Recado

Recado

A vida são espelhos foscos, já dizia Jorge Luiz Borges. As aparências ludibriam. Um exemplo: a compreensão de um Estado de direito democrático periférico. Será pura prestidigitação a suposta homologia entre o que acontece nestas praias e o vivenciado nos países da Comunidade Europeia? Se eles lá protestam contra o desmonte do Estado de bem-estar social, aqui ainda somos parturientes do nosso. A periferia não foge ao ditame da ambiguidade das aparências; se arrasta lenta e por se vertebrar, em direção ao centro, mas assumindo-se como tal. Os brasileiros podem ver e vestir o “V de Vingança”, esconder-se – ou revelar-se – por trás da máscara do Anonymous, desabrir-se em rede e até mesmo ler Manuel Castells à procura da iluminação. Nem por isso eles se tornam ingleses, franceses, espanhóis ou gregos, independente das aparências, sabe-se lá se por bom ou mau augúrio. Por outro lado, há periferias e periferias: e se não somos tunisianos, nem sírios, nem egípcios – países que só agora ensaiam dolorosos passos no caminho da democracia – temos um pouco de cada um deles em nossas etnia e cultura. Aqui os movimentos são refogados em sincretismo, diversidade e miscigenação. É bom lembrar que nestes rincões as estações podem ser confundidas. Mas nem por isso há primavera em junho. E nem toda a manifestação tem a razão ao seu lado. E será pré-requisito da democracia que a razão esteja ao seu lado? Nunca dantes singularidade e pluralidade marcharam tão tortuosamente entrelaçadas. Pergunta-se: do que sorri, afinal, esta democracia?

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