O sertanejo é, antes de tudo, uma invenção: O regionalismo como condescendência crítica

O sertanejo é, antes de tudo, uma invenção: O regionalismo como condescendência crítica

Márcio Scheel, crítico literário

 

Um conceito é um conceito é um conceito
Não se pode pensar a ideia de regionalismo nem, por consequência, de uma literatura regional ou nomeadamente regionalista, tão particular quanto a diversidade geográfica e cultural do país, sem antes fazer uma distinção conceitual1 que considere: 1. o regionalismo como realidade social; 2. o regionalismo como produção literária que se manifesta a partir de determinadas localidades e que se configura como elemento simbólico perceptivo das contradições nacionais, como, por exemplo, as de um desenvolvimento urbano fortemente atrelado e dependente da produção rural, ou as de uma suposta modernização republicana e democrática do Estado, cujos grupos de poder e o jogo de forças políticas continuaram sob a influência das oligarquias regionais e das correlações de domínio, mando e interesses que elas criam; 3. o regionalismo como concepção estilístico-estética, instrumento da historiografia e da crítica literária, de forte conteúdo ideológico porque submete a um único conceito, de alcance pretensamente universal, um variado conjunto de expressões literárias que, na verdade, constituem representações singulares, fechadas, de mundo e de dramas humanos em tudo distintos em termos de paisagem, geografia, conflitos e mesmo intenções.
A importância de uma distinção conceitual dessa natureza reside, num primeiro momento, em evitar que a leitura, análise e interpretação daquelas obras de caráter regional sejam feitas partindo das supostas características genéricas que estabelecem e distinguem, a priori, o que seria o regionalismo literário. Trata-se de uma inversão pouco desejável do método científico ou analítico, já que parte do universal (um conjunto codificado de caracteres estéticos aparentemente estáveis e de validade abrangente) para o particular (as próprias obras literárias que, por sua natureza, são sempre interpretações de mundo histórica, social e culturalmente localizadas no tempo e no espaço), não raro perdendo de vista a particularidade implicada no processo representacional para fazer com que as obras caibam confortavelmente no espaço pré-definido da categoria.
Num segundo momento, a distinção conceitual importa, também, para que não se caia na armadilha de uma compreensão maniqueísta que distinguiria entre um bom e um mau regionalismo, entre um regionalismo certo e outro errado, entre um entendimento crítico adequado e outro inadequado do conceito. Compreensão que levaria a crer, por exemplo, que a noção de particularidade se reduziria, exclusivamente, a entender que existe uma literatura regional acreana, amazonense, mineira, do interior caipira de São Paulo ou, o que é pior, que defenderia invenções ou categorias ainda menos úteis à reflexão e já de todo superadas, como as de literatura nordestina, do norte etc., que transformariam o país, do ponto de vista de sua expressão literária, num cardápio de espaços, culturas e formas de representação para todos os gostos e sensibilidades. Sob muitos aspectos, o conceito de regionalismo foi forjado quase que desconsiderando o movimento dialético das ideias, que compreende que a dinâmica social e econômica em função da qual o país se desenvolveu abarcou uma série de contradições, como o fato de que toda a economia nacional, do período colonial até os anos de 1950, era dependente da produção agrária e, consequentemente, a cultura nacional implicava na visão de mundo dos senhores de terra e dos hábitos e costumes do homem do campo. Ao invés disso, o conceito, ideologicamente enviesado, acabou incorporando, no início, aquele binarismo elementar que, logo após a Independência, produziu uma imagem de nossa formação social calcada na oposição “Metrópole x Colônia ou a irredutível subordinação da produção colonial ao capital mercantil”,2 imagem que perdurou em nossas interpretações históricas, econômicas e culturais sempre em termos de uma oposição idealista e pouco produtiva daquelas que seriam as relações entre Centro e Periferia.
Nesse sentido, se a literatura do Romantismo, mormente o romance, se fixou no indianismo e no sertanismo foi para exortar a riqueza de uma paisagem tropical, exuberante e promissora, ou seja, como parte do mito da constituição do novo espírito nacional, em contraposição aos valores e formas de representação artística, antes importados da metrópole e, em razão disso, preso às imagens e tradições portuguesas. Assim, o conceito de regionalismo foi cooptado, primeiro, como resultado das aspirações ufanistas de uma elite política e cultural marcadamente ligada à terra e à produção agrária; elite que, agora, buscava uma imagem simbólica de nação que escapasse às determinações de nossa condição colonial, bem como representasse os valores de grupos políticos que não podiam ignorar, nesse momento, suas origens latifundiárias ou de pequenos produtores ligados ao campo, à agricultura, ao extrativismo e à monocultura para exportação. Ao longo da segunda metade do século XIX, no entanto, com o crescimento da cidade do Rio de Janeiro e da vida na corte, que principiava a se urbanizar, a literatura dos rincões e do “Brasil profundo” passou a ser compreendida exclusivamente como a contrapartida exótica e quase primitiva de nossa realidade “civilizada” e “citadina”. Desse modo, a oposição Centro x Periferia, que caracterizou nosso primeiro entendimento da literatura regional no país, ainda no século XIX, entendimento fundado em termos da busca por uma identidade nacional que conformasse a superação das relações econômicas entre Colônia e Metrópole e anunciasse nossa condição de Império, vai se transformar, pouco a pouco, na dicotomia Corte x Brasil Profundo, Cidade x Campo, Civilidade x Primitivismo, Progresso x Atraso, que resta, até os dias de hoje, como substrato ideológico do conceito de regionalismo.
Por essa razão, se o regionalismo literário é compreendido a partir da ideia de regionalismo como realidade social, a categoria estética acaba refém de um duplo sequestro: primeiro porque a autonomia e a particularidade do elemento representacional acabam subsumidas ao que se compreende por realidade e a certas formas de pensar, refletir, descrever e conceituar o que é a sociedade ou a vida social – daí a tomar o mundo pela obra ou a obra como pressuposto resultado da necessidade de ler e interpretar a realidade local é um caminho curto e estreito. Ignora-se, com isso, que é o escritor quem inventa e fabula a realidade e não esta que demanda, necessariamente, a representação, isto é, a aparente relação de causalidade ou de necessidade que a crítica literária depreende entre espaço representado e realidade geográfica não é, de modo nenhum, elementar como o conceito de regionalismo faz pensar. É claro que num romance como ”Vidas Secas” (1938), a presença do espaço físico, que transcende o mero descritivismo para se amalgamar à consciência profunda e ao caráter substancial das personagens, afetivamente tão secas, duras e impenetráveis quanto a paisagem da caatinga, é importante, mas não porque desvela, simplesmente, a via crucis do sertanejo abandonado à própria sorte numa realidade hostil. O espaço físico, no romance de Graciliano Ramos, importa porque, diante da ausência de referenciais objetivos, situa as personagens tanto numa geografia quanto numa paisagem de contornos quase míticos.3 no qual os heróis travam uma batalha inglória contra o abandono, a fome, a secura afetiva, a violência, a morte e um desespero mudo, sem linguagem, que o discurso indireto livre traz à tona. Personagens cujas consciências, tão rarefeitas quanto o mundo que as cerca, são incapazes de racionalizar a vida, sondar as paixões ou dar sentido às experiências e aos afetos que delas resultam; personagens que não pensam o mundo porque lhes faltam, em larga medida, as palavras, ao mesmo tempo em que se angustiam sem, no entanto, compreenderem a angústia; personagens que vivem às voltas com o desejo de entendimento do mundo, dos sentimentos e das circunstâncias que os precipitaram numa vida embrutecida e alheia, embora esse desejo não se realize.
A não ser alguns elementos simbólicos, como os juazeiros, os rios secos, as ossadas dos animais mortos, a caatinga, que se estende da Bahia ao extremo norte de Minas Gerais, não há outros indícios que permitam localizar os acontecimentos do romance num lugar qualquer que não seja o que chamamos de nordeste, nada mais do que uma designação geográfica, uma localização espacial que pode facilitar os estudos de geografia física, mas que, em outros contextos, tende a elidir a particularidade humana, cultural e política que caracteriza a vida de diferentes pessoas em diferentes estados de uma região inteira que não deixa, por esse mesmo motivo, de ser uma invenção. Do mesmo modo, ainda que vivam atravessando a caatinga, fugindo da seca e da miséria, trabalhando em fazendas, presas à terra, ao clima e às adversidades de uma paisagem inóspita, as personagens vão à cidade, onde se deparam com formações sociais distintas daquela vida solitária que conhecem e na qual experimentam os hábitos da cultura urbana. Nesses momentos, tentam representar papéis que também não compreendem, mas que significam, no fundo, um movimento dialético entre duas realidades muito mais contíguas do que apartadas; uma tentativa de adequação, ainda que canhestra; a abertura e a passagem de uma realidade para outra.4 Não se trata, então, de um Brasil profundo e telúrico em contradição com uma urbanidade civil e moderna, mas de dois modos de vida que se encontram e se complementam; a passagem, ora tensa e conflitiva, ora fascinante e viva, de uma cultura rica em tradições, causos, histórias, valores simples, modestos e, na medida do possível, autênticos, para uma cultura progressista, industrial, técnica e artificial em suas formas de organização e regulação da vida cotidiana, uma cultura que, à falta de suas próprias tradições, já que a vida moderna se constitui na mudança permanente, que inviabiliza a formação de tradições profundas e enraizadas, se recusa a suplantar ou apagar completamente as tradições rurais, sertanejas ou interioranas,5 lidando com elas de forma nostálgica, idílica ou paródica.
Por isso mesmo, o regionalismo, entendido como realidade social sugere que, a despeito de nossa organização republicana e federativa, cada região é o resultado de um sistema diferente de ocupação do espaço geográfico, produção e trabalho, com codificações de hábitos, valores e práticas que resultam, num país com a extensão territorial do Brasil, em culturas múltiplas, com visões de mundo muito enraizadas e particulares, inclusive do ponto de vista das práticas linguísticas e dos usos, estéticos até, da linguagem, e essas culturas se encontram, convivem, se chocam e se acomodam em função dos fluxos migratórios, do turismo, das relações comerciais etc. Trata-se de uma relação mais dúctil do que os estudos literários, ao forjarem o conceito de regionalismo e o transformarem numa categoria, permitem pressupor.
Daí que distinguir conceitualmente a ideia de regionalismo envolve, num terceiro momento, considerá-lo como produção literária realizada a partir de determinadas localidades e perceptivo tanto das contradições nacionais quanto do fato de que tentamos acomodar tais contradições, em vez de buscarmos propostas claras de negociação ou solução dos conflitos e tensões que envolvem nosso processo de modernização urbana, social, política e cultural. Novamente, por essa perspectiva, o capítulo de Vidas Secas no qual as personagens se deslocam até a cidade para a comemoração das festas natalinas é emblemático do modo como essas contradições são, literariamente ao menos, negociadas dentro da própria obra: ao irem da roça para a cidade, as personagens se vestem com as “roupas de domingo” ou de “ouvir missa”, expressões que não estão presentes no romance, mas que são muito comuns no universo daqueles que vivem na roça, isto é, elas se vestem como as pessoas da cidade habitualmente o fazem, em vez de usarem as roupas comuns da lida na roça.
No entanto, essa forma de se vestir não lhes é familiar, bem como as maneiras dos cidadãos e as coisas que lhes deixarão fascinados durante a missa e os festejos na rua. Por isso, não se sentem confortáveis nem com as roupas e os sapatos, nem com o mundo que encontram na cidade, mas, embora estejam fora de seu ambiente cotidiano, buscam, ao seu modo desajeitado, habitar essa nova realidade. Na cidade, diante do altar portentoso da igreja e das vitrines e prateleiras das lojas, Sinhá Vitória e os dois filhos experimentam o fascínio das coisas que não conhecem, enquanto Fabiano luta contra o terno apertado e os sentimentos desconsertados que alimenta contra a cidade e seus habitantes. Não é por acaso que o capítulo termine com ele sonhando com “muitos soldados amarelos” que “tinham aparecido, pisavam-lhe os pés com enormes reiunas e ameaçavam-no com facões terríveis”6 – é o medo de um mundo cuja ordenação ele não compreende e no qual advinha uma hostilidade que é, a um só tempo, a do mundo e a dele mesmo. Nada diferente do medo e da dureza dos afetos que experimenta durante a lida diária na fazenda ou fugindo da seca pelos leitos secos dos rios, o medo de que, no fim das contas, não haja um lugar para ele em qualquer lugar que seja.
Desse modo, um romance como ”Vidas Secas” – mas não apenas ele, a quase totalidade das grandes narrativas regionais – mostra que, como categoria literária, a literatura regionalista não se permite explicar apenas por meio do entendimento localizado do espaço geográfico que ela representa, nem pela universalidade do drama humano que ela coloca em ação, ou seja, não se trata simplesmente de descrever os elementos locais, nem mesmo de compreender como eles se somam na criação de um conflito mais geral do homem com o meio, mas sim de considerar que homem e mundo compõem uma realidade profunda, móvel e complexa, na qual o próprio espaço é internalizado em valores, hábitos e formas de agir totalmente particularizadas de narrativa para narrativa.
Isso quer dizer que não faz muito sentido falar em literatura regionalista do Norte, do Nordeste ou dos Pampas, se considerarmos que essas regiões, compreendidas conceitualmente, são a soma de culturas e tradições multiformes e únicas em termos de comportamentos e interesses. São muitas as análises de romances regionais nas quais o trabalho crítico disseca, elenca, interpreta e analisa os elementos geográficos, pensados como pura exterioridade, para desvelar a “cor local” e explicar como as personagens têm suas vivências agenciadas pelo espaço. Com isso, não só se perde a tensão que as narrativas criam ao fazer com que as personagens internalizem esse mundo, como se reduz a intepretação a um determinismo que retira das personagens a capacidade de volição para denunciar como o mundo faz delas o que, aprioristicamente definido pelo conceito de regionalismo, acreditamos que elas sejam. Ao deslocarmos para a história da literatura e para a crítica a ideia de regionalismo como realidade social, transformando em categoria uma espécie múltipla de expressão, a literatura regional, que seria assinalada por um conjunto visível e notável de elementos descritivos que abarcariam, numa única modalidade teórica ou conceitual, as mais diferentes obras e representações da vida interiorana brasileira, acabamos, na verdade, por submeter o conceito a um viés ideológico que, com uma frequência incômoda, foi da dicotomia Colônia x Metrópole ou Periferia x Centro, para um entendimento crítico que trata essas obras como uma oposição, nem sempre verdadeira, justa ou honesta, entre Atraso x Progresso, fazendo com que o conceito, muitas vezes, esbarre numa leitura preconcebida e até mesmo preconceituosa do processo de modernização do país; leitura que, rapidamente, deu tudo à cidade ao mesmo tempo em que fez do campo o espaço a ser vencido ou recalcado. É justamente essa dimensão ideológica do conceito de regionalismo que cumpre abordar aqui.

Um conceito excêntrico
O conceito de regionalismo, na literatura brasileira, sofreu com certos abusos e artificialismos da crítica e da história literária, servindo a todas as causas e como solução fácil a muitos impasses interpretativos. Pensado como um modo de abarcar a dinâmica representacional de alguns temas e motivos recorrentes da criação literária nacional,7 o regionalismo, assim como a poesia e a ficção indianistas dos primórdios de nosso romantismo, surgiu como categoria estética em função da qual se passou a compreender um tipo de expressão literária e de produção cultural que, no domínio das letras e do pensamento social e político, ansiava por figurar uma imagem de país singular e nobre, particular e autêntico, potencial e promissor, correspondendo, assim, ao projeto de construção de uma nacionalidade verdadeiramente brasileira, característica do ideal de nação que se abria, política e culturalmente, com a Independência, buscando superar nossa origem colonial por intermédio de uma promessa de país que, na prática, recalcaria os problemas estruturais de sua origem em nome daqueles valores modernos, e algo postiços, de progresso, desenvolvimento e modernidade que constituiriam a nação. Desse modo, aquelas obras cuja representação privilegiava a imagem de um país de natureza plena e exuberante, exótica e atraente, explorando a figura do índio ou do sertanejo integrados ao espaço natural, a despeito dos desafios e conflitos que resultam do encontro do homem civilizado com a paisagem rústica, selvagem, rural ou interiorana, foram a tônica de nossa criação literária desde Basílio da Gama (1741-1795), Santa Rita Durão (1722-1784), Gonçalves Dias (1823-1864), José de Alencar (1829-1877) e Bernardo Guimarães (1825-1884).
Oarcadismo tardio e o primeiro romantismo, então, lançaram as bases de uma literatura que se dedicou, em larga medida, a figurar o homem simples, quase sempre vivendo dos recursos da terra, do trabalho braçal, da exploração agrícola ou extrativista (o garimpeiro), com seus hábitos e costumes, seus valores e princípios, irmanado com a natureza, devidamente adequado à fantasia rousseauniana do bom selvagem que resiste ao assédio corruptor da sociedade, de índole burguesa, que vinha se erguendo nos horizontes da nação. Tanto a poesia quanto o romance de feições indianistas ou sertanejas floresceram sob influência do romantismo europeu, mormente o francês. Mas, ao contrário da França revolucionária e burguesa, com sua capital que se moderniza rapidamente, cosmopolita e socialmente complexa, cujas instituições, cidadãos e comportamentos permitem entrever os conflitos entre a decadência aristocrática e a hegemonia político-econômica da burguesia, os poetas e romancistas brasileiros podiam contar apenas com a imagem idílica de um país que só existia, naquele momento, enquanto paisagem natural pronta a ser transubstanciada em mito cultural e em elemento catalisador da grandeza de uma civilização futura que se insinuava, por isso mesmo, como uma espécie de nova Canaã – a terra que já nascera prometida.
Nesse sentido, nossa primeira literatura francamente nacional se voltará ao regionalismo como mecanismo de apreensão imagética do que seria a terra brasilis, natural e suntuosa, na iminência de um encontro positivo e transformador com o mundo das formações sociais, do Estado e das instituições, do mercado e do trabalho, constituindo, dessa amálgama, o que seria a nossa boa sociedade.8 de homens corteses, nobres, cujos sentidos de progresso e desenvolvimento se orientavam pela manutenção dos valores e tradições populares e rurais mais verdadeiras e substanciais. Estamos diante de uma imagem de civilização que, é óbvio dizer, sugere menos um país, concreto e tangível, e mais uma ideia, platônica e ufanista, bastante de acordo com o nacionalismo que orientava a literatura romântica.9
Mesmo que nesse primeiro momento o conceito de regionalismo não existisse tal qual se configurou histórica e criticamente em nossa tradição teórico-reflexiva, a inclinação do romance romântico – e, mais tarde, também do romance realista e naturalista – à figuração das formas de vida rurais, espraiadas pelas diferentes regiões e culturas do país, é decisivo, inquestionável e, ao mesmo tempo, revelador de uma sociedade que, embora já se permitisse entrever a ambição civilizatória de matriz burguesa e europeia, ainda estava presa, na prática, à realidade do latifúndio, aos ideais de comunidade rural, existência idílica e experiência comum orientada pela familiaridade, pela dependência e pelo clientelismo. A vocação regional de alguns dos nossos primeiros romances funda-se no mito do homem do campo como fundamento de nossa cultura e sociedade porque, no fim das contas, não vivíamos em um mundo urbano, burguês e moderno que pudesse, efetivamente, servir ao projeto de nação ao qual aspirávamos, por isso, segundo Edison Bariani Junior, “em tal sociedade pouco complexa, com núcleos de populações esparsos e isolados (CANDIDO, 1969, v. 2, p. 216), o romance nasce com uma vocação ecológica, orientado pela conquista progressiva do território”, sendo que, “quanto à matéria, é regionalista e de costumes” e “quanto ao espaço, passa-se no campo, na selva e na cidade (ibidem, p. 113-14)” (2017, p. 48). Isso significa que, diante de um quadro nacional em que o país como um todo era um enorme sertão, o romance não tinha muita escolha a não ser se empenhar na representação desse Brasil profundo, interiorano e regionalizado, flagrando os hábitos e costumes dos tipos locais, que viviam nas dependências da natureza, em consonância com a paisagem e suas demandas, mas cujos valores espirituais sugeriam a elevação de caráter e a nobreza das ações e dos gestos necessárias à fundação do homem social que, mais tarde, deveria habitar a cidade e constituir a vida e a sociabilidade urbana e burguesa.
Assim, o conceito de regionalismo acabou sendo pensado, desde o início, numa dupla perspectiva estética e crítica: seja como um modo de compreender certas formas de representação literária que exploravam o exotismo da paisagem natural – bem como a nobreza espiritual do indígena – popularizadas pela poesia indianista, mas que faziam do sertanejo, do caipira ou do matuto, isto é, da figura no homem do campo, imerso na vida lenta e simples do espaço rural, elementos igualmente simbólicos da constituição de nossa nacionalidade; seja como força essencial do processo de constituição do país, numa perspectiva econômica e política, que desde as origens coloniais se fundava no latifúndio, na monocultura, na vida rural ou, no máximo, provinciana, estreitamente dependente do campo, da mão de obra escrava e da exportação de produtos agrícolas ou de extrativismo. No segundo caso, o conceito de regionalismo terminou por refletir, no que diz respeito à criação literária, aquelas obras que, nostálgica ou criticamente, se voltavam para a descrição da paisagem, agreste, rústica ou vicejante do interior dos diferentes estados brasileiros, bem como para a figuração dos hábitos e costumes do homem do campo, na tentativa de desvelar fosse a grandeza perdida da comunidade agrária, do latifúndio, da riqueza de experiências e descobertas pessoais da vida na fazenda, como podemos ver, de certo modo, em “Menino de engenho” (1932), de José Lins do Rego; fosse a perversidade subjacente às estruturas políticas, econômicas, de produção, poder e mando que determinam uma realidade rural baseada na exploração da pobreza, da ignorância e da dependência do sertanejo em relação aos fazendeiros para os quais ele se vê forçado a trabalhar, sem esperança de futuro e conformado tanto às intempéries da seca quanto aos humores e vicissitudes do grande latifundiário, como em “São Bernardo” (1934) e “Vidas Secas” (1938), de Graciliano Ramos.
Ainda nesse segundo caso, que, com a superação do idealismo nacionalista romântico, se tornou o mais recorrente no imaginário cultural e na produção literária nacionais, o regionalismo acabou compreendido como uma espécie de substrato de nosso processo de modernização política, econômica, cultural e social, isto é, foi definido como ponte fundamental, mas progressivamente ultrapassada, entre o passado colonial e a formação de nossa sociedade moderna, burguesa e urbana, restando como tema literário, curiosidade local, anedotário folclórico ou simplesmente recalcado como parte definidora não só de nossa cultura, mas do modelo de sociedade em função do qual nos organizamos. Em outras palavras, demos tudo à cidade, à modernização, ao progresso técnico e industrial, ao ideário de sociedade burguesa, baseada no trabalho e nos tipos de cidadania e civilidade urbanas, de vida citadina, orientada pelo ritmo frenético do presente como condição para a conquista material do futuro, enquanto recalcamos as particularidades regionais e, consequentemente, nossa tradição rural, sertaneja e interiorana à condição de produto de interesse estético e cultural. Com isso, a crítica literária fez com que a importância geográfica de nossas diferentes regiões acabasse reduzida a uma ideia mais ou menos geral de regionalismo que emerge, diante do que seria o apogeu de nossa civilização, como uma espécie de retorno do reprimido, pensado sempre pelo viés temático, raramente como condição efetiva de nossa formação sociocultural, em romances e contos cujos motivos regionalistas acabam tomados não em função da particularidade narrativa, de enredo e figuração simbólica, mas de uma dicotomia empobrecedora que opõe às vivências regionais a figuração universalizante, cosmopolita e progressista da cultura urbana.10
Aquestão, no entanto, me parece mais complexa e implica que, ou consideramos o regionalismo como condição mais ou menos evidente, mais ou menos velada, de nossa própria dinâmica cultural, e não apenas como o substrato de nosso processo de modernização social,11 ou não faz o menor sentido tratá-lo exclusivamente como tema, já que este tende a generalizar o que é particular e característico, engessando o entendimento das singularidades de linguagem, estilo, contexto, expressão e valores culturais envolvidas no processo representacional sempre que uma obra desloca seu universo figurativo das formas de vida citadinas e dos conflitos, sociais e psicológicos, entre o homem e a realidade urbana em que submerge, para contextos interioranos, sertanejos, rurais, agrestes ou simplesmente distantes das metrópoles industriais que são o Rio de Janeiro e São Paulo. Na verdade, a tendência a tratar o regionalismo como categoria estética, considerado mais pelo viés temático das obras ou pelo modo como elas descrevem determinadas paisagens naturais e os tipos humanos característicos que nela habitam, do que pela permanência ostensiva de tradições, valores, vivências e visões de mundo populares tipicamente rurais, interioranas ou regionais a conformar a expressão literária e a lhe dar substância própria, criando um universo autônomo e vivo em si mesmo, é em larga medida o resultado da hegemonia intelectual que o pensamento acadêmico do sudeste brasileiro, sobretudo do Rio de Janeiro e de São Paulo, produziu em termos de reflexão e crítica literária. Por isso mesmo, não é incomum que a crítica continue operando com distinções rigorosas que tendem a apartar, sob o guarda-chuva conceitual do regionalismo, autores, obras e contextos cuja ambientação literária ou lugar de publicação não correspondam ao centro cultural hegemônico que a ponte área Rio-São Paulo encarna.
É assim que, ao tratar da segunda geração modernista, a historiografia e a crítica literária falam em “romance de 1930”, dividindo-o em “romances regionalistas” (de expressão neorrealista) e romances psicológicos (de expressão urbana e intimista), fazendo com que os romances centrais de Graciliano Ramos, que compreendem “São Bernardo”, “Angústia” (1936) e “Vidas Secas”, ainda sejam lidos, oitenta anos depois, quase que exclusivamente sob a dependência de uma ideia de regionalismo que significaria, não sem certa condescendência, apenas a denúncia crítica das péssimas condições de vida do sertanejo pobre nordestino, obscurecendo o quadro humano mais forte e vivo que constitui o universo interior desse mesmo sertanejo e o quanto ele é definidor de nossa cultura como um todo. O mesmo pode ser dito de Jorge Amado, cuja obra, sobretudo os romances iniciais como “Cacau” (1933), “Jubiabá” (1935), “Mar Morto” (1936), continua sendo referida em termos de regionalismo, interpretada unicamente como uma fusão de cor local, de exótico e pitoresco, figurada no interior, no sul baiano ou no litoral, e representação social das mazelas da produção agrícola cacaueira, da vida difícil dos pescadores ou estivadores, da pobreza dos trabalhadores do mar ou da violência a qual são submetidas as crianças de rua em Salvador. De forma similar, continuamos, nos dias de hoje, a considerar a obra de escritores contemporâneos como Milton Hatoum ou Ronaldo Correia de Brito primeira e quase que exclusivamente na perspectiva de um regionalismo que se define, novamente, mais pela temática, pela descrição da paisagem, pelo espaço e pela ambientação supostamente provincianos, do que pela particularidade narrativa que essas obras encerram, ou seja, é o aspecto regional quem determina a compreensão crítica do estilo, da expressão estética, do trabalho com a linguagem, da natureza dos heróis e dos conflitos por eles vividos (o modo como interpretam a realidade e agem sobre ela), quando deveria ser exatamente o contrário: é a compreensão da particularidade estética quem deve conduzir ao entendimento da condição regional figurada nessas obras.
Por esse prisma, quando a crítica ou a historiografia literárias lançam mão do conceito de regionalismo o fazem de modo a incorrer, inevitavelmente, em três problemas básicos: primeiro, criam, não raro, uma metafísica do ser-regional, de caráter essencialista, ou seja, pensa-se os sujeitos que habitam determinadas regiões do país menos como cidadãos, indivíduos, homens e mulheres em relação objetiva e concreta com o mundo no qual vivem e com a realidade que os cercam, e mais como símbolos geograficamente representativos das ideias e ideologias que se desejam encontrar criticamente realizados neles, em suma, carregamos ontologicamente os termos quando pensamos em sertanejo, jagunço, caipira, matuto etc., ou criamos aquelas grandes mitologias das quais não conseguimos, ainda hoje, fugir, como as do nordestino, do gaúcho, do nortista ou do mineiro, por exemplo; segundo, nem sempre o conceito de regionalismo ou a abordagem que se faz da literatura regionalista conseguem evitar o equívoco de, a pretexto de dialetizar os princípios de regional e universal como elementos associados no processo de constituição do país, compartimentar o regional, reduzindo-o a mero estágio da passagem do particular para o geral, isto é, do homem geograficamente situado para o brasileiro, num primeiro momento, e para o humano em geral, depois – nesse caso, é forçoso dizer, não há movimento dialético de fato, pois a síntese simplesmente recalca o elemento particular, dissolvendo-o em nacionalismo ou humanismo fácil; terceiro problema, e um dos mais complexos, a afirmação do regionalismo como a figuração de identidades locais, com valores e tradições próprias e singulares, quase sempre termina no binarismo inconveniente que opõe atraso e desenvolvimento, imobilidade e progresso, rusticidade e civilização, em suma, campo e cidade como pares extremos e antagônicos de nossa cultura, nossa constituição social e nossa realidade política.

Uma dicotomia falsa
Desnecessário reconhecer que, limitado à noção de categoria, o conceito de regionalismo se converte em instrumento pronto de leitura e compreensão de determinadas obras literárias que, se pensadas para além do rótulo ou da definição de regionalistas, se recusam, na verdade, a jogar esse jogo, compreendendo que o país é muito mais complexo em sua formação e dinâmica sociocultural do que o termo permite entrever. Na verdade, ocorre justamente o contrário, a noção de regionalismo, do ponto de vista da crítica e da intepretação literária, tende a escamotear as contradições inerentes à nossa realidade social, mais do que denunciá-las, como ainda hoje se afirma, sem pudores pelo truísmo, acerca do romance da geração de 1930 e das obras de Graciliano Ramos, Jorge Amado, Rachel de Queiroz, José Lins do Rego ou mesmo Dyonélio Machado. Não que esses autores não tenham usado suas obras como importante veículo de engajamento e contestação das mazelas políticas e sociais que imperavam na passagem da República Velha para o Estado Novo.
Do mesmo modo, não se trata de recusar a presença dos elementos regionais em seus romances – seja o aparente espaço seco das alagoas, as dificuldades do trabalho braçal e solar no sul baiano, a romaria dos infelizes que partem de Quixadá à Fortaleza fugindo da seca ou a odisseia menor e desencantada do funcionário público em busca do dinheiro do leite na periferia pobre de Porto Alegre –, mas sim de reconhecer que o universo ficcional desses autores é maior, em termos do que simbolizam, do que os espaços descritos, as paisagens referenciadas, a ambientação pitoresca, exótica, agreste, hostil ou pobre. Essas obras representam, do ponto de vista da construção de personagens, enredos e conflitos, aquelas tensões significativas entre o homem e o meio que agenciavam e, ainda hoje, continuam a agenciar nossas mais decisivas vivências sociais.
Dito de outro modo, o regionalismo dessas e de outras obras igualmente relevantes para a história da literatura brasileira reside menos na intenção de flagrar espaços, geografias e tipos humanos, com suas paisagens, características, tradições e costumes, e mais em desvelar um aspecto importante da história de nosso desenvolvimento político e econômico: o fato de que nossa modernização nunca conseguiu, efetivamente, romper nem com a dependência do campo, nem com a cultura que ele criou. Indo mais longe, nosso processo de modernização se fez à custa e ao custo do trabalhador rural, do homem simples e simplório, ligado à terra e às tradições e formas de trabalho que dela avultam, do mesmo modo que nossas estruturas políticas e econômicas vivem, até os dias de hoje, na dependência mais ou menos direta da produção e do trabalho rural. No entanto, do ponto de vista da cultura, nosso progressismo modernizador, cuja ideologia atingiu, também, a própria arte e literatura, ou relegou essa realidade a segundo plano ou a transformou em um dos elementos simbólicos de uma ideia de nacionalidade que, hoje, se revela ingênua, superficial e francamente alienada. A partir dos anos 1950, com o governo JK, criamos o mito do desenvolvimentismo, do Brasil grande, burguês, industrial, moderno e urbano, mito que, de certo modo, já se desenhava a partir dos romances citadinos de José de Alencar, que se amplificou com a leitura do romance de maturidade de Machado de Assis e com as imagens da vida “frenética” da capital paulistana figurada nos versos de Pauliceia desvairada (1922), de Mário de Andrade. Acreditamos nesse mito e ampliamos o valor simbólico, cultural e literário que atribuímos à cidade e aos grandes centros urbanos desde que o romance do século XIX tentou, mesmo que timidamente, criar uma representação do homem urbano brasileiro como nos romances burgueses de Balzac, Flaubert e Dickens.
A historiografia literária brasileira12 – que numa coisa ainda é bastante honesta: nasceu positivista e se mantém fiel, até agora, às suas origens – foi quem deu substância e relevo ao conceito de regionalismo, pensando-o em oposição ao que seria nossa literatura citadina e, consequentemente, moderna e urbana, desde o romance romântico do século XIX, na figura de obras como “O ermitão de Muquém” (1858), de Bernardo Guimarães, “O gaúcho” (1870) e “O sertanejo” (1975), de José de Alencar, “Inocência” (1872), de Visconde de Taunay, “O cabeleira” (1876), de Franklin Távora, passando pelas principais expressões do romance modernista, na primeira metade do século XX, como “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos e a obra máxima do que podemos chamar de sertanismo-metafísico, “Grande Sertão: Veredas” (1956), de Guimarães Rosa, até alguns dos romances contemporâneos mais destacados, como “Dois irmãos” (2000), “Cinzas do norte” (2005) e “Órfãos do Eldorado” (2008), de Milton Hatoum, “Galileia” (2008) e “Estive lá fora” (2012), de Ronaldo Correia de Brito. No entanto, penso que o problema fundamental do regionalismo, tal qual considerado por boa parte dos estudos literários no Brasil, é justamente a oposição, criticamente enviesada, entre o que seria uma literatura de representação sertaneja e interiorana, ligada às tradições rurais, aos hábitos, comportamentos, valores, visões de mundo e formas de agir do roceiro, do caipira ou do jagunço, por exemplo, em contraste com outra literatura, de representação urbana, moderna e burguesa, que representaria o Brasil desenvolvido, civilizado, culto e bem educado, de homens de negócio, profissionais liberais, herdeiros ou rentistas cujos valores remetem aos ideais de desenvolvimentismo, progressismo, autonomia e independência burgueses, em suma, o mito da modernização e da civilidade liberais sobre o qual teríamos construído nossa sociabilidade, nossas instituições, nosso estado e nosso republicanismo nos últimos setenta anos.
Essa oposição entre campo e cidade, vida rural e vida urbana, atraso e modernidade é, em larga medida, artificial e insustentável, porque nunca existiu na prática, pelos menos até fins da década de 1950 e as transformações pelas quais passaram as grandes capitais e os principais centros urbanos brasileiros, principalmente Rio de Janeiro e São Paulo. Nessa década, a população brasileira era de quase 52 milhões de habitantes, mas a taxa de urbanização era de 36% apenas, o que equivale a dizer que até a metade do século XX, quase 33 milhões de habitantes ainda viviam na zona rural. Na década de 1970, eram 52 milhões vivendo na cidade, contra 41 milhões de pessoas que permaneciam no campo, ou seja, apesar do aumento dos habitantes das cidades, a diferença ainda era pouco considerável. Seria apenas durante a década de 1990 que a diferença se tornaria de fato abissal: mais de 110 milhões de habitantes vivendo nas cidades contra pouco mais de 36 milhões no campo.13 Por outro lado, dos mais de cinco mil municípios brasileiros, são poucos os que se podem reconhecer como metrópoles ou grandes centros urbanos cuja complexidade organizacional, socioeconômica, cultural e política, bem como a variedade social, de grupos, interesses etc., seja expressiva ou mesmo determinante de nossa modernidade. Entre eles estão Rio de Janeiro e São Paulo – metrópoles globais, cosmopolitas, que concentram o sistema financeiro, na figura dos grandes bancos e da bolsa de valores, polos industriais e multinacionais, além de altas taxas de produção de bens, serviços, mercadorias e riquezas –, seguidos por Porto Alegre, Belo Horizonte, Fortaleza, Brasília, Salvador e Curitiba, como grandes metrópoles nacionais. Apesar desses números, a imensa maioria dos municípios brasileiros, 68,3%, “possui até 20 mil habitantes e abriga apenas 15,5% da população do país (32,2 milhões de habitantes)”.14
Isso nos faz perguntar que literatura urbana, moderna e burguesa seria essa que contrastava tão veementemente com uma literatura regional, de um Brasil profundo e sertanejo, que vemos na historiografia e na crítica literária até os dias de hoje? O conceito de regionalismo, então, é mais um constructo ideal, uma abstração crítica, histórica e sociológica, do que uma noção concreta, material e tangível que ajude a iluminar de fato a história de nosso desenvolvimento cultural. Dito de outro modo, o regionalismo está mais próximo de um agenciamento ideológico por parte da crítica e dos estudos literários, predominantemente concentrados, em termos de produção e influência, nos grandes centros urbanos brasileiros, sobretudo os da região Sudeste, do que da expressão coerente, justa e necessária de parte de nossa realidade pública. Inventamos a imagem do Brasil dos grotões, caatingas, florestas e vastas extensões rurais como a contrapartida superada e distante de nossa modernização, suplantando a importância dialética dessas regiões na dinâmica formadora de nossa economia, instituições, sociedade civil e organização política. Esse agenciamento ideológico impôs, ainda quando éramos um país predominantemente rural, de fins do século XIX até 1970, uma compreensão das relações entre campo e cidade na qual esta já emergia como a fantasia ideal e justificadora de nossas aspirações nacionais e republicanas.
Com isso, a crítica literária ajudou a conceber a ideia de um Brasil urbano, progressista, industrialmente desenvolvido, baseado na produção, no consumo e no domínio técnico da natureza. Nessa esteira, fez do homem citadino o modelo do herói ficcional em conflito com os espaços urbanos, marcados pela multidão,15 pelo desconhecido, pela aventura burguesa da ascensão individual e da conquista da sociedade. De certo modo, a crítica literária leu o nosso romance urbano como se ele correspondesse, objetivamente, ao romance urbano, moderno e burguês que florescera na Inglaterra de meados do século XVIII, com Daniel Defoe, e que se consolidou na Europa continental a partir das obras de escritores como Balzac e Flaubert.
E, aqui, um exemplo caracterizador desse agenciamento ideológico da ideia de regionalismo: um dos primeiros historiadores da literatura brasileira a destacar a importância da literatura regional, considerando que ela fosse, talvez, a mais bem-acabada expressão do país, de nossa realidade e da formação de nossas tradições, foi José Veríssimo (1857-1916). Nascido no Pará, mas tendo viajado pela Europa e vivido muitos anos no Rio de Janeiro, Veríssimo era um homem cosmopolita na história de vida, mas também muito conservador e nacionalista em matéria de cultura, com fortes vínculos com as tradições populares brasileiras, sobretudo as do Pará e do Amazonas, especificamente as de Belém e Manaus, que estudara e ajudou a difundir em conferências pela Europa. Vivendo na cidade do Rio de Janeiro, teve a oportunidade de refletir sobre o que entendia ser esse contraste marcante entre tradições populares, interioranas e sertanejas em face da literatura urbana, quase toda passada no âmbito da corte, de escritores como José de Alencar e Machado de Assis, por exemplo. Veríssimo, muito ligado aos valores do Império, entendia a República16 como um centro tumultuado de ações, comportamentos, valores e ideologias, ainda que visse nos romances de Alencar e Machado, por suposto urbanos e ligados aos princípios da civilização burguesa, grandes realizações da literatura nacional. Ele não admirava o homem republicano, tomado por venal e inescrupuloso, mas, por sua vez, compreendia que a maior parte da literatura regionalista brasileira também não passava de idealizações românticas levadas a cabo por escritores que não souberam superar as influências estéticas da literatura europeia, o que o leva a recriminar muitos de nossos romancistas por terem preferido mais os aspectos de nossa vida rústica do que outras particularidades de nossa vida.17
Veríssimo, muitas vezes contraditório em suas análises, ora denunciando o artificialismo do romance urbano brasileiro, para ele decalcado do romance europeu, ora acusando o regionalismo de idealizações superficiais,18 considerava a representação do sertanejo, com exceção de alguns romances que ele entende como referenciais, pouco profunda e particularizada, o que o faz conceber a ideia de que o melhor do romance nacional na segunda metade do século XIX está na ficção urbana, citadina e de certo parentesco balzaquiano de Alencar e Machado. Como sugeri, trata-se de um agenciamento ideológico da ideia de modernidade e urbanismo como a contrapartida cultural do Brasil primitivo e atrasado do campo, um dos primeiros agenciamentos realizado por um crítico radicado no Rio de Janeiro. Isso porque a cidade, centro político do Império, também era a mais cosmopolita do país desde a chegada de Dom João VI e a corte portuguesa no início do século XIX; mas o problema, no entanto, é que, no censo de 1821, a cidade do Rio contava 112.695 habitantes (apenas duas vezes maior do que a cidade de Ibitinga, nos dias de hoje), dos quais pouco mais da metade, 79 mil, eram urbanos. Além disso, a maioria esmagadora da população era de escravos ou ex-escravos, cuja representação, na literatura brasileira, é sempre indireta, como parte do sistema de produção acidentalmente integrado ao sistema cultural, e de coadjuvantes, nunca de protagonistas. Em um cenário dessa natureza, os romances urbanos, desde Macedo e Alencar até a obra de maturidade de Machado, figuram um ambiente que só é urbano de fato na superfície, ou seja, na descrição breve da paisagem citadina e nas vivências igualmente breves dos protagonistas pelas ruas da cidade, sendo que a ação de verdade e, consequentemente, os conflitos nesses romances ficam sempre reduzidos à vida privada e doméstica das personagens, o que parece explicar, também, certa preferência do romance brasileiro pela dissecação moral dos caracteres e pela intepretação das paixões que movem os sujeitos em suas experiências e relações com o outro.
Não há, nesses mesmos romances, multidões de fato, nem o confronto com um mundo desconhecido, nem uma sociabilidade baseada no estranhamento, na convivência negociada entre cidadãos e na acomodação de interesses diversos e divergentes, como vemos, por exemplo, nos romances burgueses dos já mencionados Balzac ou Flaubert. Por uma boa razão: num mundo social circunscrito à população branca, urbana, nobre ou rentista do Rio do século XIX, todo o mundo que é necessário, relevante e que vale a pena conhecer se conhece. Desse modo, em todos os romances “urbanos” do período, a marca fundamental da ação está pautada na familiaridade, literalmente: as famílias constituem o núcleo dos enredos, todos se reconhecem e, por isso mesmo, partilham valores, ideias, comportamentos, formas de agir e objetivos mais ou menos similares. É a sociabilidade do parentesco, da conformidade e, também, de uma experiência pública que está mais próxima da moralidade e seus conflitos ideias, privados e domésticos, como disse, do que da sociabilidade e seus conflitos institucionais. Em “O pai Goriot” (1835), de Balzac, quando o protagonista, Rastignac, um jovem de família aristocrática decadente, deixa a província onde vive para estudar direito em Paris, será confrontado com o mundo da grande sociedade, que o fascina e do qual quer fazer parte a qualquer custo, não medindo esforços nem escrúpulos para ascender socialmente e realizar-se nesse ambiente. Tudo é novo para Rastignac porque tudo é desconhecido: suas relações pessoais, deixadas na província, não têm relevo ou influência alguma nesse universo de estranhos que, de diferentes maneiras, competem pelos mesmos objetivos e fins que o jovem estudante, o que o obriga a forçar sua passagem para a “boa sociedade”, lançando mãos de expedientes nem sempre razoáveis ou moralmente acertados, negociando com estranhos, aprendendo com eles, forjando novas relações, quase sempre de natureza clandestina ou espúria. Até a ficção brasileira da década de 1960, poucos romances apresentam personagens vivendo, de fato, uma situação similar ao do herói balzaquiano.
Entretanto, apesar desse quadro em que o Rio de Janeiro figura, no século XIX, como a maior cidade brasileira, mas preservando uma constituição provinciana, baseada na familiaridade e no parentesco, a historiografia literária e a crítica relegaram o regionalismo a uma espécie de representação exótica do país, bibelô narrativo utilizado para nos lembrar o quanto nos civilizávamos e progredíamos em direção a uma sociedade burguesa, moderna, comercial, desenvolvida e materialmente progressista que, efetivamente, só se percebe de modo marcante a partir de fins dos anos de 1950. Com isso, passamos a entender a vida rural, seus hábitos, costumes, conflitos e natureza como uma espécie de fantasia literária algo nostálgica de um país mais profundo e atrasado do qual nos livrávamos com a marcha irrefreável de nossa urbanidade e progresso. Na verdade, foi apenas em fins do século XIX, com Rodolfo Teófilo e seu romance A fome (1890) e Euclides da Cunha, com Os sertões (1902), que a assimilação estética da vida rural e sertaneja começou a ser figurada menos como exotismo – ou seja, o conflito entre o homem natural, o bom selvagem romântico, e a paisagem natural, agreste ou desafiadora – e mais como uma contradição estrutural desoladora entre o desenvolvimentismo, marcado pelo crescimento econômico, social e urbano, no qual as cidades levavam sempre a melhor, em contraste com a miséria, o abandono e a ausência de políticas públicas reais para o campo, que condenava os sertanejos tanto às determinações do espaço agreste, inóspito, muito pouco apropriado à vida humana quanto às do Estado, autoritário, repressor e oligárquico, baseado nos interesses fundiários dos grandes proprietários de terras, que eram também os grandes donos da República (vide, por exemplo, a barbárie que foi o massacre de Canudos).
Nessa chave de leitura e interpretação, o regionalismo caracterizador de nossa realidade se estabeleceu não como condição fundamental da formação de nosso país, inclusive no que diz respeito ao processo de construção do capitalismo urbano, nem como a contribuição decisiva, em termos de riqueza cultural complexa e peculiar, do homem do campo, do pequeno agricultor, do trabalhador rural, do sertanejo, do vaqueiro ou do jagunço, servindo como fundamento de nossa conformação social, mas sobretudo como idealidade ou contrapartida provinciana de um país atrasado, que precisava ser abandonado para que outro, moderno, pujante, culto e desenvolvimentista nascesse. No fim das contas, a fantasia essencial de nossa literatura, nessa interpretação dicotômica que acabamos fazendo dela, não é a ficção regionalista, mas a literatura urbana e burguesa que inventamos, desde o romance romântico de Alencar, para nos justificar como nação moderna e progressista, liberal, democrática e burguesa.
Forjamos o regionalismo como idealização de uma vida natural, plena e pujante, que teve sua contribuição na formação de nosso caráter, claro, mas que superamos com o diligente trabalho de modernização nacional que, gostamos de acreditar, se deu como um projeto das elites urbanas e da classe média liberal que se empenharam, desde a segunda metade do século XIX, em nos colocar no mapa das grandes sociedades ocidentais. Não pode haver análise mais falsa e esquiva do que essa, porque dissimula o caráter parasitário de uma elite desenvolvimentista que explorou, e ainda explora, a produção rural e o trabalho no campo, mas que se quer industrial, moderna, capitalista e de mercado. E mesmo quando escapa às idealizações românticas, a ficção regionalista continua a ser entendida como mera denúncia dos anacronismos, atrasos, perversões e barbáries que assinalariam uma vida rural empobrecida e ignorante, que precisa ser, a qualquer custo, igualmente modernizada. Trata-se de uma das leituras mais estreitas e limitadas que já se fez para uma ficcionalidade tão rica em simbologias e significados culturais, políticos, econômicos e sociais.

Um mito que oblitera a realidade
A literatura regionalista, qualquer que seja a sua origem ou espaço representado, deve ser pensada menos em oposição à literatura urbana, como contraponto elegíaco da vida simples perdida ou como denúncia crítica do atraso e da miséria do sertão, e mais como resposta a uma ideia de modernidade que, para se forjar, dissimula a singularidade e a importância política e social de um de seus elementos fundadores. Do mesmo modo, ao lançar mão da ideia de regionalismo como categoria literária ou conceito instrumentalizado, a crítica não pode resistir ao trabalho de identificar e distinguir, a priori e baseado num conjunto de características mais ou menos genéricas, autores, obras e contextos que terminam apartados da própria dinâmica constitutiva de nosso sistema literário. Em vez de interpretação e análise, faz-se a taxonomia das obras, sendo que o sertanejo, o homem do campo, o matuto, o caipira ou o jagunço se convertem em espécimes, isto é, tipos a serem identificados e catalogados de acordo com noções gerais, partilháveis e imediatamente reconhecíveis que acabam por estabelecer uma coerência ilusória a um conjunto de obras heterogêneas, em tudo distintas em termos de intenções, temas, expressão estética e efeitos de sentido. Além disso, ao se converter em categoria literária (ficção regionalista), e em conceito instrumentalizável de interpretação (regionalismo), a ideia de distinção geográfica passa a ser usada para agenciar, sub-repticiamente, até aquelas obras que, surgidas em determinados contextos muito localizados ou aparentemente interioranos, terminam lidas como romance mineiro ou gaúcho, por exemplo. É o caso de obras como
“O amanuense Belmiro” (1937), de Cyro dos Anjos, “Os ratos” (1935), de Dyonélio Machado, ou, contemporaneamente, do romance “Galileia”, de Ronaldo Correia de Brito.
Os três romances, embora ambientados, respectivamente, em Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife e interior do Ceará, são interpretados na esteira do que se convencionou chamar de romance intimista, espécie de reação ao “romance regionalista e social” de 1930 e à tendência ao realismo como registro ficcional marcante da literatura brasileira, e não como ficção urbana. Nesse sentido, o realismo psicológico dos dois primeiros romances, somado ao memorialismo do terceiro, substituiria o realismo sertanejo, rústico, regional, ao flagrar a vida interior das personagens, seus conflitos de caráter, a natureza profunda e muitas vezes tumultuada, chegando quase ao lirismo, dos afetos amargurados que os caracterizariam.
Os centros urbanos em que vivem Belmiro Borga, Naziazeno Barbosa e Adonias são determinantes da vida interior tanto dos dois funcionários públicos menores e desimportantes, de Cyro dos Anjos e de Dyonélio Machado, quanto do médico burguês, crescido e estudado em Recife, que empreende uma viagem à fazenda Galileia, no interior do Ceará, para rever o avô, patriarca da família, que está morrendo, no romance de Ronaldo Correia de Brito. Os centros urbanos são decisivos dos afetos e das memórias que animam o caráter profundo das personagens, mas quase desparecem das leituras e interpretações das obras porque, sob o ponto de vista da vida urbana, são considerados lugares provincianos, afastados da vida cultura efervescente e caótica de Rio de Janeiro e São Paulo. O interesse pelo conflito interior, pela ideia de narrativa intimista, nesses casos, escamoteia o regionalismo como ideologia posta em ação – são ficções regionalistas, ainda que de representação urbana, mais por conta do deslocamento geográfico que afastam os autores das grandes e emblemáticas cidades do sudeste brasileiro. É quase uma forma de decretar o não pertencimento desses autores ao mesmo lugar de direito dos ficcionistas paulistanos ou cariocas que fazem de suas cidades o pano de fundo de suas narrativas.
O romance de Ronaldo Correia de Brito, interessante do ponto de vista do modo como simbolicamente dialetiza as relações entre passado e presente, pelo uso do memorialismo, bem como cidade e sertão, no que diz respeito ao enredo e à representação, desvelando muitas das tensões, dos conflitos e das contradições que estão na origem da passagem do país rural e agreste para o Brasil urbano e moderno, acaba também refém de interpretações que insistem em refletir o que seria o novo regionalismo da ficção brasileira. Adonias, por isso mesmo, é um narrador emblemático: tendo escapado da sina de viver e crescer na fazenda, sob a autoridade patriarcal do avô, cresce, se forma médico e vive na cidade do Recife, cioso de que sua condição de homem realizado, socialmente bem-posto e educado, fruto da cidade e da cultura urbana, é tudo o que o define verdadeiramente. Isso até empreender, com dois primos, uma viagem pelo interior do sertão cearense, em direção à fazenda do avô e ao resgate de um passado familiar sertanejo que, ele irá descobrir, está mais vivo dentro dele do que gostaria de imaginar e é mais definidor de quem ele se tornou, e das angústias que o provocam e constrangem, do que ele está preparado para admitir. São duas visões de mundo operando ao mesmo tempo no ponto de vista desse narrador que, progressivamente, mergulha no passado rural da própria família como condição inescapável da compreensão de si mesmo, do que fez da própria história e do que se tornou como sujeito. Adonias é o burguês citadino e o provinciano irresoluto ao mesmo tempo, encarnando, numa amálgama simbólica, duas dimensões essenciais da modernização de nossa sociedade. Mais do que rastro ou ruínas, a herança sertaneja e rural não deixa de falar à consciência de uma personagem que, como o próprio país, julgava ter superado suas origens telúricas, ter finalmente se civilizado, escapando completamente aos desígnios, tradições e valores da vida rural.
Oconceito de regionalismo, tal qual pensado em nossa crítica cultural, literária e até mesmo sociológica, confunde-se, na verdade, com provincianismo (tudo o que não corresponde aos valores metropolitanos, acadêmicos e políticos de paulistanos e cariocas), e tende a ocultar que a presença de elementos regionais em alguns dos mais importantes romances da literatura brasileira implica, é necessário reconhecer, na recusa em deixar que suplantemos aspectos decisivos da história evolutiva da sociedade brasileira, bem como nos esqueçamos de quem somos e de onde, por força de todo um sistema de colonização, produção, articulação política e econômicas, viemos. Mais do que isso, é justamente na ficção denominada regionalista que as grandes contradições da sociedade brasileira afloram de maneira reveladora: uma modernização financiada pela produção agrária; a concentração da terra nas mãos de poucos latifundiários; a natureza oligárquica dos agrupamentos políticos, que determinam não só os destinos da produção rural como influenciam as decisões político-institucionais mais importantes; as relações desiguais de poder e dominação que estão, ainda hoje, nas bases desse sistema – o capitalismo do agronegócio foi responsável, em 2016, por 23% de toda a riqueza produzida no país, isso sem contar outras formas de negócios e comércio indiretamente ligadas ao setor. Diante dessa realidade, não parece correto pressupor que a literatura regionalista resulte, apenas, na outra face – a dos grotões interioranos, das paisagens distantes, da vida simplória do campo –, pitoresca, atrasada ou superada de nosso desenvolvimento industrial, de nossa modernidade social, política e cultural. Somos mais caipiras, matutos e fabianos do que gostamos de reconhecer, mas agimos como aquelas personagens de Balzac, burgueses que, diante do homem provinciano, se querem aristocratas, reivindicando a nobreza civilizatória de nossa urbanidade contra o primitivismo algo bárbaro do jeca descalço, doente e ignorante – ideia ainda muito presente em nosso imaginário desde Monteiro Lobato.
Nesse sentido, o soldado amarelo, em Vidas secas, é mais do que a encarnação alegórica de um Estado cuja presença no interior do sertão só se dá pelas vias da autoridade e da força, hierarquicamente decalcada do poder dos coronéis e dos agentes políticos que surgiram no cenário nacional saídos de suas bases eleitorais no interior do país. O soldado amarelo aponta, acima de tudo, para a própria lógica do mandonismo oligárquico, já que atende a um sistema de produção e controle do qual o vaqueiro, o sertanejo, o pequeno produtor rural não são mais do que essas figuras a serem contidas e domesticadas ao bem dos interesses fundiários, o que já se pode notar no capítulo em que Fabiano é enganado, nas contas a receber, pelo patrão.
Há, então, um tipo de poder de estado que se afirma a partir da concorrência de interesses e forças de matriz ruralista que, saindo das fazendas e dos grotões coronelistas do interior, tomou o próprio centro de organização e de poder do Estado nacional. E, a despeito da modernização da economia e da sociedade brasileiras, o poder político ainda é fortemente dependente das articulações dos diferentes grupos oligárquicos locais que administram o país. Em vistas disso, se pensarmos a literatura regionalista apenas como o resultado de certos temas e motivos, certas paisagens e hábitos interioranos, certos costumes e visões de mundo enraizados em personagens que, num primeiro momento, parecem simplesmente alheios à realidade de um país que se modernizou, terminamos por obliterar o fato de que a permanência do regionalismo, sobretudo na ficção nacional, evidencia mais do que o interesse literário ou artístico em resgatar tradições ou modos de vida quase esquecidos ou exóticos, mas sim que ele coloca em jogo as tensões, complexidades e contradições que continuam a assinalar a constituição profunda de nossa vida política, social, econômica e cultural.
Criamos o mito do sertanejo como um forte, o Hércules Quasímodo de que fala Euclides da Cunha, e o abandonamos à própria sorte, tanto literária quanto social, garantindo que ele figure, na compreensão do regionalismo, como o herói necessário, mas ultrapassado, da formação de nossa sociabilidade e de nossa cultura urbanas. Ao mesmo tempo, ignoramos que se há uma tradição épica do romance nacional, no sentido dessas grandes narrativas catalisadoras tanto do belicismo, do espírito guerreiro e aguerrido, quanto da vivência comunitária que move o herói épico, irmanado com o ambiente em que vive e com o grupo do qual faz parte, como vemos em “Guerra e Paz” (867), de Tolstói, por exemplo, essa tradição épica está, justamente, numa linha narrativa que vai de “O gaúcho”, de Alencar, passa pelo “O cabeleira”, de Távora, “Os sertões”, de Euclides da Cunha, para desembocar na grande aventura épico-narrativa desse Aquiles irresoluto e um tanto acovardado que é Riobaldo, em “Grande sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa.
Do mesmo modo, se há uma narrativa definidora de quem somos e de como nos constituímos enquanto nação, ela está, em diferentes aspectos e por diferentes razões, nesses romances que flagram o Brasil rural, profundo e complexo do sertão, da vida no campo, do homem de cuja simplicidade emerge uma sabedoria e uma experiência transformadoras, que reputamos, hoje, como uma espécie de ancestral arqueologicamente perdido do cidadão médio, urbanizado, culto e citadino. Lemos como dicotomia um processo que sempre foi dialético, recalcando um dos elementos da síntese de nossa sociabilidade, o homem rural, integrado a seu meio, à condição de figura alegórica dos mecanismos e instrumentos de formação histórica de nossa sociedade burguesa. Não podíamos ter sido mais injustos tanto com a figura do sertanejo quanto com sua representação literária.
Essa ideia de regionalismo nos fez lidar, criticamente, com dois mitos, na verdade: o do sertão e o da cidade, que se desdobra na imagem dos grotões a forjar homens sólidos, fortes, vigorosos, relativamente sábios, mas cultural e espiritualmente estreitos, que nos legaram as condições necessárias para a emergência do homem social, urbano, culto e bem educado, a servir como motor do projeto civilizacional e progressista no qual nos encontraríamos situados hoje em dia, depois de termos superado nossas origens provincianas e as contradições, pobreza e decadência da vida rural, igualmente urbanizada e transformada a pretexto de um novo tipo de produção, agora voltado à mecanização, às grandes plantações, à economia de mercado e às exportações. Esses dois mitos resultam em duas perspectivas distintas, apartadas e concorrentes do que, em vários aspectos, é o mesmo fenômeno, o da construção da nossa sociabilidade: de um lado, temos a perspectiva de um Brasil profundo, ou seja, atrasado, antimoderno, oligárquico, patriarcal, coronelista e autoritário etc., que deu lugar, depois dos esforços reformadores e progressistas de nossos diligentes cidadãos, à perspectiva de um Brasil urbano, isto é, moderno, civilizado, burguês, que adentrou ao mundo da técnica, da tecnologia, da produção e do consumo em larga escala, favoravelmente situado no contexto globalista das grandes democracias mundiais.
Uma compreensão apressada e superficial como essa oculta uma realidade mais substancial e conflituosa: talvez o que tenhamos, de fato, do ponto de vista de nossa sociabilidade, seja sempre a síntese perversa do atraso político, civil e econômico com as técnicas e tecnologias que se renovam, sendo que esta síntese é o que nos caracteriza como projeto de país e de nação, que nunca se realiza porque não é capaz de superar os vínculos ambivalentes com a herança colonial, escravocrata, agrária, rural e sertaneja que impulsionou a formação do nosso Estado. Daí, por exemplo, que muitos dos projetos de criação de cidadania ou republicanismo em escala de massa são sabotados ou privatizados. De certo modo, o Brasil é redutível à história das concepções que o veem como mero empreendimento comercial, como pensamos ser, durante séculos, a importância do campo para o país.19
Indo além, com esse conceito de regionalismo com o qual operamos até hoje, acabamos por racionalizar nossas diferenças regionais num conjunto mais ou menos demarcado de caracteres gerais, supostamente reconhecíveis em romances como os da trilogia “O tempo e o vento” (1949-1961), de Érico Veríssimo, que se passa no interior do Rio Grande do Sul, e em “A bagaceira” (1928), de José Américo de Almeida, que se passa durante a grande seca de 1898, na Paraíba. Esses caracteres gerais acabam por universalizar radicalmente, e à força, o particular, sendo que deixamos de compreender que as diferenças entre “O cabeleira”, “Os sertões”, “Grande sertão: Veredas” e “O tempo e o vento”, para ficar com alguns exemplos altamente contrastantes, não são meramente de região, espaço, lugar ou ambientação, mas de construção narrativa, de visão de mundo, de singularidades culturais muito características que, quando igualadas teoricamente, se transformam em abstrações mais ou menos alheias à materialidade tanto da linguagem narrativa e da forma romanesca – entendida, aqui, no sentido lukacsiano de figuração histórica e culturalmente necessária e situada de hábitos, comportamentos e visões de mundo de grupos ou formações sociais – quanto das próprias realidades locais que servem como fundamento do mundo romanescamente representado.
Ainda que o intuito possa ser o de preservar, por meio da interpretação, os caracteres e elementos que articulam as identidades locais e suas codificações culturais, em termos de geografia, tradições e valores, a noção de regionalismo acaba sempre por forçar essa leitura universalizante que vê como contradição formadora de nossa sociedade o que é um movimento fortemente dialético da constituição política e cultural de todo o país. Devemos demais à literatura regional e suas figurações particulares, ao sertanejo e à vida rural, para seguirmos repetindo uma interpretação que reduz o entendimento do regionalismo à condição de antípoda literária de nosso desenvolvimento urbano e da constituição de nossa triunfante, mas também bastante deletéria, modernidade social.

Para Daniella Sigoli Pereira, que gentilmente leu, comentou e revisou este artigo. Com meus sinceros agradecimentos pela amizade e pela camaradagem de sempre.

O autor é professor doutor da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho
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NOTAS DE RODAPÉ

1. Agradeço ao amigo Edison Bariani Junior, não só pela leitura atenta do artigo, marcada pela discussão franca e sempre esclarecedora, como também pela sugestão de uma introdução que se encarregasse de tornar mais explícita essa distinção conceitual, já que o artigo, em sua primeira versão, contava apenas com a argumentação acerca do que chamo, aqui, de uso ideologicamente enviesado do conceito de regionalismo. Se tal distinção não ficou devidamente clara, a responsabilidade, claro, não é dele.

2. Ver “Cenas do Antigo Regime nos trópicos”, introdução do livro Conquistadores & Negociadores, organização de João Luís Ribeiro Fragoso, Carla Maria Carvalho de Almeida e Antonio Carlos Jucá de Sampaio. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007, p. 21.

3. Não estou sugerindo, aqui, que as sucessivas interpretações do romance do ponto de vista da denúncia social contra a condição do sertanejo abandonado pelo estado e sujeito aos ordenamentos sociais mais violentos, simbolicamente representados, no romance, pela figura do Soldado Amarelo ou do latifundiário explorador, por exemplo, não sejam válidas ou mesmo pertinentes. No entanto, considero que, do ponto de vista da representação, a narrativa figura conflitos que não nascem nem dependem unicamente de uma certa compreensão determinista das relações do homem com a paisagem agreste, inóspita e perturbadora. Do ponto de vista da representação, o romance explora um conflito que é tão profundo e quase que impalpavelmente metafísico (o homem sem linguagem, o homem em busca de uma linguagem que o abandona, o homem em busca de expressar e nomear o mundo) quanto alguns dos melhores momentos de Riobaldo, em Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, mas essa compreensão ficou escamoteada na análise da obra de Graciliano Ramos.

4. É o que se vê no Capítulo VIII, intitulado “Festa”, quando Fabiano, Sinhá Vitória, os dois meninos e a cachorra Baleia vão ouvir a missa e participar das comemorações de Natal na cidade. Esse hábito existe, de certo modo, ainda hoje, em toda cidade interiorana do país na qual as comunidades rurais ainda são uma realidade e preservam essa interface dialética entre demandas e interesses citadinos e hábitos e costumes da vida “na roça”: “Fabiano, apertado na roupa de brim branco feita por Sinha Terta, com chapéu de baeta, colarinho, gravata, botinas de vaqueta e elástico, procurava erguer o espinhaço, o que ordinariamente não fazia. Sinha Vitória, enfronhada no vestido vermelho de ramagens, equilibrava-se mal nos sapatos de salto enorme. Teimava em calçar-se como moças da rua — e dava topadas no caminho. Os meninos estreavam calça e paletó. Em casa sempre usavam camisinhas de riscado ou andavam nus. Mas Fabiano tinha comprado dez varas de pano branco na loja e incumbira Sinha Terta de arranjar farpelas para ele e para os filhos. Sinha Terta achara pouca a fazenda, e Fabiano se mostrara desentendido, certa de que a velha pretendia furtar-lhe os retalhos. Em conseqüência as roupas tinham saído curtas, estreitas e cheias de emendas.” In: RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. São Paulo: Editora Record, 2002, p. 71.

5. Vale destacar que durante toda a década de 1920, Mário de Andrade escreveu os Contos de Belazartes, publicados em 1934, nos quais o escritor flagra, por meio de uma narrativa que emula o causo, a anedota popular, a historieta caipira, não o processo de modernização da cidade de São Paulo, mas justamente o modo como, em meio a esse processo, alguns bairros da cidade, sobretudo a Lapa e o Brás, não só ainda conviviam com elementos típicos da vida rural, como também vão encontrar sua expressão a partir da perspectiva de um narrador, Belazartes, que assume a figura do matuto esperto, bufão e cômico, próprio da cultura luso-brasileira, figura conhecida popularmente como Pedro Malasartes. Belazartes, então, é uma espécie de Barão de Münchhausen brasileiro, oscilando entre o habitante da cidade e o homem interiorano, dado também à mentira, à pequena farsa, à vanglória e à esperteza, figura entre o pícaro, o capiau e o jeca, vivendo no subúrbio de uma cidade que se modernizava, mas que também se mantinha muito fortemente presa às tradições e formas de vida do campo.

6. RAMOS, 2002, p. 84.

7. Temas e motivos que remontam, na verdade, ao arcadismo mineiro da segunda metade do século XVIII e ao ambiente politicamente conflituoso de Vila Rica (Ouro Preto) durante a Inconfidência, e que se encontram desenvolvidos na obra de poetas como Tomás Antônio Gonzaga, Claudio Manuel de Costa e Basílio da Gama, ainda que este tenha nascido em Tiradentes e morrido em Lisboa. Temas como os da valorização da natureza, a vida simples no campo, a beleza das paisagens rurais, dadas à contemplação e ao deleite sensorial, o exotismo e a grandeza de nossa geografia interiorana, se desdobraram a partir de motivos como os da vida idílica, do bucolismo, da simplicidade nobre e sábia do homem do campo, com seus valores autênticos e substanciais, comunitários e integrados ao ambiente natural, e em imagens que evocam os rios, as árvores, as flores, os ventos, as escarpas, vales e montanhas, bem como o trabalho comum e pastoril, como catalisadoras de um sentimento de integração profunda entre o homem e o meio que resistirá, com as devidas mediações estéticas e críticas, ao longo do romantismo e, em última instância, de toda a literatura brasileira até a segunda geração modernista, com as obras de Graciliano Ramos, José Lins do Rego e Rachel de Queiroz, por exemplo.

8. Acerca do movimento romântico brasileiro e do ideal de constituição daquela que seria nossa boa sociedade, entendida como uma formação social na qual os homens partilham de valores elevados, nobreza de caráter, integridade moral, respeito às normas e aos princípios da sociabilidade, cortesia nos gestos e nas práticas, compromisso com a vida comum e com a coisa pública, uma sociedade justa e de iguais, ver o capítulo “Romantismo: a boa sociedade, a comunidade perdida e a afluência do social”, do livro A sociedade como ficção (2017), de Edison Bariani Junior. Ao avançar progressivamente pela leitura e interpretação das principais obras dos romancistas de nosso período romântico, o autor desvela, com a acuidade crítica que lhe é característica, como a ideia de boa sociedade, no Brasil, nunca passou de um mito político e cultural que dissimulava, já em sua origem, a manutenção de um status quo patriarcal, oligárquico, latifundiário, escravocrata e clientelista que, à falta de uma ciência do social, no Brasil, o romance se encarregou de refletir e interpretar, revelando as contradições profundas que marcaram nosso projeto desenvolvimentista.

9. “Nesse país cuja independência política formal e legal era recente (1822), sem uma unidade territorial consolidada, sob o domínio senhorial dos proprietários de terras e de escravos, no qual a religião oficial (catolicismo, conservador e pouco individualista) beneficiava-se de sua imbricação com o Estado, dominavam a cena política e a própria vida social o patriarcalismo, o patrimonialismo e o clientelismo. O mercado interno, que começara a se formar a partir do século XVIII com a mineração (SODRÉ, 1979, p. 267), era ainda incipiente; a produção estava orientada fundamentalmente para a exportação; os homens livres – agrilhoados, por sua vez, em laços de dependência pessoal (GRAHAN, 1997) – formavam um contingente heterogêneo espremido entre os senhores e os escravos; as cidades eram poucas, pequenas, quase sempre litorâneas e submetidas às imposições da vida rural; a instrução era pífia (TOBIAS, 1986) e a cultura elitizada e orientada pela chegada (um tanto tardia) dos movimentos culturais e políticos europeus” (BARIANI, 2017, p. 47-48).

10. Esse tipo de compreensão dicotômica e, por isso mesmo, estreita da relação entre cidade e campo, vida urbana e vida rural, já foi anunciada e amplamente criticada por Raymond Williams em seu O campo e a cidade (1989), ao afirmar que “em torno das comunidades existentes, historicamente bastante variadas, cristalizaram-se e generalizaram-se atitudes emocionais poderosas. O campo passou a ser associado a uma forma natural de vida – de paz, inocência e virtudes simples. À cidade associou-se a ideia de centro de realizações – de saber, comunicações, luz. Também constelaram-se poderosas associações negativas: a cidade como lugar de barulho, mundanidade e ambição; o campo como lugar de atraso, ignorância e limitação. O contraste entre campo e cidade, enquanto formas de vida fundamentais, remonta à Antiguidade clássica” (p. 11). Para Williams, o problema fundamental é justamente um certo idealismo conceitual que vê, na história da civilização ocidental, a passagem do campo para a cidade como a conquista do progresso material, logo, como pura positividade, ao mesmo tempo em que, mais tarde, com o progresso atulhando os centros urbanos de pessoas, a pobreza exposta nas ruas e sob as marquises, tornando a vida cotidiana precária e conflituosa, fizemos da nostalgia do campo um elogio idílico e idealista de uma existência mais comunitária e amena. In: WILLIAMS, Raymond. O Campo e a Cidade na história e na literatura. Tradução de Paulo Henrique de Britto. São Paulo: Cia das Letras, 1989.

11. Devo a Edison Bariani Junior a observação, bastante pertinente, de que essa ideia redutora de regionalismo não se deu exclusivamente como resultado de nosso processo de modernização social e, em razão disso, do modo como passamos a entender aquelas obras surgidas fora dos grandes centros urbanos, como Rio de Janeiro e São Paulo, ou, mais comumente, que figuram espaços rurais ou realidades interioranas distantes. Ao contrário, como ele bem apontou, o tratamento dispensando à ideia de regionalismo como tudo aquilo que se opõe ao citadino é, também, o resultado do próprio modo como experimentamos o processo de colonização, que foi litorâneo e, por isso mesmo, criou um hiato com o interior, o sertão, o regional, que agenciou toda a constituição de nossa vida social e a maneira como refletimos acerca dos espaços que estão fora da zona de influência, política e econômica, das grandes metrópoles.

12. Impossível, no espaço circunscrito de um artigo, dar conta da revisão bibliográfica das mais importantes histórias da literatura nacional que tratam da literatura regional ou que usam do conceito de regionalismo de forma mais ou menos instrumental, isto é, como mecanismo rápido de catalogação e explicação de uma série de obras ficcionais cujo processo representacional está calcado nas imagens, descrições e registros da paisagem e da vida rústica, agreste, sertaneja, interiorana ou rural. Em comum, elas partilham de uma intepretação que, não raro, simplesmente pensa a ficção regionalista na esteira do idealismo nacionalista romântico, que fez do sertanejo ideal platônico dos mecanismos de construção de nossa identidade pátria, igualando-o ao indígena, bem como omitindo o elemento negro e escravo dessa perspectiva; ou então elas concordam que a permanência do regionalismo em nossa ficção, durante fins do século XIX e todo o século XX, sobretudo no que diz respeito à geração de romancistas dos anos de 1930 a 1950, significaria uma forma de assinalar a relação entre atraso e progresso que marcariam nossa modernização, sendo que a ficção regionalista seria responsável simplesmente por desvelar a permanência ou manutenção de aspectos atrasados e pouco desenvolvimentistas no interior de nossas estruturas políticas, sociais e culturais, ou seja, uma literatura de denúncia das mazelas que caracterizariam a barbárie a qual o homem do campo estaria entregue. Guardadas as diferenças ideológicas, de formação, estilo e contexto, isso pode ser visto em História da Literatura Brasileira (1888), de Sílvio Romero; História da literatura brasileira (1916), de José Veríssimo, bem como em alguns de seus artigos de crítica literária, principalmente “Literatura Regional” (1912), publicado em O Imparcial; História da literatura brasileira – seus fundamentos econômicos (1938), de Nelson Werneck Sodré; e História concisa da literatura brasileira (1970), de Alfredo Bosi.

13. De acordo com os dados gerais do Censo Demográfico 2010, do IBGE, disponível em https://censo2010.ibge.gov.br/sinopse/index.php?dados=8. Último acesso: 25 de janeiro de 2018.

14. Fonte: IBGE, Diretoria de Pesquisas – DPE, Coordenação de População e Indicadores Sociais – COPIS. Disponível em https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2013-agencia-de-noticias/releases/16131-ibge-divulga-as-estimativas-populacionais-dos-municipios-para-2017.html. Último acesso: 25 de janeiro de 2018.

15. A ideia da multidão como locus pelo qual o cidadão circula e diante do qual vê sua individualidade confrontada por uma massa indistinta de outros indivíduos, lutando para não acabar dissolvido nela, confundido com a turba informe e desordenada de estranhos, é relativamente recente nas representações literárias nacionais, embora muitos escritores, como Machado de Assis, já se refiram a ela em alguns de seus contos ou romances, mesmo que tenhamos a clara consciência de que a cidade do Rio de Janeiro, que Machado usou como cenário de sua ficção, correspondia à corte, que, em 1870, era o maior centro urbano brasileiro com 275 mil habitantes, dos quais a imensa maioria de escravos. Estávamos longe, como se pode ver, das multidões que fascinaram Baudelaire numa Paris de mais de um milhão e meio de habitantes no século XIX. Na verdade, mesmo nos romances de Machado de Assis, quando as personagens saem às ruas continua a predominar a ideia da familiaridade: todos se conhecem, frequentam os mesmos círculos, estabelecem as mesmas relações de proximidade, porque todos partilham basicamente das mesmas condições sociais, do mesmo status, dos mesmos interesses e valores. Sobre o perfil da população brasileira entre 1822 e 1889, ver o capítulo “A economia brasileira no Império, 1822-1889”, de Marcelo de Paiva Abreu e Luiz Aranha Correa do Lago, publicado em A ordem do progresso – cem anos de política econômica republicana 1889-1989 (2014), organização de Marcelo de Paiva Abreu. Rio de Janeiro: Campus.

16. Conforme Veríssimo: “O advento da República, não só deu nova e maior importância ao problema político e às questões que a ele se prendem, como criou uma nova preocupação, a do industrialismo, uma espécie de febre de dinheiro, de anseio afanoso, bestial, mórbido de toda a gente se transformar em comerciante, em financeiro, em jogador de bolsa, em banqueiro, numa gana doentia de enriquecer, de luxar, de ostentar” (1977, p. 248). In: José Verissimo. Teoria, crítica e história literária. Seleção e apresentação de João Alexandre Barbosa. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1977. Vale a pena notar que, não com a mesma verve nobre e irônica, nem com o mesmo estilo elegante e incisivo, a apreciação de Veríssimo sobre a República lembra, em vários aspectos, a perspectiva de Alexis de Tocqueville acerca da ascensão da burguesia ao poder, muito bem flagrado em diferentes momentos de seu Lembranças de 1848 (2011): “Tudo o que restava do Antigo Regime foi destruído para sempre. Em 1830, o triunfo da classe média foi definitivo e tão completo que todos os poderes políticos, todas as franquias, as prerrogativas, o governo inteiro, encontraram-se encerrados e como que amontoados nos limites estreitos da burguesia, com a exclusão (de direito) de tudo o que estava abaixo dela e (de fato) de tudo o que estivera acima. Assim, a burguesia não só se tornou a única dirigente da sociedade, mas também se converteu em sua arrendatária. Alojou-se em todos os cargos, aumentou prodigiosamente seu número e habituou-se a viver quase tanto do tesouro político quanto de sua própria indústria” (p. 43). A perspectiva de Veríssimo sobre os tipos de homens emergidos com a República tem muito da resistência ao espírito burguês de Tocqueville, ainda que nossa burguesia, na verdade, não passasse de uma oligarquia rural, ainda de mentalidade escravocrata, que vivia principalmente dos lucros da terra e das grandes produções agrárias, embora emulasse a cultura, o refinamento, a moda, o bom gosto e a educação da burguesia urbana e moderna parisiense.

17. Ver “Literatura regional”, in: José Verissimo. Teoria, crítica e história literária. Seleção e apresentação de João Alexandre Barbosa. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1977, p. 83.

18. Contrastar, para tanto, “A literatura brasileira: sua formação e destino”, publicada em Estudos brasileiros (1889), com o já referido artigo “Literatura regional”. No primeiro, Veríssimo afirma que “a maioria dos nossos romances copia ainda os moldes francês sob nomes e lugares do Brasil (…). Há para isso uma causa externa que é do dever da crítica estudar. A nossa sociedade é formada de elementos heterogêneos, não tem portanto originalidade e a nossa vida é toda artificial. Esta artificialidade toma no Rio de Janeiro, onde em geral vivem os nossos escritores, enormes proporções. Há aí um enorme cosmopolitismo, onde a Europa é largamente representada, que dá a esse grande centro todas as aparências de uma cidade europeia. E a vida providencialmente tranquila do resto do povo brasileiro, toma ali um caráter de agitação inteiramente desconhecido nas nossas cidades da província” (1977, p. 158). Em razão disso, conclui que “é por isso que o verdadeiro romance brasileiro precisa dos fatos da vida do nosso sertão onde o genuíno povo brasileiro, o resultado dos cruzamentos, vive com seus hábitos, suas crenças e seu falar próprios. Daí a superioridade do Sertanejo, do Gaúcho, do Tronco do Ipê, da Mocidade de Trajano, etc., os mais perfeitos dos nossos romances” (1977, p. 158-159). Muitas das interpretações posteriores do romance brasileiro do século XIX como forma decalcada do romance europeu, são tributárias, mesmo que não o confessem, das contradições de José Veríssimo. Contornando essa tese da derivação do romance nacional, recomendo a leitura de A sociedade como ficção, de Edison Bariani Junior, e do meu prefácio a esse mesmo livro, “Prefácio em três movimentos: com quantos romances se faz uma sociedade?”.

19. Devo essa hipótese, que não pode ser desenvolvida a contento no espaço circunscrito de um ensaio como este, ao professor, amigo e interlocutor generoso Arnaldo Franco Junior que, ao comentar algumas das ideias gerais aqui desenvolvidas, me chamou a atenção para o modo como nossa ideia de regionalismo fez concorrer dois mitos distintos acerca de nossa formação, que servem mais para reprimir as contradições de nosso desenvolvimento econômico e social, do que iluminar o caráter dialético que vida rural e vida urbana desempenham tanto no imaginário cultural quanto na própria estrutura socioeconômica do país.

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