Óculos

Óculos

Felipe Cattapan, Músico

 

6:00. 6 toques curtos. 2 olhos se abrem. 1 homem se levanta. 1 mesmo ritual se repete. Há 66 anos. 24.090 vezes.

Silenciado o despertador, o banho matinal. A água escorrendo pela pele ressecada. Enxuto o corpo, a contemplação da cicatriz no joelho direito… Depois o creme hidratante sendo sugado pelas rugas do rosto.

A refeição na cozinha reduzida ao essencial: um ancião solitário se nutre de obediência ansiando viver alguns anos a mais. Lá fora, a escuridão – esperando por um sol que ainda não nasceu.

Às 6:46 desce cuidadosamente as escadas, ainda sem óculos… o nariz escorregadio denuncia um leve exagero na quantidade de creme… (um indício de senilidade?)… Apalpa nervoso, reencontra indiferente os óculos sexagenários em algum bolso da calça. Protegido pelo seu fiel casaco preto, às 6:49 finalmente abre a porta e sai ao mundo.

O mundo está mais branco do que ontem. A neve dificulta a sua caminhada até o bonde… o medo de chegar atrasado acelera os seus passos, a miopia sem óculos o desestabiliza, o gelo o surpreende, a ineficiência da perna direita o desequilibra, a insegurança o derruba. Após um grito de raiva contido, levanta-se com pressa. Arfa. Alcança o bonde ofegante e suado, talvez machucado – mas irrepreensivelmente pontual. Sentado, ainda tem tempo de constatar que as suas pegadas cinzas já estão sendo apagadas por uma neve mais jovem.

Fecha os olhos. Para não rever o tempo se movendo lá fora…

E abre-os logo em seguida, ao descer do bonde. Como de praxe, examina o relógio de pulso para reprovar o atraso quase quotidiano do transporte público – mas, para sua surpresa e agonia, desta vez só consegue recriminar a si mesmo: suas mãos histéricas acusam em todos os bolsos possíveis a ausência absoluta e definitiva dos seus óculos urgentes.

 

 

 

Uma perda! Um colapso! Um lapso e um relapso! Uma falha – e uma culpa: a sua própria ineficiência! Que o mundo é ineficiente, ele já sabia (e todos nós já sabemos); que a vida é falha, algum dia todos nós saberemos, você saberá e ele já sabia – no mais tardar quando foi para a guerra e a guerra o feriu no joelho direito, a cicatriz era (e é) a única medalha restante, o seu berro de raiva não sendo escutado por ninguém, nem pela própria mulher (que foi-se embora para não ouvir nunca mais o eco deste grito distante que até hoje não quer calar)! O universo, a humanidade, o ser humano, os animais, os outros, eles, vós, nós, ele, tu, eu e quem quer que seja: tudo é falho – e toda falha é redundante (viver só se tornando suportável quando a própria memória falha e este diagnóstico crônico é provisoriamente esquecido). Repetindo, e a redundância estilística que se dane, afinal quem aqui fala é um biólogo frustrado que fracassou ao tentar provar que o ácido desoxirribonucleico não passa de “tempo congelado”: como pôde logo ele, que durante grande parte da sua vida tentou comprovar cientificamente que a vida tende à ineficiência, por que diabos foi logo ele ser capaz de cometer tamanha calamidade, deixando cair um objeto tão antigo e pessoal – o seu último e fiel companheiro – no chão inalcançável de algum bonde qualquer que transitava e transita, que se dana e se danará por este caos incontrolável a que chamamos de acasos e coincidências? Pro inferno! Quero o bonde de volta, os passageiros que se danem como eu estou me danando (e quem não está?) há tantas décadas e ninguém me ouve (por um acaso alguém te ouve?) desde que a minha mulher foi-se embora fugindo que nem este maldito bonde e não voltou mais… pois que volte o bonde e eu me calo cansado: esquecerei a minha ira e o meu desejo irado de vingança – e você, toda esta história exaustivamente repetitiva. Pois nos calemos todos – o mundo que se cale: como eu, tu, ele, nós, vós, eles nos calamos frente à ineficiência universal cujo supremo paroxismo é o nosso envelhecimento perene e inexorável. Envelhecer é o pior dos fracassos. Ninguém escapa, nem mesmo tu, vossa mercê, você ou cê – existir é envelhecer. Tudo tende a nada. Sempre. Nascer é morrer, não nascer é personificar a ausência. Sobreviver é esquecer.

Para esquecer basta agir. Caminhou até o escritório de achados e perdidos: hora do almoço. Esperou. Voltou. Esperou na fila; andou, parou; chegou, falou, ouviu; repetiu, ouviu, reclamou, não ouviu, silenciou; andou, parou; olhou, não achou, olhou, não achou, olhou – não viu. Saiu. Se perdeu…

Perdido em uma multidão dispersa, sem óculos o mundo era um borrão. Borrado no mundo, se perdia entre as pessoas, as ruas, os bondes e os carros… Perdeu a direção, a paciência, a orientação. Olhou para cima e o sol era uma mancha disforme clareando as nuvens sem nenhum propósito. Caminhou sem fim e, quando a luz se expandiu, viu um imenso parque branco… depois andou mais, viu um pouco mais e o parque era verde e branco; andou muito mais, viu demais e as cruzes do parque mataram a grandiosidade da sua visão: viu que o que via era um cemitério! Hora de voltar para casa; para a sala de jantar com as condecorações de uma guerra perdida, para o escritório abarrotado de livros de biologia esquecidos nas estantes, para a cama vazia de esposa que partiu, para o quarto oco do filho que não nasceu.

Entrou no bonde. O veículo chegaria à sua estação antes que a luz do sol desaparecesse por completo.

Iria cedo para cama, após mastigar sozinho qualquer coisa insossa da geladeira quase vazia.

No leito, seus olhos prefeririam a uniformidade da escuridão às habituais páginas brancas com letras pretas…

Adormeceu… sem se lembrar de que se esquecera de procurar uma ótica…

 

 

 

6…

7:00…

8:00 horas…

9:00 horas! Um feixe de luz tocou a sua face. Suas pálpebras palpitaram, sua boca sorriu. Despertava…

Sem óculos.

Sem despertador. E sem lamentar, após 66 anos, a ausência dos 6 toques curtos: os 3 ponteiros estagnados mais sugeriam uma suspensão da contagem do tempo… do que um castigo à sua memória, por ter esquecido de dar corda à sucessão de segundos, minutos e horas.

Embaixo do chuveiro, o tempo não escorria.

Fora do chuveiro, os poros da sua pele sugavam com avidez cada gota da brancura de um creme que era quase um bálsamo.

Uma sede, um sabor e um gosto de leite o chamaram à cozinha que absorvia luminosidade e oferecia calor. Lá fora, o sol exibia uma força mais amarela do que ontem.

Firme no corrimão, a sua mão direita conferiu-lhe a força necessária para descer as escadas sem óculos nem hesitação; sem medo, saiu.

O mundo estava menos branco e mais cantarolado do que ontem. Um inesperado calor amarelado acariciava o ar fresco, um caótico canto de pássaros encantava as árvores e os postes.

O mundo era um borrão abstrato e vibrante. A luz intensificava as cores que surgiam de todas as partes e direções, principalmente de baixo: nos canteiros, gramados, praças e jardins palpitavam o lilás, o vermelho, o amarelo, o verde, o branco – mas um branco menos branco do que antes, um branco que ia desaparecendo, sendo sugado gota a gota pelo solo sedento, umidificando a rigidez da terra áspera que nos circunda… Um biólogo argumentaria que já era quase março e a primavera estava chegando; mas a biologia é apenas uma ciência, “primavera” é apenas um nome – e o que ele via, sem contorno e por todos os lados, era a exuberância da Natureza pululando sem controle nem razão!

Com o sol massageando a sua nuca, levantou a cabeça para se embeber do azul infinito de onde a vida parecia jorrar sobre a terra: pássaros frenéticos inumeráveis, se inquietavam entre postes, árvores e prédios; alguns desciam um pouco mais e, sem pressa nem medo, chegavam bem perto dele; outros pousavam eufóricos no chão e, por um piscar de olhos, até mesmo na rua ou na calçada. Um, porém, estava imóvel. E imóvel permaneceu. No chão. Jazendo. Só.

De todas as explicações possíveis, a morte é sempre a mais plausível… Sentiu vontade e depois necessidade de enterrá-lo. Como se este gesto transitório pudesse servir de consolo, como se este antigo ritual pudesse, de alguma forma, assumir a função terapêutica de uma cicatrização. Procuraria, no parque, um lugar ermo, esquecido. Longe da visão dos transeuntes. Onde houvesse verde. Talvez amanhã, ou depois, este verde se tornasse, de novo, branco – mas, até lá, aquele pequeno pássaro já haveria se dissolvido e desaparecido para sempre da sua memória…

Caminhou. Devagar. Como se o respeito impusesse uma certa cerimônia fúnebre, aumentando desnecessariamente a distância daquele breve percurso. O pequeno ponto preto transformou-se em uma mancha pequena, em uma mancha maior, em um ente desfocado, em um objeto sem contorno, e, por fim, em um prosaico par de óculos caídos no chão. Que finalmente reencontravam o seu dono. Suas mãos pueris tocaram com delicadeza aquele objeto tão íntimo; limparam-no, poliram-no, imacularam-no. Retornaram-no à sua condição natural: acima da boca, em frente aos olhos. De um pássaro morto, ressurgia a sua nova visão.

Viu que não perdera os seus óculos no bonde: caíram de algum bolso na neve enquanto ele caía na calçada. Viu e reviu a neve… dissolvida e se dissolvendo. Refletiu que a vida, quando definida pela presença do ácido desoxirribonucleico, se reduz a uma herança codificada geneticamente, se resume pura e simplesmente a “tempo congelado”… no entanto, justamente graças à inversão deste processo, quando como por milagre a neve se descongelava e desaparecia bem à sua frente, pôde finalmente rever os seus óculos desaparecidos!

Reviu o mundo e ele estava mais nítido do que ontem e mais claro do que antes. Olhou o sol – viu o verão que virá e ele verá e nós veremos e vocês verão. Viu o bonde, a rua, a calçada, as praças, os canteiros, os gramados, os jardins, as flores, as árvores, os pássaros, o céu, os prédios, as casas, os pedestres, os carros, o vidro de um carro, o vidro dos seus óculos, o reflexo dos seus olhos através do vidro dos seus óculos no vidro de um carro. Não procurou adjetivos. Viu que o mundo prescindia deles.

Reviu a sua queda, o seu engano, o seu erro. E entreviu um outro nome para o que denominava “erro”: revisão. De nomes. Revisou a cicatriz do ferimento de guerra no seu joelho direito: chamaria-a de aviso. Revisou o fracasso de tantas pesquisas não terminadas sobre o ácido desoxirribonucleico: chamaria-as de sensibilização para a verdade. Revisou o divórcio da sua mulher: chamaria-o de uma despedida digna. Revisou a vontade frustrada de ter um filho: chamaria-a de impulso vital. Revisou a ineficiência perene dos seres humanos: chamaria-a de tentativa. Revisou a sua própria ineficiência: chamaria-a de uma informação a ser reprocessada. Revisou a sua velhice: chamaria-a de tempo vivido. Revisou a morte: chamaria-a de ausência de nomes.

E viu mais. Viu que o tempo é um nome sem sentido; ou o nome de uma convenção cujo sentido se perde com o passar do tempo. Uma lápide: tradicional, mas inofensiva.

Viu que não há tempo. E que, em última instância, não tinha medo de ter pouco tempo, mas de não ter tempo suficiente para ver que o tempo não existia.

E viu ainda mais: demais e em excesso: viu que o que agora via não era novo e sim uma revisão: a repetição de uma visão já experimentada quando ainda era jovem e não usava óculos nem usurpava o ácido desoxirribonucleico, um reflexo tardio de uma experiência antiga, uma redundância esquecida.

Ver é rever, reviver, entrever, absorver, sobrever, sobreviver.

Confiando no tato da sua mão direita, viu sem ver: o mesmo leve exagero de creme hidratante não absorvido pelo seu nariz… (um capricho de adolescente?)…

Sorriu… em breve o frio já estará indo embora, seu nariz não precisará mais de creme, seus óculos não precisarão mais esperar o seu nariz secar, todo este ritual não precisará mais ser repetido; não perderá mais os óculos, a partir de agora farão parte da sua face, estarão naturalmente integrados no seu rosto até que o próximo inverno talvez os separe…!

Limpou os óculos. Viu que a repetição exaustiva de um mesmo ritual tem como único propósito nos conferir uma frágil ilusão de eternidade… Não precisava mais de placebos. Prosseguiu a sua caminhada – sem tempo. Foi passear, em busca de novos nomes. Sem destino. Nem fim.

Por um instante fechou os olhos. Mas não conseguiu evitar uma última visão: se hoje saiu de casa como um ancião, agora está caminhando por estas ruas como um pesquisador e à noite voltará à mesma casa de sempre como poeta.

 

O autor é regente de orquestra e professor do Departamento de Música da Universidade de Artes de Berna, Suíça.

felipe.cattapan@gmail.com

 

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