O cérebro já não é mais o mesmo

Rogério Marrocos, Neuropsiquiatra

Fábio Porto, Neurologista

 

O cérebro está morto! Viva o cérebro! O mais complexo, instigante e desafiador órgão do corpo humano não é mais o mesmo. Nasceu, morreu e reencarnou a partir de uma nova ótica da ciência. A visão de um corpo “cerebrocêntrico”, obediente e temente a um monarca absolutista e ególatra, capaz de dominar cada movimento a partir de seus mais de 100 bilhões de neurônios e uma dezena de milhares de conexões sinápticas, é página virada na medicina. De tanto correr, o cérebro humano está alcançando o cérebro humano. O homem jamais foi tão longe no conhecimento sobre o misterioso inquilino da caixa craniana. A neurociência vive um momento absolutamente revolucionário. Estamos diante de um corte epistemológico: a maior esfinge do corpo começa a ser decifrada. E sem nos devorar.

 

O conhecimento sobre o cérebro avança, a passos céleres, para uma nova fronteira. A ponte que tem permitido essa transposição atende pelo nome de Connectome, um projeto sem precedentes na história da neurociência e praticamente ainda desconhecido no Brasil. Guardadas as devidas proporções, trata-se de uma espécie de “Genoma do cérebro”. O epicentro desse projeto é o National Institutes of Health (NIH), braço do Departamento de Saúde dos Estados Unidos e uma das maiores referências em pesquisa médica do mundo. Localizado em Bethesda, no estado de Maryland, o NIH tem profissionais e centros de estudos distribuídos em diversas entidades e universidades. O Connectome reúne especialistas das Universidades da Califórnia (UCLA), de Washington, Minnesota, Harvard, além do Massachusetts General Hospital. O cérebro luminar por trás desse projeto é o americano de origem turca Dr. Marek-Marsel Mesulam, talvez o mais brilhante neurocientista de sua geração.

 

O próprio Projeto Genoma chegou a contemplar estudos sobre as conexões cerebrais, trazendo avanços importantes para a hodologia, a ciência das conexões. No entanto, o Connectome é a promessa de um salto triplo no conhecimento neurocientífico. É como se, finalmente, o manual de instruções do mais intrincado equipamento do corpo humano começasse a ser traduzido. O projeto prevê o mais completo mapeamento jamais feito pela medicina de todos os sistemas cerebrais, desde o nível das transações moleculares na conexão até os níveis celulares, sistêmicos, comportamentais, sociais e culturais. Ao longo de séculos, após muitos ziguezagues, posto que a ciência não foi feita para caminhar em linha reta, a medicina conseguiu desvendar a macroestrutura do cérebro. Agora, estamos dando um mergulho de Jacques Costeau nas profundezas do órgão. Chegou a hora de conhecermos, no detalhe do detalhe, a microestrutura cerebral. A viagem está apenas começando, com a promessa de levar o homem aonde ele jamais chegou.

 

O novíssimo cérebro

O cérebro não deve mais ser visto como um elemento desgarrado, uma central isolada de comando. Tampouco como um ser plenipotenciário, capataz de todos os comandos nervosos do corpo. Definitivamente, a partir do Connectome, o cérebro nunca mais será o mesmo. De certa forma, já não o é mais. Esse arquétipo do grande senhor feudal do organismo humano está se tornando uma peça no museu do conhecimento. Os avanços da neurociência estão permitindo descortinar um novo konzept não apenas sobre a estrutura, mas também sobre o funcionamento e o papel do cérebro em todo o corpo humano. Ele faz parte de um sistema integrado, holístico.

 

Com os estudos já realizados a partir do Connectome, chegamos a um ponto de entendimento de que o cérebro, na realidade, é uma grande rede, e não uma parte estanque do corpo. Tampouco se limita a ser apenas aquele órgão que conhecemos dentro da caixa craniana. Por mais paradoxal que possa parecer, ao mesmo tempo em que deixa de ter o poder absoluto que lhe foi arbitrado em séculos de estudos, o cérebro ganha uma nova dimensão e se espalha por todo o corpo. Acreditem, senhores, e, por favor, dispensem as camisas de força. Podemos afirmar que o cérebro não está apenas na cabeça. Ele se espraia como rede formando a identidade do seu próprio corpo (self) e se estende extracorpo na formação de uma fisionomia cultural e social. Ele vai da ponta do dedão do pé até o teto da Capela Sistina ou da sonda Phoenix, pousada em Marte, passando por panturrilhas e braços. Ou seja: passe a cuidar bem dos seus cotovelos. Eles também pensam e sentem por você.

 

Estudos recentes comprovam este novo conceito do cérebro. Uma das pesquisas mais emblemáticas foi conduzida pelo médico português António Damásio, um dos grandes nomes da neurociência e professor da University of Southern California. Ele forjou a invasão de uma casa com homens encapuzados, que assaltaram as pessoas. Nenhum dos presentes viu o rosto dos supostos ladrões. Depois ele criou uma situação para que um dos “assaltantes” passasse na rua ao lado de uma das pessoas que estavam na residência. Ela teve uma sensação horrorosa, algo que não estava na elaboração mental dela, mas, sim, em seu corpo. Automaticamente, ela vinculou aquele sujeito a seu lado a um episódio de estresse e angústia.

 

Essa associação comprovada pela experiência feita por António Damásio apenas revelou a importância de um mecanismo fundamental para o entendimento desta nova concepção sobre o funcionamento do sistema nervoso e, mais especificamente, do cérebro: os marcadores somáticos. Segundo a tese de Damásio, os marcadores somáticos podem guiar o processo emocional, o comportamento, principalmente a tomada de decisões. São associações entre estímulos e um estado afetivo e fisiológico, capazes de interferir em nosso processo cognitivo.

 

A tese de António Damásio apenas reforça a ideia de que o cérebro está em todas as partes, ou seja, há um sistema integrado que rege as reações nervosas e emocionais. Nosso corpo é cheio de marcadores somáticos, sensores que captam deslocamentos táteis, vozes, gestuais, enfim, qualquer fenômeno externo capaz de criar uma resposta interna. Essas sensações são enviadas para as diversas regiões do cérebro, que funciona como uma espécie de satélite e retransmite o sinal para o corpo.

 

Portanto, dentro deste novo ângulo de compreensão, é absolutamente equivocado dizer que a emoção está no cérebro. Ela até está, mas não apenas lá. Distribui-se, isso sim, pelos marcadores somáticos, mecanismos como disparo do coração, mal-estar epigástrico, uma dor na virilha ou sensações de medo, fome, sede, desejo sexual. Por isso, podemos dizer: o cérebro mudou e não mais está circunscrito à caixa craniana. Não há qualquer exagero ou crime de lesa-ciência ao se afirmar que ele está no joelho, nas dobras do mindinho, no baço, no lóbulo da orelha, nos quadris, na virilha. O corpo está no cérebro, e o cérebro, por meio dos marcadores somáticos, está em todas as latitudes do corpo. Quando disse que o homem pinta com o cérebro e não com as mãos, Michelangelo atirou no que viu e acertou no que não viu. A partir desta nova concepção do sistema nervoso, cérebro e mãos funcionam como um só órgão.

 

O caso Gage

Dois casos famosos na medicina neuropsiquiátrica ilustram bem a importância dos marcadores somáticos no funcionamento do cérebro. Um deles tem como protagonista Phineas Gage, que trabalhava na construção da estrada de ferro Rutland & Burlington, em Cavendish, no estado norte-americano de Vermont. No dia 13 de setembro de 1848, Gage foi vítima de uma explosão. No acidente, uma barra de ferro de um metro e meio atravessou seu rosto. Entrou pela face esquerda, esmagando seu olho, cruzou a parte frontal do cérebro e saiu pelo topo do crânio, no lado direito. Logo após, ele se levantou e andou e falou normalmente.

 

Phineas Gage foi submetido a testes de memória, que apresentaram resultados normais. Tempos depois, no entanto, Gage, que era considerado um funcionário absolutamente exemplar, começou a ter um comportamento errático e irresponsável. Tomava decisões completamente equivocadas e tinha atitudes impróprias. O médico John Harlow, que o atendeu logo após o acidente, cunhou uma frase que se tornaria famosa no estudo da neurociência: “Gage não é mais Gage”.

 

Simplesmente sua personalidade mudou depois do acidente. Dentro da rede de neurônios que compõem o cérebro ele não tinha mais empatia por nada. Ele não conseguia mais interpretar seus marcadores somáticos, que, por sua vez, perderam conectividade. Como diz António Damásio, a emoção norteia a nossa razão. Gage perdeu a razão porque teve subtraída a emoção.

 

Outro exemplo emblemático do funcionamento dos marcadores somáticos vem de uma experiência feita por um grande neurologista e filósofo chamado Miller Fisher. Ele selecionou um grupo de pessoas com catarata congênita. Em sua maioria, eram filhos de mães sifilíticas e tinham zero de visão. Todos foram operados e, aos 20 e poucos anos, passaram a enxergar. Ou seja: o módulo receptivo da visão foi acionado.

 

Miller, então, começou a mostrar objetos a essas pessoas. Todos olhavam e ninguém sabia dizer o que era. Depois, todos puderam pegar o material em questão nas mãos. Miller, então, exibiu mais uma vez o objeto e, ao vê-lo, todos passaram a identificá-lo. A conclusão dessa experiência é que, na teoria do conhecimento, o toque é o mais importante, acima da própria visão. Esse estudo deu origem à pirâmide do conhecimento. Palestras nos permitem reter 5% de conhecimento; a leitura, 10%; o audiovisual, 20%; a demonstração empírica, 30%; grupos de discussão, 50%; a prática, 75%; e ensinar os outros, 80%. Ou seja: o ensinamento, como eufemismo para o toque, é fundamental.

 

Grapho

Diante desse conceito sofisticado, estamos prestes a redesenhar e decupar ainda mais o espaço que o cérebro tem no organismo. Os avanços em jogo são imensuráveis. Um exemplo são estudos para a criação do Grapho, um sistema matemático que revela o que está ocorrendo dentro dos nodes, os “nós” da grande rede de fiação que compõe o cérebro. Eles são o centro de processamento dos estímulos nervosos.

 

Será possível enxergar as trocas que ocorrem no interior dos nodes e geram mudanças no comportamento cerebral e, por extensão, do indivíduo. Cada vez mais a ciência conseguirá identificar os sistemas de conectividade, seja a dos princípios básicos, herdados geneticamente (andar, sentir medo, gostar de outra pessoa), seja aquela que se aprende, de caráter sinaptogênico, leia-se a formação de novas sinapses.

 

Monitoramento cerebral

O Connectome possibilitará o monitoramento e o mapeamento dos caminhos neurais que garantem o funcionamento do cérebro. A partir daí, surgirá um descomunal sistema de dados, ao qual a comunidade científica terá acesso por meio de uma plataforma digital. Será um banco de cérebros. Todo esse projeto envolve um grupo de 34 pesquisadores de nove instituições internacionais. No total, os estudos devem se estender por cinco anos. Nos três últimos anos, que contemplarão a Fase 2 do Connectome, a pesquisa empírica vai se intensificar, com o acompanhamento de 1.200 adultos saudáveis. Eles se constituirão na fonte para o inesgotável manancial de dados que serão colhidos e disponibilizados. Um poderoso supercomputador será inteiramente destinado ao Connectome, permitindo análises complexas das informações sobre as conectividades cerebrais.

 

Equipamentos altamente sofisticados permitirão captação de mapas das conectividades cerebrais de alta qualidade. As imagens serão coletadas por meio de um hardware conhecido como MR. Elas vão ser usadas para mapear as trajetórias de feixes de fibra percorrendo toda a substância branca do cérebro. Os estudos preveem ainda a utilização de magnetoencefalografia combinada com a eletroencefalografia, gerando informações sobre o funcionamento do cérebro em uma escala de tempo de milissegundos. O escâner que será construído para esse projeto terá uma capacidade 4 a 8 vezes superior aos sistemas hoje existentes, permitindo a captação de imagens da neuroanatomia humana com uma sensibilidade muito maior.

 

Os avanços que serão gerados pelo Connectome, assim como as mais recentes conquistas no estudo da neurociência, de fato estão ligados à rápida evolução e ao altíssimo grau de sofisticação dos equipamentos e procedimentos hoje disponíveis na área médica. Um exemplo é a tractografia, que está na proa dos exames diagnósticos do cérebro. Ela permitiu à neurociência ultrapassar a fronteira da avaliação anatômica e entrar no então quase desconhecido território do funcionamento das conexões cerebrais.

 

A tractografia permite se enxergar o padrão de deslocamento das moléculas de água dentro dos neurônios. Mal comparando, é como se tivéssemos passado da era do Google Maps, ou seja, imagens congeladas de ruas e avenidas, para um sistema de filmagem on-line do tráfego cerebral. Hoje, a medicina consegue ver para onde as moléculas estão se deslocando na imensa malha viária do cérebro. Da mesma forma, é possível identificar pontos onde há uma interrupção desse fluxo. As desconexões cerebrais começam a ficar visíveis ao olho humano. Entre outros diagnósticos, esse exame permite o mapeamento tanto de hiperconectividades ou hipoconectividades quanto de desconectividades no cérebro. Ou seja: respectivamente, tornou-se possível enxergar o ponto exato tanto de descargas extras entre os neurônios quanto de rupturas dessa comunicação, quando há um corte no fluxo de água que percorre a bainha de mielina, o conjunto de dobras múltiplas e em espiral em torno dos axônios – parte do neurônio responsável justamente pela condução dos impulsos elétricos.

 

História

Oscar Wilde escreveu que os grandes acontecimentos do mundo têm lugar no cérebro. Pelo olho mágico da neurociência moderna, hoje certamente seria obrigado a dizer que os grandes acontecimentos se dão no corpo humano. É importante ressaltar mais uma vez: os estudos realizados a partir do Projeto Connectome não estão reduzindo o cérebro dentro do organismo, mas, sim, ampliando-o em relação às suas funções. Ele está se expandindo dentro do cosmo, mas não de forma egoísta, dentro do pensamento que, historicamente, guiou a neurociência.

 

Até transpor essa fronteira e chegar a um grau tão refinado de conhecimento sobre o cérebro, a ciência fez uma longa travessia ao longo dos últimos séculos. O novo conceito gerado a partir do Connectome é resultado de uma conta de juros compostos. Essa refundação do entendimento do cérebro e de suas funções só foi possível graças a descobertas em cima de descobertas. Não há epifanias nesse processo, mas sim uma sucessão de estudos, uma linha do tempo em que diversas correntes de pensamentos, mesmo que antagônicas entre si, acabaram contribuindo para a adição de novos valores a pesquisas e teses anteriores. O homem construiu compósito sobre compósito a possibilidade de enxergar o cérebro de uma forma mais ampla e integrada a todo o corpo humano. Só há futuro porque houve um passado.

 

Basicamente, a visão que se tem hoje do modus operandi do sistema nervoso é decorrente da simbiose, por muito tempo inimaginável, de dois grupos de pensamento dicotômicos que duelaram por séculos: os localizacionistas e os equipotenciais. Para se entender minimamente esse processo, é necessário revirar a ampulheta e percorrer a galeria dos momentos mais marcantes dos estudos neurocientíficos.

 

O comportamento humano passou por várias interpretações. Pegando o fio do novelo dos princípios mais científicos, chegamos a Hipócrates, na Grécia ateniense. Segundo ele, o indivíduo era melancólico porque tinha a bile negra, que sairia do fígado e iria para o cérebro. Ou seja: ele tinha uma visão mais corpórea do funcionamento do sistema nervoso.

 

Já na decadência da Grécia, Galeno parte da tese de Hipócrates e a desenvolve para outros órgãos, dentro de um pensamento aristotélico. Segundo ele, o funcionamento global do corpo humano, do cérebro, das paixões, da filosofia, do saber e do conhecimento era regido pela psique, que não tinha uma fisionomia; era uma alma.

 

Essa visão aristotélica é predominante até o surgimento de Descartes, na virada do século XVI para o XVII. Para ele, o corpo humano tinha um funcionamento próprio, autônomo, capaz de enviar todas as emoções para um centro. Ele tinha uma visão unitária do núcleo da psique, que é na pineal, glândula localizada no centro do cérebro.

 

Descartes mantém a divisão entre mente e corpo. Na sua visão, a mente só era produzida na pineal e iria entrar em contato com os espíritos. Ali se formava o pensamento, desgarrado do corpo humano.

 

O século XIX é marcante para o conhecimento do cérebro e de seu comportamento. Nesse período, o neuroanatomista e fisiologista austríaco Franz Joseph Gall começa a se destacar. Logo no início do século, ele desenvolveu a cranioscopia, um método para identificar a personalidade e as características mentais e morais de um indivíduo com base na forma externa do crânio. Posteriormente, a cranioscopia foi rebatizada de frenologia.

 

Call dizia que todas as características de comportamento e – por que não? – de caráter, como bondade, agressividade, paixão, amor, inveja, raiva, não apenas estavam localizadas dentro do cérebro como cada uma delas tinha uma região específica. Ele fez um mapa do cérebro, mostrando cada área responsável por determinada reação ou sentimento. Surgiu, então, a corrente localizacionista, que teve uma enorme repercussão nos estudos da neurociência. Gall estava certo? Sim e não.

 

Logo depois, quem ganha destaque na neurociência é o fisiologista francês Jean Marie Pierre Flourens. Ele simplesmente contradiz toda a teoria de Gall e lança uma tese absolutamente antagônica. Segundo ele, o cérebro seria um órgão polipotencial ou equipotencial, termo que, então, batiza uma nova corrente dos estudos neuroanatômicos. Flourens defendia a teoria de que o cérebro é um todo e, portanto, pouco importaria o local de uma eventual lesão. Os sintomas dependeriam de uma série de outros fatores. Ou seja: qualquer área era responsável por tudo. Flourens estava certo? Mais uma vez, a resposta é sim e não.

 

Estava estabelecida uma dualidade que conduziria os estudos da neurociência durante boa parte do século XIX: de um lado, os localizacionistas; do outro, os equipotenciais. Por volta de 1856, começam a despontar os primeiros estudos do médico e antropólogo francês Paul Broca. Ele atendia um sujeito que entrou para os compêndios da literatura médica, conhecido como “paciente Tan”. Era uma pessoa com paralisia do lado direito e que só falava: “Tantantan”. Não tinha outro modo de se expressar. Em contrapartida, entendia absolutamente tudo o que lhe era dito.

 

Após a morte do paciente, durante os exames de necropsia, Broca mapeou uma lesão no opérculo frontal, parte do lobo frontal, um dos cinco lobos do cérebro (se contarmos o insular). Broca concluiu, portanto, que aquela lesão em um ponto específico havia sido determinante para a interrupção da fala. Esse estudo reforçou a ideia do localizacionismo, lançada por Gall.

 

Anos depois, dentro dessa mesma corrente, quem ganha destaque é o neurologista e psiquiatra alemão Carl Wernicke, considerado o pai do associacionismo e da conectividade. Ele não apenas corroborou a descoberta de Broca como avançou sobre ela, dizendo que, por outro lado, havia uma região no cérebro que cortava a capacidade de entendimento da pessoa, mesmo que sua fala permanecesse intacta – não obstante, na maioria dos casos, os relatos serem absolutamente desconexos. Nesse caso, Wernicke constatou que a lesão estava no fim do lóbulo temporal. A partir de então, ele descobriu que havia um sistema associacionista no cérebro, com uma ponta que falava e outra que não falava. Mais ainda: constatou que ambas eram ligadas por fibras.

 

Essa ideia de conexão entre as diferentes partes do cérebro ficou ainda mais forte no fim do século XIX, a partir de estudos desenvolvidos por um aluno do próprio Wernicke, o psiquiatra alemão Karl Kleist. Suas pesquisas comprovaram que era possível que o ser humano tivesse percepção sem reconhecimento. Significa dizer que ele é capaz de enxergar um objeto, por exemplo, uma caneta, e não reconhecê-la. Só ao clicá-la, ele perceberá que se trata de uma caneta. Kleist deu uma localização tão precisa, tão micro da área responsável por esse tipo de disfunção que passou a ser duramente criticado, notadamente pelos equipotenciais.

 

Esses breves exemplos destacados na linha do tempo ajudam a mostrar que nada nasceu exatamente do zero. Pesquisadores e correntes foram ganhando corpo e avançando ou até mesmo contradizendo estudos anteriores. Um trabalho serviu de escada para o outro e assim sucessivamente, em um processo de refinamento.

 

Essa dicotomia perdurou ao longo da primeira metade do século XX, até que, no fim dos anos 50, o neurologista norte-americano Norman Geschwind retomou a tradição do funcionamento cerebral. Nesse momento, já havia alguns mapas arquitetônicos do cérebro, o mais conhecido deles de autoria do neurologista e psiquiatra alemão Korbinian Brodmann. Ele viu, por meio de análises microscópicas, que o cérebro tinha várias características diferentes de acordo com cada região. A área do hipocampo, por exemplo, tem três camadas; a cortical tem seis. Para a neurociência, isso foi uma descoberta fantástica.

 

Baseado nesses mapas, Geschwind escreveu, em meados da década de 60, um artigo dividido em dois capítulos intitulado “Síndrome de desconexão em animais e no homem”. Esse texto, publicado no “Brain”, uma das mais prestigiosas revistas de neurologia do mundo, foi um marco na história da neurociência. Geschwind destacou que havia doenças de desconexão. Um sujeito pode falar perfeitamente, mas se tiver uma interrupção dos impulsos em outra área ele não poderá repetir o que ouviu. Significou dizer que podia haver desconexões entre uma área específica do cérebro e o restante do sistema ou uma diminuição da conexão entre uma região e outra.

 

A ideia de desconexão se tornou nesse período algo muito forte na neurociência. Chegamos, então, à era de Marsel Mesulam, António Damásio, Frank Benson, Albert M. Galaburda e Kenneth Heilman, egressos da escola de Geschwind. Mas eles ainda não dispunham do refinamento sobre o conhecimento da máquina e da microestrutura cerebral. Marsel Mesulam dizia, citando outro autor no capítulo de neuroanatomia funcional de seu livro: primeiro, anatomia; depois, neurofisiologia. Os modelos psicológicos, sociais, neuropsiquiátricos, psiquiátricos, da neurologia do comportamento são construções erguidas sobre alicerces muito frágeis. Nós só tínhamos noção da aparência do cérebro, mas não do funcionamento do seu motor.

 

Na década de 70, surge a tomografia computadorizada, uma técnica ainda relativamente pouco acurada. Na de 80, aparece a ressonância magnética com imagem mais bem definida. Na década de 90, esse gap começa a ser reduzido com o advento de técnicas de imagem mais rebuscadas. Ainda assim, a ressonância magnética permitia se enxergar a anatomia, mas não o funcionamento.

 

Aos poucos, começaram a surgir instrumentos mais sofisticados que possibilitaram a visualização da grande malha cerebral e do seu funcionamento, até que se chegou à já citada tractografia. Esse exame permite que se veja não apenas a fiação, mas o caminho percorrido pelos impulsos nervosos. Agora, dispomos da sequência do funcionamento do cérebro, e não apenas de uma imagem congelada circunscrita à anatomia. Com o avanço dos exames clínicos, passamos a enxergar as microconexões do cérebro, conseguindo vê-lo como um órgão funcional e não somente anatômico.

 

Essa regressão histórica é absolutamente fundamental para se entender o turning point em que a neurociência se encontra neste momento, em razão dos estudos deflagrados pelo Connectome. Os conflitos de ontem nos trouxeram aos consensos de hoje, assim como estão nos levando às descobertas do porvir. Rios que corriam em paralelo acabaram por convergir. Os estudos contemporâneos e o refinado estágio em que a neurociência se encontra revelam que, entre acertos e equívocos, tanto os localizacionistas quanto os equipotenciais tiveram suas contribuições e foram determinantes para a curva de conhecimento que alcançamos neste momento.

 

O cérebro é, sim, um complexo quebra-cabeça, do qual cada uma de suas minúsculas peças tem funções e responsabilidades específicas para o funcionamento do todo. Ao mesmo tempo, é também um órgão absolutamente integrado e único, ideia esta que hoje se aplica não apenas a si próprio, mas a todo o corpo humano, no sentido de que o cérebro está em todas as partes. À medida que foi sendo devidamente mapeado, o cérebro perdeu os mitos que o cercavam, mas ganhou importância dentro de um sistema holístico. Ele deixou de ser onipotente e onisciente, mas foi recompensado com o dom da onipresença. Afinal, o cérebro somos nós. Por inteiro e aos pedaços. •

 

>> Gostaríamos de agradecer à neuropsicóloga professora Cândida Pires Camargo. Seus pertinentes comentários, sua orientação e seu notório conhecimento foram fundamentais para a produção deste artigo.

 

 

 

Rogério Marrocos é neuropsiquiatra do Ministério da Saúde e Mestre em Neurologia.

rogeriomarrocos@gmail.com

 

Fábio Porto é médico neurologista do Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento (GNCC) do HC/FMUSP e do Centro de Referência de Distúrbios Cognitivos (Ceredic).

fabiolobaomed@gmail.com

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

António R Damásio – Emotion, Reason, and the Human Brain – Avon Books – 1994.

António Damásio – O mistério da consciência – Companhia das Letras – 1999.

António R. Damásio – The Feeling of What Happens – Body and emotion in the making of consciousness – Harcourt Brace – 1999.

António Damásio – Em Busca de Espinosa: prazer e dor na ciência dos sentimentos – Companhia das Letras – 2003.

Dominic H. ffytche and Marco Catani – Beyond localization: from hodology to function – Phil. Trans. R. Soc. B (2005).

Larry W. Swanson and Mihail Bota – Foundational modelo of structural connectivity in the nervous system with a schema for wiring diagrams, connectome, and basic plan architecture – PNAS – 2011.

Marco Catani – From hology to function – Scientific Commentary – Brain 2007.

  1. Marsel Mesulam – Principles of Behavioral and Cognitive Neurology – Oxford University Press – second edition – 2000.

 

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