Entrevista com o General

Entrevista com o General

Diante de todos esses episódios, Lava Jato, Zelotes, impeachment, como está o ambiente nos quartéis?

O panorama nos quartéis mudou muito no século XXI. Não são mais os quartéis da década de 50. São outras camadas sociais que hoje fazem parte do oficialato. É curioso: a maioria dos oficiais que se manifestam são filhos de oficiais que tiveram desempenho político no século passado. O militar de hoje tem um perfil muito mais tecnocrático. Para além disso, é fundamental destacar que nós, oficiais, sempre tivemos uma grande visão de Brasil. Nós passamos por um curso de política estratégica na Escola Superior de Guerra, estudando a realidade mundial, o que nos dá uma capacidade de interpretação do mundo extraordinária. Evidentemente, um homem com visão do mundo e do seu país assume determinadas condições políticas. O ranço do anticomunismo é muito forte. Os governos de esquerda no Brasil não foram bem sucedidos e nós, militares, não toleramos alguns dos princípios básicos em que a esquerda brasileira tocou. O PT teve alguns pontos convergentes com os militares, como o fortalecimento da defesa nacional, a criação da indústria de base e defesa, mas havia questões divergentes, como a declaração do presidente do PT, Rui Falcão, de que o governo falhou ao não interferir no currículo das escolas. Depois disso, quem estava neutro montou guarda.

 

O senhor quer dizer que esse posicionamento das Forças Armadas agora é menos simpático ao PT e à esquerda de uma forma mais ampla?

Com relação ao PT, sempre foi pouco simpático e agora é extremamente pouco simpático, apesar das Forças Armadas estarem cada vez menos radicais e os três ministros militares considerarem Aldo Rebelo, um homem da esquerda, um dos melhores ministros da Defesa que o Brasil teve. Agora, a bem da verdade, há de se dizer que o PT não é e nunca foi comunista, assim como o próprio Lula nunca foi comunista. O PT nasceu nos sindicatos e depois recebeu o apoio das comunidades eclesiásticas de base. Ele aproveitou aquele momento da teologia da libertação. O problema é que o PT desmoralizou a esquerda. Lembro de um general que morava na minha rua quando eu era criança. Ele costumava dizer que era fácil conhecer um comunista: “Ele é inteligente, preparado e honesto”. O PT desfez isso. Sujou a história da esquerda. O Golbery, aliás, previu isso. Ele conhecia o Brasil muito bem, tanto quanto o Marques de Pombal, embora este jamais tenha pisado aqui. Esse PT, conforme anteviu Golbery, dizimou a esquerda e despertou a ira da classe média. Toda essa massa do estrato médio da sociedade, altamente conservadora, obviamente tem grande influência sobre as Forças Armadas.

 

A classe média está mais conservadora?

A classe média conservadora que hoje bate panela é a mesma que saiu à rua para participar da Marcha da Família Com Deus pela Liberdade. O Exército Brasileiro nunca foi um ente isolado, como determinados Exércitos sul-americanos que dão o golpe pelo golpe. Ele sempre agiu em reboque da classe média, ou convocado pelo anseio da sociedade. A seleção é pátria de chuteira e o militar é a pátria de coturno. Na Argentina, no Uruguai, no Chile, ele vem da alta burguesia. Aqui é muito diferente. Se tivermos de colocar num sociograma mais simples, o modelo brasileiro é o tenente casando com a professora que ele conheceu no trem da Central. Esse Exército não é contra o povo. Ele vem do povo. O Brasil hoje tem a sociedade com outras demandas que não as da década de 50. Não é um Brasil do PTB, UDN e PSD. É um Brasil com a multiplicidade e grandes aspirações, que vão desde discutir a questão do gênero, da sexualidade, até a economia. E há uma crise de representatividade no país e, eu diria até, no mundo. Nós nunca vimos um doido como o Trump na presidência dos Estados Unidos. Poderemos ver. Nunca vimos um presidente francês tão escrachado quanto o Sarkozy, casado com uma vedete. Nunca vimos um primeiro-ministro da Inglaterra tampouco um membro da Família Real espanhola acusado de corrupção. Então, nós estamos vivendo uma crise da democracia representativa muito grande. Isso está muito claro para os militares.

 

Uma crise de democracia é quase um convite para que as Forças Armadas entre em cena, não? O senhor entende que há esse anseio na sociedade?

Nós não queremos meter a mão nessa cumbuca, porque vai sujar. São tempos e circunstâncias diferentes. Em 1964, toda classe média pediu a presença das Forças Armadas. Ela tinha pavor do Leonel Brizola, das Ligas Camponesas de Francisco Julião. Hoje, não há qualquer movimento no sentido de os militares assumirem um protagonismo político-administrativo. Absolutamente nada. Estamos vendo o país mal, mas dentro de uma normalidade institucional. Na história nacional, as Forças Armadas só entraram quando houve quebra institucional. A bactéria só cresce quando é caldo de cultura. O comandante do Exército, General Villas Boas, localizou muito bem a meta militar: apesar de toda a crise social, econômica e moral, a fronteira é o caos social. Se houver uma situação de caos social, passa a ser um problema das Forças Armadas.

 

Mas no atual cenário de polarização política, há muita raiva de parte a parte, não? O Exército não teme, no limite, um cenário de convulsão social?

Nada aponta nesta direção. Há, sim, polarização, um confronto muito claro e definido no campo ideológico, mas tudo dentro de um limite de responsabilidade e respeito às instituições. Que isso fique absolutamente claro: não houve ruptura institucional, nada que justifique uma intervenção militar. Eu não gosto dessa frase, mas o brasileiro é um povo pacífico. Não se viu qualquer grande confronto que sequer resvalasse na linha do aceitável. O povo amadureceu e se tornou cioso dos seus deveres. Vejo uma responsabilidade: ninguém quer estragar esse grande ativo que temos, a democracia.

 

Há uma expectativa de que essas manifestações de rua – ou seja, Sem Terra ali, CUT aqui, funcionalismo cá e acolá – permaneçam durante muito tempo porque não há motivos pra elas pararem. A situação do país é ruim e, para muitos, prevalece a percepção de que houve uma usurpação de poder: o governo não teria sido transferido de uma forma e legítima. O senhor acha que o povo tem essa percepção?

Depende do que a gente considerar como povo. A classe média não tem essa percepção. Ela está razoavelmente satisfeita, digamos assim, com o que ocorreu. Cumpriu o objetivo: bateu panela, a Dilma caiu e fim de conversa. Determinados organismos da sociedade civil organizada obviamente não estão satisfeitos. Esses não voltaram para casa. Mas as Forças Armadas não viram nada até agora capaz de desestabilizar o país: não há nada sequer próximo de confronto armado, não há ameaça de greve geral, não há risco iminente de paralisação de rodovias. Ou seja: não há nada que a Polícia Militar não resolva dentro de suas atribuições. De toda a forma, tudo está muito bem mapeado pelas Forças Armadas. O serviço de inteligência conhece muito bem os atores que estão nas ruas…

 

Mas e essa sensação latente em certos de que o poder mudou de mãos no grito?

A transferência de poder se deu de forma legítima. Todo o rito estabelecido pela corte constitucional foi seguido e respeitado. Até onde eu sei, não houve qualquer quebra. Agora o julgamento do impeachment de um presidente é político. A corte do impeachment é o Senado, um órgão político. Todo o processo é conduzido por um membro da corte constitucional, uma instância política no mais alto sentido da palavra. Portanto, o argumento do golpe não procede. A presidente da República não tinha condição de governabilidade e ponto. É isso que derruba um chefe de governo. Desde os primórdios da nossa República, todos os presidentes derrubados caíram porque não tinham apoio do Congresso e condições de comandar o país. E, como exercício, se quisermos nos distanciar do aspecto político e nos deter ao mérito, houve crime responsabilidade, apontado e caracterizado por uma série de juristas de renome. Não foi um estudante de Direito no fórum que falou que a presidente Dilma cometeu crime de responsabilidade. Portanto, por onde quer que se olhe, pelo ângulo político, jurídico, mas, sobretudo, constitucional, todo o processo de mudança de governo se deu de forma legítima. As Forças Armadas não podem cair nessa esparrela de usurpação de poder ou golpe. Aliás, as Forças Armadas não podem, não devem e não irão cair na esparrela de lado algum.

 

Há uma demanda pela entrada dos militares na segurança pública. Isso não é um chamamento às Forças Armadas? As coisas não se misturam no imaginário da sociedade?

Não! Isso não é um chamamento! É a demanda do dia a dia, sobretudo nos grandes centros. É um anseio por segurança pública, nada além disso. E os militares também não querem cumprir o papel das polícias. O envolvimento das Forças Armadas com a segurança pública é muito perigoso, aqui e em qualquer lugar do mundo. Já é um erro termos a Polícia Militar e a Polícia Civil…

 

Quando isso aconteceu?

Vem das Guardas Nacionais, dos Voluntários da Pátria, que formaram aqueles batalhões. Esse modelo não existe em nenhum país evoluído do mundo. Essa mistura não é boa para nenhum dos lados. Polícia não pode ser militar. Polícia é polícia e militar é militar. São duas atividades nobres, porém distintas.

 

Um fato interessante é a imagem das Forças Armadas junto à sociedade. Em qualquer pesquisa, ela entra sempre entre as primeiras colocadas em termos de confiança. A que se atribui essa reputação?

A sociedade percebe a retidão de postura das Forças Armadas. Isso dá a nós militares um ativo que não pode ser banalizado. Até porque essa imagem demorou a ser conquistada. Sob certo ângulo, pagamos um preço alto demais por 64. O desgaste reputacional foi muito grande. Penso que chegou a hora de revermos 64 com muita clareza. Repito: qualquer regime só alcança o poder com apoio popular. As Forças Armadas responderam a uma convocação da sociedade. De todo o modo, tenho orgulho de pertencer a uma instituição que tem mais de 80% de aprovação do povo.

 

Historicamente, sempre foi assim? Os militares sempre desfrutaram dessa reputação?

Não sempre. O Exército não gozava de prestígio na época do Império porque havia a Guarda Nacional. No entanto, em 1870, os oficiais militares voltam da Guerra do Paraguai com a autoestima bastante elevada e com a pretensão de começar a desempenhar um papel relevante na sociedade. O Imperador e a Corte eram relativamente contra. D. Pedro II tenta de uma forma ou de outra amordaçar as Forças Armadas, à época Exército e Marinha especificamente. Passam-se duas décadas e os militares começam a ser fortemente influenciados por um dos jovens de meia-idade, oficial, tenente-coronel formado na Escola Militar, Benjamin Constant Botelho de Magalhães. Benjamin Constant era um estudioso do positivismo, um homem que conhecia Augusto Comte com profundidade e começa a contaminar a escola militar com os ideais positivistas. Esse fim do Império é um momento de vários paradoxos: a questão militar, a questão religiosa, a abolição, entre outros. Há uma frase que considero extraordinária: o Brasil teve quatro ou cinco Repúblicas e a República mais estável que o Brasil teve foi o Segundo Império, por conta do sabre de Caxias e da lança de Osório…

 

Mas esse foi um período de vários conflitos regionais…

Sim, mas nenhum deles vingou ou teve impacto nacional. Caxias e Osório suportaram a Balaiada, a Praieira, a Farroupilha, uma série de movimentos indiciosos visando a Integridade Nacional Brasileira. Este é um momento da História que marca a ascensão militar no Brasil. D. Pedro II era um homem esclarecido e tinha relativamente preconceito contra os militares e os militares, por sua vez, adquiriram preconceito contra ele também. Com a Proclamação da República, o Exército surge como um grande ator político. Os dois primeiros presidentes, os marechais Deodoro e Floriano, são militares. Posteriormente, temos Hermes da Fonseca e toda essa oficialidade jovem adere ao positivismo e começa a fervilhar na Escola Militar. Anos depois, nasce o tenentismo. Juarez Távora, Cordeiro de Farias e João Alberto tendem para a política de direita, mas não uma direita nazista. Isso é uma marca muito importante do Exército brasileiro, ele nunca foi um Exército nazista, ainda que com influência alemã. A influência francesa falou mais alto, muito por conta da missão chefiada pelo General Gamelin, herói da Primeira Guerra. De toda a forma, não há qualquer instituição mais nacionalista do que o Exército.

 

O ápice dessa influência e do poder militar vem com 64, não?

O ano de 1964 não pode ser visto de maneira isolada. É um erro histórico. Ali há uma conjugação de fatores políticos e sociais guiados pelo desejo da sociedade de que uma força legítima restaurasse o equilíbrio institucional. A revolução, golpe ou seja o nome que se queira dar a 64 não eclode por si só. Como estava dizendo, o prestígio conquistado pelas Forças Armadas é um processo gradual, que leva à proclamação da República e segue adiante na história. Mais à frente, temos os tenentes instrumentalizados ou instrumentalizando Vargas. Ali estavam o Capitão Ernesto Geisel, o Capitão Gustavo Cordeiro de Farias, o Capitão Juarez Távora… A partir desse momento, é como se as Forças Armadas assumissem o poder moderador que cabia ao imperador. Em 64, esses tenentes da era Vargas assumiram o poder com um grande projeto. Um projeto que transformou um país de 45a em nona maior economia do mundo, um projeto em desenvolvimento com muitos erros e acertos. Em 64, o primeiro passo para afastar a oficialidade da política é dado pelo Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco. Ele limita a permanência de oficiais e generais a 12 anos no serviço ativo. Até então o Exército tinha os seus donos, os seus líderes: Lott, Cordeiro de Farias, Juarez Távora. Eles tinham seguidores, como Zenóbio da Costa e Canrobert Pereira da Costa. Houve várias tentativas de tomada de poder, desde Vargas, até que chegamos a 1964. A queda de Goulart decorre de um movimento militar e civil.

 

Voltando à origem do militar brasileiro, que, como o senhor disse, vem do povo e não da elite. Como os quartéis encaram hoje a questão salarial? Isso é um fator de incômodo ou mesmo de combustão da tropa?

Esta é uma questão importante. Aliás, sempre foi. Quando três militares se juntam, a primeira coisa que um pergunta aos demais é quando será o próximo aumento. A defasagem salarial é grande e, sem dúvida, motivo de incômodo. Mas eu posso dizer que tão ou mais importante é a fragilização da atividade pela redução dos investimentos na área de defesa. Fragilização em termos, que fique bem claro, porque temos uma capacidade operacional muito boa. O Brasil pode fazer frente a qualquer país da América Latina. As Forças Armadas Brasileiras têm a pronta resposta em qualquer momento. Ainda assim, o adiamento de projetos, a redução de investimentos, as dívidas com fornecedores são, sim, um fator de incômodo, com os quais teremos de lidar.

 

Como um militar, para quem o orgulho nacional é atávico, reage diante da percepção generalizada de que o Brasil está desmontando pela roubalheira?

Tudo tem seu limite, seu ponto de saturação. Esse estado de degradação ética e moral nos causa a mais profunda indignação. Contudo, serei enfático mais uma vez: as instituições estão funcionando perfeitamente. Nada saiu do controle. Portanto, não queiram que façamos o que não queremos ou o que julgamos não ser necessário fazer. As Forças Armadas brasileiras são legalistas. Ninguém fará loucuras. Ninguém! A época das quarteladas acabou. Estamos atentos. Os serviços de inteligência seguem vigilantes. Sabemos quem é quem. O Exército não se deixa manipular, nem por um lado nem pelo outro.

 

Mas o governo Michel Temer fez um sinal de aproximação ao levar um general da ativa e o Estado Maior para dentro do Planalto, não?

Fez, porque precisava. Qualquer presidente, nessa circunstância, faria. De fato, convidar o General Sergio Etchegoyen, chefe do Estado Maior do Exército, para comandar a chefia do Gabinete de Segurança Institucional foi um movimento estratégico e, acima de tudo, profilático. Ao tomar tal decisão, o presidente Michel Temer anuncia nas entrelinhas: “As Forças Armadas estão ao meu lado”. Claro que se trata de uma medida preventiva. Este é um governo que já começa fragilizado e, logo na partida, é obrigado a demitir três ministros.

 

O presidente interino Michel Temer já anunciou que montou um gabinete com o objetivo de voltar às privatizações, como Fernando Henrique. Os militares sempre tiveram um certo incômodo com esses modelos de governança e de desmobilização de ativos. Privatização é quase um anátema. Isso é uma coisa que ainda permanece? 

Em certa medida, permanece. O caso mais sensível é a Petrobras. A companhia tem origem militar, sempre foi a jóia da coroa do Exército. Mas não é momento para se pensar em privatizar a empresa. Não se falou nessa hipótese. Para privatizar a Petrobras, o governo tem de ter muita força política. E muito voto.

 

Se havia um distanciamento entre as Forças Armadas e o Executivo, tudo indica que o gesto de Michel Temer de nomear o General Etchegoyen para a Segurança Institucional reconstruiu esta ponte. Essa parte parece bem equacionada. Mas como é hoje a interlocução entre as Forças Armadas e a sociedade civil? Ou, mais precisamente, com o empresariado?

Muito boa! A Fiesp tem dois oficiais generais recém passados para a reserva. A interlocução com o empresariado é permanente. O mesmo com a Igreja. As Forças Armadas sempre tiveram uma boa capacidade de interlocução com a sociedade de um modo geral, o que deu origem aos movimentos civis e militares, chamados por muitos de “golpes”.

 

E internamente? Como são as relações hoje entre os diferentes estratos das Forças Armadas? Há um distanciamento entre o Alto Comando e a tropa?

Em hipótese alguma, principalmente no Exército. Atualmente, somos comandados por três tropeiros. No Exército, temos o Villas Boas, que, além de tropeiro, é homem intelectual, um conhecedor profundo da questão Amazônica, sua paixão de vida. Na Força Aérea, o Luiz Rossato é um piloto de caça. Cheira a motor e gasolina de aviação. A Marinha é comanda pelo Eduardo Bacellar, elegante como todos os almirantes são, mas, ainda assim, próximo da tropa. As Forças Armadas são uma das instituições mais democráticas que o país tem. O meu contracheque líquido é de R$ 16 mil. Meu motorista, um sargento apenas com curso ginasial, ganha R$ 3 mil. Uma razão de cinco para um. No próximo aumento, eu terei um reajuste de 5,9%; os sargentos, de 20%. Não há empresa ou instituição no país com um distributivo nesse nível, para não falarmos dos alojamentos, da alimentação. Não conheço regime mais socialista do que o das nossas Forças Armadas. Nós temos uma igualdade muito grande de oportunidades. Mesmo com relação às promoções: os critérios de avaliação, que são até antiquados, funcionam para todos: além do cumprimento das funções, são observados quesitos como comportamento familiar, casamento, valores.

 

Como as Forças Armadas veem hoje essa hegemonia do Judiciário, esse poder de ditar o andamento do país?

Ouvi na Escola Superior de Guerra muitos comentários de que o Judiciário aproveitou um vácuo do Poder do Legislativo e do Executivo. A gente tem um Judiciário que governa, um Executivo que não faz nada e um Legislativo que não legisla, que só faz conchavo. A relação dos militares com o Judiciário é muito boa. O Judiciário sabe até onde vai com os militares. A comissão da verdade, o julgamento do STF, isso é bem nítido ele sabe até onde pisa e os militares sabem até onde pisam com o Judiciário. E muito se fala do poder do Judiciário, mas não se viu até agora, em todo esse episódio gerado com a Lava Jato, o Supremo tomar qualquer atitude escandalosa. Eu desafio qualquer um a apontar um descalabro jurídico cometido pelo STF. Pode ser que um ou outro juiz tenha cometido deslizes, mas o Supremo, não. Creio, aliás, que um dos grandes avanços da carta de 1988 foi o artigo 129, sobre o Ministério Público…

 

Mas muita gente critica esse Ministério Público…

Tem de ser um quarto poder. O Ministério Público são os olhos da sociedade.

 

Mas não pode, em função de terem assumido esse papel de quarto poder, extrapolar…

Eles vão amadurecer. São todos muitos jovens.

 

E o papel do Sergio Moro?

Esse extrapola. Ele se considera o único juiz honesto do Brasil. Mas é preciso analisar o caldo de cultura que gerou o Sergio Moro. Ele não pode se investir de um poder messiânico. Sergio Moro não vai moralizar o Brasil. Mas vai dar uma bela sacudida.

 

Há quem diga, ainda assim, que houve um golpe dentro da democracia e que as investigações foram dirigidas para uma prioridade determinada anteriormente. Há, inclusive, uma compreensão internacional de que este é um processo estranho, manipulado. O senhor concorda?

Nesse aspecto, sim. É um processo estranho. O grupo vencedor, ou até o momento vencedor, é tão ou mais corrupto quanto o que foi destituído.

 

Mas o governo do PT permitiu que o Ministério Público e a PF trabalhassem com autonomia e fizessem o que fizeram…

Sem dúvida, Isso é um mérito do Lula e da Dilma. Sempre dá para atrapalhar. Assim como não podemos deixar de reconhecer o mérito que os governos do PT tiveram para o surgimento de um cenário de maior justiça social. Houve uma política de transferência de renda, ou redistribuição, lá como queiram chamar. Houve muitas falhas, muitos insucessos, mas com muito mais sucesso do que insucesso. Mas, ao mesmo tempo, o preço disso foi muito alto. A pessoa quer colocar o filho no colégio mais caro, na melhor escola de Judô, no melhor curso de inglês. Então, o governo começa a tirar algumas coisas… E, claramente, houve uma manipulação eleitoral enorme. A campanha da Dilma para o segundo mandato foi um estelionato eleitoral, uma fraude como o Sarney fez na esteira do Plano Cruzado. Eu pergunto: por que o mensalão não deu em nada? Porque a economia estava ótima. A Lava Jato encontrou um cenário econômico em franca deterioração. A barriga determina quase tudo.

 

Este, portanto, não é um momento propício para as Forças Armadas, ao menos, buscarem um protagonismo político?

Não! O militar não está envolvido com política, isso é muito claro. Recentemente, em uma aula na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais, o General Vilas Boas disse: “Será que não tem um capitão que vai me perguntar se essa não é a hora de voltarmos ao Poder? Já que ninguém perguntou, eu respondo mesmo assim: Não! A sociedade não quer mais um tutor.”. Esse é o pensamento, repito. Agora, é claro que os militares desejam maior representação, querem ter um assento próximo ao presidente da República. Eu acho que o Temer tem essa visão. E o que ele quer ter e o que qualquer presidente quer ter ao seu lado: o poder armado é o poder. As Forças Armadas, por sua vez, não podem se sentir desprestigiadas. Não queremos nada além do que ocupar o espaço que é nosso por direito e por dever.

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