Os sentidos da crise: um olhar a partir de Junho

Os sentidos da crise: um olhar a partir de Junho

Jorge Chaloub, jurista e cientista político

 

A política brasileira contemporânea transcorre sob o signo da crise. Analistas das mais diversas perspectivas convergem, em meio às suas muitas discordâncias, na ideia de que há algo de excepcional no horizonte do país. Periodicamente despontam declarações sobre o caráter trágico e inédito do momento, mesmo quando comparado a períodos particularmente turbulentos do passado nacional. No discurso à direita do espectro político, já surge como lugar comum a ideia de que transcorremos, senão o pior, um dos piores períodos da nossa história. Gustavo Franco, por exemplo, classifica a atual crise como “a pior dos últimos 200 anos”1. O mote não está ausente, todavia, de manifestações mais progressistas, que frequentemente expõem sua perplexidade ante a conjuntura. Bom exemplo é uma recente entrevista de Wanderley Guilherme dos Santos, na qual o decano da Ciência Política brasileira afirma não apenas desconhecer situação semelhante na história do país, mas ressalta que mesmo nas investigações de política comparada é difícil encontrar tempo de tamanha desestruturação.2 Se a doença é incontroversa, há, como é natural no mundo da política, enormes embates em torno do diagnóstico. Disputa-se não apenas o tipo da patologia, mas também suas decisivas causas.
Não faltam razões para as divergências em torno da morfologia da crise. Podemos remetê-las a distintas percepções sobre a natureza humana, o papel da política, o funcionamento do mundo econômico, as responsabilidades do Estado, o conteúdo da democracia, dentre outros vetores capazes de reconstruir a complexidade das disputas políticas contemporâneas. Este texto, nos seus evidentes limites, pretende reconstruí-las com ênfase nas interpretações sobre um evento decisivo da nossa história recente: as Jornadas de Junho de 2013.

Algumas interpretações da crise brasileira
Uma relevante corrente de interpretação da crise é a neoliberal. Segundo esta narrativa, os males se encontram na Constituição responsável pelas regras do jogo da Nova República, a qual não responderia aos novos ares hegemônicos após a queda do Muro, mas daria continuidade à velha estatofilia brasileira, alheia às lógicas do moderno capitalismo. Os pecados de origem teriam sido agravados pela execrada “Nova matriz econômica”, patrocinada, sobretudo após 2011, pela presidenta Dilma Rousseff, a qual reclamava com ainda maior vigor o papel indutor do Estado no desenvolvimento nacional. A retórica crítica não possui traços novos, mas seria plenamente subscrita por personagens como Roberto Campos3, assim como remete aos recentes motes sobre o “fim da Era Vargas”4 ou à necessidade de um “choque de capitalismo”5 no Brasil.
Com o cenário de crise econômica, ela ganhou nova força nos meios empresarias, presente tanto na linha editorial da grande imprensa, como na pena de intelectuais como Gustavo Franco, Marcos Lisboa, Armínio Fraga e Samuel Pessoa. Este último tem sido o mais assíduo publicista dessa corrente, como demonstra seu debate recente com Fernando Haddad, nas páginas da Revista Piauí. Pessoa, em texto sobre os fundamentos da crise econômica de 2015, expõe exemplarmente sua linha argumentativa, ao atribuir a atual situação não apenas a “revisita ao modelo estatizante do Governo Geisel”, como a “um possível esgotamento do contrato de redemocratização”6
Não são triviais, entretanto, os obstáculos para a popularização desta perspectiva, para além dos espaços de parte substantiva da elite econômica e determinados setores da classe médias. Mesmo os surveys realizados em espaços supostamente simpáticos a tal proposta, como o organizado por Esther Solano e Pablo Ortellado nas manifestações de 2015, têm demonstrado explícita resistência da população a esta retórica liberalizante7. Justamente por este motivo, personagens simpáticos ao atual governo, inclusive o próprio Michel Temer, frequentemente aludem a seus escassos vínculos com a vontade popular como virtudes para a implantação da agenda liberalizante: “Apresentei e fiz tudo o que o Brasil precisa. A popularidade é uma jaula.”8. Assim, a chegada ao poder através de uma conspiração, a baixíssima popularidade de Temer e a dificuldade de vislumbrar a possibilidade de um sucessor diretamente vinculado ao governo – todos fatos usualmente desfavoráveis em ordens democráticas – tornam-se vantagens, já que permitem a implantação de uma agenda incapaz de triunfar eleitoralmente, mesmo com o evidente apoio da quase totalidade da mídia. As reformas se mostram capazes de vencer, esmo que parcialmente, apenas através de um golpe.
Mais popular é uma retórica de decadência moral do país. Com forte ênfase nos temas comportamentais e nos direitos de minoria, muitos atores apostam em discurso com forte feição conservadora e até mesmo reacionária. Arma-se, neste sentido, um ataque contra novas formas de sociabilidade, padrões de sexualidade e valores, vistos como sintomas de uma crise maior, que é consequência, e não causa, do mundo da economia. Não estamos diante de um fenômeno exclusivamente brasileiro. Autores de perspectivas diversas, como Jurgen Habermas e James Hunter9, já apontam há algum tempo a preocupação de uma nova direita com o terreno da cultura, responsável, nas palavras do autor alemão, por um preciso tipo de neoconservadorismo, que compõe o elogio à modernidade econômica, o capitalismo, com a crítica à modernidade cultural. O cenário nacional, entretanto, tem se mostrado extremamente receptivo para tal discurso, que encontra grande recepção na redes sociais, é responsável por seguidos sucessos editoriais e serve de bula para um candidato à presidência, Jair Bolsonaro, com significativo índices de intenção de voto nas pesquisas. No campo dos intelectuais públicos desse movimento, têm destaque figuras como Olavo de Carvalho, Reinaldo Azevedo, Denis Lerrer Rosenfield, Luiz Felipe Pondé, dentre outros, todos marcado por um orgulhoso pertencimento ao campo da direita, o que, já à primeira vista, os distingue de possíveis precursores, mais afeitos a negar a relevância da distinção direita/esquerda. A perspectiva também se distingue por outras características, como o forte tom moral das sua argumentação, a visão extremamente crítica da história nacional, uma certa retórica realista, dentre outros aspectos10.
O convívio e alianças recentes entre os dois grupos não devem ofuscar as importantes distinções analíticas. Entre o acento neoliberal do primeiro e a feição neoconservadora do segundo há diferenças importantes. Se, ao abandonar a tradicional resistência do conservadorismo ao grande capital, os neoconservadores se aproximam do neoliberalismo em concepções econômicas, a ênfase nos temas culturais ganha tom diferente nas duas correntes, a ocupar papel central no neoconservadorismo e surgir apenas como ponto de ataque a intervenções estatais destinadas a redução da desigualdade dentre os neoliberais. Tal concepção tem, por sua vez, outras consequências, já que reduz a importância da economia, pedra angular do mundo neoliberal, para os neoconservadorismo.

Por outro lado, os ganhos interpretativos da tradições não podem esconder que o campo da nova direita brasileira não se caracteriza por adesões irrestritas ou tipos puros dessas linguagens, mas é antes composto por um complexo amalgama de ideários. Ganha força, neste cenário, uma peculiar composição entre neoliberalismo e neoconservadorismo, que superam as diferenças de suas tradições de origem, o conservadorismo e o liberalismo, para compor um discurso de forte acento moral. Boa parte dos políticos e intelectuais possui uma linguagem mais confortável, conjugando mais naturalmente os verbos neoliberais ou neoconservadores, mas não deixa de transitar bem entre outros idiomas. A fortuna tem sorrido com maior facilidade para os personagens mais maleáveis desse campo, que, por exemplo, não hesitam em acenar com o neoliberalismo atrás do apoio do empresariado, ao mesmo tempo em que recorrem ao neoconservadorismo em seus discursos para as massas.
O Judiciário e o Ministério Público foram fortemente mobilizados por tais linguagens. Influenciados pelos amplos poderes abertos ao mundo jurídico na Constituição de 1988 e pelos ares pós-positivistas de outras latitudes, juízes e promotores assumiram um papel de reformadores sociais, prontos para expurgar os longevos males da sociedade brasileira. Há, entretanto, uma mudança tanto no sentido quanto no grau deste movimento. Em outros tempos, a forte judicialização da política e das relações sociais foi aproveitada sobretudo pelas esquerdas, hábeis em utilizar os tribunais como campo para promover avanços dificilmente conquistados através do Legislativo11. Recentemente, a judicialização da política não tem ocorrido pela provocação dos partidos políticos e movimentos sociais, como predominava outrora, mas passa sobretudo pela movimentação autônoma de juízes e promotores, os quais, por sua vez, se mostram especialmente porosos à expansão das ideias de direita presentes no país. Ideário de reforma social por meio do direito, o pós-positivismo perde seu feitio progressista, e é mobilizado em cruzada contra a política partidária e o Estado12, vistos como intrinsecamente corruptos13.

Dentre as esquerdas, duas leituras se destacam. Uma primeira, próxima ou elogiosa ao petismo, vê na crise a resistência de grupos sociais com amplo estoque de capital político ao projeto petista, que mesmo com seu feitio muitas vezes moderado ameaçou padrões de privilégio de classe e lógicas de atuação da burguesia nacional. Dois intelectuais são representativos de inflexões nesta interpretação: André Singer e Jessé Souza. O primeiro ressalta o papel da grande burguesia nacional na desestabilização do governo Dilma, motivada pela oposição à tentativa da presidenta de passar de um “reformismo fraco” para algo mais próximo de um “reformismo forte”, através das suas intervenções nos setores bancário, de energia elétrica e na sua condução das taxas de juros. Sem uma mobilização social mais ampla e com um anacrônica aposta em uma distinção entre capital produtivo e financeiro, os quais se encontram plenamente integrados no capitalismo contemporâneo, o governo Dilma se mostraria presa fácil a ação organizada do mundo empresarial e das direitas14. Singer interpreta a política a partir da classe social lida pela chave marxista, buscando sempre relacionar os movimentos da política institucional aos interesse dos grupos sociais organizados.
Jessé Souza, por sua vez, trata a luta de classes mais pelas lentes de Bourdieu do que pelas assertiva de Marx. Ele vê no terreno do capital cultural o fator primordial para a hegemonia de uma das quatro classes por ele identificadas no Brasil contemporâneo: a dos “endinheirados”. É por meio de uma narrativa amparada na ideia de patrimonialismo, que tem na releitura de Gilberto Freyre por Sergio Buarque de Holanda seu grande momento, que essa reduzida elite do dinheiro convence a “classe média e suas diversas frações” a sujar as mãos, arcando “com o trabalho diário da dominação social realizada em nome dos endinheirados”15.
A criação de um mito nacional de demonização do Estado através da corrupção, que tem dentre seus colaboradores valorosos Raymundo Faoro, permite justificar a dominação dos endinheirados não apenas sobre a classe média, mas sobretudo sobre as duas outras classes historicamente exploradas: a classe trabalhadora e a ralé estrutural. O golpe de 2016 não mobiliza discursos ou intenções novas na história brasileira, mas retoma o velho mote da corrupção, destinado apenas a garantir a posição privilegiada dos endinheirados. Sua motivação conjuntural decorre da resistência contra os governos petistas, que representariam um dos maiores esforços de inclusão social da história brasileira. Contra esse movimento, ganha força um “racismo de classe” que encontra em antigas fórmulas um impulso para organizar movimentos de caráter “proto-fascistas” com grande aceitação na classe média e forte apoio da mídia. Seria esta movimentação, fortalecida a partir de 2013, o grande fator a impulsionar o golpe.
A segunda interpretação no campo da esquerda constrói uma crítica do projeto petista. Ela também comporta duas inflexões: uma no campo do marxismo, que tem entre seus representantes Ruy Braga, e outra próxima do campo do autonomismo, representada por Vladimir Safatle. Braga vê a crise como consequência da incapacidade do lulismo – entendido como “modo de regulação dos conflitos classistas”16 – de continuar a promover a pacificação das disputas de classe. A capacidade de promover o “consentimento ativo” das bases e o “consentimento passivo” das direções decaiu após 2013, movimento que serve como demonstração da precariedade da hegemonia lulista, apoiada num virtuoso ciclo de commodities e na criação de empregos, em sua quase totalidade, de baixa remuneração.
As naturais insatisfações dessa nova composição de classe do lulismo promoveram uma onda grevista “inédita na história do pais” em 2013, revelando às classes dominantes a incapacidade da burocracia sindical de dominar as próprias bases. Paralelamente a isto, a perda de espaços de privilégio das classes médias, como a universidade e o aeroporto, aproximaram tais setores de um ideário de direita, que serviu de fermento às manifestações contra o Governo Dilma e o PT. Neste cenário, os grandes grupos empresariais teriam imposto a presidente um aprofundamento da “estratégia de austeridade” por meio de um “ajuste recessivo”, pauta parcialmente cumprida, mas não o suficiente para garantir a sobrevida do governo. Braga, deste modo, vê nos efeitos evidentes da crise na política institucional apenas “a face visível de uma crise orgânica cujas raízes encontram-se na própria estrutura social do país”17, a qual revela, por sua vez, os profundos limites do projeto lulista.
Safatle, por outro lado, aponta raízes ainda mais profundas para a presente crise, diretamente relacionadas ao fracasso do Nova República. Apenas o “autoengano” pode ofuscar que “o país não foi capaz de produzir uma democracia minimamente viável depois do fim da ditadura militar”18. A ordem política posterior ao regime autoritário se caracterizaria por uma série de farsas: a farsa da “transição pacífica”, enquanto persistia o núcleo de poder da Ditadura; a farsa da “redemocratização”, quando o poder popular persistia longe do governo; a farsa do “combate gradual contra a desigualdade”, em um governo onde os rentistas mantiveram seus privilégios intactos19.
A eleição de outubro seria, nesse sentido, apenas outra farsa. A única saída, fora o atual flerte com soluções bonapartistas, passaria pela “radicalização democrática inédita”, através da “reinstauração da institucionalidade política nacional”20. O filósofo paulista, mais crítico à Nova República e aos governos petista que Ruy Braga, não iniciou a defesa dessas saídas após o Golpe de 2016, mas já antes, no final de 2015, não hesitava em advogar que “a única saída realmente à altura da crise atual passa pela convocação de uma Assembleia Constituinte extraparlamentar”, em movimento de retorno ao “grau zero da representação”, que permitiria a solução através da emergência de uma “força extraparlamentar”21.

As leituras de 2013
A última seção demonstra a variedade de leituras sobre a crise. Ela permite questionar certa vulgata, intensamente repetida sobre a atual conjuntura, que vê nas produções intelectuais e políticas a simples reiteração de uma polarização entre petistas e tucanos. Segundo tal perspectiva, um dos problemas do presente cenário estaria na incapacidade de entendimento dessa duas forças partidárias, que escolheriam o confronto aberto às soluções de compromisso.
Algumas disputas certamente decorrem das preferências partidárias mais imediatas pelos dois partidos dominantes nos pleitos presidenciais da Nova República. Não há, aliás, nada de anormal no fenômeno, que transcorre de forma semelhante em regimes democráticos frequentemente elogiados por nossos estudiosos da política. Creio, entretanto, que o atual cenário antes reforça movimento oposto. Se algo mudou na mais recente conjuntura talvez tenha sido o enfraquecimento desses pertencimentos como chave de compreensão dos embates públicos atuais. Tanto no campo da direita quanto no da esquerda, cresce a olhos vistos a força de grupos que não se reconhecem nas identidades petista e tucana, mas reivindicam a construção de outros lugares. Evidentemente já existiam aqueles que não se resumiam a tais partidos no debate público, mas sem a perspectiva de crescimento vista ao longo dos últimos tempos. O fenômeno pode até mesmo não se mostrar nas eleições presidenciais de outubro, já que os resultados eleitorais expressam apenas parte das pulsações do mundo político, mas os movimentos apontam para a presença de novos personagens em cena.
Caso se conforme esta hipótese, resta saber suas razões e compreender como ela influencia a presente conjuntura. É preciso, todavia, antes recusar as utopias oligárquicas que ainda pairam sobre a política brasileira, tão bem expressas no eterno clamor por um entendimento entre PT e PSDB. Há um constante retorno de certo horror ao conflito na cena política nacional, sempre ciosa de buscar soluções de centro e evitar o dissenso aberto. Essa perspectiva vê nos abertos embates entre forças de concepções diversas um aspecto negativo do campo político, não uma expressão de divergências públicas, legítimas tanto pela perspectiva marxista quanto segundo a liberal. Deve-se distinguir a crítica ao aberto questionamento de resultados democráticos feita pelo candidato Aécio Neves – o que pode ser visto tanto como desprezo pelas liberais “regras do jogo” quanto como desrespeito a uma perspectiva mais substancial de vontade popular – do fetiche por soluções conciliatórias que frequentemente ignoram reais distinções de interesses e visões de mundo.

Voltando aos contornos do atual cenário, creio que um olhar sobre 2013 é fundamental para compreender a nuances e transformações do tempo presente. Este texto, em seus limites, não buscará tratar do evento em si – já objeto de algumas boas análises22, mas carente, como é natural em fenômenos do seus tipo, de um compreensão mais aprofundada –, antes preocupado em compreender o lugar de 2013 nos diagnósticos já delineados sobre a crise.
As Jornadas trouxeram evidentes transformações para a cena política brasileira. Primeiramente, foram responsáveis por uma evidente politização das mais diversas esferas da vida. Breno Bringel e Geoffrey Players veem no evento um momento inicial de “abertura societária”, onde “emergiram novos espaços e atores que levaram a um aumento da conflitualidade no espaço público e a um questionamento dos códigos, sujeitos e ações tradicionais que primaram no país durante as últimas duas décadas”23. Em tempo posterior das manifestações, tem um lugar um tempo de “transbordamento societário”, “momento em que o protesto se difunde dos setores mobilizados para outras partes da sociedade” 24. Em ambos os processos, a política – compreendida como série de reflexões e disputas acerca da coletividade – adentra rincões pouco explorados antes, aumentando, como é natural, a disputa em torno de certos aspectos da sociedade contemporânea.
As Jornadas trazem também algumas mudanças de repertório, entendidas mais como ênfases em gramáticas pouco presentes do que como absoluta inovação; Há muitas continuidades em meio a mudança, usualmente pouco destacadas nas análises de 2013, que retomam não apenas movimento mais recentes, como a “Revolta do Buzu”, como um longa tradição brasileira de motins urbano25. Por outro lado, é inegável que o evento ampliou o papel das redes sociais na disputa política e construiu um ambiente onde a performance tende a sobrepujar o conteúdo. Conjugar as variações dessa gramática se torna fundamental para o sucesso político nesses novos tempos.
Por fim, Junho constrói um inegável clima de insatisfação com a ordem vigente, em um sentimento de fastio que tanto assume contornos pouco definidos, como uma recusa aos próprios fundamentos da sociedade, quanto se volta contra aspectos e personagens bem definidos, questionando determinados eventos esportivos ou práticas da elite política. Essa recusa ganha forte conotação moral, surgindo como momento central da inflação moral em curso na política brasileira, que remete os conflitos não a disputas em torno de divergência conjunturais, mas a visões de mundo mais amplas organizadas em torno de conceitos inegociáveis de bem e mal, que dificilmente admitem a existência do outro. Algumas análises do cenário político nacional tomam a inflação moral pelo aumento da polarização da cena política, ignorando que é justamente a dificuldade de lidar com as multiplicações de polos de ação munidos de uma exclusiva ética da convicção – os quais tem no Judiciário, Ministério Público e Polícia Federal lugares privilegiados – o fator mais complexo da atual conjuntura.
Em meio aos ventos da mudança, os primeiros atingidos são os mais diretamente identificados com a antiga ordem. Não era simples a tarefa de PT e PSDB antes esta conjuntura. Fazia-se necessária uma boa dose de virtu para sobrepujar tantos desafios da fortuna. Os partidos, entretanto, não apenas fracassaram em suas estratégias como parecem insistir nos erros já cometidos. No caso dos tucanos, legenda que deriva boa parte da sua força do amplo apoio dentre o empresariado, os erros são menos custosos e menos sentidos, mesmo que sua tarefa – por suas mais bem estabelecidas ligações em setores da mídia e da classe média – seja, sem dúvida, mais fácil. Já os petistas, portadores de vínculos com setores identificados às grandes mobilizações da redemocratização e da década de 1990, são duramente atingidos por sua acrimônia às mobilizações, que os priva do papel de ator portador da transformação – mesmo que gradual, em tempos de governo – da sociedade brasileira, imagem tradicionalmente vinculada ao partido.
O vínculo entre 2013 e 2016, as Jornadas e o Golpe, é estabelecido por boa parte dos mais relevantes intelectuais do PT. Singer – seja em sua análise das Jornadas ou nos artigos de conjuntura na Folha de S. Paulo – surge como exceção, mais moderado ao estabelecer relações causais e complexo em seu olhar para as manifestações26. Outras importantes vozes ligadas ao partido, como Fernando Haddad e Jessé Souza, não titubeiam em afirmar a direta relação entre os eventos. O ex-prefeito de São Paulo declara, sem meias medidas: “Tenho para mim que o impeachment de Dilma não ocorreria não fossem as Jornadas de Junho.”27. Jessé Souza, por sua vez, em texto mais marcado por adjetivos, também vaticina sem mesuras: “Existe uma linha clara de continuidade entre as glorificadas e midiaticamente manipuladas manifestações de junho de 2013 (…)e o golpe de abril de 2016.”28. O sociólogo vai além e vê em 2013 o momento no qual surgiu o ovo da serpente, ou seja, as articulações entre o Judiciário e a mídia, que interromperam o ciclo virtuoso dos governos petistas. Ele admite que havia material para crítica, sobretudo por parte dos “batalhadores” emergentes que encontravam empregos de baixa remuneração, mas defende que o modo pelo qual a contestação foi conduzida foi explicitamente manipulado pela grande imprensa.
É inegável a diversidade ideológica das manifestações, sobretudo no momento posterior a perda do protagonismo do Movimento Passe Livre, que predominou no início dos protestos com sua gramática autonomista29. Como bem apontam Angela Alonso e Ann Mische, após um período inicial de predomínio do autonomismo logo desponta num segundo momento um repertório tradicional socialista, até que, por fim, afluem os grupos afeitos a uma gramática classificada como patriótica, que mereceu destaque da mídia e se mostrou capaz de mobilizar um maior número de pessoas. Dentre o grupo adepto deste vocabulário nacionalista, havia também uma ampla variedade de grupos e discursos30, que iam de amplos segmentos sem preferências políticas explicitamente formuladas a setores da classe média entusiastas de um vocabulário liberal, chegando à pequeno grupos fascistas. O multiplicidade ganha ainda mais força pela extensão nacional dos movimentos, presentes, com tons diversos, em locais que iam muito além das grandes capitais31.
Apesar do predomínio dos tons verde-amarelos e da inegável tentativa de enquadramento da mídia, que tem na reiterada menção à PEC 37 fato exemplar, tratava-se de um campo aberto ao jogo político, que se, por um lado, seria travado em campo desfavorável aos que estavam no governo, por outro, já tendia a produzir resultados ainda mais desastrosos quando da simples recusa ou caricatura dos movimentos. Afinal, é no mínimo pouco pragmático convencer os que estiveram na rua, com a exceção dos militantes mais aguerridos, de que tomaram parte em uma farsa.
O caráter ambíguo de 2013 fica explícito pela própria postura de setores da nova direita que ganharam força com o movimento, dentre os quais predomina uma narrativa que busca opor a balbúrdia esquerdista das manifestações de 2013 aos ordeiros protestos de 2015. Em texto de 21 de junho de 2013, Reinaldo Azevedo caracteriza os protestos como “superestimados” e ressalta o papel da imprensa: “protestos foram superestimados e, em boa parte, estimulados por setores da imprensa que tentam colar nas redes sociais num esforço meio desesperado e vão de acompanhar o frenesi”. Em 12 de março de 2015, o colunista busca distinguir os protestos de 2013 dos de 2015, em artigo cujo título já expõe quase todo o argumento: “Março de 2015 não tem nada a ver com Junho de 2013”32. Rodrigo Constantino segue caminho semelhante em texto de 04 de agosto de 201533, opondo as manifestações de 2013 – movimentos de massa insuflados por esquerdistas e próximos a desvios totalitários – dos eventos de 2015, que seriam manifestações com uma pauta bem definida.
Mais atento a sua linguagem e preciso em seus cálculos políticos, o Movimento Brasil Livre (MBL) não ataca explicitamente 2013, mas silencia sobre o momento que deu um impulso fundamental o próprio MBL. Nos dois vídeos sobre trajetória do grupo em destaque na sua página oficial34, um com texto de Renan Santos e outro escrito pelo mesmo ao lado de Kim Kataguiri, há uma ênfase em 2016 – visto como grande vitória dos heróis do MBL contra os “zumbis” da esquerda presos na “Matrix” de uma imprensa e de sistema educacional corrupto – mas uma ausência das Jornadas.
Com a exceção de Olavo de Carvalho, que à época estimulou os protestos como forma de derrotar as esquerdas e depois passou a atacar as demais forças da Nova direita, os demais atores do campo se mostraram temerosos em apostar num movimento que todo o tempo investiu na direta contestação, frequentemente violenta, de uma ordem que, apesar da retórica antiestablishment da nova direita, acaba responsável pelo próprio surgimento desta. Uma breve consulta aos financiadores de think tanks como Millenium e Instituto Liberal, assim como das relações dos movimentos sociais e atores com partidos tradicionais da direita brasileira, demonstram isso.

OPSDB se mostrou, desde o início, ambíguo ante o movimento, que ganhava feição positiva como forma de contestar a longa hegemonia petista, então sem nenhum sinal de esmorecimento, mas, por outro lado, aparecia como ameaça à liderança do partido na oposição e concedia demasiada força às ruas. Os diretos danos sofridos por Geraldo Alckmin, após uma selvagem repressão aos protestos no seu início, por certo também contribuíram para uma postura de crítica e defesa ante o inesperado sugerido pelas Jornadas. Destoa, nesse sentido, entrevista de Fernando Henrique Cardoso35 no calor dos acontecimentos, quando ele aproveita o movimento para fazer críticas ao PT e lamenta que os partidos não tenham “capilaridade” para aproveitar a força de Junho.
As razões da falta de capilaridade passam não apenas por fatores organizacionais, como o termo pode sugerir, mas pela dificuldade dos tucanos de ganharem eleições presidenciais com um discurso francamente impopular ante a maioria da população. Não sem o motivo o partido abandonou na campanha de 2014 sua postura tendencialmente progressista no campo dos costumes, da qual a política de drogas era um bom exemplo, e passou a abraçar pautas ícones de um direita de tintas morais, como a redução da maioridade penal.
Os movimentos dos atores mais direita mostram que, não obstante as dificuldades de lidar com manifestações dessa monta à frente do governo, Junho criou um espaço para o PT não apenas ganhar dividendos políticos, mas se renovar em meio a seu franco processo de burocratização. Leituras como as de Jessé Souza e Haddad, entretanto, prevaleceram e o petismo acabou engolfado não pelas Jornadas, mas por manifestações derivadas das suas consequências, como as de 2015 e 2016. O diagnóstico da crise atual do partido não apenas persiste em tal percepção, mas responsabiliza explicitamente 2013 pelo fim de um ciclo virtuoso. Coube aos setores à esquerda do partido, organizados em torno do PSOL, uma leitura positiva dos eventos, exposta nas visões sobre a crise de intelectuais como Ruy Braga e Vladimir Safatle. Mesmo ante uma direita que, quase predominantemente negava legitimidade às ruas de 2013, já que encontrou outras manifestações para chamar de suas, o partido majoritário da esquerda brasileira manteve arisco ao evento, retratando-o, com frequência, como uma astuciados seus adversários. A fortuna não favoreceu o PT, atingido pela força das ruas e por conspirações golpistas, mas sem dúvida faltou virtude para confrontá-la.
O autor é professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Juiz de Fora
jchaloub84@gmail.com

NOTAS DE RODAPÉ

1. Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2018/01/1950157-gustavo-franco-defende-valor-de-moeda-nacional-em-livro.shtml

2. Sintomática, neste sentido, é recente declaração de Wanderley Guilherme dos Santos, em entrevista publicada em 02/03/2018 no jornal Valor Econômico: “Nunca me deparei com uma circunstância de crise política igual à atual. Nunca vi nada igual a isso e não apenas no Brasil. Há uma desestruturação tão grande no sistema político, uma multiplicação de centros autônomos de decisão arbitrários, que, todavia, não podem ser domesticados, ou enquadrados.” Disponível em http://www.valor.com.br/cultura/5356209/um-pais-nas-maos-do-acaso

3. Para uma argumentação exemplar no pós-1989, ver CAMPOS, 1991.

4. A expressão é de Fernando Henrique Cardoso, em seu discurso de despedida do Senado, em 1994.

5. O termo é de Mario Covas, em discurso parlamentar proferido em 1989.

6. PESSOA, 2015. p. 11.

7. Survey disponível no seguinte link http://gpopai.usp.br/pesquisa/160815/, 88.60% e 92.30% dos manifestantes de 2015 na Paulista defendem que o Estado deve ser responsável por fornecer, respectivamente saúde e educação para toda a população.

8. https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2017/12/23/interna_politica,926662/temer-diz-que-popularidade-e-uma-jaula-e-impede-governante-de-realiz.shtml

9. HABERMAS, 2015; HUNTER, 1991.

10. CHALOUB, PERLATTO, 2016.

11. VIANNA, BURGOS, SALLES, 2007.

12. ABREU, 2018

13. CHALOUB, LIMA, 2018; LYNCH, 2017.

14. SINGER, 2015.

15. SOUZA, 2016, p. 59.

16. BRAGA, 2016, p. 57.

17. BRAGA, 2016, p. 59

18. SAFATLE, 2018.

19. SAFATLE, 2018.

20. SAFATLE, 2018.

21. SAFATLE, 2015.

22. ALONSO, MISCHE, 2016; SINGER, 2013; BRINGEL, PLEYERS, 2015.

23. BRINGEL, PLEYERS, 2015.

24. BRINGEL, PLEYERS, 2015.

25. CHALOUB, 2013.

26. Mesmo que eu considere problemáticas duas caracterizações das Jornadas em seu mais importante texto sobre o tema (SINGER, 2013): a ideia de que tenha vigorado o pós-materialismo, como preceitua Inglehart, e a vaga caracterização de um predomínio do centro, conceito de difícil aplicação em surveys por sua excessiva ambiguidade.

27. HADDAD, 2017.

28. SOUZA, 2015, p. 87.

29. ALONSO, MISCHE, 2016.

30. ALONSO, 2017, 52.

31. Sobre o tema, ver ABREU, 2016.

32. Os dois textos foram publicados em seus antigo blog da revista Veja: https://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/

33. Publicado na Gazeta do Povo.

34. www.mbl.org.br

35. http://www1.folha.uol.com.br/poder/2013/06/1299535-nenhum-partido-vai-ganhar-com-protestos-afirma-fhc.shtml
BIBLIOGRAFIA

Abreu, Rafael. Ainda sobre junho/2013: heterogeneidades e homogeneidades no território nacional – proposta para uma agenda de pesquisa. Disponível em https://revistaescuta.wordpress.com/2016/05/23/ainda-sobre-junho2013-heterogeneidades-e-homogeneidades-no-territorio-nacional-proposta-para-uma-agenda-de-pesquisa/

Alonso, Angela; Mische, Ann. “Changing Repertoires and Partisan Ambivalence in the New Brazilian Protests”.Bulletin of Latin American Research, v.36, n.2, abr. 2017, pp.139-280

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