Por uma história do pensamento sociológico brasileiro

Por uma história do pensamento sociológico brasileiro

Edison Bariani, Sociólogo

 

A história do pensamento sociológico no Brasil, a despeito das interpretações vigentes, pode ser narrada – e não unilateralmente – com base em seus processos dinâmicos de construção, por seus próprios usos e decisões. Nesses marcos, é possível delimitar as condições e formas do advento do pensamento sociológico no Brasil e sua conformação inicial, compreendendo suas características, fundamentos e paradigma dominante, no caso, um modelo vigente desde os primórdios do século XIX, extraído da tradição sociológica europeia, mormente francesa, tendo acentuado seu cunho mecanicista e expurgados seus caracteres mais historicistas: um tipo de “ciência natural” da sociedade, assimilada aqui com a enxurrada de positivismo, evolucionismo, cientificismo e naturalismo. Tal paradigma predominou nesse primeiro estágio de criação no Brasil, tendo sido aqui identificado com a própria ciência da Sociologia, legitimado como interpretação, naturalizado como modelo e ratificado como inexorabilidade histórica.

 

A Sociologia e suas histórias

A história da Sociologia tem sido narrada de várias formas: com base na continuação/imbricação com o pensamento social; do estudo dos fatos sociais sem uma cabal ruptura com o pensamento social; da ruptura com a filosofia social por meio da seção entre comunidade e sociedade; a partir do rompimento das formas de sociabilidade e conexão; dos modos de institucionalização, da capacidade de distinção em relação à filosofia social e à análise autônoma dos processos de socialização; da distinção positiva em relação a uma metafísica do social; das tradições e suas conexões nacionais e teóricas; da criação e fundamentação científica da investigação empírica; da relativamente diversa contribuição fundamental dos seus clássicos; da importância explicativa de temas por autores e escolas na atualidade; da construção das teorias sociológicas sistemáticas e suas formas de explicação/compreensão; das grandes tipologias de abordagem da sociedade; das formas fundamentais de construção da totalidade social; da tipologia da teoria sociológica; das estruturas normativas subjacentes às teorias sociais; da interpretação sociológica da infraestrutura da criação teórica; do desenvolvimento e evolução das ideias sociais; da reflexão filosófica a respeito do fenômeno social e a interpretação do mundo; das práticas do pensar (em termos de abordagens e temas) em determinadas condições sociais, intelectuais e institucionais; da competição explicativa entre as culturas de uma sociedade; da competição institucional e status acadêmico e social; da evolução histórica e nacional; das etapas do pensamento sociológico em termos de autores clássicos; da forma orgânica de intervenção político-cultural na realidade social; dos fundamentos ideológicos do debate intelectual; da evolução dos fatores epistemológicos de organização da ciência. E, ainda, narrada em termos de continuidades e descontinuidades; de evolução histórica da sociedade como totalidade; de mudança social; de construção prático-cultural a partir da institucionalização, relação empírica com o objeto, conhecimento, interesse, gestão e transformação da sociedade; de redescoberta do “espírito fundador” e desafios dos pioneiros; das conquistas do Iluminismo e da tirania do progresso; da descoberta da sociedade por meio dos autores clássicos; da evolução histórica no Ocidente e por meio dos principais autores; e mesmo das raízes da Sociologia na antiguidade clássica grega. A profusão de percursos, enredos e narrativas, em geral controversas, aponta para a relativa imaturidade da Sociologia como ciência e, simultaneamente, para sua riqueza e complexidade como fenômeno histórico, a despeito de sua compartimentação como disciplina e um quase total desprezo pela produção exterior aos EUA e Europa.

Todavia, no Brasil, as narrativas do desenvolvimento da Sociologia são exíguas e circunstanciais, a maior prova disso é a inexistência ainda de uma obra orgânica e sistemática sobre a Sociologia brasileira. Por que ainda não existe uma história da Sociologia, ou do pensamento sociológico, no Brasil (ou brasileira)? Tal ausência deve-se ao desdém para com a empreitada ou ainda à descrença na existência do objeto? O evidente menosprezo à tarefa refere-se à desconfiança na importância desta, à inexistência de uma história sua (em sentido pleno) autônoma ou, no limite, à desconfiança na própria existência de uma Sociologia brasileira?

 

 

Há, entretanto, tentativas de esboçar um quadro das ideias sociológicas no Brasil. A começar por Chacon (1977), que expõe em análises estanques alguns autores e ideias em relativa desarticulação entre si. Em uma das primeiras tentativas de sistematização, Andrade (1941) intentou um esboço da formação da Sociologia brasileira em uma obra interrompida, que nunca ultrapassou o primeiro volume – sobre os primeiros estudos sociais (cronistas, historiadores) no Brasil, alcançando até o século XVIII. Já Bastide (1947), abordando a Sociologia brasileira no contexto de uma “Sociologia da América Latina”, embora condene o exercício de simples importação de modelos, demonstra certo otimismo (quase sem continuadores) nas possibilidades de desenvolvimento de um pensamento sociológico fecundo e original, lapidado no estudo de temas e problemas próprios.

Os balanços sociológicos da Sociologia no Brasil – que emergem nos anos 1950 – são frutos de uma disciplina que se institucionalizava, buscava consolidação metodológica e, sobretudo, prestígio e influência – senão prerrogativa – na explicação social da vida social no país. Com a criação, nos anos 1930, das universidades, faculdades e cursos de Ciências Sociais (na Escola Livre de Sociologia e Política e Universidade de São Paulo, em São Paulo, em 1933, e na Universidade do Distrito Federal, depois Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, em 1934), assim como da primeira revista acadêmica da área (Sociologia, da Escola Livre de Sociologia e Política, por iniciativa de Emilio Willems e Romano Barreto), aflui a ideia legitimadora de que naqueles anos está o marco inicial da produção científica e que a institucionalização é o processo por excelência do amadurecimento e desenvolvimento da Sociologia no Brasil.1 Tal avaliação é expressa por Djacir Menezes (1956), e também por Costa Pinto e Edison Carneiro (1955), estes últimos, elaboradores de um pioneiro balanço institucional e temático da produção sociológica brasileira. Compartilha também desse ponto de vista Ferreira (1958a, 1958b), segundo o qual as ciências sociais tomaram rumo “impressionante” e os estudos adquiriram tom científico e construtivo somente após 1930, dando início à “fase moderna da Sociologia brasileira”.

De modo análogo, Fernando de Azevedo (1973, p. 317)2 analisa a questão na América Latina e, particularmente, no Brasil, conferindo à Sociologia “no Brasil” três fases: uma primeira fase, anterior ao ensino e à pesquisa, na qual as obras são “antes literárias e históricas que sociológicas”, estendendo-se da segunda metade do século XIX até 1928; uma segunda fase de introdução do ensino de Sociologia nas escolas do país, de 1928 a 1935; e, finalmente, a da associação do ensino e da pesquisa nas atividades universitárias, após 1936.

Também Florestan Fernandes (1958, p. 190), de modo semelhante, seguirá tal curso ao indicar três épocas de desenvolvimento da reflexão social no Brasil: 1ª) na qual tal reflexão é usada como recurso parcial de explicação e dependente de outros instrumentos; 2ª) na qual predomina o uso dessa reflexão como forma de consciência e explicação das condições histórico-sociais de existência; e 3ª) na qual vige a subordinação do labor intelectual aos padrões de trabalho científico sistemático por meio da investigação empírico-indutiva. A nova geração de sociólogos brasileiros,3 principalmente em São Paulo, esforçava-se por distinguir-se do que chamavam “ensaísmo” dos analistas sociais que lhes eram antecedentes, desvalendo assim interessantes contribuições anteriores, como as de Tavares Bastos, Joaquim Nabuco, Tobias Barreto, Sílvio Romero, Alberto Torres etc.4

A busca da originalidade e da distinção nacional da Sociologia brasileira será perseguida por Guerreiro Ramos, iniciador de uma ampla revisão da Sociologia brasileira que, ao final, permeará toda sua obra; para ele, a existência de uma produção sociológica local advém dos trabalhos de Tobias Barreto, Sílvio Romero, Euclides da Cunha, Alberto Torres etc. (RAMOS, 1953, p. 11-2), porém, seria necessário consolidar uma “Sociologia nacional”, não alienada e criadora da forma da sociedade brasileira, de “molduras intelectuais da nação”, bem como difundi-las para que se tornassem comportamentos automáticos e generalizados (RAMOS, 1953, p. 40). Aflorava ali a ideia de Sociologia como consciência social e forma de modernização das mentalidades, comum naqueles anos 1950, entretanto, agora também como “saber de salvação”.

 

 

Mais intensivo e equilibrado, recuperando nomes e contribuições para a Sociologia no Brasil, é o trabalho de Antonio Candido (Formação da Literatura Brasileira), redigido em 1956 e publicado originalmente em 1959. Nele, o autor resgata a produção sociológica, desde o final do século XIX até os anos 1950, com acurado senso histórico, sem pretensões de contestação (anacrônica) das explicações da vida social com base num instrumental posterior. Todavia, não obstante a ideia de sistema que subjaz ao texto, falta ao relato mais organicidade, os autores sucedem-se de modo um tanto fragmentário, subsumida a tênue linha que os agrupa em termos de continuidade das ideias.

Autores mais recentes ocuparam-se da periodização da Sociologia no Brasil, dos primeiros autores e de debates intelectuais relevantes, da busca de uma eventual herança relegada e o desenvolvimento e enraizamento social da Sociologia brasileira. Trabalhos de maior envergadura têm sido feitos nos últimos 30 anos, ainda assim, a temática de uma historicidade da Sociologia brasileira foi posta em segundo plano, sendo valorizada a abordagem ideológica (em termos de método) de autores significativos e da pesquisa dos fundamentos sociais da produção sociológica, ao modo de uma “Sociologia da Sociologia”.5

Uma iniciativa de vulto foi a organização de uma História das ciências sociais no Brasil (MICELLI, 1989, 1995), que reuniu diversos autores na abordagem de aspectos relacionados à constituição e à institucionalização das ciências sociais no país. O amplo painel ilumina várias particularidades da vida acadêmica e das circunstâncias de produção intelectual, empreende uma Sociologia da ciência, das instituições, dos intelectuais e até da clientela, mas não se aprofunda na gênese, sistematização, articulação e desenvolvimento histórico das ideias sociológicas e seus respectivos autores.

Assim, a abordagem do processo histórico da Sociologia brasileira – ou no Brasil, como prefere a maioria dos autores6 – tem sido frequentemente omitida ou relegada, todavia, quando não o foi, vigeu a narrativa segundo uma interpretação da produção das ideias no Brasil historicamente recorrente conforme – nas palavras de Tobias Barreto – certo “complexo de Penélope”, segundo o qual se desfaz de noite o que se produz de dia (BARRETO, 1977b), acrescida da interpretação de que os autores estariam comumente lançando mão de ideias “importadas” ou descontextualizadas, o que inviabilizaria a consolidação de uma produção articulada, no limite, de uma tradição intelectual (e sociológica) brasileira.

Mesmo que sob o risco de perseguir a própria sombra, cabe perscrutar a existência de tal tradição sociológica brasileira, ainda que sua realidade última possa ser a produção e/ou reprodução do efêmero e do reflexo de outrem. O fato é que a Sociologia brasileira, por meio de seus intérpretes e autores, ainda não se reconhece no próprio espelho de sua produção.

 

Paradigma e hegemonia

Na lacuna deixada pela vaga historicidade predominou a percepção da Sociologia brasileira como dotada de uma trajetória errante, culturalmente deslocada, mas possível pelo espelhamento de modelos cientificamente reconhecidos, e cujo exemplo prestigiado advinha da influência da Sociologia europeia, particularmente a francesa, em parte devido à ostensiva presença da cultura francesa na elite cultural brasileira, à influência das ideias (políticas, científicas e literárias) e dos intelectuais franceses, ao ensino da língua, às missões culturais vindas ao Brasil, ao modelo de ensino e acadêmico adotados e, notoriamente, ao caráter do ensino de Sociologia na universidade brasileira (a Universidade de São Paulo, em especial), cujas cátedras, não só de Sociologia, mas nas Ciências Sociais e filosofia em geral, estiveram sob a regência de professores franceses ou forjados pela tradição sociológica francesa. Tal tradição era caracterizada pelo essencialismo social, pelo realismo e holismo analíticos, bem como pela forte preocupação com a ordem social e a coesão moral – tradição iniciada por Montesquieu e consolidada por E. Durkheim, passando por Condorcet, Saint-Simon e A. Comte. Também, predominavam concepções organicistas, funcionais e estruturais que traziam – ainda que às vezes de modo recôndito – aspectos naturalistas e positivistas.7

A Sociologia, como afirmou Wiese (1932, p. 3), não tem uma só raiz, germinou de diversos modos em diversos solos, embora só surja quando a sociedade alcança certo grau de “progresso”, certa complexidade social moderna. Destarte as várias tradições sociológicas existentes – em geral relativa, circunstancial e temporariamente ligadas a tradições históricas e socioculturais nacionais – o paradigma hegemônico que dominou a Sociologia brasileira em seus primórdios no século XIX foi extraído da tradição sociológica francesa, acentuado seu cunho mecanicista e expurgados seus caracteres historicistas: um tipo de ciência natural da sociedade, assimilada aqui com a enxurrada de positivismo, evolucionismo, cientificismo e naturalismo que impregnou o último quartel do século XIX no Brasil, e filtrada pelos anseios de contestação política e social ao conservadorismo do antigo regime – monárquico, antidemocrático, escravocrata, centralizador, católico, territorialista e estamental.

 

 

Esse paradigma sociológico hegemônico, obviamente, servia à conveniência no momento; entretanto, tornou-se o círculo de ferro que fixou os limites da legitimação da produção sociológica desde o último quartel do século XIX até, praticamente, a metade do século XX no Brasil, quando já havia sido duramente criticado e estava em franca decadência na própria França e no restante da Europa. Tornou-se a gênese, o percurso e a história da Sociologia brasileira, principalmente com a institucionalização das ciências sociais – e ainda hoje é visto como parte essencial do cânone da interpretação social.

Outrossim, nesse interregno entre o nascimento e a consolidação da Sociologia no Brasil, tal paradigma dominou a produção sociológica e quase esterilizou as tentativas de renovação e construção de outras sociologias que não a chancelada pelo modelo dominante – modelo esse com o qual, a partir dos anos 1930, a institucionalização, o ensino e a pesquisa universitários, contestadores do ensaísmo anterior, corroboraram largamente, até mesmo estreitando seus limites.8 Assim, não há, na história da Sociologia no Brasil, uma necessária eficácia em termos de interpretação dos fatos da “realidade”, mas algo de competição entre paradigmas e explicações antagônicas.

Trata-se, sobretudo, de problematizar a gênese e o desenvolvimento da Sociologia, particularmente no Brasil, por meio de processos socioculturais e políticos de opção, seleção, assimilação, adequação e hegemonia a partir de distintos paradigmas explicativos provenientes de diferentes matrizes culturais. O paradigma positivista e naturalista do século XIX, extraído da matriz francesa, malgrado as várias raízes por meio das quais tomou corpo a árvore da Sociologia, predominou nesse primeiro estágio de criação desta ciência no Brasil, tendo sido aqui identificado com a própria ciência da Sociologia, legitimado como interpretação, naturalizado como modelo e ratificado como inexorabilidade histórica por meio da produção sociológica derivada e da narrativa não crítica do advento da Sociologia no Brasil.

A Sociologia brasileira e seu pensamento formou-se a partir de condições nacionais e de absorção de ideias construídas nos países centrais, nos quais o desenvolvimento do capitalismo proporcionou primeiramente o advento da sociedade burguesa, trazendo à tona um esboroamento do antigo regime, suas ordens relativamente estáveis e seus laços de solidariedade; houve uma cisão entre Estado e sociedade civil, bem como uma oposição entre comunidade e sociedade e uma crise de valores tradicionais. No Brasil, o início de tal processo remonta ao último quartel do século XIX, e o advento da Sociologia é um dos indicativos desse processo histórico.

Entretanto, a gênese da Sociologia brasileira não parece poder ser simplesmente explicada com base em processos de imitação, importação ou transplantação, embora houvesse um componente de apropriação (por vezes não crítica) das ideias dominantes na Europa; a escolha, a seleção e a assimilação dessas ideias pelos pensadores foram histórica e socialmente condicionadas (logo, politicamente) e feitas conforme as deliberações dos sujeitos. Isso não significa que as ideias têm tempos e espaços sociais absolutamente definidos, mas que, em última instância, têm delimitadas suas circunstâncias de produção e adequação conforme condições limítrofes de aceitação, atuação e permanência, dentre as quais atua a volição das escolhas teóricas, sociais e políticas.

A história da Sociologia brasileira, a despeito da adoção não crítica de ideias, merece ser revista por meio de seus processos dinâmicos de construção, pois seus próprios usos e decisões, formas e conteúdos – ainda que talvez não completamente originais – podem mostrar-se passíveis de análise baseada na estruturação e no desenvolvimento históricos e socialmente particulares, ainda que, no limite, submetidos à totalidade do processo de desenvolvimento do capitalismo e sua evidente mundialização.

Nesses marcos, é possível delimitar as condições e formas do advento da Sociologia no Brasil e sua conformação inicial, compreendendo suas características, fundamentos e paradigma(s) dominante(s).

 

Diálogos com as vozes do passado

O desenvolvimento da Sociologia no Brasil não está relacionado apenas à influência de escolas e autores, à recepção e à assimilação das teorias, à adoção e à refuncionalização dos conceitos e à própria criação – organização e imaginação – de formas de explicação sociológica dos fenômenos sociais, há de se considerar também a construção e legitimação das teorias, difusão e disputas por hegemonia na explicação social. Essas implicações demandam conhecimento das condições sociais, políticas, culturais (particularmente intelectuais) e seus conflitos, cujos balizamentos impõem também um conhecimento das estruturas sociais, dos grupos sociais envolvidos, seus conflitos de interesse e culturais, construções intelectuais e visões de mundo.

Por outro lado, se a história (inclusive a história intelectual, das ideias) não segue uma linha reta e providencialmente articulada de modo causal, também o passado não é a justificação do presente, assim como o devir não é simples desenrolar do presente histórico; o acontecer não supõe nem uma absoluta conexão factual e causal, nem uma imanência, nem uma articulação mecânica e/ou teleológica: há que se resguardar o terreno das possibilidades históricas, dos anseios, da consciência antecipadora, da aposta, do efêmero, do provisório, do inacabado e mesmo do imponderável.

Não se pode tomar a história das ideias como uma corrente, elo a elo articulada, sob pena de entregar a autonomia duramente conquistada pelas ciências humanas à férrea (e frágil) lógica dos fatos, fatos estes narrados conforme a visão de mundo e os interesses de sujeitos e grupos sociais que criaram muitas das condições em que desenrolaram tais fatos, ou mesmo construíram os próprios fatos. A crítica se anula quando a história torna-se justificação, já que não cabe à crítica legitimar o dado, mas “escovar a história a contrapelo” (BENJAMIN, 1987).

O objetivo do estudo das condições de afluência e construção da Sociologia no Brasil (ou brasileira) e uma eventual alternativa ao paradigma e seus cânones não podem ter caráter simplesmente estético, perseguir uma originalidade que se autoconsome no próprio processo de criação da novidade; ao revés, prende-se à necessidade de tornar o conhecimento social permeável à diversidade, às outras possibilidades de construção da explicação sociológica e suas consequências.

O estudo da formação da Sociologia brasileira, longe de ter um caráter arqueológico ou excêntrico de resgatar um componente residual e perdido, visa entender as próprias condições (e ações subjacentes) a essa perda, os fatores que levaram tal formulação a ser relegada, pois as motivações e condições desse desprezo são parte da argamassa da construção dominante, seus interesses, argumentos e formas de legitimação. Não cabe à crítica sociológica flertar com o moralismo ingênuo, promovendo cruzadas para reabilitar os “vencidos” e sua versão da história, empreendimento tão ideologicamente canhestro quanto a justificação do passado, mas compreender os conflitos e contradições constituintes das sociedades e de sua história, notoriamente aqui, da história das ideias e da Sociologia em particular.

 

 

Sem compreender o desenvolvimento da Sociologia no Brasil, sua história, suas contradições, seus discursos e seus silêncios, não se pode fazer Sociologia no Brasil. Os mortos já não governam os vivos e não cabe mais lhes render homenagem; cumpre, sim, entender sua existência social e tomá-los como construtores de seu tempo e interlocutores do nosso, ambos os tempos ainda abertos a interpretações.

Assim, quando nos detemos sobre a história da Sociologia brasileira, notamos que as ideias não estão fora do lugar, nem o autor está fora do seu tempo, o que não equivale a dizer que há um tempo e lugar exatos para ambos; também as ideias não são selecionadas absolutamente de modo instrumental para consecução de objetivos políticos, o que não equivale a dizer que a escolha, os desejos, os anseios e a política são exteriores às ideias científicas. As ideias não são apenas importadas, nem a originalidade é uma virtude por si, o que não autoriza uma contextualização férrea que encurte o horizonte das possibilidades do pensamento.

Nesse sentido, dialogar com o passado, de autores mortos e ideias vivas, não é misticamente evocar espíritos dos condenados ao limbo da história das ideias, nem sequer desenterrar cadáveres de impossibilidades, muito menos prestar homenagens no cemitério das utopias. É ouvir as vozes caladas pelo silêncio da unanimidade e, sobretudo, desmascarar as narrativas míticas da história indefectível e os vaticínios dos profetas dos fatos consumados, até porque tal mística reside no fato de que estes são criadores e legitimadores desse passado que acorrenta o presente a uma suposta linha da história.

 

O autor é doutor em sociologia pela Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho (UNESP).

edisonbariani@gmail.com

 

NOTAS DE RODAPÉ

 

  1. Apesar disso, o ensino de Sociologia já havia sido proposto nas faculdades de direito por Rui Barbosa (1879) e no ensino regular por Rocha Vaz (1925), já eram ministradas aulas desde 1912 por Soriano de Albuquerque, na Faculdade de Direito do Ceará, e a disciplina já havia sido introduzida, em 1928, como cadeira no Colégio Pedro II, na cidade do Rio de Janeiro (a cargo de Delgado de Carvalho), na Escola Normal de Recife (com Gilberto Freyre) e do Distrito Federal (com Fernando de Azevedo). Nos anos 1950 ocorreram no Brasil as primeiras reuniões de organizações de classe: em 1953, o II Congresso Latino-Americano de Sociologia, e em 1954, o I Congresso Brasileiro de Sociologia, realizado na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, e promovido pela Sociedade Brasileira de Sociologia, fundada em 1948.
  2. Em apêndice inicialmente publicado em 1954 à 6ª edição de seu compêndio (publicado originalmente em 1935).
  3. Mais tarde, Fernandes (1977) voltará ao tema e – de modo amargo – fará um balanço de sua trajetória e da de sua geração intelectual, que nomeou “geração perdida”, devido ao suposto fracasso em instrumentalizar o saber em benefício da transformação social de cunho popular.
  4. Segundo Ortiz (1990, p. 165), “[…] não há solução de continuidade temática entre os velhos pensadores e a escola de Sociologia paulista”; já para Vianna (1994, p. 364), a institucionalização das ciências sociais não se aproveita da existência prévia do trabalho científico, nem tem como se vincular diretamente à tradição da forte ensaística que lhe antecede, as ciências sociais surgem “ex-novo”, “por cima”, mormente “pela mão das oligarquias paulistas, então dissidentes do governo federal – com quem chegam à guerra civil em 1932”.
  5. Extensivo levantamento bibliográfico – orientado para a política e que contempla também a Sociologia – foi produzido por Santos (2002) e uma bibliografia do pensamento social brasileiro está em Aguiar (2000); de modo condensado, uma bibliografia básica do estudo de temas na produção sociológica brasileira está em Micelli (1999) e um recenseamento bibliográfico da produção do ISEB e sobre o instituto e seus principais autores está em Bariani (2005).
  6. A opção dos autores pela designação de Sociologia no Brasil e não Sociologia brasileira, mais que um posicionamento sobre o caráter universal da Sociologia, denota a desconfiança em relação à relativa autonomia ou mesmo existência histórico-genético-evolutiva da Sociologia como ciência no Brasil. Assim, não se poderia fazer referência a uma Sociologia brasileira como, frequentemente, se faz a uma sociologia francesa, alemã, norte-americana ou mesmo inglesa (que nos parece um caso muito interessante e peculiar).
  7. De modo análogo, tal influência cultural francesa pode ser notada também em outras manifestações, notoriamente na literatura brasileira do período, não somente no Romantismo brasileiro do século XIX, mas, sobretudo, nas manifestações realistas e naturalistas e suas interpretações da vida social no Brasil.
  8. A esse respeito, lembremos a conceituação naturalista de Sociologia elaborada por Florestan Fernandes (1974, 1991), tomando-a por ciência eminentemente empírica e indutiva, que se ocupa da interação dos seres vivos nos diversos níveis de organização da vida, compreendendo as três grandes formas da vida social, materializadas nas comunidades “animais”, “vegetais” e “humanas”.

 

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