunda vez, para governar.

Todo o país estava mudando profundamente. O censo de 1895 indicou que cerca de 4.000.000 de habitantes povoavam o território argentino, uma cifra que dobrava a do censo de 1869. Tudo era mais organizado. (…) As pessoas, em geral, estavam acostumadas a certas amenidades que antes eram privilégio de poucos; o bonde, por exemplo, cujos trilhos cobriam as ruas de quase todas as grandes cidades. (Luna, pág. 328)

Continua:

Em Buenos Aires, no ano anterior [1897], o primeiro bonde movido a eletricidade começara a circular. (…) As viagens de trem também se tornaram populares, uma vez que todas as capitais provinciais estavam agora ligadas por estradas de ferro, e mais estradas estavam sendo construídas. Comunicações por telégrafo eram comuns, da mesma forma que mais e mais telefones eram instalados, e havia mais vilas e cidades iluminadas com eletricidade. (Luna, págs. 328-29)

Começavam a aparecer os automóveis, ou carruagens a motor; a luz elétrica e o crescimento da quantidade de pessoas que sabiam ler e tinham poder de compra fizeram aumentar o número de jornais em circulação. Estes se tornavam, além disso, modernos, ou seja, preocupados em informar, mais do que (ou tanto quanto) fazer propaganda partidária. (Luna, pág. 329) A Capital Federal, enfim, mostrava cada vez mais os ares de uma cidade civilizada.

Os novos bairros, Villa Crespo, Villa Urquiza, Villa Devoto, com suas casas modestas, mas espaçosas e equipadas com serviços sanitários, eletricidade, gás, água corrente, iluminação pública e serviço de coleta de lixo, foram a prova da eficiência da ação do Estado e, ao mesmo tempo, o desejo de melhorar de seus proprietários, principalmente, os imigrantes que conseguiram realizar o sonho de ter sua própria casa. (Luna, pág. 331)

Estávamos na véspera de entrar no século XX e nos perguntávamos que país, fora dos Estados Unidos, tinha melhores condições do que o nosso para aproveitar os benefícios do novo século. (Luna, pág. 331) O que caberia ao novo governo fazer? Havia, desde logo, um problema de disparidades regionais se agravando: As províncias do interior, que eu tinha percorrido na minha juventude, estavam quase à margem das correntes do progresso. (Luna, pág. 332)
Outro problema era uma consequência imprevista
da consolidação política. De repente, os jovens de talento limitavam suas aspirações exclusivamente ao emprego público em Buenos Aires (Luna, pág. 333). Também se
tinha de considerar o problema da dívida externa, retalhada em inúmeros contratos, cada um contendo cláusulas e garantias diferenciadas. Assim como, na visão de Roca, tinha
chegado o momento de dar um valor estável à moeda nacional, que havia sido criada em seu primeiro governo. Não bastasse isso, delineava-se no horizonte uma séria questão social, ou seja, as reclamações e a inquietação derivada do acúmulo de gente (imigrantes europeus, em sua maioria) em Buenos Aires; gente essa que não era representada no jogo político.
Cada uma dessas grandes questões recebeu atenção do novo governo. Para a questão regional, a resposta pareceu insignificante, pelo menos aos olhos mais exigentes dos observadores de hoje, mas a moeda argentina foi lastreada em ouro, com a criação da Caixa de Conversão. A proposta de unificação das dívidas, uma maneira de reduzir o problema do excesso de contratos com cláusulas variadas, entretanto, foi barrada pelas forças que não concordaram com as exigências dos credores (Luna, págs. 332-33) A excessiva dependência dos jovens em relação ao emprego público, por seu turno, deveria ser combatida por uma reforma educacional que valorizasse o ensino técnico. Mas, também aqui, houve problemas e Roca recuou de seus intentos.

Lembro com amargura o fracasso da reforma educacional que Magnasco [Ministro da Justiça e Instrução Pública] projetou… Magnasco (…) queria desmantelar parte da educação normalista e aquilo que era ensinado nas escolas nacionais, para abrir escolas de artes e ofícios, centros de aprendizagem de trabalhos técnico, mecânico e agrícola. (Luna, págs. 348-50)

Parecia ideia simples e de fácil assimilação, mas não foi assim tão tranquilamente que ela foi recebida. Roca iria aprender, no alvorecer do século XX, uma lição que os brasileiros (e, certamente, também os argentinos) de cem anos depois conhecem muito bem:

Eu concordei com o pensamento dele porque estava preocupado com a [excessiva] atração pelo emprego público que se manifestava em nossa juventude inteligente. Eu apoiei, então, Magnasco, que defendeu brilhantemente sua posição no Congresso contra os motins promovidos pelos partidários da educação tradicional. (…) Desde março, os estudantes universitários, não sei se mal informados ou se apenas conduzidos pela sua incorrigível vocação de confusão, começaram a se manifestar contra a reforma. (Luna, pág. 350)

Sobre a questão social, Roca favorecia uma posição intermediária entre os que queriam reduzi-la a um caso de polícia e os críticos como Juan B. Justo, fundador do Partido Socialista (1896), cuja prédica punha em evidência situações sociais que era necessário remediar de algum modo. (Luna, pág. 333)
Assim, o governo conseguiu aprovar a lei que ampliava modicamente a participação de forças políticas desvinculadas dos estancieiros. Roca sabia que, em longo prazo, não seria possível evitar que o país fosse governado pelos filhos de imigrantes, em vez de o ser por uma pequena quantidade de políticos, quase todos estancieiros ou com interesses coincidentes com os da grande propriedade fundiária. Mas queria que a mudança se processasse gradualmente.
Inegavelmente, entretanto, ao assumir o governo, a tarefa mais premente de Roca foi evitar a guerra com o Chile. Nisso, teve êxito, como resultado de iniciativas diplomáticas que envolveram um encontro com o então presidente do Chile, Federico Errázuriz Echaurren, na própria região em disputa, e uma visita ao Brasil, presidido, então, por Manuel Ferraz de Campos Sales.
Ao terminar seu segundo mandato presidencial, Julio Roca se sentiu satisfeito.

No dia seguinte [Carlos] Pellegrini [presidente, 1890-92; assumiu após a renúncia de Juarez Celman] foi recepcionado com um banquete de consolo oferecido por seus amigos. Sem pretender, ele elogiou meu governo quando disse em seu discurso: “Todos os problemas e dificuldades que perturbaram ou impediram o progresso institucional desapareceram. A paz interna e externa é hoje inabalável. A prosperidade material surge, superando todas as crises e calamidades dos últimos anos. Nada que possa impedir o progresso nacional e as novas gerações está presente no cenário atual”. (Luna, pág. 380)

Em maio de 1905, Julio Roca embarcou novamente para a Europa, desta vez, em companhia de suas filhas ainda solteiras. Ali passaria quase dois anos, circulando por vários países. Retornaria a Buenos Aires, com uma passagem pelo Brasil (a convite do Barão de Rio Branco) em 25 de março de 1907 (Luna, pág. 409).

Mi Buenos Aires querido
Em 1861, como vimos, Julio Roca visitou Buenos Aires em curta temporada. Era a segunda vez que ia ali. Impressionaram-lhe, sobretudo, as carruagens, as lojas, os teatros, os cafés, a iluminação a gás das ruas centrais, o trem que atravessava a cidade, o espetáculo do rio com centenas de navios: tudo dava a sensação de uma potência em expansão irresistível. (Luna, p. 36) Depois disso, o tucumano passou seis anos pelos interiores, em missões militares. Voltou em outubro de 1868, quase exatamente no momento em que Sarmiento tomava posse como presidente.

Eu encontrei algumas mudanças na cidade de Buenos Aires; a mais notável, a iluminação de gás em casas particulares, que estava se tornando generalizada. Era uma luz limpa, clara e segura, que prolongava o tempo de todos. Agora, em vez de dormir com as galinhas, as pessoas poderiam prolongar suas reuniões ou ler confortavelmente. Talvez por isso muitos novos jornais proliferaram, cujo enorme tamanho exigia várias horas de leitura. (Luna, pág. 77)

A essa estadia se seguiram outras. Em 1877 Julio Roca se mudou definitivamente para Buenos Aires. Somente então se instalou em uma residência adequada.

Minhas moradias foram tendas de campismo, quartéis ou o quarto dos fundos das famílias com as quais alugávamos uma pensão, quando os oficiais ficavam retidos por muito tempo. (…) Agora eu tinha certeza de que, definitivamente, teria raízes em Buenos Aires, eu não estaria longe dessa cidade, tão atraente e tão difícil ao mesmo tempo. (Luna, pág. 138)

Seu relato sobre os confortos urbanos e residenciais, que, então, estavam se generalizando na grande cidade, é tocante.

Finalmente, eu poderia ter um quarto com um banheiro ao lado, uma mesa, uma sala de recepção, uma grande sala de jantar… Você não pode imaginar o que significava para mim levantar ao amanhecer e passar para um espaço especialmente preparado para higiene, sem a necessidade de atravessar pátios e corredores; ter em mãos jatos inesgotáveis para lavar meu rosto e um chuveiro para tomar banho, no lugar das banheiras que eu usara por tantos anos… Você não tem ideia da explosão de civilização que me acariciou, metaforicamente falando, cada vez que eu despachava minhas fezes com um niágara (sic) causado por um simples puxar de uma corrente, e as via desaparecer sem deixar vestígios ou fedor… (Luna, pág. 139)

Instalado na cidade, ele se dispõe a percorrer seus caminhos e chegar aos seus lugares, a conhecê-la, enfim. Ficou deslumbrado. Ainda hoje (ou ainda mais, hoje), eu posso dizer: Buenos Aires encanta.

Por que “Soy Roca” me agradou?
Nunca aprendi tanto (nem tão gostosamente) da história de um país quanto com a leitura desse livro. Julio Argentino Roca foi um personagem superlativo, e Félix Luna sabia contar histórias. De qualquer modo, pode ser útil, para finalizar, fazer uma lista de algumas qualidades do livro (e dos personagens) que julgo mais importantes.
(A) A consciência que Roca tinha do contexto histórico em que sua atuação militar e, sobretudo, política acontecia. Ao iniciar a marcha para conquistar o Deserto, ele não apenas cumpria ordens dos seus superiores: tinha perfeita noção do que aquela campanha significava para um país que quer se expandir. Quando assumiu a Presidência pela primeira vez, entendeu que nada era tão prioritário quanto criar as leis e as instituições que fortalecessem o governo central. Do contrário, a sequência de decisões impostas nas províncias por milícias armadas arruinaria todas elas e o país, em consequência, impedindo o progresso econômico continuado.
No momento em que assumiu a Presidência pela segunda vez, doze anos depois de terminar o primeiro mandato, Roca já via a Argentina de uma maneira diferente – e se posicionou em conformidade com isso. Então, as grandes questões eram a ameaça de guerra com o Chile, a consolidação do padrão monetário, a reforma educacional, os desequilíbrios regionais, a lenta, mas inexorável, afirmação política dos trabalhadores urbanos, quase todos recém-vindos da Europa, sobretudo, da Itália e da Espanha. Essa gente trazia ideologias até então desconhecidas no Novo Mundo – anarquismo, socialismo, comunismo. Como assimilar os imigrantes no processo decisório sem comprometer os fundamentos da sociedade que os estancieiros vinham construindo, até então, com grande sucesso?
Se eu comparo a política concebida e exercida nesses termos com essa feita hoje na própria Argentina, que abismo! Desde Juan Domingo Perón (presidente, 1946-55; 1973-74), nossos vizinhos do sul não viram outra coisa que populistas corruptos e militares sanguinários governarem o país. Talvez, Mauricio Macri (o atual presidente) e seus aliados possuam uma compreensão minimamente razoável dos problemas e das necessidades da Nação. E tenham, também, na sua caixa de ferramentas, uma estratégia viável para salvar a Argentina de seus destruidores. Talvez.
(B) As observações feitas por Roca das transformações tecnológicas e de costumes que estavam acontecendo no mundo e na Argentina (especialmente, Buenos Aires) ao longo de sua vida. As ferrovias; a iluminação a gás e, depois, elétrica; o telefone; a generalização da imprensa; o automóvel. A difusão da cultura, com os teatros, e dos costumes europeus implantados pela importação de governantas inglesas, francesas e alemãs nas casas das famílias ricas. Os confortos caseiros: a sala de visitas, o banheiro ao lado do quarto, as instalações sanitárias. A sofisticação dos gostos com os móveis, as roupas, as comidas, tudo importado da Europa, do mesmo modo que aconteceu no Brasil. A obsessão dos jovens argentinos talentosos com o emprego público – mais uma vez, como aconteceu no Brasil.
(C) A persistência da mentalidade patriarcal do homem que foi duas vezes presidente da Argentina. Em contraste com sua visível admiração pelas transformações tecnológicas, Julio Roca permaneceu inabalavelmente fiel às opiniões e valores que adquiriu em criança, sobretudo, no que diz respeito a costumes e posturas sociais. Considerava trair a esposa – e o fazia com frequência – um direito seu, da mesma forma que o eram conquistar o Deserto ou alcançar a Presidência da República. Ao mesmo tempo, sentia-se obrigado a manter as aparências de homem sério e dedicado à família, não apenas diante da sociedade, enquanto foi casado e homem público, mas até diante das filhas, quando já era viúvo e aposentado. Os encontros com Guillermina, sua amante mais notória, na segunda viagem à Europa, foram raros, não devido ao marido dela, mas por causa da vigilância das “chicas” dele. Só conseguiu conversar pela primeira vez com Elena, a última namorada, após delicadas manobras para distrair as filhas; quando a levou para a Argentina (e, relembro, então, ele já era viúvo e aposentado há anos), teve de ocultá-la em uma das casas secundárias de sua fazenda.
Também eram muito fortes as opiniões de Julio Roca sobre os homossexuais masculinos. Descobriu, por exemplo, que o cunhado de seu filho era o que hoje chamaríamos de fresco, um homossexual afetado. Após relatar outros casos que chegara a conhecer, Roca (via Félix Luna) diz o seguinte:

Confesso que espécimes como o irmão da minha nora me repelem. Antes, os únicos conhecidos eram os porteiros dos quilombos [bordéis]. Agora eles me falam sobre Fulano ou Mengano, pessoas conhecidas, como incluídas na categoria dos invertidos. E eu não te digo na Europa! Eles aparecem com toda a desenvoltura nos ambientes mais refinados. (Luna, pág. 365)

A continuação desse pensamento é ilustrativa porque, nela, Roca também expõe outra face de sua opinião sobre as mulheres, em geral.

Jamais poderei entender essas aberrações. (…) Eu não consigo imaginar que tipo de prazer dois machos podem sentir enquanto se divertem na cama, sendo que as mulheres são feitas para serem montadas e desfrutadas. (Luna, pág. 366)

Não estou aqui para defender Julio Roca, nem para acusá-lo. Os mais velhos entre nós sabem, perfeitamente, que essa era a mentalidade de nossos pais e avós. Tais valores e opiniões cumpriam um papel importante naquelas épocas de pouca gente e muitas doenças, de economias primitivas e instáveis, em que o crescei e multiplicai-vos e a continuidade das famílias representavam a necessidade de sobrevivência da espécie humana e de manutenção do status social. De qualquer modo, eles (os valores e opiniões da velha ética) provocaram muito sofrimento, que se tornou injustificável com a passagem do tempo, o excessivo crescimento da população, a maior segurança econômica e formas mais diversificadas de ganhar e transmitir reconhecimento. Não se conceberia que as mesmas cabeças ainda prevalecessem, hoje. É preciso cuidado, entretanto, para evitar o outro extremo.
Juntando tudo, “Soy Roca”, de Félix Luna, é um grande livro. E Julio Argentino Roca, um homem que não apenas viveu, mas deixou sua marca no mundo.

gustavomaiagomes@gmail.com

 

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