Recado

Recado

“Meu ilustre amigo. Conservador e liberal, monarquista e democrata, católico e protestante, eu tenho por base de todas as minhas convicções a contradição, não a contradição mais palavrosa do que inteligível das antinomias de Proudhon, porém a contradição entre duas ideias que na aparência se repelem mas na realidade se completam, a contradição, f inalmente, que se resolve na harmonia dos contrastes. Eu declaro francamente que não sacrif ico a lógica das teorias extremas. Guio-me pelos fatos, combino os opostos, encadeio as analogias e construo a doutrina. Não tenho um sistema preconcebido. Não idolatro o prejuízo. Aceito o sistema que os acontecimentos me impõem”.

 

Tavares Bastos, 1862

 

Limitando-se a somar as posições polarizadas e dividir o resultado ao meio, a ziguezagueante primeira tentativa de terceira via ensaiada há 150 anos, representada na passagem citada de Tavares Bastos, parece infelizmente de alarmante atualidade. Um clichê longamente sedimentado afirma de peito inflado que tradições políticas, programas partidários e que tais são espécies de animais extintos, senão sempre inexistentes, nas terras do Brasil. A experiência histórica desde o mais remoto da vida nacional, porém, sepulta sem honras esse lugar comum, apontando uma persistente oposição de visões nacionais, ambas querendo a modernidade, mas sugerindo caminhos. De um lado, entende-se que o Estado fortalecido e presente constitui entre nós um instrumento indispensável de modernização política, civil e social; de outro, sustenta-se que ele mais atrapalha do que ajuda, e que o espontaneísmo de uma sociedade vibrante e de um mercado eficiente bastaria para alcançar esses fins. De tempos em tempos, todavia, um balão de ensaio de insatisfeitos é solto no céu eleitoral, buscando escapar daquela inexorável polarização. O sonho da terceira via, desde a invenção da dialética hegeliana, é o de superar os impasses da polarização anterior, empurrando para adiante um movimento histórico que se julga paralítico pelo exaurimento das fórmulas polarizadas. Mas que dizer de uma terceira via que, em vez de apresentar uma fórmula nova, se limita a formular-se a partir do mero justo meio das posições polarizadas?

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