Quo vadis, Putin?

Quo vadis, Putin?

Fabiano Mielniczuk, Cientista social

 

Vista a partir do Ocidente, a Rússia é uma caricatura. Para grande parte da mídia, trata-se de um país autoritário, repressor dos direitos das minorias, cuja imprensa está submetida aos desígnios do governo e a população é docemente manipulada por seus líderes. Acrescente-se a essas características persistentes alegações de corrupção por parte da elite política e, voilà, explica-se a permanência de Putin e sua trupe no poder nas últimas duas décadas. Pelo país ser tão desviante do padrão correto-ocidental-essencial de organização de uma comunidade política, o tratamento conferido à Rússia pressupõe a inerente debilidade das estruturas que sustentam o complexo amálgama de relações entre a sociedade e o Estado. Por conta disso, de tempos em tempos, essa visão negativa é reforçada por previsões catastróficas a respeito do iminente esfacelamento da Rússia, seja via colapso econômico, insurgência da população, disputa intraelites, secessão das suas unidades constituintes ou, como agradaria à maioria dos analistas, tudo isso ao mesmo tempo.

Com diferentes nuanças, esse é o cerne da narrativa que perpassa os discursos acadêmicos dos especialistas de área na disciplina de relações internacionais. Em outro trabalho suspeitei que esse tratamento fosse tributário da sovietologia – subárea da disciplina de ciência política e relações internacionais desenvolvida durante a Guerra Fria para entender o comportamento da URSS (Mielniczuk, 2011). A ênfase se assentava na maneira como os discursos da academia norte-americana nos anos 1950 localizavam a URSS em uma geografia imaginativa que a construía como sujeito moralmente inferior, agressivo, expansionista e pouco afeito aos costumes da civilização ocidental. À essa construção da subjetividade soviética dei o nome de sovietologismo. Tratava-se, pois, da construção de uma subjetividade do outro (URSS) com base em preconceitos alimentados pelo interesse político do eu (Ocidente) e não nos predicados próprios ao sujeito que se pretendia conhecer.

Algumas esquisitices produzidas por essa literatura deveriam servir de alerta sobre seus limites. Por exemplo, o expansionismo soviético chegou a ser explicado a partir da maneira como as crianças russas eram mantidas firmemente “amarradas” em suas fraldas para que as mães pudessem trabalhar. Por trás desse “achado” estava a aplicação açodada do princípio psicanalítico de que os anos iniciais da criança seriam determinantes na sua atuação durante a vida adulta. Assim, ao terem seus movimentos constritos na infância, os russos cresceriam almejando conquistar mais espaço para se movimentar, e isso explicaria o aspecto imanente do expansionismo territorial que marca a subjetividade soviética. Essa abordagem, que passou a ser chamada de “diaperology” ou ciência das fraldas por seus críticos, é apenas um entre inúmeros exemplos das consequências tragicômicas da produção de conhecimento em um ambiente marcado pela disputa da Guerra Fria e do financiamento do aparato militar norte-americano sobre os resultados dessa produção.

Como a maioria dos ismos que povoam a academia de tempos em tempos, a moda do sovietologismo passou (para a história da sovietologia, ver Engerman, 2009), mas sua característica principal de construção do outro a partir de preconceitos do eu permaneceu para a sucessora legal da URSS, a Rússia. As poucas exceções são de acadêmicos que se negam a fazer parte da cruzada antirrussa e que, baseados na compreensão mais aprofundada do Estado, da sociedade, da história e da relação entre a Rússia e o resto do mundo, ousam nadar contra a corrente. Um desses acadêmicos é Stephen Cohen, professor emérito da Universidade de Nova Iorque, que passou a ser chamado pela imprensa norte-americana de “idiota útil” de Putin ao questionar o modo como os EUA tratam a Rússia. Eu mesmo recordo com certo deleite a revelação em tom jocoso feita por um amigo diplomata de que, dadas as minhas posições acadêmicas sobre a Rússia, alguns setores do Itamaraty me viam como um “agente” russo no Brasil. Esse tipo de ilação reforça ainda mais a herança sovietologista no tratamento contemporâneo dado à Moscou. A Rússia é um mal a ser combatido, e não um objeto a ser estudado. Aqueles que não compram essa visão passam a ser combatidos também.

Talvez a consequência mais marcante desta falta de autocrítica seja a omissão do protagonismo do Ocidente em muitos dos “defeitos” atribuídos ao país. Por motivos que parecem evidentes, não é razoável que, após décadas de análises internacionais feitas em função da estrutura bipolar da Guerra Fria, a perspectiva seja revertida para uma espécie de unilateralismo às avessas, ou seja, omitindo-se o papel das potências ocidentais e responsabilizando-se a Rússia por todos os problemas que o mundo enfrenta. Os democratas perderam a eleição para Trump? O Reino Unido saiu da UE? Os movimentos de extrema direita e governos populistas estão ascendendo na Europa? Há guerra civil na Síria? Também guerra civil na Ucrânia? Maduro continua no poder na Venezuela? As respostas a essas perguntas, às quais podem ser acrescidas outras de acordo com a conveniência política do momento, têm em comum a atribuição de uma grande parcela de responsabilidade à Rússia. Se é certo que a Rússia tem interesses em todos esses eventos e toma parte nos acontecimentos em alguns deles, não é menos certo que o perdedor da Guerra Fria está longe de ser esse ente onipresente que determina os rumos da política internacional. Como lembrou Kissinger (2014), demonizar a Rússia não é uma política externa razoável, mas sim o sintoma de sua falta.

Portanto, de modo a compreender um pouco mais aonde vai a Rússia de Putin, ou o Putin da Rússia, deve-se abandonar a demonização e se partir para uma análise que ponha em questão o papel do Ocidente nas escolhas feitas pela Rússia no pós-Guerra Fria. Isso não implica eximir a Rússia de suas responsabilidades, mas entender de maneira menos maniqueísta como se chegou à situação atual e quais tendências se abrem a partir do presente.

 

O fim da Guerra Fria, o Ocidente e a ascensão de Putin

Apesar de não haver consenso sobre o exato momento do fim da Guerra Fria, pode-se assumir que ela terminou entre os anos de 1989 e 1991, em meio aos eventos compreendidos entre a queda do muro de Berlim e o fim da URSS. Nesse ínterim, o acontecimento mais significativo do ponto de vista geopolítico foi a dissolução do Pacto de Varsóvia, aliança militar que se contrapunha à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). O que ocorreu a partir de então não estava previsto nos principais manuais de segurança internacional: a dissolução do Pacto não levou ao fim da OTAN. Pelo contrário, o conceito de segurança da OTAN foi redefinido, sua indivisibilidade foi aceita, e todos os países europeus (até mesmo os que não faziam parte da Aliança) passaram a ser considerados responsáveis pela sua manutenção. Por esse motivo iniciaram-se os movimentos para a expansão da OTAN para os Países da Europa Central e do Leste (PECL), com a criação do Conselho de Parceria Euro-Atlântica (EAPC, em inglês). A justificativa oficial asseverava que a promoção de economias de mercado e democracias liberais traria mais segurança a todo o continente europeu.

Portanto, a OTAN definiu que se expandiria para o território de influência da URSS, mesmo sem haver uma ameaça existente. Logo as lideranças políticas da Rússia começaram a especular sobre a real motivação dessa atitude “irracional” do ponto de vista estratégico. De modo mais concreto, surgiu a especulação de que a expansão da Aliança acorreria para proteger os interesses do Ocidente e de seus aliados contra um provável renascimento da Rússia no futuro, principalmente em função do lobby de imigrantes dos países PECL – majoritariamente poloneses – em distritos eleitorais norte-americanos. De modo mais abstrato, aventou-se a possibilidade de haver uma estratégia deliberada de conter a influência do país no espaço pós-soviético e diminuir sua importância na política mundial. Assim, a máxima recorrente durante a Guerra Fria de que a OTAN na Europa serviria para manter os americanos dentro, os russos fora e os alemães por debaixo seria alterada pela ascensão dos alemães para junto dos americanos dentro e a manutenção dos russos do lado de fora e, por que não, por debaixo.

Este é o motivo pelo qual o programa de Parcerias para a Paz (PfP) lançado em 1993 pela OTAN para fomentar a cooperação com os países do antigo bloco soviético não foi bem recebido pela Rússia. O ingresso russo no PfP e a criação do Conselho de Parceria Conjunta (JPC, na sigla em Inglês) representou uma estratégia para influenciar as decisões acerca da expansão da Aliança, não a sua aceitação. Ao perceber que sua estratégia não surtiria os efeitos esperados, em meados dos anos 1990 o país ameaçou não ratificar o START II e sair do CFE caso a OTAN insistisse em sua política de “portas abertas”. A situação se agravou com os bombardeios da OTAN contra Sérvios na Bósnia, apesar da forte oposição russa. A OTAN contornou a situação aprimorando os mecanismos de consulta entre as partes e incorporou tropas russas à Força de Estabilização encarregada de garantir o cumprimento na Bósnia dos acordos de Dayton.

De fato, no final dos anos 1990 pouco restava do clima positivo que havia sido construído na relação entre a URSS e o Ocidente durante a elaboração dos acordos que encerraram a Guerra Fria. Tais acordos fundaram-se na priorização de armamentos de defesa no lugar de armas de ataque e na transparência dos dados sobre a presença das forças militares no continente, o que foi fundamental para construir confiança mútua entre as partes. A mudança no ambiente ficou evidente na crise do Kosovo. Desconsiderando a oposição russa no Conselho de Segurança da ONU, a OTAN iniciou os bombardeios aéreos à Sérvia em março de 1999. Em represália, a Rússia interrompeu as atividades do JPC e deixou de participar dos encontros do EAPC. O país não compareceu à Cúpula de Washington, realizada em abril de 1999, na qual foram formalizadas as adesões da Polônia, Hungria e República Tcheca à Organização. Com o fim das ações militares em julho, Rússia e OTAN recomeçaram os trabalhos no JPC, embora as consultas ficassem restritas à situação no Kosovo. Esses contatos haviam se tornado necessários devido à tomada do Aeroporto de Prístina pelos russos, à revelia da OTAN.

Em 1999, portanto, o Ocidente celebrou a adesão formal de três novos países do antigo pacto de Varsóvia à OTAN, sendo que um deles possui fronteira terrestre com a Rússia (Polônia com Kaliningrado). Porém, o pior para os russos veio com a resolução militar da crise do Kosovo. O país assistiu atônito à principal transformação da OTAN no seus 50 anos de existência: de aliança militar de defesa passou a ser aliança de ataque, estendendo sua área de atuação para territórios além das fronteiras de seus membros a fim de promover a defesa de “interesses humanitários”. Nesse sentido, vale lembrar que comparações entre o separatismo Kosovar na Sérvia e o Chêcheno na Rússia eram recorrentes tanto na mídia ocidental quanto na russa. Por isso a ação contra os Sérvios, aliados históricos da Rússia, repercutiu significativamente em sua política interna. Nas manchetes dos jornais russos da época a relação entre os dois casos era clara: “Sérvia hoje, Rússia amanhã.”

É bem verdade que as consequências do unilateralismo ocidental para a política interna da Rússia já haviam sido previstas por inúmeros analistas. Já no começo dos anos 1990 Arbatov (1993) alertava que o Ocidente deveria demonstrar mais flexibilidade com a Rússia, pois havia o risco de que derrotas no âmbito externo alimentassem o ressentimento interno e fortalecessem grupos comunistas e nacionalistas. Deve-se lembrar que Bóris Iéltsin adotara posicionamento claramente pró-Ocidental ao chegar ao poder e que seus ministros da Economia e das Relações Exteriores reproduziam com zelo suas diretrizes liberais. O colapso econômico do começo da década deixou sequelas profundas na população russa, em um período no qual o governo estava mais aberto para a influência do Ocidente. A transição para uma economia de mercado, supervisionada de perto por técnicos do FMI, levou a resultados catastróficos. O que deveria ser uma “terapia de choque” para liberalizar os preços acabou se convertendo em um “choque sem terapia”, como costumavam aceitar resignadamente os russos.

A coincidência entre a adoção do liberalismo político e econômico e o colapso das estruturas societais russas transformava as derrotas para o Ocidente no âmbito externo em um catalizador para as forças nacionalistas e comunistas internamente. Em 1993, o Congresso destituiu o presidente. A crise seria resolvida com o bombardeio ao Parlamento, deixando centenas de mortos e feridos. A partir de então, Iéltsin passou a depender do apoio de uma nova elite russa, os oligarcas, cujo controle sobre os principais setores da economia do país lhes conferia poder político considerável. À catástrofe dos indicadores econômicos se somaram ameaças separatistas internas, como a eclosão da primeira guerra da Chechênia. Sofrendo com as críticas da oposição, Iéltsin abandonou sua postura liberal pró-ocidental e se aproximou dos oligarcas para vencer as eleições de 1996. Seu segundo governo foi marcado por escândalos de corrupção recorrentes e pela troca frequente dos primeiros-ministros, dada a complexidade em atender aos interesses de sua base de sustentação. A proliferação de partidos políticos e a influência dos oligargas no governo aumentou a sensação de desamparo da população, que recebera o golpe de misericórdia com a crise do rublo em 1998 e seus efeitos na já cambaleante economia russa (ver Segrillo, 2014).

É nesse contexto que Putin é alçado ao cargo de primeiro-ministro e, logo após a renúncia de Iéltsin, assume interinamente para vencer as eleições de 2000. Sua popularidade foi alavancada pelo fato de ser um outsider da política, com expertise na área de inteligência, e por sua agressiva campanha para debelar o movimento separatista checheno. Após estabelecer-se no poder, Putin iniciou o processo de reestatização do patrimônio que estava nas mãos dos oligarcas, principalmente do setor de produção de hidrocarbonetos, maior fonte de receita da Rússia. Os que não aceitavam negociar com o Estado foram julgados e condenados à prisão por crimes fiscais cometidos durante o período das privatizações. O enfrentamento das famílias de oligarcas aumentou ainda mais o prestígio de Putin junto à população. Logo implementaram-se reformas administrativas para recentralizar o poder no Kremlin, que estava bastante enfraquecido em relação aos vários entes da Federação. Essas medidas políticas foram facilitadas pela conjuntura internacional. Após a invasão do Afeganistão e do Iraque pelos EUA, o preço do petróleo disparou, e a economia da Rússia experimentou taxas de crescimento vertiginosas. A qualidade de vida e a autoestima da população foram recuperadas sob a liderança de Putin. O passado liberal-ocidental de Iéltsin havia ficado para trás.

 

Os 20 anos de Putin

O período de Putin é marcado pela reaglutinação das forças políticas em torno da figura do presidente. Se nos anos 1990 comunistas e nacionalistas disputavam os extremos do espectro político contra o centro liberal-ocidental, com Putin os extremos se enfraquecem e o centro é substituído por uma ideologia estatista. Porém, esse processo não se deu de imediato. Nos primeiros anos de governo, Putin se mostrava bastante pragmático e mantinha em seu entorno ocidentalistas (liberais nos costumes e na economia), eslavófilos (iliberais que acreditam nas tradições ortodoxas russas) e euroasianistas (aqueles que acreditam em um papel especial para a Rússia como mediadora de tradições ocidentais e orientais). Por conta disso, Segrillo (2014) considera-o um ocidentalista moderado, tendo em vista sua opção por ter alternativas para a mudança de rumos em caso de necessidade. Porém, no início de seu terceiro mandato (2012-2018) há uma inflexão nesse pragmatismo, e seu governo passa a ser identificado explicitamente com a ideologia da “gosudarstvennost”, segundo a qual “(…) a nação deveria ser sustentada a partir de uma autoridade política forte, capaz de manter a integridade, a ordem interna e afirmar os interesses externos do país” (Mielniczuk e Piccolli, 2015).

Boa parte dos motivos que levaram à transformação está relacionada a acontecimentos de política internacional que afetaram diretamente os interesses da Rússia. Um primeiro registro deve ser creditado ao impacto que a ocorrência das Revoluções Coloridas teve na percepção das elites políticas russas a respeito da ameaça Ocidental. Um novo tipo de movimento popular, incentivado pela emergência de atores da sociedade civil com vínculos muito próximos a agências de governos ocidentais, pôs em cheque a liderança política de vários aliados de Moscou ao longo do primeiro mandato de Putin: na Sérvia, em 2000, na Belarus, em 2001, na Geórgia, em 2003 e na Ucrânia, em 2004. Nesses dois últimos casos, as manifestações populares que depuseram os presidentes receberam o nome de revoluções rosa e laranja, respectivamente. Para o governo da Rússia, o Ocidente aproveitava-se das fragilidades enfrentadas por países em transição para o capitalismo e da pouca experiência democrática estimulando o levante da sociedade civil contra o Estado, com o objetivo de derrubar os líderes contrários ao seus interesses. Entre os círculos da elite política russa, temia-se que o mesmo ocorresse com Putin.

O temor se sustentava na retomada do unilateralismo norte-americano a partir do governo de Bush filho. A Rússia, que após os atentados de 11 de setembro de 2001 havia ajudado os norte-americanos no combate aos Talibãs no Afeganistão, passou a se preocupar com os interesses dos EUA no Oriente Médio e Ásia Central. A invasão do Iraque em 2003, com base em informações fraudadas pelas agência de inteligência e ao arrepio do direito internacional, colocou a Rússia em clara divergência com os norte-americanos. Além de promover instabilidade, a invasão do Iraque ameaçaria o Irã, principal aliado russo na região. O aumento das tensões entre Estados Unidos e Irã repercutia negativamente nas relações entre a Rússia e o Ocidente, na medida em que os EUA recorrentemente utilizavam uma provável ameaça iraniana aos europeus para justificar a construção de um escudo antimísseis na Polônia e na República Tcheca. Na visão dos russos, tratava-se de uma desculpa para acabar com o poder de dissuasão nuclear russa na ocorrência de algum conflito entre a Rússia e a OTAN. A decisão norte-americana azedou as relações com a Rússia no ano de 2008, e foi adiada em 2009.

A tensão entre os dois países voltou a explodir em 2011. Em dezembro, após eleições parlamentares que garantiram maioria ao partido de apoio à Putin, Rússia Unida, irromperam demonstrações populares contra o processo eleitoral que afetavam a imagem do então primeiro-ministro e candidato às eleições presidenciais de março de 2012. Putin culpou Hilary Clinton pelas manifestações, alegando que a secretária de Estado norte-americana havia atiçado a oposição após colocar em questão a validade do pleito. Na Rússia, cujas posições em relação à Primavera Árabe reforçavam o antagonismo com os EUA, a sensação de cerco se intensificou com o aprofundamento da iniciativa “Parceria para o Leste” da União Europeia, projeto que visava integrar economicamente ao bloco, via acordos de livre comércio, a Belarus, a Ucrânia, a Moldávia, a Geórgia, a Armênia e o Azerbaijão. A inciativa fora lançada em 2009, na esteira da crise econômica mundial, e o ano de 2013 era o prazo limite para as adesões. Para o Kremlin, estava claro que o Ocidente avançava a passos largos rumo a um novo processo para empurrar a Rússia para fora da Europa, só que agora por vias políticas e econômicas, e não militares como ocorrera com a expansão da OTAN.

As negociações dos europeus fracassaram com a Belarus, a Armênia e o Azerbaijão, por conta de pressões russas e da iniciativa de criação da Comunidade Econômica Euroasiática, em oposição à “Parceria para o Leste”. O sucesso foi alcançado apenas com a Moldávia e a Geórgia, países cujos problemas militares envolvendo a Rússia tornavam inexorável à adesão ao acordo. A Ucrânia, dotada de uma população de 45 milhões de habitantes e o maior mercado consumidor entre os candidatos à Parceria, recorreu à tradicional estratégia de barganha ao negociar ao mesmo tempo com a UE e a Rússia. No final das contas, a Rússia ofereceu mais vantagens econômicas, e o presidente Yanukovich assinou o acordo com os russos. Os americanos pressionaram a UE que, sem saber como reagir à derrota diplomática, estimulou a população da Ucrânia a sair às ruas. As palavras do então presidente da comissão europeia urgindo aos jovens para que tomassem as ruas de Kiev e forçassem o governo a mudar de posição deixaram claro que argumentos econômicos estavam embebidos em uma cruzada moral para afastar a Ucrânia da Rússia e atraí-la para o verdadeiro reino da liberdade e prosperidade.

A Rússia avaliou o voluntarismo europeu como sinal de que as revoluções laranja haviam retornado com força. Durante as manifestações contra Yanukovich, a extrema direita tomou conta da situação. A facção conhecida como “setor da direita”, vinculada ao Svoboda, foi fundamental para isso. Nesse sentido, a UE foi ingênua (ou cínica) ao dar apoio a líderes opositores que não tinham legitimidade frente aos extremistas. Por isso a assinatura de um acordo que previa uma transição pacífica e a realização de eleições antecipadas entre líderes da oposição, o presidente Yanukovich e ministros das relações exteriores da Europa, não foi respeitada. Esses grupos radicais não tinham outro objetivo senão a derrubada do presidente; e conseguiram (Mielniczuk, 2014).

Após a deposição de Yanukovich, a Rússia reagiu com a anexação da Criméia e o apoio implícito à eclosão da guerra civil iniciada pelos movimentos separatistas do leste. É necessário lembrar que a maior parte da população dessas regiões ucranianas é russa. A elite da Ucrânia, por sua vez, adotou o discurso nacionalista do partido da guerra, denunciando a Rússia como uma ameaça à sobrevivência do país. Assim, os russos do leste passaram a ser tratados como terroristas, e a administração Poroshenko recorreu a todos os recursos necessários para angariar apoio ocidental contra a Rússia. Não faltaram especialistas ocidentais comparando Putin a Hitler, quando este invadiu a região dos sudetos na Tchecoslováquia em 1938. Não faltaram, também, aqueles que comparassem o “expansionismo territorial” de Putin à política internacional do século XIX.

De todo modo, a situação parecia ter melhorado em 2015, com a assinatura dos acordos de Minsk II, estabelecendo as etapas para a normalização no leste ucraniano. A participação de Alemanha e França nas negociações do chamado “Quarteto da Normandia” indicam que as potências europeias recobraram o juízo após a indolência com Durão Barroso. O acordo previa armistício, a retirada de armamentos pesados da zona de conflito e atendia à principal demanda de Moscou, a saber, a descentralização política da Ucrânia para dar mais autonomia aos russos do leste. Essa última etapa, porém, dependeria de uma reforma constitucional, compromisso assumido pelas autoridades da Ucrânia, mas inviabilizada pelo conflito entre setores nacionalistas e o governo Poroshenko. O impasse favoreceu a Rússia e arrastou a Ucrânia para o abismo econômico. Em 2015, a baixa no preço do petróleo e as sanções ocidentais levaram o PIB da Rússia a cair 4%. Mesmo assim, Putin era aprovado por aproximadamente 90% da população.

O Ocidente também colaborou para o fortalecimento de Putin na maneira como administrou a suas intervenções no Oriente Médio. A bagunçada transição de um regime sunita para um xiita no Iraque, feita de modo açodado pelos Estados Unidos após a invasão do país em 2003, e a falta de capacidade (ou vontade?) de evitar a emergência do Estado Islâmico no norte são o começo de tudo. Acrescente-se a isso uma pitada de wahabismo financiado pela Arábia Saudita para combater os xiitas e a opção ocidental de não negociar com Assad, novamente por influência saudita, e embarcar em uma guerra de proxies por meio do apoio a grupos armados “rebeldes” – incluindo, entre eles, a Al-Nusra, facção da Al Qaeda na Síria. A incompetência no Iraque e o vácuo de poder na Síria criaram as condições para que o mundo assistisse, estarrecido, ao avanço das atrocidades do Estado Islâmico. Excelente oportunidade para a primeira intervenção militar da Federação Russa fora do espaço da antiga União Soviética. O governo russo estimava a presença de 2.500 nacionais russos combatendo a favor do Estado Islâmico na Síria. Depois de resolvido o problema da Chechênia no início dos 2000, foi fácil justificar para a população russa o envolvimento militar na Síria como forma de evitar o retorno da instabilidade e do terror ao Cáucaso. Portanto, a justificativa do governo para intervenção associa terrorismo no Cáucaso russo à turbulência no Oriente Médio. O combate ao Estado Islâmico na Síria permitiu à Rússia empregar diferentes peças de seu arsenal para proteger o governo de Assad, aliado da Rússia e do Irã. Os ataques demonstraram aos Estados Unidos e aos países da Europa que não se pode duvidar da capacidade militar russa, tão pouco de sua determinação em utilizá-la. Entre os russos, a atividade militar na Síria resgatou a autoestima de grande potência e reforçou o papel de protetor exercido por Putin.

Também em 2015, EUA e Irã assinavam o Acordo Nuclear, que poria fim momentâneo à ameaça nuclear iraniana aos EUA. Curiosamente, nesse mesmo ano, Washington anunciou a retomada do escudo antimísseis na Europa. Finalmente as ações militares da Rússia na Ucrânia permitiriam tratá-la, sem eufemismos ou malabarismos conceituais, como uma verdadeira ameaça.

 

Reforma constitucional sob medida

Da anexação da Crimeia em diante, o entorno político de Putin foi se consolidando com nomes mais assertivos em relação aos interesses russos, como os ministros Sergei Lavrov, das Relações Exteriores, e Sergei Shoigu, da Defesa. Após ter o seu primeiro mandato como presidente (2008-2012) considerado muito pró-ocidental, o ex-parceiro de Putin no revezamento dos cargos de Presidente e Primeiro-Ministro, Dmitri Medvedev, passou a ser figurante na administração russa até ser demitido por Putin em dezembro de 2019, após o anúncio de uma ampla reforma constitucional no país.

O futuro da Rússia, como seu passado, está atrelado a seu papel no mundo. Putin completa seus 20 anos no poder em um contexto internacional muito diverso daquele que encontrou no final dos anos 1990. Desde o fim da Guerra Fria, as potências mundiais agiam com certo grau de transigência quando seus interesses conflitavam – seja por limitação em suas capacidades ou por vontade própria. Assim, os conflitos na antiga Iugoslávia, a invasão do Iraque, a Guerra Russo-Georgiana de 2008 e os ataques à Líbia em 2011 foram administrados de modo que não houvesse a possibilidade de que as crises regionais se tornassem um conflito maior. Infelizmente, as guerras civis na Ucrânia e na Síria mudaram essa realidade. As grandes potências passaram a ser inflexíveis. Além dos custos humanos decorrentes dessa rigidez, há sempre o risco de que a situação saia de controle e descambe para uma guerra de proporções maiores. Em 2020, ressurgimento da tensão entre a Rússia e a OTAN no término da guerra civil síria, especificamente em relação à cidade de Idlib, serve de alerta de que a situação internacional hoje é bastante perigosa, dada a proximidade de forças militares que atuam com objetivos diferentes nos mesmos cenários de guerra. O mundo caminha para um cenário de intransigência militar e de antagonismo ideológico que se retroalimentam. Nesse sentido, parece claro que a opção de Putin por reforçar o viés estatista à frente da Rússia tende a se manter.

Nesse sentido, analistas que reproduzem acriticamente a caricatura ocidental sobre a Rússia enxergam a reforma constitucional em curso no país como uma estratégia de Putin para se tornar, também por direito, um novo Czar da Rússia. O grande problema é que os Czares russos não eram eleitos, e Putin obteve uma vitória acachapante nas eleições presidenciais de 2018, com aproximadamente 80% dos votos válidos em uma eleição com participação de quase 70% dos eleitores. Sua reeleição para um quarto mandato presidencial é vista com descrédito, não por conta das alegações de fraude feitas pela oposição, mas, segundo a Organização para Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), em razão de não haver na Rússia, desde 2012, um clima propício para a emergência de alternativas reais entre os candidatos. De fato, medidas que condicionam as manifestações públicas à aprovação de autoridades locais sob a justificativa de manter o bom funcionamento das vias públicas e entraves legais a candidaturas “ficha suja” afetaram a organização da oposição. Porém, o fato de o blogueiro oposicionista Alexey Navalny, barrado pela lei de “ficha limpa”, nunca ter ultrapassado o patamar de 5% de intenções de voto em pesquisas de opinião deveria atenuar um pouco a força dessa crítica.

Portanto, resta refletir sobre os motivos pelos quais Putin ganhou as eleições de 2018 tendo como desafiantes os mesmos comunistas e nacionalistas de vinte anos atrás, que somados não chegaram a 20% dos votos. Embora existam várias causas, o entendimento do “fenômeno” Putin deve partir, necessariamente, do abandono da caricatura ocidental que, herdeira da sovietologia, aprisiona a compreensão da Rússia em uma subjetividade construída com preconceito, exoterismo, parcos conhecimentos históricos, marketing de baixa qualidade e psicologismo político de botequim, como evidenciam as recorrentes referências ao “Czar Putin” e, mais recentemente, ao fenômeno do “putinismo”. Quando o Ocidente estiver preparado para autocrítica, talvez os caminhos percorridos até aqui sejam redesenhados e exista possibilidade de avanço rumo à cooperação internacional entre a Rússia e as demais grandes potências. Até lá, Putin agradece.

 

O autor é professor adjunto do Departamento de Ciência Política e professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da UFRGS

fpmiel@gmail.com

 

BIBLIOGRAFIA

Arbatov, A. G. 1993. “Russia’s Foreign Policy Alternatives”. International Security 18(2): 5–43.

Engerman, David C. 2009. Know Your Enemy: The Rise and Fall of America’s Soviet Experts. Oxford, New York: Oxford University Press.

Kissinger, H. A. 2014. “To settle the Ukraine Crisis start at the end”. The Washington Post, 05 de março. http://www.washingtonpost.com/opinions/henry-kissinger-to-settle-the-ukraine-crisis-start-at-the-end/2014/03/05/46dad868-a496-11e3-8466-d34c451760b9_story.html. Acessado em 05/03/2020.

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Segrillo, A. 2014. De Gorbachev a Putin: A Saga da Rússia do Socialismo ao Capitalismo. Curitiba: Ed. Prismas.

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