O mais querido do Brasil: a construção de uma nação

O mais querido do Brasil: a construção de uma nação

Renato Soares Coutinho, historiador

 

A temporada do futebol brasileiro em 2016 trouxe novamente à tona uma antiga questão para a direção do Clube de Regatas do Flamengo: em qual estádio jogar as partidas como mandante?

De fato, o futebol rubro-negro enfrenta essa situação há tempos, desde a fundação do departamento de terra do clube. Nas primeiras décadas do futebol do Flamengo, o campo da Rua Paysandu, cedido pela Família Guinle, foi a casa oficial da equipe. Quando o terreno foi requisitado pelos proprietários em 1932, o time de futebol voltou a perambular pelos campos da cidade até a inauguração do seu primeiro estádio próprio, o Estádio da Gávea, em 1938. A partir dos anos 1950, com a construção do Maracanã, a equipe de futebol passou a atuar com maior frequência no campo construído para a Copa do Mundo, especialmente em função da enorme capacidade de público das arquibancadas do estádio.

Porém, com o passar dos anos, o estreito vínculo simbólico criado entre o clube e o Estádio Mario Filho enfrentou sucessivos períodos de crise. Inúmeras reformas, obras estruturais ou eventos de grande porte foram responsáveis pelo fechamento do estádio por longos períodos. O Estádio da Gávea, antigo, acanhado e sem iluminação para partidas noturnas, deixou de ser uma opção viável para os jogos mais importantes. Por conta disso, desde os anos 1990 o Flamengo vem enfrentando sistematicamente o problema de ficar sem lugar para jogar na cidade do Rio de Janeiro. A solução durante essas fases sem campo para atuar em terras cariocas foi e está sendo a mesma: colocar o pé na estrada.

Em termos desportivos, a escolha de jogar fora da sua cidade poderia representar a derrocada absoluta de uma equipe. Especialmente no futebol, o mando de campo é decisivo. A porcentagem de vitórias dos clubes visitantes que jogam sem os seus torcedores é historicamente mais baixa. Na maioria das vezes, o time que joga em seus domínios consegue triunfar. Além do fator desportivo, não contar com apoio dos torcedores representa também um grande problema financeiro. Em suma, jogar longe dos seus domínios pode significar um enorme fracasso em campo e nas finanças.

Mesmo diante desse cenário nada favorável, os atuais gestores do clube não abdicaram da ideia de atuar em locais distantes do Rio de Janeiro. Mesmo reconhecendo o desgaste causado nos jogadores por conta das viagens, o presidente Eduardo Bandeira de Mello faz questão de ressaltar que “quem tem torcida em todos os estados não precisa se preocupar com esse tipo de coisa”.

É provável que essa afirmação tenha como objetivo evitar uma possível crise em função da falta do Maracanã. No entanto, se observarmos o ranking das médias dos públicos do campeonato, podemos confirmar que no caso do Flamengo o problema da falta de campo no Rio de Janeiro pode, sim, ser enfrentado sem grandes prejuízos. Mesmo sem jogar com o apoio da torcida carioca, o clube ocupa a sexta colocação no ranking com média de 20.021 torcedores,1 à frente de agremiações populares como o Atlético Mineiro e o São Paulo, que contam atualmente com seus estádios. Fluminense e Botafogo, que enfrentam o mesmo problema com os principais estádios entregues para os Jogos Olímpicos, aparecem na décima sexta e décima oitava posições respectivamente. De fato, o presidente do Flamengo tem os números ao seu lado. Mesmo jogando em Brasília, Natal ou Vitória, o clube permanece apresentando uma média de público que indica a existência de torcedores espalhados por todo território nacional.

Chegamos, então, ao problema que motivou a elaboração deste texto.2 Como uma agremiação desportiva de um bairro da Zona Sul carioca se tornou capaz de arregimentar adeptos em todo o território nacional?

É consenso entre os institutos de pesquisa que no século XX o clube de futebol que conquistou o maior número de adeptos no Brasil foi o Clube de Regatas do Flamengo. Com pequenas variações, as pesquisas de popularidade mostram até hoje que o rubro-negro tem uma grande penetração nacional, tendo um grande contingente de torcedores espalhados principalmente pelos estados nordestinos, nortistas e do Centro-Oeste, além da grande popularidade em Minas Gerais, Espírito Santo e, é claro, Rio de Janeiro. A partir desses dados, a questão principal passa a ser entender porque especificamente o Flamengo conseguiu tamanha adesão popular.

Algumas respostas apressadas tentam explicar esse fenômeno de popularidade nacional. A primeira delas é a tese que destaca o perfil vencedor do clube, que contou com craques como Zico e Junior na geração que encantou o país na época que as transmissões televisivas cresceram.

Há mais de um problema nessa perspectiva. O primeiro deles é que o Flamengo não é um clube tão vencedor quanto a torcida rubro-negra gosta de exaltar. É claro que as equipes rubro-negras venceram campeonatos importantes, mas as principais vitórias do Flamengo ocorreram em um curto espaço de tempo, que durou entre 1978 e 1983, período que coincidiu com a melhor fase do jogador Zico. O Flamengo conviveu ao longo da sua história com esquadrões de maior longevidade, como o Vasco da Gama dos anos 1950 e o Santos dos anos 1960 e 1970. Se as vitórias em campo justificassem a popularidade, o time de Pelé certamente deveria ter mais abrangência do que o Flamengo de Zico.

Outro aspecto negligenciado por essa tese é o fato de que o Flamengo já era o detentor dos maiores públicos do futebol brasileiro antes do apogeu da Era Zico. Até hoje, os três maiores públicos da história do clube permanecem sendo anteriores à geração que conquistou todos os títulos. A maior assistência ocorreu em 1963, na final do campeonato carioca contra o Fluminense, com cento e noventa e quatro mil pessoas no Maracanã. A segunda maior é de 1976, em um clássico contra o Vasco da Gama. O terceiro maior público também foi em um Fla x Flu, disputado em 1969 com mais de cento e setenta mil pessoas no estádio.3

Além dos maiores públicos, as excursões do Flamengo pelo território nacional já nos anos 1940 e 1950 mobilizavam milhões de adeptos brasileiros. As visitas do Flamengo a Minas Gerais, Paraíba e Pernambuco, geravam o interesse dos torcedores e da imprensa, que divulgava à exaustão a paixão que o clube despertava nos lugares mais distantes do Brasil.

A segunda tese que visa explicar a popularidade do Flamengo faz mais sucesso entre analistas da imprensa e entre os sócios e dirigentes do clube. Muitos atribuem o crescimento da torcida aos tempos do amadorismo, quando o clube não tinha estádio e treinava na rua, fato que despertava a atenção dos garotos que ajudavam a buscar as bolas que saíam do campo. Nessa perspectiva há presente a ideia de que o clube carrega o DNA da popularidade. Como se desde a fundação da instituição, nos tempos das regatas elegantes, o Flamengo fosse capaz de representar os valores correntes entre as camadas populares brasileiras.

O primeiro problema dessa interpretação é que ela não possibilita a explicação da nacionalidade da torcida. Se a relação forjada na rua entre os torcedores e o clube explica a popularidade, como entender a preferência pelo Flamengo em lugares como Manaus e Natal, onde não havia essa relação direta?

Mais complicado ainda é estabelecer uma relação consistente entre o Flamengo e os valores populares nos tempos do amadorismo. As matérias veiculadas na imprensa da época mostram como o Flamengo, assim como boa parte das instituições esportivas da Belle Époque, não tinha a menor pretensão de angariar simpatizantes nas camadas populares, e como seus eventos sociais eram altamente restritivos. Em outras palavras, o Flamengo dos tempos da fundação se parecia muito pouco com aquilo que é hoje o clube mais querido do Brasil. Portanto, assim como a tese do clube vencedor, essa perspectiva pouco pode explicar sobre os motivos da popularidade do Flamengo. Permanecemos, então, com a mesma questão: quais fatores contribuíram para a popularidade e para a abrangência nacional do Flamengo? Podemos começar a buscar as respostas nos símbolos exaltados pelo próprio clube. Um detalhe relevante que pode ser notado nas festividades e nas homenagens feitas pelo Flamengo na atualidade é o destaque dado a alguns nomes que fizeram história na instituição. Ídolos como Leônidas da Silva, Domingos da Guia, Zizinho e Dida são lembrados até mesmo por aqueles que não os viram. Entre os dirigentes homenageados, dois nomes são os mais celebrados: José Bastos Padilha, nome oficial do Estádio da Gávea, e Gilberto Cardoso, único dirigente que tem uma estátua no clube.

É interessante perceber que os nomes dos fundadores do clube e dos primeiros jogadores da equipe de futebol costumam ser negligenciados nas maiores homenagens e permanecem desconhecidos por grande parte da torcida. Nas listas dos maiores jogadores do clube de todos os tempos, há sempre a lembrança de Leônidas e Domingos da Guia. Bahiano, Amarante e Gustavo, jogadores da primeira equipe de futebol do Flamengo, não costumam figurar nessas listas. Como em qualquer instituição centenária, há aqueles lembrados e aqueles esquecidos.

Uma breve investigação sobre a trajetória dos ídolos eternizados na memória do torcedor permite uma constatação evidente: todos pertencem ao período em que o clube já era profissional; os lembrados construíram suas trajetórias após os anos 1930.

Temos então um momento privilegiado para a constituição da memória do Clube de Regatas do Flamengo: a década de 1930. Enquanto jogadores da década de 1910 praticamente não constam nas escalações dos maiores times do Flamengo de todos os tempos, os atletas da década de 1930 possuem lugares cativos nas listas e homenagens. É preciso, então, investigar o que ocorreu a partir de 1930.

Não por coincidência, muita coisa aconteceu no clube nessa década. Sem dúvida, a grande mudança foi a vitória política do modelo profissional. O profissionalismo, implantado no clube durante a gestão José Bastos Padilha, não representou apenas uma revolução nos rumos administrativos do clube. O clube nesse período organizou um projeto de construção de novos símbolos identitários que permitiram reorganizar a relação da instituição com a torcida. Ou seja, o profissionalismo gestado nos anos 1930 ocorreu em convergência com o processo de popularização da instituição. E foi a transformação das bases simbólicas da instituição ocorrida nos anos 1930 que forjou a memória popular do clube, atribuindo ao Flamengo um caráter popular que remonta ao passado imemorial dos tempos amadores. Em um complexo processo de construção da memória, o passado amador e elitista passou a constituir o Flamengo profissional sendo lembrado como a fase embrionária da vocação popular da instituição.

Ao verificar que a década de 1930 foi um divisor de águas na história do clube, foi inevitável associar o Flamengo com os acontecimentos políticos e sociais que também alteravam profundamente a história da sociedade brasileira. O processo de modernização autoritária levado adiante pelo Estado brasileiro avançava ao mesmo tempo em que benefícios materiais e simbólicos eram conquistados pelo operariado. As manifestações populares historicamente relegadas à condição de caso de polícia – como a capoeira, desfile de blocos carnavalescos, a desconfiança em relação ao samba, entre outros – começavam a encontrar nas celebrações cívicas espaços para a afirmação da sua legitimidade. O pertencimento à nação passava a ser nos anos 1930 uma estratégia de reconhecimento dos valores, tradições e anseios dos trabalhadores, bem como da própria cultura popular. Estado e trabalhador haviam encontrado um vocabulário adequado para o reconhecimento mútuo: o nacionalismo.

Atento a essas transformações sociais, o Flamengo foi o primeiro clube de futebol no Brasil que se apropriou do bem-sucedido discurso nacionalista estatal. Através de campanhas de marketing e ações sociais, o antes clube refinado passou a dialogar com os setores populares, reivindicando o posto de clube representante da nação.

 

O Flamengo da fina flor carioca: o rubro-negro nos tempos do amadorismo

Não é exagero afirmar que o Clube de Regatas do Flamengo foi fundado em 1895 e reinventado nos anos 1930. O clube de regatas, que nasceu grupo de regatas na última década do século XIX, pouco parecia com o clube que se tornou nos dias atuais: o representante da brasilidade popular. Mesmo o departamento de terra, criado em 1911 por jogadores de futebol oriundos do Fluminense Football Club, surgiu preso aos valores do “refinamento civilizado” europeu. Por isso a ênfase deste texto está na década de 1930, pois apenas nesse momento o Flamengo passou pelo processo de reinvenção dos símbolos que permitiram a superação dos valores racistas e elitistas que norteavam as ações do clube nos seus primeiros anos.

Em paralelo às transformações simbólicas que aproximavam o clube dos símbolos populares, ocorreu a profissionalização do departamento de futebol do Flamengo. Por isso a era amadora, anterior à década de 1930, pode ser associada ao período elitista do clube.

Entretanto, a memória exaltada pelo clube e por escritores que se dedicaram a narrar a trajetória da instituição normalmente não faz a distinção dessas duas fases. Ao contrário, as narrativas sobre o Flamengo têm por hábito reproduzir a ideia de que a popularidade do clube foi gestada nos tempos do remo, e que de maneira progressiva ganhou força com o crescimento do futebol. Em outras palavras, essa perspectiva atribui ao clube a marca da popularidade desde a sua fundação.

Talvez o escritor que tenha conseguido contribuir mais para a difusão de alguns mitos sobre a origem popular do clube seja Ruy Castro. No início dos anos 2000, a Editora DBA lançou uma coleção chamada “Camisa 13”. Com intuito de fortalecer o mercado de publicações dedicadas ao futebol, a editora selecionou autores conceituados para escrever de maneira acessível a história dos principais clubes de futebol do Brasil. Um dos primeiros livros lançados foi O Vermelho e o Negro: a pequena grande história do Flamengo.4 Ruy Castro narra de maneira fascinante o desenrolar da trajetória do clube rumo ao topo da adesão popular. Mas o próprio autor deixa claro que a obra não pretendia fazer um mergulho analítico profundo. Numa das passagens mais emblemáticas, ele afirma que

 

um dia, quando se mergulhar de verdade nos fatores que, historicamente, ajudaram a consolidar a integração nacional, o Flamengo terá de ser incluído. Durante todo o século XX, ele uniu gerações, raças e sotaques em torno de sua bandeira. Ao inspirar um rubro-negro do Guaporé a reagir como um rubro-negro do Leblon (com os mesmos gestos e expletivos, e no mesmo instante), o Flamengo ajudou a fazer do Brasil uma Nação.5

 

Portanto, seria um despropósito acusar o autor de falta de rigor metodológico ou algo parecido, quando o próprio admite faltar ainda um trabalho consistente sobre o tema. Preciso como costuma ser nos seus textos, Castro fez o que lhe cabia nessa publicação: reproduzir a história que o clube inventou para si.

Na perspectiva tradicional apresentada por Castro, o Flamengo nasceu popular, desde as regatas. As difíceis condições dos remadores, o caráter gozador dos seus primeiros sócios, a falta de um campo de futebol para treinar quando o futebol foi implantado e a rivalidade com o Clube de Regatas Vasco da Gama estão na raiz da popularidade do clube. Em suma, o clube, que hoje movimenta milhões de torcedores no país, construiu as bases da sua popularidade na Zona Sul carioca durante a Belle Époque. Para o autor, “o remo era popular e, ao mesmo tempo, chique”.6 E as rivalidades e disputas simbólicas ocorridas nesse esporte foram transmitidas para o futebol quando este se disseminou. A passagem do público do remo para o futebol ocorreu de maneira linear, sem representar uma grande alteração social no perfil daqueles que assistiam às regatas e daqueles que assistiriam ao futebol algumas décadas depois.

No mesmo parágrafo que Castro caracteriza o remo como “popular”, ele descreve as regatas como grandes festas e banquetes promovidos por ricos que abriam as suas portas. “As provas eram prestigiadas por políticos, industriais, banqueiros, escritores e até pelo presidente da República.”7 Ou seja, o público era composto majoritariamente pela elite carioca. Nesses termos, parece que o autor utiliza a palavra “popular” como é regularmente usada na linguagem cotidiana, no sentido de “querido”. É verdade que Castro não se propõe a discutir o significado de “popular”. Mas essa ressalva é necessária, pois é no mínimo discutível a associação entre o público das regatas na Primeira República com as torcidas de futebol, que se consolidaram nos anos 1930.

Visando afirmar a associação entre a paixão pelo remo e as apaixonadas torcidas de futebol, Castro cita João do Rio para ressaltar a proeminência do Flamengo nos tempos das regatas. Segundo o cronista, a cidade do Rio de Janeiro tem uma dívida com o Flamengo, pois “dali partiu a formação das novas gerações, a glorificação do exercício físico, para a saúde do corpo e a saúde da alma… Foi o núcleo de onde irradiou a paixão avassaladora pelo esporte”.8

Ou seja, segundo os autores mencionados, do remo surgiu o sentimento responsável por arrebatar milhões de pessoas que se envolveram com o futebol pelo país afora. Nas festas endinheiradas das regatas foram gestados os símbolos que comporiam o imaginário esportivo brasileiro no século XX. Exemplo mais emblemático – e discutível – escrito por Castro: o nacionalismo.

Segundo Castro, nas disputas entre Flamengo e Vasco nas regatas, surgiu a rivalidade que relacionaria o Flamengo à brasilidade e o Vasco ao lusitanismo, despertando nos torcedores o sentimento nacionalista que daria ao Flamengo a condição de preferido dos brasileiros. O autor afirma que “os vascaínos podem ranger os dentes com essa ideia, mas, ao ter acendido os brios nacionalistas do carioca, o Vasco foi um dos responsáveis pela súbita e avassaladora popularidade do Flamengo”.9

De fato, os vascaínos devem questionar a ideia. Isso porque, além do clube cruzmaltino não estar associado ao lusitanismo nos tempos das regatas, também não é possível pensar na brasilidade popular do Flamengo na época, na medida em que o clube fazia questão de representar os valores de uma “civilização superior” europeia. O exercício físico, exaltado por João do Rio como núcleo irradiador da paixão pelo esporte, tinha como escopo preparar o corpo e a mente para os regramentos de uma sociedade ilustrada. Aliás, o caráter pedagógico do esporte, a racionalidade do preparo do corpo e os cuidados com a higiene eram práticas de uma elite que visava se diferenciar daquilo que era entendido como Brasil. É sabido que Brasil e mestiçagem eram sinônimos de atraso para a intelectualidade do final do século XIX.

O historiador Leonardo Pereira no livro Footballmania nos mostra como também o futebol nasceu condicionado por essa visão evolucionista que relacionava esporte com civilização.

 

Se os primeiros sócios do Fluminense já tinham definido para ele a marca do refinamento, os entusiastas do jogo iam, com o tempo, sofisticando sua imagem: criando uma terminologia própria, definindo códigos de conduta compartilhados e concretizando através dos seus uniformes importados a aparência refinada que pretendiam assumir, reforçavam a imagem restritiva e excludente do jogo – que garantiria aos seus poucos praticantes o papel de vanguarda da civilização.10

 

Não era possível pensar em clubes populares baseados em sentimentos nacionalistas num momento em que as práticas esportivas estavam circunscritas a grupos sociais vinculados a um imaginário elitista e evolucionista. Esse Flamengo apresentado por Castro é um mito que negligencia um aspecto fundamental da história do desporto no Brasil: a popularização dos esportes e das torcidas não ocorreu dentro dos clubes. Ao contrário, os quadros sociais e atléticos dos clubes da cidade permanecem sendo espaços bastante restritos até os dias atuais. Apenas o futebol, esporte que se profissionalizou em meio à ferrenha disputa entre dirigentes esportivos amadoristas e profissionalistas, se espraiou pelas camadas populares. E esse processo, único entre os esportes brasileiros na forma como foi conduzido, não ocorreu nos tempos das regatas ensolaradas da Belle Époque. Em outras palavras, o futebol a partir do profissionalismo representou uma severa ruptura com tudo que o remo representava. E por essa razão, remo e futebol, apesar de praticados nos mesmo clubes, não compartilham torcidas, nem mídia, e muito menos uma história que apresente similaridades em suas trajetórias.

Todavia, vale repetir que este Flamengo mitológico não foi inventado por Castro, e sim reproduzido. A invenção da memória popular do Flamengo ocorreu no mesmo momento em que o clube se associou aos símbolos populares. Reinventar o passado era parte fundamental no processo de transformação da instituição, e a imprensa esportiva contribuiu para a difusão de um “passado novo”. Mas antes do Flamengo popular, representante das camadas menos favorecidas da nação, outro clube existia. Um clube de ídolos hoje desconhecidos, de feitos esquecidos. Um clube com idiossincrasias que foram renegadas após a década de 1930. Um clube que foi apagado pela memória que se forjou em seu projeto de popularização. Um clube elitista, representante da fidalguia carioca.

É interessante notar como a imprensa veiculava as imagens referentes ao clube antes da sua profissionalização e popularização. O Flamengo clube do povo, da paixão ensandecida, o mais querido do Brasil, era, até meados dos anos 1930, o clube da “fina flor” carioca, o clube da força de vontade. Não apenas no remo, mas também no futebol, o clube era respeitado pela elegância e pela disciplina dos seus atletas associados. No primeiro aniversário do clube após a criação do departamento de terra, que deu origem ao time de futebol, o Jornal do Commercio assim anunciou os festejos:

 

Festeja hoje o 17º anniversario de sua fundação o veterano e fidalgo Club de Regatas do Flamengo. Fundado a 15 de novembro de 1895 por uma plêiade de enthusiastas sportsmen, entre os quaes Augusto Lopes, Mario Spinola, Jose Felix de Menezes, Napoleão Coelho de Oliveira, José Agostinho Pereira da Cunha e Mauricio Pereira, o Flamengo tem prestado os mais relevantes serviços ao desenvolvimento e progresso do sport náutico entre nos. Constituído pela fina flor (grifo meu) dos nossos sportsmen, com um passado cheio de glorias, com uma historia que se confunde com a própria historia do rowing fluminense, o sympathico centro de regatas da praia do Flamengo é justamente considerado como um dos mais fortes sustentáculos da nossa canoagem.11

 

O refinamento dos associados era a marca do clube. Gustavo de Carvalho, primeiro artilheiro da história do Flamengo, foi titular do time apenas entre maio e julho de 1912. Motivo: ele se mudou para a Inglaterra para cursar engenharia.12 Seguindo caminho inverso, Moderato, ídolo do clube nos anos 1920, veio de Porto Alegre para o Rio de Janeiro para cursar a Escola Politécnica e por conta disso ingressou no clube. Em 1932, às vésperas do profissionalismo, o Jornal dos Sports ainda exaltava o Flamengo da fina flor. Na aquisição do defensor Almir, o periódico destacou que “Almir, que é estudante de medicina e tem apenas 19 anos de idade, vae formar a seguinte linha de forwards, constituída exclusivamente de futuros médicos: Adelino, Almir, Eloy, Vicentino e Cássio”.13

Enquanto os jogadores permaneceram amadores e associados ao clube, a carreira era motivo de orgulho. Ser médico, advogado, engenheiro, conferia status superior ao fato de ser bom de bola. Não à toa os jogadores não abriam mão das suas formações.

Não apenas os jogadores eram exaltados por conta dos hábitos refinados. Também o público dos jogos merecia destaque pela elegância. Num match disputado entre Flamengo e América, o jornal A Gazeta de Notícias fez questão de mencionar que “na assistência, que era seleta (grifo meu), notavam-se muitas senhoras e senhoritas”.14 Sobre o mesmo jogo, o Correio da Manhã comentou que “o field da Guanabara encheu-se de uma sociedade fina e elegante, ciosa de observar o mais importante matches até agora realizados nesta capital”.15

Mesmo com a crescente rivalidade dos clubes, o comportamento visto como adequado nos tempos do amadorismo era o do assistente de um espetáculo. Vale ressaltar, como mostra o historiador Leonardo Pereira, que nem sempre esse comportamento adequado era seguido pelos espectadores. Há relatos de brigas e invasões de campo já nos primeiros anos do campeonato da Liga Metropolitana. Mas os casos de transgressão da ordem acabavam por reforçar o discurso de exaltação daquilo que era entendido como o ethos do verdadeiro sportsmen: a civilidade. Em 1916, após uma briga no bairro da Saúde, o Correio da Manhã noticiou que a desordem nos campos de futebol estava desmoralizando o sport de maior predileção do povo civilizado.16 A exceção acabava por confirmar – e divulgar – a regra.

A imagem do torcedor ativo, capaz de interferir no andamento da partida em disputa, era ainda incipiente no imaginário esportivo nos tempos do amadorismo. Os casos de polícia nos indicam a tensão existente nesses eventos, mas a regra do assistente era ser parte passiva do jogo. E essa visão era compartilhada por imprensa, clubes e jogadores, que invariavelmente reclamavam da participação dos espectadores através de vaias e aplausos. O torcedor ativo, valorizado por apoiar a equipe, é uma construção posterior, que somente se consolida na medida em que o torcedor comum, que não mantém nenhuma relação institucional com o clube, começa a ser reconhecido como parte integrante majoritária das torcidas.

Nas primeiras décadas do século XX, o bom espectador era acima de tudo regrado pelas convenções da boa etiqueta. E por conta desses requisitos que eram necessários ao bom espectador, não é difícil relacionar esse ideal civilizado ao perfil do sócio do clube. Na época do amadorismo, o público era composto quase em sua totalidade pelo quadro de associados. No Flamengo, era hábito reunir-se na garagem de remo do clube para seguir em grupo para os jogos do time de futebol. Por este motivo, enquanto o quadro social permaneceu sendo o agente organizador do público assistente, não é possível considerar a existência de um Clube de Regatas do Flamengo popular, como propõem Ruy Castro e outros escritores que se dedicaram a narrar a história do Flamengo. Isto porque para ser sócio do clube era preciso pagar uma mensalidade que não estava de acordo com a renda das camadas populares. E mesmo para aqueles que podiam pagar, as exigências não eram poucas. A história de Zé Augusto, um professor da Escola Politécnica que cresceu dentro do clube praticando atletismo, retrata o que eram essas dificuldades de pertencimento.

 

Zé Augusto tinha ido para o Flamengo ainda garoto. Era garoto, garoto não fazia mal que fosse preto. Mas o garoto cresceu, aí o Flamengo reparou na cor dele. Não tinha nada contra ele, pena que ele não fosse branco. Zé Augusto nunca apareceu no rinque de patinação em noite de festa. Sabia que se aparecesse muita gente ia falar. O rinque de patinação era mais do futebol… Como não se metia a jogar futebol, Zé Augusto não se metia a dançar. Ele só ficara no Flamengo porque não jogava futebol, não dançava, isto é, não chamava muita atenção.17

 

Certamente um sujeito que não dançava nas festas, que não jogava futebol, também não frequentava as garagens na concentração da torcida, mesmo sendo sócio do clube. Diante disso, como supor que um homem comum do Rio de Janeiro, que assistia aos treinos do clube na praia, podia fazer parte da torcida nos tempos do amadorismo?

Mais complicado ainda é enxergar algum processo de ampliação territorial da torcida nesses tempos, já que o conceito de sócio-espectador exigia a participação do indivíduo na vida social do clube. Aliás, os maiores indicadores de que a popularização do clube não se iniciou nas décadas de 1910 e 1920 são os jogos nos bairros da Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro. O Flamengo sofria represálias em estádios que hoje são ocupados sem grandes dificuldades pela torcida nos dias de jogos. Em 1932, no bairro de Olaria, o Flamengo disputou uma partida como visitante e não dispensou críticas aos assistentes locais. Flamengo perde em Olaria e volta reclamando, estampava a manchete:

 

Próximo ao gol de Fernandinho parecia um verdadeiro front. Fui obrigado a pedir ao nosso director sportivo que mandasse guarnecer o nosso arqueiro, pois os assistentes lhe arremessavam tudo que tinham as mãos: pedras, cascos de laranja, garrafas, o diabo!18

 

As reclamações de Rubens, capitão do time, deixam claro que ainda no início década de 1930, até mesmo o bairro de Olaria, próximo ao Centro da cidade, representava um domínio distante da sua casa.

O clube amador, ainda restrito à Zona Sul da cidade, precisava levar os seus adeptos aos bairros do subúrbio, que seguiam em caravana junto com a equipe. O crescimento das caravanas representou inclusive um marco na diferenciação dos significados atribuídos ao público dos jogos. As experiências de cruzar a cidade em comboio para apoiar os jogadores em campos adversários renderam as primeiras manifestações de exaltação da torcida como fator determinante para o rendimento do time. Mesmo sendo ainda uma típica prática de associados, a caravana contribuiu para o início da mudança da representação do verdadeiro torcedor na imprensa esportiva. Entusiasmados com a dedicação dos associados, os jornais começaram a destacar o valor da “torcida”, mesmo quando esta aparecia ainda entre aspas.

 

Mais uma vez ficou provado o valor da “torcida” nos jogos de football do nosso campeonato. Deu o exemplo a pugna Andarahy X Flamengo. É que os andarahyenses eram tidos como favoritos por jogarem em seu próprio campo, com sua torcida a animá-los. Mas o Flamengo soube evitar o desagrado aos seus players de terem que jogar sem que sua “torcida” os incitassem: levou-a consigo, numa caravana alegre, enthusiastica e animadora para os seus jogadores…19

 

O termo “torcida” só começou a perder as aspas anos depois, após a consagração dos concursos de torcedores promovidos pelo Jornal dos Sports em 1936. Em 1932, ano que merece destaque por ter sido a última temporada amadora do C. R. F., as tensões oriundas das transformações promovidas pelo debate profissionalistas X amadoristas ainda combinavam elementos simbólicos do football amador com o futebol profissional que se fortalecia. Por isso a torcida civilizada, formada pela fina flor da elite carioca, começava a ser exaltada não pelos hábitos polidos, mas pela capacidade de motivar os atletas. Porém, a fina flor estava curtindo seus últimos dias como representante da agremiação. A torcida que se elevaria com o profissionalismo, a fim de motivar os jogadores do clube, teria um perfil social completamente distinto.

Mas antes de falar dos novos significados da torcida nos tempos do profissionalismo, insisto no ano de 1932. Isto para que fique claro que o clube, representado por dirigentes e associados, fez questão de prolongar ao máximo o amadorismo elitista que era a marca do Flamengo desde a sua fundação. As teses que pressupõem a progressiva popularização do clube desde a sua fundação são colocadas em xeque quando as ações do clube às vésperas do profissionalismo são trazidas à tona.

Por exemplo, em janeiro de 1932, o remo realizou uma façanha sem precedentes no clube. Três remadores conseguiram navegar do Rio de Janeiro à cidade de Santos. Após sofrerem com uma tempestade na região de Paraty, Angelú, Engole-Garfo e Boca Larga lograram chegar sãos e salvos no litoral paulista. Esse feito foi celebrado até mesmo pelo Presidente Getúlio Vargas, que enviou saudações ao “glorioso” Clube de Regatas do Flamengo. No retorno da tripulação rubro-negra ao Rio de Janeiro, a direção do clube programou uma grande festa de recepção. Em nota oficial publicada na imprensa, a direção do clube solicitou “para o desembarque dos vitoriosos remadores… o comparecimento dos seus sócios e de suas excelentíssimas famílias”.20

Se para a imprensa esportiva a palavra “torcida” aparecia entre aspas ainda nos primeiros anos 1930, para a direção do clube a entidade “torcida” nem convidada estava para uma das mais importantes celebrações do clube. A multidão instada a receber os heróis nos braços, segundo a direção, era composta pelos associados e suas famílias. Em nota oficial, a direção sintetizava aquilo que os amadoristas pensavam: os representantes do clube eram os “associados civilizados”.

 

O Flamengo mais querido do Brasil: o clube e o processo de profissionalização do futebol

Até agora, o objetivo principal foi mostrar que a popularização do Clube de Regatas do Flamengo não ocorreu antes de 1933. A popularização ocorreu somente a partir da profissionalização do clube. Sendo assim, o clube esquecido dos tempos do amadorismo em nada se diferenciava dos outros clubes elitistas da cidade. Dirigentes e associados eram tratados pela imprensa esportiva como símbolos de um sport promotor do espírito civilizado europeu. O Flamengo não carrega o gene da popularidade, como costumeiramente afirmam os estudiosos do clube.

Mas qualquer pesquisador que tiver a curiosidade de observar os jornais esportivos dos anos 1930, especialmente o Jornal dos Sports, poderá perceber que a imprensa mudou completamente a maneira como entendia e divulgava o clube ao longo dessa década. Está claro que uma das hipóteses deste texto é que essa mudança está intimamente associada ao profissionalismo e à gestão do presidente José Bastos Padilha, que implantou o regime profissional.

O antigo clube, refinado e civilizado, representado pela fina flor da elite carioca, passou em menos de cinco anos por uma transformação que o conduziu a símbolo da brasilidade mestiça e popular. Essa transformação pode ser verificada pela maneira como a imprensa esportiva fazia referências ao clube antes e depois de 1936. É claro que já em 1934 e 1935 havia manchetes de um novo Flamengo que se fortalecia e se reinventava com o profissionalismo. Mas a combinação de ações de marketing com cobertura jornalística pode ser encontrada apenas a partir de 1936.

As principais ações de marketing do Flamengo contaram com a parceria e a divulgação do Jornal dos Sports. E isso não foi por acaso. A história do periódico se confundiu com a do clube a partir do dia 17 de outubro de 1936, quando o jornalista Mario Filho adquiriu o jornal.

Até 1936, Mario Filho, que anos depois se tornou a maior referência do jornalismo esportivo, estava no jornal O Globo, da família Marinho. Em O Globo ele comandava a seção de esportes. Mas em 1936, em meio ao debate sobre a profissionalização do desporto brasileiro, Filho contou com o apoio de dois empresários para poder adquirir o seu próprio jornal, o Jornal dos Sports. Vendo que o JS não passava por um bom momento financeiro, Roberto Marinho, do jornal O Globo e José Bastos Padilha, presidente do Flamengo, apoiaram Mario Filho na compra do JS.

A relação entre Padilha e Filho não tinha um caráter somente empresarial. Os dois eram amigos, cunhados e compartilhavam do mesmo posicionamento em relação ao fim do amadorismo e a consolidação do profissionalismo no futebol brasileiro. Para eles, a ação do Estado era imprescindível no processo de transição do modelo de gestão do futebol.

A chegada de Filho ao Jornal dos Sports modificou inteiramente o perfil e o conteúdo das coberturas jornalísticas. A primeira mudança foi a elevação do futebol à condição de principal esporte. A segunda e mais importante mudança ocorreu em relação a “qual” futebol se tornaria o protagonista do jornal. Quando digo “qual”, faço referência ao seguinte problema: o futebol seria abordado no jornal a fim de exaltar o caráter civilizador do desporto ou o futebol divulgado pelo jornal seria o símbolo da brasilidade popular, marca da ascensão de uma nação moderna?

Quero ressaltar que a pergunta acima está intimamente ligada ao processo de profissionalização do desporto. Ou seja, o debate entre os defensores do amadorismo e os defensores do profissionalismo explicitava o mesmo problema descrito acima: o que é, e para que serve o futebol brasileiro? Para civilizar ou para integrar?

Não é difícil pensar que ao defender o profissionalismo, o Jornal dos Sports de Mario Filho estivesse necessariamente mudando o olhar sobre a função social do futebol. Isso porque o profissionalismo encerrava necessariamente com um aspecto do futebol amador: as proibições formais e informais de participação dos jogadores negros e de origem pobre nos principais clubes da cidade. Nos tempos do amadorismo, a grande polêmica que envolveu criações e dissoluções de ligas e clubes foi a questão da participação de jogadores não associados aos clubes, que precisavam ser remunerados para jogar. O argumento que defendia o vínculo apenas afetivo dos jogadores ao clube na verdade fazia com que jogadores oriundos das camadas menos abastadas, que necessitavam trabalhar para prover suas vidas, ficassem alheios às disputas dos campeonatos.

Dessa forma, o JS foi o primeiro periódico que ao defender abertamente a sua adesão ao projeto de futebol profissional, passou também a defender a integração de jogadores de origem popular nos clubes da cidade. E essa defesa é vista não somente através da campanha pelo fim do amadorismo, mas principalmente pela exaltação da participação desses novos agentes sociais no universo simbólico do desporto nacional.

Foi nesse contexto de transformação do significado social do futebol que ocorreu a primeira grande ação de marketing realizada pela direção do Flamengo visando associar o clube à Nação. Em outubro de 1936, às vésperas da partida contra o Fluminense, o JS divulgou que os rubro-negros cantariam o hino nacional antes da partida. Se hoje essa prática parece corriqueira, até 1936 não havia registro de nenhuma mobilização orquestrada para que a torcida cantasse uníssona alguma canção, ainda mais o hino nacional. Para essa demonstração de civismo, foram impressos dez mil exemplares da letra do hino para que fossem distribuídos para a assistência.21 Nos dias que antecederam ao jogo, enquanto a direção do clube organizava o evento, o JS divulgava:

 

Um episódio cívico no próximo Fla-Flu. A directoria do CR Flamengo, em sua reunião da noite de hontem, assentou providências no sentido de ser executado no próximo domingo em pleno estádio do Fluminense o hymno Nacional. Como se sabe, de accordo com recente decreto do Governo, em todas as reuniões e festividades cívicas, ou sportivas que reúnam público, se torne obrigatório, ao início ou ao encerramento, a execução do Hymno símbolo. Cabe assim, ao glorioso rubro-negro, a iniciativa da execução dessa demonstração cívica. Desejando emprestar ao facto cunho do maior brilhantismo o grêmio do Sr. Bastos Padilha convidara a se fazerem presente não só o chefe da Nação, como as altas autoridades civis e militares do país.22

 

É importante destacar que o jogo era no campo do Fluminense. Mesmo havendo um decreto que exigia a execução do hino, coube à direção do Flamengo a organização do evento, que contou com a presença do presidente do país. Além disso, o acontecimento foi utilizado como símbolo da aproximação do clube com o sentimento de nacionalidade, movimento que não podia ser verificado nos tempos do amadorismo.

Em novembro de 1936, uma nova campanha foi lançada pelo clube com apoio do JS. Em menos de um mês como diretor do jornal, Filho organizava a segunda campanha em associação com o Flamengo. Nessa ocasião o clube premiaria a melhor fotografia tirada por qualquer membro da imprensa.

 

O Flamengo resolveu prestar uma homenagem aos photographos do Rio – a esses auxiliares indispensáveis da imprensa moderna – instituindo um concurso interessantíssimo sob o patrocínio do JS. Trata-se de premiar a melhor photografia sobre qualquer actividade do Flamengo, social ou sportiva, sobre qualquer acontecimento.23

 

Na cerimônia de abertura do evento, um cartaz indicava qual era a temática central da campanha. “Uma vez Flamengo, sempre… Tudo pelo Brasil!”24 era a chamada da campanha das fotografias. Mais importante do que fotografar conquistas desportivas era registrar o perfil, a imagem do clube. E por isso as fotos enviadas para o jornal foram quase todas ligadas aos torcedores e não aos jogadores.

Uma das fotos que foi publicada no JS era do então promissor jornalista Roberto Marinho. O alvo da câmera de Marinho também foi a torcida, pois “como uma coisa e outra perdia-se na multidão imensa que superlotava o estádio do Fluminense, ele focalizou em um dado momento três torcedoras do Flamengo…”.25

As outras fotos publicadas e premiadas preservavam as mesmas características. Mostrar o público, exaltar a multidão ou o comportamento entusiasmado das pessoas que torciam e lutavam pelo clube. Crianças fazendo uma pipa com o distintivo do Flamengo, uma senhora cosendo o escudo do Flamengo no peito de uma blusa, mulheres escolhendo e joias e entre elas uma que prefere o escudo do Flamengo às joias, adultos e crianças no aniversário do Flamengo embebedando um macaco – a legenda da foto dizia: “bebendo a saúde do Flamengo”.26

Ao final do concurso, a foto vencedora simbolizou exatamente aquilo que jornal e clube queriam exaltar como o retrato do Flamengo. Hans Peter Lange tirou uma fotografia de dois operários, com equipamentos de segurança, trabalhando na construção do Estádio da Gávea, que se tornaria a casa do Flamengo dois anos depois. Os dois operários não posaram para a fotografia, não vestiam a camisa do clube, mas representavam o novo perfil social do torcedor do clube: o trabalhador. Mais uma vez nação e trabalho se misturavam às ações de marketing do Flamengo. Essa combinação foi a marca do clube a partir da segunda metade dos anos 1930.

Após o evento do hino nacional e da campanha das fotografias, clube e JS não perderiam a chance de enfatizar o caráter nacional do Flamengo nas comemorações do seu aniversário, no dia 15 de novembro. Na edição comemorativa, o periódico destacou sem medir palavras o processo de nacionalização do clube.

 

A data de hoje não pertence somente ao Flamengo – pertence também – e deveríamos dizer principalmente – ao sport brasileiro. Quando um club attinge a um certo desenvolvimento, quando seu nome fica ligado estreitamente ao sport nacional, não se deve nem se póde separar uma coisa da outra. Ambas se completam na conquista de um único ideal. Convém salientar sobretudo, que o Flamengo vale como um symbolo. As energias da raça ali se desbordam sem conhecer barreiras. E o enthusiasmo, a abenegação, o esforço continuo, sem tréguas, é a chama não se extingue.27

 

A representação da nação precisava nesse momento ser feita não pela elegância, mas pelo clube símbolo das energias da raça brasileira. Raça que constituía uma nação jovem, que se reinventava, assim como o clube.

 

Há clubs jovens e clubs velhos. O Flamengo é o clube moço, de energias que renovam sem cessar. Quarenta e um annos – eis a vida do Flamengo. O mesmo enthusiasmo perdura, a mesma fé. Apenas esse enthusiasmo dispersivo antes, apparece agora controlado, organizado, como as águas de uma repreza.28

 

O entusiasmo se organizava na forma de torcida, renovada e organizada. Inventava-se o jeito novo de torcer, de ser adepto de um clube, na mesma medida em que se afirmava qual era o jeito velho. E esse jeito novo permitiu a inclusão de grupos sociais que comporiam a nova torcida. O discurso nacionalista, adotado como estratégia de inclusão, permitiu a participação dos novos grupos sociais da nova nação. E esses novos grupos, majoritariamente compostos por trabalhadores urbanos, passaram a lotar as arquibancadas não mais sendo o símbolo do desvio; mas como representantes do novo brasileiro. Nesse sentido, a associação da nação com o projeto de popularização do clube foi fundamental. O primeiro elemento aglutinador do homem comum que passava a frequentar o estádio foi o nacionalismo. O trabalhador urbano, repleto de sentimento nacionalista, motivado pela ascensão de um Estado Nacional que abria canais de diálogo e concedia benefícios simbólicos e materiais, encontrou um motivo inicial para aderir às cores um clube: o pertencimento à nação. O Jornal dos Sports investiu, com muito sucesso, nesse projeto. Mas não apenas ele. O presidente do Flamengo na época, José Bastos Padilha, agia em conjunto com Mário Filho.

O último ano da gestão José Bastos Padilha foi marcado pelas campanhas publicitárias voltadas para a formação de gerações de torcedores. No ano da pacificação dos esportes, com a oficialização do profissionalismo e com a reunificação do campeonato carioca, que estava dividido entre clubes amadores e profissionais, o clube viveu tempos de grande otimismo e agitação.

Dentro de campo, a equipe repleta de grandes jogadores havia feito uma campanha valorosa em 1936. Ficou em segundo lugar, tendo perdido o campeonato apenas no jogo desempate contra o Fluminense.

Fora de campo, o clube organizava lançamento da primeira campanha de caráter pedagógico promovida pelo clube. O programa de educação física e cívica anunciava a preparação de milhares de crianças que formariam a futura geração flamenga. A notícia enaltecia o plano, que era o resultado final dos anos anteriores de transformação do clube.

 

A obra realizada pela administração Bastos Padilha está enquadrada em um programa vasto, iniciado há quatro annos e que prossegue sem desfalecimentos. O programma não surgiu, claro, aos olhos do público, quando em 1933, o sr. Bastos Padilha assumia a presidência do Flamengo. Depois se chegou à evidência de que tudo obedecia a um plano traçado. Por isso mesmo, não houve um passo em falso. Mas a grandeza desse programma não conhecido em seus detalhes mínimos obriga a uma pergunta: qual será o programma de 1937 ou, pelo menos, qual será o ponto inédito do programma do Flamengo para 1937? Fala-se na campanha dos dez mil sócios, na contrucção do stadium, mas esses pontos já foram atacados e caminham para a realização integral. A interrogação tem de buscar o inédito, se é que o Flamengo em 1937 vae emprehender o que não tentara em anos anteriores. Recebe-se então um sim. O sr. Bastos Padilha declara que o Flamengo vae preparar a futura geração flamenga.29

 

Em 1937, a meta final do processo de profissionalização começava a ser realizada: a popularização. A própria relação amistosa com a imprensa, que enaltecia os feitos do Flamengo destacando a continuidade das ações do clube, também era parte desse projeto. Não bastaria levar adiante um programa de popularização do clube se não houvesse canais de divulgação desses planos.

A campanha em si consistia em um plano de educação física para os filhos dos sócios do clube. Sem pagar a mais para frequentar as escolinhas, as crianças poderiam utilizar as quadras e campos do clube, tendo aulas sobre os fundamentos dos esportes e sobre moral e civismo do cidadão. A campanha ainda estava restrita aos filhos dos sócios, mas nessa época o quadro social tinha mais de sete mil membros. Por isso o objetivo da campanha era alcançar mais de dez mil crianças, um número significativo para o Rio de Janeiro da década de 1930. Além disso, ainda era novidade no país um plano de educação física para jovens. Vale lembrar que apenas em 1931, com a Reforma Francisco Campos, a educação física passou a ser obrigatória no ensino secundário.

Nas declarações da direção do clube, a valorização da atividade física vinha sempre acompanhada da exaltação do sentimento nacionalista, pois essa era marca principal das campanhas do clube. Em todos os eventos promovidos pelo clube em 1936 e 1937, o objetivo maior era a exaltação da nação moderna e popular. Moderna, pois era a expressão da “raça” brasileira em constante progresso; popular porque era composta por diversos setores da sociedade, especialmente os trabalhadores. Essa perspectiva estava presente na declaração oficial do clube sobre a campanha educacional: “o Flamengo proporcionará educação physica scientifica racional a milhares e milhares de crianças. Plasmará uma juventude eugênica, pronta a servir a Pátria em todos os domínios da actividade humana”.30

Seguindo a perspectiva nacionalista corrente, Padilha destacou na solenidade de lançamento que a campanha de formação da geração flamenga era um “emprehendimento gigantesco, que assume vital importância para os destinos da nacionalidade. As crianças de hoje formarão o Brasil de amanhã. Preparando a futura geração rubro-negra, o Flamengo trabalha pela pátria”.31 Em última análise, a finalidade da campanha era “a exaltação de dois nobres sentimentos: o amor pela pátria e o interesse pela educação physica”.32

Ainda durante o lançamento da campanha de educação física, o clube anunciou a organização de um programa complementar ao plano de educação dos jovens torcedores. Contando com a parceria do Jornal dos Sports e de O Globo, o clube preparou um concurso aberto para todas as crianças em que o objetivo era a associação das palavras Flamengo e Brasil. As crianças teriam que colecionar os selos publicados nos periódicos e enviar uma carta contendo os selos e a frase criada. O concurso permitia a participação de crianças de até quinze anos e a frase que serviu como modelo para os concorrentes era a utilizada pelo clube nas medalhas dos atletas que participaram das Olimpíadas de 1936: “Como Flamengo, servi ao Brasil.”33

Os prêmios iam desde bicicletas, carrinhos de brinquedo, até bonecas, já que meninos e meninas estavam divididos em categorias diferentes. Os selos foram publicados entre os dias 2 de março e 30 de abril, e o resultado do concurso foi divulgado no dia 4 de maio. Nesse tempo, o concurso que ficou conhecido como “Pelo Brasil e pelo Flamengo” mobilizou milhares de jovens torcedores.

A exaltação dos valores nacionalistas pelo Flamengo atingiu seu ponto máximo nesse concurso. Nenhum outro clube insistiu tanto na associação entre a sua marca e a nação. Nem mesmo o Fluminense, clube muito bem relacionado com o Estado Nacional, promoveu esse movimento de aproximação com o sentimento nacionalista. Até porque, o Fluminense após a profissionalização organizou os seus símbolos identitários em torno da preservação do caráter aristocrático que era marca do clube nos tempos da sua fundação. Por mais que o Fluminense tivesse sido o grande líder da articulação do processo de profissionalização, isso não significou no caso tricolor uma associação com a popularização do clube. E os valores nacionalistas correntes na década de 1930 dialogavam necessariamente com a questão popular.

Com a foto constantemente estampada na capa do Jornal dos Sports, Padilha divulgava os preceitos das campanhas do clube através de matérias de grande destaque, que muitas vezes ocupavam três páginas. Nessas matérias o patriotismo exacerbado chegava a ser caricato:

 

Na grande família flamenga, cohesa, irmanada pelos mesmo anseios generosos, o jovem vê a sinthese de todas as nobres virtudes vivas, Flamengo e Brasil. Duas palavras que aparecem sempre juntas, porque ser Flamengo verdadeiro é uma forma de ser patriota.34

 

Seguindo o mesmo tom de Padilha, o JS de Mario Filho divulgava o sucesso do concurso. No dia 9 do mesmo mês a manchete do jornal exaltava:

 

Brasilidade – é o traço marcante da alma rubro-negra: toda a trajetória do Flamengo tem sido marcada por um vivo sentimento de brasilidade. É o traço predominante da alma rubro-negra. E isto é geralmente reconhecido na comunhão sportiva nacional. Basta folhear a correspondência referente ao grande concurso.35

 

No dia da divulgação do resultado, dezenas de frases foram publicadas no jornal. A comissão julgadora, composta por Padilha e Mario Filho, examinou 5.526 cartas.36 As frases que citavam o nome do presidente do Flamengo, mesmo não estando entre as vencedoras, foram divulgadas. As três mais destacadas foram: “Criança! Procura ser para o Brasil o que Padilha é para o Flamengo! Pedro Alvarez descobriu o Brasil e Padilha o Flamengo! Deus fez o mundo, Padilha o Flamengo!”.37

Em cinco anos de mandato, Padilha se tornou o primeiro presidente a dialogar com a torcida de um clube. Até então, os presidentes eram citados na imprensa esportiva apenas nos eventos sociais ou nas querelas entre dirigentes. Utilizando um forte discurso nacionalista e abrindo o clube para a participação da torcida, Padilha passou a ser associado à imagem de fundador do clube, como se antes dele não existisse Flamengo para ser vivenciado por esses sujeitos. Esse sentimento indica como o ato de torcer era uma experiência nova para o torcedor comum naquele momento.

As frases vencedoras foram enviadas por Marcio Lyra, de treze anos e Maria de Lourdes Magalhães, de 11 anos. O menino escreveu: “O Flamengo ensina: amar o Brasil sobre todas as coisas” e ficou com uma bicicleta. A menina recebeu o primeiro prêmio pela frase “Um Flamengo grande, um Brasil maior.” Outras frases premiadas foram: “Brasil e Flamengo, palavras que se confundem num mesmo sentimento”, “Flamengo, alerta pelo Brasil!”, “O Brasil é a Pátria dos meus sonhos, o Flamengo é o club do meu coração!”.38

 

Considerações finais

No dia 26 de outubro de 1966, o Jornal dos Sports publicou uma matéria especial sobre a gestão Padilha, analisando seus feitos três décadas depois.39 Na entrevista concedida ao autor da matéria especial, Padilha resumiu a sua gestão como tendo sido o momento de “busca da mística” do clube. Nas palavras do ex-presidente, quando lembrava dos desafios que enfrentou nos primeiros anos de mandato, “sem que saibamos colocar o Flamengo dentro de uma corajosa realidade, ele perecerá ou, última análise, continuará sendo o que é: nem mais nem menos que uma emoção doméstica, não um estado d’alma”.40

Colocar o clube dentro de uma (nova) realidade era o projeto da sua gestão. Mais do que enriquecer ou melhorar o time, o projeto consistia numa nova configuração de valores que transformasse o clube na instituição mais popular do país, no espaço de representação da “alma do brasileiro”. E essa transformação do clube não ocorreria sem a reinvenção articulada e consciente promovida pela direção do clube em associação com a nova torcida que surgia.

Durante a entrevista, Padilha cita que o clube mais popular do Rio de Janeiro na ocasião que assumiu a presidência do Flamengo era o América Football Club, e que o rubro-negro ocupava apenas a quarta posição no ranking dos clubes mais queridos. O clássico das multidões, dizia ele em entrevista, era a rivalidade entre América e Vasco.41 Poucos indícios apontam para a tal popularidade do América nos anos 1930. Porém, certo era que o Vasco da Gama na época era um clube com bases populares muito mais consistentes que o Flamengo.

Em cinco anos como presidente do C. R. Flamengo, Padilha reverteu o quadro da distribuição das torcidas. Para isso, organizou campanhas publicitárias, articulou o clube com a imprensa esportiva, construiu o Estádio da Gávea, aumentou o número de sócios e da receita, contratou os maiores jogadores negros da seleção brasileira e, principalmente, preparou o clube para ser o representante da brasilidade popular que se consolidava na década de 1930. Todas essas transformações foram promovidas a partir de uma convicção de Padilha, revolucionária nos anos 1930: “os clubes são como Nações: cada qual tem sua característica, seu temperamento, suas motivações, sua legenda, e nós precisamos muito disso”.42 A gestão Padilha inventou a nação flamenga em sintonia com a nação brasileira que se inventava na época.

 

O autor é professor de História do Brasil da Universidade Castelo Branco

rscoutinho@hotmail.com

 

NOTAS DE RODAPÉ

  1. Fonte: http://app.globoesporte.globo.com/futebol/publico-no-brasil/campeonato-brasileiro/, atualizado em 25 de agosto de 2016.
  2. Este artigo resulta de uma condensação de parte do meu livro Um Flamengo grande, um Brasil maior: o Clube de Regatas do Flamengo e a construção do imaginário esportivo nacionalista popular (1933-1955). Rio de Janeiro: Editora 7 letras, 2014.
  3. Os maiores públicos do clube estão disponíveis em: <http://www.flamengo.com.br/flapedia/Maiores_p%C3%BAblicos_do_futebol_brasileiro>.
  4. CASTRO, Ruy. O vermelho e o negro: pequena grande história do Flamengo. São Paulo: DBA, 2001.
  5. Ibidem, p. 17
  6. Ibidem, p. 39
  7. Idem
  8. RIO, João do. Apud CASTRO, Ruy, ibidem p. 40
  9. Ibidem, p. 34.
  10. PEREIRA, Leonardo Affonso de Miranda. Footballmania: uma história social do futebol no Rio de Janeiro 1902 – 1938. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000. p. 40.
  11. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 15 de novembro de 1912.
  12. ASSAF, Roberto & GARCIA, Roger. Os grandes jogos do Flamengo: da fundação ao hexa. Barueri: Panini Books, 2010, p.25.
  13. Jornal dos Sports, Rio de Janeiro, 4 de fevereiro de 1932.
  14. A Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 22 de maio de 1912.
  15. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 23 de maio de 1912 apud ABINADER, Marcelo. Uma viagem a 1912: surge o futebol do Flamengo. Rio de Janeiro: Águia Dourada, 2010, p. 75
  16. Ibidem, p. 129.
  17. FILHO, Mario. O negro no futebol brasileiro. Rio de Janeiro: Mauad, 2003, p. 143
  18. Jornal dos Sports, Rio de Janeiro, 26 de julho de 1932.
  19. Jornal dos Sports, Rio de Janeiro, 10 de agosto de 1932.
  20. Jornal dos Sports, Rio de Janeiro, 28 de janeiro de 1932.
  21. Jornal dos Sports, Rio de Janeiro, 9 de outubro de 1936.
  22. Jornal dos Sports, Rio de Janeiro, 7 de outubro de 1936.
  23. Jornal dos Sports, Rio de Janeiro,7 de novembro de 1936.
  24. Jornal dos Sports, Rio de Janeiro, 17 de novembro de 1936.
  25. Jornal dos Sports, Rio de Janeiro, 25 de novembro de 1936.
  26. Jornal dos Sports, Rio de Janeiro, 2 de dezembro de 1936.
  27. Jornal dos Sports, Rio de Janeiro, 15 de novembro de 1936.
  28. Idem.
  29. Jornal dos Sports, Rio de Janeiro, 12 de fevereiro de 1937.
  30. Jornal dos Sports, Rio de Janeiro, 2 de março de 1937.
  31. Jornal dos Sports, Rio de Janeiro, 13 de fevereiro de 1937.
  32. Idem.
  33. Jornal dos Sports, Rio de Janeiro, 14 de fevereiro de 1937.
  34. Jornal dos Sports, Rio de Janeiro, 2 de março de 1937.
  35. Jornal dos Sports, Rio de Janeiro, 9 de março de 1937.
  36. Jornal dos Sports, Rio de Janeiro, 4 de maio de 1937.
  37. Idem.
  38. Todas as frases foram publicadas no Jornal dos Sports, Rio de Janeiro, 4 de maio de 1937.
  39. Jornal dos Sports, Rio de Janeiro, 23 de outubro de 1966. Matéria especial organizada pelo jornalista Geraldo Romualdo da Silva sobre o futebol carioca na década de 1930.
  40. Idem.
  41. Idem.
  42. Idem.

 

 

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