Recado

Recado

Não será pela ausência de intenções benignas que se evitará o inferno. Análises sobre dualidades políticas dificilmente se sustentam sob a premissa de um bem e um mal inerentes. Isto dito, convém dizer que estamos livres para escolhas, pressupostos conceituais, preferências de toda ordem. Igualmente abertos à denúncia de mitificações, boatos e negações não correspondentes aos fatos.

Poucos escapam aos mitos, pois estes não são sempre inteiramente falsos. Mas um deles insiste numa modalidade de dupla pregação: primeiro, o boato da inércia nacional; segundo, a descrença na centralidade de um Estado forte, com possibilidades de eficácia no trajeto rumo ao desenvolvimento.

A primeira tese é desabonada pela História. Ignora as radicais transformações ocorridas entre o Império e a Primeira República, desta para a República pós-1930, e assim por diante – entre distintas bases de sustentação do poder nacional, transações financeiras heterogêneas, ascensão e queda de diferentes elites, modelos diversos de integração nacional, processos de modernização e diversificação produtiva, sucessos materiais e elasticidade da malha social. A segunda tem origem numa visão que se mostra incapaz de enxergar o papel do Estado em todas essas mudanças, não obstante sua decadência operacional, em frangalhos justamente por ações decorrentes de tal percepção.

Some-se aí certo tipo de paulicentrismo cego, ótica deformada da vida social brasileira, conduzida, movida e realimentada por parcela considerável das elites econômicas, políticas e intelectuais instaladas na pauliceia. No campo acadêmico, repete-se à direita e à esquerda, do Largo de São Francisco, nos moldes da Burschenschaft alemã, ao modelo afrancesado da FFLCH de Antonio Candido, FHC e seu cânone.

Conclusão: Inteligência não ficará ressabiada se cadastrada na pasta dos saquaremas.

 

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O inferno está cheio de intenções benignas e malignas. Admiramos as primeiras e respeitamos as segundas, como atestam as contribuições a seguir.

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