Política como sedução: de Lacerda a Ulysses, a trajetória de Raphael de almeida magalhães

Política como sedução: de Lacerda a Ulysses, a trajetória de Raphael de almeida magalhães

J. Carlos de Assis, economista

 

Sempre me ocorreu traçar o perfil político dessa que é uma das figuras mais eminentes da vida republicana brasileira, partícipe de momentos decisivos da história política do país desde Getúlio Vargas a Lula e Dilma Rousseff. Razões pessoais me impediram de fazer isso. Raphael transitou pelos palcos, mas principalmente pelos bastidores da política do país por mais de 50 anos, atuando em momentos decisivos com notável perspicácia e discrição. Exerceu uma refinada arte de sedução que encantava os interlocutores, colocando sempre, em primeiro lugar, o interesse público, sem jamais transigir com convicções éticas que o tornaram admirado entre correligionários e até mesmo adversários políticos.
Talvez seja ele um dos poucos homens públicos brasileiros cuja biografia se confunde de alguma forma com a própria evolução política do país, em meio século, colocando-se ora nas hostes da situação, ora nas hostes da oposição, mas com respeito escrupuloso pelo adversário político. Essa performance singular permite a construção de um ensaio biográfico altamente interessante, pois em muitos momentos será o biografado que, de sua posição privilegiada, descreverá fatos históricos relevantes pela mão do biógrafo. Não obstante me limitarei ao ensaio, não a um livro. Minha intenção é dar um testemunho pessoal e não uma biografia acadêmica convencional.
A gênese política de Raphael é seu encontro, ainda muito jovem, com Carlos Lacerda. Lacerda acabara de “ganhar” a autonomia da Guanabara de JK, que queria ver-se livre de seu principal opositor no plano nacional, confinando-o a um reduto onde ele tinha folgada vantagem eleitoral. Entretanto, Lacerda, que vinha de uma carreira política centrada na retórica e numa oratória inflamada, atacando com peculiar ferocidade todos os adversários, achava que precisava de se preparar para fazer um bom governo no plano administrativo, a fim de evitar a impressão de que era apenas um demagogo. Então, para preparar o governo, entregou sua montagem a dois jovens de especial talento, Hélio Beltrão e Raphael de Almeida Magalhães.
Beltrão não ficou no governo até o fim. Raphael tornou-se, dessa forma, a alma e a âncora do experimento social-democrata real que Lacerda, conscientemente ou não, realizou na Guanabara. O governador traçava as prioridades e Raphael tratava de viabilizá-las no plano político e administrativo. Com isso, fizeram uma revolução na saúde (Guandu), na educação (quando entraram havia 100 mil crianças fora da escola, quando terminou o governo não tinha nenhuma), nos transportes (Plano Doxiades, viadutos e linhas expressas), na urbanização (Parque do Flamengo, Praia de Copacabana e outras praias), na remuneração dos servidores, sobretudo de educação.
Não era uma convivência sempre pacífica. Embora Raphael nutrisse uma grande admiração e simpatia por Lacerda, tiveram divergências importantes, sobretudo depois do golpe de 64, inclusive quando do lançamento da Frente Ampla de oposição ao regime militar – que Raphael recusou-se a apoiar por achar que era uma atitude quixotesca, sem consequências, como logo ficou claro. Entretanto, Raphael jamais exteriorizou publicamente seus desentendimentos com Lacerda e carregou por toda a vida, sem reclamar, a pecha de que era um “lacerdista” – algo que, sobretudo na esquerda, tinha uma conotação extremamente pejorativa.
No intervalo entre o golpe e o AI-5, Raphael foi eleito deputado federal e tornou-se vice-líder de Costa e Silva. Nesse posto tenta tramar a redemocratização objetiva do Brasil mediante uma série de propostas que apresentou ao
I Plano Nacional de Desenvolvimento: ali já havia a antecipação de iniciativas como a anistia e o habeas corpus, que só iriam vingar já no final do governo militar. É que foram atropeladas pelo AI-5 – que levou Raphael de vice-líder da Arena à cadeia. Ainda como vice-líder, articulou, em nome da autonomia do Congresso, a derrubada de um veto de Costa e Silva à Emenda Constitucional que tratava de orçamentos. E foi o redator do discurso de Djalma Marinho que conduziu parte decisiva da Arena a votar contra a cassação do deputado Márcio Moreira Alves, o que o regime usou como pretexto para baixar o AI-5.
Aconteceu um incidente curioso na sua prisão: o oficial encarregado de lhe tomar o depoimento não quis fazê-lo oralmente. Pediu que ele próprio o escrevesse. Ele fez um longo arrazoado político que desconcertou o oficial. Aquilo aparentemente bastou para que o soltassem.

Um ponto crucial na vida de Raphael foi o progressivo “descolamento” político de Lacerda. Até onde sei, foi um processo suave, conduzido por duas visões estratégicas divergentes: Lacerda, cassado, esperando um momento para usar sua principal arma, a retórica, para atacar os militares, e Raphael, já consolidando a ideia de que o regime tinha que ser destruído por dentro a partir de suas próprias contradições – como diria um marxista ortodoxo, coisa que Raphael definitivamente não era. Ao final, essa foi a estratégia vitoriosa ao ser aplicada na candidatura militar de oposição contra Figueiredo, na sucessão do general Geisel.
Um relato convencional, cronológico, da vida de Raphael prejudicaria a compreensão de sua infinita capacidade de improvisar, mesmo quando não perfeitamente entendido. Como observado, era um homem político absolutamente singular, jogador de futebol e ao mesmo tempo aristocrata – reagindo frente a seu tempo, como um grande sedutor, tal como se apresentava a um jornalista que mereceu sua simpatia e suas confidências políticas mais íntimas. A linguagem, por isso, não pode ser a de um expositor frio de fatos biográficos, mas a de um cronista que mistura objetividade com admiração subjetiva, relato objetivo com reminiscências pessoais, procurando, quando possível, penetrar em algo como a psicologia política do biografado.
Raphael se recusava a fazer uma autobiografia: teria que discorrer sobre revelações que só seriam passíveis de entender depois de sua morte. Em vida, ao que pensava, jamais o entenderiam. Sem qualquer interesse próprio envolvido, como se explicaria que pudesse ter tido tamanha intimidade com os próceres da República, muitas vezes adversários entre si, como Carlos Lacerda e depois Castelo Branco e Costa e Silva, Ulysses Guimarães e Sarney, Fernando Henrique Cardoso e, por um curto momento, Fernando Collor, entre outros. A impressão dos que não o conheciam, ou conheciam pouco, é que buscava o poder pelo poder, quando em realidade o poder o buscava em diferentes circunstâncias. Na realidade, ele usava a aproximação com o poder para tentar implementar suas ideias, às vezes com sucesso, às vezes de forma inteiramente quixotesca.
Era o único filho homem de Dario de Almeida Magalhães, dono, na época, de uma das principais bancas de advocacia civil no Rio de Janeiro e renomado jornalista – diretor dos poderosos Diários Associados e um dos principais signatários do Manifesto dos Mineiros contra o regime ditatorial, em seu décimo aniversário (1943). Nasceu mineiro, mas veio para o Rio muito cedo. Cursou o Colégio Santo Inácio, da elite carioca, e formou-se em Direito. Com menos de 30 anos tornou-se, conforme já observado, o principal assessor administrativo de Lacerda, quando este assumiu o governo da Guanabara, tendo havido ocasiões em que acumulou cinco secretarias, inclusive a de Segurança, à medida que o governador, impaciente, ia demitindo os que considerava incompetentes.
Paralela à paixão política havia a paixão do futebol. Não era da minha época no Rio, nem de minha paixão especial, mas algumas testemunhas relatam o fato curioso de um político da geração dourada carioca com uma bola debaixo do braço, em campanha eleitoral, percorrendo bairros da cidade à frente de um cortejo de jogadores em busca de um campo de futebol. Ao contrário dos donos da bola que prevalecem dessa situação para entrar no jogo, era a própria alma do jogo: um tremendo atacante, que só não se tornou profissional em face da oposição paterna. Tinha uma única frustração: não ter jogado pela Seleção Brasileira. Quanto a outra oposição familiar resistiu bravamente: casou-se com Mitzi, num tempo em que casamento com desquitada era objeto de preconceito. Ela se tornaria o amor de sua vida e morreria ao seu lado na casa do Alto da Boa Vista.
Se estivéssemos em Atenas, e se o tempo já tivesse feito desaparecer todas as paixões políticas da época, seria possível comparar Lacerda a Demócrito, o orador, e Raphael a Péricles, o construtor. Os dois juntos traçaram o que pode ser considerado o início de construção do projeto social democrata na Guanabara traduzido como uma autêntica política de bem-estar social. Entretanto Lacerda, mais que Raphael, cometeu a suprema injustiça de atacar impiedosamente Vargas, o grande arquiteto da infraestrutura econômica do país. Raphael tinha restrições à ditadura getulista, do ponto de vista político, mas reconhecia o legado econômico dela, e jamais proporia enterrar a política de Getúlio, como faria mais tarde o inconsequente Fernando Henrique Cardoso.
Diante das oscilações de Lacerda, seu principal assessor era obrigado a atuar como um cauteloso guardião de um ciclotímico. No meio de refregas políticas e administrativas estressantes, o governador fez três cartas de demissão, que Raphael confiscava pacientemente a fim de revertê-las. Numa delas, dirigida a Jânio de forma inteiramente impertinente – não há relação de hierarquia entre governador e presidente, portanto não havia sentido mandar a carta de demissão a Jânio –, reclamava do mau tratamento do governo federal à Guanabara e ameaçava renunciar. Jânio recebeu a carta e leu: “Diga ao Carlos, falou ao portador, que ele renuncia lá e eu cá”. Pediu paciência a Lacerda e deu o assunto por encerrado. Raphael guardou a carta.
A situação na Guanabara se tornou dramática quando o principal líder civil da “revolução” rompeu com o general Castello Branco por razões administrativas e políticas. Eloi Dutra, o vice-governador do PTB, havia sido cassado. Lacerda renunciou. Era necessário armar um jogo político para que um sucessor tampão completasse seu mandato. Propuseram Raphael. Ele impôs uma condição: na eleição indireta pela Assembleia Legislativa ele exigia unanimidade em apoio a seu nome. Assim ele se tornaria, depois de Lacerda, o segundo governador da Guanabara com pleno apoio da Assembleia, algo que só não era inteiramente gratificante porque toda a oposição havia sido cassada.
Como governador, Raphael teve que suportar as contingências de uma grave crise econômica provocada deliberadamente pela área econômica do governo federal, a dupla Roberto Campos (Planejamento) e Octávio Gouvêa de Bulhões (Fazenda). Um episódio pitoresco na época, indicador dos paradoxos que cercavam a política econômica, aconteceu quando foi pedir recursos a Bulhões para terminar algumas das obras de Lacerda. Não havia recursos, o país estava sob uma terrível contração monetária, disse Bulhões. “Ah, a não ser se você quiser dólares. Dólares tem”, disse Bulhões. Raphael se apressou a aceitar os dólares. Pensava em multiplicar os recursos trocando os dólares no mercado negro!
Em seguida seria necessário enfrentar o desafio de uma eleição popular. Lacerda queria Raphael como seu candidato. Depois de refletir muito, Raphael se recusou. Suas razões eram incontornáveis: não seria uma eleição fácil, mas este não era o principal problema. O problema era que, se perdesse, seria ele quem perdeu; se ganhasse, seria Lacerda quem teria ganho, e Lacerda tentaria usar a vitória como escada para a Presidência. Ele não estava certo se gostaria de ver Lacerda na Presidência da República: se fosse eleito, como era um mestre no ataque, e não gostava de atacar contra os de baixo, acabaria por declarar guerra aos Estados Unidos!
Entretanto, seria eleito, com seu imenso poder de persuasão racional aliado ao “populismo” da bola, o deputado federal mais votado da Guanabara. Antes disso, havia construído boas relações com Castello Branco. Como governador, recebera um telefonema dele para que desse proteção ao embarque do presidente Juscelino para o exílio. Concordou, mas com a condição de que houvesse proteção militar também do governo federal para o embarque. Ambos tinham receio de alguma provocação de escalões inferiores para impedir o embarque do ex-presidente – o que dá ideia de como, ainda nos anos 60, a impertinência militar já era pervasiva.
Antes do exílio de JK e das eleições programadas para 65, que afinal não houve, Raphael teve um encontro secreto com o ex-presidente para, a pedido dele, tratar de questões políticas. Juscelino apresentou uma proposta surpreendente: para forçar a redemocratização, ele apoiaria Lacerda para presidente da República, sem condições. Depois de longa reflexão, Raphael decidiu não levar a proposta a Lacerda. Somente anos depois ele tomou conhecimento dela. E quis saber as razões de Raphael para nada lhe ter contado a respeito. “Você é imprevisível, disse. Poderia ver na proposta de Juscelino uma capitulação. Iria para a televisão e o atacaria com todo o seu poder verbal”. Lacerda ficou pensativo. Parecia ter concluído que Raphael tinha razão.
Assumindo o mandato de deputado federal, Raphael tornou-se vice-líder de Costa e Silva na Câmara. Então assumiu a tarefa contraditória de, em plena ditadura, lutar pela restauração da dignidade do Parlamento e para a implantação no país do plano nacional de desenvolvimento participativo, mobilizando inicialmente a Arena, e percorrendo todo o país com um séquito de técnicos e parlamentares. Ocorreu então o episódio Márcio Moreira Alves, derivado de um discurso que supostamente insultava os militares. Raphael, embora consciente das consequências, escreveu o discurso lido por Djalma Marins repudiando a intervenção no Congresso. A maioria efetivamente votou pela proteção do mandato parlamentar, mas a resposta do governo foi o AI-5. Raphael teve um breve período de prisão e decidiu pela renúncia efetiva ao mandato parlamentar – não sem antes promover um encontro de alguns líderes com Abreu Sodré, em São Paulo, na tentativa frustrada de formar um grupo de credibilidade para o confronto civil à radicalização do regime.
Então, veio a proposta da Frente Ampla contra o regime militar, do que resultou o mais sério desentendimento com Lacerda: a Frente Ampla lhe parecia uma tentativa quixotesca e inútil, como acabou se revelando, na medida em que era inócua para enfrentar o regime e o endurecimento militar. Pelas posições conflitantes anteriores de seus dirigentes, confundia a opinião pública mais do que esclarecia. “O que seus líderes queriam? Que fizessem uma declaração de gabinete e o povo correria atrás para derrubar os militares?”, perguntava ele.
Dedicado por convicção e opção política à vida pública, Raphael teve inserções vitoriosas também na vida privada, igualmente paradoxais nas opções entre o público e o privado. Como diretor de Planejamento da Light, uma empresa estrangeira de serviços públicos de baixa credibilidade popular, teve sérios conflitos com os sócios majoritários canadenses ao exigir deles maior comprometimento com investimentos e menos com lucros. Foi demitido, junto com uma equipe de idealistas que havia formado na empresa, os irmãos Paulo Roberto Campos Lemos e Jefferson Lemos e Alfredo Salomão.
Em seguida, foi o grande articulador do sistema de seguros brasileiros a partir da presidência da Fenaseg (Federação Nacional de Seguros). Sua obstinação era formar um mercado segurador no espírito de gerar poupança para o financiamento do desenvolvimento do país. Também nesse campo teve desentendimentos com seus contratantes na medida em que criticava nas seguradoras do país uma obstinação exclusiva com lucro não prestando reais serviços securitários, a começar pelo seguro de automóveis, até hoje um cartório para recolher dinheiro do público.
Retornando à política, Raphael foi procurado pelo general Hugo Abreu com supostas importantes denúncias de corrupção contra o governo Geisel, de que acabara de ser demitido. Era um rebate falso porque Abreu não tinha uma única prova das acusações que fizera numa carta tornada pública. Acabou preso por 30 dias. Entretanto, a partir daí, mediante articulações de Raphael e outros líderes, iniciou-se a preparação da candidatura do general Euler Bentes à Presidência da República com suporte na insatisfação militar representada por Abreu. Tratava-se de uma candidatura militar de oposição para perder no curto prazo e ganhar no longo, constituindo a principal cartada política estratégica da abertura com a finalidade específica de dividir os militares.
A forma como Raphael resumia essa cartada era a seguinte: o regime militar aboliu a nossa possibilidade de fazer política; nós vamos introduzir a política no meio militar. E assim foi feito: como disse, uma candidatura para dividir os militares. Para isso, não mais, serviram as denúncias do general Hugo Abreu. Talvez ocorresse ao general Euler e seus assessores ganharem a eleição no Colégio Eleitoral; talvez, do lado civil, e sobretudo no PMDB, havia quem achasse que era possível ganhar no Colégio Eleitoral. Tudo isso era fantasia. O que não era fantasia se realizou na sequência de medidas que resultaram efetivamente desse conflito: habeas corpus, anistia, volta de exilados, criação de novos partidos, eleição direta de governadores, abertura, diretas-já, vitória de Tancredo no Colégio Eleitoral. Tudo ao ritmo da abertura lenta, gradual e segura do general Geisel, mas inequivocamente empurrado pelo risco da dissidência militar.
No rastro da abertura, em firme parceria com o senador alagoano Theotônio Vilela, que como Raphael tornara-se um dissidente ostensivo da Arena, influiu decisivamente na construção do PMDB com dois documentos básicos, o “Projeto Brasil” e o “Esperança e Mudança”, verdadeiros manifestos social-democratas que se propunha aplicar nos trópicos. Ambos influiriam em toda a cúpula do recém-criado partido, tendo Raphael reunido um grupo de intelectuais de primeira linha para elaborar os documentos; na essência, uma plataforma com vistas à construção no Brasil de um estado de bem-estar social. Curiosamente, Fernando Henrique só aceitou a tese social-democrata como transitória, declarando-se socialista. Não muito diferente do que o comando atual do PMDB, que destruiu a promessa de esperança do partido e tem promovido, em lugar de uma mudança para frente, uma mudança para trás.
Raphael se tornou um conselheiro extremamente próximo de Ulysses Guimarães, partilhando muitas discussões e decisões sob o comando dele, e eventualmente perdendo. Fez um grande esforço para manter as oposições unidas de forma a contornar o jogo do ministro Golbery do Couto e Silva de dividi-las. Lula oscilou, mas acabou rejeitando a oferta de dois postos na Executiva do Partido, seguindo o conselho notoriamente paulista de fundar o PT. No passo seguinte aconteceu o oposto: desconfiado do caráter conservador de Tancredo Neves, tentou evitar que o PP, fundado por ele como uma costela do PMDB, se reincorporasse ao partido-mãe para as eleições. Perdeu de novo.
No Rio, em 1982, Raphael desistiu da candidatura ao Senado e apoiou Miro Teixeira para governador, este derrotado pelo mais ilustre exilado que havia voltado do exterior, Leonel Brizola. Durante todo esse tempo Raphael ficou sem mandato e sem função pública relevante. A primeira oportunidade de reverter essa situação foi na eleição indireta de Tancredo. Contudo, como parte de um acordo com Brizola, Tancredo não o convidou para o Ministério. Isso só aconteceria em 1986, na reforma ministerial na qual titulares dos ministérios saíram para se candidatar às eleições. Sarney, antigo integrante da banda de música da UDN, ignorou o acordo e finalmente deu ao Rio de Janeiro um ministério na pessoa de Raphael.
Encarava a missão ministerial dele por dois ângulos: primeiro, pelo ângulo de uma radical modernização e informatização da Previdência Social, colocando a informática a serviço do povo, e lançando as bases para a criação do SUS, um dos mais grandiosos sistemas de saúde pública gratuita do mundo; segundo, pelo ângulo da defesa do Plano Cruzado, na qual eu próprio tive participação com entusiasmo. No entender dele, domar a inflação sem reduzir o crescimento era o atestado de uma suprema vitória política da democracia e da sociedade de bem-estar social. Apostamos nisso e, por razões externas, perdemos.
O SUS pelo qual Raphael batalhou – chamava-se originalmente SUDS, Sistema Único Descentralizado de Saúde, sendo o “descentralizado” engolfado depois pelo apetite centralizador da União – teve influência decisiva no capítulo da Seguridade Social da Constituição de 88. Ali estão princípios que, agora, sobretudo no governo Temer, estão sendo destruídos pelas chamadas “reformas” neoliberais. A Ponte para o Futuro, de Moreira Franco, é um arremedo canhestro das conquistas sociais de décadas, seja no plano trabalhista, seja no plano previdenciário. E uma traição às origens do PMDB. Raphael foi um herói das políticas modernizadoras e um estrategista singular em política. Ajudou na abertura na medida em que contribuiu decisivamente para rachar o sistema militar. E ajudou na construção de uma sociedade do bem-estar social, agora negada, com seus projetos avançados na área previdenciária, financiada de forma totalmente responsável por receitas previstas na Constituição, muitas das quais por dele sugeridas junto com outros reformadores do sistema.

Foi ministro da Previdência até entrar em conflito com a cúpula do PFL. Demitido por Sarney, voltou ao Rio e ficou longe do governo até que eu o instei a ajudar na coordenação de um pacto de iniciativa social como forma de estimular a volta do crescimento e domar a inflação que havia voltado com fúria. Contribuí com a parte econômica, ele com a parte política. Chegamos a ter um documento assinado pelos principais representantes de trabalhadores e empresários. Mas, nesse caso, fomos vítima de uma rara falha da máquina de sedução de Raphael: Antônio Ermírio de Moraes, o grande empresário que esperávamos ser líder do pacto, rejeitou o convite. Voltamos à estaca zero no controle da inflação no Brasil até chegar ao zênite de uma inflação de mais de 80% ao mês sob Maílson da Nóbrega na Fazenda.
Quando ainda estava na Previdência, Raphael esteve próximo de ser ministro da Fazenda de Sarney. Deveria substituir o carismático ministro Dílson Funaro, o qual evoluíra de um ápice de popularidade, no início do Plano Cruzado, para cair depois no desencanto, com seu fracasso. Raphael não nutria maiores ambições pessoais para ser ministro, mas tinha uma confiança genuína na eficácia de uma convocatória de pacto social para a retomada do crescimento com estabilidade. Eu o acompanhei por uma noite angustiante em Brasília à espera do convite formal de Sarney. Não veio. Em seu lugar soubemos da convocação de Bresser Pereira, que logo prepararia um plano também fracassado.
Depois da Previdência, Moreira Franco, então governador do Rio, o convidou para secretário da Cultura e depois de Educação. Ele aceitou, mas enfrentou de saída uma greve. Tentou administrar o conflito e não conseguiu entendimento com os grevistas. Acabou se demitindo. Segundo um depoimento de Moreira na época, o problema de Raphael era que não se conformava em cumprir a linha do governo, porém queria fazer sua própria linha. Acreditei nisso. Raphael, com seu temperamento e sua base intelectual, jamais se contentaria em seguir a linha de governos dúbios, como o do próprio Moreira ou mesmo o de Sarney.
Não se surpreendeu com a vitória de Collor. Diante da falta de credibilidade do governo Sarney e dos políticos em geral, qualquer um que se apresentasse como algo novo teria boas chances de se eleger. Collor cumpriu esse papel. Entretanto, decepcionou-se pelo fato de que o novo presidente não tenha optado por um pacto, mas por um novo pacote. Durou três meses. Daí em diante foi simplesmente a administração do caos.
Fernando Henrique, amigo de longa data desde a criação do PMDB, assumiu o Ministério da Fazenda com grandes dúvidas sobre o lançamento de um plano econômico de estabilização. A direita, que estava protegida contra a inflação, argumentava que a sociedade se mostrava cansada de pacotes e o ideal era continuar, como foi o caso de Maílson da Nóbrega, com a política econômica de feijão com arroz. Raphael, acostumado a grandes cartadas, dessa vez aconselhava, numa carta a Itamar, que também subscrevi, a edição de um plano de estabilização: se desse certo, argumentava, a vitória de FHC na candidatura à Presidência estava garantida; se desse errado, nenhuma força impediria a derrota. Portanto, para Raphael, Fernando Henrique poderia tranquilamente dispensar o peso morto e reacionário do PFL na campanha. Ele recusou a sugestão, certamente pensando muito pragmaticamente em governabilidade futura.
Não foi e aparentemente não queria ser convidado para o Ministério. Em lugar disso, a seu pedido, Fernando Henrique criou o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social do Estado do Rio de Janeiro, função sem remuneração e cargo sem estrutura. Os objetivos do Conselho eram desenvolver os projetos do pólo gás-químico de Caxias, o Teleporto do Rio e o Porto de Sepetiba, além de articular a candidatura do Rio às Olimpíadas de 2004. Praticamente nada deu certo, exceto o polo gás-químico. Sem estrutura, os projetos morreriam na mente criativa de Raphael sem desdobramentos materiais.
Entretanto, convidou para integrar o Conselho Mário Henrique Simonsen e Eliezer Batista. Nessa relação se aprofunda sua amizade com Eliezer, que vai durar até sua morte. No governo Lula, mantém um perfil discreto, embora o conhecesse das articulações políticas para formar os novos partidos no início dos anos 80. Entretanto, era amigo e muito admirado por José Alencar, que alimentou a esperança de vê-lo no partido que estava criando com o então senador Marcelo Crivella, com minha participação, mas que Raphael acabou por recusar pelo medo de o partido revelar-se simplesmente um partido de igreja.
Já afastado da vida pública, mas sempre procurado por políticos de diferentes partidos e pessoas comuns para os diálogos sobre os dois temas que mais o fascinavam, política e futebol, morreu no seio da família, esta uma paixão sem rival, em sua fascinante casa do Alto da Boa Vista. Escapou, portanto, de assistir à tragédia política que representou o impeachment de Dilma Rousseff e aos acontecimentos que o sucederam no governo Temer, inclusive a total degradação da mensagem política do PMDB, hoje tomado de assalto por arrivistas.

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