O Retorno do Vampiro III – Encontro à sombra de Caymmi

O Retorno do Vampiro III – Encontro à sombra de Caymmi

Surpreendentemente, depois de recusar 666 pedidos de entrevistas, o Vampiro Nacional recrutou Insight Inteligência para divulgação de comentários sobre o estado atual da Nação. Mais do que surpreendente, chocante, foi lugar e horário escolhidos para o encontro: banco no calçadão da Avenida Atlântica, próximo à estátua de Dorival Caymmi, às 12hs.

Insight Inteligência – 12 horas, Senhor Vampiro?

Vampiro Nacional – 12 horas.

II – No calçadão da Avenida Atlântica?

VN – No banco próximo à estátua de Dorival Caymmi. Precisa desenhar?

II – Mas… à luz do sol…

VN – Vocês estão desatualizados. A tradição já era, coisa do passado. Nada tem validade acima de seis meses. Daí a urgência. Antes do fim do ano meus comentários ficarão obsoletos. Quero participar da levada de deixar tudo superado, inclusive a mim mesmo.

II – “Levada”, Senhor Vampiro?

VN – O quê? Escureceu outra vez?

II – Não, não, estamos estupefatos…

VN – Melhor do que estúpidos. Tá marcado, vejo vocês lá.

Incrédulos, ainda assim convocamos fotógrafo e operadores de gravação. Por via das dúvidas, alugamos imensos guarda-sóis e contratamos coveiros. Se necessário, enterraríamos o Vampiro Nacional ali mesmo, na areia da praia, Posto 6, se um dia ressuscitasse seria romântico. Desistimos dos protetores solar, ninguém da equipe aceitou a tarefa de, em emergência, esfregar o rosto e as costas de um Vampiro. Mesmo Nacional, sem selo de garantia, vampiro é vampiro, e manda a prudência não se tocar em tais criaturas.

Lá fomos. Eis que se nos apresenta um senhor, maduro, porém conservado, diríamos até algo bronzeado, trajando impecável indumentária em negro, luvas e óculos escuros, de marca, ou de grife, como se diz na Zona Sul da cidade. Já estava lá, sentado, pernas cruzadas, e nos acenou solenemente com a cabeça, talvez um cumprimento pela pontualidade da nossa equipe, certamente indicando o local que devíamos ocupar para a gravação.

II – Senhor Vampiro Nacional…

VN – Não, não, nada de perguntas, vocês não são bons nisso. Darei as respostas sem precisar das perguntas e mudarei de assunto seguindo o Manual do Bom Jornalista que, como todo mundo sabe, não existe.

(MUDOS)

VN – Boa questão. É preciso cautela com estatísticas que impressionam pelos números, sem atenção às coisas numeradas. Dou-lhes um exemplo irretocável: lê-se que 10% dos homens brancos brasileiros consomem 80% do filet mignon distribuído nos supermercados, certo? – Não, não precisa confirmar.

VN – Pois bem, na Suécia, na Dinamarca e na Noruega, homens e mulheres, todos brancos, consomem 100% do filet mignon lá deles. Os 0,0000001% da população de outras colorações não consomem nem 0,0000001% grama do produto. Isso, sim, é desproporção fora de todo limite, imensurável. Aqui, a primeira providência seria verificar a coloração daqueles, quem sabe daquelas, que consomem os 20% restantes. Suspeito que há muita injustiça inaceitável aí. E se forem mulheres brancas as comensais desses 20%? Ou se 2% dos homens negros devorarem 85% dos 20% disponíveis? E para as crianças, pretas, brancas ou amarelas, principalmente estas, possivelmente anêmicas, nada? Há muito a fazer antes de atingir o patamar nórdico, coisa que nem o resto da Europa ou os ricaços Estados Unidos conseguiram. Vão ver em Nova York, por exemplo, qual é o grama per capita do pessoal do Harlem. Façam-me o favor, sem boas estatísticas não se constroem boas sociedades, muito embora os brancos e as brancas nórdicos andassem de pança cheia de filet mignon décadas antes de aprender estatística.

VN – Tem razão. E dou um exemplo definitivo. Batizei-o de “ilusório caminho da felicidade dos contrários”… Não, não interrompam, irão entender…

VN – Os bobocas (homenagem a uma expressão completamente dessueta – e esta é outra) sonham com uma fraterna reconciliação política entre o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Estou pouco me lixando (mais uma expressão arcaica) para o que acontece neste país, mas boboquice demais incomoda. No íntimo, o que esses tabaréus desejam com ardor é que se faça uma coalizão entre a suposta “inteligência” de FHC e o suposto “carisma” de Lula. Ora, se é fato que FHC não possui nenhum carisma – aliás, possivelmente desmaiaria se fosse acompanhado por multidão de andrajosos a agarrar-lhe a mão –, só bobocas acreditam que Lula não tem inteligência. A propósito, FHC é dos raros que sabem ser a inteligência do Lula uma parada indigesta para qualquer acadêmico daqui e de alhures contestar. Citem algum…

(MUDOS)

VN – Pois digo mais, só Mussolinis retardatários, cujo original acreditava esterilizar a influência de Antonio Gramsci mantendo-o na cadeia, imaginam apagar Lula, prendendo-o. Não vou esperar para ver.

VN – Essa pergunta, agora, dá samba. As contas apurando o bem que poderia ser produzido com os dois bilhões, ou o que for, de reais, recuperados pela lentidão da Lava-Jato (dizem que provavelmente o jato sairá da pichorra antes de alcançar siglas e personagens bem nascidos, isto é, endinheirados conservadores; em tempo, pichorra – vaso mexicano – é dito popular em Portugal, de onde veio no início do século XX, significando “comportar-se mal”. Ex: não mijes fora da pichorra quer dizer não se comporte mal. A Lava-Jato vai mijar fora da pichorra (comportar-se mal) antes de chegar ao PSDB e ao Aécio e familiares. É o que dizem por aí). Quem vai dar o bote é um mata-boi deixando a Justiça sem saída.

VN – Sei, divaguei, volto agora aos bilhões de reais. Esse tipo de conta: quantos hospitais uma licitação fraudada na Petrobras ajudaria a construir, quantas salas de aula de ensino fundamental seriam levantadas com os petiscos dos diretores da Eletronuclear? Contas assim facilitam preencher uma página de jornal sem sair da redação. São contas para enganar tolo, pois os aritméticos sabem que jamais, em tempo algum, os carinhas (toque modernoso), os carinhas que poriam a mão nessa grana não são daqueles preocupados com hospitais e salas de aula. Basta um mínimo de bom senso para prever que essa dinheirama seria empregada na construção de 800 “manicômios” em resorts baianos ou, emenda parlamentar, 400 “manicômios” nos mesmos resorts e 150 mega “templos” da Igreja Universal do Dacá-o-meu. Isso, sim, será apresentado como uma escolha trágica da literatura econômica: qualquer das escolhas acaba com a vida de alguém. O que fazer, perguntariam vocês, esquecidos de quem sou: eu não hesitaria em conseguir uma vaga em um dos “manicômios”. Companhia e passadio de primeira: só VIPS com tornozeleira. É a moda atual que distingue o pessoal de bens.

 

VN – Já que mencionaram o assunto, sou obrigado a tratá-lo com a crueza que o caracteriza. Todos sabem que a juventude hodierna não adquire blenorragias, em especial as blenorragias acéfalas. Ninguém mais come puta, se me permitem a expressão convencional, come a vizinha e a mulher do próximo. A Bíblia, como tudo mais, encalhou. Visto isso é imperioso ver também, o que não é comum, que a incidência de casos comprovadamente blenorrágicos serve como fidedigno indicador do progresso na medicina governamental. Hoje, só antigões como eu caem na esparrela de poupar a mulher do próximo e avançar nos Mangues, Correias Dutra, Conde Lages, ruas Alice e semelhantes, se bem me lembro dos endereços dos vossos paraísos juvenis. A verdade é poderosa ou, como dizia um professor de Física, que provou na carne a verdade da mortalidade: “O que tem que ser tem muita força”.

Aos números: entre janeiro e março de 2017, fui informado, os casos de blenorragia acéfala diminuíram 33,3%; caíram de 150 para 100 casos registrados. Atenção, agora: entre janeiro e março de 2007, vejam bem, janeiro e março de 2007, durante o governo trabalhista, houve um aumento de 200% no número de casos positivos de blenorragia acéfala, a saber, aumentaram de 1 para 3, estatísticas confiáveis do Ministério da Saúde. Quer melhor indicador do progresso social no governo atual?

VN – Não, não me contradigam, estatísticas não mentem, consultem o volume How to lie with Statistics. Avaliar o desempenho dos governos não é assunto para tergiversações!

(A EQUIPE ASSUSTOU-SE COM A EXPRESSÃO DESCONTROLADA DOS ÓCULOS DO VAMPIRO NACIONAL E PREFERIU SILENCIAR)

VN – Estava inclinado a prestar-lhes esclarecimentos sobre praticamente todas as controvérsias atuais em vosso país. Ficarão às escuras sobre o destino das vacas magras, a recuperação do piolho escolar e os casos de assédio sexual das enfermeiras aos velhotes do Abrigo Nossa Senhora dos Três Pastorinhos de Fátima. Termino com um bônus, inédito, para que me deixe em sossego.

VN – As mulheres constituem a maioria do eleitorado de vosso país. Contudo, não passam de um gueto no Congresso Nacional. É pouco? Pois, eis outra discriminação: os epiléticos não dispõem de um representante sequer no Legislativo, nem os imigrantes naturalizados há mais de décadas superaram a barreira à entrada no Executivo. Não, não foi o caso de nenhum dos dois presidentes depois da promulgação de vossa Constituição, em 1988. Confiem em minha palavra e sabedoria, eram nacionais os vendilhões, muito competentes, e não ficou claro, até hoje, qual é o problema de vender tudo. Não é esse o espírito do capitalismo? Perguntem, não aos pastorinhos, mas aos pastorões eletrônicos, se não se vende tudo, especialmente a salvação post mortem. Vocês não imaginam o que tenho recebido para despacho ao Tinhoso, a quantidade de miseráveis que venderam a alma em busca da salvação e, precisamente por isso, não compraram salvação nenhuma. Todos ao inferno por comércio espiritual fraudulento.

VN – Mas da mácula discriminatória sem remissão sofre a turma com menos de 1,50m de altura. São impedidos de servir às Forças Armadas. Ou seja, OS ANÕES ESTÃO PROIBIDOS DE CHEGAR AO GENERALATO.

Claro, os anões com mais de 1,50 m estão liberados e costumam alcançar os principais postos de comando.

(DE REPENTE NÃO HAVIA NADA NO BANCO PRÓXIMO AO DORIVAL CAYMMI DO POSTO 6 QUE PUDESSE COMPROVAR A RECENTE PASSAGEM DO VAMPIRO NACIONAL. A REVISTA INSIGHT-INTELIGÊNCIA ASSEGURA, POR SUA FÉ DE OFÍCIO, QUE O ENCONTRO EXISTIU).

Na redação foi encontrado um bilhete com o seguinte recado: para estatística, a lição de hoje já dá para o gasto; tratarei de ética em próxima visita.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *