Inseminações poemas escolhidos Carlos Nejar

Inseminações poemas escolhidos Carlos Nejar

Giordano Bruno fala aos seus julgadores

Não é a mim
que condenais.

Nada podeis
roubar-me.
A verdade sofreu
e eu sofri
no grão dos ossos.

A vida não me veio
para mim.
E servirei de vau
a seu moinho.

Não cedo
o que aprendi
com os elementos.

Prefiro o fogo
à vossa complacência.
E o fogo não remói
o que está vendo.
Abre flancos
no avental
das cinzas esbraseadas.

O fogo
de flamejante língua
e sem coleira:
morde.
E testemunha
sem favor dos anjos.

Não é a mim
que condenais.

A Inquisição
vos fragmentou
e ao vosso juízo.
A ciência toda
é aparência de outra
que nada em nós
como se fora água
do coração.

Eu me fiei
ao universo
e sou janela de harmonia
indelével.

Não vos julgo.

O que se move
é a história
no caule da fogueira.

Sou de uma raça
que procede do fogo.

Não podereis calar-me.
Dom Miguel de Unamuno,
Reitor de Salamanca

A Espanha era eu.
Tinha meu rosto
cicatrizado. Era
Miguel e os algozes
sem nome, cúmplices
do Estado. E nem isso.
Foi-me tirada a reitoria
de Salamanca e não
pude apertar de uma pistola
o dia, seu gatilho, o cão
da arma contra os cães.
E fui no exílio Espanha.
Combati e não perdi
a lâmina da alma. E eu
era todos os meus mortos
e os calados, postos
sob o aceso pelotão.
Eu era Espanha
na mudez e no ferrão
da pena, este punhal
de chamas. Minha
Espanha gemendo,
tropeçada na discórdia
civil, entre soldados tão
encarniçados, que nenhum
grão de pólvora deixou
de ser meu rosto, entre
os escombros. Com
feridos olhos, os ruídos
de todo o meu povo
atravessado. E as botas
fumosas, as botas
de escárnio e chuva,
negras balas. Não,
a história sou eu,
não eles. Eu, que resisti,
que branco permaneço,
inda com as negras balas.
O que da névoa viu passar,
sem Sancho, D. Quixote
negro no galope.

Se fui reitor, era
em Paris Espanha.
Era de Espanha,
o mundo. De Espanha
a Espanha: alma.

Quando voltei
não era mais
Miguel de Unamuno,
professor de quimeras
e de versos.

Era Miguel, o que não
sabia o que fazer com
a infância e nem teve
merendas no colégio.

Era Miguel, com o rio
Tajo nas costas
E a inteligência intacta.

Miguel, o que fazia
força de ser pássaro
e era um forasteiro
de silêncios.

Miguel, o que entortava
suas lágrimas e não obedeceu
ordem alguma da noite miliciana.

Miguel, que não sabia nada.
Nem viver ou morrer.
Analfabeto de manhãs.
Porque era Espanha.

Franz Kafka na porta do paraíso
Meu Pai me expulsou do paraíso
e eu expulsei meu Pai da palavra.
E me dei conta de que, se não fosse
expulso, o paraíso seria destruído.
E continuo expulsando meu Pai
da palavra. Até que a palavra
seja o meu Pai. E se estive
no paraíso, não sabia: a infância
tem o privilégio de ignorar a felicidade.
E a felicidade não se contenta de ser
sozinha. E se o paraíso está repleto
de preceitos, não me sinto merecedor
deles. A palavra é a graça exercitada
e graça é o que não pode mais perder silêncio.
Vejo o que não vejo. Acredito e não acredito.
E por que teria de acreditar em mim ou em vós?
Executado como um cão em ignoto processo,
fiquei junto à porta do Castelo, à porta da América,
à porta da lei que nunca me foi aberta, à cancela
de um K, que não alcançou sequer a porta do nome,
um endereço certo, a casa de uma pátria, a pátria
de um tempo talvez habitável e humano. Fiquei
sempre à porta, por não ser igual aos outros,
nem ser igual ao Pai e nem pertencer à família
dos acomodados ao empório do mundo,
aos infungíveis bens, ao indissolúvel casamento
da espécie. Vim como se fosse traição, anátema;
e tentei queimar meus livros, tal foi
o desencontro, a busca dos semelhantes
que se escondem nos porões do homem.
Lúcido demais para tornar às cavernas,
universal demais para esquecer de que viver
é desviar-se. E transformei-me um dia
numa forma de inseto, para conviver
convosco, já que o excesso de realidade
me recusava. E levei como inseto entre
vós somente o pudor do instinto. Não
quis atrapalhar vossa solenidade
ou imperiosa arrogância. Deixem-me
respirar, que sou inofensivo,
inapetente, antigo. Sim, por favor.
respeitem a minha diferença!
Carlos Nejar é poeta, ficcionista, crítico e membro da Academia Brasileira de Letras.

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