O Deus ambíguo de Mordecai Kaplan

O Deus ambíguo de Mordecai Kaplan

Fernando Cardoso Cotelo, Advogado

 

A página oficial do Reconstructionist Rabinical College, situado em Wincote, Pensylvania, nos Estados Unidos, indica, em sua seção de temas educacionais, um texto chamado Quem é um judeu reconstrucionista?1

Esse texto, uma espécie de declaração de origens e intenções do Movimento Reconstrucionista, expõe em poucas palavras o que o judeu reconstrucionista tem de diferente dos outros judeus, situa-o dentro de sua comunidade e mostra a relação de sua comunidade com o judaísmo e com o mundo. Também é uma espécie de catálogo de consulta rápida para questões contenciosas nas várias dimensões da civilização judaica.

É doutrinário, mas, de forma alguma, apologético. E nem precisava ser, pois o projeto de viabilizar a coexistência de Deus com a modernidade já foi tornado operacional.

Originado a partir de uma facção radical de esquerda dentro do Movimento Conservador liderada pelo rabino e filósofo Mordecai Kaplan, o Movimento Reconstrucionista desenvolveu-se do final da década de 1920 até a década de 1940 e estabeleceu um colégio rabínico em 1968. Kaplan nunca desejou que sua doutrina desse origem a uma nova denominação dentro do judaísmo liberal, sempre advogando a favor de sua permanência como uma ala “à esquerda” dentro do Movimento Conservador. Os Reconstrucionistas acreditam que as visões teísticas tradicionais são incompatíveis com o pensamento moderno e propõem como substituto uma concepção naturalística.2 A Halacha3 não é considerada vinculante, mas é tratada como uma herança cultural valiosa que deve ser mantida a não ser que haja uma boa razão para o contrário, por exemplo, quando a tradição entra em conflito com os padrões éticos contemporâneos. O movimento enfatiza uma visão positiva em relação à modernidade e considera que o costume religioso deve ser subordinado à autonomia pessoal.

Mordecai Kaplan foi um dos mais importantes pensadores do judaísmo moderno. Seus interesses intelectuais eram muito variados, e ele escreveu sobre uma gama extensa de assuntos. Sua vida se confunde com a própria história do surgimento do movimento que se tornou a denominação dentro do judaísmo liberal norte-americano conhecida por Movimento Reconstrucionista. Além dessa seção biográfica, o texto explora com maior atenção o método reconstrucionista e sua relação com o pragmatismo norte-americano clássico desenvolvido nas primeiras décadas do século 20.

 

Uma breve biografia de Mordecai Kaplan

Esta biografia é baseada num ensaio de Mel Scult4 (Goldsmith e Scult, 1991): Mordecai Kaplan teve uma longa vida de 102 anos. Nasceu em 11 de junho de 1881 em um vilarejo nos arredores de Vilna, na Lituânia, em uma família tradicional de judeus ortodoxos mitnagdim (não chassídicos),5 tendo como pai o rabino Israel Kaplan. Em 1888 o rabino Israel foi chamado para servir em uma corte rabínica em Nova York e por lá ficou, trazendo toda a família no ano de 1889 para o Lower East Side.

Mordecai, durante sua infância e adolescência, recebeu do próprio pai uma educação judaica tradicional, estudando o talmude e outros textos rabínicos, bem como frequentando uma yeshiva. Segundo consta, o rabino Israel Kaplan era muito tolerante e estimulava discussões que transcendiam o pensamento tradicional ortodoxo, como as obras de Arnold Ehrlich, um dos primeiros a expor o estudo crítico da bíblia e os problemas levantados pelo estudo científico da bíblia.

 

Pouco antes de seu bar mitzvah, foi admitido no Jewish Theological Seminary (JTS), o principal centro de estudos do Judaísmo Conservador nos Estados Unidos. O currículo do JTS era bem diferente do currículo regular de uma yeshiva, com cadeiras em história do judaísmo, livros da bíblia, gramática do hebraico, arqueologia, talmude e filosofia medieval judaica. Os professores de Kaplan, ainda que muito observantes, eram todos bem versados em educação secular.

Ao mesmo tempo em que Kaplan estudava no JTS, cursava sua graduação no City College of New York, onde estudou um currículo clássico. Ele terminou sua graduação no ano 1900 e logo em seguida entrou no mestrado em Columbia, onde cursou filosofia e sociologia. Nessa época o Departamento de Filosofia de Columbia era bastante influenciado pelos filósofos pragmatistas William James e John Dewey. Como veremos, o pragmatismo norte-americano clássico é uma influência fundamental do sistema filosófico-religioso de Kaplan.

Durante seu tempo em Columbia, serviu na comunidade Kehilat Jerushun, uma das comunidades ortodoxas mais importantes de Nova York. Ele obteve sua graduação no JTS em 1902, na época em que o seminário passou a ser dirigido por Salomon Schechter, que gostava dele e o convidou para ser o diretor do recém-criado Teacher’s Institute, do qual se manteve à frente até sua aposentadoria na década de 40.

Ao longo dos anos, seu discurso foi-se tornando cada vez mais radical em relação à necessidade de acomodar lado a lado religião e modernidade. Entre 1915 e 1916 escreveu artigos no The Menorah Journal em que dizia que as religiões em geral e o judaísmo em particular deveriam ser analisadas do ponto de vista das novas ciências sociais, especialmente a sociologia.

Numa época em que o povo judeu passava por um momento de baixa autoestima e os judeus estavam se tornando cada vez mais seculares, Kaplan acreditava firmemente na causa sionista e achava que o judaísmo não poderia sobreviver se fosse percebido apenas como um conjunto de crenças. Em vez disso, o judaísmo tinha que ser entendido como a “energia vital” do povo judeu.

Quando ele teve a oportunidade de trabalhar com o Young Men’s Hebrew Association (YMHA), um equivalente judaico do YMCA, percebeu que algo novo tinha que ser feito para que o sentimento judaico e o desejo de uma vida comunitária fizessem sentido na América moderna. Uma dimensão religiosa teria que ser introduzida nas atividades esportivas, teatrais e artísticas, que tanto interessavam aos jovens do YMHA.

A oportunidade surgiu quando, em 1915, uma comunidade do Upper West Side resolveu criar uma sinagoga que, além de funções religiosas também seria um centro de atividades esportivas e artísticas: o Jewish Center; e pediu sua colaboração.

Kaplan determinou que seu salário fosse doado integralmente ao Teacher’s Institute para que pudesse seguir sua orientação liberal sem pressões da diretoria do Jewish Center. Ele ficou lá até 1921.

Ao longo da década de 1920, Kaplan criou condições para reunir rabinos favoráveis às suas ideias na Society for Jewish Renascence, cujo objetivo era:

 

interpretar, nos termos do pensamento contemporâneo, os conceitos do judaísmo e o conteúdo da literatura judaica com status de autoridade. Para revitalizar as práticas judaicas tradicionais, dentro e fora da sinagoga. Para fazer delas a expressão da experiência espiritual do nosso povo no presente (…).6

 

A partir dessa época, Kaplan passou a expor suas ideias mais controversas. Em um artigo em The Menorah Journal chamado A Program for the Reconstruction of Judaism,7 escreve:

 

Nada pode ser mais repugnante para o pensamento do homem contemporâneo do que a doutrina fundamental da Ortodoxia, que é a tradição ser infalível (…)”.

 

O artigo dizia que a única forma de revitalizar o judaísmo era dispensar ideias mitológicas sobre Deus, criar um código dinâmico que seria um guia para o comportamento judaico e estabelecer um centro para a cultura judaica na Terra de Israel.

A partir daí, alguns dos membros mais tradicionais do Jewish Center retiraram seu apoio a Kaplan. Juntamente com uma parcela da comunidade, Kaplan deixou o Jewish Center e fundou um novo grupo chamado Society for the Advancement of Judaism, onde encontrou terreno livre para desenvolver suas ideias. Em 1922 ele celebrou o primeiro bat mitzvah da história, para sua filha Judith.

Hoje em dia, entre os judeus liberais, o bat mitzvah é prática incentivada. Naquela época a maioria das comunidades não estava preparada para aceitar uma série de inovações que ele propunha. A ideia centrava-se em seu desejo de deixar de lado formas que considerava incompatíveis com a modernidade. Kaplan já queria, por exemplo, proporcionar igualdade total entre homens e mulheres no serviço religioso.

Durante a década de 1920 foi muito ativo tanto como estudioso acadêmico quanto como rabino. Mas foi só na década de 1930, com 53 anos de idade, que Kaplan publicou suas obras clássicas que até hoje funcionam como textos centrais para o Movimento Reconstrucionista: Judaism as Civilization, de 1934; e The Meaning of God in Modern Jewish Religion, de 1937.

Em 1941, por acreditar que as orações tradicionais não refletiam as preocupações mais profundas dos judeus modernos, Kaplan, junto com os rabinos Ira Eisenstein e Eugene Kohn, publicou uma nova Haggadah de Pesach e, em 1945, um novo Siddur, nos quais sua principal preocupação era a de reconstruir as rezas e fórmulas tradicionais de modo a substituir elementos que fizessem referência a, entre outros, distinções entre homens e mulheres e à “eleição de Israel”. Por exemplo, em seus livros de oração foram retiradas da linguagem do kiddush referências à eleição (chosenness – na terminologia de Kaplan).

Em nossos dias de “bíblias da mulher” podemos não nos dar conta de como essas atitudes representaram um choque na comunidade judaica americana. A União dos Rabinos Ortodoxos dos Estados Unidos e sua irmã Canadense expediram conjuntamente em junho de 1945 um Cherem, análogo judaico à bula de excomunhão papal, contra Kaplan. Durante a cerimônia, os rabinos queimaram! exemplares de sua Haggadah e Siddur.

 

Opensamento de Kaplan evoluiu sempre ao longo de sua vida. Ele publicou suas obras clássicas já em idade madura e foi um pensador e escritor ativo e interessado em todos os aspectos do judaísmo, em especial sua relação com a cultura secular e sua condição de minoria entre os povos. Seu último livro foi publicado em 1973, com 92 anos, e ele ainda viveria mais 10.

O Movimento Reconstrucionista só se tornou uma denominação independente no final da década de 1960, quando em 1968 o Reconstructionist Rabinical College foi fundado, depois de muito esforço de seu primeiro presidente, Ira Eisenstein. Eisenstein tinha uma relação íntima com Kaplan; foi seu genro e o mais leal discípulo, mas, apesar de sua lealdade ao sogro e contra sua orientação, nunca ocultou seu desejo de que o movimento tivesse uma identidade distinta e separada.

 

Método reconstrucionista

Kaplan concebia o judaísmo como “civilização religiosa em permanente evolução” (Kaplan, 1934, cap. 14). Para ele, a religião judaica é o núcleo dessa civilização e, durante as primeiras décadas do século 20, queria trazer de volta para a prática religiosa a grande maioria de judeus americanos que se tinham secularizado. Como “manter a continuidade da religião judaica em um mundo em transformação”8 se “a religião judaica tradicional pertence a um universo de discurso diferente daquele do homem moderno.”9

Kaplan sofreu uma profunda influência daquilo que de mais interessante se produzia nos meios acadêmicos seculares americanos em termos de pensamento filosófico original, o pragmatismo americano de Charles Peirce, William James e John Dewey. De acordo com James, o método pragmático “é primariamente um método para apaziguar disputas metafísicas [como se o mundo é um ou muitos, livre ou predestinado, material ou espiritual] que de outra forma poderiam ser intermináveis”.10 A essência do método é:11

 

Nesses casos [de disputas intermináveis] o método pragmático consiste em procurar interpretar cada noção vislumbrando suas respectivas consequências práticas. Que diferença prática faria para qualquer pessoa se tal noção, e não alguma outra, fosse verdadeira? Se nenhuma diferença prática pode ser vislumbrada, então as alternativas significam praticamente a mesma coisa, e a disputa é inócua. Sempre que uma disputa é séria, devemos ser capazes de mostrar alguma diferença prática que segue do fato de uma posição ou outra ser verdadeira.

 

Dessa forma, o método reconstrucionista de Kaplan é uma tentativa de reinterpretar o significado do discurso, dos símbolos e elementos sagrados do judaísmo a fim de esvaziar debates metafísicos que, segundo seu entendimento, afastavam os judeus americanos da religião e das práticas religiosas. Para que fosse possível manter uma continuidade da civilização judaica no mundo moderno, com a religião judaica em seu núcleo, era necessário buscar uma nova “concepção de Deus” (God idea) que fosse compatível com uma percepção da realidade mais científica do que aquela baseada na autoridade da tradição.

 

Como se busca uma “nova concepção de Deus”? O ponto de partida é o reconhecimento de que a civilização judaica não é estática, e sua relação com Deus tampouco pode sê-lo. Kaplan cria uma tipologia da evolução das religiões — que ele aplica ao judaísmo, mas poderia servir para a análise de qualquer tradição religiosa.

Um exemplo de aplicação desse método para o entendimento da evolução do significado das escrituras sagradas é o seguinte: durante a primeira Commonwealth, a religião judaica era henoteísta, tinha devoção por apenas um deus e ao mesmo tempo aceitava a existência ou a possibilidade da existência de outros deuses. A partir daí, a religião se transformou em uma religião monoteísta, com uma concepção universalista de Deus e a consequência de se tornar teocrática, durante o período da segunda Commonwealth. Kaplan dá um exemplo de como a exegese das Escrituras evolui.

Em Êxodo12 20:21 lê-se:

 

Um altar de terra farás para mim e sacrificarás sobre ele tuas ofertas de elevação e tuas ofertas de paz, teu rebanho e teu gado. Em todo lugar em que Eu fizer recordar Meu Nome, virei a ti e te abençoarei.

 

O versículo pertence à legislação da era pré-profética, quando era permitido o culto em santuários locais. Durante a segunda Commonwealth, o mesmo versículo era utilizado para negar a permissão para cultuar em santuários locais, em sintonia com a teocracia dos sacerdotes do templo. Essa evolução do significado é feita a partir do que Kaplan chama de transvaluação.

 

A transvaluação consiste em imputar significados ao conteúdo tradicional de uma religião ou herança social que não poderia ter sido contemplada nem implicada pelos autores desse conteúdo. (…) Os estudiosos e sábios de um período posterior não hesitaram em ler suas próprias crenças e aspirações nos escritos de estudiosos e sábios de outro período. Tanto o sentido de continuidade nacional como a fé na origem divina da tradição religiosa faziam a transvaluação ser perfeitamente plausível.13

 

Ao longo da transformação do judaísmo bíblico em judaísmo rabínico, registra-se a ocorrência de transvaluação no período em que, durante a segunda Commonwealth, a religião teocrática se transformou em uma religião baseada na noção de “outro mundo” ou olam haba,

O que observamos é uma transvaluação necessária para que a religião se adaptasse a um novo padrão ético sem abrir mão da autoridade do texto sagrado. Vejamos a versão bíblica da chamada “Regra de Talião” em Êxodo 21:22 – 25:

 

Quando homens brigarem e ferirem uma mulher grávida, e se saírem suas crianças e não houver desastre (de morte na mulher) – (o culpado) será multado se o marido da mulher lhe reclamar, e pagará (pelo) aborto como os juízes determinarem. Mas se houver desastre (de morte na mulher) – darás (indenização de) alma por alma, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferida por ferida, contusão por contusão.

 

Já em Avot14 1:1A lê-se:

 

Moisés recebeu a Torá do Sinai, transmitiu-a a Josué, Josué aos anciãos, os anciãos aos profetas, e os profetas a transmitiram aos homens da Grande Assembleia. Estes proclamaram três coisas: sede ponderados no julgamento, formai muitos discípulos e construí uma cerca protegendo a Torá.

 

Essa mishná é uma das mais conhecidas e transmite basicamente as seguintes recomendações (por ordem de importância, como a exegese tradicional interpreta): sede ponderados no julgamento – sinal de um processo civilizatório, indica a necessidade de abrandar a arbitrariedade e a violência da lei recebida. Formai muitos discípulos – isto é, convençam outros de que essa é uma recomendação razoável para perpetuá-la na forma de ideologia. A terceira: “construí uma cerca protegendo a Torá” é deveras metafórica e conheço algumas interpretações possíveis. Uma que poderia ser compatível com o pensamento de Kaplan seria “proteja a tradição recebida, mas guarde uma distância prudente dela”.

 

Segundo Kaplan, o que a transvaluação fez no passado para promover a continuidade da religião judaica não serve mais para os dias de hoje, pois não é compatível com o desenvolvimento da ciência e dos valores democráticos. A transição do judaísmo tradicional para o judaísmo do futuro só pode ser realizada com a total consciência e convicção de que a continuidade é legítima. Para isso é necessário deixar a transvaluação de lado e lançar mão da revaluação.

 

A revaluação consiste em desvincular do conteúdo tradicional aqueles elementos que respondem a postulados permanentes da natureza humana e em integrá-los em nossa própria ideologia. Quando revaluamos, analisamos e decompomos os valores tradicionais em suas implicações e escolhemos aceitar aquelas implicações que nos ajudam a encontrar nossos próprios valores morais e espirituais; o resto pode ser deixado para a arqueologia.15

 

A primeira parte do texto de Avot 1:1A deixa clara a intenção de legitimizar a origem divina do relato. Sem a transvaluação não teria sido possível a passagem do judaísmo bíblico para o judaísmo rabínico, e esse processo deve ser reconhecido como parte legítima do espírito judaico.

Entretanto, como Kaplan rejeita a concepção de Deus como agente externo todo-poderoso e perfeito, não pode concordar com a ideia de que todo o processo de transvaluação seja, como os antigos acreditavam, parte de uma revelação de Deus a Israel. Para Kaplan, a única forma de manter a autoridade das escrituras e sua posição central dentro da religião para o homem moderno é pelo processo de revaluação.

Para que a revaluação faça sentido em um mundo onde os avanços científicos não mais permitem que Deus seja entendido como uma entidade separada e diluir seu conteúdo metafísico, Kaplan propõe uma reconstrução da concepção de Deus como um “processo”.

 

É suficiente que Deus deva significar para nós a soma de todas as forças que animam e organizam e as relações que sempre transformam o caos em cosmos.16

Pensar em Deus como um processo em vez de uma entidade de forma alguma tende a torná-Lo menos real.17

 

Deus seria como uma força ou processo que impele a fazer o melhor uso de nossas vidas. A “salvação” deve ser buscada nesta vida e não no olam haba. A crença em Deus concebida dessa forma pode funcionar em nossos dias exatamente como sempre funcionou, como uma afirmação de que a vida tem muito valor.

 

Afinal vale a pena deixar de ser místico?

A contemporaneidade ainda conviverá com a ideia de Deus como entidade separada por muito tempo, e a ideia de processo pode parecer a alguns simplesmente frustrante. Será que o reconstrucionista teria que abrir mão totalmente do conteúdo místico da fé em Deus?

Tome-se, por exemplo, a seguinte questão: Se a humanidade toda perecer em uma catástrofe nuclear (tema recorrente no pós-guerra), Deus morre também?

Em seu ensaio Kaplan’s Approach to Metaphysics,18 William Kaufman explica como o fator místico permanece latente no pensamento de Kaplan.

Kaplan alterna entre dois substantivos quando fala de Deus: “poder” como criatividade potencial e “processo”. A crença em Deus é a crença na “existência de um poder no mundo que impulsiona o homem em direção à salvação”. O significado “correlativo” de Deus é aquele que diz respeito à salvação do homem. O significado substantivo de Deus é aquele que diz respeito ao Cosmos independentemente de sua relação com o homem.

O autor enxerga aí um paralelo entre a distinção proposta por Maimônides entre os atributos de Deus e sua essência. Para Maimônides só havia dois predicados que poderiam ser pensados a respeito de Deus: atributos negativos e atributos de ação. A essência de Deus não pode ser conhecida. Também para ele, a conexão entre a ontologia de Deus e a salvação do homem tem sempre que permanecer um mistério. Para ele não está clara a conexão entre Deus como processo criativo e Deus como força que prepara a salvação humana. Na teologia de Kaplan o status de Deus é altamente ambíguo.

 

O autor é consultor de desenvolvimento urbano das Prefeituras de São Paulo e do Rio de Janeiro

fcotelo@gmail.com

 

NOTAS DE RODAPÉ

 

  1. http://www.jewishrecon.org/resource/who-reconstructionist-jew
  2. Mais sobre o conceito de concepções teísticas naturalísticas segue em breve.
  3. Glossário de termos judaicos a ser compilado em breve.
  4. Scult, Mel. Mordecai Kaplan: his life, em Goldsmith, Emanuel S e Scult, Mel (eds.) Dynamic Judaism: The Essential Writings of Mordecai Kaplan. New York: Fordham University Press/The Reconstructionist Press, 1985.
  5. A distinção chassidim – mitnagdim remonta ao pré-iluminismo judaico.
  6. Do manifesto de fundação The Society for Jewish Advancement.
  7. Kaplan, Mordecai M. A Program for the Reconstruction of Judaism. Em The Menorah Journal 6:4, Agosto de 1920.
  8. The Meaning of God in Modern Jewish Religion, p. 1.
  9. ibid. p. 1.
  10. James. Pragmatism, p. 18.
  11. ibid. p. 18.
  12. A bíblia utilizada aqui foi a versão de David Godorovits e Jairo Fridlin.
  13. Meaning of God in Modern Jewish Religion, p. 3.
  14. Da tradução brasileira de Bunim, Irving. A É tica do Sinai: ensinamentos dos sábios do Talmud.
  15. Meaning of God in Modern Jewish Religion, p. 7.
  16. ibid. p. 76.
  17. ibid. p. 183.
  18. Em Goldsmith et. al, 1992.

 

BIBLIOGRAFIA

 

BUNIM, I. M. A Ética Do Sinai. Ensinamentos Dos Sabios Do Talmud. São Paulo: Sêfer, 2007. ISBN 9788585583125.

 

FRIDLIN, J.; GORODOVITS, D. Bíblia Hebraica. [S.l.]: Editora Sêfer, 2012.

 

GOLDSMITH, E.; SCULT, M. Dynamic Judaism: The Essential Writings of Mordecai M. Kaplan. New York: Fordham University Press, 1991. ISBN 9780823213108.

 

GOLDSMITH, E.; SCULT, M.; SELTZER, R. (Ed.). The American Judaism.of Mordecai M. Kaplan. [S.l.]: NYU Press, 1992. ISBN 9780814730522.

 

JAMES, W. Pragmatism. New York: Dover Publications, 1995. ISBN 9780486282701.

 

KAPLAN, M. M.; SCULT, M. The Meaning of God in Modern Jewish Religion. Detroit: Wayne State University Press, 1995. ISBN 9780814325520.

 

KAPLAN, R. M. M. Judaism as a Civilization: Toward a Reconstruction of American-Jewish Life. Reprint edition. Philadelphia: The Jewish Publication Society, 2010. ISBN 9780827609181.

 

 

 

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