Entrevista com o médico plantonista

Entrevista com o médico plantonista

Intervenção sobre obras de Lucian Freud

 

Nosferatu
Sou médico plantonista, tenho 28 anos de idade e me formei em medicina há três anos. Trabalho em um hospital e na UPA (Unidade de Pronto Atendimento), ambos na Baixada Fluminense, no Rio. Sou um ser das trevas. As vestes brancas não passam de camuflagem. O médico plantonista é uma espécie de vampiro que se alimenta da tragédia humana para garantir sua própria sobrevivência. O trabalho de plantão de uma unidade hospitalar não é considerado nobre por nós médicos, notadamente da rede pública. Só estão nessa seara aqueles que não conseguem pular fora. Quem faz plantão é o banco de reserva da medicina. Estamos nessa fundamentalmente pelo dinheiro. Para quase todos os médicos recém-formados, dar plantão é a única porta de entrada na atividade profissional, a maneira de garantirmos nossa subsistência. Somos os mais inexperientes e os menos capazes. Em sua grande maioria, os médicos competentes jamais estão entre os plantonistas da rede pública. Só mesmo a falta de alternativa melhor faz com que um profissional suporte uma rotina tão mórbida, sem condições materiais de trabalho e absolutamente massacrante. São 12 horas em contato direto com a escassez, o descaso, o terror; numa jornada noite adentro que transforma muitos de nós em estátuas de mármores, gélidas e indiferentes ao constante passeio da morte ao nosso redor. Há pouco, muito pouco que possamos fazer contra ela.

Vícios
Quem trata do médico? Absolutamente ninguém. Mal deixamos os bancos universitários, somos largados no inferno de um plantão hospitalar sem qualquer acompanhamento psicológico que nos permita suportar nossa rotina de guerra. Não há faculdade que nos prepare para um hospital de campanha. Sim, trabalhar em uma unidade da rede pública no Brasil é ser médico de guerra. Vivemos com os nervos em frangalhos, entregues a toda sorte de transtornos e distúrbios. Não por acaso, o plantão médico é uma linha de montagem de dependentes químicos. Nosso ciclo circadiano é absolutamente desregulado, pela constante interferência medicamentosa. Toma-se remédio para ficar acordado, como termogênicos; toma-se remédio para dormir, como indutores de sono, a exemplo de melatonina e benzodiazepínicos. Há médicos que não conseguem mais dormir, mesmo em casa. Vivem trincados. E não me refiro, logicamente, apenas a drogas lícitas. Vários dos meus colegas mergulharam na cocaína e só trabalham chapados. Onde estamos não há espaço para esse tipo de moralismo. Para não enlouquecermos de vez, fazemos nossas próprias regras, como, por exemplo, criar nosso “plantão” dentro do plantão. Na UPA em que trabalho, na Baixada Fluminense, no Rio, temos uma divisão religiosa durante o plantão da madrugada. De uma equipe de cinco médicos, quatro descansam e apenas um atende a todos os setores, clínica médica, pediatria e sala vermelha, ou o “inferno”: é para onde são levados os pacientes em estado grave, como baleados ou vítimas de acidentes automobilísticos.

Vazio
Teríamos de ter tudo; não temos nada. Faltam gazes, esparadrapos, scalps, faltam medicamentos, de um benzodiazepínico a um reles AAS. Outro dia, um paciente chegou à unidade com um sangramento na veia poplítea, na perna. Não tínhamos gazes para conter a hemorragia. Não estou falando de um equipamento médico de última geração. Estou falando de um saco com um chumaço de pano. Fui correndo à farmácia, comprei vários pacotes do próprio bolso, fiz o primeiro atendimento e levei o paciente para o hospital. Se não fizesse isso, ele morreria por choque hipovolêmico. Dá muita raiva, uma indignação sem tamanho. Até porque somos a última linha, para o bem e para o mal. O ônus de um óbito por falta de condições adequada não recai sobre o SUS, sobre a administração do hospital, e muito menos sobre a autoridade, mas, sim, sobre o médico. Nós somos a face da morte.

Algidez
É muito doloroso dizer isso, mas o plantão nos torna pessoas mais frias. Nosso espírito acaba sendo forjado pela rotina da moléstia diária e da morte permanentemente à espreita. Um médico jamais terá desdém pela vida; mas, não raramente, eu e meus colegas nos vemos impassíveis. A banalização das condições inaceitáveis de atendimento médico torna o plantonista quase insensível diante de certas situações. O caos humano é o nosso papel de parede nos corredores de um hospital público. Um corpo que jaz em uma maca ou no chão de uma recepção é apenas um corpo a mais. À vezes, olhamos para um paciente e falamos entre nós mesmos: “Esse daí, de hoje não passa”. É o que chamamos de paciente SPP: “Se parar parou”. Não há nada que se possa fazer por ele. Para além disso, mais do que indiferentes, desenvolvemos nossos próprios anticorpos contra a rotina de um plantão.

Pólvora
Trabalhos em uma zona de guerra. As unidades de saúde do Rio recebem um baleado a cada duas horas e meia. Na Baixada, esse número dobra. Na maioria dos casos, bandidos. São sempre os casos mais graves, seja pelo atendimento em si, seja por toda a tensão e risco que os cercam. Os criminosos chegam pelas mãos de outros criminosos; chegam pelas mãos de policiais, que largam o corpo na entrada do hospital, apenas para ele “morrer” lá. Nesses casos, temos de acionar o IML, que demora às vezes 14 horas para recolher o cadáver. Não faz muito tempo, seis criminosos baleados chegaram ao hospital. É muito tenso. Na rede pública, notadamente, nunca sabemos com quem estamos lidando. Pode ser um parente; pode ser um comparsa.

VIPs
Chamamos o bandido levado por outros bandidos de “cliente VIP”. Esses não precisam de triagem; têm prioridade no atendimento, garantido pelo forte armamento que seus cúmplices carregam, não raramente fuzis. Essa é a vida como ela é… Quando isso ocorre – e, acredite, ocorre com constância –, toda a equipe é obrigada a parar o que está fazendo para atender ao criminoso baleado. Não se trata de uma “escolha de Sofia”. Simplesmente porque não temos escolha. As UPAs não têm segurança; não têm um policial. Ficam, até pela sua natureza, em áreas críticas, de extrema violência. Costumo ir trabalhar de trem para não chamar atenção. Evito andar de carro particular nessas regiões. Somos reféns dos criminosos, mesmo porque, como temos uma rotina quase diária em um mesmo hospital, estamos inapelavelmente expostos. Certa vez, um colega meu teve de se esconder dentro de um tomógrafo porque os bandidos o culparam pela morte de um comparsa. Era um dos chefões do tráfico na área. Nessas horas, a última coisa que não passa pela nossa cabeça é chamar a polícia. Tudo tem de se resolver ali mesmo. Para o nosso bem. Recentemente, um grupo de milicianos chegou carregando um homem com um tiro nas nádegas. Entraram no hospital aos gritos, empunhando as armas e exigindo que o projétil fosse retirado. Era uma noite em que a equipe estava reduzida, por atrasos no pagamento de salários e na compra de medicamentos. Estávamos atendendo apenas os casos mais graves. Não tínhamos sequer um cirurgião no plantão, argumento que certamente não sensibilizou essa “clientela”. Um dos homens gritou: “Vocês aprendem cirurgia na faculdade, porra!”. Eu mesmo peguei o anestésico, lidocaína, apliquei na região glútea do paciente e fiz a extração da bala. Os bandidos passaram o tempo todo ao nosso lado até que o comparsa fosse liberado. Dias depois, ele voltou à UPA. Levava um malote de dinheiro, como sinal de gratidão pelo atendimento.

Insuportável
Mesmo a fratura exposta da criminalidade no nosso dia a dia perde importância diante da mais angustiante situação que um médico pode experimentar: o óbito de uma criança. É um dos raros momentos em que a espessa carapaça que criamos em um plantão hospitalar se esfarela. É lancinante a morte de uma criança que sofre com dor os seus últimos momentos! Quando ocorre, costumamos dizer entre nós que “acaba o plantão”. Passamos o restante da jornada praticamente em silêncio, cabisbaixos. Mesmo o mais experiente dos médicos sofre ao ter de comunicar a morte de uma criança à família. Nunca é um ato individual. Nessa hora, o mais comum é toda a equipe se reunir para falar com os parentes. É a forma possível de acalentarmos a família e mostrarmos que todos nos empenhamos no atendimento à criança.

Barraco
Somos, em certa medida, o para-raios da revolta da população em relação ao poder público, um síndico permanentemente ausente. O médico plantonista de uma unidade de saúde é, na maioria dos casos, o mais perto possível que um cidadão carente consegue chegar do Estado. Quando algo dá errado, personificamos todos os demais desserviços prestados à sociedade. É muito comum o paciente ou um parente se rebelar na fila de espera. Os gritos fazem parte da trilha sonora de um ambulatório público. Por vezes, somos agredidos fisicamente. Existe um sistema de classificação que é adotado pelo mundo inteiro, entre paciente azul, que não tem nada sério; paciente verde, um caso basal; paciente amarelo, talvez em uma situação que possa evoluir para um estágio mais crítico; e paciente vermelho, o mais grave, que necessita de atendimento emergencial e corre risco de óbito. Essa classificação é feita pela enfermagem. Trata-se do procedimento padrão. No entanto, esse sistema é cheio de imperfeições. A não ser profissionais mais rodados, a equipe de enfermagem não tem o conhecimento clínico para identificar com precisão certas situações de gravidade. Às vezes, uma dor epigástrica pode ser um infarto que esteja ocorrendo naquele momento. Infelizmente, a triagem erra para menos. Casos graves são tratados como banais. E quando a situação do paciente se complica, ainda na fila de espera, é absolutamente natural que o parente se revolte. Já vi colegas sendo agredidos. Já tive de ameaçar pacientes e familiares para não apanhar. Em certa oportunidade, eu tive de imobilizar um paciente que partiu pra cima de um colega e chamei os maqueiros – os nossos leões de chácara. O paciente foi expulso da unidade. Mas eu procuro relevar o desespero alheio. Para um paciente, a horas numa fila de espera, somos a personificação do mal, aquele que lhe “nega” a cura. Ele não sabe a máquina de moer em que trabalhamos: num “bom” dia, podemos chegar a 900 atendimentos para uma equipe com cinco médicos.

Pecado
Essa rotina massacrante nos deixa, muitas vezes, na margem, à beira do erro médico. Conheço casos de colegas que cometeram falhas no atendimento por conta da estafa – por sorte, ao menos que eu tenha testemunhado, sem resultado fatal. O mais comum é a troca de medicação. Eu mesmo já ministrei medicamento errado após uma situação excepcional, em que fiz 84 horas seguidas de plantão. O médico novo é muito mais iludido pelo dinheiro e acaba se submetendo a sucessivas cargas horárias, em condições sobre-humanas, indo, inclusive, contra a lei. Nós não podemos fazer mais de 48 horas em uma mesma unidade. Mas o controle que existe para a ausência inexiste para o excesso de presença. O CRM tinha que fiscalizar. Mas não o faz; no máximo, dá uma incerta, de seis em seis meses, ou uma vez por ano. Se tiver médico e o serviço nunca parar, o barco segue. Até naufragar.

Desesperança
Não vejo qualquer sinal de melhora no sistema público de saúde. Há desânimo entre os médicos, muito desânimo. Muitos colegas não seguram a barra. O plantonista começa a carreira com data e hora marcadas pra terminar. Dar plantão é uma forma de ganhar dinheiro mais rapidamente. Mas a sobrecarga é muito grande; o impacto psicológico é brutal. Em dois ou três anos, a rotina se torna insuportável. Nenhum médico, repito, nenhum médico quer passar mais tempo do que isso em uma emergência. Quase 90% da minha equipe são compostos de médicos recém-formados. O médico com um pouco mais de idade que dá plantão é até mal visto pelo grupo. Certamente há algo de errado: trata-se de um profissional que não estudou, não avançou. Haverá uma notória discriminação dos próprios colegas em relação a ele. O plantão é a porta de entrada na atividade médica. A meu ver, algo muito errado, porque muitos chegam sem qualquer experiência para lidar com as situações-limite a que somos expostos. Eu e meus colegas sentimos imensa necessidade de um amparo psicológico. Não são poucos os dias em que eu saio desesperado da UPA, pensando “Porra, minha vida é uma merda! Estou fazendo isso aqui pra quê?” Muitos dos ensinamentos que tive na faculdade joguei na lata de lixo. Porque a medicina real não é medicina dos bancos escolares. Especialmente no Brasil e mais especialmente ainda no setor público. Ali é o local em que fazemos medicina com pouco. Às vezes, olhamos o paciente, sabemos da necessidade dele ser removido e internado, mas não há vagas na rede pública. O que fazemos? Receitamos um remedinho, damos um cala-boca e mandamos para casa. Apenas para tirarmos o “problema” de perto de nós. E quando esse “problema” realmente dá merda, assistimos ao paciente morrer no corredor de uma UPA porque não temos exames, não temos médicos especialistas para ajudar. Se eu diagnostico um linfoma, como já aconteceu, de que adianta internar o paciente em um leito? Ele não vai ser transferido para um hospital, não terá onde se submeter a uma biópsia de medula, não conseguirá vaga no Inca para um tratamento de quimioterapia. Vou ser cruelmente sincero: de 10 pacientes que são internados com algum problema sério, a rede pública consegue oferecer o tratamento adequado ao diagnóstico feito para um, no máximo dois deles. O resto… é o resto.

Crepúsculo
Os idosos são, disparadamente, os que mais sofrem no serviço público de saúde, a começar, na média, pela gravidade das doenças que carregam. E vou dizer algo dolorosa e demasiadamente humano: entre uma criança e um idoso, o médico sempre opta pela criança e deixa o idoso para depois. Trata-se da mais pura e fria análise de probabilidades. Os problemas de saúde da pessoa de mais idade são crônicos, não agudos, juros compostos de uma vida sem assistência médica adequada. O paciente começou com uma pressão alta, essa pressão alta causou uma lesão no rim, essa lesão no rim virou uma insuficiência renal, juntou com uma insuficiência cardíaca; então, esse paciente evolui para um quadro de edema de pulmão, uma pneumonia. Como vamos tratar um paciente com esse quadro se não temos máquina de hemodiálise? Não vamos conseguir fazer um ecocardiograma para verificar a fração de injeção e poder fazer a medicação correta. Soma-se, portanto, um quadro clínico, agravado pela idade, com a falta de condições para tratá-lo adequadamente. Confrontados com a torturante escolha de salvar uma criança ou um velho, deixamos o velho para lá. De uma forma em geral, o idoso é o grande perdedor no plantão médico.

Impotência
É deprimente olhar para a família do paciente e não poder fazer nada. A rotina de um plantão é o jogo de empurra. “Ah, esse hospital aqui não tem o aparelho tal, essa unidade aqui não tem o medicamente tal, então leva para tal lugar… Mas tal lugar não tem leito.” E assim é feito com o paciente até ocorrer o inevitável. O médico fica arrebentado por dentro ao dizer para um familiar: “Eu não posso fazer nada!” Recentemente, atendi a um paciente com hemorragia digestiva. Ele vomitava sangue sem parar, talvez por uma úlcera perfurada. Somente uma endoscopia mostraria a lesão e o seu nível: podia ser uma úlcera ou um tumor. Mas não tínhamos o aparelho. Vi o sujeito se esvair em sangue até morrer. Ao fim, éramos eu, com o jaleco cheio de sangue, e um corpo estendido em uma maca. Definitivamente, não é um lugar agradável de se trabalhar. Tem que se gostar muito da profissão ou, então, precisar muito do dinheiro para ficar em uma unidade pública. Eu aconselho todos os meus colegas: estude para que você consiga se capacitar e parar de fazer plantão. Porque essa vida não faz bem à saúde.

Crueldade
Não somos santos, apesar das roupas brancas. Pelo contrário. Somos humanamente perversos e impiedosos, quando queremos. Não temos compaixão pelo paciente inconveniente, intrusivo, que se acha mais importante do que os outros e tumultua o plantão. Esse é propositadamente jogado para o fim da fila. Seu primeiro castigo é ficar no hospital, ver os demais pacientes que chegaram depois dele irem embora antes, testemunhar o horror da nossa rotina. Se a intenção dele é estragar o nosso dia, nós, sim, detemos as técnicas e os instrumentos para devolver a perturbação em dobro. O tratamento especial inclui medicações e métodos mais dolorosos. Existem remédios que já são, por si sós, intoleráveis, como Decadron e a famosa Benzetacil. Para os pacientes indesejáveis, desenvolvemos a “Dipirona Ice”. A Dipirona guardada em um freezer; quando injetada de forma intramuscular, causa uma dor absurda. Esse sujeito vai pensar duas vezes antes de voltar ao posto.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *