Na terra do petróleo, água é o que não falta

Na terra do petróleo, água é o que não falta

Rodrigo Fonseca Johann, Analista de relações internacionais

 

como um dos maiores exportadores de petróleo do mundo, a Arábia Saudita é a principal potência econômica de todo o mundo árabe. O petróleo representa mais de 90% das exportações e quase 75% das receitas do governo, o que o caracteriza como um Estado rentista. A Arábia Saudita é uma das regiões mais secas do mundo. Estende-se por 2.250.000 km2. Não possui rios perenes e a chuva é de estimadamente 70 mm/ano. Tem necessidade de abastecer uma população crescente de mais de 28 milhões de habitantes. Faz parte dos países do mundo que enfrentam problemas de escassez de água; de fato, tem reservas limitadas de recursos hídricos renováveis e não renováveis (Central Department of Statistics & Information). A água saudita é obtida por meio de quatro fontes distintas: as fontes não renováveis de águas subterrâneas de profundos aquíferos fósseis (88,3% das águas subterrâneas) e as fontes renováveis dos aquíferos aluviais rasos (11,3% das águas subterrâneas), assim como pela dessalinização da água do mar, que corresponde a 25% da capacidade mundial de dessalinização de água. Essa última é a maior fonte de água para o consumo humano da Arábia Saudita (70%) e, por fim, pelo uso das águas de superfície (10% do consumo).

Em setembro de 2011, a agência de notícias Reuters publicou um artigo no qual afirmava que a “crise” de água na Arábia Saudita começava a consumir os retornos obtidos pela indústria saudita de petróleo. De fato, no artigo, é evidenciado que a dessanilização da água é um processo que requer bastante energia, ou seja, queima de óleo. De acordo com dados de 2009 da Saudi Arabia’s Saline Water Conversion Corp (SWCC), a produção diária desse processo é de 3,36 milhões de metros cúbicos de água por dia, o que custa mais de três milhões de dólares. O gasto de combustível corresponde a 1,5 milhão de barris por dia e tende a transformar-se em 2,5 milhões por dia em 2020. O processo reduz a quantidade de óleo cru lucrativo para a exportação. Em suma, a expansão e o desenvolvimento de capacidades de dessalinização são necessários, mas o seu custo energético é muito alto para representar, aparentemente, a única solução para o problema da água (POLYCARPOU, 2011).

Porém, essa escassez gera outros problemas. De fato, de 85% a 90% da água é utilizada para a agricultura, que gera poucos retornos financeiros para o país. Há algumas décadas, a Arábia Saudita utilizava as suas fontes não renováveis de água para irrigar o deserto, para sustentar-se na produção de grãos. Mas por volta de 2008 o governo abandonou essa estratégia porque os aquíferos começaram a secar e ter uma infusão de água salgada. Segundo esse mesmo artigo da Reuters, o país será 100% dependente da importação de grãos em 2016, se não antes. De fato, sua produção caiu em 2/3 de 2007 a 2010. Segundo uma reportagem da BBC, o governo da Etiópia começou um processo de arrendamento de trezentos milhões de hectares de terra, uma área do tamanho da Bélgica, para investidores estrangeiros, incluindo empresas chinesas, indianas e sauditas (POLYCARPOU, 2011). Essas últimas prometeram investimentos em escolas, estradas e eletricidade em retorno ao arrendamento. Mas é evidente que esse processo é delicado e traz muitas dúvidas quanto ao melhor local ultraterritorial para investir na agricultura, pois nesse caso da Etiópia, por exemplo, a terra é habitada por diferentes grupos étnicos, assim como por fazendeiros que protestam contra essa presença estrangeira, o que causa diversos conflitos. A alternativa a essa solução é, dessa forma, o processo de dessalinização da água do mar.

O grande desafio da água na Arábia Saudita em relação a esse processo de dessanilização é que além de ele ser muito custoso, tanto para as reservas de óleo como para os retornos da exportação do petróleo, o governo subsidia esse processo e não impõe qualquer tipo de tarifa para uso da água pela população; de fato, a água no país é de graça, praticamente. Os consumidores pagam apenas 1% do custo do seu valor: menos de 0,03$ por metro cúbico, de acordo com a Global Water Inteligence, sendo que esse custo por metro cúbico de água é de mais ou menos 6$. Essa é uma característica de um Estado rentista como a Arábia Saudita, que possui reservas de petróleo imensas, 24% das reservas mundias (264,5 bilhões de barris), com uma reserva sobre produção de no mínimo 80 anos; ou seja, pode arcar com esse prejuízo (GASSON, 2010). De fato, essa é uma estratégia política, pois o país possui um regime político que, para manter-se no poder e evitar qualquer tipo de revolta, redistribui a renda desse petróleo principalmente para aqueles que apoiam o regime. Essa matriz energética é realmente uma inibidora da democracia (ROSS, 2001) – que evidentemente não existe na Arábia Saudita. Dessa forma, como evitar que os recursos não renováveis dos aquíferos sequem se o uso da água é desenfreado, e não tem um custo capaz de no mínimo causar uma conscientização em relação ao seu uso?

A questão da escassez de água na Arábia Saudita deve ser observada por diferentes ângulos, pois o discurso de que enfrenta uma “crise” de escassez de água é uma visão reducionista de todo o cenário político-social, econômico e ambiental da região. Para demonstrar isso, divido este artigo em três segmentos. O primeiro tenta apresentar uma visão político-social da Arábia Saudita que explica, em parte, essa particularidade do país. Em um segundo momento, será evidenciado o cenário econômico e estratégico da indústria petrolífera saudita em relação aos desafios ambientais da questão da escassez da água, apresentando dados quantitativos em relação aos seus recursos hídricos limitados. Por fim, será analisada a posição em que se encontra a Arábia Saudita em relação ao resto do mundo no que diz respeito à produção de energia durante as próximas gerações.

 

A dimensão político-social da Arábia Saudita

A política da Arábia Saudita é baseada em uma monarquia islâmica absoluta. O rei da Arábia Saudita é tanto chefe de Estado como chefe de governo; no entanto, grande parte das decisões é tomada com base em consultas entre príncipes da família real e da instituição religiosa. O Alcorão é constituição do país, governado baseando-se na lei básica islâmica, a Sharia. O governo é liderado por uma vasta família real (Al Saud), que muitas vezes é dividida por disputas internas entre diferentes facções. Os membros da família real são os principais atores da política saudita. Qualquer participação fora da realeza é limitada, mas pressões são estabelecidades para aumentar essa participação. Observamos ao longo dos anos um maior ativismo islâmico resultando muitas vezes em atos terroristas (BOWEN, 2007).

O governo é conduzido pelo monarca, o rei Abdullah ibn Abdul Aziz, desde 2005, quando subiu ao poder. Não há partidos políticos ou eleições nacionais. O governo saudita é, de acordo com o índice de democracia realizado pelo The Economist em 2010, o sétimo regime mais autoritário entre 167 países avaliados. O rei deve ser escolhido entre os filhos do primeiro rei, Abdul Aziz Al Saud, e seus descendentes do sexo masculino, sujeito a aprovação posterior de líderes religiosos (os ulemás) e pela vasta família real, dividida por disputas internas entre facções. O rei domina as funções legislativas, judiciais e executivas. Os seus decretos autoritários também formam a legislação nacional. É o primeiro-ministro, e preside o Conselho dos Ministros, no qual faz nomeações e exonerações. O conselho é responsável por questões administrativas, financeiras, de saúde e de educação. Há também uma assembléia política de 150 membros nomeados pelo rei que também pode propor leis, mas não possui real poder legislativo (BOWEN, 2007).

De qualquer forma, mesmo sendo o governo uma monarquia absoluta, as grandes decisões políticas são tomadas a partir de um consenso dentro da família real, e a partir dos pontos de vista de integrantes importantes da sociedade saudita, assim como os ulemás (sábios religiosos) e chefes de famílias comerciais importantes. A família real domina o sistema político. O vasto número de membros da família lhes permitem controlar a maioria dos postos importantes do reino e estar presentes em quase todos os níveis de governo. É estimado que o número de príncipes seja por volta de sete mil, sendo que desses, duzentos são descendentes masculinos do Rei Abdul Aziz, garantido-lhes maior presença e poder. Os principais ministérios geralmente são reservados para a família real (BOWEN, 2007). Na ausência de eleições nacionais e partidos políticos, a política na Arábia Saudita transcorre em dois âmbitos: dentro da família real, a dos Al Saud, e no bojo da relação entre a família real e o resto da sociedade saudita. A família real é politicamente dividida por facções baseadas em lealdades de clãs, ambições pessoais e as diferenças ideológicas. A facção que apoia o clã mais forte é conhecida como os “Sudairi Seven”, envolvendo o falecido rei Fahd, seus irmãos e descendentes. As divisões ideológicas incluem questões como a celeridade e a direção de uma suposta reforma política do governo, assim como a avaliação do papel dos ulemás – se sua particpação deve ser aumentada ou reduzida. Outras divisões dentro da família eram baseadas na sucessão do príncipe herdeiro Sultan (BOWEN, 2007).

O governo saudita e a família real foram ao longo dos anos acusados de corrupção. De fato, em um país que “pertence” à família real, assim como tem seu nome baseado nela, a separação entre os bens do estado e a riqueza pessoal dos príncipes é muitas vezes obscura. A corrupção foi reconhecida e defendida pelo príncipe Bandar bin Sultan (um membro sênior da família real), em uma entrevista em 2001. Desde os ataques em setembro desse mesmo ano na ilha de Manhattan, aparece uma crescente pressão para reformar e modernizar as regras da família real, agenda essa defendida pelo rei Abdullah. A criação do Conselho no início de 1990 não foi suficiente para satisfazer as demandas por maior participação política; assim, em 2003, um Fórum de Diálogo Nacional anual foi anunciado, permitindo que profissionais selecionados e intelectuais debatessem publicamente as questões nacionais atuais, respeitando regras precisas e dentro de certos parâmetros prescritos (BOWEN, 2007). Em 2005, as primeiras eleições municipais foram realizadas. Em 2007, o processo de sucessão começou a ser regulado. Em 2009, o rei fez mudanças significativas, nomeando reformadores para posições importantes no governo e nomeando a primeira mulher para um cargo ministerial. No entanto, as mudanças têm sido criticadas por serem muito demoradas e meramente “decorativas”.

A política fora da família real na Arábia Saudita pode ser examinada por três ângulos: o da participação política mais ampla da sociedade, o da oposição ao regime e o do terrorismo islâmico. A participação política fora da família real é limitada a um segmento relativamente pequeno da população e não é relatado pela mídia saudita. Em teoria, todos os homens maiores de idade têm o direito de petição ao rei, realizado diretamente por meio da tradicional reunião tribal dos Majlis (BOWEN, 2007). A identidade tribal tem sua força e, fora da família real, sua influência política é frequentemente evidenciada em eventos locais e nacionais. A oposição política tem origem com os sunitas, no ativismo islâmico, com os críticos liberais, a minoria xiita, principalmente na Província Oriental, e também por comunidades tribais. Destes, os ativistas islâmicos representam a ameaça mais importante para o regime. De fato, nos últimos anos foi perpetrada uma série de atos violentos no país. Protestos abertos contra o governo, mesmo que pacíficos, não são tolerados. Em 29 de janeiro de 2011, centenas de manifestantes se reuniram na cidade de Jeddah, em um protesto contra a infraestrutura da cidade após enchentes que mataram 11 pessoas. A polícia reprimiu a demonstração após cerca de 15 minutos e cerca de 30 a 50 pessoas foram presas. A série de incidentes e protestos que ocorrem na Arábia Saudita é parte da onda de protestos e revoluções que afetam o Oriente Médio e o Norte da África desde o início de 2011. O financiamento surge por meio do zakat (imposto religioso) que deve ser pago por todos os sauditas para instituições de caridade (2,5 por cento de sua renda). Muitas instituições de caridade são verdadeiras; outras servem para lavagem de dinheiro e operações de financiamento do terrorismo. Muitos sauditas pagam essa quantia de boa fé, mas sabe-se que muitos têm total consciência do destino que seu dinheiro tem, e apoiam essa causa terrorista.

O reino é dividido em 13 regiões, distribuídas em diversos distritos. Governadores regionais são nomeados pela família real, e presidem conselhos municipais (metade dos membros é nomeada e a outra metade, eleita). Os governadores são responsáveis por funções como saúde, finanças, educação e agricultura (BOWEN, 2007). Os governadores regionais atuam para resolver litígios entre a população. Em fevereiro de 2005, foram realizadas as primeiras eleições na Arábia Saudita. Na capital, Riade, o número de eleitores registrados não ultrapassou 18% daqueles que eram aptos a votar, o que representava apenas 2% da população da cidade. Os candidatos eram homens de negócios locais, ativistas e profissionais. Foi possível estabelecer uma relação entre os candidatos que tinham uma orientação islâmica, uma base liberal e os candidatos de uma comunidade tribal, muito embora não houvesse partidos políticos. Os candidatos islâmicos eram apoiados por figuras públicas e de posição religiosa importante, ganhando a maioria dos assentos nas cidades sauditas como Riade, Jeddah, Medina, Tabuk e Taif. O apoio para os candidatos de orientação mais liberal é muito pequeno. É importante evidenciar que ao longo do tempo dentro desse tipo de regime os conselhos municipais foram provando ser incapazes de realizar de maneira satisfatória suas funções. No entanto, as eleições representaram um avanço significativo na modernização desse regime.

 

A dimensão econômico-estratégica para

o combate à escassez de água

O Reino da Arábia Saudita é um país situado no sudoeste da Ásia, o maior país da Arábia, ocupando 80% da Península Arábica. Estende-se ao longo de 2.250.000 km2. Menos de 1% da área total é adequada para o cultivo. A partir do início dos anos 1990, a distribuição da população se diversificou muito entre as cidades das áreas costeiras leste e oeste, assim com nos oásis do interior. Os grandes desertos mativeram-se quase vazios. Na Arábia Saudita, até os anos 1980 havia lagos em Layla Aflaj e poços profundos em Al-Kharj, provenientes dos enormes aquíferos subterrâneos, não renováveis, formados em tempos pré-históricos (CIRCLE OF BLUE, 2010). Porém, esses aquíferos foram sendo explorados exaustivamente para a agricultura e para o consumo humano, de tal forma que hoje não se encontra mais água fresca nos lagos nem nos poços.

Os recursos renováveis de água da Arábia Saudita têm um total de 95 metros cubicos de água per capita, número bem abaixo dos 1.000 metros cúbicos per capita, índice de referência para denotar um país com escassez de água. O país é um dos mais secos do mundo, não possui rios perenes, e suas fontes renováveis e não renovávies de água são bem limitadas. A partir de 2008, o governo parou de irrigar o deserto para a produção de grãos com água proveniente das suas fontes não renováveis, encontradas nos seus aquíferos fósseis subterâneos. De fato, começavam a secar e apresentar infusão de água salgada. A água sustenta a vida humana, a produção de comida e o desenvolvimento econômico. Por volta de 2016, a Arábia Saudita ficará, de acordo com estudos, totalmente dependente da importação de grãos; sua produção caiu de dois terços entre 2007 e 2010. A saída para essa situação foi comprar terras arrendadas por outros países, como Etiópia, por exemplo, para estabelecer uma produção agrícola. O ganho financeiro com essa atividade é mínimo para o país, mas ela é essencial para a população árabe. No entanto, essa solução ainda é muito problemática e polêmica (POLYCARPOU, 2011). A única alternativa, e a mais aceita, é o processo de dessanilização da água do mar para o consumo humano e para a produção agrícola, que consome cerca de 85% a 90% da água.

Como já mencionado anteriormente, a Arábia Saudita possui 24% das reservas mundiais de petróleo, um equivalente a 264,5 bilhões de barris, e uma reserva sobre produção de no mínimo 80 anos. A sua demanda energética vem aumentando de 8% ao ano, elevando o consumo doméstico de seu principal produto de exportação. De acordo com estimativas, quase metade desse consumo doméstico é para a dessanilização da água (CIRCLE OF BLUE, 2010). O país possui a maior capacidade instalada de dessanilização de água do mundo; de fato, operam 29 plantas com essa função, instaladas em seu território. Desde os anos 2000, a Arábia Saudita incentivou o setor privado a construir, financiar, assim como operar as plantas de dessanilização. A planta Shoaiba III Independent Water and Power Producer (IWPP), por exemplo, é a maior de todas, com uma capacidade de produção de 150 milhões de metros cúbicos por ano; foi inaugurada em 2005 com um custo de 1,06 bilhões de dólares (GASSON, 2010). Está localizada no Mar Vermelho e produz água para as cidades de Jeddah, Mecca e Taif. O país planeja construir, em 2016, um adicional de dez plantas, um investimento de valor em torno de 16 bilhões de dólares.

É esse processo de dessanilização que produz a maior quantidade de água consumida pela população, por volta de 70% do consumo. Como já observado, é um processo caríssimo, tanto em termos de capital quanto em termos energéticos, pois utiliza-se, para essa produção de energia, de uma parcela de 1,5 milhão de barris da produção diária de petróleo da Arábia Saudita (8,5 milhões de barris/dia), barris esses que deixam de ser direcionados a exportação. Esse número tende a subir para 2,5 milhões em 2020. Além do custo de transformação de água do mar, o serviço de transporte dessa água para a população é precário (CIRCLE OF BLUE, 2010). Por exemplo, na cidade de Riade, capital do país, a água é transportada por um pipeline de 465 km que está disponível somente a cada 2,5 dias, enquanto em Jeddah, somente a cada nove dias. A incapacidade institucional e de governança são uma característica do setor público da Arábia Saudita. A partir dos anos 2000, o governo tem se apoiado muito no setor privado para operar a infraestrutura da distribuição e tratamento de água; isso é feito a partir da privatização de diversas empresas, começando com as de dessanilização e de tratamento de esgotos, por exemplo. Segundo um estudo feito por Elie Elhadj, da School of Oriental and African Studies, metade dos moradores sauditas ainda não tem acesso a conexões municipais de distribuição de água e dois terços ainda não têm acesso a um saneamento eficiente.

Todos esses elementos indicam que o acesso a água é muito complicado no país; dessa forma, de acordo com as leis básicas da economia, ela deveria ser um produto caro para a população, pela dificuldade de extrair essa água potável e transportá-la. No entanto, os consumidores pagam apenas 1% (0,03$ por metro cúbico) do custo da água (6$ por metro cúbico), ou seja, a água é praticamente de graça para a população…

Mergulhado em rios de dinheiro proveniente do petróleo, o governo saudita é capaz de arcar com esse prejuízo econômico. De fato, ele redistribui para a sua população a renda adquirida pela exportação do petróleo. Faz isso, no intuito de acalmar ânimos dos radicais que protestam contra o governo saudita, fazendo atentados terroristas. O governo manipula a população beneficiando aqueles que apoiam o governo (ROSS, 2001). A família real se sustenta a partir do dinheiro do petróleo; a massa trabalhadora saudita é, na verdade, formada pelos estrangeiros no país, que são discriminados. A população, que continua a crescendo em um ritmo acelerado, leva a um aumento dessa demanda desenfreada, 248,7 litros per capita diários (KAWACH, 2010). Com isso, é normal pensar que as reservas naturais do país estejam ameaçadas, mas, mesmo assim, o país tem condições financeiras para arcar com o custo de todo o processo de dessanilização da água, para o consumo humano e para a agricultura. Mesmo com a contínua elevação dos gastos energéticos para a transformação da água, o governo ainda tem dinheiro para levar prejuízo, prover água de graça para sua população e manter o regime no seu status quo. No entanto, nenhum governo gosta de gastar dinheiro de maneira leviana, então é preciso medidas para tentar diminuir essa demanda elevada de água, no intuito de preservar as fontes naturais limitadas do país.

Porém, isso tem um custo político muito alto. De fato, uma das soluções encontradas seria a redução dos subsídios do governo para o consumo de água, pois o governo atualmente arca com mais 99,6% do custo total da produção de água (GASSON, 2010). Mas isso teria um impacto em toda a população, que passaria a ter uma água de difícil acesso e agora mais cara. O que não seria bom para aqueles descontentes com a monarquia atual. Loay Al-Musallam, chefe da National Water Company, acredita que esse seja o único jeito realístico de controlar o consumo de água da população. O governo saudita investe também muito em uma campanha de conscientização por meio de publicidade para o uso sustentável do recurso natural pela população.

Outra solução encontrada para esse problema é a utilização de energias alternativas para o processo de dessalinização da água do mar. De fato, essa é a saída que prepara o terreno para o futuro. Em janeiro de 2010, o governo saudita anunciou uma iniciativa para o uso de energia solar nas plantas dessalinização. Haveria uma redução de 40% do custo da água e da energia. O programa começará com uma planta de pequena produção (30.000 metros cúbicos por dia), e de pouco a pouco todas as plantas irão incorporar a energia solar.

Isso representaria um avanço fantástico para o país no futuro. De fato, em primeiro lugar, tem um território imenso e uma população crescente, mas que ainda é relativamente pequena em relação a populações de países como Brasil, Estados Unidos e Alemanha, entre outros; ou seja, tem espaço físico para instalar plantas gigantescas com painéis solares para captar a energia. Em segundo lugar, se situa geograficamente em um dos lugares mais quentes da terra, o que é propício para a energia solar (CIRCLE OF BLUE, 2010). O dinheiro que o país arrecada com a exportação do petróleo o permitiria investir para desenvolver ou mesmo importar a tecnologia eficiente para utilizar a energia solar como a nova matriz energética do país, em um dia em que o petróleo deixaria de ser a principal matriz energética do mundo. No entanto, ainda não precisa se preocupar com isso, pois além de não existir uma energia que seja tão versátil, barata e produzida em quantidades como o petróleo, suas reservas ainda têm uma projeção de 80 anos, ou seja, de quatro gerações, sem contar que a Arábia Saudita já investe na exploração offshore de petróleo no Mar Vermelho, o que poderia representar, caso fosse encontrada uma reserva significativa na região, ainda um maior tempo de sobrevida do petróleo saudita no mundo.

 

A posição saudita na produção da energia do futuro

A Arábia Saudita realmente está em uma posição privilegiada na produção de energia no futuro. Como já dizia o Sheik Ahmed Zaki Yamani: “A Idade da Pedra não acabou pela falta de pedra […].” De fato, muito antes de as reservas de petróleo se esgotarem fisicamente, o produto não será mais rentável, ou seja, o investimento de exploração e produção aliado a uma tecnologia cara não valerá mais a pena, e sua produção será cancelada; partiremos então para outra fonte energética, mas o petróleo continuará presente no mercado energético mundial. A teoria do fim do petróleo, porém, baseia-se na previsão de que nas próximas décadas não teremos mais acesso ao óleo abundante e barato. Essa teoria se divide em duas vertentes. Numa ponta da discussão estão os adeptos da teoria do “pico do petróleo”, que prevê o fim do mineral devido à explosão do consumo e uma oferta que não consegue mais suprir essa demanda acelerada. Tadeusz Patzek, professor e engenheiro de petróleo da Universidade do Texas, em Austin, é um de seus defensores mais fervorosos. Para Patzek, o petróleo não irá acabar, mas a oferta não crescerá no mesmo ritmo que a demanda.

 

“Há um aumento de fontes de combustível, mas há um aumento muito maior da demanda, sobretudo em mercados emergentes como China e Índia. Por outro lado, grandes exportadores, como países do Oriente Médio, continuam produzindo, mas exportam menos. E isso ocorre porque estão consumindo o petróleo que produzem. Como é possível falar em aumento de oferta se as exportações não irão aumentar?” (Tadeusz Patzek)

 

Outros autores que defendem a teoria do pico do petróleo, como Campbell e Laherrère, afirmam que os dados publicados pelas agências de notícias, tais como a World Oil e a Oil and Gas Journal, possuem muitas vezes erros sistemáticos. De fato, procuram os dados em diferentes companhias produtoras para suas publicações, no entanto, não verificam a exatidão desses dados. Os números muitas vezes não são realísticos. Em muitos casos, estimativas são exageradas para aumentar preços das ações, membros da OPEP tendem a inflar seus relatórios para alterar suas cotas de exportação, e, além disso, as national oil companies não são obrigadas a detalhar seus dados em relatórios. Além disso, existe uma dificuldade em se definir reserva em diferentes regiões. O que seriam reservas provadas? As duas agências citadas, durante o período da Guerra Fria, informaram quantidades diferentes nas reservas provadas da União Soviética. Outro argumento é que a produção do petróleo não é constante, principalmente pelo fato de que após a metade do petróleo em uma reserva ser produzida, a taxa de produção começa a cair, e a produção entra em declínio. É um erro pensar que os últimos barris de uma reserva são tão fáceis de produzir quanto os primeiros barris de petróleo (CAMPBELL & LAHERRERE, 1998). Oitenta por cento dos campos explorados no mundo têm mais de vinte anos, ou seja, os retornos começam a diminuir. Esses declínios não são divulgados, porque governos ainda querem manter seu impacto político e a capacidade de obter empréstimos.

Do outro lado da moeda, temos Daniel Yergin como maior expoente da defesa de que a teoria do fim do petróleo é infundada.

 

“Crises energéticas já foram anunciadas inúmeras vezes, assim como a morte do petróleo. Até agora, nada disso aconteceu. Mas o discurso fatalista persiste mesmo entre especialistas no assunto. Ignoram-se as conquistas que a tecnologia já proporcionou e ainda vai proporcionar futuramente.” (Daniel Yergin)

 

Para a corrente otimista, não há crise do petróleo, não existe um gap entre a oferta e a demanda. Não existe arma política do petróleo usado pelos países do Oriente Médio. Para Adelman, o verdadeiro problema é o monopólio desajeitado dos países da OPEP. Esses atuam limitando a oferta para aumentar o preço do petróleo, muitas vezes até demais, para o seu próprio bem. Os outputs de produção são determinados a partir de tentativa e erro, o que traz maior instabilidade e volatibilidade do preço do petróleo no mercado internacional, causando, de acordo com Adelman, dano às economias globais. A existência desse preço volátil a partir do controle do volume de produção em benefício próprio desse monopólio mostra que utilizar isoladamente, como argumento para o pico do petróleo, o preço elevado do óleo não quer dizer nada. As resevas são baseadas na capacidade de exploração, ou seja, na existência de tecnologia que permita uma exploração e produção viável economicamente (ADELMAN, 2004). Isso quer dizer que as estimativas não corespondem a quanto óleo existe nos poços, mas quanto óleo pode ser retirado a um custo viável. É na predição de existência de tecnologia de exploração que devemos nos basear. Quando a produção não é mais rentável, ela cessa, mas o óleo continua existindo nos campos, ele não desaparece. A partir do cálculo matemático básico de quanto óleo pode ser produzido em relação ao seu consumo, só estabelecemos o quanto se necessita maior tecnologia e novos mercados para que mais óleo possa ser produzido. Por exemplo, no fim dos anos 1970, os países não OPEP tinham ainda 200 bilhões de barris em reservas provadas. Nos 33 anos a seguir, esses países produziram 460 bilhões de barris e ainda sobravam 209 bilhões. Os países da OPEP começaram com 412 bilhões de barris em reservas provadas, produziram 307 bilhões e agora ainda têm 817 bilhões de barris em reservas provadas (ADELMAN, 2004).

O desenvolvimento tecnológico, ou seja, técnicas novas de perfuração, de mapeamento sísmico, desenvolvimento da atividade geofísica, são elementos que permitem abaixar custos, possibilita explorar mais recursos em campos existentes e, é claro, permite novas áreas para a descoberta (ADELMAN, 2004). Em 1950, quase não havia produção de óleo offshore. Hoje, um terço da produção americana vem de campos offshore, em águas profundas. O conhecimento e a tecnologia são os objetivos principais a serem alcançados.

De qualquer forma, nenhuma dessas teorias muda o fato de que a Arábia Saudita possui ainda 80 anos de exploração e produção de petróleo, sem contar na exploração offshore no Mar Vermelho. Isso faz dela o produtor de equilíbrio para a OPEP e para o mundo (swing producer). De fato, possui custos de produção baixos e sua população não é muito grande, o que permite estabelecer as cotas de produção do volume do petróleo OPEP junto com o Irã (PIMENTEL, 2006). Além disso, não existe fonte energética alternativa renovável com a versatibilidade, o preço e a produção em quantidade como o petróleo. Em muitos países, como a Noruega, por exemplo, a busca por energia alternativa é essencial, pois, de fato, as reservas de petróleo já não têm a capacidade de produção que tinham tempos atrás; sua produção começou a entrar em declínio, o que obviamente não é o caso da Arábia Saudita. Isso é uma vantagem muito grande, porque o reino não tem pressa na busca por fontes alternativas; muito pelo contrário, estabelece políticas junto à OPEP, visando manter o petróleo ainda com peso dominante no consumo energético do futuro. Como se isso não bastasse, inaugurou em 2010 o plano de energia solar para as plantas de dessanilização, e se esse projeto for implementado de maneira substancial, refutaria o argumento daqueles que dizem que o petróleo saudita entrará em declínio rapidamente porque consome o petróleo que produz, diminuindo a oferta no mercado mundial. A Arábia Saudita não somente tem a maior fonte de reservas de petróleo – que ainda será explorada por 80 anos, sem contar o desenvolvimento de tecnologias para aumentar essas reservas, descobrindo novos poços de óleo não convencional em águas profundas (Mar Vermelho) – mas também esta é localizada em um dos lugares mais secos e desérticos, e acima de tudo quentes, do mundo, o que é muito propício para o futuro. De fato, pode possuir uma capacidade imensa de captação de energia solar, tornando-a também uma grande produtora e exportadora de uma das possíveis energias do futuro.

 

Conclusão

Ao longo deste artigo foi apresentada a situação particular na qual se encontra a Arábia Saudita. Ao observarmos de um ponto de vista ambiental, o país sofre, sim, com uma forte escassez de água, aliada a um pobre gerenciamento público da infraestrutura de saneamento e distribuição desta, o que aos poucos é deixado a cargo do setor privado. Além da escassez de água, a produção de grãos é prejudicada, pois a agricultura consome cerca de 90% da produção de água do país. O processo de dessanilização da água tem um custo energético muito alto e necessita queima de óleo para fazer essa transformação, o que traz à tona todos os problemas ambientais amplamente discutidos nas conferências ambientais internacionais.

Ao olharmos a situação por um lado econômico, percebemos que os gastos para realização desse processo são muito elevados, mas para quem tem 24% das reservas mundiais de petróleo, arcar com esse custo não é um problema tão grave. De fato, o governo saudita subsidia mais de 99,6% dos custos da produção de água e, assim, o consumidor tem água de graça. Além de a população estar crescendo, o custo da produção de água não é transmitido para o custo da compra da água pelo consumidor, o que favorece o cenário em que a Arábia Saudita se encontra, em que suas reservas naturais de água não têm mais como se sustentar, com um nível de demanda desenfreado, um dos mais altos do mundo, 248,7 litros/dia por pessoa (KAWACH, 2010).

Para compreender essa política econômica governamental, é necessário observarmos também a dimensão político-social da região. Esta última se caracteriza por um regime monárquico absolutista, um dos governos mais autoritários do mundo, onde temos uma família real muito grande, dividida entre facções baseadas em lealdades, entre diferentes clãs que visam a novas direções para reformas políticas. A sociedade fora da realeza não tem uma participação efetiva na vida política, e quando protesta contra o governo é reprimida pela polícia. Com isso, atentados terroristas de grupos radicais ocorrem, levando o governo a adotar esse tipo de política, para angariar apoio e manter-se no poder, evitando qualquer tipo de revolta.

Para compreender qualquer cenário no Oriente Médio é preciso sempre tomar um distanciamento e analisar as diferentes situações sob diversos ângulos, no intuito de evitar reducionismos. De fato, na Arábia Saudita, podemos dizer que estamos, sim, diante de um problema de escassez de água proveniente de seus recursos naturais limitados, e que devem ser feitas reformas na infraestrutura para melhorar o acesso a ela nas diferentes cidades. Mas na Arábia Saudita, graças ao dinheiro do petróleo, água é o que não falta.

 

rodrigo_johann@hotmail.com

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS

 

  1. ADELMAN, Morris. “The Real Oil Problem”. Energy: Massachusetts Institute of Technology. In: Regulation, Spring 2004.
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