Mãe má: As sombras da maternidade

Mãe má: As sombras da maternidade

Marcia Neder, Psicanalista

 

Para Marco Antonio Pedra Martins

“Um primeiro parto, afinal, é o maior choque

ao qual está sujeito o organismo feminino” (Freud).

 

O Álbum de Família de Nelson Rodrigues

“Você não me engana. Você sempre teve ódio de mim – desde criança. Você sempre quis, sempre desejou minha morte. Um dia, você vai me matar, talvez quando eu estiver dormindo. Mas vou tomar as minhas providências!”, diz Jonas para o filho Edmundo na peça de Nelson Rodrigues Álbum de Família.

O pai continua: “Vou avisar a todo mundo que se um dia eu aparecer morto, já sabe; não foi acidente, não foi doença – FOI MEU FILHO QUE ME MATOU… Mas você tem medo de mim – medo e ódio. Porém, o medo é maior… Não é, Edmundo, o medo não é maior?”

O fotógrafo do álbum tenta arranjar a cena e melhorar a história para esconder o que acontece naquela família. Edmundo diz para a mãe: “Seria tudo melhor se em cada família alguém matasse o pai.”

Na Igreja, Glória, a filha, revela para o irmão: “Eu nunca disse a ninguém, sempre escondi, mas agora vou dizer: não gosto de mamãe. Não está em mim – ela é má, sinto que ela é capaz de matar uma pessoa. Sempre tive medo de ficar sozinha com ela! Medo que ela me matasse!” As últimas palavras de Glória antes de morrer, depois de levar dois tiros do irmão que acabara de declarar sua paixão por ela, são: “Quando eu era menina… pensava que mamãe podia morrer… Ou, então, que papai podia fugir comigo…”

Em casa, D. Senhorinha, sua mãe, continuava a conversar com o filho Edmundo: “Isso aqui agora vai ficar pior – Glória vem aí… Ela nunca me tolerou, Edmundo, nunca! Quando nasceu e disseram MENINA, eu tive o pressentimento de que ia ser minha inimiga. Acertei.”

 

 

Nelson Rodrigues escreveu a tragédia em três atos Álbum de Família em 1944; a peça foi censurada e passou 22 anos engavetada. Avessa às gotas de felicidade vendidas a rodo em nossos dias – aí incluídas aquelas da autoajuda –, sua obra provocou a mesma antipatia e repulsa que hoje provocam os autores que buscam desmistificar a maternidade, a paternidade, a infância, a família. Longe de prometer o paraíso ou de promover a família margarina – “A família é o inferno de todos nós”, diria o “anjo pornográfico” –, Nelson coloca nas bocas de Edmundo, o filho apaixonado pela mãe, que o amor e o ódio só poderiam mesmo nascer dentro da família.

Ao final da peça, diante dos caixões de Glória e de Edmundo, que se matou, D. Senhorinha conversa com a ex-nora, de quem Edmundo havia se separado por não conseguir deixar de amar a única mulher que sempre amou – a própria mãe. “Estou cansada, farta, de não falar, de esconder há tanto tempo as coisas que eu sinto, que eu penso. Podem dizer o que quiserem. Mas eu dei graças a Deus quando minha filha morreu!…” O pai, desesperado por ter perdido a filha que ele amava apaixonadamente, provoca a mulher para que atire nele. E ali, diante do caixão de Glória, D. Senhorinha mata o marido sonhando unir-se a Nonô, seu outro filho, que depois de transar com a mãe enlouqueceu, vivendo nu do lado de fora da casa.

Terá sido nosso “autor maldito” o inventor dessa fervilhante animosidade entre pais e filhos? Se assim fosse, por que teria sido necessário impor, no fundamento da nossa civilização, a lei divina que ordena “honrar pai e mãe”? Indo ainda mais para trás, o filicídio presente em Édipo, filho maldição, rejeitado e condenado à morte por seus pais, não testemunharia a existência de tais sentimentos entre os membros da família, ainda que fossem moralmente condenáveis?

A mitologia grega tem outros casos de filicídio – como Medeia, feiticeira que mata os próprios filhos para se vingar de Jasão, que a deixou por outra mulher. “Malditas crianças de mãe odiosa, morram com seu pai!” Jasão acusa: “Infanticida! Fêmea abominável!” Procne, menos conhecida, mata seu filho Ítis para se vingar da traição do marido e depois lhe serve sua carne cozida. Gea, a Mãe Terra, é o berço no nascimento e a sepultura na morte.

 

Édipo, filho-fardo: “Honra teu pai e tua mãe.”

A lenda de Édipo é bem mais velha do que a versão que nós conhecemos por meio de Sófocles (século V a.C.). Sua versão mais antiga está na Odisseia de Homero, escrita por volta do século VIII a.C. Nela, Ulisses, o herói da aventura homérica, encontra no Hades “a mãe de Édipo, a bela Epicasta, a qual, em sua ignorância, praticou um crime horroroso: casou-se com seu filho”. O filho, depois de assassinar o pai, tornou-se o marido da mãe. A rainha se enforcou no seu palácio, “deixando em herança a seu filho os inúmeros tormentos que as Erínias de uma mãe são capazes de suscitar”.

O ódio da mãe, embora presente em Homero com todas as letras – Epicasta convoca as suas Erínias para vingá-la –, não existe no Édipo Rei de Sófocles. Essa tragédia começa depois de Édipo, sem saber, ter cometido o parricídio e o incesto. Muito barulho se faz por esses crimes de Édipo – assassinou o pai e se casou com a mãe –, mas muito pouco se fala do crime de seus pais, filicidas que condenaram o filho à morte.

“Édipo” significa “pés inchados” e foi o nome escolhido para o bebê pelo pastor encarregado de matá-lo. E não é desprovido de sentido que o enigma proposto pela Esfinge dirija-se especificamente aos pés, pois é nos pés que Édipo carrega a marca do ódio de seus pais.

Édipo não esconde sua repugnância quando praticamente já desvendou a verdade sobre si e, surpreso, pergunta ao pastor quem lhe entregou a criança para ser morta: “A própria mãe?” É espantosa a surdez para esse horror do filho que descobre que seus pais desejaram e ordenaram sua morte.

Nesse momento, o arauto anuncia o suicídio de Jocasta, que se trancou no quarto chamando por Laio enquanto dizia que foi sua gravidez amaldiçoada que deu origem à morte dele e à gestação da sua descendência degenerada. Édipo vai até o quarto, vê Jocasta estrangulada na corda. Tira do manto da mãe o broche, golpeia os próprios olhos e os arranca gritando que eles não veriam o mal causado nem o mal sofrido. Lamenta ter sido salvo da morte quando bebê porque se tivesse sido morto, como seus pais ordenaram, não teria sido nem parricida nem incestuoso, casando-se com quem lhe deu a vida. Quando o coro reprova sua atitude, Édipo diz que não lhe venham dar conselhos, pois com que olhos poderia descer ao Hades e encarar seu pai e sua mãe sendo ele “um homem vil nascido de dois vis”.

A tragédia de Édipo, central na teoria e na prática psicanalíticas, não é só a tragédia do incesto e do parricídio – que segundo Freud seria nosso mais profundo desejo inconsciente: ela põe em cena o amor e o ódio do filho por pai e mãe, mas também o amor e o ódio da mãe e do pai pelo filho.

Laio, tradicionalmente visto como vítima do ódio do filho, é tão criminoso quanto Jocasta, que ordenou o filicídio do recém-nascido. É sua gravidez amaldiçoada que Jocasta culpa por toda a tragédia. Édipo pode ser tomado como uma metáfora da família e da ambivalência paterna e materna em relação aos filhos. Uma ambivalência que os tempos modernos têm se dedicado a ocultar, mas que foi bem evidente na antiguidade.

 

O infanticídio e a luta contra o infantil,

da Antiguidade até o século XVII

É imenso o contraste entre a tolerância do Ocidente para com o filicídio e sua violenta recusa do parricídio, considerado pelos romanos o crime mais repulsivo, mais hediondo que alguém poderia cometer. A pena para o parricida era conhecida como “pena do saco”; era um castigo exemplar, um suplício particularmente cruel, assustador e quase indescritível de tão detalhado em sua perversidade. O infanticídio no Império Romano, ao contrário do parricídio, é prática usual e legal. Em Roma, como na Grécia, o infanticídio era uma prática comum.

O poder do paterfamilias era absoluto: poder de vida e morte sobre os filhos, poder de renegar, de expor e de vender os filhos. Uma criança romana não se tornava uma pessoa pelo simples fato de nascer. O recém-nascido não reconhecido pelo pai era exposto, abandonado na frente da casa ou num lugar público e quem quisesse que o recolhesse.

O infanticídio só foi proibido em Roma no século IV e assim mesmo sob essa forma da exposição. Só nos séculos XII e XIII a Igreja condenaria vigorosamente o infanticídio e a exposição. Mas até o fim do século XVII persistiu no Ocidente “um infanticídio disfarçado” ou “tolerado”, como manter a criança perto da cozinha ou na cama com os pais, levando-a a morrer escaldada ou sufocada.

No século XIII, sob influência da Igreja, foram criadas as Casas da Roda para acolher as crianças expostas. Esse dispositivo chegou ao Brasil no século XVIII e foi instalado nas Santas Casas de Misericórdia das principais cidades; os recém-nascidos depositados eram criados por freiras. Esse costume foi muito frequente até meados do século XX. No Rio de Janeiro, a Roda foi fechada em 1938, a de Porto Alegre em 1940 e as de São Paulo e Salvador na década de 1950.

Na história do Ocidente, o infanticídio assumiu tantas formas quanto foi possível para a engenhosidade humana. Dentre as diversas maneiras de se matar uma criança, listadas por S. Corazza, destaco: queimar com ferro quente ou vela acesa; deixar pendurada na lareira por vários dias; congelar com banhos frios ou deixando sem agasalho; afogar em rios, mar, poço ou latrina; abandonar em lugares desertos para ser comida por animais (exposição); asfixiar na cama; atirar ao chão ou contra a parede; jogar como se fosse bola; e deixar morrer de fome.

Uma estatística realizada no século XX mostra que dos assassinatos no Reino Unido entre 1957 e 1968, 30% das vítimas eram crianças. Na Dinamarca, esse índice chegou perto de 50%. A maioria desses crimes foi cometida pela mãe ou pelo pai com o objetivo de atingir o cônjuge.

 

 

Por mais inacreditável que nos pareça no século XXI, desde a Antiguidade até o século XVII, a criança foi vista como um ser maligno que inspirava medo e repulsa. Semente do pecado para Calvino, a criança só pode ser desagradável e abominável para Deus. Santo Agostinho, considerado o maior dos padres da Igreja e cujos escritos permaneceram uma referência para o pensamento ocidental até o fim do século XVII, amaldiçoou o bebê por ser expressão da carne e viu a criança como um ser maligno, já que fruto do ventre de Eva.

O cristianismo fará de todos nós filhos de Eva, a mãe amaldiçoada da criação: “Parirás com dor.” Crime e castigo: a mulher-maçã, a primeira mulher-fruta, caiu na conversa da serpente e seduziu Adão, levando-o a comer o fruto proibido. Os primeiros padres da Igreja não deixarão ninguém se esquecer. Sem o menor pudor, exibirão sua repulsa e aversão pela maternidade amaldiçoada, imunda e abjeta e pelo filho fruto do pecado original.

 

Madona e a santificação da maternidade:

a redenção pela dor do filho

A partir do século XII, irrompe o culto à Virgem Maria, mãe do Menino Jesus. A criança torna-se o fruto divino da mãe. O filho, ou melhor, seu martírio, virá redimir a mãe e santificar a maternidade amaldiçoada de Eva. “Parirás com dor”: o foco se desloca da virgindade para a piedade da mãe, para a dor da mãe diante do suplício do filho – a dor santifica. Essa Maria compadecida do sofrimento do filho é a Maria Misericordiosa do nosso Auto da Compadecida.

É o tempo da Mater Dolorosa – Mãe Dolorosa –, figurada pelas pietàs, a partir do século XIII, com o corpo do filho morto nos braços depois da crucificação, que se propagam na arte dos séculos XIV e XV, e a mais famosa é a de Michelangelo, 1499. Renascentistas do século XVI multiplicam em suas telas as madonas, exaltando as mulheres como mães e difundindo a maternidade santificada, e a partir do século XVIII a imagem da mãe, do filho e da família sofre uma transformação radical. No século XIX, Michelet descreve a maternidade como um sacerdócio, o qual, como todo sacerdócio, exige sofrimento, renúncia, imolação.

O pai, que desde a Antiguidade havia sido o eixo da família no Ocidente, se desloca para o filho, que então se torna o centro da família. Do discurso médico ao discurso religioso, passando pela literatura e pelos meios de comunicação, todos repetem em uníssono que o dever da mulher é ser uma boa mãe. Intimada a cuidar pessoalmente do filho, a mãe deve dedicar-lhe todas as horas do seu dia, sacrificar-se por ele renunciando a sua própria vontade. A idealização da maternidade fez da mãe um súdito da criança, o déspota mirim dos séculos XX e XXI.

O abandono de si, a doação ilimitada à maternidade começa com as dores do parto, continua com as dores e exigências implacáveis da amamentação e entrega total ao filho, como vemos no Coração Materno, de Vicente Celestino. Essa música, magnificamente interpretada por Caetano Veloso, desenha com perfeição a figura da santa mãezinha, daquela que despreza sua própria vida em benefício da felicidade do filho.

 

Disse um campônio à sua amada: “Minha idolatrada, diga o que quer

Por ti vou matar, vou roubar, embora tristezas me causes mulher

Provar quero eu que te quero, venero teus olhos, teu porte, e teu ser

Mas diga, tua ordem espero, por ti não importa matar ou morrer”

 

E ela disse ao campônio, a brincar: “Se é verdade tua louca paixão

Parte já e pra mim vai buscar de tua mãe inteiro o coração”

E a correr o campônio partiu, como um raio na estrada sumiu

E sua amada qual louca ficou, a chorar na estrada tombou

 

Chega à choupana o campônio

Encontra a mãezinha ajoelhada a rezar

Rasga-lhe o peito o demônio

Tombando a velhinha aos pés do altar

 

Tira do peito sangrando da velha mãezinha o pobre coração

E volta a correr proclamando: “Vitória, vitória, tens minha paixão”

Mas em meio da estrada caiu, e na queda uma perna partiu

E à distância saltou-lhe da mão sobre a terra o pobre coração

 

Nesse instante uma voz ecoou: “Magoou-se, pobre filho meu?

Vem buscar-me filho, aqui estou, vem buscar-me que ainda sou teu!”

 

“Ser mãe é padecer no paraíso”: com sabedoria ímpar, esse velho provérbio expõe sinteticamente a ambivalência que caracteriza a maternidade. Ou, como disse uma atriz da nossa televisão, ser mãe é acumular culpas e estrias. Ambivalência é a coexistência de sentimentos opostos em relação a uma mesma pessoa ou objeto, basicamente amor e ódio. A ambivalência é um fenômeno absolutamente normal e, para Freud, inerente a todas as relações humanas (exceto entre uma mãe e seu filho homem). Aquelas pessoas que amamos também podem nos decepcionar – e provocar nossa ira.

 

 

As relações familiares também alimentam e se alimentam dos impulsos amorosos e hostis, mesmo que essa hostilidade permaneça oculta e disfarçada. O amor suaviza a raiva e o ódio; quando o amor não vem temperar a relação, a ambivalência materna pode mergulhar nas profundezas do seu lado escuro e irromper em comportamentos efetivamente destrutivos, como na tragédia de Nelson Rodrigues e nos episódios que invadem nosso cotidiano, nos quais a criança é o objeto de uma violência explícita, e com frequência, dos pais.

Para a criança, e nos contos de fadas, o personagem ou é inteiramente bom ou totalmente mau. Assim também, na nossa realidade, uma mãe má simplesmente não pode existir, e por isso nós a disfarçamos em madrasta: uma mãe que não ama seus filhos só pode ser sua madrasta. Dividindo a mãe em boa e má, podemos sentir sem culpa raiva da mãe (má) que nos decepciona.

Entretanto, e apesar da propaganda enganosa, já faz muito tempo que Betty Friedan e o movimento feminista de meados dos anos 1960 e 1970 apontaram a insatisfação das mulheres com a maternidade. O nascimento do filho esperado não traz só euforia e sentimento de plenitude. Os berros de um recém-nascido, sua urgência em mamar e sua dependência absoluta em relação a um adulto, que em nossa cultura é a mãe, estão longe de provocar nas mulheres os mesmos sentimentos e atitudes. A mulher pode experimentar essa dependência com prazer, como uma gratificação do seu narcisismo, e/ou também como um fardo, que suscita ódio, irritação e outros sentimentos menos nobres. Nem por isso ela perde o direito à existência.

No dia 19 de julho de 2011, foi postado no blog do CineMaterna o cartaz do filme O estranho em mim, com a seguinte pergunta: “Você acha que tem algo de estranho nesta foto?” Uma mulher está de costas na foto, com um bebê no colo, olhando para longe. Irene Chissa Nagashima, autora do post, diz que o filme foi apresentado pelo blog numa sessão com especialistas que discutiram a depressão pós-parto. E cita entrevista concedida por mim naquele dia à Folha: “Saiu hoje no jornal Folha de São Paulo uma matéria sobre depressão pós-parto. Destaco uma frase que considerei das mais importantes: ‘Só se fala em luzes’, afirma Marcia Neder, psicanalista e autora de Édipo Tirano. ‘Não se fala da renúncia, da doação e das exigências’” (http://cinematerna.blogspot.com.br/2011/07/normal.html (o livro a que a autora do post se refere foi lançado em maio de 2012 pela Editora Zagodoni com o título Déspotas Mirins. O poder nas novas famílias).

 

Freud e a ambivalência materna

Entre 1892 e 1895, Freud trabalhou com o hipnotismo e o método catártico (Breuer). Dentre as histórias clínicas que apresentou, duas, particularmente, ilustram muito bem, sem nomeá-la, a ambivalência materna. Uma é a de uma “jovem mãe”, descrita em “Um caso de cura pelo hipnotismo” (1892), que não conseguia amamentar seu bebê e o entregou a uma ama-de-leite. O mesmo se repetiu três anos depois com o segundo filho, e Freud foi chamado. Ele hipnotizou-a e sugeriu: “Não tenha receio! Você vai poder cuidar muito bem do seu bebê, ele vai crescer forte” etc. Em três dias encerrou-se o tratamento, e a mãe amamentou seu bebê. O mesmo se repetiu quando nasceu o terceiro filho, e houve sucesso ao fim.

Na obra Estudos sobre a histeria (1893-1895), Freud apresenta o caso de Frau Emmy von N., uma mulher de 40 anos muito educada e inteligente que fazia um estalido com a boca. Só hipnotizada conseguiu lembrar-se da origem do barulho: sua filha caçula gravemente doente havia conseguido dormir e a mãe decidiu permanecer em silêncio absoluto. Lembrou-se de que seu marido morreu subitamente quando essa filha nasceu e a mãe culpou a criança. Nutriu por ela um ódio intenso, mas disfarçado: “Mas devo acrescentar que não se poderia ter adivinhado isso pelo meu comportamento. Fiz tudo o que era necessário. Mesmo agora eu me recrimino por ter gostado mais da mais velha” (p. 108 – grifos meus).

Nos dois casos, o conflito provocou um sintoma histérico, que é a condensação entre um desejo inaceitável e a defesa contra esse desejo. Frau Emmy odeia a filha (deseja atrapalhar seu sono) e se protege desse sentimento, e do conflito nasce o sintoma (o barulho com a boca). A jovem mãe deseja livrar-se do filho e se defende disso inviabilizando a amamentação: se não pode amamentá-lo (outra terá que fazê-lo), também não poderá destruí-lo, machucá-lo.

A pressão embutida na idealização da maternidade apenas oculta os impulsos hostis e agressivos de uma mulher por seu filho. Nessa maternidade idealizada, as mães são fontes inesgotáveis de amor – e só de amor. Esse modelo inatingível na realidade feita também de desavenças, irritações, cansaço, identificações e projeções que mobilizam raiva e agressão, provoca vergonha e culpa nas mães. O que só piora a agressão: falhando em suas tentativas de realizar o ideal da maternidade sagrada, as mulheres ficam irritadas e decepcionadas com elas mesmas e com seus filhos e entram num ciclo que alterna raiva e decepção com mais culpa e mais esforços decepcionantes.

 

Mãe má, palavra kriptonita

É costume apontar a ambivalência materna como um problema para o filho e desprezar o conflito que a ambivalência cria para a mãe. Barbara Almond, autora de The monster within: the hiden side of motherhood, diz que isso ocorre mesmo na psicoterapia da mãe. Uma mãe que fale sobre seus sentimentos de hostilidade e agressão por seu filho e busque ajuda para lidar com esses sentimentos compromete a empatia do terapeuta com sua situação conflitada, ainda que ela não tenha conflito e nem esteja prestes a machucar o filho.

A jornalista norte-americana Peggy Orenstein entrevistou muitas mães para seu livro Flux: Women on Sex, Work, Kids, Love and Life in a Half-Changed World. Elas disseram ser muito difícil admitir que não se sentiam plenas e preenchidas pela maternidade e que se o dissessem se sentiriam “desviantes”. Peggy Orenstein precisa esse sentimento com uma metáfora das mais brilhantes: existem algumas palavras kriptonita para as mulheres, palavras que fazem a mulher sentir que está perdendo seus poderes, como o Super-Homem, e “mãe má” é a palavra kriptonita mais carregada de todas.

Almond diz que se você odeia seus pais, irmãos, cônjuge, amigos, colegas ou pessoas de outro sexo, raça, religião e nacionalidade, você é considerada uma pessoa infeliz, irracional, intolerante e até mesmo muito perturbada. Mas se você odeia seus filhos, você é considerada uma pessoa monstruosa, imoral, antinatural; a encarnação do mal. O lado negativo ou odioso da ambivalência materna é o crime “que não ousa dizer seu nome” do nosso tempo.

A psicanalista norte-americana apresenta nesse livro o largo espectro da ambivalência materna, presente em graus variados em todas as mulheres. A agressividade feminina – intolerável para a nossa cultura – torna-se ainda mais inaceitável e nos enche de horror e indignação quando é dirigida aos filhos. Mesmo que em alguma parte secretamente compreendamos sua normalidade.

Em dezembro de 2011, analisei em um curso o declínio da figura paterna, a fantasia da maternidade sagrada e a face sombria da infância em A Psicanálise analisa a Família: o pai, a mãe e o filho-fardo. Usei trechos de filmes, obras renascentistas, canções e outras criações da cultura para mostrar que as sombras da maternidade constituem cada vez mais um verdadeiro tabu para os séculos XX e XXI. É proibido falar do ódio implicado nas relações mãe-filho, é crime mostrar esse lado sombrio da maternidade.

 

 

Rebecca, a personagem central do filme O estranho em mim, encarna sem atenuantes essa ideia inaceitável de uma mãe que rejeita sua cria. Nesse filme da diretora alemã Emily Atef, Rebecca é uma mãe que vive a maternidade como uma invasão, um sequestro. Ela é a refém do seu filho, um estranho que habita suas entranhas – o estranho em mim. Até o parto, o casal ia bem, mas o nascimento de Lucas vira Rebecca do avesso. O bebê não consegue mamar, a mãe não tem leite suficiente e sente dor em suas tentativas; o filho chora todo o tempo e Rebecca não sabe mais o que fazer. Um dia, ela o esquece em uma rua movimentada dentro do seu carrinho. Em outro, ela luta ferrenhamente contra si mesma e seu desejo de afogá-lo na banheira e abandonar o lar. Testemunhas do seu conflito, assistimos à luta de uma mãe atormentada pelo ódio indisfarçável que sente por esse intruso, invasor do seu corpo e da sua vida. Como o cartaz do filme já nos havia prevenido, estamos diante de uma antimadona, cujo olhar vaga pelo horizonte em vez de pousar apaixonadamente sobre o bebê que carrega nos braços.

Durante os debates que se seguiram à minha exposição, um dos presentes não conteve sua angústia irada e, indignado, exigia que confirmássemos que mães como Rebecca não existiam, não podiam existir e que só poderiam ser concebíveis no terreno da patologia. A indignação desse jovem pai transformava-o em porta-voz de um sentimento geral da nossa época, da recusa do nosso tempo que não aceita o lado sombrio da maternidade.

Já no fim dos anos 1980, o diretor Robert Benton lançava seu Kramer versus Kramer. Nesse filme de 1979, Joanna, vivida por Meryl Streep, abandona seu filho Billy de oito anos aos cuidados do pai, Ted (Dustin Hoffman) e deixa ao filho uma carta explicando que ser apenas sua mãe não a deixava contente. As cenas iniciais mostram uma mãe extremamente infeliz, a ponto de se jogar pela janela se não fosse imediatamente embora de casa. Joanna não poderia ser mais explícita: a maternidade vinha sendo um fardo muito pesado para ela carregar.

Em Paris, Texas, filme de Wim Wenders de 1984 que conquistou a Palma de Ouro de 1984 e mais 13 prêmios, Jane (Nastassia Kinski) também é uma mãe que vai embora. Tentando impedi-la de fugir, Travis, seu marido, amarra um sino na sua perna e depois a prende ao fogão com um cinto. A mãe, irritada com o nascimento do filho, sentiu seu bebê como um castigo e acusou Travis de tê-la engravidado só para aprisioná-la a ele.

E, finalmente, Eva, a mãe de Kevin, esforça-se como Frau Emmy para comportar-se como mãe exemplar. Ela sente que nada que possa fazer poderia acalmar ou satisfazer o filho, que não aceita o peito e só se acalma com o pai, em Precisamos falar sobre Kevin. Essa mulher que não quer engravidar, mas o faz para agradar o marido, só consegue ver rejeição nas recusas e exigências impostas pelo bebê que deu à luz. Recusando o leite, os cuidados e a maternagem de Eva, Kevin provoca sua raiva e a impede de sentir-se uma boa mãe: “Eu imploro que você entenda como eu tenho tentado arduamente ser uma boa mãe.” No reino da pedocracia em que o culto à criança está plenamente instituído, é crime não amar a criança e vergonhoso admitir que não se ama o próprio filho.

 

 

Kevin encarnará a figura do filho rejeitado, temido e odiado pela mãe; Eva torna-se refém do filho, esforçando-se para fazer-se amada por ele e jamais o vence. A crueldade de Kevin seria uma projeção inconsciente de partes repudiadas de Eva? Almond, que analisa o romance que deu origem ao filme, e não o próprio filme, diz que nessa obra a maldade e a vingança parecem pertencer tão verdadeiramente a Kevin que não há sentido em Eva trabalhar algo em si mesma. Kevin, segundo a psicanalista norte-americana, é muito inteligente, malévolo, ressentido e vingativo desde o nascimento. Se um bebê pudesse nascer um psicopata, diz ela, Kevin é esse bebê. Ele é assustador na sua falta de emoção e em sua crueldade.

Embora o filme não pareça posicionar-se diante dessa questão, Precisamos falar sobre Kevin pode ser visto como um exemplar da ambivalência materna exteriorizada: a mãe projeta seus impulsos hostis repudiados – agressão, crueldade, ódio – no filho e depois o culpa ou odeia. De qualquer maneira, é um filme perturbador. Ou “angustiante”, como disse meu filho.

 

Síndrome do ninho vazio? Ou mamãe.com?

A síndrome do ninho vazio que domina a interpretação atual do que consistiria o cerne de uma crise da mulher lá pelos seus cinquenta anos é uma das formas contemporâneas tomadas pela idealização da maternidade. Ela esconde o alívio, a satisfação, o prazer que a mãe pode sentir com o crescimento e a independência dos filhos – independentemente de estes lhes presentearem com seus substitutos, os netos. Isso oculta essencialmente que junto com a autonomia da prole vem também a alforria da mãe que, finalmente, pode voltar a pensar em si mesma em primeiro lugar, como temos visto acontecer a rodo a nossa volta. Se é que já não o fez bem antes, como ilustra a anônima e genial “Primeira convenção familiar”, que recebi de minha filha e que volta e meia circula pela internet:

 

 

“Queridos marido e filhos,

 

Em primeiro lugar, Mamãe gostaria de agradecer a presença de todos nesta Primeira Convenção Familiar. Mamãe sabe como foi difícil abrir um espaço nas agendas de cada um de vocês:

 

Papai tinha uma lavagem de carro praticamente inadiável, Júnior já tinha marcado de se trancar no quarto, Carol estava para receber pelo menos três telefonemas importantíssimos de uma hora e meia cada um.

 

Mamãe está comovida. Muito obrigada.

 

Bem, conforme Mamãe já tinha mais ou menos antecipado, esta convenção é para comunicar ao público interno – Papai, Júnior e Carol – todas as modificações nos produtos e serviços da linha Mamãe.

 

Como vocês sabem, a última vez que Mamãe passou por reformulações foi há 14 anos, com o nascimento do Júnior. De lá para cá, os hábitos e costumes, o panorama cultural, a economia e o mercado passaram por transformações radicais.

 

Mamãe precisa acompanhar a evolução dos tempos, sob pena de ver sua marca desvalorizada.

 

Para começar, Mamãe vai mudar a embalagem. Mamãe sabe que esta é uma decisão polêmica, mas, acreditem, é o que deve ser feito.

 

Mamãe sai desta convenção direto para um SPA, e de lá para uma clínica de cirurgia plástica.

 

Nada assim tão radical. Haverá pouquíssimas alterações de rótulo, vocês vão ver.

 

Mamãe vai continuar com praticamente o mesmo formato, só que com linhas mais retas em alguns lugares e linhas mais curvas em outros. Calma, Papai! Mamãe já captou recursos no mercado.

 

Mamãe vai ser patrocinada por uma nova marca de comida congelada. Lei Rouanet, porque Mamãe também é cultura. Junto com o lançamento da nova embalagem de Mamãe, no entanto, acontecerá o movimento mais arriscado deste plano de reposicionamento.

 

Sinto informar, mas Mamãe vai tirar do mercado o produto Supermãe.

 

Não, não, não adianta reclamar. Supermãe já deu o que tinha de dar. Trata-se de um produto anacrônico e superado, antieconômico e difícil de fabricar.

 

Mamãe sabe que o fim da Supermãe vai aumentar a demanda pela linha Vovó, que disputa o mesmo segmento. Paciência. Você não pode atender todos os públicos o tempo todo.

 

No lugar da Supermãe, Mamãe vai lançar (queriam que eu dissesse ‘vai estar lançando’, mas eu me recuso) novas linhas de produtos mais adequados à realidade de mercado.

 

Vocês vão poder consumir Mamãe nas versões: Active (executiva e profissional), Light (com baixos teores de pegação de pé), Classic (rígida e orientadora), Italian (superprotetora) e Do-It Yourself (virem-se, fui passear no shopping).

 

Mas um de cada vez, sem misturar.

 

Ah, sim, Mamãe detesta esses nomes em inglês, mas me disseram que, se não for assim, não vende. Mamãe gostaria de aproveitar a oportunidade para lançar seus novos canais de comunicação.

 

De hoje em diante, em vez de sair gritando pela casa, vocês vão poder ligar para o SAC-Mamãe, um 0300 que dá direto no meu celular (apenas 27 centavos por minuto, mais impostos).

 

Mamãe também aceita sugestões e críticas no endereço mamãe.com

 

Mais uma vez, Mamãe agradece a presença e a atenção de todos.”

 

A articulista é professora adjunta da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), pesquisadora do Núcleo de Pesquisa em Psicanálise e Educação (NUPPE) da USP e psicanalista supervisora da Escola Favinho e Mel (Rio de Janeiro).

marcia@marcianeder.com.br

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

Almond, Barbara. The monster within: the hiden side of motherhood. Berkeley, Los Angeles,  London: University of California Press Foundation, 2010.

Badinter, Elisabeth. Um amor conquistador. O mito do amor materno. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

Homero. Odisseia. São Paulo: Abril Cultural, 1981.

Sófocles. Édipo Rei. São Paulo: Perspectiva, 2009.

Neder, Marcia. Déspotas mirins. O poder nas novas famílias. São Paulo: Zagodoni, 2012.

Bacha, Marcia Neder. Psicanálise e educação. Laços refeitos. São Paulo: Casa do Psicólogo e Campo Grande: UFMS, 2002, 2ª ed.

Rodrigues, Nelson. Álbum de família. (faltam referências)

Mezan, Renato. “A vingança da esfinge” in A vingança da esfinge. Ensaios de psicanálise. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2002, 3ª ed.

Corazza, Sandra Mara. História da infância sem fim. Ijuí: UNIJUÍ, 2000.

Freud, S. “Um caso de cura pelo hipnotismo” (1892-1893). SB. Rio de Janeiro: Imago, 1980, vol. I.

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