Do desastre da ortodoxia ao salvamento (de novo) do capitalismo

Fernando Cardim de Carvalho, Economista

 

Quando se encerrava o ano de 1930, no auge de seu prestígio intelectual e político, Keynes começou a escrever o que viria a ser a Teoria Geral do Emprego, Juros e Moeda, seis anos mais tarde, sua obra magna. Naquele mesmo ano de 1930, Keynes havia publicado o que ele acreditava seria sua principal obra, o “Tratado sobre a Moeda”, em que expunha uma versão quase irreconhecível da teoria quantitativa da moeda, pilar do pensamento econômico desde antes mesmo da publicação da “Riqueza das Nações”, de Adam Smith, em 1776. Até 1930, Keynes era um brilhante economista ortodoxo, um dos mais ilustres herdeiros do grande economista britânico Alfred Marshall. Poucos anos antes, em um livro chamado “Tratado sobre Reforma Monetária”, Keynes alargava os horizontes da teoria quantitativa da moeda para incluir o tratamento das taxas de câmbio, e escrevia que a “teoria [quantitativa da moeda] é fundamental. Sua correspondência com os fatos não está aberta à contestação.”

A teoria quantitativa da moeda ainda hoje é um pilar do que se poderia chamar de ortodoxia em economia. Nos seus termos mais essenciais, ela propõe que o valor da moeda (seu poder de compra sobre bens e serviços, ativos etc.) seja proporcional à sua quantidade. Tudo o mais constante, quanto maior o estoque de moeda em existência, menor será seu poder de compra. É nessa proposição simples que se baseiam autores monetaristas, como seu mais ilustre exemplo, Milton Friedman, para defender o controle do estoque de moeda como único instrumento eficaz para combater pressões inflacionárias.

Pela teoria quantitativa, aumentar o estoque de moeda, prática comum de bancos centrais em economias modernas quando os mercados se desaquecem e o desemprego sobe, é inútil, porque criar mais moeda significa apenas criar mais poder de compra, sem efeitos reais sobre a produção e o emprego. Esses últimos dependem de outras coisas que não a quantidade de moeda existente e por isso a política monetária é inútil, senão perigosa mesmo.

Keynes subscrevia uma versão mais sofisticada (a versão marshalliana) dessa teoria até 1930. A teoria quantitativa, afinal, só explicava o comportamento dos preços. A produção e o emprego dependiam de outras variáveis, como a vontade de consumir, a disposição para sacrificar o consumo presente em favor da poupança e do investimento para poder consumir mais no futuro, e a disposição de trabalhar. Como a ortodoxia em economia se baseia no suposto de insaciabilidade (o desejo de consumidores por consumir não tem limites), a produção sempre se realizaria no seu limite. A única razão para não consumir no limite do possível seria o impulso de prover para o futuro, mas isso não criaria problemas para a economia, porque prover para o futuro significa empregar parte da capacidade de produção de uma economia na criação de meios para o consumo futuro, o que significa que a renda gerada por uma sociedade só não seria inteiramente consumida quando houvesse a vontade de investir parte dela para provisão de consumo futuro. Nunca haveria capacidade produtiva não aproveitada: ela sempre seria usada para um fim ou para outro. Essa noção ficou conhecida na literatura como Lei de Say, embora ela se deva muito mais a David Ricardo que ao próprio Say.

A Lei de Say permanece nos dias de hoje como um pilar da ortodoxia, agora sob novo nome, taxa natural de desemprego, a noção de que o nível de desemprego (e, portanto, o nível de atividades) depende da disposição dos trabalhadores em aceitar os empregos disponíveis aos salários reais de equilíbrio (isto é, que corresponda ao objetivo das empresas em maximizar seus lucros).

Uma ideia como essa parece extraterrestre atualmente (exceto para economistas), quando o desemprego nas economias mais desenvolvidas varia dos nove e poucos por cento nos Estados Unidos aos 20% na Espanha. Ela também pareceu extraterrestre a Keynes durante a depressão dos anos 1930 (que a Inglaterra viveu antecipadamente, desde a segunda metade dos anos vinte). E foi a partir da percepção de que a combinação teoria quantitativa da moeda/Lei de Say não descrevia os aspectos fundamentais da operação de economias capitalistas modernas que Keynes escreveu sua Teoria Geral (TG).

A intenção de Keynes, com a TG, era explicar o funcionamento do que ele chamou de economia monetária de produção ou economia empresarial. Esta é uma economia em que atuam não apenas famílias e consumidores, mas também, e principalmente, porque a elas cabem as decisões de produção e investimento, empresas. Keynes insistia que empresas não deveriam ser vistas meramente como arranjos produtivos, mas principalmente como instituições cujo objetivo principal era fazer dinheiro. Empresas modernas têm dinheiro como insumo e dinheiro como produto, e seu objetivo é concluir seu processo produtivo com mais dinheiro do que começou. Produzir bens e serviços era o modo como ganhavam dinheiro. O processo de produção é a atividade das empresas porque é isso que lhes permite ter lucros. A empresa eficiente não é a empresa que produz melhor ou a que tem os métodos de produção mais avançados, mas a que dá mais lucros.

A empresa postulada por Keynes, portanto, não produz porque ela consume insaciavelmente, ou porque seus proprietários são consumidores insaciáveis. Ela produz porque espera poder vender, com lucro, sua produção. Na verdade, propõe Keynes, ela produz quando ela espera poder vender sua produção com lucro. É nesse sentido que a demanda passa a jogar um papel essencial na teoria Keynesiana, papel que ela não joga na ortodoxia que se apoia na hipótese de que, sendo insaciáveis, consumidores estarão sempre prontos a comprar o que for produzido, seja para consumo presente, seja para prover consumo no futuro.

Por outro lado, Keynes rompe também com a teoria quantitativa da moeda, porque a moeda deixa de ser vista apenas como um meio de pagamento. Quando o objetivo da atividade é lucro, a produção passa a depender da expectativa de existência de demanda solvável, isto é, da existência de compradores com poder de compra na mão dispostos a usá-lo na aquisição de bens e serviços. Mas por que alguém poderia ter dinheiro na mão e não estar disposto a gastá-lo?

 

Keynes expôs, retoricamente, essa questão, em uma réplica aos críticos da TG. Sua resposta enfatiza uma importante característica de sua visão de mundo: a incerteza fundamental que cerca as decisões econômicas (e não apenas as econômicas, naturalmente), “o fato de que nosso conhecimento do futuro é flutuante, vago e incerto”. Essa incerteza é inquantificável, porque não é possível sequer especificar os eventos que poderão ocorrer no futuro, em grande parte porque muitos desses eventos só se tornarão possíveis dependendo das ações que os próprios indivíduos decidirem no presente. O futuro está para ser criado pela ação de cada um, interagindo com as ações decididas por todos os outros membros da comunidade.

Incerteza significa que o futuro pode ser melhor do que esperamos, mas também pode ser muito pior. Por essa razão, é natural que tentemos nos defender hoje das ameaças que só no futuro saberemos quais são. Se for possível, compramos seguros. Se não for possível especificar eventos e, assim, comprar seguros, propõe Keynes, tentamos acumular ativos líquidos. Nada é mais líquido do que a própria moeda em uma economia moderna. Assim, quando as incertezas se tornam agudas, cresce o que Keynes chamou de preferência pela liquidez. Mas quando cresce a preferência pela liquidez, cai a demanda solvável e a economia passa a sofrer de uma insuficiência de demanda efetiva. Se a demanda é insuficiente, as empresas reduzem a produção, o desemprego sobe e as piores expectativas acabam por se confirmar. O medo do futuro realimenta a preferência pela liquidez, levando a economia à contração. Se esta for suficientemente profunda, a economia pode viver uma depressão, permanecendo nela por períodos, ao que parece pela (felizmente infrequente) experiência histórica, que podem ser muito longos.

Não é um acidente que esse tipo de abordagem tenha sido redescoberto quando o mundo atravessa a maior crise econômica desde os anos 1930. Não apenas porque essa é uma crise de grande profundidade, mas também porque ela explicitou mecanismos de operação que a ortodoxia simplesmente ignorou nas últimas décadas. Que fim levaram os Lucas da vida, que defendiam a tendência espontânea da economia a retornar à sua taxa natural de desemprego? Onde andam os autointitulados Novos Clássicos que diziam que a expansão monetária é necessariamente inflacionária porque, afinal, só o que estaria sendo criado seria poder de compra? Incapazes de entender como funciona uma economia empresarial moderna, esses autores foram surpreendidos pela crise e se limitam a repetir, sem despertar grande interesse, os argumentos baseados na Lei de Say e na teoria quantitativa da moeda.

A incompreensão de como funciona uma economia empresarial é bem ilustrada em duas plataformas caras à ortodoxia. Por um lado, a crítica à política fiscal ativista em que, incrivelmente, ainda se levanta o fantasma do crowding out, isto é, da possibilidade de que o gasto público esteja tomando os recursos financeiros que seriam utilizados, alternativamente, por investidores privados. Não há qualquer evidência de que isso esteja ocorrendo, antes pelo contrário: por exemplo, as taxas de juros, que deveriam estar altas se houvesse um racionamento da oferta de financiamentos, mantêm-se consistentemente baixas em todo o período.

 

Por outro lado, todos os países parecem ver no aumento da sua competitividade a saída para a crise, retomando o nível de atividades. Não é preciso pensar muito tempo para perceber que este é, no entanto, um jogo de soma zero. Espera-se que a competitividade de um país cresça principalmente pela redução do custo do trabalho, reduzindo-se salários e cortando custos indiretos, ligados ao financiamento da segurança social ou à estabilidade do emprego. Mas quando um país se expande por se tornar mais “competitivo”, ele simplesmente está empurrando um competidor para fora do campo, exportando seu desemprego, como se dizia na década de 1930. Todas essas propostas de política simplesmente ignoram que o primeiro requisito para a prosperidade de uma economia empresarial é a existência de demanda solvável para o que ela é capaz de produzir.

A maior evidência da falência da ortodoxia é ilustrada, porém, pelo completo desinteresse que os oponentes das políticas keynesianas têm demonstrado por ela no presente. O Tea Party nos Estados Unidos não se apoia na ortodoxia econômica, preferindo privilegiar uma visão semirreligiosa da natureza demoníaca do Estado. Menos delirante, o conservadorismo europeu-ocidental se volta para preocupações mais imediatas, como os meios pelos quais se pode convencer instituições financeiras a continuar comprando títulos públicos. Compreender a economia, no entanto, mais uma vez, exige ler Keynes e seus continuadores. •

 

O articulista é professor titular da UFRJ e consultor do Instituto Brasileiro de Análises Econômicas e Sociais (Ibase).

 

NOTAS DE RODAPÉ

 

  1. J.M. Keynes, A Tract on Monetary Reform, Amherst (NY): Prometheus Books, 2000, p. 74.
  2. Keynes foi hostil a Marx, autor que parecia conhecer apenas por fontes indiretas, por toda sua vida. A única vez em que manifestou simpatia pelas ideias de Marx foi exatamente em razão dessa concepção de empresa (a que Marx se referiria, é claro, como capital). Cf. as referências de Keynes a Marx, entre os rascunhos da Teoria Geral incluídos no volume 29 de The Collected Writings of John Maynard Keynes, p. 81.
  3. Em um artigo chamado The General Theory of Employment, publicado originalmente em 1937, e que está incluído no volume 14 dos seus Collected Writings.
  4. Collected Writings, vol. 14, p. 113.
  5. Um professor da Universidade de Chicago, Casey Mulligan, defendeu em um blog patrocinado pelo New York Times, em 17 de agosto, que o desemprego norte-americano poderia ser amenizado pela redução de benefícios sociais que incentivam a recusa ao trabalho. Este é um exemplo de raciocínio baseado na hipótese da taxa natural de desemprego mencionada antes. Veja-se http://economix.blogs.nytimes.com/2011/08/17/exceptions-to-keynesian-theory/?ref=business.

 

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