O povo nas ruas

O povo nas ruas

Abolição da escravatura

O povo reunido no Largo do Paço (atual Praça 15) saúda a Princesa Isabel, na sacada central do Paço Imperial, logo depois da assinatura da Lei Áurea.  Trata-se do primeiro registro fotográfico de uma manifestação cívica do povo no Brasil. Para os padrões da época (o Rio tinha 500 mil habitantes), foi uma multidão imensa, equivalente ao milhão que os paulistas puseram na rua no último 15 de março – com o agravante de ter sido a primeira vez. “Eu vi o povo pela primeira vez”, diria Machado de Assis. As elites não gostaram, e Dona Isabel perdeu o trono.

 

Revolução de 1930

Pela primeira vez desde a abolição – 40 anos antes –,

as multidões retomaram às ruas em uma explosão cívica, queimando os jornais da situação oligárquica e saudando as tropas do Gegê, que chegavam do Rio Grande do Sul para amarrar os cavalos no obelisco. Mas o povo foi na onda do movimento militar, que foi detonado pelos insatisfeitos do regime decaído. Um deles, o mineiro Antônio Carlos, já antecipara: “Façamos a revolução antes que o povo a faça!”.

Dito e feito.

 

Revolução constitucionalista

Imagem da reação ao movimento anterior. A revolução de 1930 destronara São Paulo do posto de Prússia brasileira. O presidente deposto, Washington Luiz, era paulista, e o seu sucessor eleito, que jamais tomaria posse, era outro paulista: Júlio Prestes. O governo revolucionário centralizou o poder e nomeou interventores para governar a locomotiva do Brasil. Os quatrocentões ficaram indignados e acionaram o patriotismo estadualista, pondo o povo na rua e pedindo ouro por São Paulo na Revolução Constitucionalista de 1932. Foi a única “revolução” célebre por uma batalha que não houve: a de Itararé. Os paulistas perderam, mas levaram: a Constituição viria em 1934.

 

Integralismo

Desfile integralista pelas ruas de São Paulo em 1936. O integralismo de Plínio Salgado pretendia ser uma espécie de fascismo brasileiro, autoritário, nacionalista e católico. Esse partido de extrema-direita foi o primeiro a colocar o seu “exército” na rua – e, como se pode ver, era bem mais numeroso e organizado que o do Stédile. Mas não escapou da galhofa popular. Por causa do seu uniforme esverdeado, refletindo a cor brasileira, foram logo apelidados de galinhas verdes. O advento do Estado Novo acabou com o integralismo que, inconformado, tentou matar Getúlio atacando a sua residência, que era o Palácio Guanabara.

 

Morte de Vargas

O cortejo fúnebre do presidente Vargas depois do seu suicídio em 1954 foi a primeira manifestação cívica massiva de comoção pública no Brasil. A massa saiu do Palácio do Catete em direção ao Aeroporto Santos Dumont e se estendia por quase um quilômetro à frente, ao lado e em torno do caixão. A foto mostra o cortejo passando pela Praça Paris. Antes, já haviam queimado as oficinas de O Globo, principal jornal da oposição na capital, e revirado os seus carros de entrega de jornais. Os inimigos de Vargas tiveram de se esconder. O último ato de Vargas, já cadáver, foi eleger Juscelino presidente, contra o candidato da UDN. Cadáver de presidente mais forte do que muito presidente vivo…

 

Comício de Jango na Central do Brasil

Março de 1964. Olha lá o retrato do Gegê, dez anos depois. Em cima, o do Jango, presidente afilhado de Vargas que dali a pouco jogaria suas últimas fichas políticas: prometeu reforma agrária, reforma bancária, reforma financeira etc. O comício foi politicamente desastroso, acenando com uma radicalização que inclinou definitivamente a opinião pública e os militares indecisos para a solução golpista. De boa lembrança do comício, ficou só a imagem da linda esposa de Jango, Maria Teresa, no palanque, ao lado do marido. Dizia-se que era mais bonita que a Jackie Kennedy. Será?

 

Marcha da família

Esta foto também é a reação à anterior. Trata-se da Marcha da Família com Deus pela Liberdade em 1964, que reuniu a elite branca, golpista e de olhos azuis (ou seriam verdes?) duas semanas depois do comício da Central. Admirem os belos modelitos parisienses, os lenços londrinos na cabeça das duas senhoras no primeiro plano, bem como o pequenino terço por elas carregado, “comprado em Itu”. Naquele tempo, elas ainda punham as empregadas para baterem as panelas no lugar delas.

 

Diretas já

O comício na Praça da Sé, em 1984, foi o maior da campanha capitaneada por Ulysses Guimarães e Tancredo Neves. Tudo muito bonito, menos o fato de que no fundo eles preferiam mesmo que o Colégio Eleitoral escolhesse o futuro presidente civil. No fim, foi o que aconteceu. Mas a mobilização da campanha foi fundamental para acabar de cantonar os militares e despertar o sentimento cívico popular, depois de tanto tempo de nacionalismo oficial fabricado pelo regime autoritário. A oposição se apropriou do Hino Nacional.

 

Caras pintadas

Quem não se lembra de um chefe de Estado autoritário, que metia medo em todos à sua volta, que se acreditava predestinado, mas fez uma administração que tinha tanto de voluntarista quanto de desastrada e amadora? Que acreditava guardar até o último momento uma popularidade que se esvaiu velozmente até despertar a ira da população, que outrora o afagava e que passou a pedir a sua cabeça? Que se viu envolvido, ou pelo menos acusado de envolvimento, em escândalos que implicavam sexo e corrupção, inclusive dentro da própria família? Que afinal foi obrigado a retirar-se do poder? Sim, vocês sabem de quem estamos falando: Dom Pedro I, claro!

 

Manifestações de 2013

É o enigma dos enigmas, embora não devore quem não o decifre. O significado caleidoscópico das manifestações de junho de 2013 nunca foi elucidado de modo satisfatório. Foram conservadoras? Liberais? Reacionárias? Progressistas? Queriam depor os governos? Ou só baixar o preço dos ônibus? Queriam melhores serviços? Ou o fim da corrupção? Queriam a reforma política? Ou melhoria na mobilidade urbana? Até hoje sequer sedimentou-se uma nomenclatura para designá-las: Jornadas de junho? Revolução de junho? Passeatas? Seja o que for, elas representaram um ponto de virada fundamental nos ventos políticos que vinham soprando no país nos últimos vinte anos. Para onde é que vão? Não se sabe.

 

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *