Notas sobre um breve chanceler – A diplomacia tucana de “resultados imediatos”

Notas sobre um breve chanceler – A diplomacia tucana de “resultados imediatos”

Elizeu Santiago, Relações Internacionais

 

Diz-nos Palme Dutt que “Contemporary history is a dangerous subject to handle. It is full of explosive material. […] Passions and partisanship can obscure objective judgement”. E aconselha-nos: Anyone who attempts to write contemporary history in any more durable form than a current journalistic article is laying his head on the block for the executioner. Nevertheless, contemporary history is the most important history of all to handle” (DUTT, 1963, p. 8).1

Embora redigida na década de 1960, a citação acima permanece válida a todos os interessados em compreender a política externa contemporânea brasileira, em particular aquela compreendida entre os governos Dilma e Temer. Ao longo dos últimos seis anos, cinco chanceleres ocuparam a liderança da diplomacia brasileira, produto não apenas da instabilidade conjuntural na política nacional como da ausência de um projeto articulado de inserção internacional. Nenhum deles, no entanto, conquistou a repercussão que teriam os nove meses de José Serra à frente do Itamaraty.

Marcada por uma forte ruptura discursiva, a breve chancelaria do experimentado senador paulistano circunscreveu-se no polarizado e explosivo ambiente político que tomou conta do país no último lustro. No que pese a crítica exordial à natureza partidária ou ideologizada das gestões pregressas, fez-se da Casa de Rio Branco plataforma para o exercício da vida político-partidária, para o espanto do mitológico – e onipresente – suposto fundador de quase todas as tradições diplomática nacionais. Da partidarização discursiva dos espólios do Barão – polivalente, ao gosto do freguês –, não se produziram, no entanto, significativas alterações de rumo na condução da política externa brasileira.

Para além do acentuado retraimento do país no plano multilateral, tendencial desde o segundo governo Dilma, a ambivalência dos atos internacionais do país reflete a ausência de um conjunto articulado de ações, fruto de uma estratégia coerente de inserção internacional, goste-se ou não, presentes com alguma consistência cognitiva nas diplomacias FHC e Lula. Embora em tons diferenciados, a desorientação diplomática na busca por resultados palpáveis de curto prazo, presente na gênese do imaginário político dos dois últimos governos, é sintoma mais amplo da instabilidade conjuntural instalada pelos novos tempos.

De um lado, o prenúncio do que por ora se assemelha ao início da reversão da ordem liberal instalada pela pax americana no mundo pós-1945. Em uma mistura tóxica de resultados econômicos insuficientes, sentimentos antiglobalização crescente e insatisfação generalizada com a classe política, a emergência de movimentos nacionalistas põe em xeque os valores identificados com uma ordem mais globalizada e cosmopolita. Não por acaso, assiste-se contemporaneamente à emergência de Trumps e Le Pens paralelamente à iminência de Brexits. (SOUSA, 2016).

Do outro, a desarticulação autoinfligida da então oitava maior economia mundial, cujo modelo a integrar crescimento econômico e distribuição de renda outorgou a um país historicamente carente de poder bruto a sua mais robusta credencial internacional. A ela, logo se somariam os efeitos domésticos da desaceleração da economia mundial e a emergência da revolução lavajateira com seus múltiplos episódios a convulsionar um sistema político em rebuliço.

Sem o apetite de outrora em um quadro conjuntural desfavorável, o apequenamento internacional do Brasil pós-Lula veio acompanhado da emergência de discurso constatativo que aos excessos de política – dita solidária, partidária ou mesmo pouco pragmática comercialmente –, operou-se a subalternização dos ganhos econômicos, reino alegadamente seguro da concretude material. A dicotomia ontológica a hierarquizar narrativamente economia e política é indicativo da crença ao redor da natureza pouco pragmática dos resultados colhidos. Em bom português, o Brasil haveria produzido muito barulho para pouco resultado.

Ao olhar do novo chanceler, a diplomacia brasileira deveria voltar “a refletir de modo transparente e intransigente os legítimos valores da sociedade brasileira e os interesses de sua economia” em detrimento do que haveria sido uma diplomacia inclinada às “conveniências e preferências ideológicas de um partido político e de seus aliados no exterior”. Em menção direta a outro José, pagou-lhe tributo no que é desde Rio Branco um lugar-comum no discurso diplomático brasileiro: “A nossa política externa será regida pelos valores do Estado e da nação, não do governo e jamais de um partido” (SERRA, 2016B).

Indagado se nos anos precedentes não houvera o país alcançado um protagonismo mundial nunca antes obtido, José Serra diria em entrevista a periódico portenho que “Puede ser desde el punto de vista de la atención mediática, pero más que notoriedad lo que nosotros queremos ahora son resultados”. Em um verboso contraponto às administrações pretéritas, arremataria-lhe o raciocínio: “La política exterior brasileña será ahora ambiciosa en resultados, no en retórica.” (SERRA, 2016A).

O discurso do pragmatismo produtivista no plano externo veio a calhar com as circunstâncias impostas pelo rearranjo político após a derrubada da presidente eleita. Em um discurso aprazível para os setores identificados com as forças do mercado, as reformas domésticas a conferir competividade à economia combalida encontrariam a sua contraparte no plano diplomático. Lá, o país trataria de reaproximar-se de economias dinâmicas no afã de obter-lhes investimentos e tratados comerciais vantajosos.

Na seara sul-americana, era tempo de relançamento de um Mercosul revitalizado, comercialmente orientado e livre de influências bolivarianas. Por tabela, ganhava-se a oportunidade de ouro de polemizar com governos identificados com governos de esquerda e supostamente próximos ao Partido dos Trabalhadores. Não tardou para que o linguajar eleitoral chegasse às sempre tão pasteurizadas comunicações oficiais diplomáticas brasileiras. Logo de estreia, valeu-se de linguagem raramente vista em ambientes diplomáticos no espinafro generalizado aos vizinhos descontentes, um afago bem-vindo às suas bases eleitorais (MRE, 2016).

 

 

 

No plano das exequibilidades, no entanto, os grandes empreendimentos internacionais costumam levar anos entre sua maturação e os primeiros resultados colhidos. Para se ter uma ideia do concreto, União Europeia e Canadá levariam sete anos para a assinatura de acordo de livre comércio concretizado apenas em outubro de 2016; Estados Unidos e onze outros países precisariam de oito anos em torno das negociações da Parceria Transpacífica (TPP), ousada iniciativa da diplomacia Obama recentemente desbaratada pelo novo mandatário norte-americano.

Com um olho nas relações internacionais e a alma em Brasília, Serra apostou nos eventuais resultados comerciais colhidos no curto prazo a maximização de sua sorte nas eleições de 2018. Não que a tática fosse novidade eleitoral. Após exitosa passagem pelo Ministério da Saúde entre 1998 e 2002, o então ministro do governo FHC se credenciaria ao pleito presidencial de 2002. Novas circunstâncias, no entanto. Premido entre a Lava Jato e um horizonte de tempo pouco generoso, as idiossincrasias da política externa se impuseram no caminho dos resultados imediatos.

Não por acaso, os breves nove meses à frente do Itamaraty foram marcados por desconfianças e reprovações, por parte dos críticos, ao passo que pelo beneplácito generoso, por parte de entusiastas e partidários.

 

O retorno à tradição: Serra

visto pelos aliados

A mais pervasiva crítica no campo diplomático feita aos governos Lula e Dilma fora aquela ao redor da eventual ideologização/partidarização da política externa brasileira, processo que haveria produzido o esvaziamento seguido pelo crescente desprestígio do Ministério das Relações Exteriores. A captura do interesse nacional pela agenda de um partido haveria resultado na subserviência brasileira “na América do Sul ao bolivarianismo populista”, assim como pela perda do seu papel de liderança e consequente “derretimento” do Mercosul (BARBOSA, 2016).

No campo comercial, haveria sucedido “o isolamento do Brasil das negociações comerciais com sérios prejuízos ao país”, em decorrência do “fracasso da Rodada de Doha e pela politização dos entendimentos comerciais”, apostas mal feitas pelo governo petista que haveriam ainda relegado “os EUA e a Europa a um distante segundo plano” (BARBOSA, 2016). Situação análoga às grandes discussões ambientais no plano multilateral, seara em que Lula e Dilma haveriam sido “tímidos e defensivos”, no que pese uma expansão pouco realista e pragmática da rede de embaixadas e consulados brasileiros pelo mundo afora, um “passo maior do que a perna” (RICUPERO, 2016).

Em termos substantivos, para além do relançamento do Mercosul e a volta do Itamaraty à ribalta político-diplomática, o país liderado por Temer e Serra deveria se engajar na aproximação pragmática de tradicionais parceiros econômicos de outrora, assim como priorizar a busca por investimentos e mercados para as empresas nacionais. O comércio exterior, até então subordinado às preferências de uma política externa vista como ideologicamente engajada, voltaria ao centro da formulação diplomática.

Trocando em miúdos, os 13 anos de governo petista haveriam subvertido a tradição pragmática e universalista da política externa brasileira, ao passo que houvera violado a mais central das prescrições atribuídas ao legado do Barão: transformar política partidária em ação de Estado. Daí, o imperioso retorno à “tradição de Rio Branco”, conceito suficientemente elástico para legitimar mudanças narrativas em um ambiente que preza pelo discurso da continuidade.

Por contraposição, caberia a José Serra à frente do Itamaraty, iniciar o “processo de correção de rumos e de redefinição do papel do Brasil no mundo” (BARBOSA, 2016). Analogamente aos feitos do patrono da diplomacia brasileira, “a ação inaugural de Rio Branco” – aquela ao redor do litígio no Acre2 – “deflagrou processo diplomático que terminaria em resultado favorável ao Brasil, a reação do ministro Serra aos países bolivarianos foi o primeiro passo rumo à recuperação da projeção brasileira na região e à redinamização do Mercosul”. Dito de outra forma, “a gestão Serra retoma nossa tradição diplomática e resgata da irrelevância o seu depositário, a Casa de Rio Branco” (ABDALLA, 2016).

 

“Um total desastre”: Serra

e seus críticos

Ao olhar dos críticos, a chancelaria Serra representaria “a guinada à direita no Itamaraty” (AMORIM, 2016), sintoma mais amplo do retrocesso político-social instalado no plano doméstico com a deposição da presidente eleita. O que se veria a partir de então seria a tentativa de implantação de uma cartilha neoliberal, seguida, no campo diplomático, pela polarização com países identificados com a esquerda do espectro político. Indo nessa direção, a chancelaria Serra teria início com uma postura incomumente dura com governos da região de orientação política distinta, em “um misto de prepotência e arrogância” (AMORIM, 2016).

 

 

 

Aconsubstanciação do conservadorismo neoliberal no plano diplomático se traduziria pela ruptura das linhas tradicionais da política externa brasileira, tais como o abandono da política sul-sul e o multilateralismo participativo das principais instituições globais, assim como pela aceitação complacente da liderança norte-americana no plano regional. O apequenamento do país no cenário internacional se daria ainda no plano temático, local em que as questões comerciais sobrepujariam uma agenda equilibrada, notadamente aquela relacionada aos direitos humanos (ASANO, 2016).

A atitude menos independente do país no plano externo somada a uma perspectiva autolimitadora da autonomia nacional produziria uma considerável perda de relevância do país na geopolítica global. Sob a ótica de um pragmatismo imediatista, importantes conquistas dos governos pregressos ficariam em segundo plano, tais quais a aproximação com o continente africano e as alianças com o mundo em desenvolvimento em prol da reforma da governança global (AMORIM, 2016).

Em quase 20 anos, o discurso de posse do novo ministro fora o único sem a expressão “América do Sul” (SPEKTOR, 2016B) , prioridade na gestão dos governos petistas. Nesse mesmo discurso, nota-se “uma contradição fundamental”: Serra denunciou a diplomacia do PT como ideológica e partidária, mas propôs um programa abertamente ideológico e partidário (SPEKTOR, 2016B).

Uma vez aceito como válido o argumento em torno da “ministrodependência” na coordenação da plataforma diplomática do governo (SPEKTOR, 2017A), um crítico à administração Serra poderia eventualmente correlacionar o seu hipotético despreparo para as funções ligadas à chancelaria com os escassos resultados colhidos ao largo da sua gestão, no que pese um espaço de tempo pouco generoso em uma incômoda conjuntura política. Indo nessa direção, pôde-se argumentar que o tarimbado político paulista “revelou um notável despreparo para o exercício da missão de chanceler” (GUIMARÃES, 2017).

Além do suposto despreparo em torno dos pronunciamentos e do conhecimento de temas triviais da vida internacional, há de se notar “as tentativas de rever princípios da política externa, tais como a não intervenção nos assuntos internos de outros Estados, […] a prioridade da política brasileira para a América do Sul e a necessidade de diversificar as relações do Brasil com todos os Estados”. Por fim, a malfadada “tentativa de alinhar o País com a política externa americana em todos os temas, sem colocar acima de tudo os interesses brasileiros”. Em síntese, ao olhar do mais pessimista entre os seus críticos, “a passagem de José Serra poderia ser definida como desastrosa” (GUIMARÃES, 2017).

 

Um balanço preliminar

Embora temporalmente próximos do calor dos acontecimentos e, portanto, sujeitos às limitações intrínsecas à análise contemporânea de fatos e eventos, cabe-nos, por fim, a tarefa de tecer algumas notas em forma de balanço preliminar acerca da breve chancelaria capitaneada por José Serra. Em primeiro lugar, há de se notar que a própria escolha por um destacado líder partidário – e presumível candidato às eleições de 2018 – ao comando da diplomacia brasileira evidencia o caráter político do processo de formulação da política externa brasileira, recorrente em democracias mundo afora.

A despeito da crítica à natureza partidária da diplomacia dos governos Lula e Dilma, todos os chanceleres escolhidos ao longo dos 13 anos de governo petista foram diplomatas de carreira, o que, evidentemente, não os elevaria acima das paixões partidárias até o reino epistemologicamente neutro do estadismo. Diferentemente do que o discurso de José Serra em alguns momentos demonstrara, a sua própria assessoria viria a reconhecer que “não existe política externa desvinculada da interna” (FOLHA, 2016). Como convincentemente se vem afirmando, em alguma medida, toda política de estado fora antes, em algum momento, política de um governo (MILANI & PINHEIRO, 2013, p. 24; PINHEIRO & LIMA, 2016).

 

 

 

Em segundo lugar, torna-se necessário reconhecer o fortalecimento político do Itamaraty junto ao Palácio do Planalto. Como lembraria posteriormente José Serra, do ponto de vista administrativo, a Casa de Rio Branco encontrava-se em “situação pré-falimentar” (SERRA, 2017). Além de salários e aluguéis atrasados no exterior, o país devia quantia superior a três bilhões de reais a diversas organizações internacionais, condição que ameaçava a participação efetiva do país sob o risco de suspensão do direito a voto e mesmo o da eleição de representantes brasileiros.

Após anos de desprestígio durante a administração Dilma Rousseff, o orçamento de custeio do Ministério seria cerca de 50% maior do que o de 2016 (SERRA, 2017). Do ponto de vista político-administrativo, pois, a chegada de um chanceler com força política reconhecida na situação veio ao encontro das necessidades mais peremptórias da máquina diplomática. Por outro lado, o bom preparo do político-chanceler para o trato com a política partidária não foi suficiente para livrá-lo de constrangimentos ocasionados por uma série de deslizes diplomáticos, irrealizáveis por um funcionário com treinamento especializado.3

Em terceiro lugar, os nove meses à frente do Itamaraty não foram suficientes para alterar significativamente a política externa esposada ao longo da gestão pregressa. Em uma conjuntura internacional pouco favorável, os Estados Unidos, virtuais parceiros prioritários em uma política externa revitalizada, se mostraram pouco inclinados a concessão de maiores espaços negociais. As aproximações comerciais com economias dinâmicas do continente, assim como o avanço do acordo entre Mercosul e União Europeia já eram tratados com atenção na administração Dilma Rousseff, ainda que com intensidades distintas.

Não causa, portanto, surpresa que as principais viagens internacionais presidenciais tenham sido a três países asiáticos (China, Japão e Índia) em decorrência da participação em dois importantes fóruns patrocinados pelos governos anteriores: G20 e BRICS. Isso não significa dizer, no entanto, que pontos de distanciamentos e mesmo de tensões não tenham marcado a passagem de José Serra pelo comando diplomático brasileiro.

As pouco diplomáticas notas endereçadas aos governos bolivarianos e ao secretário-geral da Unasul, ao passo que cativava as bases eleitorais do chanceler, poderiam passar a imodéstia impressão de prepotência por parte do novo governo, postura que pouco contribuiria para a eventual resolução da mais grave crise política e humanitária na história recente venezuelana. A medida trouxe intrínseca mais o pragmatismo eleitoral do que preocupações de naturezas outras.

Ponto de diferenciada concepção política, no entanto, fora o questionamento acerca da extensão da rede de embaixadas e consulados brasileiros, vista como excessivamente custosa frente aos eventuais ganhos difusos dali decorrentes. Outrossim, foi notória a ênfase discursiva conferida na gestão Serra à importância do comércio exterior enquanto alavanca para o crescimento e desenvolvimento brasileiro. O raciocínio, que hierarquiza valorativamente o “econômico” frente ao “político”, tende a igualar política externa à política comercial.

O raciocínio traz à memória os debates inaugurais da política externa brasileira, momento protagonizado, de um lado, por Paula Sousa e Martinhos Campos, importantes lideranças do Partido Liberal e, do outro, por dois dos mais importantes próceres do Partido Conservador: Paulino José Soares de Sousa, futuro Visconde do Uruguai, e José Maria da Silva Paranhos, futuro Visconde do Rio Branco e pai do patrono da diplomacia brasileira.

Ao questionar o caráter pouco pragmático das legações e consulados brasileiros, Paula Sousa afirmaria que “A repartição dos negócios estrangeiros (antecessora histórica do Ministério das Relações Exteriores) é talvez aquela em que, sem desserviço público, se podiam fazer reduções”. E prosseguiria: “Por ora são ainda problemáticas as vantagens que o país tem tirado das suas diferentes missões diplomáticas; pode-se dizer que nenhuma repartição tem feito ainda mais mal ao país” (ACS, 12/08/46).

Em sua visão, “Na Europa bastaria que tivéssemos missões importantes na Inglaterra e Rússia, e na América bastaria que as houvesse nos Estados Unidos e no Rio da Prata”. Para as demais nações, na eventualidade de celebração de tratados, “bastariam missões especiais” (ACS, 12/08/46). Com argumentação similar, anos mais tarde, Martinho Campos questionaria a grande proximidade brasileira com os países platinos. Conjugando uma postura comercialista e de abstenção nos assuntos domésticos no Prata, diria que “Entendi sempre, e ainda entendo, que as únicas relações que nos convêm entreter com aquelas repúblicas são as comerciais” (ACD, 31/05/1860).

No que pese circunstâncias históricas distintas, a resposta de Paranhos, seminal e inconteste pela oposição, permanece ainda hoje válida. Nela, o então chanceler imperial apontaria para a existência de interesses outros que não aqueles meramente oriundos das relações comerciais, “interesses de segurança, de paz, de proteção aos súditos brasileiros e às suas propriedades”. “Se, pois, o nobre deputado tivesse razão”, prosseguia Paranhos “ainda quando nossos interesses com aqueles Estados fossem puramente comerciais, tínhamos necessidade de uma política; essa política chamar-se-ia essencial e exclusivamente comercial, mas sempre seria política” (ACD, 01/06/1860).

 

 

 

Orearranjo institucional promovido por Serra, no entanto, conferiu maior racionalidade aos recursos públicos no tratamento das questões comerciais brasileiras, sobretudo após a transferência da APEX (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos) e da Secretaria Executiva da Câmara de Comércio Exterior (SE-Camex) para o Itamaraty. Em termos práticos, a medida outorgou maior capilaridade ao unir os esforços de promoção comercial e de investimentos capitaneados pela APEX com os 104 setores de promoção comercial (SECOM) localizados nas embaixadas e consulados brasileiros com a atuação.4

Há de se notar, em quarto e último lugar, que a correta localização de incertezas (SPEKTOR, 2016) e mesmo de ausência de uma grande estratégia de inserção internacional do país (LOPES, 2017) não se confundem com a inexistência, por parte do incumbente ministerial, de uma estratégia de curto prazo, cujo desenlace exitoso pavimentaria o caminho até o pleito de 2018. A novidade contemporânea, introduzida por Temer e aceita por Serra – incluir na barganha ministerial o pouco atraente Ministério das Relações Exteriores – poderia, ao fim e ao cabo, ter logrado desfecho mais favorável.

Ocorre que o sucesso de uma pasta sem espaço para patronagem, de baixo orçamento e com demandas constantes de afastamentos do país, ficaria exposto ao resultados de uma política bem-sucedida de curtíssimo prazo. Tarefa um tanto quanto impossibilitada pelas conjunturas interna e externa desfavoráveis. Para além da questionável ausência de legitimidade democrática dos novos dono do poder frente aos demais governos, o ritmo da política internacional, jogada em múltiplos tabuleiros simultâneos, tende a ser mais lento do que a sua contraparte doméstica.

À impossibilidade de êxito em uma agenda de resultados imediatos, logo se somariam os desdobramentos da Lava Jato e os incômodos causados por enfermidade na coluna, proibitivos na rotina do primeiro diplomata da nação. Vitimado pelas circunstâncias, nove meses após a entrada no Palácio dos Arcos, José Serra entregaria seu pedido de demissão.

 

O autor é professor de Relações Internacionais do CEFET/RJ

elizeusantiago@hotmail.com

 

NOTAS DE RODAPÉ

 

  1. A citação completa é a que segue: “Contemporary history is a dangerous subject to handle. It is full of explosive material. Much essential information will not be known until many years later, as documents are released and memoirs published. Passions and partisanship can obscure objective judgement. Anyone who attempts to write contemporary history in any more durable form than a current journalistic article is laying his head on the block for the executioner. Nevertheless, contemporary history is the most important history of all to handle. It is the events of our day which need to be studied and assessed, not only in current polemical treatment, but with an attempt at serious understanding of how they have arisen and where they are leading. For each new generation as it grows up, without previous knowledge or memory of the immediate past, it is essential that such knowledge should be available to help them to understand the part which they can play (DUTT, 1963, p. 8-9).

 

  1. O episódio faz menção a um dos primeiros atos de Rio Branco após a assunção da chancelaria republicana, no ano de 1902. Na ocasião, o Barão interviria favoravelmente em nome de brasileiros radicados no atual território do Acre, área sabidamente de propriedade boliviana. Ao longo das negociações, o patrono da diplomacia brasileira demonstraria firmeza e notório conhecimento jurídico internacional. Ao final, o Brasil incorporaria a região demandada em troca da cessão de pequena faixa territorial adjacente e compensações financeiras. Daí, falar-se que “Rio Branco fundou a tradição de firmeza serena que recusa tanto a arrogância quanto a fraqueza na defesa dos interesses nacionais. […] A tradição de Rio Branco combina respeito ao Direito Internacional, cristalizado nas lendárias atuações do Barão como advogado brasileiro em litígios fronteiriços, com a articulação de consensos que evitam prejuízo de longo prazo na relação com parceiros externos” (ABDALLA, 2016).

 

  1. Embora de duração relativamente curta, os noves meses de José Serra à frente do Itamaraty foram marcados por momentos de forte repercussão, assim como por polêmicas e deslizes. Logo no início de chancelaria, ignoraria três pareceres técnicos de funcionários do Ministério e optaria por renovar o passaporte diplomático do pastor da Assembleia de Deus, Samuel Ferreira, e da esposa, a também pastora Keila Ferreira, próximos a Eduardo Cunha. Ambos são investigados na Lava Jato. Em junho de 2016, em entrevista ao programa Roda Viva, o então chanceler, quando indagado sobre a eventual eleição de Donald Trump diria “Não pode acontecer. Não dá”. Posteriormente, em entrevista ao Correio Braziliense, manifestaria temor com a eleição do republicano e declararia torcida por Hillary Clinton: Eu considero a hipótese do Trump um pesadelo. […] Eu, nos EUA, sempre torci pelos democratas, no atacado. Não que os republicanos tenham sido sempre desastrados, mas sempre fui democrata lá, contudo, agora não se trata nem de ser democrata, trata-se de ser sensato, de querer o bem do mundo. Todos que querem o bem do mundo devem apoiar a Hillary, a meu ver” (SERRA, 2016C). Em visita ao México, no mês de julho, diria à contraparte mexicana, a chanceler Claudia Ruiz Massieu, que “o México, para os políticos homens no Brasil, é um perigo porque descobri que aqui quase a metade dos senadores são mulheres”. Ao reforçar o convite para ter sua presença nos Jogos Olímpicos do Rio, completaria: “Quero muito que você vá, mas será um perigo porque chamará a atenção para este assunto”. Posteriormente, em entrevista ao Antagonista se enrolaria ao tentar explicar quais países compunham o acrônimo BRICS (na ocasião, incluiu a Argentina ao agrupamento), assim como demonstraria dúvidas, em entrevista ao ESTADÃO, sobre o que seria a NSA (National Security Agency), tema quente na pauta externa brasileira durante o governo de Dilma Rousseff após as denúncias de suposta espionagem ao Brasil. Em novembro, momento de grande visibilidade. No dia 29, representaria o presidente Temer no funeral de Fidel Castro; um dia após, voaria para Medellín onde discursaria no Estádio Atanasio Girardot em homenagem às vítimas do acidente aéreo da Chapecoense. Na oportunidade disse ter sido “tomado pela maior emoção da minha vida” (SERRA, 2016D).

 

  1. Apesar do retorno da SE-CAMEX para o MDIC (Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços) após a saída de José Serra, a presença do órgão no Itamaraty permitiria a sua melhor coordenação houvesse permanecido neste Ministério, mais bem preparado do que a pasta comandada por Marcos Pereira. Em verdade, pesa favoravelmente ao Itamaraty não apenas os quadros de excelência profissional, mas também uma menor influência dos lobbies agropecuários e industrialista e a capacidade logística de compreensão da política.

 

BIBLIOGRAFIA

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SERRA, José (2016d). Ao falar na homenagem às vítimas do acidente aéreo, no Estádio Atanasio Girardot, em Medellín, fui tomado pela maior emoção da minha vida. Postagem realizado no Twitter. Disponível em https://twitter.com/joseserra_/status/804139331673845760. Último acesso em 9 de junho de 2017.

 

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