La cosecha del café y de la libertad Anotações de um brigadista efêmero

La cosecha del café y de la libertad Anotações de um brigadista efêmero

Alexandre Falcão, jornalista

 

No dia 20 de janeiro de 1987, embarcamos no voo 620 da Pluma, que decolou pontualmente às 21h45 do Aeroporto Internacional de Cumbica, em Guarulhos (SP), em direção a Manágua. Conhecera o trabalho de solidariedade à Nicarágua na Bienal Internacional do Livro em 1986, em São Paulo. Havia um stand de autores nicaraguenses e centro-americanos, com uma enorme faixa de pano estendida na entrada convocando voluntários à brigada de colheita de café. Eu respingava socialismo por todos os poros. Resolvi naquele instante fazer parte da 2a Brigada Brasileira Zumbi dos Palmares, que passou 40 dias no país centro-americano, a maior parte deles em uma fazenda de café.

O voo de dez horas e vinte minutos parecia não terminar nunca. Ninguém conseguiu dormir direito tamanha a ansiedade de pisar no solo do Sandino e viver a experiência da luta revolucionária e do trabalho voluntário. A maioria esmagadora dos 106 brigadistas jamais tinha participado de uma colheita. Alguns poucos emprestaram sua mão de obra à causa socialista no Chile de Allende, levantando muros e colocando telhas em casas. Era o máximo que atitude revolucionária praticada pelos presentes. Eu sequer tinha visto de perto um cafezal. Meu contato com a agricultura era restrito aos livros escolares. Ninguém tinha pego um rifle. Talvez de brinquedo. Mas o coração batia mais forte por me juntar à revolução. Iria bater de frente com os americanos que investiam contra o novo regime da Nicarágua. Enfrentaríamos a resistência do ditador Anastácio Somoza Debayle, paraguaio naturalizado nicaraguense que espoliava o povo daquela pequena e pobre nação. Somoza tinha colocado sua pata sobre a Nicarágua por 12 anos, sugando o país de 1967 a 1979.

Entre as novas amizades feitas durante o voo, a que mais me chamou a atenção foi a do jornalista Beto Almeida, funcionário da Empresa Brasileira de Notícias (EBN), incorporada posteriormente pela Radiobrás. O interesse por sua conversa nada tinha a ver sobre o que nos esperava na Nicarágua. Beto era integrante e ferrenho defensor da Quarta Internacional Posadista, uma organização trotskista que defendia a existência de OVNIs e de uma revolução que se expandisse além da Terra. O caminho seria traçado pelas explorações do espaço desenvolvidas pela então União Soviética e pela China. O papo exotérico serviu, pelo menos, para reduzir a ansiedade pela chegada. Pensava no desembarque, mas ouvia Beto fazer seu proselitismo ideológico muito além da América Central, nosso destino. Estava com a cabeça em Marte.

No dia 21 de janeiro, às 8 horas da manhã (12h em Brasília), desembarcamos em Manágua. A sensação era a de que o posadismo tinha vencido e estávamos pisando em solo lunar tamanho a estranheza da situação. Descemos do avião preparados para defender a revolução sandinista armados de bandeiras, camisetas, bottons e faixas. O ambiente era tranquilo. Nenhum cheiro de pólvora no ar. Ouvia-se o farfalhar seco da escassa vegetação. Ao caminhar em direção à sede do aeroporto, minha beligerância foi se esvaindo. Estava in loco nas terras revolucionárias. Um balaço perdido poderia, a qualquer momento, cruzar o espaço à minha frente. Melhor mesmo que fosse só à minha frente. Meu espírito guerrilheiro estão esvaiu-se. Queria ser um trabalhador solidário, disposto a colher café de sol a sol durante 30 dias. Passei a torcer sofregamente para não tornar-me um militante armado, obrigado a sacar do coldre e matar se assim fosse necessário. Não fui só eu que tremeu. Em silêncio, o pensamento pacifista fluiu entre todos nós. Fui um dos primeiros a descer do avião da Pluma no Aeroporto Internacional Augusto Sandino. Quando pisei em solo nicaraguense, eu e meus companheiros nos ajoelhamos e beijamos o chão, à moda papal. Vários choraram. Eu fui um deles. Todos gritaram: “Viva a revolução sandinista”. A celebração era um rito dos comunistas que iam abraçar Sandino. Um gesto simbólico. Sob a ótica de hoje, muito mais uma atitude juvenil de afirmação coletiva do que um ato de fé política.

De 21 a 23 de janeiro, dormimos em Manágua antes de seguirmos para o Departamento de Matagalpa, ao Norte, mais próximo da fronteira com Honduras, base dos contrarrevolucionários, apoiados pelos Estados Unidos. Na capital nicaraguense, intensificamos o treinamento de evacuação em caso de conflito, primeiros socorros e orientações gerais sobre o processo de colheita. Uma trabalheira só. De perto, o socialismo não tinha nada de normal, muito pelo contrário. O tempo para o turismo era escasso, mas serviu para ter uma ideia do estrago causado pela guerra em uma cidade histórica, de construções no estilo arquitetônico espanhol, à beira do lago vulcânico Xolotlán, de águas mornas. A pobreza era abissal. Por um lado me comovia a resistência dos companheiros, por outro me incomodava a ideia de viver com tanta privação. O comunismo começava a mostrar sua outra face.

No início da manhã de 24 de janeiro, seguimos na carroceria de um caminhão até Matagalpa, capital do departamento de mesmo nome. Parada para fazermos câmbio e tomarmos água, antes de seguirmos para a Unidade de Produção do Estado (UPE) La Pintada, a fazenda que era nosso destino final. No banco estatal, no qual fiz a troca de moedas, vivi uma experiência que mostrou a quantas andava a revolução passados oito anos. Resolvi trocar na ocasião apenas parte dos dólares que arrecadei com a ajuda de inúmeros brasileiros, entre eles Herbert de Souza, o Betinho, que viria a ser presidente do Ibase e um dos idealizadores da campanha do “Natal sem fome”. Meu velho pai Raymundo Cabral foi decisivo no financiamento solidário da minha viagem. Sem ele, sempre entusiasta das minhas aventuras, eu não teria sido um “revolucionário”.

Troquei em torno de US$ 200,00 no banco, o suficiente para sair de lá com uma sacola cheia de pesos nicaraguenses. Companheiros riam, dizendo que eu havia me tornado um pequeno burguês. De fato, de uma hora para outra, passei a ser tratado como rico até entre os brigadistas. Tinha dinheiro suficiente para comprar o que quisesse na fazenda, que era a sede da UPE, mas como não havia quase nada para adquirir, me contentei em doar dinheiro a crianças locais e a participar da compra de um boi que assamos na despedida da temporada de colheita. Dinheiro era um artigo raro e desnecessário para os brigadistas. Recebíamos tudo do governo. E o tudo era bem pouco. Nunca tive, contudo, uma sensação de compartilhamento igual. Éramos parte de um todo; todos parte um do outro.

No fim da tarde do dia 24 de janeiro, a chegada à fazenda foi triunfal. Recebidos com aplausos e sorrisos por aquela gente humilde, crianças e mulheres, que esperavam de nós muito mais do que braços para a colheita. Chamaram-me a atenção as mãos daquela gente. Inchadas, calosas, feridas, pareciam maiores. Eram camponeses e faziam muito mais do que a colheita. Um exército de manoplas que mais pareciam tábuas. Transparecia no enrugamento daqueles homens e mulheres o trabalho árduo de sol a sol. Queriam um aceno de que o mundo não os abandonara. A luta sangrenta da guerra civil, tendo do outro lado os Estados Unidos, deixava a população local em pânico diante das ameaças e da força militar dos Contras. Receber uma centena de brasileiros e outras tantas de estrangeiros, incluindo norte-americanos, servia como um aval político e humanitário de que a revolução sandinista estava no caminho certo. Era uma mescla entre uma democracia presidencialista no estilo do Leste europeu e um socialismo tropicalizado, sem marxismo-leninismo ou mesmo guevarismo. Me senti feliz, integrado. A emoção da cena reaqueceu a ideologia dentro de mim. O socialismo voltava a me alegrar.

No dia 25 de janeiro, no primeiro dia de colheita, percebemos que a fazenda era um símbolo das atrocidades cometidas pela ditadura somozista. Os empregados dormiam em gavetas para não fugirem e recebiam salários incapazes sequer de arcar com os custos de alimentação. O lugar era de um verde intenso, com relevo íngreme e arbustos de tamanho médio recortados por uma vasta plantação cafeeira. Dormíamos em uma casa de madeira crua, portas de alavanca da própria madeira e janelas grandes para facilitar a ventilação. Nossas camas eram beliches rústicos de colchão duro e sem colcha. Lembro que na ocasião tive contato, pela primeira vez, com a chamada música sertaneja, aquela de raiz dos rincões de Goiás, Minas Gerais, São Paulo e Paraná. Um brigadista chamado João Batista levou um gravador e muitas fitas cassete com músicas da dupla Tonico e Tinoco, de Sérgio Reis e de tantos outros, que embalaram as noites na fazenda ao som do luar. Os sandinistas balançavam o corpo e se entregavam à sofrência do som estridente e letras melancólicas da música rural brasileira.

A rotina da colheita era um fardo para os iniciantes como eu. Acordávamos às cinco horas, formávamos as fileiras no estilo de batalhão militar e cada equipe tinha um coordenador responsável pela distribuição das tarefas. O café preto, da mesma forma que o almoço e o jantar, invariavelmente era servido com tortilhas. Foram trinta dias seguidos nessa dieta, acompanhada de arroz e raríssimas vezes um pouco de carne bovina. Perdi no período mais de cinco quilos. Sonhava, ou melhor, delirava com saudade da comida de casa. De uma certa forma a rotina, os cânticos, as palavras de ordem e a convicção da utilidade política do trabalho da colheita me davam a força para compensar as proteínas ausentes. Quem não passou pela experiência não imagina o que faz o entusiasmo coletivo. Deixei de pensar nas balas perdidas. Não admitia, nem por um instante, fraquejar. Passou o medo. Me tornei um sandinista.

Após a refeição matinal, seguíamos na direção do cafezal de macacão, chapéu de palha e camisa de manga comprida abotoada. Cada um ficava com uma área. Para evitar desperdício, éramos obrigados a colher apenas o café maduro e preservar os verdes, o que nos obrigava a enfiar a mão até a parte mais longínqua do galho e puxar os frutos como se os dedos estivessem dançando samba e jazz ao mesmo tempo. Era um trabalho incômodo de ourivesaria na planta. Enchíamos de grãos o saco de sarrapilha, mas o prazer de vê-lo encher era também a dor de carregá-lo nas costas morro acima, morro abaixo. De tanto ver cobra venenosa circulando no cafezal, perdi o medo do bicho. Fingia que não via. Virei um autômato abraçando cada pé de café como se fossem algumas mulheres “hermosas” que nos acompanhavam na lida. Ao fim do dia, o café era carregado para a balança, pesado e feito um registro de produção por brigadista.

Voltávamos à hospedaria para o banho, por volta de 17h. Iniciava-se um novo suplício. Como não havia aquecimento e a água era um gelo líquido, gritávamos para espantar o frio e brincávamos de gritar palavras de ordem para os Contras ouvirem milhas adiante. O som de alguns tiros, às vezes, ecoava em nossos ouvidos como alerta de que a fronteira da guerra não estava tão distante assim. Ajudava a tornar o banho menos gelado.

No dia 31 de janeiro, no fim de tarde, resolvi me arriscar além dos limites estabelecidos aos brigadistas para tirar algumas fotos de ambiente. Nada que colocasse em risco a segurança dos estrangeiros. Mas havia sinais de que ali já tinha sido um anfiteatro de batalha. Para minha surpresa, apareceu ao longe um casal caminhando na estrada da fazenda. Ele montado no pequeno cavalo, ela puxando o animal com a sobriedade de quem cumpria uma missão. Parecia uma cena de “Vidas Secas”, do Graciliano Ramos. Registrei aquela cena em uma zona de guerra. Cliquei duas vezes a minha Nikon semiprofissional, com o dedo indicador esquerdo na máquina e os olhos fixados no casal. Imagine, um brigadista com uma máquina fotográfica daquela qualidade. Preocupou-me uma reação intempestiva, afinal, estava longe da sede da fazenda e era um estrangeiro. Nada disso. Passaram como se estivessem olhando para uma árvore. A foto em cromo circulou entre candidatos a revolucionários, comunistas e não comunistas, na minha volta ao Brasil. Rendeu inclusive um convite para que eu fizesse uma exposição em Belém, minha terra natal.

Meus dias e noites se alternavam como se fosse absolutamente iguais. A rotina automatizava a vida. Pouco nos comunicávamos durante o trabalho. As vezes uma parada para enxugar o suor do rosto. Um pequeno detalhe perdido na natureza. Um comentário curto, quase cochichado, com um companheiro mais próximo. Contávamos as horas pelo Sol e pela Lua. Perdíamos até a sensação do tempo que corria. As exceções ficavam por conta das atividades lúdicas com as crianças da comunidade. Construímos um parque de diversões todo em madeira para elas, cercados por soldados sandinistas que faziam a nossa segurança. O sorriso dos “niños” não apenas aliviava o cansaço como nos permitia sonhar que ao fim do conflito a revolução faria um mundo melhor para aqueles filhos da escassez, muitos deles órfãos de pai morto na guerra. De um lado armas em punho. De outro, brinquedos rústicos em profusão.

No dia 1O de fevereiro, fizemos um grande treinamento para evacuar a região em caso de invasão da fazenda pelos Contras. Sabíamos nos bastidores da guerra que a captura de estrangeiros era um prêmio disputado pela contrarrevolução. O sequestro representaria um desgaste político para os sandinistas e um revés na expectativa de que a revolução se consolidava. Soubemos depois que até os saraus musicais que suavizavam a aridez em determinadas noites eram organizados pelos próprios sandinistas, para que não ouvíssemos os sons da guerra cada vez mais próxima.

No dia 23 de fevereiro, após trinta dias de colheita, finalmente descobrimos a contribuição de cada um para a revolução. Foi feito um ranking da produção, tornado público, que provocou alvoroços entre os primeiros colocados e muitas justificativas dos últimos. Fiquei na linha do meio, um pouco mais para baixo. Podia justificar a performance sofrível pela infeção que tomou conta de mim nos últimos dias, decorrente das condições insalubres. A enfermidade me deu muito trabalho. Somente veio a ser debelada no Brasil, após um tratamento de muitos meses.

No dia 24 de fevereiro, retornamos a Manágua. Não tinha mais o mesmo empenho revolucionário. O dever cumprido satisfazia. Era como se tivesse completado uma maratona. Mas o cansaço e o desgaste com a dieta forçada petrificaram o viço do meu coração socialista. Ainda que pequena, pobre e sem alternativas, a vida urbana da capital nicaraguense era um paraíso para o brigadista cansado de guerra. Imagine só o deleite com uma livraria padrão europeu, um Hotel Hilton que sobreviveu a estilhaços e obuses e um lago vulcânico de águas termais para o descanso merecido do soldado colhedor de café. Sofri um choque dialético. Difícil abrir mão de frivolidades, por mais que a ideologia pulse. E ainda pulsa. Bem menos.

No dia 26 de fevereiro, após merecido descanso em uma cama mais macia do que a da fazenda, dentro de um alojamento perto do lago, decidi conhecer uma grande loja de livros e discos, que se tornou para mim ponto obrigatório em toda a semana que passamos em Manágua. Sem ter muito o que fazer nesse sabático revolucionário devorei livros de Sandino, Fernando Cardenal e outros líderes da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), além de ouvir LPs das canções revolucionárias nicaraguenses. Levei tudo para o Brasil, é claro. Para quem vinha dos campos de café, Manágua era a Disneylândia.

No dia 28 de fevereiro, dia de comício liderado pelo presidente Daniel Ortega, o comandante da revolução que sonhava em ser Fidel Castro até mesmo na longevidade do cargo e dos discursos proferidos. Era o ponto alto da agenda política das brigadas internacionais em Manágua. Após duas horas de espera e mais uma dezena de oradores, apareceu, entre aplausos efusivos, tiros e intermináveis gritos de entusiasmo, Ortega vestido em uma roupa safari bege e um bigodão que quase escondia sua boca. Foram 90 minutos de um discurso grandiloquente carregado de adjetivos, metáforas e palavras de ordem de forte apelo militar e patriótico. Havia um clima de medo porque essas ocasiões eram propícias para os Contras fazerem sabotagens. Foi bonito o evento, com um ambiente elétrico de tanto emoção. Estávamos excitadíssimos por que retornaríamos por Cuba. Seria nossa pós-graduação no socialismo real.

No dia 1o de março, voltamos ao Brasil. A frustração era grande por conta da decisão do governo cubano de não nos receber, como estava previsto, com a justificativa de corte de custos. As despedidas de praxe com o avião da Copa Airlines na pista já não tinha o mesmo sabor da aventura na chegada. Ficou gravado em minha mente o cansaço com a colheita de café e o desencanto com a desorganização da operação no campo e as divergências que ocorriam dentro da FSLN. Com o tempo foi se tornando uma experiência cada vez mais distante. O socialismo parecia ter passado em minha vida. Torço para que não aconteça. Na minha porção lúdica, permaneço um brigadista.

Alexandre Falcão é diretor da Insight Comunicação.
alexandre.falcao@insightnet.com.br

Alexandre Falcão
“Los hijos de Sandino ni se venden ni se rinden…”

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