O primado do pensamento em série – De como produzir ciência faz divisa com fabricar chuveiros

O primado do pensamento em série – De como produzir ciência faz divisa com fabricar chuveiros

Márcio Scheel, bacharel em letras
A universidade burocraticamente sitiada

Lindsay Waters, editor da Harvard University Press, publicou, há uma década, um livro que, ainda hoje, deve ser considerado como um dos libelos mais contundentes contra o assédio da ideia de produção e produtividade entendidas como finalidades únicas e últimas da atividade acadêmica. Em “Inimigos da esperança: publicar, perecer e o eclipse da erudição”, o respeitável editor denuncia a consolidação de um estado de coisas que vinha se desenhando, há tempos, nos EUA: a afirmação, no poder administrativo, de uma classe de burocratas responsável por cuidar dos destinos das universidades, uma classe que está acima dos professores e pesquisadores dos departamentos e que agencia as formas de reflexão, pensamento, trabalho e publicação, de modo quase sempre alienado das próprias demandas do conhecimento. Trata-se de um cenário em que até mesmo as editoras acadêmicas foram convocadas a ampliar o número de publicações, bem como seu catálogo de revistas e livros, tendo em vista colaborarem diretamente com o orçamento das universidades. Não bastasse a ideia de pressupor, com alguma inocência, que livros acadêmicos, ou mesmo livros em geral, podem gerar lucros suficientes para destinarem recursos aos fundos universitários, Lindsay Waters nota, ainda, que esses mesmos administradores incentivam, sem grandes escrúpulos, uma política de progressão na carreira que se fundamenta exclusivamente nos índices de publicação dos docentes que pleiteiam a condição de adjuntos ou titulares, o que lhes garantiria os benefícios da estabilidade profissional.
Nos EUA, a titularidade envolve submeter-se a uma comissão que analisa, agora exclusivamente, segundo Waters, as cartas de recomendação das editoras acadêmicas ou dos editores de periódicos, avaliando o posicionamento de tais editores em relação ao trabalho do candidato, e não necessariamente aquilo que refletiu, pensou e escreveu.1 Com isso, os mecanismos que avaliam a natureza do trabalho científico nas universidades – não apenas nos EUA, mas também no Brasil – são externos ao próprio trabalho científico e descartam, em larga medida, o debate efetivo de ideias e a circulação do conhecimento em nome de dados estatísticos e indicadores quantitativos que medem a produção acadêmica em termos unicamente numéricos. O quadro é desalentador, sobretudo para as Ciências Humanas que, historicamente, mantêm-se fiéis ao seu princípio mais essencial: não gerar dividendos. Essa realidade condiciona o trabalho da reflexão a determinados parâmetros institucionais estabelecidos por burocratas que, ainda que advindos do próprio quadro docente das universidades, não conseguem evitar a sedução de se tornarem juízes e fiscais de um sistema que subsome o pensamento aos ditames das portarias, instruções normativas, legislações e outras excrescências do gênero, que determinam o pensamento como subproduto de uma forma de organização administrativa orientada pela ideia de publicação como índice numérico num relatório de atividades a ser julgado pelas instâncias de controle.
Lindsay Waters denuncia em seu livro os riscos ao pensamento e à livre circulação de ideias que uma universidade administrada como um negócio representa, isso porque, segundo ele, “o dinheiro reestruturou a academia norte-americana à sua própria imagem, e o dinheiro é um instrumento grosseiro”.2 Waters reconhece que, no caso da universidade norte-americana, essa relação entre capital e academia começa com a Segunda Guerra Mundial e o afluxo de dinheiro vindo de contratos entre as universidades e o próprio governo. O resultado foi a constituição de uma estrutura administrativa altamente burocratizada, criada para lidar com as demandas e exigências das agências de fomento e das instâncias financiadoras. A proliferação da burocracia acabou por determinar todo o funcionamento da universidade, inclusive no sentido de percebê-la como parte essencial das dinâmicas do mercado, o que equivale a dizer que a universidade não só passou a produzir conhecimentos cada vez mais alinhados às demandas de desenvolvimento técnico e tecnológico voltados aos interesses imediatos da produção industrial, da mercadoria e do consumo, como também foi concebida, cada vez mais, como uma sucursal do próprio mercado. Nesse sentido, a academia acabou sujeita à ilusão de que o mercado é o melhor guia possível para orientar os trabalhos de pesquisa e a busca por resultados práticos que contribuam, de forma imediata, com o progresso material e econômico da sociedade.
No entanto, Waters tem razão ao afirmar que “a suposição de que o mercado aloca eficientemente seus recursos é falsa; diz o Prêmio Nobel Joseph Stiglitz: ‘O que eles realmente fazem é produzir as pressões que aumentam a produtividade’. Em 1973, Talcott Parsons e Gerald M. Platt alertaram, em The American University, que ‘o crescente aumento de importância da racionalidade cognitiva’ prejudicaria a universidade, porque esse valor privilegia a burocracia mais simplificada”.3 No caso específico da universidade, o estreitamento entre trabalho intelectual e ideologia de mercado termina na inevitável confusão acerca do papel que verdadeiramente devemos desempenhar como pesquisadores, intelectuais e professores, ou seja, nossa função não é angariar fundos ou recursos para projetos nem gerar patentes ou tecnologia direta para uso de empresas, indústrias ou comércios de qualquer espécie. Com isso, passamos a vivenciar o que Waters chama de perda de qualquer elemento transcendente que justifique nosso trabalho, ou seja, a percepção de que “a vida acadêmica é um chamado, não um emprego. Daí a propensão das necessidades acadêmicas a se orientar para um mundo diferente daquele dominado pelo relógio de ponto. Como Stanley Cavell disse: ‘Um elemento transcendente é indispensável na motivação da existência moral’ principalmente para os estudiosos. Agora, a academia carece de qualquer elemento transcendente, e estamos descobrindo as consequências disso”.4
O conhecimento é o elemento transcendente necessário a uma vida acadêmica que se queira mais do que a burocracia elementar que fiscaliza a quantidade de publicações anuais dos pesquisadores, quanto em recursos financeiros foram angariados junto às agências de fomento, quantos créditos os alunos devem cumprir em disciplinas ou atividades extracurriculares, bem como o estabelecimento de prazos para a entrega de relatórios ou pareceres que contribuem unicamente com o aumento da quantidade de árvores abatidas para sustentar a própria dinâmica burocrática que cerca nossas atividades na academia. Esse quadro é o resultado das consequências da perda do elemento transcendente que deveria, nas palavras de Waters, reger nossos interesses reais como professores e pesquisadores: “o primeiro resultado do afluxo do dinheiro na universidade foi o surgimento de uma nova e mais ampla camada administrativa, situada acima da comunidade de estudiosos dos departamentos. Assim como na sociedade norte-americana como um todo, esses administradores se tornaram mais e mais alienados de seus clientes e reestruturam a universidade como uma “máquina social” (expressão de Paul Goodman), com um grande interesse em produzir nomes de marca para as escolas”.5 Estamos, cada vez mais, diante de uma racionalidade administrativa que pensa em termos de resultados práticos e diretos, objetivos e aplicáveis, mas que ignora que o conhecimento implica um percurso reflexivo que não pode ser aligeirado sem o prejuízo das próprias ideias e de seu alcance efetivo junto ao mundo social.
No Brasil, o quadro não é distinto daquele apresentado por Waters em seu livro, e a universidade pública tornou-se totalmente permeável à ideologia de mercado, incorporando um discurso empresarial que fala em otimização do trabalho e do tempo, que estabelece metas e prazos fixos de produção, que avalia seus resultados em termos basicamente quantitativos e que se volta aos interesses diretos, não da sociedade, que financia suas atividades, mas do capital, na figura dos rankings internacionais que agenciam a busca por índices, resultados, números e, consequentemente, maiores investimentos das agências de fomento à pesquisa e mais parcerias, tanto com a iniciativa privada quanto com outras instituições internacionais. É cada vez mais comum que reitores e pró-reitores assumam o compromisso com essa ideologia empresarial e encarem a universidade como um grande balcão de negócios, em que se comercializa a promessa de conhecimento e no qual docentes e pesquisadores acabam reduzidos à condição de força de trabalho pura e simples. A razão crítica, nesse diapasão, se converte em racionalidade institucional e esta cria a racionalização burocrática, que condiciona todo o trabalho de pesquisa ao imediatismo da publicação especializada. Em resumo, a publicação, resultado da reflexão crítica e da pesquisa sistemática, acaba reduzida à condição de mercadoria, ao passo que o trabalho intelectual mal consegue dissimular sua natureza fabril.
Em 1947, ao publicarem Dialética do Esclarecimento, Adorno e Horkheimer já chamavam a atenção para o fato de que, na sociedade burguesa, industrial, de consumo e de massas, a ideia de um mundo administrado em função da racionalidade técnica e burocrática acabaria impondo ao próprio pensamento a lógica perversa da divisão social do trabalho. De modo bastante incisivo, os autores afirmam que “é fácil identificar o lugar da ciência na divisão social do trabalho. Ela tem por função estocar fatos e conexões funcionais de fatos nas maiores quantidades possíveis. Ela deve possibilitar às diversas indústrias descobrirem prontamente a mercadoria intelectual desejada na especificação desejada. Em larga medida, a compilação já é feita em vista de encomendas industriais precisas”.6 A cena, então, é a de um pensamento científico a serviço da própria dinâmica do mercado e de seus interesses econômicos, políticos e sociais, o que significa que o pensamento é sequestrado pela ideologia e, no caso da universidade, acaba não só cooptado pela ideia de divisão social do trabalho, como também incorpora seu jargão. Tratamos, inclusive no Brasil, artigos, capítulos de livros, livros, palestras e conferências como produtos, do mesmo modo que denominamos o trabalho que empenhamos na reflexão teórica, analítica ou crítica como produção e os índices que abarcam todos os resultados como produtividade. Não podíamos estar mais afinados com o discurso empresarial e mais distantes da verdadeira tarefa do pensamento, que é defender sua autonomia absoluta diante de qualquer tentativa de acomodação aos discursos político-econômicos vigentes, do que isso.
Para Adorno e Horkheimer, a história e a filosofia institucionalizadas também se renderam, sob muitos aspectos, a esta cooptação, pois a história subsidiaria não a indústria, mas a administração mesmo, mediatizando interesses e trabalhando “para os comitês econômicos e políticos”,7 o que significa que o material histórico acaba classificado “sob o ponto de vista de um determinado problema administrativo: por exemplo, a manipulação dos preços das mercadorias ou dos estados de espírito das massas. Ao lado da administração e dos consórcios industriais, entre os interessados encontram-se também os sindicatos e os partidos”.8 A filosofia oficial, por sua vez, “serve à ciência que funciona dessa maneira. Ela deve, como uma espécie de taylorismo do espírito, ajudar a aperfeiçoar seus métodos de produção, a racionalizar a estocagem dos conhecimentos, a impedir o desperdício de energia intelectual. Ela encontra seu lugar na divisão do trabalho, assim como a química e a bacteriologia”.9 Assim, Adorno e Horkheimer colocam em jogo a condição do pensamento num tipo de sociedade que converte o conhecimento em elemento subsidiário de seus interesses mais elementares: a ordem administrada do mundo, da vida e das coisas, a racionalização dos meios e fins necessários para alcançar objetivos e metas, a produção e o lucro. Ciências, história e filosofia não são as únicas reféns desse estado de coisas, mas a própria vida acadêmica acabou se convertendo num enorme escritório comercial do conhecimento e do saber regulados a partir da imagem da linha de produção.
Mais do que intelectuais, cientistas ou pesquisadores encarregados de garantir o desenvolvimento de um conhecimento substancial, crítico e autônomo em relação às estruturas ideológicas e de poder dominantes, nós nos tornamos, pouco a pouco, o lumpemproletariado das fábricas de índices, números, produtos e resultados ao alcance dos anuários, dos relatórios estatísticos e dos pareceres institucionais de avaliação. Pensar, nesse cenário, iguala-se a apertar parafusos ou arquivar documentos. O que equivale a dizer que a universidade, hoje, é administrada por reitores e pró-reitores saídos diretamente dos quadros docentes e de pesquisa, eleitos pela comunidade acadêmica, mas que administram a universidade de acordo com a excepcional burocratização da vida do espírito e do trabalho intelectual que a instituição impõe aos sujeitos. Estamos em face de uma universidade totalmente regulada por normas, padrões e portarias, que determinam que a reflexão nada mais é do que um dispositivo num mecanismo maior, muito mais importante e impessoal: o da geração de números, dados e índices quantitativos que nos coloquem nos rankings nacionais e internacionais de produção do conhecimento, ainda que não sejamos capazes de avaliar, com precisão, o verdadeiro alcance ou impacto desse conhecimento sobre a soma dos conhecimentos produzidos, sobre a sociedade e até mesmo sobre a própria cultura acadêmica.
Desse modo, o trabalho de ensino e pesquisa, bem como a reflexão crítica, que demandam tempo, acuidade e dedicação ao pensamento teórico, acabam reduzidos aos primórdios da industrialização moderna; isto é, a universidade é fordista e o trabalho intelectual remete ao comentário irônico de Ford, quando afirmou que todos poderiam ter um carro da cor que desejassem, desde que fosse preto. Isso porque, sob muitos aspectos, a noção de produtividade, diretamente imposta ao trabalho acadêmico, faz com que vivamos às voltas com artigos que se publicam em revistas que não se leem, capítulos de livros e livros que circulam, muitas vezes, no âmbito exclusivo dos departamentos em que surgiram, dissertações e teses que, não raro, não são citadas por outros pesquisadores de pós-graduação e, ao mesmo tempo em que precisamos dar conta das demandas de produção, ainda somos convocados, compulsoriamente, a colaborar com a estrutura administrativa da universidade, tomando parte nos mais variados tipos de conselhos ou comissões, cuja existência primordial, na maior parte do tempo, é a de simplesmente garantir a manutenção da estrutura burocrática na qual nos encontramos inseridos. Vemo-nos, assim, muito mais próximos dos administradores do pensamento e da ciência do que, necessariamente, do pensamento e da reflexão científica. Somos gestores de uma cadeia de produção que agrilhoa o pensamento, na mesma medida em que nos torna engrenagens de um sistema que já funciona à revelia dos interesses de pesquisa, conhecimento e saber pelos quais verdadeiramente deveríamos nos mover.
É preciso destacar que uma coisa é a racionalização burocrática das tarefas fundamentais estabelecidas pela própria estrutura administrativa; isto é, o princípio da organização formal que deve reger o trabalho técnico dentro da universidade – secretarias, seções, funcionários, atribuições, registros etc. Sem a organização das tarefas e funções, sem a normatização do trabalho técnico ou o estabelecimento de princípios básicos de atuação, a universidade não pode funcionar. No entanto, outra coisa muito diferente é impor à dinâmica do trabalho intelectual, do pensamento e da reflexão, o mesmo viés normatizador, a mesma racionalidade burocrática que rege as tarefas institucionais mais simples. A função do docente e do pesquisador, na universidade, é revisar teorias, compreender antigos conhecimentos, criar novos, publicizar ideias, contribuir para um maior esclarecimento da sociedade em relação a si mesma e suas formas de vivenciar os conhecimentos dos quais depende e que, não raro, ignora – também por conta de que nos recusamos, como pesquisadores, cientistas ou acadêmicos, a aceitar que é a sociedade quem, na prática, garante os recursos financeiros que pagam por nosso trabalho e que ela tem o direito de compreender o que fazemos. Isso porque o que fazemos, sobretudo nas ciências humanas – em outras áreas do conhecimento, como a computacional ou farmacêutica, por exemplo, há resultados mais imediatos e práticos, que alcançam o espaço social de modo mais abrangente, ainda que a sociedade continue a ignorar os modos como computadores ou remédios são produzidos – fica circunscrito aos muros da universidade ou ao olimpo das ideias puras o qual, platonicamente, ainda acreditamos habitar10.
A burocratização das atividades de pesquisa e a adesão a uma ideia de administração acadêmica em moldes empresariais, orientadas para o mercado e tributária da noção de produtivismo, conduzem não só à crise da reflexão e a um número cada vez maior de publicações pouco amadurecidas, consequentes e sistemáticas, do ponto de vista tanto da revisão teórica quanto da análise crítica, como também à ideologia da competividade, fazendo com que os estudantes, desde os primeiros anos de graduação, orientem suas vidas e interesses acadêmicos em função do currículo Lattes (dos seus próprios e dos outros), das demandas por produtividade determinadas pelas agências responsáveis pelo financiamento das pesquisas no país e pela própria universidade. Em pouco tempo, passam de colegas, que deveriam estar preocupados em descobrir conhecimentos novos e partilhá-los comunitariamente, a concorrentes buscando se superar, dedicando-se a melhorar os coeficientes de rendimento e a participação em atividades acadêmicas várias, com o intuito de, exclusivamente, aumentar as chances nas disputas por bolsas de pesquisa ou vagas de intercâmbio. Como não é o conhecimento real que conta, mas o conjunto de atividades cumpridas, no final, vence aquele que melhor se submeteu às regras da competição e não necessariamente o mais talentoso ou criativo em relação aos saberes que efetivamente construiu. Assim, a realidade cotidiana nos corredores e departamentos da universidade não é muito diferente de um Grande Prêmio ou de um leilão no qual o pensamento ou a reflexão, a originalidade das ideias e sua eventual influência sobre o conjunto dos saberes com o qual dialoga é o elemento menos importante nessa disputa.
Esse é outro aspecto que precisa ser considerado: o pensamento é uma forma de criação que, diferentemente da arte, implica o universo das ideias e da reflexão crítica, mas é uma criação, ou seja, depende sempre, em larga medida, da possibilidade de contemplar detidamente as ideias, ao mesmo tempo em que se busca a forma de expressão ideal ou mais adequada à natureza da argumentação. Pensar e escrever, dessa forma, também implicam originalidade do estilo, forma de expressão a partir da qual as ideias são representadas. Originalidade argumentativa, acuidade reflexiva e estilo são elementos imprescindíveis ao pensamento; no entanto, quando o trabalho intelectual se encontra acuado pelas demandas da produtividade em escala, da linha de produção analítica, da publicação em vistas das exigências institucionais, o que interessa é menos o alcance e a influência das ideias, e mais os índices que garantem os relatórios avaliativos. A dúvida é sempre a mesma: nessas condições, como esperar que, de dentro da universidade, assinalada por essa conjuntura, surjam trabalhos tão inovadores e substanciais como os de Antonio Candido, Luiz Costa Lima ou Nelson Werneck Sodré, para mencionar apenas alguns dos mais importantes teóricos, críticos e historiadores da literatura e da cultura brasileira? Isso porque esses teóricos, críticos e historiadores criaram trabalhos de interpretação do fenômeno literário, da história da literatura nacional ou mesmo de crítica a obras referenciais do cânone nacional, que consistem em grandes e panorâmicas revisões de toda uma tradição que precedeu seus trabalhos e suas reflexões, o que por si só demanda tempo de leitura e análise que a universidade, hoje, já não nos oferece.

A universidade concebeu uma forma de organização institucional em que, a partir de posições francamente neoliberais e orientadas para os interesses do mercado, posições marcadas pela reestruturação do trabalho acadêmico em função de uma racionalização meios-fins de natureza explicitamente empresarial, todos os seus discursos mal dissimulam uma sanha produtivesca na qual nosso papel, como docentes e pesquisadores, termina reduzido ao do operário da reflexão: escrevemos artigos e orientamos pesquisas como quem fabrica pregos ou monta carros. A cada dia mais, geramos números em vez de conhecimentos. E isso já não significa reflexão efetiva. Aceitamos, desde as deliberações funcionalistas das instâncias gestoras da universidade, instâncias próprias e alheias, como conselhos orçamentários, comissões de avaliação do trabalho docente, agências de fomento à pesquisa, secretarias e conselhos públicos para a educação e a ciência, CAPES ou CNPq, aceitamos condições de trabalho que reificam o próprio pensamento. Assim, admitindo a febre dos resultados e dos produtos – novamente estamos, nas ciências humanas, diante do jargão empresarial que pensa em termos de mercado, produção, mercadoria e consumo –, terminamos muito mais próximos do pensamento a serviço da razão instrumental do que da reflexão teórica como condição primeira da liberdade e da autonomia intelectual. Se aceitamos tratar artigos, comunicações, palestras, aulas e orientações não como os desdobramentos de experiências teóricas mais coerentes e de reflexões críticas mais aprofundadas e detidas, que é o que eles deveriam ser, mas apenas como os índices que a administração universitária, na esteira das determinações dos diferentes órgãos reguladores da pesquisa em âmbito nacional e internacional, espera que eles sejam; se aceitarmos essa realidade, então nos despedimos pouco a pouco do pensamento verdadeiro, da razão teórica, da reflexão crítica, para nos convertermos, parafraseando Manuel Bandeira, em funcionários públicos “com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor” da empresa científica.
Esse estado de coisas só fez se intensificar desde que, há 17 anos, Nicolau Sevcenko, de forma bastante pontual e incisiva, num artigo intitulado “O professor corretor”, apontou de que modo a ideologia neoliberal dos governos de Ronald Reagan e Margareth Thatcher atingiu em cheio a própria universidade norte-americana e inglesa, mas não apenas elas, dado que, com diferenças importantes no que diz respeito ao caráter público de nossas universidades, adotamos o mesmo modelo no Brasil.11 Partindo de uma cerimônia póstuma ao professor Noel Annan, no King’s College da Universidade de Londres, Sevcenko deduz, a partir dos diferentes grupos docentes e suas posições no auditório, de que modo a universidade passou do elitismo acadêmico dos anos 1950 pela rebelião dos anos 1960, que “confrontou o elitismo universitário, rompendo seus preconceitos e escancarando suas portas para grupos excluídos e ideais renegados”,12 até chegar ao fundo do salão, onde se encontravam os docentes que chegaram às suas funções nos anos de 1990 e que, “buliçosos e ostensivos”, sabiam-se “os herdeiros do futuro”. Para Sevcenko, a madrinha espiritual desse grupo foi Margareth Thatcher, que, junto com Ronald Reagan, afirmaria uma agenda conservadora que acabou “retraindo a ação do Estado em favor das grandes corporações e do livre fluxo de capitais, abalando os sindicatos, disseminando desemprego, rebaixando a massa salarial e concentrando renda”, medidas que levaram à “grande epidemia de privatizações, das reengenharias e das flexibilizações”. Essa realidade política foi, sob muitos aspectos, o resultado de uma revolução tecnológica em curso nos anos de 1970, quando a engenharia eletrônica passou a desenvolver, numa velocidade espantosa, novos e cada vez mais poderosos circuitos integrados que conduziriam os anos de 1980 e 1990 ao apogeu de uma nova realidade técnica: a do domínio informático, comparado apenas à mecanização da produção industrial na primeira metade do século XX.
A revolução tecnológica capitaneada pela engenharia eletrônica, associada ao modelo conservador de gestão pública que Reagan e Thatcher colocaram em prática, levaram ao aspecto mais desastroso do cenário político-educacional em que, ainda hoje, nos encontramos. Isso se dá porque, de acordo com Sevcenko, essa agenda politicamente conservadora, associada à ideia de progresso informático e informacional, técnico, midiático e instrumental, acabou “forçando a mudança dos discursos de oposição”; isto é, mesmo os governos de esquerda ou trabalhistas, na Inglaterra, como os de Tony Blair, acabariam investindo todas as suas energias na ideia de que “a nova realidade só oferece oportunidades para o trabalho qualificado, portanto, o melhor meio de suscitar a promoção social deve ser necessariamente a educação”. A proposta parece bastante justa e nobre, isso se a educação não acabasse se confundindo totalmente com a via de acesso único ao mercado de trabalho, bem como a garantia do desenvolvimentismo científico e tecnológico, que vem pautando a sociedade de consumo nas últimas três décadas. Desse modo, cria-se um novo quadro social em que, como afirma Sevcenko, “a ideia não era mais garantir um bom emprego para todos conforme a tradição socialista, mas disseminar o espírito da concorrência agressiva por meio de uma nova agenda educacional, de modo que, num mercado cada vez mais concentrado, os mais aguerridos, os mais individualistas e os mais expedientes prevalecessem, em detrimento dos desfavorecidos em todos os quadrantes do planeta”.
É nesse contexto que a educação superior, bem como a pesquisa científica que ela promove e impulsiona, deixa-se assinalar pelo princípio da competitividade, da eficiência e, consequentemente, da produtividade. Sendo assim, a longa digressão nos ajuda a compreendermos como chegamos a esse estado de coisas da reflexão teórica na universidade de hoje. Permitimos que uma realidade político-mercadológica atingisse o próprio cerne do trabalho acadêmico, primeiro nos departamentos mais próximos da pesquisa tecnológica e da ciência como meio para o desenvolvimento técnico e material da sociedade, para, rapidamente, converter-se na ordem do dia de todo conhecimento gestado pela universidade, inclusive aquele mais dependente do trabalho teórico e do debate epistemológico detido: o das ciências humanas. Esse modelo de gestão universitária, orientado por índices de desempenho que avaliam o trabalho docente e, mais do que isso, racionalizam suas atividades em função da capacidade quase mecânica de gerar mais e mais produtos, pauta-se num discurso empresarial-administrativo, que submete o próprio conhecimento à condição de mercadoria a ser produzida e disseminada a partir da própria universidade. Daí Sevcenko afirmar que “nas universidades, o que prevalece é o modelo da administração eficiente, capaz de gerar seus próprios recursos estabelecendo nexos cada vez profundos com o mercado e com a corrida tecnológica”. O problema, obviamente, é que, no quadro das ciências humanas, reflexão teórica não vende, não gera patentes nem lucro, no entanto, ela é condicionada, nos sistemas de avaliação do trabalho nas universidades, pelo mesmo diapasão que estabelece a natureza do trabalho nas engenharias ou na química, por exemplo.
A realidade fica ainda mais desoladora se considerarmos que não se trata apenas de uma ideia de produtividade confinada a este ou aquele departamento cujas pesquisas acadêmicas implicam, decisivamente, o investimento no conhecimento técnico e no interesse prático com fins comerciais, no saber fazer que a ciência tecnológica solicita, mas de uma forma de pensar a ciência que divisa com o discurso e com a organização empresarial que se insinua no interior da universidade, mesmo a brasileira, que não depende de recursos externos a ela, nem em angariar fundos junto a potenciais investidores, mas que se racionalizou burocraticamente como a empresa comercial e que organizou seus quadros de trabalho em função de uma lógica administrativa que exige, cada vez mais, a concorrência por bolsas, recursos e investimentos públicos junto às agências de fomento. Com isso, criamos um sistema no qual, como sugere Sevcenko, “a eficácia de desempenho é medida em termos de sucessos estatísticos, de capitais, produtividade e visibilidade, todos conversíveis em valores de marketing para atrair novas parcerias, dotações e investimentos”.
Não é contingente que as universidades brasileiras, por exemplo, valorizem tanto os rankings internacionais, objetivando um lugar neles. E para figurar nesses rankings, é preciso, antes de tudo, ampliar substancialmente o número de publicações, ainda que não saibamos, com certeza, o impacto qualitativo que essas publicações criam sobre o próprio conhecimento. Não penso que o reconhecimento internacional não seja importante, ao contrário, mas se ele é pautado apenas por uma lógica utilitária e imediatista, que descaracteriza as singularidades dos diferentes saberes teóricos nas diferentes áreas do conhecimento científico, submetendo formas particulares de reflexão a um mesmo e imediato projeto desenvolvimentista, produtivesco, baseado em resultados cada vez mais rápidos em intervalos de tempo cada vez mais curtos, sem distinguir a natureza e a especificidade de disciplinas como a filosofia, a teoria literária, a sociologia, a ciência política etc. em relação à engenharia mecatrônica, à genética, à farmacêutica ou à siderurgia, por exemplo, impondo a todas elas o mesmo critério avaliativo de produtividade, então já não somos capazes de reconhecer a verdadeira razão do conhecimento científico: a compreensão de nós mesmos, de nosso lugar no mundo e das próprias demandas da sociedade em relação ao desenvolvimento científico e intelectual.
Inevitável, nesse contexto, considerarmos que essa estrutura administrativa conduz à reificação do conhecimento, convertido agora em mercadoria intelectual com fins funcionais. O pensamento, então, é orientado pelas práticas gerenciais responsáveis por enquadrar a reflexão teórica nos limites das necessidades institucionais, que consistem, basicamente, em corresponder aos diferentes indicadores que quantificam a participação da comunidade acadêmica brasileira nos resultados globais da pesquisa científica produzida no mundo. A divisão social do trabalho, como ideologia motriz da sociedade burguesa, e o neoliberalismo, como forma predatória de reduzir tudo à ideologia de mercado e consumo dominantes, afetaram até mesmo a lógica do trabalho intelectual e se amalgamaram ao pensamento e à reflexão, a ponto de, institucionalmente, acabarem por domesticá-los. Nesse caso, talvez fosse hora de resgatar, para a teoria e para a ciência, as afirmações de Adorno e Horkheimer sobre a filosofia, entendida não como disciplina, mas como prática efetiva do pensamento, ao afirmarem que “contrariamente a seus administradores, a filosofia representa, entre outras coisas, o pensamento, na medida em que este não capitula diante da divisão de trabalho dominante e não aceita que esta lhe prescreva suas tarefas”. Indo além, seria preciso recuperar, da tradição filosófica, a liberdade e a autonomia da razão diante do mundo administrado que se tornou a universidade, já que “a ordem existente não compele os homens unicamente pela força física e pelos interesses materiais, mas pelo poder superior da sugestão. A filosofia não é síntese, ciência básica ou ciência-cúpula, mas o esforço de resistir à sugestão, a decisão resoluta pela liberdade intelectual e real”.13

Diante desse quadro, um dos grandes problemas enfrentados pela teoria literária, hoje – a teoria literária que é minha área particular de atuação –, é o que podemos chamar de institucionalização do pensamento e da reflexão teórica. Isso quer dizer, de forma bastante objetiva, que a teoria da literatura está confinada, sobremaneira, à universidade. Não acredito que isso seria um problema se a universidade, por sua vez, não tivesse subsumido o conhecimento que cria, ou sobre o qual reflete, discute, verifica ou questiona, aos valores, princípios, normas ou dispositivos reguladores alheios à episteme científica, aos problemas de método ou aos próprios saberes que o conhecimento mobiliza. Toda reflexão teórica implica, por princípio, o lento e detido esforço de confrontar-se com ideias, argumentos, postulados, conceitos, estruturas analíticas, modelos interpretativos, buscando apreender o quadro geral a partir do qual o objeto do conhecimento teórico emerge, a um só tempo, em sua universalidade conceitual e em sua singularidade estética. Isso demanda rever ideias, refletir sobre a extensão e o alcance de certos conceitos, compreender a fundo determinados métodos de análise, criar formas de mediação entre o discurso teórico e a prática interpretativa e crítica, que solicitam uma reflexão mais cuidadosa, um convívio mais detido e um comprometimento maior com o pensamento. Ao submetermos a reflexão teórica ou crítica às exigências institucionais de publicação, o que significa publicar tantos artigos por triênio em revistas indexadas e, de preferência, com qualis A1 ou A2, reduzimos o compromisso da teoria com o saber a mero subsídio instrumental de leituras e análises em que, não raro, a teoria serve exclusivamente como dispositivo pouco refletido acerca de sua própria pertinência em relação aos objetos que ela, supostamente, deveria contribuir para a leitura.
Nesse sentido, a teoria da literatura enfrenta o desafio, já de saída inglório, de conceber um conhecimento que tenha alcance e validade universais sobre um objeto, a literatura, que se recusa, sistematicamente, a qualquer síntese universalizante, definição genérica ou conceituação absoluta porque, de todos os saberes humanos, a literatura (as artes, em geral) é aquele que depende não só da história, da cultura, da sociedade, da ideologia e das formas de pensamentos predominantes nos contextos específicos em que surge ou para os quais se desloca, mas também da própria e ubíqua natureza estética dos discursos que lhe servem de expressão. Uma teoria literária digna desse nome, então, pressupõe um exercício reflexivo acerca de questões como as das circunstâncias históricas, políticas, culturais e sociais, as das formas de representação e das estruturas internas do discurso literário, as do valor e da natureza da linguagem, bem como seu alcance simbólico, as do gosto, as das formas de produção e circulação das obras literárias, entre outras. Questões dessa amplitude demandam uma reflexão muitas vezes longa e acidentada, uma luta permanente com discursos e formas de pensamento mais ou menos dominantes que, além do próprio conhecimento teórico, envolvem, também, a aproximação atenta a uma multiplicidade de objetos literários. Diante desse quadro, o tempo é mais do que fundamental – ele é a condição essencial da tarefa do pensamento. No entanto, a lógica norte-americana do “publique ou pereça” passou a nortear, sem qualquer resistência mais explícita, forte ou organizada da parte dos pesquisadores, a natureza de nosso trabalho, colocando as ciências humanas num impasse de improvável solução: como refletir atentamente sobre temas ou autores cujas obras somam uma multiplicidade de leituras e análises históricas precedentes se, em muitos sistemas avaliativos, um artigo em periódico indexado conta tantos pontos quanto um livro publicado, como é o caso da Planilha de Avaliação do Trabalho Docente da UNESP.14 O conhecimento teórico, muito mais exigente em termos de reflexão, míngua diante de uma realidade que toma a própria reflexão como simples dispositivo no trabalho de escrever artigos e publicá-los.
Na verdade, estamos levando tão a sério a ideia de “publicar ou perecer” que algumas universidades públicas, como aquela na qual trabalho, por exemplo, pressupõem, em seus instrumentos de avaliação, a possibilidade do docente-pesquisador ser rebaixado de regime, perdendo o RDIDP (Regime de Dedicação Integral à Docência e à Pesquisa), com consequente perda salarial, caso não alcance as metas de produção estabelecidas pelos órgãos institucionais, que desempenham o papel de gerenciar a fabricação do conhecimento e, ao mesmo tempo, fiscalizar a linha de produção.15 Não que os docentes não devam ser avaliados pelo trabalho que realizam, nem que a universidade não deva ter meios para prestar contas à sociedade, que financia nossas atividades, acerca daquilo que estamos de fato fazendo com o dinheiro público que essa mesma sociedade investe na universidade. Ao contrário, é essencial que existam diferentes meios e formas de prestação de contas das atividades de docência e pesquisa realizadas na academia, mas esses meios de verificação não podem se converter em instrumentos burocráticos a reger, ideologicamente, a natureza da investigação intelectual nem mesmo servir como dados únicos e absolutos acerca do alcance das ideias e do pensamento gestado pela universidade sobre o universo de conhecimentos que já circulam em uma determinada área do saber ou em determinados campos do saber. Vejamos um exemplo que parece bastante apropriado para a presente discussão: apenas entre 2013 e meados de 2017, segundo o Análise Visual, banco de dados da CAPES em que se pode verificar diferentes índices relacionados aos nossos programas de pós-graduação, foram defendidas, somente na Área de Conhecimento em Letras (os Estudos Literários), um total de 11.238 trabalhos, sendo 8.646 dissertações e 2.592 teses.

De acordo com esses números, é inegável que estamos diante de uma ampliação significativa e importante da quantidade de pesquisas realizadas na área, no Brasil, em relação aos anos de 1990, por exemplo. Indo além, segundo artigo “Research Landscape in Brazil: Challenges and Opportunities”, de autoria de Osvaldo Oliveira Jr., somente em 2014 foram publicados 40.500 artigos, levantamento feito apenas em revistas indexadas pelo Web of Science.16 No entanto, parafraseando Caetano Veloso, em “Alegria, Alegria”, caberia nos perguntarmos: “mas, afinal, quem lê tantas dissertações, teses e artigos?”. Temos os índices quantitativos, mas não dispomos de nenhum meio, além de instrumentos como o My Citations, do Google Scholar, e outros similares, para verificarmos o quanto determinados trabalhos de pesquisa têm um efetivo alcance sobre outros trabalhos da mesma natureza. Podemos, no máximo, saber quanto desse conhecimento é referenciado por outros artigos, livros, capítulos de livros, dissertações ou teses, mas não temos uma forma eficaz para compreendermos, substancialmente, o quanto do conhecimento gerado pelas universidades e outras instituições de pesquisa verdadeiramente alcança a sociedade, atende aos seus interesses ou modifica nossos modos de percebermos a nós mesmos, a própria sociedade, a cultura, a política, a economia, a educação e a importância real do trabalho teórico e reflexivo. Na verdade, a cada dia mais temos a impressão de que o trabalho intelectual não só encontra pouco eco na vida social, como os cidadãos parecem colocar, cada vez mais sob suspeita, a figura do pensador público.
Isso se dá, também, porque a visão que a sociedade tem da ciência ainda é, justamente, a dos tipos de ciência que se consagraram publicamente, ou seja, aquelas que, de algum modo, dão origem a descobertas, instrumentos ou dispositivos que atendem à imagem que o público tem da ciência como técnica voltada exclusivamente para o progresso tecnológico e material da sociedade, o mesmo progresso que Baudelaire chamara, um dia, de “fanal obscuro” da modernidade. Nesse sentido, e diante desses números, é preciso dar alguma razão a Lindsay Waters, quando ele afirma que “florestas inteiras estão sendo derrubadas para agradar aos grandes administradores universitários, que acreditam que estão melhorando o perfil de suas instituições ao elevar os ‘padrões’ para as promoções e para se conseguir estabilidade no emprego [tenure]. E editores inescrupulosos e sedentos de dinheiro conspiram nesse jogo de falsas promessas. Métodos modernos e altamente sofisticados de contabilidade foram utilizados para computar o trabalho da comunidade de estudiosos, e está ocorrendo, como consequência, o inesperado esvaziamento do trabalho da academia”.17 Novamente, no caso da Planilha de Atividades Docentes que avalia o trabalho na universidade em que ensino, pesquiso e oriento, somos convocados até mesmo a captar recursos junto aos órgãos de fomento à pesquisa externos à universidade, pois isto é considerado uma de nossas atribuições funcionais e algo francamente estimulado pela administração. Com isso, parte considerável das tarefas desenvolvidas dentro da universidade acaba circunscrita a ritos burocráticos típicos de qualquer agência bancária.
A universidade encontra-se presa a um modelo administrativo que, cada vez mais, acaba por confundi-la, do ponto de vista não só da organização interna, mas também dos discursos que envolvem a natureza do trabalho de docência e pesquisa, com uma racionalidade empresarial que age em função de noções como as de eficiência, produtividade, concentração de esforços, otimização do tempo e dos recursos, que submetem o pensamento e a reflexão teórica às demandas do que podemos chamar de empreendedorismo acadêmico. A relevância efetiva do trabalho de pesquisa, na universidade, é avaliada por meio de índices, números, planilhas para avaliação do trabalho ou para medição, com vistas à progressão na carreira, dados estatísticos e critérios de qualidade que se restringem, quase que exclusivamente, à capacidade do pesquisador em publicar cada vez mais, num espaço de tempo cada vez menor. E nem preciso mencionar que essa realidade já atingiu, há anos, o processo de orientação, com mestrados e doutorados reduzidos a dois e quatro anos de pesquisa, respectivamente, além da ampliação, ano a ano, do número de ingressantes nos programas de pós-graduação, já que a ideia é justamente a de aumentar cada vez mais os quadros, popularizando a ciência e, ao mesmo tempo, garantindo também o aumento nos índices e resultados, de acordo com as demandas da CAPES, por exemplo. Isso leva, consequentemente, não apenas ao sistemático aligeiramento da reflexão científica, mas, antes de tudo, a uma sobrecarga de orientandos, que não podem receber a atenção detida que o trabalho de orientação exige.
Desse modo, numa dinâmica de escritório contábil, mestrandos e doutorandos confundem-se, funcionalmente, com contínuos das ideias, amanuenses de uma reflexão que já nasce instrumentalizada pela precedência da produtividade e pela urgência dos Relatórios CAPES na linha do horizonte. Com isso, mais e mais o elemento mediador do pensamento teórico não é o conhecimento científico e suas exigências – de rigor, método, percepção teórica, reflexão crítica e analítica, discussão, enfrentamento, verificabilidade e alcance das ideias –, mas o cronograma de trabalho e a obrigação de publicar, antes mesmo de obter quaisquer resultados concretamente refletidos. Ninguém com algum bom senso pode, de fato e em face desse estado de coisas, admitir que estamos diante do melhor dos mundos possíveis. Antes, a forma açodada como essas pesquisas acabam por se realizar diz muito contra a efetiva qualidade reflexiva, analítica, crítica e interpretativa de boa parte delas. Não se pode esperar, com efeito, que pesquisas dirigidas unicamente em função dos cronogramas e prazos institucionais determinados possam implicar em revisões teóricas adequadas, pertinentes e sistematicamente realizadas. Além disso, como esperar, ao mesmo tempo, originalidade e criatividade de trabalhos que são escritos sob a lógica do calendário acadêmico, que ainda pressupõe publicar artigos, escrever comunicações e participar de eventos, que vão se tornando, ano a ano, uma espécie de feira livre dos certificados exigidos para fins de comprovação do currículo Lattes para concursos públicos e a obtenção de créditos em atividades?
Por isso mesmo, o que há trinta ou quarenta anos poderia parecer um truísmo, na realidade administrada da universidade contemporânea assume ares de uma epifania incômoda: orientandos deveriam ser interlocutores de um conhecimento dialeticamente construído a partir do esforço reflexivo conjunto, e não secretários da crítica ou estagiários da teoria, com vistas à titulação e ao anuário estatístico, que deverá compor o relatório de avaliação dos programas de pós-graduação. É inevitável pensar que os caminhos da teoria literária – e do próprio pensamento, de modo geral, nas ciências humanas – passam por uma crise que, por alto, parece contraditória, pois nunca se publicou tanto na área como nos últimos quinze anos. Por outro lado, o debate teórico nunca pareceu tão ligeiro, superficial e, em muitos casos, obtuso, como no mesmo período. Isso porque, se o quadro geral da pesquisa científica acaba implicado por uma racionalização administrativa instrumental do trabalho acadêmico, agora fundado em índices e dados ideologicamente determinados pela numerificação quantitativa, que garante, entre outras coisas, o próprio funcionamento público da pesquisa18, então a natureza do pensamento teórico termina mediada por uma lógica utilitarista que pressupõe o conhecimento em série, francamente orientado pelos interesses avaliativos que se pautam pelo imediatismo dos resultados e pela maximização dos esforços reflexivos. Em resumo, a única coisa que importa é que se publique e que se defenda dentro dos prazos estabelecidos de forma exógena aos interesses ou necessidades da própria pesquisa científica. Taylor e Fayol ficariam satisfeitos ao reconhecerem suas ideias postas em prática pela administração universitária e admitidas, sem grandes reservas, por boa parte dos pesquisadores e docentes envolvidos neste processo. Inauguramos, dessa forma, o pensamento em série, que produz artigos, dissertações e teses com a mesma eficiência com a qual a Toyota produz carros ou a Lorenzetti, chuveiros.
Um exemplo que parece importante à discussão: como docente credenciado a um programa de pós-graduação, estive em bancas (em três anos, algo em torno de quarenta), cujos trabalhos de pesquisa versavam, como era de se esperar, sobre diferentes objetos. No entanto, algo que sempre me chama a atenção é a forma como a literatura vem sendo lida em parte dessas pesquisas. São trabalhos cujo horizonte teórico mobiliza as reflexões de filósofos como Deleuze e seus rizomas, Derrida e a desconstrução, Foucault e os discursos de poder na sociedade contemporânea. Não é forçosamente a presença desses filósofos ou pensadores, mobilizados teoricamente, que me incomoda, mas o fato de que, em geral, as ideias desses autores são veiculadas, nas pesquisas, em função de um quase completo despedimento da teoria literária, o que significa que Deleuze, Derrida ou Foucault têm seus pensamentos instrumentalizados na leitura do texto literário sem nunca terem tido a pretensão de fazer teoria literária. Isso leva a um segundo dilema reflexivo: as ideias e os argumentos desses autores, não raro, são tomados diretamente de seus textos, deduzidos de suas obras, sem mediações críticas ou, o que é pior, sem uma reflexão que coloque em jogo, de modo franco e sistemático, o alcance dessas ideias e argumentos na compreensão do fenômeno literário. Cria-se, com isso, a noção de que todo pensamento, independentemente de suas razões, motivos, objetivos ou princípios, é extensível à obra literária e pode ser ajustado ao conhecimento da literatura, nem que seja ao custo de uma platitude reflexiva que transforma o fenômeno literário em justificativa e ilustração de ideias esotéricas ao domínio imediato da teoria literária.
O tratamento científico honesto que a reflexão levada a cabo por esses filósofos demanda não parece compatível com um mestrado ou um doutorado regulado pelo cronograma das agências de fomento à pesquisa e dos programas de pós-graduação. Daí, talvez, os equívocos conceituais, os argumentos obtusos, a adesão simplista às posições filosóficas desses autores, a relação direta, sem maiores desdobramentos analíticos ou críticos, entre um saber com sua epistemologia particular – a filosofia – e uma prática discursiva – a literatura, que por si só já é uma interpretação do mundo. Não é ocasional acontecer, então, do objeto literário figurar, nessas pesquisas, como elemento ilustrativo das ideias filosóficas postas em causa por esses autores. O cenário, como não poderia deixar de ser, é o do despedimento da crítica e o do fascínio deslumbrado e fácil do discurso filosófico. Problemas dessa natureza não derivam, exclusivamente, da pretensão de se produzir, no domínio da teoria literária, um conhecimento inovador, baseado na busca por uma interdisciplinaridade capaz de ampliar os limites metodológicos da teoria literária, nem mesmo que sejam o resultado de modismos intelectuais mais ou menos inconsequentes ou pouco refletidos. Acredito que se trata destes dois fatores, acrescidos, diretamente, pela exigência de produzir em escala industrial, observando muito mais os prazos de pesquisa e as demandas de publicação e resultados imediatos do que o próprio alcance e validade teórica das ideias postas em circulação.19

Os mecanismos de gestão e controle da produção, na universidade, tornaram-se tão efetivos e enraizados na cultura acadêmica que já não parece haver saídas ou rotas alternativas possíveis que nos permitam contornar essa realidade. A dinâmica da linha de montagem intelectual aplica-se até mesmo na radical especialização do conhecimento, fragmentado em disciplinas, linhas de pesquisa, autores e temas cada vez mais pontuais, colocando de lado a ideia clássica, desde o Iluminismo, da busca pela totalidade extensiva dos saberes, ao menos dentro da área de conhecimento em que nos encontramos, pela comunicação entre diferentes disciplinas e teorias, pela interdependência entre distintas formas de interpretação do homem, do mundo, da vida, da sociedade, da política, da arte e da cultura. Como sugere Jean-Claude Guillebaud, em A reinvenção do mundo, “tornou-se, sem dúvida, irrealizável aquele velho sonho que um dia motivou um Condorcet, um Diderot ou um D’Alembert: reunir em suas mãos o essencial da inteligibilidade do mundo, juntar os pedaços desse espelho quebrado em que tentamos sem cessar o reflexo de nossa humanidade”.20 A ideia de comunidade acadêmica parece agora uma nostalgia, a imagem remota de um momento em que esta ainda se orientava pela bússola da convivência de diferentes saberes, da participação no mundo da vida cotidiana, da circulação dos conhecimentos, da afirmação da teoria e da ciência como meios para influir sobre a esfera pública, formas de agir sobre as consciências e a sociedade, promessas de um pacto social em que o pensamento fosse catalisador das mudanças pressentidas e desejadas. Hoje, me parece, a melhor forma de pensar a universidade é considerando a afirmação de Mencken acerca do casamento, e o quanto ela parece bastante apropriada para refletirmos sobre nossa realidade objetiva diante da natureza intelectual de nosso trabalho: a universidade é uma instituição maravilhosa, mas quem quer viver numa instituição?

Agradeço aos amigos Edison Bariani e Eduardo Coleone, com quem discuti muitos dos argumentos presentes neste artigo. Também o dedico a eles, pelo que representam em termos de autonomia, liberdade intelectual, compromisso e lealdade ao trabalho.
O autor é professor de Teoria Literária da UNESP
marcioscheel@uol.com.br
NOTAS DE RODAPÉ

1. “De fato, muitas universidades nem mesmo deixam os comitês de promoção e estabilidade examinar os trabalhos escritos de um candidato, quando chega o momento de tomar uma decisão, insistindo que eles apenas examinem as cartas sobre seu trabalho” (WATERES, 2006, p. 34).

2. (WATERS, 2006, p. 17).

3. (WATERS, 2006, p. 17-18).

4. (WATERS, 2006, p. 18).

5. (WATERS, 2006, p. 18).

6. (ADORNO e HORKHEIMER, 1985, reimpressão, 2006, p. 199).

7. (ADORNO e HORKHEIMER, 1985, reimpressão, 2006, p. 199).

8. (ADORNO e HORKHEIMER, 1985, reimpressão, 2006, p. 199).

9. (ADORNO e HORKHEIMER, 1985, reimpressão, 2006, p. 199).

10. Ainda hoje, a melhor discussão sobre o lugar que a sociedade deveria, de fato, ocupar em relação ao conhecimento científico, suas práticas, objetivos, alcance e verdades é o realizado por Paul Feyerabend em A ciência em uma sociedade livre (2011). Feyerabend discute justamente o fato de que a ciência moderna acabou por se legitimar como uma voz de autoridade, que deslocou para as margens quaisquer outras formas de explicação do mundo, da vida, das coisas e dos fenômenos, de modo a se tornar legisladora e juíza de todas as causas públicas, sociais, políticas, estéticas, culturais etc. E isso à revelia das sociedades, que não só contribuem com o financiamento do trabalho científico, mas que, também, é a primeira vítima dos desmandos que a ciência também é capaz de gerar.

11. No Brasil, como se sabe, as instituições privadas de ensino superior concentram-se, basicamente, na formação discente no âmbito dos cursos de graduação, bacharelado e licenciatura, sendo raras as que possuem uma estrutura voltada, também, para a pesquisa em nível de pós-graduação. Em 2011, por exemplo, o percentual de matrículas por curso de pós-graduação era de 16,2% em instituições privadas contra 83,8% em universidades públicas. Os dados podem ser mais bem avaliados no artigo “A evolução do ensino da pós-graduação senso estrito no Brasil: análise exploratória e proposições para pesquisa”, de Claudia Brito Silva Cirani, Milton de Abreu Campanario e Heloisa Helena Marques da Silva, publicado na revista Avaliação (Campinas; Sorocaba, SP, v. 20, n. 1, p. 163-187, mar. 2015).

12. In: O artigo de Nicolau Sevcenko foi publicado no antigo “Caderno Mais”, da Folha de São Paulo, em 4 de junho de 2000. Para consulta, ver: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0406200004.htm.

13. (ADORNO e HORKHEIMER, 1985, reimpressão, 2006, p. 200).

14. Não é raro, nesse sentido, nos depararmos com recomendações, de diferentes colegas e pesquisadores na área de humanas, que implicam organizar os trabalhos de pesquisa ao longo do triênio, de modo a publicar diferentes artigos que, depois reunidos, se transformariam numa publicação em livro, capitalizando, assim, a “produção” e justificando o trabalho em função do que seria, na prática, a repetição sistemática das mesmas ideias em diferentes suportes e não o trabalho sistemático de reflexão teórica, como deveria ser o quadro ideal do pensamento na universidade. O mesmo se daria com palestras, conferências e participação em eventos: organizar as comunicações de modo a, depois, publicá-las em revistas especializadas e, quem sabe, reunir o resultado dessas mesmas publicações em livro depois. E o cenário se repete na recomendação feita a mestrandos e doutorandos para que “fatiem” suas dissertações ou teses em diferentes artigos e os publiquem, para capitanearem índices de “produtividade” no currículo Lattes e ampliarem as chances de aprovação nos concursos públicos que, justamente pela falta de dispositivos melhores de avaliação do trabalho e do impacto intelectual das pesquisas dos candidatos, se satisfazem por contar quantas publicações eles realizaram entre seu período de formação e a data do concurso.

15. Eis o item 6, da Instrução Normativa 01/2007, da CPA, que regula as atividades docentes na UNESP: “Para manter-se em RDIDP, o docente deverá ter, no triênio, média igual ou superior a 50 pontos. A pontuação considerada ideal deve ser igual ou superior a 70 pontos. Docentes que tiverem pontuação entre 50 e 69 pontos deverão ter seu processo encaminhado à CPA, que analisará a atuação do docente e o alertará sobre a necessidade de melhorar seu desempenho em alguma(s) das cinco dimensões consideradas. Os critérios não serão aplicados observando tão somente a produção anual, mas sim a média de um período de três anos de atividades do docente”. O mesmo se dá com docentes em RTC (Regime de Turno Completo), que devem corresponder a, no mínimo, 60% dos pontos estabelecidos para o RDIPD. Conf: http://www.ibilce.unesp.br/Home/Administracao456/DivTecAcademica/instrnormativa01_2007cpa.doc.

16. The Journal of Physical Chemistry, 120 (10), 2016, p. 5273-5276. DOI: 10.1021/acs.jpcc.6b01958.

17. (WATERS, 2006, p. 14).

18. É preciso considerar que, de acordo com o sistema vigente de aplicação de recursos públicos pelas agências reguladoras, no Brasil, quanto maior os índices de produção e publicação do corpo docente e de orientadores ligados aos programas de pós-graduação, maior o número, por exemplo, de bolsas de pesquisa alocados nos programas. A divisão não é igualitária e determina, de saída, a ideologia da produtividade.

19. Claro que não pretendo, com o exemplo pessoal, justificar todo o trabalho de pesquisa realizado na área da teoria literária ou das ciências humanas em geral, mas acredito que todo pesquisador, docente e orientador que tenha participado de um número suficiente de bancas reconhece que o quadro produtivista, regulado por prazos e normas que constrangem cada vez mais o tempo de reflexão, somado aos modismos intelectuais que são, quase sempre, inevitáveis no contexto da reflexão crítica, acaba por resultar em trabalhos cuja qualidade dos argumentos, das ideias e das próprias análises é sofrível, para usar um eufemismo, embora nem sempre possamos dizer isso e quase nunca acabemos, de fato, por reprovar um trabalho que não corresponde, adequadamente, ao que se espera de uma dissertação ou tese. Assim, contribuímos com o quadro geral e ajudamos, com isso, a alimentar a obtusidade que caracteriza o pensamento teórico no espaço acadêmico nos dias de hoje.

20. (GUILLEBAUD, 2003, p. 27).

 

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