Fragmentos de uma Sociologia dos Desastres

Fragmentos de uma Sociologia dos Desastres

Leonardo Braga, Oficial Superior da Marinha do Brasil

 

Este artigo atende a um chamado para refletir sobre o estado de crise permanente que, segundo pensadores importantes como Tony Judt (2011) e Manuel Castells (2018), se instalou nas sociedades ocidentais. Para isso propõe como oportuna a adoção de uma abordagem alternativa, que compreende a sociedade como um ecossistema de inteligências coletivas a partir de cinco premissas enunciadas ao longo do texto. Num primeiro momento a reflexão se dá na busca por um modelo cognitivo geral, capaz de emular inteligências individuais e/ou coletivas. Adota-se como rascunho inicial o modelo de produção de conhecimento científico – este analisado sob a perspectiva da simetria explicação-previsão de Carl Hempel (1965) e da taxonomia de problemas de Weaver (1948). Das Neurociências, a partir dos referenciais vinculados à escola da “cognição orientada pela ação”, são extraídos elementos essenciais à compreensão do fenômeno da inteligência propriamente dito. Este aporte permite a complementação do modelo hempeliano e o seu reconhecimento como viável esquema geral.
Num segundo momento propõe-se o entendimento das inteligências coletivas como híbridos de componentes autopoiéticos e alopoiéticos. Por fim, são apresentados os conceitos de assimetria informacional e uma classificação de inteligências coletivas, adaptada a partir da proposição de Malone (2018). Conclui-se que a crise instalada se dá no interior de uma sociedade com alta assimetria informacional, onde há espaços cada vez mais generosos para a dúvida, a desconfiança e a incompreensão. E que a crescente expansão da rede de artefatos e das bases de dados digitais está criando condições para o surgimento de uma nova e mais profunda compreensão do mundo.

Por um Modelo Hempel-Weaver de Produção
de Conhecimento
Nas décadas de 1950 e 1960, o filósofo alemão Carl Hempel (1905-1997), propôs a atividade científica como um sistema de produção de conhecimento onde a relação de simetria entre a explicação e a previsão cumpriam um papel central (HEMPEL; OPPENHEIM, 1948). A explicação poderia ser definida como o resultado do tratamento de fatos específicos por um modelo, uma lei geral, constituindo um sistema autorreferenciado. “Autorreferenciado” porque, quando o cientista escolhe um modelo, ele filia o seu processo de seleção dos fatos ao olhar, à “lente” do modelo escolhido. Tal esquema, portanto, não seria necessariamente capaz de encontrar “a verdade”, mas de produzir “uma verdade”, válida dentro de um conjunto específico e coerente de fatos e leis gerais que o constituem. Hempel, coerente com sua filiação ao pensamento de David Hume, afirma que o conhecimento não deveria ser avaliado diretamente por critérios de falso ou verdadeiro. Deveria, como alternativa, ser avaliado segundo a força e a coerência do sistema de explicações que o produziram, em especial a partir da capacidade que exibirem de prever o futuro.
A proposição de Hempel tornou-se conhecida como “Modelo de Cobertura por Leis” e foi utilizada para melhor compreender a subjetividade inalienável do conhecimento e decretar a morte do positivismo lógico no século XX (FETZER, 2017). Todavia, ao contrário do que possa parecer à primeira vista, o filósofo não pressupôs a impossibilidade de conhecer. Ele pressupôs que o conhecimento é contextual e não pode ser apartado do sistema que o produziu – é, portanto, intersubjetivo1 por formação. A experiência de um “conhecimento objetivo”, aquele que (supostamente) não depende do observador, só seria possível entre partícipes de um mesmo sistema.
Para o filósofo alemão, o trabalho de conhecer é o trabalho de perceber as regularidades do mundo no tempo e no espaço, e delas se servir para prever o futuro – o teste definitivo para qualquer explicação. Mas a busca por regularidades no tempo, na tentativa de identificar relações de causa e efeito, pode ser uma tarefa reconhecidamente inglória, como pontua Aguiar (2005) sobre a compressão que Hempel (1965) tinha sobre o próprio modelo:

Ele próprio mostra as dificuldades de se considerar que toda predição seja uma explicação potencial através do exemplo do sarampo. Um dos primeiros sintomas desta doença é o aparecimento de manchas esbranquiçadas na mucosa da boca, conhecidas como “Manchas de Koplik”. O aparecimento delas é sempre seguido pelas outras manifestações do sarampo. Assim, estas poderiam ser preditas a partir daquelas. Tal correlação, entretanto, seria explicativa? Hempel admite que aqui pode haver dúvida, mas quando nos conta as suas razões para tal dúvida, dificilmente elas poderiam deixar de surpreender leitores das mais variadas inclinações (AGUIAR, 2005, p. 142) .

Avesso ao determinismo, Hempel depositava esperanças na estatística como forma de tornar mais “elástico” o acoplamento explicação-previsão e absorver as irregularidades (SPRENGER, 2013). Do outro lado do Atlântico este problema fora resolvido (anos antes) de outra forma. Após tomar parte no esforço norte-americano na 2ª Guerra Mundial (1939-1945), o matemático Warren Weaver (1894-1978) propôs um modelo seminal de classificação para os problemas Em seu artigo “Science and Complexity”, Weaver (1948) apresenta três categorias distintas, em ordem crescente de complexidade: (1) problemas simples, (2) problemas de complexidade organizada; e (3) problemas de complexidade desorganizada.
Os problemas simples seriam aqueles que possuem poucas e bem definidas variáveis, no máximo três ou quatro, e sua solução poderia ser obtida por meio de uma abordagem científica clássica, de natureza cartesiana, onde o todo é analisado pela redução em suas partes componentes. A habilidade de resolvê-los e de formular e recortar (nos lugares certos) problemas grandes em componentes menores foi a locomotiva da revolução científica a partir do século XVI. As contribuições da Matemática, campo estruturante desta revolução, podem ser traçadas ainda mais cedo (na antiguidade clássica).
A coevolução entre modelos matemáticos e os problemas das ciências naturais (como a elucidação de questões da física e da química), em diálogo com os problemas da vida cotidiana (como abrigo, transporte, produção de alimentos, administração, defesa) produziu avanços sem precedentes na compreensão do mundo natural e na construção do mundo social.
De volta à revolução científica, o uso intensivo da matemática como instrumento da ciência experimental pode ser atribuído a Galileu e a Copérnico, mas encontra seu ápice no trabalho de Newton com a publicação das leis da gravitação universal (e do não menos importante cálculo diferencial e integral). A ideia de um mundo mecânico, determinável e linear, que se desvela a partir da aplicação de leis universais espalhou-se rapidamente pelos sistemas ocidentais de produção de conhecimento técnico-científico, encontrando em Descartes seu melhor intérprete e maior entusiasta.
A simetria hempeliana é estrutural na matemática (LANGE, 2014), o que assegura vocação desta disciplina para solucionar problemas simples isolados ou combinados.2 Todavia, com a difusão da abordagem cartesiana e sua aplicação eufórica em todo tipo de problema, seus usos e contraindicações tornaram-se evidentes.
Por um lado, como já foi dito, sua contribuição para a construção do mundo que conhecemos é inequívoca. Por outro lado, exatamente porque se tentou usar em tudo, descobriu-se que muitos fenômenos não se conformavam a esta moldura.3 Ao contrário de se subordinarem a lógica linear e determinista, em que causas podem ser relacionadas a efeitos e a repetição da experiência permite a reprodução do resultado, os problemas desta natureza não são lineares. E acredite, eles estão por toda a parte. Da física de partículas ao metabolismo celular, das ciências climáticas à ciência política, do sistema imunológico ao sistema financeiro. A seu modo, o sistema de conhecimentos matemáticos circunscreveu e isolou a não linearidade como um corpo estranho. Nas palavras de Fritjof Capra e Pier Luigi:

Até recentemente, sempre que equações não lineares apareciam na ciência, elas eram imediatamente “linearizadas” — isto é, substituídas por aproximações lineares. Desse modo, em vez de descrever os fenômenos em sua plena complexidade, as equações da ciência clássica lidam com pequenas oscilações, ondas rasas, pequenas mudanças de temperatura, e assim por diante. Esse hábito se tornou a tal ponto arraigado que muitas equações eram linearizadas enquanto ainda estavam sendo montadas, de modo que os manuais de ciência nem sequer incluem as versões não lineares completas. Consequentemente, a maior parte dos cientistas e engenheiros passou a acreditar que praticamente todos os fenômenos naturais podiam ser descritos por equações lineares (CAPRA; LUISI, 2014, p. 143 e 144).

A ideia de tratar os problemas não lineares como “lineares imperfeitos”, abriu espaço para cientificidade de respostas como “52%, com uma margem de 5% para cima ou para baixo” e revelou-se uma conveniente forma de domesticar a ignorância pela quantificação da incerteza. Um ramo novo da matemática, a estatística, se organizou em torno desta tarefa.
Na perspectiva de Weaver (1948), os problemas não lineares, passíveis de domesticação, são classificados como “problemas de complexidade desorganizada” (PCD). O trabalho de solução de um PCD implica necessariamente na compreensão de fenômenos com um grande número de variáveis, milhões ou bilhões eventualmente, cujo comportamento individual é errático ou totalmente desconhecido, mas que pelo número elevado de interações observáveis produz um resultado previsível por métodos estatísticos. O jogo de dados é um bom exemplo. Digo, um bom exemplo se o problema for prever a média dos resultados de 1.000 lançamentos, não do rolar de um único dado.

Utilizada para lidar com PCDs, a estatística pode ser imensamente poderosa e responsável. Mas ao domesticar problemas ariscos com a estatística, o que se pode obter é uma licença para a ignorância. A consciência de que existe uma lacuna de conhecimento é uma poderosa força motriz para exploração e para aprendizagem. Mas a estatística é tão elástica em suas aplicações, tão capaz de moldar-se aos interesses do pesquisador, tão potencialmente ambígua na comunicação para o grande público, que até mesmo diferenças espalhafatosas entre predições e resultados obtidos parecem justificáveis.4
Na proporção em que as divergências ocorrem repetidas vezes, elas se tornam cada vez menos justificáveis, escancarando o espaço da dúvida e da perplexidade. Instala-se uma consciência mais profunda, construindo condições favoráveis para a mudança nos sistemas de produção de conhecimento (KUHN, 1962). A crise se instala como parte do processo de transição, como esclarece Kuhn:

A teoria ondulatória que substituiu a newtoniana foi anunciada em meio a uma preocupação cada vez maior com as anomalias presentes na relação entre a teoria de Newton e os efeitos de polarização e refração. A termodinâmica nasceu da colisão de duas teorias físicas existentes no século XIX e a mecânica quântica de diversas dificuldades que rodeavam os calores específicos, o efeito fotoelétrico e a radiação de um corpo negro. Além disso, em todos esses casos, exceto no de Newton, a consciência da anomalia persistira por tanto tempo e penetrara tão profundamente na comunidade científica que é possível descrever os campos por ela afetados como em estado de crise crescente. A emergência de novas teorias é geralmente precedida por um período de insegurança profissional pronunciada, pois exige a destruição em larga escala de paradigmas e grandes alterações nos problemas e técnicas da ciência normal. Como seria de esperar, essa insegurança é gerada pelo fracasso constante dos quebra-cabeças da ciência normal em produzir os resultados esperados. O fracasso das regras existentes é o prelúdio para uma busca de novas regras (KUHN, 1962; p. 147).

O enquadramento por Weaver dos problemas não lineares como problemas de complexidade organizada (PCO) contribuiu para ampliação do acervo de uma ciência que experimentava, já no início do século XX, severas limitações para elucidar aspectos fundamentais da vida em sociedade e do mundo natural. Nas palavras de Weaver (1948), os problemas de complexidade organizada são aqueles que habitam o reino dos fenômenos governados por um conjunto limitado de variáveis cuja associação é, por um lado, complexa demais para uso de técnicas reducionistas, e por outro, imprevisível pelos métodos estatísticos (pois o número de interações não parece ser suficientemente grande para produzir boas médias e desvios previsíveis, inviabilizando o uso responsável da estatística). Definitivamente um terreno árido para a simetria hempeliana.
Embora as teorias da complexidade e da auto-organização já tenham algumas décadas de vida, a prevalência do pensamento cartesiano, disciplinar, assegurou a perpetuação da diáspora entre o consciente e o inconsciente, entre a razão e a intuição e entre a parte e o todo (MARTINS, 2015). O crescente fracasso deste modelo cognitivo para lidar com os PCOs vem fomentando a expansão das tentativas de diálogo transdisciplinar, não só reavivando o interesse pelos referenciais da complexidade no século XX, mas igualmente abrindo espaço para um novo protagonista: o campo da inteligência coletiva, simbionte formado pelos campos da neurociência cognitiva e da inteligência artificial.

Por um Arquétipo de Sistema Cognitivo
De um modo aderente ao proposto modelo Hempel-Weaver, é possível observar que nossa espécie se sai bem com problemas simples e sofre com os demais. (KAHNEMAN, 2012). Nas palavras de BONABEAU (2009, p. 1), o cérebro é um recurso excepcional a serviço da adaptação, “mas está organizado para evitar a complexidade (não abraçá-la) e responder rapidamente para garantir a sobrevivência (não explorar inúmeras opções)”. Dentro da simetria explicação-previsão, esta característica traduz-se na capacidade de prever mais facilmente sequências de eventos rigidamente encadeados.

Pode parecer que a capacidade nativa humana (de solucionar problemas simples) seja algo trivial – mas não é. Mesmo o enfrentamento de problemas simples exigiu (1) o surgimento da noção de tempo, por meio de relógios biológicos internos e do sincronismo com eventos externos, como o dia e a noite, e (2) a capacidade de registrar sinais nesta régua do tempo – a memória. Unidos, o tempo e a memória permitiram a consciência do passado, desembocando numa fantástica novidade evolucionária: o futuro. Nas palavras de Antônio Damásio (2011):

A reflexão consciente e o planejamento da ação introduzem novas possibilidades no governo da vida acima da homeostase automatizada, em uma sensacional novidade da fisiologia. A reflexão consciente pode inclusive questionar e modular a homeostase automática e decidir sobre os limites homeostáticos ótimos em um nível que é superior ao necessário para a sobrevivência e que conduz ao bem-estar com maior frequência. O bem-estar sonhado e esperado tornou-se uma ativa motivação das ações humanas. A homeostase sociocultural adicionou-se como uma nova camada funcional da gestão da vida, mas a homeostase biológica permaneceu. (DAMÁSIO, 2011, p. 356)

Para efeito desta análise, importa perceber que a capacidade de mudar o mundo somou-se à capacidade que já existia de se ajustar ao mundo. Ao longo do processo evolutivo, as variações do ambiente foram competentemente acomodadas por estas duas estratégias: conformidade externa e conformidade interna (MARTINS, 2016).
O encadeamento lógico seria falho se tomássemos o ser humano como unidade indivisível. Somos mais bem definidos como “superorganismos”. Redes de redes de redes de relações, onde a variedade estupenda de células que compõe o seu corpo representa cerca de 10% do total de seres vivos que constituem você. Apenas 10% (COLLEN, 2016).

Você é mais “eles” do que “você”. Somente seu intestino abriga 100 trilhões deles, como um recife de coral no leito que é o seu intestino. Cerca de 4 mil espécies diferentes criam seus próprios pequenos nichos, aninhados entre as dobras do seu cólon, que, com 1,5 metro de comprimento, tem a área correspondente a uma cama de casal. No decorrer da vida, você vai ter abrigado o peso de cinco elefantes em micro-organismos. Eles estão por toda a sua pele, e existem mais de 50 milhões deles, só na ponta de seu dedo (COLLEN, 2016, pos. 79).

E como estas populações se adaptam? Microrganismos, assim como as células do corpo utilizam uma terceira estratégia, bem mais ancestral. A estratégia da iteração. Eles se reproduzem, de forma repetitiva. Cópias vão sendo produzidas, não exatamente perfeitas, redundando em variações. As variantes que melhor funcionam prevalecem. Se a taxa de variação for capaz de comportar as mudanças do ambiente, a linhagem se perpetua.
Nesta grande rede os componentes comunicam-se por transporte de partículas. Pela rede primordial circulam as moléculas, algumas bem grandes, que são enviadas de um lado a outro como mensageiros químicos. Antes do primeiro neurônio aparecer na face da Terra, esta era única forma de comunicação entre os componentes de um organismo multicelular. As plantas, nossas contemporâneas, são exemplos de criaturas que usam apenas este modo de comunicação. O fígado humano também.
Pela rede mais recente circulam elétrons. Este canal tornou-se
possível com o advento do neurônio, uma célula especial, capaz de transmitir e receber impulsos elétricos e a glia, capaz de moderar as perdas de transmissão. Mas não se engane. Nenhum destes dois tipos de células existiriam sem a rede primordial. E mesmo a comunicação elétrica é modulada pela comunicação química, a partir de uma intrincada orquestra de substâncias neurotransmissoras cuja ação é contextual. Ora podem estimular, ora podem inibir.
Iteração, conformidade interna e conformidade externa, química ou elétrica, em relações do micro para o macro e vice-versa, constituem o superorganismo “homo sapiens”. E constituem também outros seres sencientes. O fenômeno da mente consciente surge, portanto, a partir deste todo, e não somente a partir do que acontece no cérebro.
Segundo a abordagem atual da “cognição orientada pela ação”, da qual Damásio é tributário, a seleção dos sinais do ambiente (a atenção) está vinculada à ação. Leia-se: o sistema cognitivo humano está organizado entorno da captação de sinais do ambiente que tenham alguma utilidade para o planejamento ou para execução de uma ação (DOMINEY et al., 2016). Atenção é, portanto, um processo ativo e instrumental.5 Trata-se de um claro reflexo procedural da vida dos hominídeos. Um viver que era sinônimo de movimento constante, na busca por alimento e proteção, e movimento frenético, na caça e no combate (fugir ou lutar).6
Entendendo o homem como um superorganismo, cabe uma nota metodológica alertando que, para o sistema nervoso central, os demais sistemas do corpo são ambiente. O cérebro e suas ramificações nervosas são incapazes de existir fora do corpo. O corpo é o seu nicho ecológico e com ele, apenas como ele, o cérebro estabelece comunicações bidirecionais, usando as mesmas três estratégias de equilibração previamente discutidas, sob as formas químicas e elétricas combinadas.7 Da emergência de padrões de comunicação específicos surge a mente consciente, este fenômeno fascinante.
A construção de um arquétipo para a cognição humana é um trabalho tão antigo quanto importante, tendo naturalmente ocupado espaço na filosofia grega. É curioso, entretanto, que a oposição entre o racionalismo platônico e o empirismo aristotélico ainda seja uma questão de ordem em alguns campos da prática profissional e científica. Pelo que sabemos de mais atualizado, a “Caverna de Platão” é a nossa morada. Nossa experiência de mundo é indireta. O cérebro humano é uma rede de inferências, produtora de sentidos, que busca regularidades no tempo e no espaço e coerências a partir do estabelecimento de relações com o mundo externo via seus subsistemas sensoriais (com primazia para a visão) e seus atuadores (com primazia para as mãos, ricas também em sensores).
Por outro lado, Aristóteles não estava de todo errado. A experimentação é a base da coevolução. O ser humano é um ser social por natureza e passa seus primeiros anos dependendo inteiramente da sua família para obter proteção e alimento. Ele constrói a sua “humanidade” no diálogo com o outro, moldando e sendo moldado por relações recíprocas de inibição, estímulo ou indiferença. A recompensa e o prazer reforçam padrões, a reprimenda e a dor inibem.8
Conforme já discutido, no interior do superorganismo humano, a coevolução entre as diversas populações de células organizadas em tecidos e órgãos, juntamente com a vasta população de fungos, vírus e bactérias, se dá no interior de um ambiente informacional de natureza química e elétrica. Já o contato com o mundo externo se dá igualmente pela troca de informações químicas, mas não por fluxos de elétrons.
Isto quer dizer que, como sistema de relações de comunicação físico-química e ao mesmo tempo comunidade de microrganismos, somos criaturas permeáveis. Substâncias químicas vêm e vão, microrganismos entram e saem, mormente pela respiração, alimentação e expulsão de dejetos. Se estabelece, portanto, um segundo loop de relações de coevolução diretamente entre nós e o entorno. Por meio destas trocas modificamos o ambiente e por ele somos modificados, às vezes de forma brutal, como nas grandes epidemias, na contaminação de solos e da água que os ajuntamentos humanos produzem quase que invariavelmente.
Como já foi dito, se por um lado o intercâmbio de substâncias químicas e de microrganismos é parte indissociável do fenômeno da vida, por outro a comunicação externa por elétrons não é. As relações se estabelecem pelo contato direto, pela emissão e reflexão de ondas eletromagnéticas (luz e calor) e por ondas de pressão (som e vibração). O acoplamento entre as redes neurogliais e o entorno fora do corpo se dá por meio de transdutores especializados, tanto de entrada como de saída. Uns captam luz, som, pressão e calor, e produzem impulsos elétricos, como os olhos, ouvidos e a pele. Outros, excitados por impulsos elétricos produzem som e movimento (cordas vocais, modulação da respiração, músculos voluntários).
Por meio destas relações, o organismo estabelece esquemas clássicos de estímulo-resposta (feedback), como o reflexo fotomotor de contração das pupilas na presença de luz intensa ou de resposta muscular a estímulos dolorosos, como beliscões e calor intenso. Estas capacidades são herdadas, não aprendidas, e refletem o resultado de uma seleção natural tipicamente darwiniana, onde comportamentos úteis para a sobrevivência se perpetuaram e comportamentos inúteis ou perigosos, matam seus portadores antes que eles deixem herdeiros. São capacidades, portanto, de natureza filogenética, pois que decorrem de “uma sucessão de formas orgânicas geradas sequencialmente por relações reprodutivas” (Maturana e Varela, 2001, p. 117).
Porém, por meio destas relações, também se estabelece a comunicação simbólica, o que permite o desenvolvimento de capacidades ontogenéticas – aquelas que se constroem a partir da história das interações do indivíduo com seu entorno (Maturana e Varela, 2001). A comunicação simbólica permite a emergência da linguagem falada, escrita e do gestual, e se desenvolve especificamente no cérebro (mediada e integrada, como já foi discutido, pelos diálogos internos, onde outras vontades se manifestam, como a fome, a sede e o desejo de reprodução, tanto das células do organismo quanto do ecossistema microbial).

No código genético não há instruções sobre como falar português ou usar um sanitário. Há instruções sobre como criar esquemas mentais e reconhecer sua validade. É análogo à seleção darwiniana, só que muito mais rápido – (1) num processo recorrente, novas formas de interagir com o mundo são construídas pela produção ininterrupta de novos circuitos neurogliais;9 (2) postos no comando da aparelhagem de percepção e interação, estes comportamentos são experimentados no contato concreto com o mundo; (3) se esta experiência é recompensada, o comportamento é reforçado; (4) se este sucesso é repetido, o comportamento se perpetua e passa a ser uma ação preferencial dentro dos processos cognitivos; (5) se esta experiência é punida, o comportamento é inibido; e (6) se esta experiência é repetida e a inibição é recorrente, circuitos de inibição vão sendo reforçados – isto porque, como um sistema criativo e ativo, o cérebro vai continuar a produzir sempre novos circuitos, existindo o risco de que um mesmo comportamento, previamente experimentado e inadequado, reapareça. Deste modo, a geração de circuitos de inibição constitui-se como estratégia mais comum dentro de um sistema que tem como regra de construção a autoprodução. E não a destruição.10
Ao discutirmos o desenvolvimento cognitivo como um processo iterativo (produção constante de novos padrões) e interativo (na relação com o entorno, acima e abaixo da escala de complexidade), alcançamos a primeira premissa da abordagem: compreender a razão consciente como uma atividade criativa, de natureza histórica, que se desenvolve no espaço das expectativas sobre o futuro, moldando e sendo moldada na interação com seu entorno.

Cognição Híbrida – Consciências e Artefatos
A revolução industrial produziu uma cultura material incomparável, que no século XX constituiu os espaços urbanos como os ambientes onde o homem subsiste como uma espécie “domesticada”. Torna-se imperativo, após modelarmos a cognição, discutirmos o papel dos artefatos na trama do tecido social. Alcançamos neste ponto a segunda premissa: compreender as redes de relações entre homens e artefatos a partir do fenômeno da inteligência coletiva. Para isso é necessário distinguir duas categorias de componentes: a primeira, formada pelos seres vivos, cujos processos de organização têm origem interna (sistemas autopoiéticos) e a segunda, composta pelos artefatos, cuja concepção e a manutenção da organização têm origem externa (sistemas alopoiéticos) (FONSECA, 2008). Vejamos o exemplo de um carro. Um carro é um arranjo de componentes cuidadosamente planejado e construído por pessoas. De um monte de ferro, plástico e silício não surgem espontaneamente carros, nem mesmo se colocarmos as peças umas do lado das outras. Um carro não se monta – é montado. Um carro não se mantém – é mantido. Por outro lado, plantas são capazes de rearranjar espontaneamente elementos do solo e do ar para constituírem suas raízes, caules e folhas. Bactérias produzem réplicas rearranjando elementos disponíveis no seu entorno. Isso tudo o faz, plantas e bactérias, pela execução de um conjunto interno de instruções.

A proposição de artefatos como sistemas organizados por agentes externos se encaixa perfeitamente com a estratégia de conformidade externa: o homem imagina um futuro, vê de que modo pode reorganizar os elementos para construção deste futuro, criando ou destruindo. E o tem feito com progressiva sofisticação ao longo do tempo. Aquecem, misturam, derretem, moldam e montam nas pequenas e nas grandes escalas. Igualmente derrubam, explodem, cortam e queimam, destruindo padrões existentes como florestas naturais ou prédios abandonados.
Se a visão de futuro é ver um homem na Lua, criemos um artefato que permita levá-lo até lá! Júlio Verne propôs um enorme canhão. Von Braun propôs um foguete. Isto nos remete a um segundo componente essencial desta classificação – a intenção. Tanto Verne quanto Von Braun propuseram o uso de armas como formas de transporte. Mas afinal, foguetes e balas de canhão são armas ou veículos? A resposta está vinculada a duas perguntas anteriores, essenciais: a que visão de futuro este artefato se filia? Qual é sua utilidade para o alcance desta visão de futuro? Só podemos responder estas perguntas depois de escolhermos um agente de referência. Aí teremos uma proposição completa: uma bala grande de canhão é um veículo para Júlio Verne, em sua intenção de alcançar a Lua. É uma arma para o exército britânico, em sua intenção de conter o avanço dos alemães na 1ª Guerra Mundial. Quanto ao caso de Von Braun, cabe registrar que o cientista alemão foi pai do programa nazista de foguetes V1 e V2, utilizados para atacar cidades britânicas na 2ª Guerra Mundial. E também foi pai do programa espacial norte-americano.
A intenção é, portanto, característica pétrea de um artefato, o que nos sinaliza que a explosão da inteligência humana, ocorrida a poucos milhares de anos atrás, pode ser claramente compreendida e expressa como a revolução da conformidade externa. Mesmo antes do homem vir a ser minimamente capaz de rearranjar elementos, fazendo coisas como cozinhar cerâmicas, forjar metal ou atar troncos, ele foi capaz de dar intenção a formas que já existiam na natureza. Cavernas se tornaram casas. Galhos se tornaram cajados. Ossos se tornaram colares (ou armas, como propôs Kubrick na cena de abertura do filme 2001: uma Odisseia no Espaço).

Formas de Inteligência Coletiva e
Assimetria Informacional
Compreendendo a humanidade como uma teia titânica de relações entre componentes vivos e artificiais, poderíamos conceber muitas formas de mapear suas redes. De acordo com o critério escolhido, um determinado arranjo da rede será mais bem explicitado. Variando o critério poderemos perceber que, na prática, há muitos arranjos sobrepostos, já que muitos nódulos (tanto seres humanos quanto máquinas) participam de diferentes fluxos informacionais.
Pense, por exemplo, quantos fluxos informacionais podem ser utilizados para delimitar a rede de relações que definem um país? Transações cambiais, movimentos migratórios, importação e exportação, transmissões de rádio e televisão, postagens em redes sociais, geração e transmissão de energia, captação e distribuição de água… tantos exemplos que ilustram o quão complexo pode ser o trabalho de definir o que o senso comum entende como trivial.
Se pensarmos em fluxos informacionais como o carreamento de poluentes pela água, o diálogo entre falantes da mesma língua, a circulação do vírus da gripe e o tráfico de drogas, poderemos ver que a observação de seus padrões talvez nem permitisse a identificação de países no planeta Terra. A globalização, os sistemas climáticos e os ecossistemas não respeitam as fronteiras nacionais. Fluxos capazes de perpassar arquiteturas tradicionais, como o Estados-Nação e a família, tornaram-se cada vez mais intensos e mais abrangentes no século XXI.
Neste ponto alcançamos a terceira premissa: utilizar o processo de complexificação da vida, do biológico ao social, do natural ao artificial, como grande arco narrativo da história. E a quarta: compreender o processo de complexificação a partir de três de suas características mais importantes: (1) aumento da conectividade e velocidade de comunicação, (2) incremento na quantidade e variedade de componentes, sejam eles humanos ou artificiais e (3) uso preferencial de fluxos informacionais facilmente codificáveis.
Pensando sobre a forma como estes subsistemas coevoluem, imagine quantas relações de iteração, conformidade interna e externa se estabelecem? Quantos nódulos estão alocados para cada um dos processos descritos no esquema cognitivo, sejam eles pessoas, outros seres vivos ou objetos da cultura material? E quantas pessoas, cumprindo diferentes papéis em diferentes redes de relações, estão submetidos a influências contraditórias?
Com tantas superposições, o mundo não é global, regional ou local. Ele é tudo isso ao mesmo tempo. E dependendo da forma como cada um de nós está conectado aos fluxos informacionais, poderemos ter experiências de mundo imensamente distintas. Até a mesmo a grande rede não pode ser chamada de “a Internet”, mas sim de “as internets”, considerando a forma como ela integra nódulos a partir de lógicas locais ou regionais (MARTEL, 2015). A construção da identidade digital e local do Hezbollah, no Líbano, nos dá uma ideia de como isso acontece:

No coração do sistema estão os sites oficiais. Para começar, o Al Intikad (alahednews.com.lb), que pode ser considerado o porta-voz oficial do Hezbollah: é dirigido por Hussein Rahhal, o “senhor digital” do Partido de Deus, estando disponível em quatro línguas (árabe, inglês, francês e espanhol). “É o site oficial do Hezbollah, nossa principal referência”, explica Leila Mazboudi, uma das redatoras-chefes do Al Manar. A sede do Al Manar foi bombardeada cerca de quinze vezes na segunda guerra do Líbano, em 2006. Fica em Dahiyeh, Beirute Sul, o bairro-vitrine do Hezbollah. Caminhando por essas ruas “modelo”, temos um bom resumo da ação do Partido de Deus: o esforço maciço para reconstruir o bairro xiita, a criação de serviços sociais gratuitos, a proliferação de escolas, associações caritativas, hospitais e, naturalmente, mesquitas. Não foi necessariamente o islã, ou o jihad, nem mesmo a “resistência” que seduziram a população, mas essa mobilização social e comunitária de campo, acompanhada por um discurso anticorrupção. (MARTEL, 2015, pos. 2637)

Talvez você esteja se perguntando por que a determinação dos fluxos informacionais é tão importante para esta abordagem. Posso afirmar que ela é fundamental porque os pontos em que há modulações ou descontinuidades nas redes indicam os seus contornos e assinalam a delimitação de nichos que possuem regras comuns, como uso da mesma língua, moeda ou religião (HOLLAND, 2012).
Entre as estratégias possíveis para a detecção destas linhas de contorno, daremos atenção particular ao uso da assimetria informacional. Sistemas inteligentes, conforme a modelagem proposta: (1) captam informações, (2) processam segundo modelos gerais, (3) produzem explicações particulares, (4) fazem previsões, (5) comparam o previsto com o futuro desejado e (6) escolhem ações para encurtar a distância entre estes dois futuros. E, na escolha das ações, dão preferência para aquelas consideradas oportunas pela doutrina e/ou pela norma adotada no nicho social em que subsistem. A assimetria informacional é aqui proposta dentro da abordagem, como o hiato entre as capacidades de sistemas cognitivos muito distintos. As diferenças podem ocorrer em quaisquer dos aspectos acima relacionados ou numa combinação entre eles.
Utilizando a assimetria como critério, e as categorias de inteligência coletiva propostas por Malone (2018) podemos definir arquiteturas de inteligência úteis para esta reflexão. Começando pelas arquiteturas de assimetria alta, podemos relacionar em primeiro plano as hierarquias. O aumento da complexificação gera tipicamente arquiteturas de comunicação mais hierarquizadas, que sistemas tão distintos quanto o metabolismo celular, redes de estradas e a Internet são capazes de exibir (BARABASI; ALBERT, 1999)and (ii. Nas hierarquias, o fluxo informacional com que o sistema precisa lidar é bem maior do que o fluxo que seus componentes individualmente são capazes de processar. Isto gera a necessidade de divisão do trabalho, o que no mundo contemporâneo resultou em hiperespecialização (entre outros efeitos).
No caso das coletividades humanas, a necessidade de lidar com cada vez mais tecnologias, procedimentos e normas resultou na necessidade de fracioná-las em partes cada vez menores, assim compatibilizando os desafios aos limites humanos. Como cada fração ainda assim é “complexa” ou vai se tornando cada vez mais complexa com o passar do tempo, é pela autonomia do indivíduo “na ponta” e pelo forte investimento em educação que se assegura algum grau de adaptabilidade (já que as formas de organização hierarquizadas raramente se atualizam na velocidade que o mundo contemporâneo exige).
Ainda entre as arquiteturas de assimetria alta, podemos relacionar os mercados. Na relação entre produtores e consumidores, a assimetria informacional é ativamente buscada. Diferentes produtores competindo por consumidores buscarão fazer mais e melhor do que o concorrente, mantendo em segredo as tecnologias, o conhecimento e eventualmente os detalhes da sua cadeia produtiva. Partícipes em situação desvantajosa buscarão reduzir a assimetria por meio da inovação ou no mínimo pela cópia da tecnologia do líder de mercado.

Consumidores disputando produtos também buscarão assimetria, eventualmente mantendo em sigilo valores negociados ou negando a informação de onde ou com quem obter determinado produto. Mas a assimetria que parece estar mais se ampliando pela complexificação do mundo é aquela que se dá entre grandes produtores e consumidores individuais. O estudo pormenorizado do comportamento do consumidor permitiu às empresas estabelecer estratégias muitíssimo refinadas de indução de comportamentos. Nas palavras do designer e educador Victor Papanek (1972), “a publicidade, em sua prática de persuadir as pessoas a comprar coisas que não precisam, com o dinheiro que não têm, a fim de impressionar outros que não se importam, é provavelmente o campo mais hipócrita da existência na atualidade”.
Na perspectiva deste trabalho, os mercados são responsáveis pela explosão de tecnologias, que desde os tempos modernos vêm se incorporando às coletividades humanas (MALONE,2018). Elas movem o aumento da complexidade pela busca permanente de assimetria, e a complexidade proporciona novas conexões onde os mercados florescem. Além deste ciclo de realimentação positiva, os mercados se desenvolvem de forma impressionante por causa de sua velocidade da comunicação. Eles usam dinheiro, um meio muito rápido, que desde tempos imemoriais permite o diálogo até mesmo entre pessoas que não falam a mesma língua.
Comunidades, por outro lado, são estruturadas por um elevado nível de compartilhamento de informação, possuindo destarte baixa assimetria informacional. Famílias de adultos, tribos indígenas, a comunidade científica e os grupos religiosos podem ser tomados como exemplos. O compartilhamento é a regra, e compartilhar assegura prestígio e reconhecimento. Nas comunidades, a redução da assimetria informacional é o motor.
A arquitetura de mediação não é proposta por Malone (2018), mas emerge deste trabalho a partir da quarta premissa. Os mediadores estão em toda parte em redes de elevada conectividade. Eles modulam as comunicações. Antes da revolução digital, o papel de destaque do dinheiro fez das instituições financeiras hubs privilegiados. A eclosão da comunicação de massa pelo texto, foto, som e vídeo, fizeram dos jornais, emissoras de rádio e televisão mediadores poderosíssimos.
O advento das redes de computadores e dos dispositivos móveis provocou uma revolução no processo de mediação, dando poderes até então inimagináveis para organizações de mediação digital (e enfraquecendo a mídia de massa). Empresas como a Amazon, Google, Apple, Facebook, Twitter e WhatsApp passaram a mediar as relações no interior das comunidades, mercados e hierarquias, e também as relações entre estas diferentes entidades, em colaboração ou em competição com mediadores tradicionais, como o setor financeiro e a mídia de massa.
Cabe registrar que os tipos propostos são ideais, artifícios para facilitar a compreensão. As organizações do mundo concreto podem constituir-se como tipos quase puros desta classificação ou híbridos. Mas o que importa saber aqui, é que a mediação mais eficiente, proporcionada pela revolução digital, favoreceu o aumento da velocidade e a amplitude de possibilidades para outras arquiteturas (MALONE,2018).
Com o aumento da velocidade e da conectividade, comunidades se tornaram poderosos moderadores do mercado e das hierarquias estatais. Dentro destas comunidades surgiram membros prestigiados, os “influenciadores”, que passaram a publicar suas avaliações e disseminar conselhos por meio de blogues e canais do YouTube. Na área dos jogos eletrônicos, por exemplo, as comunidades exercem grande influência na construção das narrativas e da mecânica de jogo.
Às vezes a comunidade sequer é articulada, mas nem por isso é menos eficiente. As pessoas que compram um liquidificador provavelmente não teriam motivos para constituir um grupo de entusiastas. Mas quando registram num site a avaliação de um produto ou o nível de satisfação com o prazo de entrega, eles estão constituindo uma comunidade na prática. E proporcionando mais informação aos possíveis compradores, reduzindo deste modo a assimetria informacional.

Fato, Fake ou Customized?
Pudemos ver que o processo de complexificação da sociedade contemporânea é marcado por uma profunda e crescente assimetria informacional. Ela é qualitativa na proporção em que a variedade de sistemas cresce (gerando diferentes formas de ver e agir) e também quantitativa, na proporção em que grandes sistemas apresentam capacidades cada vez maiores, a partir do arranjo peculiar de pessoas muito capacitadas e tecnologias avançadas.
Um nível de assimetria alto abre naturalmente espaço para a desconfiança, incerteza e o medo. Pense em como seria inócua a tentativa de semear intrigas sobre um amigo próximo, com quem você tenha um diálogo aberto, e portanto uma relação de baixa assimetria informacional! Pense, por outro lado, na baixa confiança que você experimenta ao avaliar produtos e serviços de empresas que tenham histórico de fraudes e adulterações. No segundo caso há bem mais espaço para a disseminação de rumores e notícias falsas, especialmente numa sociedade em que a complexificação democratizou as possibilidades de difusão – algo inimaginável 30 anos atrás, onde os custos proibitivos, os equipamentos sofisticados e a necessidade de licenças estatais reservava apenas aos grandes grupos de mídia o privilégio de falar com as massas.
Não é prudente ignorarmos, dentro desse contexto, o papel dos algoritmos que as organizações mediadoras utilizam para moderar nossas fronteiras atencionais. A coleta e a análise dos dados que expressam nossos hábitos e preferências passou a instruir os processos automáticos de delimitação e priorização das opções de produtos e serviços ofertados. Assim, antes mesmo de levantar hipóteses acerca das vastas possibilidades de ação direta e má intencionada neste ambiente informacional, é preciso perceber que estes instrumentos, organizados a partir da lógica de relações de mercado, estão provendo a mediação entre as pessoas acerca de outros aspectos da vida humana, incluindo a política.
A prática de oferta de conteúdo “customizado” ao usuário, vinculada à sua similaridade com outros usuários, contribui para uma espécie de “clausura cognitiva”. Quanto mais informações uma pessoa busca sobre um assunto, mais informações correlatas ela receberá, proporcionando um mundo cada vez mais palatável e menos contraditório.

A Quinta Premissa
Weaver (1948) foi capaz de prever, nos anos 40, o modo como a ciência seria afetada pela revolução digital que estava por vir. Por si só é um feito respeitável. Mas o seu maior contributo para esta reflexão foi apontar uma quinta premissa: “A grande lacuna que é tão inevitável entre o nosso poder e nossa capacidade de usar o poder sabiamente, só pode ser preenchida por uma vasta combinação de esforços” (WEAVER, 1948, p. 10, tradução livre).
Mas a quem devemos dirigir os clamores por sabedoria? As organizações mediadoras tornaram-se eventualmente as mais poderosas “minerando” as assimetrias informacionais e alargando infovias – com um profundo impacto sobre a privacidade de cada um de nós. A ciência, que normalmente se faz dentro da lógica das comunidades, igualmente processa e divulga vastas quantidades de dados bem codificados. O mesmo fazem as estruturas de transparência pública e justiça. Somando-se os recentes avanços na área de Tecnologia da Informação, no que tange ao processamento de linguagem natural, estamos criando condições para que uma nova e profunda compreensão sobre o mundo possa emergir.
No futuro, é possível que as formas de inteligência artificial predominantemente sintéticas avancem sobre o último bastião humano (ou o que sobrou dele): o livre arbítrio moral. Mas por hora ainda nos cabe decidir o que é um futuro bom ou ruim, ainda que não saibamos como chegar lá. E respeitar, pelo menos, a quinta premissa.

O autor é professor do Programa de Pós-Graduação em Defesa e Segurança da Universidade Federal Fluminense (UFF) e Conselheiro da Associação Brasileira de Redução de Riscos de Desastre (ABRRD).
bragamartins@gmail.com

NOTAS DE RODAPÉ

1. A expressão aqui se refere a construção coletiva de conhecimento dentro de grupos humanos. Portanto, na relação entre sujeitos.

2. Me refiro ao estado do conhecimento matemático anterior à matemática da complexidade. E que de certa forma representa o estado de conhecimento matemático embebido nos processos cotidianos de produção, considerando que a matemática não-linear tem seu uso e compreensão restritos.

3. Eram de certo modo “rebeldes” e por isso alguns autores de língua inglesa passaram a chamá-los de “wicked problems”.

4. E suas limitações são tão evidentes que geraram um fenômeno no mínimo curioso: “Como Mentir com Estatística”, publicado na década de 50, tornou-se o livro da área mais vendido do mundo. Publicado em 1956, ele ensina às pessoas como se protegerem do uso mal-intencionado da estatística (STEELE, 2005).
5. Esta qualidade não é única dos seres humanos, sua descoberta goza de boa fundamentação téorica e experimental, e a busca pela sua confirmação já saiu da lista de questões do mainstream (o front agora é entender como isso acontece).

6. Torna-se imperativo completar o esquema Hempel-Weaver com a ação, considerando que a percepção já está contemplada pela seleção de fatos e o seu tratamento por modelos gerais. A ação, nos esquemas de estímulo-resposta se dá de forma automática, reativa. Com a reflexão e o planejamento, é possível ser proativo. Neste caso, o que instrui a ação? Segundo Damásio (2011) é a vontade. Não um tipo qualquer de vontade, mas aquela que surge quando há uma diferença entre o futuro previsto e o futuro desejado (FRISTON, 2010).

7. Para facilitar a compreensão, aqui foi negligenciada a mobilização de outros fenômenos naturais em proveito do sensoriamento, atuação e comunicações, como por exemplo o papel da gravidade no sistema digestivo e no subsistema de equilíbrio. Também foi adotada a expressão de “sinais químicos” para nomear o fenômeno de transporte de moléculas e “sinais elétricos” para o transporte de elétrons, embora a química abarque também este último, com especial interesse pelas partículas ionizadas.

8. E a medida em que o tempo passa, o ser humano vai perdendo pouco a pouco a sua plasticidade. As janelas de transformação vão se abrindo e se fechando, permitindo que novas camadas de complexidade possam ser construídas em épocas específicas.

9. A partir da sinaptogênese e da neurogênese.

10. Embora a inibição seja o recurso cotidiano, há processos excepcionais como a poda neural na adolescência e o enfraquecimento de circuitos por desuso.
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