Recado

Recado

“Este é um mundo que se acaba (…). Sente-se o ranger das peças de um edifício que se esboroa” (Tavares Bastos, 1869).

A cultura política brasileira, periférica e atrasada, possui um espaço significativo para as “vanguardas modernizadoras”. Diversos personagens ao longo de nossa história se acreditaram imbuídas da missão providencial de regenerar a Pátria contra a classe política corrompida ou “carcomida”: o tecnocrata apartidário e patriota, engenheiro ou médico; o bacharel ou o jurista liberal ou libertário, constitucionalista ou penalista; o militar ou tenente positivista, etc. Nos últimos dez ou quinze anos surgiu uma categoria nova, o operador jurídico encrustado no Estado, magistrado ou promotor de justiça, que se considera uma espécie de novo tenente.

Estes praticam o ativismo judiciário e respondem apenas à própria consciência “republicana” iluminada pelos princípios constitucionais. É o meio que vislumbram de “passar o país a limpo”. Assim como os tenentes da década de 1920 queriam “varrer a política à metralha”, os novos tenentes querem restabelecer a “pureza” das instituições constitucionais de 1988 a golpes de pareceres e despachos judiciais. Detestam a classe política e não fazem distinção entre os políticos. São todos “carcomidos”. Seus acólitos chamam a Nova República de 1985-1988 de “Antigo Regime”; falam em “revolta de março” (“revolução” pegaria mal, por razões óbvias; e sustentam que “o gigante despertou”.

Cumpre lembrar, todavia, que quem criou as atuais estruturas judiciárias – Judiciário, Ministério Público e Polícia Federal – foi a própria classe política. Alimentaram os filhotes de onça com tigelas de leite. Agora os bichanos cresceram e parecem querer alimento, digamos, com mais substância.

Estão se fartando.

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