Poemas de marcus fabiano Gonçalves

Poemas de marcus fabiano Gonçalves

OFÍCIOS DA CARNE

 

o açulamento

de um bafejo

comiserava-se

de dulcíssimas canjicas

se no retábulo de pelúcia

um bafo fosse brisa:

na íris flamejante

uma linha em lâmina

sobre a bota branca

quando, sem surpresa

a paulada na cabeça

arriava as quatro patas

na rabiola dos revérberos

e trinando de espasmos

a vitela envolta em visgo

era uma cria semipronta

pendurada pelo umbigo

 

ali cada dente de aço

só confiava nele para afiar-se:

orgulho e amizade entre

o carniceiro e o amolador

que do esmeril à chaira

doravante retornava

a ofícios bem mais dignos

que tesouras domésticas

ou faquinhas de cozinha

para pânico dos vegetarianos

felizes com o caldo roxo

de suas beterrabas cozidas

e perguntando pelo fio

dos alicates de cutículas

 

adeus à tabuleta na calçada

(AFIA-SE NAIFAS E FACAS):

agora só o pugilato do abate

e uma picardia de galo de rinha

procurando por veios e juntas

separando as peças

para o enguiço da balança.

 

 

OS NOVOS BROQUÉIS

 

dito um certo oblíquo

de requintes despojado

sem as maneiras finas

do nu e do calvo

libidinoso e dissoluto

feito um fauno

ou antes mesmo um tarado

que se apresenta inconveniente

(de pau duro e pelado)

que atinge de través

como a cilada inevitável

que não é de quina perfeita

como o canto do esquadro

que chega bicudo e hostil

como o cotovelo do gaiato

que alvoroça e aterroriza

a sentinela em sobressalto

que brandindo seu escudo

enfim revida o atentado

 

mas não um escudo muro

dos de imenso anteparo

e sim um bem pequeno

a bem dizer discoide ou ovalado

um escudo então redondo

(sem as coberturas do biombo)

que para se exprimir corretamente

remove o pó da palavra broquel

– a mesma dos Broquéis de Cruz e Sousa:

um escudo ágil e de estreita loisa

que traz no centro de sua calota

uma ponta muito aguda

(por isso dita broca)

recurso derradeiro de quem

surpreendido sem seu gládio

conserva na própria defesa

o rechaço do adversário.

 

O autor é professor de Hermenêutica da UFF

marcusfabiano@terra.com.br

 

 

 

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