O sertão primordial e o grande confronto

O sertão primordial e o grande confronto

Gustavo Maia Gomes, Economista

 

 

Que povos alcançaram o futuro território brasileiro antes dos portugueses? Quando chegaram? De onde vieram? Onde viveram? Especialmente, quem eram os nativos que habitavam o Interior? Investigações recentes em Arqueologia, nas quais me apoio, têm muitas novidades a contar sobre o Brasil Primordial. Trato apenas dos sertões. É uma idiossincrasia. Os índios do Litoral ficaram demasiadamente conhecidos, por terem sido os primeiros encontrados pelos novos donos da terra.

Quem quer que tenham sido aqueles homens e mulheres, sua história iria mudar completamente nos anos posteriores a 1500, de uma forma que eles não podiam compreender. Conhecida descrição dos primeiros contatos de europeus com os índios brasileiros, aqui relida, já permite ver algumas das razões mais fundamentais da derrota dos nativos frente aos forasteiros. Aconteceu na viagem de Francisco Orellana, espanhol, descendo o Rio Amazonas, em 1542. Foi uma espécie de capítulo inicial do Grande Confronto.

 

ECONOMIA E CULTURA

Embora a maioria dos arqueólogos ainda acredite terem os primeiros habitantes chegado ao continente americano apenas 12.000 anos atrás, o que seria compatível com a hipótese única da entrada de asiáticos pelo Alasca, alguns estudiosos sustentam que essa história, no Nordeste brasileiro, em especial, começou bem antes. Há 40 milênios, talvez mais. Nesse caso, os humanos teriam vindo da África em barcos de pesca desencaminhados pelos ventos e correntezas.

Os povos que se embrenharam pelo território futuramente brasileiro eram caçadores-coletores. Pescadores, também, onde possível. Utilizavam artefatos de pedra e, certamente, de outros materiais menos resistentes à destruição. Ao se defrontarem com novos ambientes, souberam adaptar suas estratégias de sobrevivência: identificaram as plantas comestíveis; modificaram a paisagem, construindo obras de terras com que aumentavam a oferta de alimentos; descobriram a agricultura que, entretanto, nunca chegou a ser a base principal de seu sustento.

Na Amazônia, em especial, alguns grupos primitivos desenvolveram economias de produtividade comparativamente alta, baseadas na exploração intensiva dos recursos locais. Criaram métodos para manejar a floresta, facilitando o crescimento das árvores que lhes eram úteis; tornaram-se sedentários; descobriram a cerâmica, cujas mais antigas evidências datam de 8.000 ap (“antes do presente”). Aprenderam a plantar – embora só tardiamente, por volta do ano 4.000 ap, tenha a agricultura adquirido importância (mesmo assim, complementar) na economia dos protobrasileiros.1

Mas, nem todo o tempo desses povos era dedicado à economia. As suas mais antigas manifestações de cultura material incluem, além da cerâmica (que viria a atingir altos níveis de expressividade, especialmente, nas regiões de Tapajós-Santarém e Ilha do Marajó, no Pará); pinturas rupestres (abundantes em várias regiões, como a Serra da Capivara, Piauí, os sítios de Santa Elina e Cidade de Pedra, no Mato Grosso, e Lagoa Santa, Minas Gerais); inscrições esculpidas em rochas (como na Pedra do Ingá, Paraíba, e no Rio Madeira, Rondônia); geóglifos, grandes e extensas movimentações de terra (no Acre), que poderiam ter finalidades rituais ou de defesa; e megalitos, autênticos observatórios astronômicos, conjuntos de grandes blocos de pedra dispostos de acordo com a posição do sol (Parque Arqueológico do Solstício, Amapá).

Da cultura imaterial – costumes, crenças, mitologia, valores – dos primeiros habitantes do Sertão conhecemos pouco. Sabiam fazer fogo. Tinham como diferenciar as plantas venenosas das que serviam de alimento. Os hábitos de preparar os mortos de um modo especial e depositar seus restos em urnas de cerâmica sugerem a crença na vida sobrenatural e uma mitologia da criação do mundo. Pinturas rupestres mostrando cenas de caça talvez tivessem um significado mágico, ou didático; outras, de conteúdo sexual explícito, podiam indicar a aceitação social do puro prazer.

Os observatórios astronômicos, cuja construção exigiu que se movimentassem grandes blocos de pedra, sugerem o conhecimento das estações do ano, um bom guia para executar o plantio de vegetais ou antecipar a época em que os rios transbordariam ou começariam a vazar, fechando ou abrindo territórios de caça e de pesca. Alguns desenhos em peças de cerâmica, por exemplo, na Amazônia Central, descrevem o mundo dividido em três planos, como os incas também faziam: um superior, habitado pelo sol, estrelas, arco-íris; outro, no nível da terra, onde habitam os homens e os animais; e um terceiro subterrâneo, onde estão os mortos e os espíritos. Expressam, portanto, uma forma de conhecimento ou crença.2

No início, esses homens e mulheres viviam em bandos. Se a analogia com os índios encontrados pelos portugueses no século XVI for válida, cada bando tinha entre 20 e 30 integrantes e um líder político e espiritual com poderes limitados. Vários milênios mais tarde, entretanto, alguns desses pequenos grupos humanos se reuniram para formar unidades políticas maiores (tribos e “cacicados”), com soberania sobre território extenso e mais fortemente submetidas à autoridade de um chefe.

Na Amazônia, essas “sociedades complexas”, cacicados multitribais, com populações de até 50 ou 60 mil pessoas, teriam começado a aparecer por volta de 3.000 ap. Sua criação está associada, em parte, à descoberta da agricultura, mas, sobretudo, ao desenvolvimento de uma tecnologia de administração dos recursos hídricos apoiada em obras de engenharia. Foram construídos aterros, barragens, viveiros de peixes, passagens elevadas de terra e currais para aprisionamento de tartarugas.

A ocupação por um longo período de um mesmo sítio modificou os solos, criando manchas de “terra preta de índio”, altamente férteis, que se formaram com a deposição secular de restos orgânicos e sua queima periódica. A maioria dos cacicados, contudo, teria desaparecido antes da chegada dos portugueses, provavelmente, devido ao efeito conjunto de epidemias, guerras intertribais e variações climáticas duradouras.

Essa primitiva história não foi feita, apenas, de realizações. Algumas lacunas também são notáveis. Mesmo quando formaram sociedades populosas e dotadas de certa sofisticação, os povos que descobriram o Brasil antes dos portugueses não inventaram a escrita, nem a roda, não conheceram os metais, não construíram cidades de pedra, nem desenvolveram formas de organização social mais complexas que os cacicados. Sua agricultura foi rudimentar, embora isso possa ter sido uma escolha, pois havia muitas possibilidades de sobreviver explorando, por exemplo, na Amazônia, os recursos da fauna e flora locais.

Além de tudo isso, por uma falta de sorte que explica parte de sua história subsequente, os habitantes primordiais não encontraram nos futuros espaços brasileiros, fossem esses no Sertão ou alhures, animais domesticáveis que lhes pudessem servir de alimento e meios de transporte, como aconteceu com a lhama e a alpaca, nos Andes.

 

OS PRIMEIROS HABITANTES

A pesquisa arqueológica, ainda incipiente no Brasil, mas intensificada a partir dos anos 1980, reuniu evidências de presença humana muito antiga em todos os sertões brasileiros. Até recentemente (2014), os sítios arqueológicos amplamente reconhecidos como os mais antigos incluíam a Lapa do Boquete (MG), Santa Elina (MT) e Monte Alegre (PA), todos com datações próximas a 12.000 anos. É possível que, a partir de agora, a primazia de antiguidade passe para o Vale da Pedra Furada, no Parque Nacional da Serra da Capivara, em São Raimundo Nonato, Piauí, e que o período de vida dos Sertões brasileiros seja estendido, pelo menos, para 24.000 ap.

 

Pedra Furada (Serra da Capivara, Piauí)

A região onde se localiza o Parque Nacional da Serra da Capivara, no Sertão nordestino, marca o encontro de duas formações geológicas: a bacia sedimentar Maranhão-Piauí e a depressão periférica do Rio São Francisco. Ali coexistem serras, vales e planície. Tal diversidade de ambientes, no passado, tornou o lugar atraente para humanos e outros animais. A vegetação e a fauna atuais são típicas da caatinga, mas, até cerca de 10.000 anos atrás, a Mata Atlântica dominava a paisagem. O clima era úmido e havia abundância de alimentos, o que permitiu a sobrevivência de grandes animais cujas espécies, em geral, se extinguiram (não apenas ali) na passagem do Pleistoceno para o Holoceno, épocas geológicas da Terra. No Parque, ou em áreas próximas a ele, já foram desenterrados ossos de preguiça gigante (que podia atingir três metros de altura e pesar cinco toneladas), de mastodontes (semelhantes a elefantes), e de toxodons, parentes dos rinocerontes.3

Há 40 anos, o lugar é objeto de pesquisas arqueológicas. Numa das mais recentes, descrita em 2014, reitera-se a proposição da presença humana muito antiga no atual Piauí. As escavações feitas no Vale da Pedra Furada permitiriam fixar em até 24.000 anos ap os sinais de povoamento. Não são restos de gente (os solos ácidos da região destroem os ossos, impedindo sua preservação por longos períodos), mas fragmentos de quartzo e quartzito que, na visão dos cientistas responsáveis pelas descobertas, seriam artefatos produzidos pelos primitivos habitantes.4

Os primeiros ocupantes da Serra da Capivara praticavam a caça aos tatus verdadeiros, tatus-bola, cutias, veados catingueiros, pássaros e lagartos. Acredita-se que a região chegou a ter densidade populacional maior do que tem hoje. As marcas da antiga presença humana são abundantes. Mais de mil sítios arqueológicos já foram cadastrados no Parque; 173 deles estão abertos à visitação pública. Além de caçar e coletar alimentos, essa gente desenhava e pintava nas paredes rochosas dos abrigos naturais, pelo menos, há 12.000 anos, segundo as estimativas de Niède Guidon, arqueóloga franco-brasileira que descobriu o lugar, nos idos de 1960. De fato, uma quantidade incalculável de pinturas rupestres existe e pode ser contemplada, em alguns casos, confortavelmente, pelos visitantes. Foram essas pinturas que primeiro atraíram a atenção de arqueólogos para a Serra da Capivara.5

Ainda não se sabe como poderiam esses homens e mulheres ter alcançado o Piauí sem deixar traços pelos caminhos por onde passaram. (Ou, quem sabe, essas pistas apenas ainda não foram encontradas?) Se vieram do litoral, como já foi sugerido, muito antes de os asiáticos terem penetrado a América pelo Estreito de Bering, de que forma se deu sua chegada ao continente sul-americano? Em declarações atribuídas a Niède Guidon, uma resposta foi oferecida: “em minha opinião”, diz a arqueóloga, “o Homo Sapiens saiu da África faz 130 milênios. (…) Alguns deles se dirigiram a Ásia e Europa, enquanto outros, provavelmente pescadores, foram arrastados pelas correntes e chegaram à América do Sul”.6

 

A Gruta do Padre (Pernambuco) e sua lenda

Uma lenda com alusões arqueológicas aos primeiros habitantes une os sertões do Piauí aos de Pernambuco: a história do padre que raptou a moça por quem se apaixonara. Embora datas não sejam nunca mencionadas, o contexto faz supor que isso teria acontecido no século XIX. Na fuga, acossados pelos truculentos familiares da jovem, desde o Piauí até às margens do Rio São Francisco, em Petrolândia (PE), os dois namorados encontraram esconderijo numa gruta próxima à cachoeira de Itaparica, hoje submersa. Mas, foram descobertos. Seus perseguidores teriam, então, provocado um incêndio na entrada do abrigo. Sem ter como fugir, eles morreram queimados naquele lugar que, desde então, ficou conhecido como Gruta do Padre. Até as primeiras décadas do século passado, os mais velhos habitantes da região ainda diziam ouvir, à noite, os soluços do casal cujo amor teve tão trágico fim.

Não existem outras evidências, além da tradição oral, de que o caso do padre e a moça vindos do Piauí tenha, realmente, acontecido. Mas, os desdobramentos comprovados dessa história não são menos interessantes. Em 1935, um estudioso de assuntos indígenas, Carlos Estevão, visitou Itaparica. Dois anos depois, ele relatou o que soube e viu por lá. Publicada no Boletim do Museu Nacional, a fala do etnólogo tornou conhecida de um público maior a lenda daquele amor proibido. Contou Estevão que, andando pelas margens do São Francisco, próximo a Petrolândia, deparou-se com um idoso senhor de nome Anselmo que trabalhava na lavoura. O velho contou-lhe, então, a história delineada acima. “Como devem ter percebido”, continua Carlos Estevão, “a narrativa que acabaram tem um sabor de lenda muitíssimo acentuado. Esta circunstância aumentou-me o desejo de visitar a gruta”. Foi o que fez.7

Carlos Estevão foi o primeiro cientista a entrar na Gruta do Padre. Não viu as coisas de que o rústico habitante local Anselmo falava, mas viu outras que, até, então, ninguém tinha visto. Um mês depois do episódio acima descrito, ele iniciou a escavação. “O relato de sua pesquisa transforma-se numa interessante leitura”, diz Gabriela Martin, “pois se trata da primeira escavação arqueológica realizada no Nordeste com um mínimo de sistemática por parte de seu autor”. Mas isso não é, apenas, um episódio curioso na história dos sertões primordiais. Trinta e dois anos depois das escavações pioneiras de Carlos Estevão, outro arqueólogo, Valentin Calderón, definiu a chamada Tradição Itaparica para designar o estilo dos artefatos líticos encontrados no local. Descobriu-se, depois, que a Tradição Itaparica tinha sido difundida por um território muito maior, alcançando até os atuais estados de Goiás e Minas Gerais. Também foi estabelecido, posteriormente, que a presença humana na região da Gruta do Padre remonta a 7.000 ap.8

Segundo Gabriela Martin e Anne-Marie Pessis, a Gruta do Padre teve duas ocupações. “No longo período em que serviu como refúgio de caçadores, os artefatos que correspondem às ocupações mais antigas (7.000 e 5.000 ap) aparecem finamente retocados por pressão, em sílex e calcedônia, principalmente na forma de raspadores plano-convexos (lesmas)”. Já nas ocupações mais recentes, em contraste, entre 4.000 e 2.000 ap, “os instrumentos são menos refinados, de tamanho maior, com pouco ou nenhum retoque, muitos deles lascados sumariamente a partir de seixos procedentes do conglomerado da própria gruta”.9

Desde 1989, com a construção do lago de Itaparica, a Gruta do Padre se encontra sob as águas do Rio São Francisco. Pouco antes de a inundação ocorrer, uma equipe de arqueólogos da Universidade Federal de Pernambuco coordenada por Gabriela Martin fez intensas pesquisas em toda a região, salvando o que era possível salvar e registrando o que de importante ali foi encontrado.

 

A Pedra do Ingá (Paraíba)

“A Itaquatiara de Ingá, ou Pedra Lavrada de Ingá, na Paraíba, é sem dúvida a mais famosa gravura rupestre do Brasil”, escreveu Gabriela Martin no seu livro sobre a pré-história do Nordeste. Fica no riacho Ingá do Bacamarte, município de Ingá, Paraíba, distante 40 km de Campina Grande e 110 km de João Pessoa. Não é uma pedra, mas um conjunto delas, sendo que uma se destaca por conter a maior parte das gravuras. A impressão causada no observador é muito forte: “um enorme bloco de 24 metros de largura e três de altura divide o rio em dois braços. O lado norte do bloco está totalmente coberto de grafismos, gravados até uma altura de 2,5 metros”. Muitas interpretações já foram propostas para as figuras, mas nenhuma delas ganhou aceitação geral. Ainda segundo Martin, “os desenhos foram realizados seguindo uma linha contínua e uniforme, insculpida na rocha, de três centímetros de largura e seis a sete milímetros de profundidade. A parte superior do painel está enquadrada por uma linha de círculos gravados, de cinco centímetros de diâmetro”.10

Infelizmente, isso é quase tudo o que sabemos sobre o monumento. Como se constata em um estudo recente (2014), a Pedra do Ingá “é um dos mais importantes exemplos de arte lítica registrados no Brasil”, listado como patrimônio nacional desde 1944. Apesar disso, “o sítio nunca foi objeto de pesquisa arqueológica sistemática e não se dispõe, sequer, de uma cronologia aceita para a arte rupestre ali representada. Os textos publicados apenas tentam interpretar os sinais.”11

E as interpretações não têm freios: “Se fossemos esmiuçar o copioso arsenal de crendices, lendas e mitos atribuídos à Pedra do Ingá (…) teríamos que aumentar consideravelmente este artigo. Pois a literatura fantástica sobre os desenhos (…) divaga por alusões à presença de seres extraterrestres (…), a supostos povos remanescentes dos lendários continentes submersos, a presença do apóstolo São Tomé por essas plagas, navegantes fenícios, sumérios, hititas e hebreus, sagas falofórias, cosmogêneses, uranoscópicas, metafóricas, panegíricas e os tantos outros conceitos que a proparoxitonia possa nomear os fantásticos excessos da imaginação”.12

De qualquer forma, o historiador e arqueólogo Wanderlei Brito foi o único a arriscar um palpite sobre a idade das gravuras, que teriam sido feitas “por uma cultura extinta, entre 2.000 e 5.000 anos atrás”.13

Não se trata senão de um palpite. A datação das gravuras na Pedra do Ingá é dificultada por sua localização no meio de um curso de água sujeito a cheias periódicas que há muito apagaram os vestígios deixados pelos autores dos desenhos. Mas uma datação aproximada poderia ser conseguida, se houvesse mais empenho. Isso porque, como salienta Gabriela Martin, “na região do Seridó [Rio Grande do Norte, próxima à Pedra do Ingá], registram-se meia centena de sítios com petróglifos gravados nas rochas do Rio Carnaúba e seus afluentes, entre os quais é possível identificar grafismos muito semelhantes aos da itaquatiara de Ingá, tanto pelos desenhos em si como pela técnica de raspado e polimento utilizados.”14

Se algum desses conjuntos de arte rupestre for datado, um parâmetro menos arbitrário poderá ser estabelecido para a Pedra do Ingá. Mas isso é, apenas, um desejo. O que é certo é que a Itaquatiara do Ingá representa um marcante testemunho – com toda a aparência de ser muito antigo – da presença humana nos sertões do Nordeste.

 

Luzia e os povos de Lagoa Santa e Serra do Cipó (Minas Gerais)

De acordo com a revisão da literatura feita por Lucas Bueno e Adriana Dias, alguns dos sítios arqueológicos mais antigos e notáveis, no Sul e Sudeste brasileiros, são a Lapa do Boquete, no vale do Rio Peruaçu (um afluente do São Francisco), em Januária; a Lapa Vermelha (em Lagoa Santa, Região Metropolitana de Belo Horizonte); e Santana do Riacho, na Serra do Cipó. Todos estão em território da atual estado de Minas Gerais.15

André Prous, que estudou aquela área, escreve que “um pouco ao Norte de Belo Horizonte, a região de calcário de Lagoa Santa e a encosta da Serra do Cipó forneceram a maior coleção de esqueletos disponíveis para o estudo biológico das primeiras populações americanas. Muito parecidos entre si, esses povos formam a chamada ‘raça de Lagoa Santa’. O mais antigo esqueleto, popularizado sob o nome de Luzia, foi encontrado no abrigo IV da Lapa Vermelha”. Teria 11.500 anos.16

Em vários sítios da região, há farta evidência da fabricação e utilização de instrumentos de pedra, como lascas de quartzo, “muitas delas obtidas ao se esmagarem os cristais sobre uma bigorna”. Dessas, as menores, segundo Prous, “eram utilizadas como canivetes, enquanto as maiores eram retocadas numa das faces para obter raspadores, ou em ambas as faces para se tornarem pontas de projétil. (…) Com patas de veado faziam-se espátulas e com a ponta dos chifres, sovelas. Foram encontrados também anzóis e contas de osso para colares”. O povo de Lagoa Santa assegurava sua subsistência, em parte, com a ingestão de proteínas de pequenos animais por eles caçados. A maior parte da dieta, contudo, provinha de fontes vegetais.17

Pinturas e gravuras rupestres abundam nessa região de Minas Gerais. Elas apresentam cenas de caça, inclusive, com uso de arco e flechas, em contraste com a Serra da Capivara. Também aparecem armadilhas para caçar animais terrestres e cenas de pesca com a utilização de redes. A ligação dessa arte com a vida cotidiana dos primitivos habitantes da região parece bastante clara. Considerando, assim como também ocorria na Serra da Capivara, que a elaboração das pinturas e gravuras feitas por incisão na pedra demandava doses significativas de trabalho (algumas delas se localizam até a seis metros de altura do piso, exigindo, portanto, a montagem de estruturas especiais para serem feitos), deduz-se que a produção da arte era considerada uma atividade importante.

 

Santa Elina e Cidade de Pedra (Mato Grosso)

O sítio arqueológico de Santa Elina fica na Serra das Araras, município de Jangada, Mato Grosso, 120 km a Noroeste de Cuiabá. É o mais antigo testemunho de presença humana na região. Segundo Águeda Vilhena Vialou, a primeira ocupação humana no local data de 25 mil anos. (Não há, contudo, plena aceitação dessa data.) Indícios de que os sucessivos habitantes da região, mesmo em épocas mais recentes, praticassem a agricultura não foram encontrados.18

A arte rupestre encontrada em Santa Elina contém grande número de desenhos abstratos (mais de dois terços do total) que podem se apresentar nas formas de pontos, sinais pontuados, barras de sinais lineares simples até formas geométricas complexas. Representações descritivas de objetos ou organismos reais se limitam a figuras de animais (cervídeos, pássaros, antas, felinos, macacos) e de pessoas humanas. As pinturas mais antigas podem remontar ao início do Holoceno.

 

Taperinha e Monte Alegre (Pará)

A ocupação da região em torno da atual cidade paraense de Santarém, às margens do Rio Tapajós, próximo à confluência deste com o Amazonas, remonta ao Pleistoceno tardio, ou seja, há mais de 11.000 anos. Um sambaqui fluvial (Taperinha) escavado em 1987 pela arqueóloga norte-americana Anna Roosevelt conservou abundantes vestígios de presença humana: conchas de moluscos que haviam sido usados como alimento, carvão remanescente de fogueiras intencionalmente feitas, ossos de animais e de pessoas humanas e, especialmente, fragmentos de cerâmica. Produzida entre os anos 8.025 e 7.170 ap, a cerâmica de Taperinha é a mais antiga já conhecida nas três Américas.19

Não muito longe de Taperinha, na margem esquerda do Rio Amazonas, pesquisadores coordenados pela mesma arqueóloga estudaram a caverna da Pedra Pintada, no município de Monte Alegre, Pará. Ali, há registros de presença de povos caçadores-coletores desde 11.200 anos atrás. Foram encontrados instrumentos de pedra lascada com uma e duas faces trabalhadas, além de plantas carbonizadas, restos de pigmentos minerais usados nas pinturas, uns poucos ossos fossilizados e muitas frutas carbonizadas, como castanhas-do-pará e coquinhos. De acordo com Adriana Schmidt Dias, referindo-se às pesquisas originalmente feitas por Anna Roosevelt, a ocupação na região da gruta de Pedra Pintada está associada a uma indústria lítica bifacial [ou seja, trabalhada em duas faces] que tem muitas semelhanças com a do sul do país, o que poderia indicar “possíveis fluxos migratórios (…) ao longo dos rios Paraguai, Paraná e Uruguai, na transição Pleistoceno-Holoceno”.20

 

A ERA DOS CACICADOS

O primeiro e longuíssimo tempo da ocupação humana dos sertões brasileiros iria terminar em 3.000 ap, aproximadamente, com a ocorrência de desenvolvimentos tecnológicos que aumentaram muito o produto por trabalhador e por área economicamente explorada. As mudanças se espraiariam por quase dois mil anos, entre 3.000 ap e 1.000 ap e aconteceram, especialmente, na Amazônia. O resultado delas teria sido o aparecimento de sociedades com organização econômica, tecnológica e política mais complexa que a dos pequenos bandos e tribos até então existentes em todas as regiões do Brasil. Essas sociedades foram chamadas cacicados.

Foi a combinação de achados arqueológicos e relatos de viajantes europeus dos primeiros anos pós-1492 que levou os arqueólogos a proporem a existência de cacicados (alguns deles já extintos quando da chegada dos europeus) em várias partes da Amazônia brasileira, como a Ilha do Marajó, a região de Santarém (PA), a Amazônia Central, o Alto Xingu e vastas extensões das margens do Rio Amazonas. Recentemente, porções do estado do Acre foram adicionadas às regiões onde essas sociedades complexas teriam aparecido. Talvez, também, o litoral atlântico do Amapá.

Claide Moraes, por exemplo, escreveu que “na Amazônia Central, região convencionalmente definida como o baixo curso dos rios Solimões e Negro até as proximidades da foz do Rio Madeira, no estado do Amazonas, os sítios arqueológicos apresentam evidências de que, por volta do ano 1000 de nossa era, grandes contingentes populacionais [ali] se estabeleceram”. Anna Roosevelt, que estudou, especialmente, sociedades ceramistas localizadas em Santarém (PA) e localidades próximas e na Ilha do Marajó, relata que os domínios dos cacicados “eram muito amplos, algumas vezes, de dezenas de milhares de quilômetros quadrados e eles eram sociedades politicamente unificadas por chefes investidos de amplos poderes. As populações eram densamente agregadas e algumas povoações tinham muitos milhares de pessoas”. Michael Heckenberger propôs a existência de um cacicado do povo Kuhikugu, no Alto Xingu (MT) que teria, inclusive, construído “cidades” de até 2,5 mil habitantes e sobrevivido por várias décadas à chegada dos portugueses ao Brasil.21

Ao contrário das sociedades da Amazônia Central, de Santarém e do Marajó, que já estavam extintas quando da invasão europeia, povos espalhados pelas margens do Rio Amazonas subsistiram e foram descritos por observadores espanhóis e portugueses, a partir da viagem pioneira de Francisco Orellana (1542). Os cacicados descritos historicamente tinham uma organização social hierarquizada e uma economia baseada na agricultura a na exploração intensiva dos recursos naturais. A classe dirigente cobrava tributos e podia organizar compulsoriamente o trabalho coletivo. Essas sociedades complexas que testemunharam a chegada dos europeus, entretanto, viriam a ser todas extintas no primeiro ou segundo século da colonização.22

 

Ilha do Marajó (Pará)

Sociedades indígenas do tipo “cacicados” existiram na Ilha do Marajó nos anos 400 a 1350 da nossa era. Isso pode ser inferido analisando a cultura material que deixaram para trás, os restos de suas refeições, algumas características de seus sepultamentos. Outras evidências apontam para uma ocupação densa do território, convergindo para a conclusão de que ali teriam vivido populações muito maiores que as características de uma organização social menos sofisticada. Anna Roosevelt, que investigou o Teso dos Bichos, no Marajó, foi a primeira a afirmar a existência de cacicados antigos, já extintos, na ilha. Mais recentemente, Denise Pahl Schaan fez pesquisas de campo e escreveu uma tese doutoral defendendo a existência de cacicados na região do Rio Camutins, na mesma Ilha do Marajó. 23

Os integrantes dos cacicados na Ilha do Marajó se sustentavam, predominantemente, da exploração intensiva de recursos aquáticos e florísticos. Para aumentar a oferta de alimentos, construíram não apenas tesos, mas barragens, poços, pontes de terra, estradas e currais para o aprisionamento de peixes. Provavelmente, “administravam” (ou seja, facilitavam o crescimento de) as árvores e palmeiras que lhes forneciam alimentos, como o açaí e o buriti. O arroz silvestre, um dos itens de consumo, também pode ter recebido cuidados especiais. A mandioca era cultivada, mas não parece ter sido a principal fonte de carboidratos. Dado o ambiente natural em que aquelas pessoas viviam, esse complexo de obras de engenharia (aterros, poços, barragens, pontes, estradas) e conhecimento tecnológico (pesca, manejo florístico e agricultura) deve ter sido suficiente para gerar uma oferta estável e suficiente de alimentos, que permitiu a aglutinação de muitas pessoas em uma única sociedade politicamente definida.24

 

Alto Xingu (Mato Grosso)

No alto Rio Xingu, território do atual estado de Mato Grosso, desenvolveu-se, aproximadamente, entre os anos 500 e 1600 DC, uma sociedade indígena que construiu pontes, estradas, praças de aldeias, barragens, açudes e estruturas defensivas feitas de terra. Michael Heckenberger, antropólogo norte-americano, tem estudado a região onde viveu esse povo antigo, os kuhikugu, hoje habitada pelos cuicuro, seus possíveis descendentes. Ele sustenta que a população local era, no auge da ocupação primitiva, vinte vezes maior que a atual. E que teria havido cidades (sem construções de pedra, é certo) com até 2,5 mil habitantes.25

Heckenberger identificou 28 dessas cidades e aldeias, distribuídas por uma área de 20.000 quilômetros quadrados, que podem ter abrigado, em seu conjunto, 50.000 habitantes. A maior delas era cercada por fossos defensivos com até três metros de profundidade e dez metros de largura, reforçados por uma paliçada de madeira. Os fossos são um indicativo de que havia inimigos em torno; possivelmente, guerras se travavam com frequência. As cidades eram integradas por várias praças, algumas delas com 150 metros de largura. Os achados arqueológicos, como restos de habitações e de peças de cerâmica, indicam que os kuhikugu ocuparam aquelas terras durante um milênio, tendo sido contemporâneas dos europeus no Brasil.26

 

Alto Purus: os geóglifos do Acre

Geóglifos (“marcas na terra”), um nome proposto pelo geógrafo e paleontólogo Alceu Ranzi, são enormes construções de terra, pré-colombianas, em formato de círculos, retângulos e quadrados, cujo perímetro pode passar de 300 m. Quando mais de um existem próximos, eles são ligados por estradas de terra protegidas por muros, obras de engenharia, igualmente, notáveis, algumas com até 55 m de largura e 600 m de comprimento. Na descrição de William Balée e colaboradores, os geóglifos são “estruturas de terra como valetas e muretas, além de montículos ovais ou lineares, assim como estradas muradas, formando diferentes morfologias. (…) Alguns sítios são ligados por estradas muradas retilíneas, as quais ocasionalmente se direcionam para o rio ou a floresta”.27

As datações disponíveis (em 2014) indicam que os geóglifos acreanos foram construídos entre 2000 ap e 700 ap (portanto, no início e até o século 14 de nossa era). Antes ocultados pela densa floresta, alguns desses monumentos de terra se tornaram visíveis no final do século 20, devido ao desmatamento. Mais de 300 já foram identificados em um território que se estende pelo leste do Acre, o extremo oeste de Rondônia, o sul do estado do Amazonas e partes da Amazônia boliviana. Os estudiosos avaliam que, pelo menos, dois mil deles existam, aguardando ser descobertos.28

 

Os megalitos do Solstício (Amapá)

Em Calçoene, Amapá (360 km ao norte de Macapá) cerca de 150 blocos de rocha, alguns com três metros de altura apenas na parte exposta, foram fincados no solo por uma população pré-colombiana, em torno do ano 1000 da nossa era. O monumento tem sido associado ao Stonehenge da Inglaterra. No caso do Amapá, o local foi denominado Sítio Rego Grande, em referência ao igarapé que o margeia, e fica a 16 km da sede do município. As pedras são dispostas de modo a formar uma figura aproximadamente circular, com raio de 30 m.

Alguns significados astronômicos desse conjunto já foram descobertos pelos estudiosos contemporâneos. Num caso, rocha semelhante a um poste, ou seja, com altura muito superior à largura, foi posicionada de forma oblíqua em relação ao solo, de modo a se alinhar com a trajetória descrita pelo sol na tarde do solstício de dezembro. O alinhamento é tão preciso que o megalito fica sem sombra nas suas partes laterais, mas apenas num dia específico do ano. Noutro caso, nesse mesmo dia, as extremidades de dois blocos de rocha formam uma linha que indica a posição exata onde aparece o sol ao nascer. Com os blocos maiores pesando até quatro toneladas, o trabalho exigido para transportá-los e posicioná-los só pode ter sido feito por grupos numerosos, trabalhando, provavelmente, sob uma liderança forte o bastante para convencer ou obrigar as pessoas a fazer o esforço.

 

“Sociedades complexas” ou nem tanto?

O choque iniciado no século 16 entre as culturas (tanto as simples como as “complexas”) preexistentes no futuro território do Brasil e a civilização europeia invasora foi de tal magnitude e consequências que algumas perguntas precisam ser feitas sobre o desenvolvimento alcançado no período anterior ao contato. Depois desse, tudo mudou. As questões até poderiam ser as mesmas, para ambos os períodos; as respostas, não. As perguntas principais, penso, são essas: (i) Por que nunca se desenvolveram, nos sertões da futura América portuguesa (ou em quaisquer outras de suas regiões), sociedades organizadas politicamente como Estados? (ii) Por que os indígenas “brasileiros” jamais praticaram a agricultura em larga escala, de modo a fazê-la a base primordial de suas economias? (iii) O que os impediu de inventar a escrita? (iv) Por que eles não conheceram ou utilizaram os metais? (v) Por que eles jamais construíram cidades ou grandes monumentos de pedra?

Essas questões são as “principais”, não por que elas já foram formuladas muitas vezes antes, numa clássica controvérsia da arqueologia contemporânea (como assinalou Eduardo Góes Neves, “Para os [arqueólogos] que trabalham nas terras baixas da América do Sul, a sombra do Estado e a do monumentalismo se fazem projetar com um efeito muito maior que os seis mil metros de altitude da Cordilheira dos Andes”29), pois o contexto dessa disputa acadêmica tem a ver com a oposição entre “história” e “processo”, ou seja, com a pressuposição (por parte dos processualistas) de que todas as sociedades devem, necessariamente, passar pela mesma sequência de etapas a qual, no campo político, se materializaria na sucessão bando-tribo-cacicado-estado.

Nem eu acredito nessa filosofia, nem tal contexto interessa essencialmente à história dos sertões brasileiros. Interessa, entretanto, e muito, identificar as condições que explicam ou ajudam a explicar a vitória política, econômica, ideológica, cultural dos europeus sobre os nativos brasileiros, a partir de quando o confronto entre as duas culturas se tornou inevitável. E, dentre essas condições, a ausência de estados, o precário desenvolvimento de sua agricultura, o desconhecimento da escrita e dos metais desempenharam papel saliente, em desfavor dos índios. (A falta de monumentos é uma consequência das outras deficiências.) Não foram suas únicas desvantagens: a vulnerabilidade às doenças contagiosas teve importância quantitativamente maior, mas foram decisivas, de qualquer modo.

As respostas às questões acima têm uma única e mesma raiz. O que impediu os habitantes pré-coloniais do Brasil de atingirem formas de organização política e níveis de cultura material mais sofisticados (e é possível dar uma definição inteiramente positiva, não valorativa, a essa expressão) foi a insuficiência de sua base econômica.

Os arqueólogos – alguns, a despeito de si mesmos – sempre souberam disso. Desde os anos 1940, com Julian Steward e, depois, em continuação, com Betty Meggers, a ausência de uma agricultura de alta produtividade e larga escala tem sido apontada como o impedimento intransponível ao desenvolvimento, em território que viria a ser brasileiro, de sociedades “complexas”, em especial, aquelas politicamente constituídas em Estados e de sua correspondente representação física na forma de prédios administrativos, religiosos e cerimoniais com características de imponência e durabilidade.

Os passos tímidos que se haviam dado nesse sentido, (os “cacicados”), alguns dos quais reconhecidos pela primeira geração de estudiosos da pré-história amazônica, foram inicialmente explicados como importações, ou seja, como tendo sido trazidos de fora por destacamentos de povos mais adiantados, talvez, originários dos Andes. Não teriam durado muito, exatamente, por não encontrarem aqui a possibilidade de recriar permanentemente a base econômica que os viabilizava nos seus lugares de origem.

Uma segunda e terceira gerações de arqueólogos, dentre os quais se destacam Anna Roosevelt, Michael Heckenberger e Denise Schaan, se insurgiram contra essas posições mais radicais e conseguiram demonstrar que as sociedades “complexas” da Amazônia pré-cabralina não eram sobrevivências importadas, mas se haviam desenvolvido localmente. Também parece ter sido comprovado que essas sociedades tinham como base econômica não a agricultura, mas a exploração intensiva dos recursos aquáticos.

Houve, sim, “cacicados”, ou “sociedades complexas”, nesse sentido, na Amazônia pré-histórica. Também houve cultura material de pequenos objetos com altos padrões artísticos e técnicos, como as cerâmicas marajoara e tapajônica. Além disso, os aterros espalhados na Amazônia, os geóglifos do Acre, e os megalitos do Amapá são importantes exemplos de cultura material incorporada a grandes objetos. Mas não existiram Estados, nem cidades de pedra, nem monumentos que exprimissem, de uma feita, grandeza e arte. Por quê? Porque a base material nunca o permitiu.

A agricultura mais ou menos rudimentar praticada na Amazônia pré-cabralina e a exploração intensiva dos recursos aquáticos geraram produção suficiente para sustentar os cacicados, (que eram organizações “complexas” em relação aos bandos e tribos isoladas), mas não para respaldar “estados”, ou seja, sociedades com população maior, divisão de trabalho mais acentuada, estamentos dirigentes e administrativos completamente dissociados da produção de alimentos. Para atingir esse estágio, a agricultura teria de se desenvolver muito mais. A disponibilidade de animais domesticáveis também teria ajudado muito, mas não pode ser considerada condição imprescindível ao maior desenvolvimento político e cultural, à vista das civilizações mexicanas pré-colombianas.

E por que a agricultura não se desenvolveu mais? A discussão sobre o tema concentrou-se na única região dos sertões brasileiros, a Amazônia, onde apareceram cacicados. Existem, pelo menos, duas explicações possíveis. Os estudiosos mais antigos, especialmente, Betty Meggers, sustentaram que as condições ecológicas da Amazônia eram incompatíveis com a agricultura de alta produtividade. Isso ainda hoje parece ser parcialmente verdadeiro. Reconhece-se que, nos terrenos de várzea, a atividade agrícola alcança rendimentos elevados, mas somente plantas de ciclo curto podem ser ali cultivadas, aproveitando a vazante anual dos rios. Além disso, as plantações feitas nessas áreas inundáveis são sujeitas a riscos climáticos demasiadamente grandes.

Em terra firme, com seus solos pobres, por outro lado, a produtividade agrícola alcançável com as técnicas disponíveis seria incompatível com a geração de grandes excedentes. Finalmente, as terras pretas de índios, solos de alta fertilidade criados pela ação da ocupação humana de longuíssimo prazo, seriam limitadas em extensão e apenas se tornaram mais conhecidas dos arqueólogos em anos recentes, de modo que não entraram muito na polêmica sobre as causas do subdesenvolvimento agrícola da Amazônia.30

A segunda resposta, aventada por Claide Moraes, é mais desafiadora. Ela parte de uma indagação: “o que é mais interessante, praticar agricultura, ou caçar e pescar?” Moraes favorece a segunda alternativa. Se ele estiver certo, a agricultura não se desenvolveu mais, no Brasil pré-cabralino, porque os índios eram felizes como caçadores e coletores e não houve ninguém ou nenhum grupo de pessoas capaz de lhes obrigar a se tornarem agricultores em tempo integral.

“No passado, o acúmulo de terra preta nas proximidades de áreas domésticas certamente favoreceu os variados cultivos de frutas, plantas medicinais e plantas mágicas, padrão que, inclusive, ainda pode ser observado nas comunidades amazônicas em áreas de terra preta. Porém, parece que, ao contrário do modelo determinista de escassez que previu que o inferno verde teria levado o homem à decadência (Meggers, 1971), a abundância de recursos disponíveis na Amazônia liberou as populações do castigo da laboriosa agricultura.”31

O argumento de Claide Moraes é perfeitamente plausível, porém, como sou casado com uma paraense bem informada, sei que o professor apenas deu roupagem acadêmica ao que constitui, ainda hoje, parte da sabedoria convencional dos amazônidas. Ali, corre a interpretação de que a economia nunca se desenvolveu – exceto na fase áurea da borracha – devido à facilidade de os “caboclos” (moradores das áreas ribeirinhas, quase sempre índios ou mestiços) obterem seu sustento por conta própria, sem maior esforço, na mata, caçando e colhendo açaí ou castanha; no rio, pescando. Nisso, os atuais habitantes do interior estariam, apenas, dando continuidade a hábitos e preferências muito antigas. Anteriores, provavelmente, à própria chegada dos portugueses.

A versão anedótica desse traço cultural põe em destaque o Ver-o-Peso, famoso mercado, principal fonte de abastecimento de Belém. Como sempre tem grande quantidade de restos alimentares, o lugar atrai muitos urubus. Tantos, que cada um apenas consegue uma pequena ração diária sendo, invariavelmente, magro. Em compensação, o ambiente é de festa. Certo dia, visita o mercado um urubu gordo, boa pinta, lustroso. Rico. Ele descobre, dentre todas aquelas aves, um velho amigo. Conta-lhe que mora na Ilha do Marajó, onde há muita comida, embora dê trabalho obtê-la, pois é preciso voar todo o tempo, de uma fazenda a outra.

Com dois minutos de conversa, convence o amigo. Então, o urubu magro se muda para lá, onde engorda e vive bem, mas sozinho e sempre voando de um lado para o outro. Termina cansando daquilo. Comunica ao amigo que vai voltar. – Não acredito, espanta-se o urubu marajoara. – Não lembra como você era pobre? Esquecido, o urubu ex-magro não estava; decidido a voltar, sim. – Aqui é bom, amigo, nunca comi tanto, mas dá muito trabalho. Eu gosto mesmo é daquela sacanagem do Ver-o-Peso.

Seja por uma razão – as limitações de um ambiente desfavorável à agricultura – ou por outra – a preferência pela vida mais livre dos que caçam, pescam e coletam frutos –, entretanto, a verdade é que a agricultura pré-cabralina na Amazônia nunca se tornou o principal pilar de sustentação daqueles povos. Acontece que os limites de produtividade da economia coletora-pescadora-caçadora, embora muito mais elásticos do que o supunham Steward ou Meggers, são estreitos em comparação aos alcançáveis por uma agricultura mais desenvolvida. Disso sabemos pela história de outros povos pré-colombianos, especialmente, no México, América Central e Andes.

Dessa maneira, a insuficiência da base econômica impediu o aparecimento, no futuro Brasil, de sociedades mais complexas (em número de integrantes, grau de divisão de trabalho, desenvolvimento artístico e arquitetônico) que aquelas descobertas e estudadas pelos arqueólogos. Não apenas isso. Outros desenvolvimentos culturais foram, igualmente, abortados. Por exemplo: cacicados não precisam de escrita. E, assim, não a tiveram os nossos índios. Assim como não tiveram metais, que não estavam à vista de todos e nem poderiam ser trabalhados por povos como os habitantes do Brasil pré-colonial. Nem mesmo por aqueles que haviam atingido os níveis localmente máximos de desenvolvimento econômico e tecnológico.

Claide Moraes pode estar certa: ir atrás de animais terrestres ou de peixes é atividade mais prazerosa que fazer agricultura. Se podiam apenas caçar e pescar, passeando livres pela floresta, não tinham os índios razão para procurar outro meio de vida. Ninguém lhes obrigou a isso. Tudo bem. No longo prazo, entretanto, a escolha teria consequências desastrosas para eles. Uma delas, talvez a de menor relevância, é que, por desconhecerem a escrita, os índios não preservaram para a posteridade (a não ser por meio de depoimentos recolhidos e interpretados pelos colonizadores) sua própria visão acerca do que lhes aconteceu nos anos e séculos posteriores a 1500, quando tiveram de enfrentar os portugueses e quase foram exterminados. Inevitavelmente, portanto, a história dos sertões, assim como a do Brasil em seu todo, será sempre contada pelos vencedores do Grande Confronto.32

 

COMEÇA O CONFRONTO

Uma coisa os índios brasileiros não poderiam prever: acontecimentos havidos em 1492, no Caribe, e em 1500, no futuro estado da Bahia, iriam desencadear processos que quase levam à sua aniquilação, num curto espaço de dois séculos. Com efeito, a história dos sertões brasileiros (e a das zonas litorâneas, igualmente), daquele tempo em diante, nada mais é que a longuíssima crônica de como uma civilização vinda de longe tomou, paulatinamente, o espaço territorial, econômico, político, cultural e ideológico dos povos que aqui haviam chegado 12 mil, talvez, 40 mil anos antes.

Isso é apenas um registro factual. As alegações contemporâneas de que os índios deveriam ser “indenizados” pela perda de seu território, tão ao gosto do modismo politicamente correto, são uma excrescência histórica. A vida de todos os povos sempre foi recheada de conquistas, invasões, vitórias e derrotas. Muito antes da chegada dos portugueses, cacicados amazônicos construíram muros e fossos para se defender dos inimigos. Havia guerras entre eles. Uma história recorrente sustenta que os índios tupis encontrados pelos portugueses ao longo de quase todo o Litoral brasileiro eram recém-egressos ali, tendo se estabelecido à custa dos habitantes mais antigos, expulsos para o Sertão. Quem deveria indenizar quem, nesse caso?33

Nem foi diferente com a Europa e a Ásia, palco de guerras durante milênios. Ali, impérios foram feitos e desfeitos: Alexandre contra os persas, Roma contra Cartago, os bárbaros contra Roma. Até o século X da nossa época, eram constantes os assaltos vikings e magiares a territórios de outros povos também europeus; em 1066, ocorreu a conquista normanda da Inglaterra; na China, os manchus da dinastia Qin (um povo estrangeiro) governaram de 1644 a 1912, até serem derrubados pela revolução que instituiu a República. E a lista poderia ser estendida quase indefinidamente.

Quando Colombo aportou pela primeira vez na América, em 12 de outubro de 1492, fazia menos de um ano que os cristãos de Castela e Aragão – aqueles mesmos que agora desembarcavam no Novo Mundo – haviam conquistado Granada (em 2 de janeiro), último baluarte dos muçulmanos na Península Ibérica. Do começo (711) ao fim, os mouros permaneceram em terras da Espanha e Portugal durante quase 800 anos. Deveriam, também, ser indenizados por terem sido, afinal, expulsos? Seguir por essa trilha é inventar problemas que o tempo já solucionou e pressupor legitimidades que a História não reconhece.

 

Presença portuguesa no Sertão

Os primeiros portugueses, ou seus descendentes diretos, a morar longe da costa, nos interiores da Colônia, assim o fizeram em circunstâncias peculiares. Deles, o mais conhecido foi João Ramalho (1493-1580), que se presume tenha desembarcado (ou naufragado) no Brasil em um ponto próximo à futura vila e cidade de São Vicente, SP, em 1512 ou 1513, sendo acolhido pelos índios guaianases que habitavam o local. Habilidoso, ganhou prestígio entre os nativos da terra, chegando a casar-se com Bartira (ou Isabel Dias, na versão cristã), filha do cacique Tibiriçá.

Morando longe do litoral, andando nu como os índios e adotando outros de seus costumes, Ramalho viria suscitar críticas dos padres jesuítas, mas sua intermediação foi decisiva para possibilitar a Martim Afonso de Souza (c.1500-1571) fundar a vila e Capitania de São Vicente, em 1532 (há quem diga que ele não fez isso, mas essa é outra história), sem ser muito molestado pelos nativos; e a Manoel da Nóbrega (1517-1570) e José de Anchieta (1534-1597) a se estabeleceram em São Paulo de Piratininga e ali fazerem a maior parte de sua pregação cristã.

Nesses tempos iniciais da Colônia, houve outros portugueses, além de João Ramalho, que viveram no Sertão. Evidências disso estão nas cartas jesuíticas. Em 1550, por exemplo, o padre Leonardo Nunes escreveu de São Vicente: “Aqui me disseram que no campo, 14 ou 15 léguas daqui, entre os índios estava alguma gente cristã derramada e passava-se o ano sem ouvirem missa e sem se confessarem e andavam em uma vida de selvagens”. Ou Nóbrega, em carta enviada de Olinda, Pernambuco, um ano depois: “O Sertão está cheio de filhos de cristãos, grandes e pequenos, machos e fêmeas, com viverem e se criarem nos costumes do gentio”. Eram filhos de portugueses e índias, em alguns casos; ou, em outros, gente envolvida em crimes ou transgressões menores, que se sentia mais segura no Interior, onde o braço do Estado não chegava, do que nas vilas ou fazendas do Litoral.34

Garcia d’Ávila (c.1528-1609) – cuja família viria a erguer o maior império pecuarista do Sertão colonial – desembarcou no Brasil com Tomé de Souza. Apenas sete meses depois, em novembro de 1549, ele formou uma tropa de portugueses e “índios mansos” e adentrou o Sertão baiano. Fora escalado para a missão pelo governador, cujas ordens, dadas pelo rei João III, incluíam castigar com muito rigor aqueles índios tupinambás que haviam atacado a antiga Capitania de Francisco Pereira Coutinho, em 1545.35

A entrada ao Sertão de Garcia d’Ávila podia ter a função simbólica de punir os tupinambás, mas seu objetivo principal era a conquista de território para o gado bovino, de que ele já estava se tornando um grande criador. Coerentemente, em 1552, o sertanista reivindicou e obteve uma segunda grande sesmaria (na primeira, havia edificado sua fortaleza e moradia, depois conhecida como Casa da Torre), que adentrava duas léguas para o interior. Começava, dessa maneira, a formar o latifúndio que, no ápice e como obra também de seus descendentes, chegou a constituir um território contínuo desde o litoral baiano até o atual estado do Maranhão, seguindo o Rio São Francisco e indo além, na direção do Parnaíba.36

Em seguida à guerra de Garcia d’Ávila, merece registro uma expedição aos sertões da Bahia e das futuras Minas Gerais para reconhecimento do terreno e busca de ouro e minerais preciosos. Em 1551, Manoel da Nóbrega escreveu de Olinda a D. João III: “O governador Tomé de Souza me pediu um padre para ir com certa gente que Vossa Alteza manda a descobrir ouro: eu lhe o prometi, porque também nos releva descobri-lo para o tesouro de Jesus Cristo Nosso Senhor”.37

A entrada, contudo, somente se iniciou em 1553, quando Duarte da Costa (? -1560) já havia sucedido Tomé de Souza. Seu chefe seria Francisco Bruza Espinosa, um sertanista espanhol sobre quem não parece existir quase nenhuma outra informação. O padre designado, João de Azpilcueta Navarro (1522-57), fora companheiro de Nóbrega na viagem de Lisboa ao Brasil. Doze europeus (entre portugueses e espanhóis), incluindo o jesuíta, compunham o grupo. Eles saíram de Porto Seguro e, durante um ano e meio, percorreram cerca de 2.300 km nos Sertões da Bahia e Norte de Minas, onde teriam conhecido os rios Jequitinhonha e São Francisco, além de muitos outros. (Hoje, existe uma cidade com o nome de Espinosa, em Minas Gerais.)

João de Azpilcueta Navarro foi o cronista da expedição comandada por Espinosa. Na carta que escreveu em Porto Seguro (24/6/1555), endereçada aos seus irmãos jesuítas, ele informa ter passado um ano e meio andando “em companhia de doze homens cristãos que (…) entraram pela terra dentro a descobrir se havia alguma nação de mais qualidade”. Conta, em seguida, ter percorrido 350 léguas, “sempre por caminhos pouco descobertos” e, nos primeiros três meses, despovoados, alguns; habitados por gente inamistosa, outros. Esses “índios contrários, algumas vezes determinavam matar-nos; principalmente em uma aldeia grande onde estavam seus feiticeiros fazendo feitiçarias”.

Os índios, ainda segundo o relato, “andavam pintados com tintas e emplumados de penas de diversas cores, bailando e fazendo muitos gestos, torcendo as bocas e dando uivos como perros; cada um trazia na mão uma cabaça pintada”. As cabaças “eram os seus santos, os quais mandavam aos índios que não trabalhassem porque os mantimentos nasceriam por si e que as flechas iriam ao campo matar a caça. Estas e outras muitas coisas que eram para chorar muitas lágrimas, vi”.38

A descrição dos Sertões que o padre jesuíta forneceu não é das mais auspiciosas. Certamente, a expedição nada encontrou que lhe parecesse “uma nação de mais qualidade”. Nenhuma notícia, tampouco, de metais ou pedras preciosas. Consta que descobriram minas de sal (embora Azpilcueta não toque no assunto), o que viria a ser imprescindível à futura expansão da pecuária bovina. Na verdade, o que os portugueses e espanhóis mais viram foram coisas de meter medo. Era, sem dúvida, o Sertão das “solidões vastas e assustadoras”.39

 

Francisco Orellana, ou o descobrimento dos sertões brasileiros pelos espanhóis

Em fevereiro de 1541, bem antes, portanto, da entrada de Bruza Espinosa nos sertões da Bahia e Minas Gerais, Gonzalo Pizarro, irmão do conquistador do Peru, organizou uma grande expedição que deveria penetrar na selva amazônica partindo de Quito, no Equador. Eram cerca de 200 espanhóis, com igual número de cavalos, quatro mil índios encarregados de transportar a carga, e milhares de lhamas e porcos para alimentação. Também cães foram levados. Um pouco depois, incorporou-se ao grupo Francisco Orellana, que veio a ser a segunda pessoa no comando. O objetivo da empreitada era encontrar o País da Canela, uma espécie de pimenta, então, levada do Oriente para a Europa, onde era vendida por altos preços. Também havia a esperança de chegar ao Eldorado, lugar onde se acreditava haver abundância de ouro e cuja localização ficaria em algum ponto da grande floresta.

A expedição de Gonzalo Pizarro foi um fracasso. A canela das matas amazônicas tinha qualidade inferior, e as árvores produtoras ficavam muito distantes umas das outras, inviabilizando a exploração. Incapazes de obter alimento naquele ambiente hostil, os espanhóis devoraram não apenas os porcos e lhamas, mas também os cavalos e cachorros, até que nenhuma provisão fosse mais disponível. Os índios que os acompanhavam morreram de fome ou escaparam para a floresta.

Próximo ao final de 1541, o grupo encontrava-se à beira da inanição em algum ponto da Amazônia, em território equatoriano. Tinham decidido continuar, mesmo após a frustração da canela, em busca do Eldorado. Haviam roubado canoas indígenas e construído um bergantim (barco de médio porte, movido a remos), na própria selva, para cruzar um grande rio, à cata de comida. Nada encontraram. Deu-se, então, um acontecimento decisivo: Orellana convenceu Pizarro a lhe destacar 56 homens, todos espanhóis, e a lhe permitir descer o rio (provavelmente, o Coca, que desagua no Napo e, esse, no Solimões-Amazonas) com a missão de localizar alguma tribo de índios que pudesse fornecer comida, mesmo que à força, e de trazer o alimento encontrado para Pizarro e os que permaneceriam com ele.

A continuação da história tem mais interesse do que os episódios iniciais. Orellana e seus companheiros desceram o rio à margem do qual estacionara a expedição, alcançaram o hoje chamado Solimões-Amazonas, continuaram a navegar, atravessando regiões inabitadas, passando, eles próprios, muita fome – e jamais retornaram ao ponto onde tinham deixado os demais expedicionários. No longo percurso até a foz do Rio Amazonas, o primeiro feito por um europeu (e, provavelmente, por qualquer pessoa humana), Orellana encontrou muitos índios reunidos em grandes aglomerações e com chefes por todos reconhecidos. Eram cacicados, enfim. Algumas das tribos nativas receberam os espanhóis como amigos, fornecendo-lhes comida e abrigo; outras atacaram as embarcações estrangeiras e foram saqueadas pelos espanhóis. A epopeia terminou na Venezuela, alcançada por um segundo e maior barco construído pelos espanhóis em uma das paradas em meio a índios amigáveis.

O frade Gaspar de Carvajal foi o cronista da viagem de Francisco Orellana, que teve de se defender, na Espanha, da acusação de traição, por jamais ter voltado em socorro de Gonzalo Pizarro e seus companheiros. Carvajal descreveu grandes concentrações de índios nas notas que tomou por ocasião do “descobrimento” do Rio Amazonas, em 1542. É, provavelmente, o mais antigo documento europeu que fala sobre o ambiente e os habitantes dos sertões brasileiros, escrito treze anos antes da carta de Azpilcueta Navarro. O homem era dado a exageros, e nisso ele não estava sozinho entre os europeus que vieram à América nos tempos mais difíceis, mas de seu relato somos levados a crer que escassez de gente e de alimentos não eram problemas para as tribos que habitavam as margens do grande rio.

Duas coisas mais o documento de Carvajal revela, dentre muitas outras. A primeira é o total despreparo daquele particular grupo de espanhóis para enfrentar o desafio a que se propôs. A segunda, em contraste, é a absoluta autoconfiança de Orellana e sua gente não apenas no seu direito de estar ali, mas, sobretudo, na superioridade e universalidade de suas crenças e instituições.

O despreparo é comprovado por uma observação simples: os espanhóis se embrenharam pela selva amazônica e, em seguida, navegaram em seu principal rio sem saber como obter comida naquele ambiente. Flutuaram sobre e ao lado de pirarucus, jacarés, tartarugas, peixes-boi, moluscos; caminharam sob castanheiras, açaizeiros, pés de cacau. Tudo isso era ou continha alimento e os índios sabiam muito bem como coletá-lo e consumi-lo.

Os espanhóis de Gonzalo Pizarro e, em seguida, de Orellana, não sabiam. Passaram fome em meio à abundância. Sua única estratégia alimentícia era encontrar tribos indígenas que lhes fornecessem os gêneros ou às quais pudessem saquear. No começo da viagem, entretanto, não havia tribos a serem pilhadas. Como resultado, “chegamos a tal necessidade que não comíamos senão couros, cintas e solas de sapatos cozidos com algumas ervas, de maneira que era tanta nossa fraqueza que não podíamos nos sustentar sobre os pés”. Então, “uns engatinhando, outros com cajados, se meteram nas montanhas a buscar algumas raízes para comer e alguns houve que comeram ervas desconhecidas e estiveram a ponto de morrer, ficaram como loucos e sem juízo, mas, como Nosso Senhor era servido que seguíssemos viagem, ninguém morreu.”40

Cinquenta e sete estrangeiros famintos amontoados numa nau improvisada ou em pequenas canoas, navegando no maior rio dentre todos os que jamais haviam visto, imersos em uma floresta mais extensa do que podiam imaginar, sem ter exata noção de onde estavam ou para onde seguiam, menos ainda de quantos índios viviam naqueles lugares, ou de como seriam recebidos quando esses aparecessem em seu caminho, poderiam compor o retrato perfeito de uma gente assustada, insegura, sentindo-se inferior, sobrepujada por tudo aquilo. Nem um pouco. Pouco depois de serem achados (e de serem bem tratados, como se fossem deuses em visita à selva) pelo primeiro grupo de nativos, muito maior em número que o deles próprios, espanhóis, seu comandante Orellana já passou a dar ordens e a deixar clara sua autoatribuída ascendência sobre aquela gente.

“Outro dia, à hora de vésperas, veio o dito cacique e trouxe consigo outros três ou quatro senhores, pois os demais não puderam vir por estarem longe, outro dia viriam. O capitão [Orellana] lhes recebeu da mesma forma que havia recebido o primeiro e lhes falou muito extensamente da parte de Sua Majestade e em seu nome [do rei] tomou posse da dita terra e assim fez com todos os demais que depois vieram porque como disse eram treze e em todos tomou posse em nome de Sua Majestade. Vendo o capitão que toda a gente e os senhores da terra estavam de paz consigo, que convinha tratá-los bem. Todos folgavam em vir em paz e assim tomou posse neles e de sua dita terra em nome de Sua Majestade”.41

O equivalente contemporâneo desse episódio seria a professora Maria de Lourdes Barbosa, da Universidade Federal de Pernambuco, desembarcando em Manhattan, Nova York, dirigir-se ao policial na calçada e lhe comunicar que, em nome de seu marido, estava tomando posse de tudo aquilo, rua, ilha, cidade, país. A analogia só não é perfeita porque duas grandes diferenças separam Lourdes Barbosa, em 2015, de Francisco Orellana, em 1492.

A primeira é que, por trás da professora, estaria alguém incapaz de reinar, sequer, sobre o Alto do Céu; ao passo que, dando respaldo longínquo ao aventureiro espanhol, havia um imperador cujos súditos estavam na América há meio século, já tendo conquistado dois grandes impérios. A segunda, talvez, ainda mais importante, é que, enquanto a professora e seu marido (para não falar do policial) veriam a declaração de posse de Nova York como um gesto tresloucado, Orellana não tinha nenhuma dúvida de que, ao transferir a propriedade da selva amazônica para o rei de Espanha, ele apenas corrigia o que tinha estado errado até aquele momento. Pouco lhe interessava se essa era, também, a opinião do cacique e de seus índios.42

Com efeito, muitas léguas rio abaixo, em outro encontro com chefes indígenas, “vendo o capitão [Orellana] o bom comedimento do senhor [cacique], lhe fez entender que éramos cristãos e adorávamos um só Deus, o qual era criador de todas as coisas criadas, e que não éramos como eles, que andavam errados adorando pedras e vultos construídos e sobre esse caso lhes disse muitas outras coisas e também lhes disse como éramos criados e vassalos do Imperador dos cristãos, grande rei de Espanha, que se chamava Carlos, nosso senhor, a quem pertencia o império de todas as Índias e muitos outros senhorios e reinos que há no mundo e que por sua ordem tínhamos ido àquela terra e que lhes íamos dar conta do que ali havíamos visto.”43

“Os cristãos de Espanha não somos como vocês. Nós adoramos o Deus verdadeiro e temos um imperador poderoso”, repetia Orellana a si mesmo. Quem trazia essa mentalidade – criada e continuamente reafirmada pela ideologia religiosa e a filosofia absolutista – e podia agir sob um comando político (e, em larga medida, militar) único, desde o México até a Amazônia, dificilmente perderia uma guerra que, naquele momento, estava apenas sendo anunciada aos caciques do Sertão brasileiro. A Espanha, é verdade, nunca chegou a ter o controle da região vista e descrita por Gaspar de Carvajal em 1542. Mas foi suplantada não pelos caciques amazônicos, e, sim, por outra potência europeia que adorava o mesmo “deus verdadeiro”, embora seu imperador fosse um pouco menos poderoso.

 

gustavomaiagomes@gmail.com

 

NOTAS DE RODAPÉ

  1. Para a informação sobre a origem e a importância da agricultura (na Amazônia), minha fonte foi Charles R. Clement et alii. The domestication of Amazonia before European conquest. Proceedings Royal Society B 282. July 2015, section 2.
  2. Cf. Claide de Paula Moraes. Amazônia Ano 1000: Territorialidade e Conflito no Tempo das Chefias Regionais. (Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Arqueologia do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo, para obtenção do título de Doutor em Arqueologia). São Paulo, 2013, págs. 218 e ss.
  3. “Ossadas de animais gigantescos são descobertas no Sertão do Piauí” (vídeo). TV Globo, em https://www.youtube.com/watch?v=MwnwhvX7XK0, 24/12/2010. Pleistoceno e Holoceno são idades da Terra definidas em relação aos períodos de glaciação. O Pleistoceno começou há 1,8 milhão de anos e terminou há 11 mil anos; o Holoceno, que o sucedeu, se estende até os dias atuais.
  4. Eric Boëda et alii. A new late Pleistocene archaeological sequence in South America: the Vale da Pedra Furada (Piauí, Brazil). Antiquity, 88 (341), Sept. 2014.
  5. O episódio de “descoberta” da Serra da Capivara pelos arqueólogos é contado em Niède Guidon, Peintures préhistoriques du Brésil, (ERC, Évreux, 1991), pág. 7.
  6. Niède Guidon, em entrevista a Yuri Leveratto. Portal de História e Meio Ambiente, 2009, em http://yurileveratto.com/po/articolo.php?Id=154 acesso em 27/9/15.
  7. Carlos Estevão, O ossuário da Gruta do Padre, em Itaparica, e algumas notícias sobre remanescentes indígenas do Nordeste. Boletim do Museu Nacional, vols. XIV a XVII, 1938-41.
  8. Gabriela Martin. Pré-história do Nordeste do Brasil. Recife, Ed. Universitária da UFPE, 2008, págs. 39 e 170. O espanhol Valentin Calderón (?-1980), desde cedo, radicado no Brasil, foi professor da Universidade Federal da Bahia e diretor do Museu de Arte Sacra do mesmo estado.
  9. Gabriela Martin e Anne-Marie Pessis, Breve panorama da pré-história do Vale do São Francisco no Nordeste do Brasil. Fundhamentos, vol. 1, n. 10, ano 2013. Fundação do Homem Americano, São Raimundo Nonato, Piauí, págs. 20-1.
  10. Gabriela Martin. Pré-história do Nordeste do Brasil. Recife, Ed. Universitária da UFPE, 2008, pág. 293.
  11. Timothy Darvill e António Pedro Batarda Fernandes, eds., Open-Air Rock-Art Conservation and Management. Routledge Studies in Archeology. New York, Routledge, 2014, pág. 210.
  12. Vanderlei de Brito. A Pedra do Ingá sob uma perspectiva amerindiológica. Tarairiú, Revista Eletrônica do Laboratório de Arqueologia e Paleontologia da UEPB. Campina Grande, ano I, vol. 1, n. 1, setembro de 2010, pág. 83.
  13. Elaine Kawabe. Pedra do Ingá, na Paraíba, guarda enigmas sobre os primeiros habitantes do Brasil. UOL, 14/02/2013.
  14. Gabriela Martin. Pré-história do Nordeste do Brasil. Recife, Ed. Universitária da UFPE, 2008, pág. 298.
  15. Lucas Bueno e Adriana Dias. “Povoamento inicial da América do Sul: contribuições do contexto brasileiro”. Estudos Avançados 29 (83) 2015. Pág. 122
  16. André Prous. O Brasil antes dos brasileiros: A pré-história em nosso país. 2ª Ed. Revista. Rio de Janeiro, Zahar, 2007. Cap. 3, págs. 25-6.
  17. André Prous. O Brasil antes dos brasileiros, citado, pág. 27.
  18. Agueda Vilhena Vialou (Org.). Pré-história do Mato Grosso (Vol. 1: Santa Elina). São Paulo, Edusp, 2005, pág. 10.
  19. Sambaquis são montículos construídos por povos primitivos pela intencional acumulação, sobretudo, de conchas. Alguns têm altura e dimensões consideráveis. O de Taperinha alcança seis metros de altura e vários hectares de superfície. A maioria dos sambaquis brasileiros está localizada no litoral dos atuais estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, mas eles também existem ao longo de rios.
  20. Adriana Schmidt Dias. Diversificar para poblar: El contexto arqueológico brasileño en la transición Pleistoceno-Holoceno. En Rupestreweb, 2005.
  21. Claide de Paula Moraes. “O determinismo agrícola na arqueologia amazônica”. Estudos Avançados, vol. 29, n. 83, São Paulo, jan/abr 2015, pág. 25. Anna Curtenius Roosevelt. The Rise and Fall of the Amazon Chiefdoms. L’Homme, 1993, tome 33 n° 126-128. La remontée de l’Amazone, pág. 259. Michael J. Heckenberger, The Ecology of Power: Culture, Place, and Personhood in the Southern Amazon, A.D. 1000-2000, New York and London, Routledge, 2005.
  22. Anna C. Roosevelt. The Rise and Fall of the Amazon Chiefdoms. L’Homme, 1993, tome 33 n° 126-128. La remontée de l’Amazone.
  23. Anna C. Roosevelt. Moundbuilders of the Amazon: Geophysical Archaeology on Marajo Island, Brazil. Academic Press, 1991, 495 págs. Denise Pahl Schaan. The Camutins Chiefdom: rise and development of social complexity on Marajó Island, Brazilian Amazon. Ph. D. Thesis, University of Pittsburgh, 2004. “Teso” é o nome dado aos aterros construídos por povos antigos para criar áreas de habitação e de convívio social não sujeitas a alagamento por ocasião das chuvas ou cheias dos rios.
  24. Denise Pahl Schaan. The Camutins Chiefdom: rise and development of social complexity on Marajó Island, Brazilian Amazon. Ph. D. Thesis, University of Pittsburgh, 2004, pp. 53 e ss.
  25. Michael J. Heckenberger, A. Kuikuro, U. T. Kuikuro, J. C. Russel, M. Schmidt, C. Fausto and B. Franchetto 2003. Amazonia 1492: Pristine Forest or Cultural Parkland? Science 301:1710-1713.
  26. Cf. David Biello (Ancient Amazon Actually Highly Urbanized, Scientific American, August 28, 2008), descrevendo os resultados das pesquisas de Michael Heckenberger.
  27. William Balée, Denise P. Schaan, James Andrew Whitaker, Rosângela Holanda. Florestas antrópicas no Acre: Inventário florestal no geóglifo Três Vertentes, Acrelândia. Amazônica – Revista de Antropologia, online, vol. 6, n. 1 (2014), pág. 147.
  28. Sanna Saunaluoma. Geometric earthworks in the state of Acre, Brazil: excavations at the Fazenda Atlântica and Quinauá sites. Latin American Antiquity. Vol. 23, No. 4 (December 2012), pp. 565-583, pág. 565. Sanna Saunaluoma e Denise Schaan. Monumentality in Western Amazonian formative societies: Geometric ditched enclosures in the Brazilian state of Acre. Antiqua, vol 2, n. 1 (2012).
  29. Eduardo Góes Neves. Existe algo que se possa chamar de “arqueologia brasileira”? Estudos Avançados, 29 (83), jan-abr 2015.
  30. Contrariando hipóteses antigas, que as limitavam às margens do Amazonas, pesquisas recentes têm demonstrado que as terras pretas de índio são abundantes também nos rios tributários. Ver, por exemplo, Charles R. Clement et alii. The domestication of Amazonia before European conquest. Proceedings Royal Economic Society B 282, June 2015.
  31. Claide de Paula Moraes. Amazônia Ano 1000: Territorialidade e Conflito no Tempo das Chefias Regionais. (Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Arqueologia do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo, para obtenção do título de Doutor em Arqueologia). São Paulo, 2013. (Pág. 317). O livro citado é Betty Meggers. Amazonia: Man and Culture in a Counterfeit Paradise. Chicago: Aldine. Atherton, 1971.
  32. Conforme realçado acima, as hipóteses “inadequação do meio” e “preferência pela caça e pesca”, como explicações para o subdesenvolvimento da agricultura, foram formuladas tendo a Amazônia como referência geográfica. Com respeito aos outros Sertões, a pergunta relevante talvez seja por que neles a organização social dos índios não chegou, sequer, aos cacicados. Para os atuais Centro-Oeste e Nordeste semiárido, eu creio que o meio ambiente desfavorável explica a ausência de uma agricultura de maior produtividade. No caso do interior dos atuais estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e parte de Minas Gerais, entretanto, é difícil sustentar essa posição. O problema, ali, pode ter sido a chegada tardia do povoamento e da agricultura. Há necessidade, porém, de mais pesquisas a respeito do assunto.
  33. John Hemming, Ouro Vermelho: A Conquista dos Índios Brasileiros. Tradução de Carlos Eugênio Marcondes de Moura. São Paulo, Editora da Universidade Federal de São Paulo, 2007, pág. 67. (A edição original é 1978).
  34. Leonardo Nunes, carta escrita em São Vicente, em 24 de agosto de 1550. In Azpilcueta Navarro e outros. Cartas Avulsas, 1550-68. Belo Horizonte, Itatiaia; São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 1988, pág. 87. Manoel da Nóbrega. Cartas do Brasil, 1549-60. Belo Horizonte, Itatiaia; São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 1988, pág. 124.
  35. Luiz Alberto Moniz Bandeira. O feudo: A Casa da Torre de Garcia d’Ávila, da conquista dos Sertões à independência do Brasil. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2000, pág. 94. Donatário original da Capitania da Bahia de Todos os Santos, Francisco Pereira Coutinho (? – 1547) fracassou na colonização, entrando em conflito com os índios e com o governo português.
  36. Luiz Alberto Moniz Bandeira. O feudo: A Casa da Torre de Garcia d’Ávila, da conquista dos Sertões à independência do Brasil. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2000, pág. 95.
  37. Manoel da Nóbrega. Cartas do Brasil, 1549-60. Belo Horizonte, Itatiaia; São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 1988, pág. 126.
  38. Carta de Azpilcueta Navarro. Porto Seguro, 24/6/1553, em Azpilcueta Navarro e outros, Cartas Avulsas, 1550-68. Belo Horizonte, Itatiaia; São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 1988, pág. 173.
  39. Tirei a expressão do título de um livro: Kalina Wanderlei Silva. Nas Solidões Vastas e Assustadoras – A conquista do Sertão de Pernambuco pelas vilas açucareiras nos séculos XVII e XVIII. Recife, Companhia Editora de Pernambuco, 2010.
  40. Gaspar de Carvajal. Descubrimiento del río de las Amazonas (Agosto de 1542). Documento regalado a la Sección de Manuscritos de la Biblioteca Nacional de España por el Duque de T’Serclaes el 5 de mayo de 1961. Según la edición y notas de Maria de las Nieves Pinillos Iglesias. Babelia, Madrid, agosto de 2011, pág. 13.
  41. Gaspar de Carvajal. Descubrimiento del río de las Amazonas (Agosto de 1542). Documento regalado a la Sección de Manuscritos de la Biblioteca Nacional de España por el Duque de T’Serclaes el 5 de mayo de 1961. Según la edición y notas de Maria de las Nieves Pinillos Iglesias. Babelia, Madrid, agosto de 2011, págs. 16-7.
  42. Mais do que isso. A declaração de posse (em favor do rei de Espanha) de Orellana não se dirigia, precipuamente, aos chefes indígenas que ele encontrou nas terras que margeavam o grande rio. Dirigia-se, na verdade, aos demais reis europeus! Eram apenas Portugal e França, sobretudo, que podiam competir com os espanhóis pela posse da Amazônia. Aquela gente que estava ali, bem, ela apenas “estava ali”.
  43. Gaspar de Carvajal. Descubrimiento del río de las Amazonas (Agosto de 1542). Documento regalado a la Sección de Manuscritos de la Biblioteca Nacional de España por el Duque de T’Serclaes el 5 de mayo de 1961. Según la edición y notas de Maria de las Nieves Pinillos Iglesias. Babelia, Madrid, agosto de 2011, pág. 23.

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