Rastros de uma guerra distante – As lições de perdão do Vietnã

Rastros de uma guerra distante – As lições de perdão do Vietnã

Kelly Nascimento, jornalista

 

“Nam tiến” é a expressão vietnamita que define a “marcha ao sul”, das margens do Rio Vermelho, berço da civilização local, às do Rio Mekong, um dos palcos da última batalha para unificação do país. Explica bem a construção do Vietnã, país cuja gênese começou há 2.700 anos, quando as etnias muongue e viet se misturaram aos chineses, na bacia do Rio Vermelho, dando origem ao povo que hoje se denomina vietnamita.
Em fevereiro, fiz três semanas de “Nam tiến”. Fui do Norte ao Sul do país, na tentativa de entender como a última marcha – liderada pelo icônico Ho Chi Minh – influencia a noção de país e de pertencimento de vietnamitas. Passados mais de 40 anos do fim da Guerra do Vietnã, falar sobre ela ainda provoca incômodo. Natural. Nenhum grupamento de seres vivos resiste a duas décadas de bombardeio, enterra 3 milhões dos seus e passa os dias vindouros de maneira incólume. É tudo muito recente, como uma ferida em cicatrização: ainda dói se alguém cutucar.
“Vamos falar sobre a paz?” Essa foi a frase que mais ouvi dos vietnamitas, quando questionei sobre a última grande guerra. No Vietnã do século XXI, tudo o que se quer é deixar o passado recente para trás. O futuro é o que interessa. A vontade de avançar é latente, talvez só não seja mais forte que um sentimento bem vietnamita, uma mistura de luto e orgulho, dosados em proporções distintas para os que estão ao Sul e aqueles que habitam o Norte do país. Para quem está na parte setentrional, o luto é pelos antepassados que deram suas vidas pelo ideal de nação. O orgulho é por terem conseguido unificar o território, numa batalha em que foram David contra o Golias estadunidense. Ao Sul, há um desgosto pela liberdade e pelo desenvolvimento perdidos; avanços socioeconômicos conquistados antes da unificação do país, que ainda distinguem a região, trazem regozijo. Os sulistas ainda se sentem como um original blend entre Oriente e Ocidente. Em Ho Chi Minh City, eles bebem café expresso, comem baguete e devoram hambúrguer de redes de fast food norte-americanas. Quase como se fosse uma subversão aos valores comunistas. Em Hanói, as refeições são, basicamente, noodles, regadas a chá. As diferenças, rapidamente eu descobriria, vão muito além dos hábitos alimentares.
Para os vencedores, o principal “legado” da vitória da Frente Nacional de Libertação (FNL) – exército formado por Ho Chi Minh, cujos soldados foram apelidados de vietcongues pelos norte-americanos – foi a unificação do país. Uma união mais de papel que de espírito. Até hoje as fissuras entre Norte e Sul impedem uma integração plena entre aqueles que estiveram em lados opostos no campo de batalha. As cisões são muitas. A “Guerra Americana” – forma como os vietnamitas se referem ao combate que conhecemos no Ocidente como “Guerra do Vietnã” – se arrastou por quase duas décadas (novembro 1955 – abril 1975). Foi só em 30 de abril de 1975 que as tropas da FNL tomaram a cidade de Saigon (hoje Ho Chi Minh City), pondo fim à disputa e reunificando, enfim, o país. Não saiu barato. Para nenhum dos lados. Foi uma guerra fraticida, que custou a vida de milhões de vietnamitas – civis e militares –, do Norte e do Sul, que lutaram entre si.
Pouco mais de um ano após seu fim, nascia, em 2 de julho de 1976, a República Socialista do Vietnã. Um país em frangalhos: dependente da riqueza gerada por uma ínfima População Economicamente Ativa (grande parte morreu na guerra), com quase a totalidade de suas terras agricultáveis queimada e envenenada por agentes químicos e uma baita crise econômica pela frente. A conjuntura externa tampouco era favorável. O isolamento econômico imposto pelos Estados Unidos ao Vietnã durou mais que a guerra: somente em 1994 o presidente Bill Clinton suspendeu o embargo comercial contra o país asiático.
Gênese do pensamento libertário
O ideário de um povo não se forja em pouco mais de quatro décadas. Assim, por mais traumática que tenha sido a Guerra Americana, para entender o mínimo da cabeça do vietnamita médio é preciso voltar cinco casas na História. O Vietnã é um país forjado em lutas. Contra japoneses, chineses, franceses e norte-americanos. Os Estados Unidos foram apenas um dos inimigos enfrentados ao longo de uma intensa trajetória de batalhas em defesa da soberania. Uma boa definição vem do jornalista e veterano de guerra Huy Duc, que descreveu seu país como um “lar erguido por paredes feitas de carne e sangue”. Muito sangue foi derramado para que existisse o Vietnã. O líquido vermelho está tão arraigado à formação da nação que serve como principal ingrediente de uma das iguarias tradicionais do país: o pudim de sangue. Feito de matéria-prima fresca, de porco ou cabra, é bastante apreciado pelos vietnamitas; eles acreditam que o prato traz sorte nos negócios.
A visão de país do Vietnã de hoje foi desenhada por Ho Chi Minh no início do século XX. O líder que inspirou e comandou a nação rumo à independência é idolatrado até hoje por seus compatriotas. E continua pop: em fevereiro, durante o feriado pela comemoração do Ano Novo Lunar (os vietnamitas se recusam a chamar o período de ano novo chinês!), centenas de famílias se enfileiravam por quarteirões, esperando para visitar o mausoléu de Ho Chi Minh em Hanói.
Por sua vez, a visão de mundo do líder máximo do Vietnã foi formatada no exterior. Mais especificamente na França, onde foi estudar, conheceu as ideias de Karl Marx e se encantou. Foi em solo europeu que cultivou o sentimento nacionalista e o ressentimento contra as potências imperialistas ocidentais. Datam de 1930 as primeiras revoltas de campesinos vietnamitas contra franceses. Integrariam, mais tarde, o exército de Ho Chi Minh, reverenciado no Norte como “A resistência” ou a “A libertação”. Durante as negociações pós Segunda Guerra Mundial, que levaram à assinatura do Tratado de Versalhes, Ho Chi Minh tentou convencer líderes do Ocidente a devolver seu país aos vietnamitas. Como a diplomacia não funcionou, partiu para a luta.
O movimento culminaria com a declaração da independência da nação asiática e a formação da República Democrática do Vietnã, com sede em Hanói. A batalha contra os franceses terminou em 1954. Na sequência, os norte-americanos instalaram um governo não comunista em Saigon. Só sairiam de lá uma guerra depois. “Nada é mais importante que independência e liberdade”, dizia Tio Ho – forma carinhosa com que vietnamitas se referem ao líder até hoje. É possível ver essa frase em camisetas pelas ruas do Vietnã. Personificação do orgulho norte-vietnamita, Ho Chi Minh empresta seu nome à metrópole que simbolizou, em determinado momento, a vitória do comunismo sobre o capitalismo na Ásia. Hoje já não é bem assim. Por anos, o líder comunista do Vietnã era a “marca” mais potente da cidade rebatizada com seu nome. Outdoors de estética com clara inspiração soviética estampavam seu rosto a cada esquina. Mas Ho Chi Minh City é um lugar muito diferente do que foi Saigon. Duas décadas de crescimento econômico criaram uma voraz classe de consumidores. Pelas ruas do centro econômico vietnamita, Tio Ho enfrenta uma implacável concorrência de grandes ícones do Ocidente – de marcas como Supreme e Gucci a rappers americanos e locais, como Kanye West e Suboi – que hoje estampam outdoors e aguçam o imaginário juvenil.

Lições sobre o perdão
Ao Norte, os bastiões da filosofia comunista – que motivou a guerra contra o “espírito capitalista” – ainda sobrevivem. Quanto mais próximo à fronteira com a China, maior é a simplicidade do estilo de vida local. Na região de Sa Pa, em boa parte das casas só há fogão à lenha, por exemplo. Padrão distinto do encontrado no Centro e no Sul do país.
“Perdoe o inimigo, mas não esqueça quem ele é”, diz uma camponesa de meia-idade da região Norte, para tentar explicar o espírito e filosofia que movem aqueles que sobreviveram à guerra ou vivem num país unificado graças a ela. Então, os norte-americanos foram perdoados. A ameaça, me explicam, agora é outra. A maior preocupação de todo vietnamita na atualidade são os chineses. Eles evitam dizer, mas odeiam a China. Seus produtos e a tentativa de interferir nos negócios e terras vietnamitas, principalmente no Norte. Aliados fundamentais para vencer os norte-americanos na guerra, os chineses hoje são vistos com muita ressalva. Inusitado perceber que há mais simpatia com relação ao antigo inimigo (os ianques) do que com o aliado. Mas, para os vietnamitas, a postura faz sentido. Para os locais, o dinheiro chinês não é bem-vindo, embora o governo de Hanói esteja interessado em estreitar laços com a China, seu principal parceiro comercial.
A pílula do esquecimento é amarga e nem sempre eficaz. Em que pese o fato da maior parte da população ter nascido depois da guerra, ou seja, não vivenciou o período de terror, muitos conviveram até pouco tempo com seus efeitos colaterais. Quem nasceu no fim da década de 70 e nos anos 80 cresceu com bastante dificuldade. Nos anos finais do combate e no pós-guerra, não havia o que comer. Lavouras e rebanhos foram devastados pela pulverização de bombas químicas. A guerra moldou a forma de o vietnamita pensar, agir e até comer. Em conversas com moradores de áreas rurais, o hábito alimentar tradicional do país é apresentado de forma sucinta: o que se mexia e não era um ser humano, comíamos. Simples assim. De rato a cachorro. De morcego a cobra. O importante era se manter vivo.

Destruição pulverizada
Hoje os vestígios mais visíveis da guerra estão abaixo da superfície. Minas terrestres e contaminação química pelo chamado agente laranja ainda tiram a paz do Vietnã. A Organização das Nações Unidas (ONU) calcula que existam 3,5 milhões de minas enterradas nos campos vietnamitas. Mas o maior risco ainda é o agente laranja. Estima-se que tenham sido despejados sobre o Vietnã de 80 milhões a 100 milhões de litros da substância entre 1964 e o fim do conflito. O produto teve uma função estratégica para o Exército norte-americano. Surpreendidos pelas táticas de guerrilhas usadas pelos vietnamitas, que atacavam a partir de túneis construídos no subsolo, os Estados Unidos usaram o herbicida, que continha a perigosa substância chamada “dioxina”, para destruir a vegetação que pensavam servir como abrigo para os soldados inimigos.
O agente laranja continua produzindo vítimas geração após geração, sob a forma de graves doenças neurológicas, câncer e má-formação de bebês. As deformidades são transmitidas aos filhos de todos que foram expostos à substância. Mais de quatro décadas após o fim da guerra, a Cruz Vermelha Internacional estima em 1 milhão o número de vietnamitas afetados. No ano passado, o Vietnã acionou juridicamente a Monsanto, gigante do agronegócio, pleiteando indenização às vítimas do agente laranja, fornecido pela empresa aos Estados Unidos entre 1961 a 1971.
Pelas ruas de Ho Chi Minh City, é comum avistar vítimas do agente laranja pedindo esmola. Uma saída encontrada pelo governo para garantir uma renda mínima à população afetada pela Guerra Americana são os Centros de Artesanato, espalhados de Norte a Sul do país. Lá, veteranos com alguma deficiência causada durante o combate e vítimas do agente laranja são capacitados para trabalharem produzindo de quadros a esculturas, vendidos principalmente para os mais de 15 milhões de turistas que visitam o país a cada ano. Além da renda, a ideia é inserir essas pessoas na sociedade, fazendo com que elas se sintam úteis. Visitei alguns desses centros. O orgulho de transformar dor em beleza é o que move esses trabalhadores.
O vietnamita do século XXI não se permite dedicar nenhum tempo a lamúrias. O compromisso geral é de lutar pela sobrevivência. Para eles, é uma forma de honrar a trajetória de seus ancestrais. Em restaurantes, lojas, bares e museus, rostos jovens e sorridentes dominam o ambiente. Mais trabalho e menos lazer é a ordem. A maioria dos postos de trabalho do setor de serviços é ocupada por uma juventude na faixa dos 20 anos. O perfil é o mesmo: terminou o ensino médio, iniciou a faculdade. O orçamento familiar pesou, trocou o sonho de um diploma universitário por um emprego na vida real. Estão felizes por poderem comprar o tênis da moda e um iPhone, nem que seja de segunda mão. No Vietnã isso se chama socialismo orientado para o mercado.
Essa garotada viu a guerra a partir dos olhos de seus pais e de seus professores. Sabe que a vida poderia ser mais fácil hoje se o país não tivesse passado décadas se reerguendo das cinzas. O sentimento é difuso. O lado vencedor da guerra tem mais orgulho da trajetória que unificou o país. O polo derrotado tem uma visão mais crítica do processo. Há a admiração pelo líder máximo do país, que coexiste com a vontade de potência normal entre jovens, principalmente ao Sul, região com forte influência ocidental. No fundo, todos ainda se consideram sobrinhos de Ho Chi Minh.

Dicotomia Norte-Sul
Depois da guerra, cerca de dois milhões de sul-vietnamitas fugiram do país com medo de perseguição. Entre os que ficaram, 300 mil foram aprisionados no que o governo batizou de “Campos de Reeducação”. Vistos por críticos como uma forma de se vingar dos perdedores, esses campos abrigaram não só combatentes, mas também civis, a pretexto de ensinar sobre o novo governo. Prisioneiros relataram práticas de tortura e abuso.
No Sul, até hoje os cidadãos são um pouco paranoicos quando questionados sobre socialismo, guerra e Partido Comunista. Olham ao redor e respondem baixinho, com medo que a informação chegue ao governo. Não é fácil conseguir garimpar o pensamento de um sulista com relação à Guerra Americana. É preciso uma longa conversa para conseguir uma opinião sincera. “Gostaria que os americanos tivessem vencido a guerra, as coisas aqui estariam mais desenvolvidas”, me diz um jovem com quem topei em Ho Chi Minh City. Fato é que, se a maioria dos vietnamitas do Sul pudesse escolher, não viveria sob o regime socialista ou governada pelo Partido Comunista desde o fim da guerra.
Durante a guerra, os sul-vietnamitas eram chamados de “cachorrinhos dos americanos” pelos compatriotas do Norte. A acidez do comentário dá noção da profundeza do fosso que separa os dois lados. Os sulistas eram, e ainda são, vistos como colaboradores dos imperialistas. Dependendo de com quem se fala, o 30 de abril é classificado de formas distintas: para uns é libertação, outros veem a ação como invasão. Para os nortistas, a guerra foi para resistir aos Estados Unidos e salvar a nação. Pois os sulistas não queriam ser salvos. “Quem libertou quem?”, me devolve, num inglês perfeito, um jovem garçom em Ho Chi Minh City. “O Norte, mais pobre, liberou o pujante Sul? Ou teria sido o contrário? Afinal, do que o Sul teria sido libertado? De seu futuro promissor e próspero?”
Para o antigo Vietnã do Sul, a perda com a guerra foi mais política que cultural. Eles tentam disfarçar, mas o sentimento verdadeiro é que os cidadãos perderam sua liberdade e seus direitos políticos. É complexo de se compreender, principalmente para quem olha de fora e sem todo o background de quem vivenciou a batalha e o pós-guerra. Mas talvez o maior nonsense seja o fato de compatriotas terem se matado aos milhões por um objetivo que era comum a ambos os lados: o desejo de um país melhor para se viver. A divergência era tão somente sobre a melhor rota, não o destino final.
Seja ao Norte, Centro ou Sul, os vietnamitas sabem que ainda há um longo caminho a ser percorrido até o pleno desenvolvimento. Nos últimos anos, o país vem crescendo a uma média de 5% ao ano, mas continua figurando entre as nações de baixo desenvolvimento, com uma renda per capita baixa (metade da chinesa e um terço da brasileira, dependendo muito dos resultados da agricultura, setor que emprega metade da população). O número de pessoas abaixo da linha de pobreza vem sendo reduzindo aos poucos, e hoje é de aproximadamente 10% da população.
Deixei o país dias antes do histórico encontro entre Donald Trump e Kim Jong-un em Hanói, tentativa de articular um acordo pela desnuclearização da Coreia do Norte. No Palácio da Reunificação, em Ho Chi Minh City, interpelo um grupo de jovens, perguntando o que acham do país receber os dois líderes. “Particularmente, não gostamos de nenhum deles. Mas é bom que o Vietnã seja o local escolhido para tratarem de paz”. Os sobrinhos de Tio Ho não parecem dispostos a repetir erros do passado.

A autora é diretora da Insight Comunicação
kelly.nascimento@insightnet.com.br

 

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