Porque hoje é SABATO

Porque hoje é SABATO

Cecilia Nahra, Fotógrafa e analista do simbólico

 

O “Santo Lugar” de Sabato e Matilda. Langeri 3135, onde Ernesto Sabato escreveu e viveu suas histórias desde 1945. Um escritor, um ensaísta, um físico, um pintor, e um vizinho fraterno. Todos no bairro conheciam sua casa. “Quiero que me recuerden como un vecino a veces cascarrabia pero en el fondo buen tipo. Eso es todo lo que pido”.

Em homenagem a seu amigo Homero Manzi, o tango ganha letras de Sabato. “Al Buenos Aires que se fue”, a nostalgia revelada na música.

 

“Cuando la dureza y el furor de Buenos Aires,

Hacen sentir más la soledad,

Salgo a caminar por esos barrios que tímidamente, con vergüenza,

Conservan algún minúsculo tesoro de un pasado menos duro,

Una maceta con malvones, alguna reja rezagada.”

 

Um homem fiel a seus hábitos. Sabato vestia invariavelmente os mesmos trajes, o mesmo chapéu, o mesmo tapado, os mesmos óculos. Assim, era sempre reconhecido e não seria avistado de outra maneira.

O escritor passeava por distintos lugares para imaginar suas novelas. Assim nasce, nos anos 70, “Sobre héroes y tumbas”, uma história embriagada por incesto e morte, quiçá uma de suas obras mais importantes. Foram anos de escritura e obsessão. A primeira cena do livro se passa no Parque Lezama, na Zona Sul de Buenos Aires. Martin vê a estátua quando se sente observado por Alejandra. Um primeiro encontro. “… tuve la sensación de que alguien estaba a mis espaldas, mirándome… Hizo un gran esfuerzo por mantener la mirada sobre la estatua.”

Maltida e Sabato se conhecem em La Plata, em um curso sobre marxismo ministrado pelo próprio escritor. Aos 17 anos, a jovem foge de casa ao encontro de Sabato. O caminho dos dois nunca mais se descolou. A literatura de Sabato somente pôde ser lida em função de Matilda. Ele atirava em chamas todos os seus escritos e ela se ocupava de resgatá-los e corrigi-los. Assim, ambos nos encheram de histórias.

Maltida e Sabato se conhecem em La Plata, em um curso sobre marxismo ministrado pelo próprio escritor. Aos 17 anos, a jovem foge de casa ao encontro de Sabato. O caminho dos dois nunca mais se descolou. A literatura de Sabato somente pôde ser lida em função de Matilda. Ele atirava em chamas todos os seus escritos e ela se ocupava de resgatá-los e corrigi-los. Assim, ambos nos encheram de histórias.

Levava uma vida bucólica. Era um homem do interior. As pessoas das grandes cidades lhe pareciam alienadas, sem nome. Assim escolheu Santos Lugares. Para ir a capital, gostava de utilizar o trem, mesmo depois dos seus 80 anos. Ali era conhecido. Se adormecia na viagem, o despertavam em sua estação. Sabato não queria mais do que isso.

Gostava de silêncio e aconchego para escrever. Sentava em seu escritório, à frente da janela que mira para o jardim de Matilda. Ali, debruçava-se sobre sua velha máquina de escrever. Nunca a trocou. Certa vez, ganhou uma nova, não gostou e mandou devolver. Mantinha seus dedos nas teclas quadradinhas que reproduziam a seiva da sua imaginação.

Sabato comandou a Comisión Nacional sobre la Desaparición de Personas entre os anos 1983 e 1984, a pedidos do presidente da Argentina Raúl Alfonsín. As investigações realizadas em seu mando foram eternizadas no livro “Nunca más” e abriram caminho para os juízos das juntas militares em 1985.

Vivia entre livros. Dono de uma gigante biblioteca, sua obsessão não consistia apenas em ler todas as obras e marcá-las, mas também em organizá-las. Tudo deveria estar na exata ordem “sabatiana”. Muitas vezes, despertava à noite e arrumava a biblioteca. O hábito o acalmava.

Quando começou a pintar sentiu que necessitava de um espaço novo. Sempre muito organizado, construiu uma sala própria para o ofício. Ali mantinha também os quadros que recebia de presente. Sabato era um grande apreciador das artes plásticas, que expressavam as imagens do seu inconsciente.

Os óculos faziam parte da sua identidade. Eram suas outras digitais. Funcionavam como um divisor do seu olhar para o universo exterior e para o seu eu profundo. Sabato via o mundo a partir dessas grossas lentes embaçadas, um tanto grandes para seu rosto, na qual todos acreditavam residir sua magia em analisar as profundidades do ser e a sua existência. As lentes tinham um componente trágico, pois emolduravam o olhar triste de um homem que sabia demais sobre o inferno de nós mesmos.

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