Recado

Recado

“Parece que há, no fundo inclemente e duro do caráter humano, detritos perpetuamente renováveis, que se deslocam, mas não se extinguem nunca, e, dissmulados sob as convenções sucessivas em que se traduz a ordem social, variam ao infinito nos derivativos, necessitando, porém, sempre de alguns, por onde irrompam e desafoguem na primitiva rudeza. Quando uma vez, ao impulso desse trabalho visceral, o costume rasga na tênue crosta da civilização uma dessas fisgas, tão cedo o borbotão não lhe perderá o rumo; e, então, já não há nada, que o coíba: nem a fraqueza, nem o amor, nem a arte nas suas influencias mais sedativas. Polidez, inteligência, generosidade, tudo se esvai no aluvião do elemento rebelde, a cuja passagem as qualidades menos simpáticas da nossa natureza lhe acodem à tona em sua mais íntima grosseria. Nas assembleias numerosas principalmente é que se amiudam esses eclipses de bondade, da educação e do gosto… De improviso, o edifício restruge, atroa o pavimento: é a vaia! A vaia, a manga rechinante e bramidora, a orquestra do alarido, a lei de Lynch no território da cena, a potência do assovio, da pulha e do tacão. Quando ela meneia o seu cetro de chalaça, e decreta os seus caprichos a bengaladas no assoalho, a batuta passou-lhe para as mãos; cada berrador é um maestro, e o auditório inteiro terá de curvar-se à ditadura dos forts en gueule”.

 

(Rui Barbosa, O direito de vaia, 1900)

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