Notícias do Brasil cordial – Corta a trompa da Geni

Notícias do Brasil cordial – Corta a trompa da Geni

Maria Luiza Franco Busse, jornalista e historiadora

 

Corta a trompa da GENI

Ui, essa doeu. E mais ainda sabendo que foi com anestesia. Achou esquisito doer com anestesia? Explico: apagada, sem chance de defesa, e quando acordou, já era. Dói na dignidade.
Aconteceu com Janaína, moradora de rua da cidade paulista de Mococa. Um procurador e um juiz da região, pagos com o dinheiro público para trabalhar, acreditam que o problema da pobreza se resolve acabando com o nascimento de muitos e decidem esterilizar Janaína para ela poder transar à vontade na miséria sem produzir mais miseráveis. Pobre Janaína, não sabia que para aqueles estudados homens da Justiça a causa da pobreza era ela. E não é mesmo, Janaína.
A causa da pobreza é a injusta desigualdade na distribuição da renda, na falta de emprego, na exploração do salário que não cobre as necessidades básicas do trabalhador, na situação de rua em que Janaína está condenada desde pequenininha. Se a mãe dela tivesse sido pega por aqueles homens da Justiça, Janaína não teria nascido, eu não estaria aqui escrevendo sobre essa triste história e todos estariam acreditando que o Brasil é um país sem pobreza.
Esses homens estudados da Justiça para poucos, dos governos só para alguns e da mídia que representa os dois, querem fazer o povo acreditar que o pobre é o culpado da feiúra das ruas. O ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral chegou a declarar que barriga de mulher grávida, moradora da Rocinha, favela da Zona Sul carioca, era “fábrica de bandido”. Bom lembrar que Sérgio Cabral nunca foi político, sempre foi bandido porque só fez política para si e para seu pessoal, e não nasceu na favela. Essa é uma medida para perceber a diferença entre político e bandido.
A turma da panela, que botou o presidente Lula na cadeia com a colaboração direta dos estudados homens da Justiça, acha que castrar Janaína e castrar cachorro e gato são a mesma coisa. Não são. Janaína poderia estar produzindo, criando, contribuindo com um saber e uma habilidade que nunca teve oportunidade de acessar e desenvolver. Portanto, comparar cães e gatinhos com Janaínas é dizer que pobre não é gente e já nasceu condenado porque não se mexe no modelo político-econômico-social, que causa a pobreza. As pessoas que se acham gente chamam a castração de Janaínas de “planejamento familiar”. Cuidado. Presta atenção. A próxima vítima pode ser você.
O caso de Janaína foi denunciado no artigo “Justiça, ainda que tardia”, de Oscar Vilhena Vieira, professor de Direito Constitucional da FGV-SP, e publicado no último dia 9 de junho no jornal Folha de S. Paulo, onde o autor é colunista.

A autora é assessora do Departamento de Eventos Culturais do Ministério dos Esportes.
mariabusse@yahoo.com.br

 

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