E-mails VAZ@DOS

E-mails VAZ@DOS

Wanderley Guilherme dos Santos, cientista político

 

Para: lc.com
Enviada em: domingo, 17 de setembro de 2006, 19:12
Assunto: devagar

meu corpo escorregadio ao longo do teu corpo foi um rio fluente, hoje imóvel pelo encanto da margem a que aportou; meu corpo temperado pelo corpo próximo, tão longe, em cuja pele de cetim se enrola, já não é mais um corpo à parte, nem rio que não flui, mas um espectro de sombra que se intromete em teu corpo e o agasalha com mãos dedicadas; ao virar-se, teu corpo me embrulha e guarda entre os seios, para sempre.
Para: lc.com
Enviada em: domingo, 17 de setembro de 2006, 22:28
Assunto: particularmente amoroso

entre a voz que cicia e geme se interpõe um breve instante em que a leve língua, antes em repouso, pousa um sopro de desejo entre os lábios verticais, os abre e colhe o botão úmido de devaneio e expectativa. qual o devaneio, quanta a expectativa da mulher querida?
Para: lc.com
Enviada em: sexta-feira, 22 de setembro de 2006, 01:55
Assunto: surpresa

a cada dia, e noite, de nuances de voz e de riso, de modo de falar e de escrever, de sugerir e, nem sempre, anunciar; seduz como se não, arisca quando quer, exposta com pudor, suave com tesão; doce sem melado, promessa contida, fábula real, corpo de princesa, herdeira sensual, recato que é convite, aviso de cautela, hóspede à vontade, portal de segredos, caixinha de música, visita noturna, entrega total, tesouro guardado, nas coxas, nos seios, nos lábios, nas costas, em tudo não dito, em silêncio, ao ouvido das ondas do mar, desmaiando nas margens do sexo ardente, somente entreaberto ao feliz escolhido. quando será, quando?
Para: lc.com
Enviada em: sábado, 23 de setembro de 2006, 02:08
Assunto: translúcida

embora os olhos fechados pelo sono, eu vejo teu olhar; embora o silêncio dos lábios cerrados, eu vejo o teu sorriso; embora a estátua da garganta, eu ouço tua voz; embora os braços cruzados sobre o peito, eu vejo teus seios.
Para: lc.com
Enviada em: quarta-feira, 4 de outubro de 2006, 00:47
Assunto: desprezo

despediu-se cedo, desapareceu, deixou-me estirado à beira da calçada, tossindo, cheio de dores, nariz escorrendo, praticamente morto, cercado por populares apreciando a cena; falou por falar que ia fazer um chá, sem saber se eu gosto ou não, esqueceu o assunto, mandou-se aos desfiles, quem sabe coquetéis, nem compareceu ao sonho programado onde, juntinhos, pintam e bordam sob a guarda de ciganas alcoviteiras; fiquei sozinho no sonho a ver navios, mesmo gôndolas vazias, fazendo água, nadando e mergulhando a ver se achava o anjo fugitivo, paradeiro incerto, telefone mudo, endereço desconhecido, não mora mais aqui nem deixou indicação da nova residência, um deus nos acuda, que terá havido, talvez sequestrada, ou pegou carona em alguma motoca da madrugada, zanzando ao acaso, seguindo o imprevisto, conforme é da lua, quem sabe nem venha em novembro deste ano, quem sabe só em junho de 2007, para as festas juninas, caipiras, suburbanas. por onde andará esse anjo esquisito, cheio de caprichos e de boca tão bela? por onde andará esse anjo moleque, brincando de pique-esconde com seu namorado? por onde andará neste exato minuto, quando o seu enfeitiçado adorador, pierrot apaixonado, dá cabo da vida tomando inteirinho um vidro de sorine infantil?
Para: lc.com
Enviada em: quinta-feira, 5 de outubro de 2006, 00:58
Assunto: perspectivas

a flor mostrou-se de lado, o sorriso escorregando pelos olhos, olhos enormes de quem consome toda a beleza transeunte, e a restitui com sons, palavras, gestos codificados. é indispensável aprender os gestos, o riso espontâneo e desarmante, mas os gestos, contidos quando necessário, discretos por autocontrole, econômicos. um dia eu vou tomar essa flor em meus dedos, fazer de suas pétalas, gemidos, avivar de desejo as suas cores, virá-la pelo avesso e atravessá-la de luz. um dia eu vou tomá-la em meus lábios e deixá-la úmida de orvalhos inéditos, nunca derramados antes, grávida da minha língua peregrina, exausta da excursão em seu corpo florido, aberto em dois, à frente e em curva ajoelhada. um dia dessa flor surgirá a fêmea possessiva e dócil, dominadora e entregue, virgem devassa.
Para: lc.com
Enviada em: terça-feira, 10 de outubro de 2006, 01:48
Assunto: dedicatória

o mais difícil é descobrir o que dedicar; quem dedica é conhecido, eu; a dedicada também, você; mas o que dedicar? não vale recorrer aos poemas preferidos, às imagens conhecidas, aos doces da infância, às sessões de cinema da adolescência, ao primeiro namoro, à paixão que parecia imortal, nem mesmo à primeira sincera saudade; não vale pedir ajuda aos sonhos que não podem mais, aos futuros já passados, aos verbos no condicional, nem aos adjetivos proparoxítonos; não vale vidente, cigana, mágico, bruxa ou sobrenatural; não vale nada que está nesse mundo nem tudo que está em outros mundos; e depois da fronteira do nada, também não vale o que fica além; não vale o princípio do tempo, nem o antes do tempo, nem o anteontem do tempo. Haverá de ser algo assim, incapaz de ser dito, jamais visto por alguém, de som desconhecido e fora do tempo; algo que só a quem é oferecido será capaz de entender, invisível para os olhos do mundo, intocável por quem quer que seja senão pela destinatária; algo único que, de tão único, ninguém sabe que existe (,) só você: essa é a minha dedicatória ao anjo.
Para: lc.com
Enviada em: quinta-feira, 12 de outubro de 2006, 23:36
Assunto: imagens das palavras

até hoje eram somente as palavras, os sorrisos insinuados e o riso aberto. hoje, as palavras criaram boca, os sorrisos cresceram olhos e o riso aberto um rosto que se expressa em cada partícula da pele. até hoje eram somente as palavras, umas depois das outras, frases, sem cor, ainda que com sentimento e paixão. hoje, as palavras começaram a trazer o interior para a exposição ao meu olhar. temerosas, as palavras despidas não despiam por inteiro o que diziam. as palavras se adiantaram, ansiosas, “vem dormir comigo”, e elas próprias ficarão acordadas aqui comigo que não as deixarei dormir e as acariciarei. tomarei o corpo das palavras e o despirei, vou beijá-las todas e por toda parte, vou abraçá-las e as vou engolir, fazendo-as minhas palavras: “vem dormir comigo”. as palavras ficarão entre as minhas pernas e entre as tuas pernas, e as minhas pernas e as tuas pernas trocarão palavras nuas, rubras de tesão. quando a manhã vier, enorme quantidade de palavras de amor estarão adormecidas, exaustas, espalhadas pelo teu corpo e pelo meu corpo. palavras, agora, sem imagem e sem som, voltadas cada qual para seu próprio sonho, o sonho das palavras, cheios de palavras que nunca ninguém escutou.
Para: lc.com
Enviada em: terça-feira, 17 de outubro de 2006, 01:34
Assunto: estrelas

meu anjo, ao prazer de fumar a madrugada de um charuto, ao som abafado de um clarinete mozartiano, enquanto o teto estranhamente se move e faz desenhos de modigliani (entre eles “a menina azul”), será acrescentado do prazer de voltar para a cama, que não é mais cama, saveiro, barcarola, cujo ventre me recebe e embala, com ondulações de quadril e algemas de pernas; o lençol é um véu que a nada cobre; o travesseiro, braços buliçosos, e o sono um despertar permanente assim como a vigília é um sonho sem sombras; ali, por entre os seios estará meu cansaço arrependido do tempo consumido em vão; ali, por entre as pernas, estarão o meu segredo e o teu, mutuamente revelados e mutuamente guardados a sete chaves; nada, ninguém, nunca, saberá das palavras e dos gestos, dos prazeres e desmaios que ali se geram e ali se consomem – e todos se perguntarão porque o nosso amanhã é sempre um madrigal.
Para: lc.com
Enviada em: quarta-feira, 18 de outubro de 2006, 00:16
Assunto: historiografia

uma história que começa pelo meio e anda para trás tem uma relação esquisita com o tempo. uma história cujos personagens, sem nada saber antecipadamente, fazem do universo metafórico a linguagem normal do cotidiano; uma história em que a ação quase que precede a aposta, vem antes do argumento e não escandaliza; uma história em que o cuidado e atenção são máximos, a sensualidade uma premissa e a ternura uma condição de sobrevivência; uma história sem tarja de segurança ou rede protetora; uma história assim só podia se passar assim com as pessoas assim.
Para: lc.com
Enviada em: sexta-feira, 20 de outubro de 2006, 04:06
Assunto: brincadeirinha

um anjo pós-eleitoral
em minha vida
armou um vendaval

de verão
tropical
trazendo em cada mão
uma ilusão
e um castiçal
dispostos bem ou mal
no coração
do animal
que o tem tanto querida

o coração
agora uma ferida
sangrou lágrimas de sal
até que o anjo temporal
sorveu-as como a uma bebida
e se entregou à mão
do coração
do animal

Para: lc.com
Enviada em: terça-feira, 24 de outubro de 2006, 01:09
Assunto: comunhão

é esta com certeza a palavra certa. para o momento em que eu beba o vinho em tua pele, o líquido de teu corpo, a saliva de tua boca; é esta a palavra exata, para o encontro das línguas como vulcões invertidos, para a união dos sexos perplexos, para os abraços imortais; é esta a palavra sacramental, bíblica, mágica. esta é a palavra a ser dita “em feitio de oração”.

Para: lc.com
Enviada em: quarta-feira, 25 de outubro de 2006, 01:14
Assunto: assim como assim

assim como as espirais para a linha reta, assim como o risco para o asfalto, assim como a queda para a levitação, assim como o líquido para as borboletas, assim como a farsa para a história, assim como o cálice, ou como a flanela, ou como o sintoma, ou como o pórtico, o emblema, a fantasmagoria, o acetinado, a fábula, o coreto.
assim como o a, e, i, o, u; assim como os fenícios, a espátula, a garganta, o dorso de um cavalo, a esfinge, o cântico dos cânticos, a enxada, a bateia, a lavra, a pepita, a balança, o peso, a joia, o embornal.
assim como você, de costas, de perfil, de bruços, de frente, de mal, de bem, de ontem, anteontem, de hoje, de amanhã, de sempre;
tudo faz sentido. por uma única razão. um doce para quem adivinhar.

Para: lc.com
Enviada em: sexta-feira, 27 de outubro de 2006, 01:46
Assunto: tempo de sobra

cabem em uma semana todas as ansiedades, expectativas, emoções baratas, planos fabulosos; cabem em uma semana todo o ex-tempo de espera, o tempo corrido, o tempo não para, o tempo de sobra; cabem em uma semana a calma, o ver o tempo passar, o não fazer nada, o fazer tudo, o deixa que eu chuto, o faz que vai, mas não vai, o até amanhã se deus quiser, o vai nessa que é tua, o vem de lá aquele abraço, o mamar no gato você não quer, o a mão que afaga é a mesma que apedreja, o fazer amor por telepatia, por telefone, por telegrama, por telemania, por telesena, televídeo, telesperona, telível, telecoteco; cabem em uma semana a saia rodada, a blusa de zíper, a calcinha de renda, a meia preta, o sapato alto, o colar, a pulseira; cabem em uma semana o próximo capítulo, o epílogo e o posfácio; cabem a bíblia e o Zé Dirceu, a Marisa Monte e o Zeca Pagodinho, o Antonio Conselheiro e o próprio Euclides da Cunha. só não cabem em uma semana nem em um milhão de semanas este afeto e este açúcar.

Para: lc.com
Enviada em: terça-feira, 31 de outubro de 2006, 00:19
Assunto: vai-se a antepenúltima pomba

meu anjo sereno, a gente passa por todas as escolas, não é? naturalista, simbolista, realista, parnasiana, romântica, indianista, e por aí vai. são etapas etárias. mas eis que apareceu um anjo no meio do caminho, no meio do caminho apareceu um anjo e agora revivo todas elas no espaço de um só dia. acordo romântico, me agito como um realista, enérgico como um indianista, para virar simbolista e parnasiano ao cair da tarde. à noite, fico gótico ou helênico, dependendo da cor da madrugada. modernista passou do ponto e virou clássico chato, portanto não estaciono muito tempo nessa vaga, que é, aliás, reservada para deficiente emocional. surrealismo é um barato, desde que bem dosado, mas o melhor de tudo é a volta ao arco-íris (que quer dizer “mulher arco-íris”? – no Brasil o simbolismo é conhecido), mistura de todas as escolas e que dá a cada um a oportunidade de inventar a sua. ou inventá-la a dois. eis aqui um convite mulher arco-íris: vamos inventar uma língua, um código, uma ficção, uma hiper-realidade radicalmente novos? – usando, todavia, o mesmo material primitivo dos pés e das mãos, dos cinco sentidos, da chuva e do calor das coxas.

 

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