Igualdade

Igualdade

Adalberto Cardoso, Sociólogo

 

 

– Vamo descê maluco! Tô te falano, vamo descê! Aqui secô geral! Esses azul aí, esses cara aí, valeu? Os cara puzero um garrote no morro que num passa nada, num passa nem gelo derretido, nem palito de fósforo, tá ligado?

– Descê nada, maluco. Tu tá é loco…

– Loco o quê, vacilão!? Vai fazê o quê? Vai mendigá trocado da mamãe, é? Vai lambê a bunda do Senegal? Aquele criolo te enche a boca de chumbo, tá ligado? Tu vai ficá que nem lataria de camburão depois de tiroteio.

– Manera aí, mané! Manera aí! A máquina aqui cospe chumbo, tá ligado? Tu tá correndo risco! Lambê a bunda do Senegal, o caralho! Aquele porra num é de nada, falei? E num quero descê e pronto! Tu num manda em mim, ninguém manda em mim!

– Ma tu é um mané mesmo. Quê que vai fazer com esse berro na mão? Senegal te deu essa parada praquê? Pra enfeitá essa tua mãozinha de mané? Vamo furá uns cara lá em baixo, maluco! Só de faroeste! Rir da cara dos vacilão!

– Num quero. Num tô afim.

– Num quero, num tô afim. Parece minha irmã falano…

– Vai botá ela na roda?

– Ó! Tá correndo perigo, moleque!

– Ela fica toda vermelha quando eu tô por perto.

– Ma tu é um mané mesmo! E minha irmã vai se abalá com um bosta de gente que nem tu, mané? Teu piru num faz nem cosquinha nas cachorra, tá ligado? Minha mana tá reservada pra gente de bem, pra bacana. Ali maluco num põe a mão.

– Ela me olha, ué! Vô fingi que num gosto?

– Ó, já falei, cala essa matraca senão eu calo ela! Tô aqui pra descê, num tô aqui pra ouvi papagaio. E se continuá rindo vai acordá no micro-ondas, tá ligado?

– …

– E aí, vai descê ou vai ficá aí com essa cara de cachorro cagano?

– Num quero descê.

– Porra, ma que porra é essa, caralho! Vô tê que te levá amarrado? Preciso de ajuda, moleque! E em dois é mais manêro, é terror puro! Moleza! Tu chega nas madame com essa cara de anjo e eu aperto elas, morô? Se a puta reagir tu queima ela. Puf, puf, pronto, a gente casca fora, tá ligado?

– Mas eu num sei como é…

– Num sabe cumé o quê? Que papo é esse, agora? Cumé que tu conseguiu esse treco aí se tu num sabe cumé que é? Senegal num põe arma na mão de flosô!

– Flosô é a tua mãe, falei? Já quemei doze alemão e um azul, tá ligado? Esse buraco aqui, ó! Tá veno? Tiro de fusil, malandro. De fusil! No meu teste fui escudo pra descida do Senegal naquele dia que queimaro o Leleco e a cachorra dele, aquela… Cumé que era o nome dela?

– Aquela Suzane?

– Suzane, essa puta aí. Cachorra gostosa, aquela puta. Puta metida. Nunca olhô na minha cara, aquela filha da puta.

– Tu precisa crescê, moleque. Se tu crescê as cachorra vão chegá. É só num vacilá, num caí em tocaia, num dá mole pros cara aí.

– Sua irmã olha pra mim…

– Porra, vai começá? Tu qué morrê, é? Tá vacilano! Tô avisano, tu tá vacilano!

– …

– Quem deu o tiro?

– Esse? O furo? Foi fuzil do Comando. A bala tá na geladêra lá da oficina nossa. O Zilão que tirô. Me deu éter pra cherá e tirô ela. Porra, o tal do éter é bom pra caralho, maluco! Melhor que cola, tu entra numas que tu acha que é deus, morô? Tu vai sei lá pra onde, fica tudo durmino, num senti nada. Tu já cherô éter, maluco?

– Tu tá doido, maluco? O Pinha num deixa nem chegá perto daqueles troço do refino! Cortô dois dedo da Saba porque ela pegô aquela acetona lá… Um porra dum algodãozinho de nada, muleque! A cachorra num merecia, aquela bundinha preparada! Num vai podê mais casá, a filha da puta. Num tem mais dedo pra aliança…

– Filha da puta do Pinha. A Saba é uma cachorrona. Já me chamô pra lambê ela…

– Ah, sai dessa, mané? Aquela cachorra? Tu lambendo ela? Tu tá é zuano…

– Pergunta pra ela…

– Vô perguntá! Taí, vô perguntá. E sabe o que vai acontecê se tu tivé mentino? Tu vai tê que chupá meu pau, valeu? Chupá até eu esporrá e mijá nessa tua boca mentirosa.

– Então pergunta, ué…

– Vô perguntá. Depois que a gente voltar. Vô perguntá. E tu vem comigo, tá ligado! Quero só vê essa tua cara suja quando eu perguntá pra ela. Tu tá ferrado, mané!

– E se ela confirmá?

– E se ela confirmá, e se ela confirmá! Ela não vai confirmá porra nenhuma, tá ligado? Tu vai cumê porra e bebê mijo hoje!

– Se ela confirmá eu encho tua cara de chumbo, falei? E depois cago na tua cara furada e corto teu pau pra dá pro cachorro dela.

– Pô, moleque, agora tu exagerô…

– Exagerô o caralho! Tu vem com esse papo de porra na minha boca! Porra é o caralho, valeu? Porra é o caralho! Tu vai te fudê, porque a Saba gosta da minha língua na racha dela, tá ligado?

– Mas tu num tem nem 13 ano, seu bosta! A Saba é coroaça, o Senegal já cumeu, o Maneta já cumeu, todo mundo já cumeu! Cumé que ela gosta que tu lambe ela?

– Ela tem 15…

– Então, velhona, daqui a pouco tá embuxada. E não vai sê com esse teu piru nanico de bosta!

– Piru nanico de bosta é o teu, seu mané, e tu para com isso que agora é tu que tá vacilano! Num tô aqui pra ouvi merda de mané que nem tu, tá ligado? Tu tá atrapalhano minha atividade aqui.

– Atividade! Tu falô atividade? Atividade é coisa de boiola, tá ligado? Tua função aqui é avisá a gente se aparecê os azul e os preto. Num é atividade. É função, morô? E os home num sobe hoje, tá todo mundo liberado pra descê, fazê o que quisé.

– Tu num falô que os home fecharo o morro?

– Fecharo pra bacana. Num sobe ninguém, num desce mula, num acontece nada.

– E tu vai arriscá? Tu com essa tua cara de maluco?

– E eu lá tenho medo desses filha da puta, vacilão? Boto meu uniforme da escola, os cara num olha nem na mochila. Moleza. Mamãezinha me deu essa cara de anjo pra quê?

– Já falei que num quero descê. Prefiro ficá aqui e lambê a Saba.

– Porra de moleque teimoso, puta que pariu.

– Te manda, vacilão, tu tá melando minha função.

– Vô tê que convocá o Senegal pra te obrigá?

– Ó só, tu escuta porque num vô repeti. Se tu movê com o Senegal ele vai te enchê de porrada, falei? Ele pediu preu ficá aqui, pra num deixá o posto, ele confia nimim.

– O Senegal? Confiá em tu? Essa é demais, tu me mata de ri muleque. E o maluco vai confiá em um mané feito tu?

– Ele sabe que eu num vô descê.

– E cumé que ele sabe?

– Porque eu nunca desci.

– Como assim nunca desceu? Tu tá de sacanagem comigo? Que papo é esse de nunca desceu?

– Num desci, ué! Nunca desci, nunca saí do morro, nunca pisei no asfalto. Num quero descê, tá ligado?

– E essa agora…

– Tá rindo do quê, mané?

– …

– Qué pará? Tu ri que nem macaco! Vai virá macaco furado se num pará de ri!

– Porra… Porra mermão! Tu há de concordá que é hilário. Que mané que tu é, maluco! Tu nunca queimou uma bacana? Nunca cortô o rosto duma mina com caco de vidro? Nunca robô uma bicicleta na Lagoa?

– Nunca desci, seu porra! Já falei!

– E a escola? Tua mãe não pôs tu pra estudar?

– Num tenho mãe.

– Ah, tu tá de caô. E tu nasceu como?

– Nasci do teu cu, vacilão. Anda, te manda! Dois tiro pro alto e o Senegal tá aqui pra cortar teu pau e enchê teu cu de chumbo.

– Puta que pariu, muleque… Caraca… Essa foi demais… Tu nunca desceu mesmo?

– Nasci e cresci no morro, vô morrê no morro.

– Pô, maluco… Pô, a cidade é irada, aí! Tu vai se amarrá se tu descê. Ó só, vamo dexá as bacana protro dia, vamo pra praia, levo tu no Leme, tu precisa pisá na areia, entrá no mar, vê as mina tomando sol, as cachorra com o cu pra cima. Tu vai aloprá, maluco!

– Tem cu de cachorra nas lage daqui.

– Mas é otro papo, as cachorra lá é lôra, é…

– A Saba é lôra…

– Lôra sarará, vacilão. Ela num…

– E tem a buceta mais cherosa do morro, pode crê. Desce lá pras tuas lôra, mané, me deixa queto na minha função.

– Mas tu precisa conhecê… Caralho, por que tu fez isso, seu filho da puta? Tu atirô no meu pé! Caralho, tu vai te fudê, filho da puta, vô mandá cortá tuas oreia e dá pros cachorro, anda, vira essa máquina pra lá seu porra, corno filho duma égua, tu… Não faz…

– Corno é tu, seu bosta. Falei que enchia tua boca de chumbo, macaco. Quero vê furá madame agora… Vacilão.

– …

– Porra, gastei as bala tudo… Senegal vai chiá. Tu era um mané chato pra caralho, hein, seu corno filho de uma égua. Tô queto no meu canto… Porra, tô queto aqui e tu… Seu vacilão… Caralho, vô tê que limpá essa sanguêra toda. Porra de vacilão do caralho.

 

O autor é professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do estado do Rio de Janeiro (Iesp-Uerj).

acardoso@iesp.uerj.br

 

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