Recado

Recado

O ano de 2014 ainda nem sequer espocou e já promete superar seu antecedente no quesito anfibolia. Chamemo-lo, portanto, de annos ambiguus, ou o ano da ambiguidade. Difícil será enxergar diferenças sem perscrutar os engodos, desleais e vulpinos, que serão servidos junto com o pão de cada dia. Seremos mais do mesmo, com pequenas variações entre a piora e a melhora de humor, renda e atitude. Os pobres ficarão um pouquinho menos pobres. Os ricos idem, ibidem. E o povo festejará o aumento da renda, emprego e inclusão social. As classes sociais, irmanadas, celebrarão a vitória no certame da Fifa – Deus nos ouça. Não haverá alternância do poder político, dizemos nós. Muitos blasfemarão contra a democracia. O Legislativo continuará em queda livre, e o Judiciário nos píncaros, nas medições de prestígio. Ouviremos em dobro a cantilena de que o déficit público é insustentável, ainda que este caia no exercício – um paradoxo previsto para o calendário eleitoral. A oposição permanecerá deificando o equívoco e atribuindo a mesma faculdade a um universo social de características estritamente diferentes. A realidade não estará estampada nas bancas de jornal, tampouco nas telas da televisão. O país continuará crescendo com baixa arritmia, e a previsibilidade será odiada tanto no bairro dos Jardins, em São Paulo, quanto nos quartos e salas de Copacabana, no Rio de Janeiro. Em síntese, tudo calmo, mas, insistem eles, nada em ordem.

Deixemos, pois, que os deuses façam suas piadas sobre nós.

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