O poder da e na família – o peso da Coroa

O poder da e na família – o peso da Coroa

Marcia Neder, Psicanalista

 

Megxit: “dois pirralhos mimados”?

Na primeira semana de janeiro deste ano fomos surpreendidos com uma notícia e muita polêmica: Harry e Meghan anunciaram a decisão de renunciar a suas funções na família real britânica. “Decidimos fazer uma transição neste ano, começando a desempenhar um novo papel progressivo dentro desta instituição. Pretendemos renunciar a membros seniores da família real e trabalhar para nos tornarmos financeiramente independentes, enquanto continuamos a apoiar totalmente Sua Majestade, a Rainha.”

O casal quer sair de cena, deixar os holofotes porque não pode mais suportar o assédio da imprensa, com a qual está brigando judicialmente e quer outro ambiente para criar o filho Archie. Harry se queixa do racismo desde que começou a namorar Meghan. Alguns jornais criticam sua mulher “quase diariamente”, publicando mentiras e até violando sua correspondência e sua privacidade com escuta ilegal.

A mídia chamou a decisão do casal de Megxit, associando Meghan com Brexit (a saída tumultuada do Reino Unido da União Europeia), mostrando que considera Meghan, “a duquesa caprichosa”, “a duquesa difícil”, a culpada por separar Harry do irmão, da família, do país e do seu povo. Funcionários da família real a apelidaram de “Me-Gain” (o som em inglês parece com “migraine”, que significa enxaqueca). Nada de novo no roteiro da misoginia que nos é familiar em nossa cultura, na qual ela é sempre a culpada e ele uma vítima da mulher. Complementada pela ambivalência que envolve a figura da estrangeira, da invasora, da que não pertence a “nós”, ao nosso grupo.

Jonny Dymond, repórter da BBC para assuntos da realeza, diz ser injusto culpar Meghan por essa separação, pois Harry estava nitidamente entediado com seu papel de príncipe. A decisão foi motivada, em grande parte, pelo trabalho da família real que o casal “simplesmente não suportava”. Em um vídeo da BBC, Dymond explica: “Por que eles estão se afastando? Eu acho que a resposta é óbvia para quem esteve perto do casal como eu, e os acompanhava em suas funções e viagens. Eles simplesmente não gostavam de grande parte do trabalho. Harry odiava a parte cerimonial e detestava as câmeras. Meghan disse que não queria ser uma figura sem voz, mas na prática era criticada sempre que manifestava suas opiniões. Eles não gostavam de muitas de suas funções como protagonista”.

Uma regra imperativa para todo membro da família real britânica é a de “criar a imagem perfeita que todo cidadão tem prazer de ver”, explica Dymond. O cidadão e a nação, diz ele, projetam na família real aquilo que querem ver em si mesmos. A família real deve ser “nossa imagem espelhada”. Deve ser a imagem do que desejamos ser, do nosso ideal.

Um momento decisivo do Megxit foi o documentário sobre a viagem do casal à África, que foi ao ar em outubro do ano passado pela ITV. Harry e Meghan falaram abertamente sobre as dificuldades que sentiam com a nova vida e com o que estavam sofrendo com a imprensa britânica, acusada por Harry de realizar uma “campanha implacável” contra sua mulher. O príncipe também falou sobre sua saúde mental, novamente abalada. “Perdi minha mãe e agora vejo minha mulher sendo vítima das mesmas forças poderosas (…) Meu maior medo é que a história se repita. Já vi o que acontece quando alguém que amo é tão mercantilizado ao ponto de não ser tratado ou visto como uma pessoa de verdade (…) A mídia é uma força poderosa.”

Já o antigo secretário da princesa Diana, Patrick Jephson, vê a decisão de Harry e Meghan como o ápice de uma escalada alucinante em que “a vaidade triunfa sobre o dever”. O casal viveria entre a vitimização face ao assédio da imprensa e as bandeiras sociais e ambientais, provocando confusão e barulho – exatamente o que qualquer membro da família real é obrigado a evitar.

Piers Morgan, ex-editor do Daily Mirror, chama Harry e Meghan de “dois pirralhos mimados”, dois fedelhos, duas crianças tiranizando a família real e desafiando a autoridade da rainha. No dia seguinte ao comunicado oficial ele foi ao Twitter expressar sua ira:

– Cuidado meggie (o “m” é do autor), a Rainha pode demitir você!! Se não gosta, volte para a América!!!

Harry e Meghan:

– Nós estamos renunciando como membros seniores da realeza para trabalharmos e sermos independentes do dinheiro público.

Morgan:

– COMO VOCÊS SE ATREVEM, PIRRALHOS MIMADOS!!! (caps lock do autor).

Imprensa sensacionalista e imprensa mais tradicional repercutem as acusações em suas primeiras páginas. The Sun: “‘O príncipe Harry e Meghan Markle são dois pirralhos mimados’ que mantêm a monarquia como refém, explode Piers Morgan”. The Guardian: “Meghan e Harry são ‘os dois pirralhos mais mimados da história’, de acordo com o comentarista e ex-editor do Mirror, Piers Morgan”. “Harry e Meghan: a história do casal que desafia a monarquia britânica” e, finalmente, “os dois pirralhos mimados que afrontam o poder da rainha”.

A crise vai além de uma briga de família. A monarquia britânica é uma instituição do país, uma poderosa máquina de propaganda e exerce grande influência cultural e política sobre os países que fazem parte da Commonwealth, a Comunidade Britânica das Nações. O que é fundamental e que busco destacar aqui é o fato de a crise atingir fantasias, ideais e referências identificatórias dos súditos de Sua Majestade; daí as reações apaixonadas que o casal provoca, tanto faz se fúria ou apoio. Enquanto os acontecimentos se sucedem, e aqui os relato, também trato de esboçar uma espécie de psicologia da crise: ainda que à revelia de sua vontade, Harry e Meghan mobilizam fantasias e mecanismos inconscientes nos súditos do reino, e fora dele.

Procedentes ou não as especulações, a renúncia aponta para um conflito do poder na família real. Penso que a decisão “dos dois pirralhos mais mimados da história da monarquia” iguala a família real britânica às famílias contemporâneas, o que não é pouca coisa. Desafiando o poder da rainha, o casal diminui a grandeza, a majestade da família real – e a própria, já que cada figura desse grupo suporta os mesmos ideais – tornando-a comum como as outras, às voltas com a tirania dos filhos, o grande vencedor da guerra familiar ocidental.

Logo depois da renúncia, Elizabeth veio a público dizer “respeitar totalmente” o desejo do príncipe Harry e de sua mulher Meghan, de abandonarem suas posições como “membros seniores” da família real.

Um comunicado oficial posterior, do Palácio de Buckingham, sugere uma correção do rumo, insinuando (ou mesmo explicitando) uma precipitação do casal que me fez pensar na política do fato consumado que Harry e Meghan poderiam estar usando para pressionar a rainha.

Lembrei de outra família, a de Vito Corleone, cuja dinâmica psíquica na luta pelo poder atravessa sua história. Em “O Poderoso Chefão” (no original, “The Godfather” [“O Padrinho”]) Don Corleone está preocupado com a sucessão do seu domínio e busca preparar seu sucessor entre os filhos. Embora seu desejo seja o de deixar Michael, o caçula, fora da “família” (a organização mafiosa), circunstâncias adversas acabam por colocar o caçula como o próximo na linha de sucessão do trono/poltrona do pai (visualmente destacada ao longo do filme) no lugar do sucessor natural que seria Santino, o irmão mais velho assassinado na briga entre as “famílias”. Finalmente, na terceira parte da série, é Michael que vai se preocupar com quem vai herdar o seu poder.

Harry e Meghan escancaram as discussões ainda em andamento no interior da família real, abrindo o flanco para ataques de adversários ao poder da monarca, e assim cometem o erro tático que merece a mesma repreensão dada a Santino por Don Corleone: “Nunca diga a ninguém que não seja da família o que está pensando”. Don Vito sabe que seus adversários não perderão a ocasião para tirar proveito de qualquer racha na família ameaçando seu poder – tanto a família constituída por ele, mulher, filhos e netos quanto a outra, a mafiosa. É exatamente isso que levará à ruína de Fredo, o filho usado para trair e enfraquecer o irmão Michael. Ciúme, rivalidade no amor do pai que leva Fredo a retaliar, traindo a família e, em especial o novo Don, que é Mike. Crime imperdoável na “família”, a traição será respondida irrevogavelmente com a morte do traidor, conforme manda a lei mafiosa. Um desfecho que só foi possível porque Fredo expôs as entranhas da discórdia familiar e se deixou manipular pelos inimigos.

O comunicado da família real busca responder à exposição do racha da família afirmando que as conversas com Harry e Meghan estavam em um estágio inicial e que, embora todos entendam “seu desejo de adotar um enfoque diferente”, a família considera que esta é uma decisão complicada, que exige tempo para ser respondida. Os termos da renúncia ainda não estão definidos, e aos poucos a sequência dos acontecimentos vai mostrando como são delineados.

O neto, preparado desde o berço para representar a rainha, até pode desejar uma representação do Reino Unido no exterior, como pretendia inicialmente. Mas a Coroa não é um puxadinho da família, o governo está a serviço de uma nação e não dos desejos familiares. Ainda que a vovó quisesse ceder ao neto, o poder da família (real) demarca o poder na família.

Um fato histórico com essas características, “sem precedentes” na história da família britânica, como tem sido qualificado, não passaria despercebido para a autora de um livro chamado “Déspotas mirins, o poder nas novas famílias”.

Entre mimar o neto com o poder e agir como a rainha, a avó parece decidida a continuar a ser aquela que tem sido até aqui: protetora da Coroa e detentora do poder. Entre a avó e a rainha, Elizabeth escolhe a rainha. Não há nobreza na transgressão às regras, não há grandeza na vitória da individualidade sobre as funções e posições determinadas pelo nascimento. Ao contrário, ela ameaça o seu poder pondo em risco a união do reino.

Daí a proibição, na sequência, que a avó impõe ao neto e a sua mulher de comercializar a marca SussexRoyal com a qual eles já vinham se apresentando oficialmente em seu site, na sua conta do Instagram, em inúmeros produtos e na Fundação cuja criação anunciaram (e depois recuaram). Segundo os jornais, o casal já teria investido muito dinheiro nisso. O fato de o site ter sido registrado já em março de 2019, segundo a imprensa, seria uma demonstração de que o casal planejava sua “fuga há meses”.

A interdição da avó irritou os netos, que reagiram com uma resposta em seu site que certamente fez Piers Morgan dar pulos de alegria: “A Rainha não é dona da palavra ‘Real’”. Embora a rainha não tenha poder algum para proibir o uso da palavra “Real” no exterior, continuam, eles não pretendem mesmo usar a palavra. Deixarão de usar SussexRoyal não por serem obrigados pela rainha, mas porque querem. Versão real do clássico e plebeu “você não manda em mim”, expressão de uma disputa de poder com a qual arriscam dar razão a seus detratores, apresentando-se como “os dois pirralhos mais mimados da história da monarquia”.

Conforme os acontecimentos se sucedem, o casal atualiza os informes no site. Diferentemente do muro impenetrável que nos separa da privacidade da família real, que só se pronuncia através dos seus comunicados oficiais, o filtro de Harry e Meghan tem deixado passar o que estão sentindo e pensando. Alternam momentos de ira beligerante, ressentimento e ciúmes, como quando reclamam por estar recebendo um tratamento diferente de outros membros da família: “Embora haja precedentes para outros membros titulares da família real procurarem emprego fora da instituição, para o duque e a duquesa de Sussex foi estabelecido um período de revisão.”

O contrato firmado com a rainha, tal como exposto no site, diz que a posição de Harry na linha de sucessão também já está definida e não sofreu alteração: o príncipe Harry, duque de Sussex, como neto de Sua Majestade e segundo filho do príncipe de Gales, permanece o sexto na fila do trono da monarquia britânica e da ordem de precedência.

Propositalmente deixo à margem das minhas reflexões os tantos comentários e fofocas que se misturam às notícias; um deles, a título de exemplo, atribui a Harry ciúmes por vir depois dos sobrinhos na linha do trono, e a Meghan uma rivalidade com a cunhada, Kate.

A rainha busca preservar seu poder tanto quanto busca preservar sua família. Um dia antes do último compromisso oficial como membros seniores da família real (8 de março) e a convite de Elizabeth, o casal e a avó estiveram juntos em público na Royal Chapel of All Saints. Os jornais interpretaram o fato como uma demonstração do quanto a rainha quer que Harry, Meghan e o filho continuem sendo vistos como membros da família. Assim como esses mesmos jornais interpretaram no sentido inverso, quando da mensagem de Natal da Rainha, a ausência de uma foto dos três sobre a sua mesa, junto aos demais membros da família.

 

Pais e filhos: uma história de luta pelo poder

Em uma cena memorável da série “The Crown”, da Netflix, o príncipe Philip conta para seu secretário particular, o capitão Parker, a conversa que teve com a rainha Elizabeth e seu desejo de ter mais filhos:

– O mundo não precisa de mais bocas reais para alimentar, Philip respondeu à mulher.

– Pense nisso como um segundo ato, disse ela.

Philip explica ao amigo:

– Um segundo ato da vida dela como mãe.

– Faz sentido. Da perspectiva dela. Charles não é um filho para ela, é? Ele também é a Coroa. Uma personificação de quem vai substituí-la, sucedê-la. Amar um filho que, sem ter culpa de nada, representa a sua morte não deve ser fácil.

– Não, concorda o príncipe.

– Porque ela é meio fria com ele, diz o capitão.

– Ela se esforça, acrescenta Philip.

– Talvez seja bom ter alguns filhos que sejam só filhos, não ameaças mortais. A quem ela possa realmente amar, considera Parker.

É assim, como ameaças mortais, que os filhos estão presentes em vários mitos, nas artes e na literatura, na dramaturgia e na história das mentalidades e da família.

Marie Delcourt, em sua obra famosa sobre Édipo, discorda da interpretação que Freud deu ao mito, enfatizando o ciúme do menino. Para ela, a hostilidade entre pai e filho “seria provocada menos por uma libido reprimida do que pelo desejo do poder”. O que estaria em jogo, na rivalidade entre o pai Laio e o filho Édipo, seria mais o desejo de poder de ambos do que o ciúme em relação à Jocasta, mãe e esposa. Essa ameaça que os filhos representam para o poder dos pais também aparece disfarçada nas figuras do avô e do sogro. Na disputa, o mais novo sempre vence.

Na mitologia grega essa ameaça mortífera leva o pai a eliminar os deuses em seu nascimento. Foi assim com Cronos, conforme conta Hesíodo, numa narrativa belíssima da “Teogonia: a origem dos deuses” (século VIII a.C.), onde ele relata o mito grego da gênese do mundo ou cosmogonia; da origem dos deuses e, finalmente, a luta de Zeus pelo poder sobre deuses e mortais.

O poeta invoca as musas, deusas inspiradoras, e conta que a primeira geração divina nasceu de Gaia (Terra) e Urano (Céu). Tão logo os filhos nasciam e por medo de ser destronado por um deles, Urano os devolvia às profundezas da mãe Terra, que sufocava e gemia. Cronos, o filho caçula, castrou o pai cortando seus testículos com uma foice e os jogou ao mar assumindo o seu poder.

Zeus, filho de Cronos, seguirá o mesmo script disputando o poder com o pai. Com sua irmã Reia, Cronos dá origem à segunda geração divina, a geração dos deuses Olímpicos, marcada pela luta de Zeus pelo poder. Conforme Hesíodo, sabedor da profecia que o destinava a “sucumbir um dia sob os golpes do próprio filho”, Cronos devorava um a um os que nasciam. Zeus foi salvo por sua mãe: Reia embrulhou uma pedra em panos e a entregou a Cronos, enganando-o. O pai devorou a pedra acreditando ser o filho, e a profecia se realizou. Zeus crescido obrigará Cronos a vomitar os filhos devorados, o acorrentará ao Tártaro e tomará o seu poder. Desde então Zeus reinou no Olimpo, tornando-se o deus dos deuses e dos homens.

O mito de Édipo também segue o enredo do pai infanticida, que elimina o filho para evitar que ele roube seu poder. Laio foi amaldiçoado pelo rei Pélops: se tivesse um filho, este o mataria e provocaria as desgraças mais terríveis para toda a sua descendência. Buscando escapar à maldição, Laio mandou matar o filho Édipo tão logo ele nasceu. E sem o saber, acreditando-se filho dos reis que o haviam adotado, Édipo acabou por matar Laio e realizar a profecia da qual fugia.

Nelson Rodrigues escreveu sua tragédia, “Álbum de Família”, em 1944; a peça foi censurada e passou 22 anos engavetada. Embora tenha dito: “A família é o inferno de todos nós”, não foi ele quem inventou a animosidade entre pais e filhos. E não por acaso foi necessário impor, no fundamento da nossa civilização, a lei divina que ordena “honrar pai e mãe”. Sua obra é uma dentre tantas da nossa cultura a ilustrar a ideia da ameaça mortífera que os filhos portariam:

– Você não me engana. Você sempre teve ódio de mim, desde criança. Você sempre quis, sempre desejou minha morte. Um dia, você vai me matar, talvez quando eu estiver dormindo. Mas vou tomar as minhas providências!, diz Jonas para o filho Edmundo. – Vou avisar a todo mundo que, se um dia eu aparecer morto, já sabe, não foi acidente, não foi doença – FOI MEU FILHO QUE ME MATOU.

Edmundo diz para a mãe:

– Seria tudo melhor se em cada família alguém matasse o pai.

Glória, a filha, não tem uma relação melhor com a mãe; diz para o irmão que a mãe “é má, sinto que ela é capaz de matar uma pessoa. Sempre tive medo de ficar sozinha com ela! Medo de que ela me matasse!”. Em outro diálogo a mãe fala de Glória para Edmundo: “Quando nasceu e disseram – MENINA – eu tive o pressentimento de que ia ser minha inimiga. Acertei”.

É possível reconhecer o mesmo roteiro inconsciente na história da família, também marcada pela luta que pai e filhos travam pelo poder. Essa luta começa a sofrer uma transformação visível a partir do século XVIII, com a modernidade deslocando o poder do pai para o filho na família “tradicional” ou “patriarcal, num crescente processo de despatriarcalização da família. Do qual a criança emergiu, ao final do século XX e início do atual, como a todo-poderosa, instituindo o que chamei de pedocracia.

Cada vez mais a família e a sociedade vão se organizar em torno da criança, do amor pela criança, mas, principalmente como tenho enfatizado, do amor da criança. Os adultos, que antes exigiam apenas ser respeitados e obedecidos, agora desejam ser amados pelos filhos. “Detalhe” que faz toda a diferença.

Ou, para falar em termos psicanalíticos, já que é psicanalítica a análise que faço da história da família (da história da criança, da maternidade, da paternidade), os adultos buscam satisfazer o seu narcisismo através da criança (os filhos) e, em troca desse amor (do filho) oferecem-lhe o trono, aceitando ou incentivando suas transgressões: “meu filho vai levar o celular para a sala, sim!”, diz um pai à direção da creche sobre seu filho de 5 anos. Por quê? Ora, por que, senão por ser o “meu” filho?

Explorei essa dinâmica inconsciente através do “menino diabo” que foi Brás Cubas, o personagem fascinante de Machado de Assis em “Memórias póstumas de Brás Cubas” e protótipo do novo fenômeno a que fui conduzido por minha pesquisa de pós-doutorado, “Édipo tirano: o feminino e o poder nas novas famílias” (2009), publicada como “Déspotas mirins, o poder nas novas famílias: a pedocracia”.

“Édipo”, no título original, porque Édipo não tem idade, podendo ser tanto a criança quanto Nhô Cubas, o pai de Brás, como nessa lembrança do menino falando sobre o pai: “De manhã, antes do mingau, e de noite, antes da cama, pedia a Deus que me perdoasse, assim como eu perdoava aos meus devedores; mas entre a manhã e a noite fazia uma grande maldade, e meu pai, passado o alvoroço, dava-me pancadinhas na cara, e exclamava a rir: ‘Ah! Brejeiro! Ah! Brejeiro!’. Sim, meu pai adorava-me.”

Através do filho o pai recupera os privilégios exigidos pelo seu narcisismo infantil, aos quais a realidade o obrigou a renunciar. Assim, fazendo do filho sua extensão, o pai (em suas fantasias) se protege da ameaça mortífera ao seu poder que o filho representa. O medo dá lugar ao prazer.

 

ÉDIPO TIRANO: O FEMININO E O PODER NAS NOVAS FAMÍLIAS

Édipo Tirano” é o título original de “Édipo Rei”, de Sófocles. Para os gregos, “tirano” significava mais do que aquele que usurpa o poder, o déspota que impõe sua vontade acima das leis e da justiça: “tirano” é também aquele que conquista o poder por seus próprios méritos, como Édipo ao derrotar a Esfinge e se tornar rei de Tebas.

A criança, sem o saber ou querer, acorda nos pais o narcisismo infantil, e é para satisfazer o seu próprio narcisismo que os pais reivindicam para os filhos os privilégios aos quais eles foram obrigados a renunciar. Por seu narcisismo, os pais atribuem ao filho todas as perfeições e o tornam o rei da casa, “Sua majestade o bebê”. Em função desse mecanismo inconsciente é que a criança surge triunfante como Édipo tirano nesse século, instituindo a pedocracia.

O menino diabo é o modelo do que se espalhou pelas classes médias do nosso país, o exemplar da dinâmica psíquica que analiso: a transgressão do filho às leis é a nossa coroa, o símbolo da nossa superioridade. É por isso que nós concedemos ao filho o poder de transgredir – ou o incentivamos a fazê-lo: porque a transgressão simboliza o quanto somos especiais, superiores, poderosos.

Nas análises de Roberto DaMatta a trans­gressão é uma das características que definem a sociedade brasileira. Para nós, a obediência à lei é uma babaquice, um sintoma de inferioridade, herança de uma sociedade aristocrática. “Temos uma alergia à igualdade”, resistimos a obedecer a uma lei que é válida para todos. “É mais do que comprovado que não cumprir a regra é um sintoma de superioridade social.”

Para a realeza real britânica como temos visto aqui, organizada pela sujeição à hierarquia, às leis e normas que a definem, a transgressão, longe de simbolizar uma superioridade social que a realeza já possui, revela-se a marca da inferioridade plebeia, da condição mortal comum, da mundanidade dos que não representam o poder. Não é para ver a realeza sem a sua majestade que os súditos pagam o preço da monarquia.

Desafiando o poder da família, os “dois pirralhos mais mimados da história da monarquia” despertam a fúria que vimos estampada na mídia. Isso ocorre porque arranham a imagem que as pessoas querem ver, como disse Dymond, “a imagem perfeita que todo cidadão tem prazer de ver”. Com isso diminuem a família real, igualando-a a qualquer família e aproximando-a em demasia de nós, mortais comuns que não representamos Deus na terra. O dramático, se é que cabe aqui a palavra, é que assim ameaçam ideais e referências identificatórias.

 

ENTRE O HUMANO E A COROA: A IDEALIZAÇÃO

Na Casa de Windsor a individualidade deve se curvar aos ordenamentos, princípios e hierarquias transmitidos pelas gerações. “Se for individualista uma vez é mais fácil voltar a ser”. Coincidentemente, quando a renúncia dos duques de Sussex foi anunciada, eu assistia mais uma vez a série “The Crown”, da Netflix, apresentada como baseada na família real britânica. O eixo do drama, a meu ver, é essa guerra civil interna que a Coroa instaura no interior de cada membro da família que Harry está dando a ver.

Em um dos episódios iniciais, o rei George, pai de Elizabeth e Margaret, refere-se a essa luta, que é também um luto: “Eu não sou mais Albert Windsor. Essa pessoa foi morta pelo irmão mais velho quando ele abdicou”. O indivíduo morreu para dar lugar ao rei.

Doente o rei, Elizabeth será designada a substituí-lo em uma viagem oficial durante a qual é comunicada da morte do pai. Retorna à Inglaterra e, antes de descer do avião como rainha recebe uma carta de sua avó, a mãe de seu pai, que a instrui sobre os valores e normas que, a partir de agora, deverão pautar e determinar a sua vida:

– Querida Lilibeth, eu sei o quanto você amava seu pai, meu filho. E sei que ficará tão arrasada quanto eu com esta perda. Mas você deve pôr esses sentimentos de lado agora, pois o dever a chama. O luto pela morte de seu pai será amplamente sentido. Seu povo precisará da sua força e liderança. Eu já vi três grandes monarcas derrotados pelo fracasso em separar satisfações pessoais do dever. Você não pode se permitir cometer erros similares. E, ao guardar o luto pelo seu pai, deve guardar luto por outra pessoa, Elizabeth Mountbatten, pois ela agora foi substituída por outra pessoa, Elizabeth Regina. As duas Elizabeths entrarão frequentemente em conflito. O fato é que a Coroa deve vencer. Deve sempre vencer.

Inutilmente Philip, seu marido, pedirá:

– Em nome das pessoas que vivem com você e que a amam, sugiro que você não seja chefe da Igreja por um instante. Nem chefe de Estado, nem chefe da Commonwealth, nem do Exército, nem da Marinha, nem do Governo, nem da Fonte da Justiça, nem de todo esse maldito circo.

– E que eu seja o quê?, ela pergunta.

– Um ser vivo, uma mulher. Uma irmã. Uma filha. Uma esposa.

Não há trégua na guerra civil que se trava em seu íntimo, arranhando também suas relações, como se vê nesse diálogo. Um dos momentos cruciais dessa divisão imposta pela Coroa é quando Elizabeth se vê diante do seu desejo de autorizar o casamento da irmã com o homem que ela ama e com o qual ela havia concordado. Seu conflito interno é agravado pelo juramento que ela e Margaret fizeram ao pai quando crianças, de que as duas se protegeriam por toda a vida. Mas ela sabe que está proibida de satisfazer seus afetos e desejos quando eles contrariam o seu dever público. É preciso separar satisfações pessoais do dever, como leu na carta da avó.

Nem mesmo o tio, que escolheu seu desejo contrariando a Coroa, a aconselha a colocar sua individualidade, seu desejo à frente da Coroa. Ele começa por dizer que, evidentemente, apoia Margaret; a seguir exalta o amor que sente pela mulher que é o amor da sua vida e pelo qual renunciou à Coroa. Mas, continua, “há também o outro grande amor da minha vida. A Coroa. E proteger essa Coroa. E imagino que você esteja numa posição difícil agora. Dividida ao meio. Uma metade é irmã. A outra metade é rainha. Uma criatura híbrida, estranha como uma esfinge ou Gamayun [corpo de pássaro e cabeça de mulher – Marcia Neder]. Como eu sou Ganesha [deus indiano com a cabeça de elefante – MN] ou o Minotauro [corpo de homem e cabeça e cauda de touro que morava em um labirinto na ilha de Creta – MN]. Somos pessoas pela metade, arrancadas das páginas de alguma mitologia bizarra, com os dois lados dentro de nós, o humano e a coroa, numa temível guerra civil que não tem fim e que deteriora todas as nossas interações humanas como irmão, marido, irmã, esposa, mãe. Eu entendo a agonia e estou aqui para lhe dizer que ela jamais a deixará. Eu sempre serei meio rei. Minha tragédia é que eu não tenho reino. Você tem, e deve protegê-lo.”

Finalmente Elizabeth diz para Margaret que pensou muito no assunto e que o casamento da irmã tocou “no cerne de várias coisas, como o país, a moralidade, o divórcio, mas também em algo mais íntimo. Quem eu sou. O que eu sou”. Estava preparada para ir contra a família, governo e muita gente, até perceber que, como rainha, não tem escolha. Não pode permitir que ela se case com Peter e continue como membro da família e que essa é sua decisão. Pergunta se Margaret pode perdoá-la “por colocar o dever acima da família”.

Metade humana, metade Coroa, é a Coroa que “deve sempre vencer” e que efetivamente vence cada vez que é posta à prova. Elizabeth Regina age como a líder do Reino Unido. Como Freud mostra no seu “Psicologia das Massas e Análise do Eu”, o líder é o ingrediente responsável pela união dos indivíduos, é o elemento que faz a liga entre as pessoas identificadas com o ideal que ele encarna. A idealização de que ele “me” ama sedimenta a coesão (o amor) dos indivíduos entre si. Conforme Renato Mezan escreveu no seu “Freud, Pensador da Cultura”, com o qual caminho aqui para analisar a condição de líder de um reino que é a da Rainha, os indivíduos sentem-se amados pelo líder e pelos outros componentes do grupo. Freud vê “nesta dupla determinação amorosa o ‘fenômeno fundamental da psicologia coletiva’, a saber, a falta de liberdade do indivíduo integrado numa massa”.

Essa falta de liberdade do “indivíduo integrado numa massa”, a que se refere Renato Mezan, se aplica tanto ao indivíduo que é membro do grupo quanto ao seu líder, encarcerado no ideal que ele deve representar como condição para a existência do grupo e que busco mostrar aqui através de Elizabeth, mas também do príncipe Harry. “A regra é clara”, como dizemos em nosso reino do futebol, no qual o Rei Pelé carrega o peso da coroa: entre a cara (o humano) e a coroa, só a coroa deve vencer. A criatura híbrida, metade humana, metade Coroa tem um reino a proteger, o que a mantém aprisionada aos ideais que encarna e amarrada a cada escolha que faz.

Carregar o peso da história e da tradição, igualar-se aos gigantes que o antecederam e às vitórias conquistadas é um desafio imposto à rainha e ao Rei Pelé. Glórias e vitórias obtidas sobre si, e Pelé conta como sempre buscou se superar. Esforço captado pelas palavras de Nelson Rodrigues em “A realeza de Pelé” (8/03/1958, Pátria de Chuteiras): “O que nós chamamos de realeza é, acima de tudo, um estado de alma. E Pelé leva sobre os demais jogadores uma vantagem considerável: a de se sentir rei, da cabeça aos pés”.

Em outro texto, do seu livro “Intervenções”, Renato Mezan volta à essa psicologia social destacando a importância da pertinência ao grupo e os determinantes psíquicos em jogo no campo em um campeonato como a Copa do Mundo. Faz isso no artigo “Saída à Francesa”, analisando nossa derrota na França em 2006. Para os meus propósitos aqui interessa destacar a explicação dada por Renato sobre o funcionamento de um grupo. O que une um grupo, escreve, é a identificação com um líder, que leva à identificação recíproca entre seus membros; em seus termos: “identificação recíproca entre os membros de um grupo, como consequência da identificação de cada um com um ideal de ego (causa, bandeira, valor) investido por todos”.

Não por acaso evoco o futebol para falar do peso da Coroa. Porque é no reino do futebol que um brasileiro aprende desde o nascimento a sentir e viver um “nós” que vibra na alegria e murcha na tristeza. Nelson Rodrigues me ajuda mais uma vez: “Há um momento, todavia, em que todos se lembram do Brasil, em que noventa milhões de brasileiros descobrem o Brasil. Aí está o milagre do escrete. Fora as esquerdas, que acham o futebol o ópio do povo, fora as esquerdas, dizia eu, todos os outros brasileiros se juntam em torno da seleção. É, então, um pretexto, uma razão de autoestima” (“O ‘Entendido’ salvo pelo ridículo”, O Globo, 10/06/1970 in Pátria de Chuteiras).

Referência identificatória nacional, modelo do “quem somos nós” que modela nossa identidade ao longo da nossa história, inclusive a pessoal, nosso reino do futebol tem por isso o poder de nos fazer vergar, humilhados e envergonhados como na “Copa da vergonha”, “vexame para a eternidade”, naquele 8 de julho de 2014 vivido como um profundo sentimento de fracasso pessoal. O “sete a um”, o dia em que o Brasil se uniu na tristeza, decepção e choro da humilhação alemã: “Era para ser apenas o placar, a informação numérica de um determinado jogo. Mas os 7 a 1 ganharam vida própria, ‘osseteaum’. Parece latim, difícil precisar a que classe gramatical pertence. ‘Osseteaum’ é substantivo, adjetivo, advérbio, interjeição, sabe-se lá. Tudo ao mesmo tempo. É um marco, um estado de espírito, uma decepção. Mais do que tudo, uma dura constatação de nossas desilusões. Não somos mais o que já fomos. ‘Osseteaum’ nasceu do futebol, só que se alastrou por nossas vidas. Virou sinônimo de incompetência, arrogância e ignorância. Marcou nossas paletas feito ferro em brasa.” (Sérgio Xavier, colunista da Revista Placar.)

“Não somos mais o que já fomos”. Frase melancólica cujo significado conhecemos na própria carne. É isso uma referência identificatória. É isso que a rainha simboliza e que deve preservar se quiser manter o seu, um Reino Unido.

 

marcia@marcianeder.com.br

 

BIBLIOGRAFIA

Junito de Souza Brandão, Mitologia Grega, vol. I, Petrópolis: Vozes, 2010.

Marcia Neder, Déspotas mirins, o poder nas novas famílias, 2ed. atual./rev., Porto Alegre: Metamorfose, 2018.

Mircea Eliade, História das Crenças e das Ideias Religiosas, Rio de Janeiro: Zahar.

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