O falso Bonaparte

O falso Bonaparte

Estamos na década de 1780, em outro universo. A França na qual os fatos ocorrem, é um país homônimo, em um tempo paralelo. O cenário é gótico, o ambiente é líquido. A náusea vai se tornando o sentimento comum. O povo tem fome. Muitas fomes. O regime político faliu, reduzindo-se a uma disputa oligárquica por pensões, cargos e privilégios. A monarquia perde o controle do processo, e uma vanguarda revolucionária, que acredita na necessidade de métodos radicais para o extermínio de antigos vícios, toma o Poder. Os jacobinos instituem tribunais revolucionários. A choldra clama por autoridade, emprego e previsibilidade.
A revolução mergulha a França em um torvelinho de instabilidade e insegurança. A mentira, a fraude e o medo rondam os lares. Nesse país homônimo de uma galáxia bizarra, toda a revolução contempla obrigatoriamente uma contrarrevolução e vice-versa.
Uma crise econômica pavorosa irrompe o reinado de ponta a ponta. Os recursos do governo foram todos cortados, restringindo-se unicamente a financiar militares, juízes e parlamentares, que sempre frequentaram a Corte e mantiveram privilégios.
O povo, que tem muitas fomes, começa a ter fome de vingança. Mas as ruas não rugem; permanecem vazias. Bastaria um pavio para explodir o paiol. Os congressistas reagem aos excessos dos jacobinos, já enfraquecidos, que começam a ser usados como bucha de canhão.
O relativismo é a única doutrina. Tudo é aceitável; tudo é inaceitável. A nação está farta de tanto desassossego. A saída é recorrer ao carisma e à força de um general laureado em batalhas.
Nesse universo bizarro, Bonaparte toma o poder através da internet e cerca-se de militares de alta patente. Sim, Bonaparte teve os apoios do ódio, da rejeição ao passado recente, da vontade de arrebentar e destruir. O corso busca fomentar a intriga como um Iago à procura de um Othello.
A ordem e a disciplina asseguradas pelo ditador, contudo, esfumaçam-se nas primeiras badaladas do relógio. O Bonaparte bizarro não passa de um bufão. Permite que os príncipes, seus filhos, exerçam o poder acima dos generais, que são o lastro do seu governo.
Restringe suas aparições às redes sociais e passa a se comunicar com palavras de baixo calão. O corso se diverte, divulgando imagens chulas em festividades nacionais. A França vai perdendo a dignidade, a decência e o orgulho próprio.

Os primeiros meses do governo ditatorial são um fiasco. Irritado e intrigado com a anarquia provocada pela ingerência da família e a influência de místicos, o Alto Comando das Armas passa a exigir a atitude de um chefe de Estado. O povo se revolta com o desemprego permanente. Surgem manifestações mais agressivas. Espiões partem para distantes confins buscando decifrar o enigma da decadência de Bonaparte.
Em meio ao aprofundamento das investigações, chega-se, então, a uma descoberta estarrecedora: “Napoleão” não era Napoleão, mas um impostor, um sósia que nunca passara de um reles alferes, expulso da escola de armas. Cansado de guerra, o verdadeiro Napoleão estava escondido no Oriente, vivendo em um serralho como um verdadeiro sultão. Generais vão ao seu encontro; apelam ao seu patriotismo para que regresse à França.
Bonaparte, então, retorna a Paris, assume o governo, e a França, enfim, adquire a sonhada estabilidade. Consta que, quando o verdadeiro ditador era coroado Imperador na Catedral de Notre Dame, o falso Bonaparte atacava prussianos no pátio do manicômio onde passaria o resto de sua vida. Equilibrava-se no fio entre a sanidade e a demência, oscilando entre o tempo passado e o tempo presente, tal como a insólita narrativa deste Recado. Pergunta que não quer calar: afinal, o Napoleão de fancaria existe?

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