Recado

Recado

O filósofo Luiz Felipe Pondé é quem está certo: pouco importa a dúvida popular se verdadeira ou falsa a crença de que as baratas sobreviveriam a desastres nucleares. Como irrelevante é o fato de Kafka jamais ter usado a palavra “barata” em seu Metamorfose – a tradição dos leitores, lembra ele, imortalizou a barata em Kafka, ponto, e o impressionante é se e de que modo vemos a barata refletida no espelho. Como as baratas, certas espécies sobrevivem a desastres, ao tempo, a acontecimentos extraordinários, a guinadas surpreendentes ou mudanças pachorrentas, ao espelho e a nós mesmos, a pressões e alívios de toda sorte. Esfacelam-se, perdem a cabeça, quase sucumbem, mas retomam o eixo, mesmo soçobradas.

 

Conclusão semelhante aplica-se a certas chagas nacionais, e suas correspondentes virtudes e ideias de resistência e combate. Adiciona-se, porém, a questão intrigante do filósofo: estaria correto o sentido da metáfora de Kafka, o de que a besta em nós não está em nosso passado, mas no futuro? Niilistas considerariam o óbvio, o de que tudo não passa de uma imagem borrada no espelho, como diz Kafka. Esperançosos enxergariam alguma luz definitiva em formação no horizonte. Pelo sim, pelo não, devem concordar, pelo menos, na convicção de que meritório mesmo é o esforço da sobrevivência, o tormento do combate. Pois vale a máxima filosófica: não há virtude no vácuo da agonia.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *