Giordano Bruno, submisso

Giordano Bruno, submisso

Wanderley Guilherme dos Santos, Cientista político

 

Giordano Bruno, nascido Filippo, dominicano, calvinista, vagabundo europeu. Disputou com doutores por toda Itália, França, Inglaterra e Alemanha. Alquimista aprendiz, iniciado em cabala, intuiu a sabedoria e tudo experimentou. Ameaçado de expiação várias vezes, excomungado algumas, professor semiclandestino a vida inteira. Convidado pelo Santo Ofício a retratar-se, jamais em sete anos atinou como que devia abjurar. Em 17 de fevereiro de 1600, Giordano Bruno, nascido Filippo, foi arrastado pela língua ao Campo di Fiori, em Roma, e atado a uma estaca exposto solarmente a arder. Contava 52 anos de idade.

Eis a angústia que o perdeu:

“Compreendei, Sereníssima, a humilde ignorância de que são tecidos heroicos furores. Ofende aos simples chuvas que não regam, silvas que não olem, partos abissais. Escalofria aos brutos temerários a finitude cósmica de Deus. Pois, Dulcíssima, que divindade assim austera exaure tanto poder sem nada que a limite? Se mesmo vós, Boníssima, oca matéria perecível, oca, fazeis metalurgia apócrifa ao dispensar com generosidade condenações raiadas, relâmpagos sintáticos, não mais, enquanto um eco de igual pseudossom não torne contra vós a vossa própria voz! Quem, Precavida, precavidíssima, se me perdoais, contida a cupidez, estiolaria os números e as regras, e não faria de dez vezes dez o infinito cardinal de mundo vários, exponenciais? Quem, inventando-a, evitaria transmutar a mágica adição multiplicada em posse inumerável? É este mundo nosso o solitário gozo Daquele que lascívias autoriza? E de onde então, análogo imperfeito, Lázaro ornado de ouropéis e odores, retiraríeis, parla Frugalíssima, o exemplo acero, o lábaro que ostentas, para tal apetite, enorme, sem fastígio? Cento e sessenta artigos formulei, confesso, em busca de outro cento e mais sessenta, que houvessem minha angústia adormecido – sim, que só do verbo reconheço império. Peço a palavra, digo, para ouvi-la, sobre o tlim-tlim dos ferros, Sapientíssimo, peço a palavra, a vossa, pela ordem, pela razão e a fé, o que quiserdes. Mas põe cuidado, imunda, rameira transitória, neste inferno perene que é teu dote: não é democrático o Estado que emudece aqueles que disputam o que é democracia.”

 

Consta que Henrique VII investiu-se da autoridade suprema na igreja da Inglaterra e pediu a adesão de seu chanceler, e teólogo católico, Thomas More. Este calou-se. O rei insistiu em saber se o aprovava ou desaprovava. More recusou-se a declarar uma ou outra coisa. Manteve-se em silêncio por quatro anos. Foi decapitado por deslealdade e, quatro séculos depois, canonizado. Momentaneamente, decidiu-se uma disputa entre o poder dogmático temporal e o poder dogmático eclesiástico. Em essência, mais do que entre santidade ou traição escreveu-se outro capítulo do eterno embate entre o poder arbitrário e a liberdade de espírito.

Sabe-se hoje, a ocorrência registrada pela crônica é falsa. Transcrevo a versão fidedigna.

Eis como começou:

“Horas de caráter são aquelas em que as coisas passam a ser designadas por seus nomes próprios. Por exemplo, a proposta de negociação dos poderosos chama-se ultimato; a eleição que se quer fazer chama-se farsa; a lei, a ordem e a constituição evocadas pelos proclamos militares são na verdade tanques, bombas e petardos. Nas horas de caráter todas as hipocrisias se diluem, e as pessoas são levadas a ocupar seus devidos lugares.

Durante anos fui como se fora um cidadão dotado de direitos e obediente a leis iníquas por autônoma opção. Tudo falso. Tenho sido um virtual prisioneiro a cumprir regulamentos carcerários sob a ameaça de espadas pressentidas. Basta. Não mais sustentarei a enorme mentira ajudando a eximir de culpa àqueles que são beneficiários de meu encarceramento anônimo e conformado. Que apareçam as baionetas e que cada qual assuma a responsabilidade pela coação explícita.

Não me considerarei um cidadão enquanto minha liberdade depender da vontade de hierarcas militares. Não é minha obrigação cívica refletir sobre o compromisso democrático deste ou daquele comandante. Não estou à espera de generais de boa índole para tornar-me livre. Todo oficial que empenhe sua farda e armas em qualquer atividade além da manutenção da soberania de meu país é, por essa mesma razão, meu carcereiro.

Não mais chamarei de constitucional a autoridade imposta. Não mais obedecerei às leis senão adiante da ameaça de violência. Não mais pagarei impostos que contribuam para alimentar a formidável corrupção que contaminou a República senão quando cobrado judicialmente e face a prisão iminente. Não deixarei de frequentar lugares interditos senão quando impedido por constrangimento físico. Não me submeto senão à força revelada.

Creio ser minha responsabilidade comunicar esta determinação a meus compatriotas. Peço que não cessem de trabalhar e que não patrocinem a violência. Sobretudo, peço-lhes que não se submetam senão à força. Desobediência pacífica – é o que recomendo.”

Eis como terminou:

“– O senhor fez circular um documento induzindo os cidadãos deste País à desobediência!

– Não existem leis no País, senhor, e sugeri a meus compatriotas que se submetessem à força.

– O senhor afirma que não existem leis. Isto equivale a desobedecê-las!

– Eu me submeto à força, senhor.

– O senhor terá que obedecer às leis!

– Submeto-me a seu comando, senhor.

– Não, o senhor submete-se a leis!

– Se assim o preferir, senhor. Admito que existem leis, reconheço que as transgredi e confesso que estimulei outros a também fazê-lo. Declaro ainda que tudo livremente admito, reconheço e confesso. Como afirmei, submeto-me à força.”

 

Cometeu o crime imprescindível de enamorar-se da vida. Estudou filosofia, botânica e palavras. Recusou o desencanto do mundo e viveu contrafactualmente o que poderia ter sido. Conheceu o fracasso sem desesperar-se. Torturado por desfastio de verdugos, ingressou lentamente no universo dos símbolos de máxima coerência. Ao final, enforcou-se. Foi declarado inocente póstumo.

 

 

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