Deus morreu? – Contribuições para um debate de meio século

Deus morreu? – Contribuições para um debate de meio século

Gláucio Ary Dillon Soares

 

Uma teologia sem Deus. Esse foi o tema de matéria de capa, publicada há meio século, no dia 8 de abril de 1966, no Times Magazine. A matéria falava de um Deus “escondido”. Haveria muitos teólogos que aventavam essa possibilidade que contradiz o substantivo. Deu origem a um intenso debate que já dura meio século.

A capa do artigo, talvez mais do que o conteúdo, provocou uma reação furiosa. A capa manteve a margem vermelha tradicional sobre um fundo negro, a primeira sem foto nem gráfico, só palavras. No centro, em letras grandes e vermelhas, a expressão: “Is God Dead?”.1 Há mais do que uma coincidência entre esse título e a expressão de Friedrich Nietzsche, “Gott ist tot”.

O “zeitgeist” americano foi usado para explicar a publicação e o movimento que fundamentou o artigo. A geração que nasceu logo após a Segunda Guerra estava na universidade, a revolução sexual estava em pleno curso e os movimentos políticos de resistência à guerra do Vietnam eclodiam nas universidades. Muitos jovens americanos repudiaram a política e as instituições do seu próprio país.

O excelente jornal The Huffington Post, em 2014, reiterou que o artigo do Times não era uma previsão do fim ou da morte de Deus, nem defendia essa postura como desejável.2

Não obstante, como notou William Grimes, comentarista do The New York Times, essa edição foi o maior sucesso de vendas durante 20 anos, e provocou 3.500 cartas ao editor, a maioria raivosas.

Em 25/2/2016, o jornal USA Today também reviu o tema, sem esquecer a contradição que se refletia nos surveys: 98% dos americanos diziam crer em Deus e 85%, no Céu, mas apenas um em quatro se proclamava profundamente religioso.

Uma virtude da experiência de viver em culturas diferentes e ter acesso a idiomas é perceber que algumas características consideradas típicas, culturalmente exclusivas por analistas locais, podiam ser detectadas em várias culturas. Portanto, não são específicas.

O empreendimento da Google chamado Google Books e a sua disponibilização através do Ngram viewer ensejaram uma comparação entre diferentes idiomas, regiões mundiais, culturas e países.

Como pesquisar, empiricamente, as relações entre conceitos tão amplos quanto religião, espírito e a felicidade? Como pesquisar as transformações dessas relações através dos séculos?

Uma possibilidade surgiu na minha mente durante uma apresentação TED sobre “culturomics”,3 a que assisti há alguns anos, cuja apresentação mais “acadêmica” está disponível em Science. Ela despertou meu interesse pela base de dados que usaram, um projeto novo chamado Google Books.4 Posteriormente, usei Ngrams para estudar o declínio do Marxismo5 e, também, a censura. No que concerne à religião, o Ngram provocou importantes iniciativas secundárias, de cunho metodológico: talvez a mais importante seja a capitaneada por Finke, McClure e Nathaniel Porter que criaram um database vinculado à Association of Religion Data Archives (ARDA) na Penn State University.6 David Briggs, escritor associado com a ARDA, publicou em blog um artigo argumentando que Deus não morreu. Usou os dados do Ngram Viewer para demonstrar o declínio no uso das palavras God+Gods ao longo de dois séculos. Publicou no blog. Briggs identificou tendências claras: em 1800, 12 de cada dez mil palavras se referiam a Deus, número que caiu a 1/3 em 2000 (4 em dez mil). Ironicamente, Briggs remeteu o leitor ao sarcasmo de alguns que afirmaram que Deus precisa de um bom marqueteiro, de um bom “relações públicas”.7

Briggs saiu da análise da religião em si, examinando a conduta e a sensação de culpa que muitos jovens sentem, por exercer atividades do mundo de hoje, argumenta que essa culpa, resultado de uma percepção de que “o mundo” os estaria julgando e condenando. Essa percepção os tornaria vulneráveis à depressão, à baixa autoestima, às desordens alimentares e muito mais. Briggs chegou aos benefícios da religião, argumentando que a fé contribui para afugentar ou, pelo menos, minorar a culpa. Mas não qualquer tipo de fé: os que acreditam em um Deus punitivo, prestes a julgar e condenar por qualquer desvio, não se beneficiam psicologicamente da sua fé. Os fiéis que acreditam num Deus que ama, ao contrário, vivem mais felizes. Surgiu em mim a ideia de que existe uma felicidade que muitos encontram através de Deus, através do espírito.8

Mas, comecemos no início: a análise da diminuição da relevância de Deus para os homens, usando como indicador os Ngrams calculados a partir dos Google Books.

Os dados mostram esse declínio?

Em um estudo, usando o Ngram Viewer, para analisar a trajetória das frequências com que o Marxismo e seus conceitos eram usados, ficou claro que o crescimento das teorias marxistas, durante muitas décadas, e o seu subsequente declínio, acarretaram movimentos semelhantes nos seus conceitos. No caso, usei os principais atores, burguesia e proletariado e a relação prevista entre eles, a luta de classes. Os dados mostraram que eles covariaram. Quando uma teoria cresce e se populariza, as subteorias que a compõem e os conceitos que ela usa crescem também. Foi o que aconteceu. Elas também declinaram juntas. A censura a um autor atinge, também, as teorias e conceitos vinculados a ele.

Hipotetizo, isomorficamente, que a secularização não afetou, apenas, a representação das principais religiões cristãs, mas também seus personagens, seus valores, suas virtudes, as definições do que é e do que não é uma digressão, e suas oposições. Assim, os principais atores das religiões cristãs – Deus, Jesus Cristo e o Espírito Santo – teriam acompanhado o declínio das religiões cristãs nos livros.

Na minha leitura, a secularização, impulsada pela urbanização e pela Revolução Industrial, mudou o sistema de valores das populações. Não obstante, a Teoria da Secularização, na minha análise, é insuficiente para explicar a imensa gama de características associadas com a religião e a religiosidade.

Por uma questão de honestidade intelectual, deixo claro que meu objetivo é analisar empiricamente os fenômenos vinculados ao, nesse momento ainda hipotético, declínio da religião e da religiosidade; não é participar do debate descrito no título que, para mim, é um falso debate. Deixo clara a minha posição de que Deus, como o concebo, não teve início nem terá fim. Criou alfa e permanecerá depois de ômega.

 

A presença de Deus, de Jesus Cristo  e do Espírito Santo

Como seria de esperar, a Bíblia, que os adeptos de interpretação literal consideram que é a palavra de Deus, sem tirar nem pôr, reflete o pensamento cristão, no qual Deus está muito presente em 3.995 instâncias, das quais 2.678 no Antigo Testamento e 1.317 no Novo Testamento.

Considerado o salvador, Jesus Cristo é uma figura essencial para as religiões que são definidas pelo seu nome, cristãs. Por isso, figura 219 vezes, todas, como esperado, no Novo Testamento.

Já o Espírito Santo, componente da Santíssima Trindade, surge em 104 menções, nada menos do que 96 no Novo Testamento.

Esquecendo Deus

A secularização abrange vários valores, alguns religiosos e outros não. Não obstante, é importante não esquecer que essa ampla transição embutida no nome “secularização” na sua própria definição histórica implica uma oposição com a religião. Desconfiando do óbvio, devemos perguntar se houve um declínio da religião, particularmente do cristianismo, no Ocidente. Os dados dos Google Books mostram que sim. Começando a análise, vemos que entre 1750 e 2000, houve um claro declínio do Ngram Deus (God e Dios) em dois corpora. Recuei os Ngrams, até 1750, para cobrir um tempo no qual a memória histórica que temos nos informa, com dados de baixa confiabilidade, que a religião e a Igreja eram consideravelmente mais influentes e poderosas do que hoje. Os dados dos Ngrams são consistentes com essa hipótese. Nesses dois corpora há um claro declínio, decresceram paralelamente, mas com muitas variações individuais.

Em 1755, no corpus espanhol, o Ngram Dios atingiu seu nível mais alto (0,0019) de todo o período analisado. Houve uma tendência ao declínio de oito décadas, com o Ngram atingindo, em 1840, 0,00036, 19% do que fora em 1755. Entre 1840 e 1859, quase duas décadas, um novo crescimento, a 0,00061, um aumento de 70%. Não tenho como explicá-lo, podendo se tratar de ruídos estatísticos, mudança nos padrões de publicação ou um breve ressurgimento religioso. Em seguida, novo decréscimo, desta vez moderado, mas duradouro, ao longo de um século e meio. Em 2000, o Ngram Dios baixou à metade do que fora em 1859, sendo de notar que o último meio século (de lá para cá) foi de relativa estabilidade.

Em inglês, houve um declínio de quase quatro décadas, de 1750 (0,0013) até 1788 (0,006). Menos da metade. Não obstante, houve um “religious revival” também de quatro décadas e, em 1829, o Ngram God quase atingiu o nível de 1750; foi seguido de novo decréscimo que durou até cerca de 1935, período a partir do qual se iniciou nova estabilidade. Sintetizando o período como um todo, em 2000, o Ngram (0,0003) era menos de um quarto do que fora em 1750.

O debate “God is dead/God is not dead” se concentrou nos Estados Unidos e tem se focado no que acontece naquele país. Suas explicações e os argumentos usados, a favor e contra, obedeceram a essa concentração. Entretanto, a secularização foi e é um fenômeno mundial, ainda que o timing desse processo tenha variado entre os países. Vimos que o decréscimo aconteceu, também, no corpus espanhol. Também houve declínio em vários outros corpora de origem europeia ocidental. Selecionei outros três países da Europa Ocidental, Alemanha, França e Itália, todos com um passado colonial, com uma virtude importante para esta análise: a produção bibliográfica nos seus respectivos idiomas foi, em grande maioria, escrita e publicada dentro de um só país, dentro da potência colonial.

O que nos revelam os livros publicados no idioma desses importantes países?

  • Que houve uma tendência geral à redução quantitativa da presença de Deus na literatura.
  • Que não foi linear.
  • E que houve uma covariação entre os corpora.

Primeiro, houve um crescimento até meados do século XIX, que durou entre quatro (Alemão) e seis décadas (Francês e Italiano), com variações de corpus para corpus (ápices: 1842, em Alemão; e 1857-8, em Francês e Italiano). Esse período foi seguido de uma queda acelerada, com visível correspondência com a urbanização e a revolução industrial, surgindo uma tendência à estabilidade já no início do século XX, interrompida por uma tendência à alta que se iniciou na Segunda Guerra Mundial e durou alguns anos. No ano 2000, o valor do Ngram Gott equivalia a, apenas, 22% do que fora em 1800; o valor do Ngram Dieu era menos da metade do que alcançara em 1800 (43%) e, finalizando, o Ngram Dio representava, em 2000, 77% do valor de dois séculos antes. Houve queda em todos, mas a magnitude da queda variou muito entre os corpora.

Realçando a importância de eventos políticos sobre as referências a temas religiosos na literatura, vemos, na Figura 3, o “calombo” ao redor da Segunda Guerra Mundial, com um crescimento significativo do onegram Deus em Italiano, Francês e Alemão, particularmente neste último. Nas últimas duas a três décadas, nota-se uma renovação do interesse em Deus nos corpora Italiano e Francês.

A partir dos cinco corpora a queda começa na segunda metade do século XIX e só termina no início da Segunda Guerra Mundial. Em seu conjunto, a análise desses cinco corpora confirma uma tendência multissecular a esquecer Deus na civilização ocidental, que não foi linear e inclui períodos razoavelmente definidos.

 

Esquecendo Cristo: Cristianismo sem Cristo?

É difícil imaginar religiões cristãs (inclusive a católica) sem Cristo. Não obstante, em várias sociedades onde amplos segmentos da população afirmam sua fé cristã, Cristo tem sido esquecido pela literatura. É o observado no corpus “Inglês Americano”. A explicação científica dessa tendência transcende as possibilidades deste trabalho. É possível argumentar que a origem, seja no século XVIII ou XIX, foi artificialmente alta. Essa elevação artificial faria com que os níveis posteriores parecessem muito mais baixos. É, também, possível argumentar que a alfabetização de amplos setores da população, fartamente demonstrada, influenciou a produção literária, o que considero muito provável. Porém, para explicar o esquecimento de Deus teríamos que partir do duvidoso suposto de que as camadas recém-incorporadas ao público leitor eram e são menos religiosas ou, ainda, que os que escreviam livros, talvez como outros artistas, tinham (e têm) valores substancialmente diferentes dos da maioria da população (por exemplo: são menos religiosos) e mudaram “independentemente” no tempo. Se, no mundo moderno, artistas, acadêmicos e intelectuais parecem menos religiosos que a média da população, não tenho como averiguar se mudaram independentemente ao longo desses dois séculos. Há possibilidade de combinar explicações diferentes. O que mostram os dados? Uma clara tendência à redução do uso do bigram Jesus Cristo (Jesus Christ) no decorrer desses dois séculos, na literatura americana. Enfoquei, primeiro, a literatura norte-americana porque foi (e é) nos Estados Unidos onde o debate sobre a “morte” de Deus é mais acirrado.9

Com oscilações, como seria de esperar com dados desta natureza, o bigrama Jesus Christ atingiu seu ponto mais alto em 1809 e o mais baixo 131 anos depois, em 1939/40, quando se iniciou a Segunda Guerra Mundial. O bigrama Jesus Christ tinha um valor 14,7 vezes maior em 1809 do que em 1939/40. É uma diferença muito grande. Esqueceram Jesus Cristo.

Será esse declínio um fenômeno típico da língua inglesa, particularmente do seu corpus Americano?

O exame de outros três corpora mostra que não, que esse declínio também se observa neles. Porém, a primeira inspeção desses corpora sugeriu uma reanálise do corpus Inglês Americano. De fato, nos dez anos de 1800 a 1809, inclusive, houve um crescimento acelerado do valor do bigrama Jesus Christ. Foi somente a partir de 1810 que se observa o declínio das referências e do valor do bigrama. Essas duas oscilações, o crescimento no início do século e o declínio posterior ficam evidentes quando usamos os dados dos quatro corpora e os organizamos em um gráfico empilhado.

O corpus francês foi analisado separadamente por ter um forte crescimento recente, que o diferencia dos demais: houve um aumento de pouco mais de uma década, até 1812, quando atingiu 0,0001, seguido de um decréscimo moderado até 1955, quando o valor do bigram baixou a um quinto do que atingira em 1812, seguido de um crescimento acelerado até 2006, quando atingiu 0,0002, o dobro do valor de 1812. É um perfil diferente.

O gráfico relativo aos quatro corpora nos mostra que, para o conjunto das observações, houve um crescimento inicial com a duração de um quarto de século, seguido de um declínio de mais de um século, cerca de 120 anos. Entre 1941 e 1947 observa-se

um crescimento, que é devido a uma “explosão” no corpus alemão, para a qual não tenho explicação. Uma possibilidade é o choque causado pelas primeiras grandes derrotas alemãs na II Guerra Mundial.

E o renascimento recente que observamos em outros Ngrams?

Há uma modesta tendência ao crescimento nas últimas três décadas até 2008, último ano para o qual há dados. Esse crescimento é de magnitude muito menor do que o declínio. Continuou depois de 2008? Não sabemos.

 

Esquecendo e relembrando o Espírito Santo

O Espírito Santo é parte da Santíssima Trindade, com particular presença no Novo Testamento, onde surge 96 das 104 vezes (ou 92%) em que é mencionado na Bíblia. Os dados sugerem que a sua presença na literatura é relativamente menor do que na Bíblia e que cresce com as referências ao Novo Testamento. As referências ao Espírito Santo (Holy Ghost+Holy Spirit) dobraram de 1800 a 1830-45 no corpus inglês americano, um período de cerca de quinze anos, após o qual houve uma queda que durou, aproximadamente, um século. As tendências no corpus Inglês Britânico foram semelhantes: crescimento até 1842 (0,0049%), quando se iniciou uma queda, seguida de recuperação cujo ápice foi em 1864/5, quando atingiu 0,004%, seguida de uma tendência ao declínio de três quartos de século até 1939, quando o nível atingido foi o equivalente a 15% do de 1864/5. A partir dessa data houve variações num nível bem mais baixo do que em 1864/5.

Usando os dois corpora (inglês americano e britânico) juntos, vemos essas tendências com claridade: partindo de 0,0027 em 1800, cresce aceleradamente até 1833, quando atingiu 0,0049 (81% a mais), iniciando nessa data um declínio de um século, até 1934, quando baixou a 0,0007, um sétimo do valor de 1833. Até 2008 houve uma recuperação parcial, a 0,0012.

Não obstante, esse padrão não é semelhante nos demais corpora, nos quais o nível da frequência também varia: é usado com maior frequência em Italiano (idioma falado no Vaticano, sede da Igreja Católica) duas vezes e meia mais do que em inglês que, por sua vez, é 57% mais frequente do que em francês, país secularizado, mas formalmente com maioria católica, e quatorze vezes mais frequente do que em alemão, país de maioria protestante.

Em italiano, as referências ao Spirito Santo cresceram até 1853, quando atingiram 0,0011%, valor mais alto do século XIX, e baixaram muito de 1854 a 1919 quando representaram, apenas, 27% do que foram na primeira data. Posteriormente, cresceram até o ápice de toda a série, atingido em 2001.

Em espanhol, o início do século XIX surpreendeu um processo que alcançou seu ápice (0,0043%) poucos anos antes, em 1895-6. Houve uma tendência de queda de mais de um século – cerca de doze décadas – até os anos finais da Primeira Guerra Mundial, quando atingiu seu ponto mais baixo (0,00044%), perto de dez por cento do que atingiu no ápice. Houve uma tendência moderada ao crescimento que perdurou por mais de nove décadas, até 2001, ano em que as referências atingiram um nível que era mais do que o dobro do de 1917. Foram três movimentos diferentes: crescimento durante a segunda metade do século XVIII, decréscimo prolongado até 1917/8/9 e uma moderada recuperação que já dura quase um século.

O crescimento “recente” das referências ao Espírito Santo se correlaciona com o crescimento das referências ao Novo Testamento. Essa associação se observa em todos os corpora com que trabalhamos.

No corpus francês, o valor do Ngram se situou num nível baixo, entre 0,00005% e 0,0001%, durante todo o século XIX e as primeiras seis décadas do século XX, quando iniciaram uma rápida recuperação, atingindo 0,0003% em 2007 – o triplo do que fora em 1964.

As menções ao Heiliger Geist no corpus Alemão se situam num nível numericamente inferior aos demais. As variações foram menos suaves, a despeito do amplo smoothing de dez anos, mas também se observa um crescimento muito rápido de 1940 a 1946, período que encapsula boa parte da Segunda Guerra Mundial, um declínio até meados da década de 80, e novo crescimento a partir daquela data, particularmente no período posterior à queda do Muro de Berlim, atingindo em 2002-5 seu ápice.

A relação entre acontecimentos e processos políticos e o valor de vários Ngrams religiosos é claro. As guerras mundiais, a revolução soviética, o nazismo, a queda do Muro de Berlim e a queda dos regimes comunistas na Europa tiveram influência. Exemplificando: o bigrama Святой Дух só cresceu no corpus russo a partir de março de 1985, época em que Mikhail S. Gorbachev se tornou o Secretário Geral do Partido Comunista da União Soviética e iniciou importantes reformas, particularmente as chamadas de “perestroika” (перестройка) e “glasnost” (Гласность).

Trabalho numa pesquisa mais ampla, da qual esse artigo é parte, que não se limita a examinar a secularização através dos livros. Ela trata de mudanças culturais a longo prazo, particularmente nos caminhos que as pessoas buscam para serem felizes. Há tempos penso sobre como pesquisar a felicidade, suas formas, intensidade, benefícios e duração.

No Brasil, o estudo da felicidade foi relegado à quase irrelevância, em contraste, por exemplo, com a Holanda, onde há um centro dedicado aos estudos sobre a felicidade.10

Há lembranças que ficaram grudadas na minha memória. A Declaração de Independência dos Estados Unidos coloca a “pursuit of happiness” como um direito inalienável. Alguns comentaristas distinguem entre dois tipos básicos de felicidade:

1 – Felicidade através de pessoas

2 – Felicidade através de coisas

Creio que poderíamos acrescentar uma terceira via, a felicidade através do espírito, do nosso espírito, usualmente, mas não obrigatoriamente, associada a uma religião. Creio que essa via foi muito mais importante do que é hoje.

Do lado religioso, em João 10:10 a vida plena é prometida. É uma promessa que, como vários temas religiosos, foi sendo esquecida. Hoje, muitos têm dificuldade em conceber o que seria a felicidade através do espírito. É uma sensação de plenitude que poucos experimentam. Porém, minhas orientações teóricas propõem que houve mais do que um declínio da religião e um crescimento da secularização e que precisamos ir além da Teoria da Secularização, para analisar todas as nuances incluídas no conceito de felicidade. Na minha percepção, houve um crescimento do “capitalismo do espírito”, que resultou na mudança dos caminhos usados na busca da felicidade. A busca da felicidade através do espírito e através de pessoas perdeu espaço para a busca da felicidade através de coisas. As sociedades contemporâneas redirecionaram a busca da felicidade para objetos e serviços, a felicidade através de coisas.11 Em uma brincadeira séria com palavras, passo de uma expressão acadêmica consagrada, o “espírito do capitalismo”, para uma noção menos desenvolvida, a do capitalismo do espírito. Inspirado por outra noção, a da “vida simples”, desenvolvida pelo padre Aírton Freire, que contrasta com a propensão a acumular dinheiro, coisas, bens e serviços, de maneira parcialmente independente de seu uso ou utilidade, o que configura a noção de capitalismo do espírito. Ter por ter. Encontrei no Pequeno Príncipe a imagem que mais se aproximava da minha noção de capitalismo do espírito, devido às suas motivações irracionais, sobretudo a irracionalidade do consumismo sem fim: o habitante do quarto planeta, um homem de negócios que não fazia outra coisa senão contar estrelas; além disso achava que eram todas dele. Quando, indagado pelo pequeno príncipe, pensou sobre o que faria quando terminasse de contar, afirmou que começaria a contar outra vez, revelando a voracidade insaciável de possuir e acumular… estrelas. Substitua estrelas por coisas e serviços e temos o capitalismo do espírito.

A mudança nos caminhos percorridos na busca da felicidade é histórica, a longo prazo, e se reflete no crescente uso dos meios materiais para essa busca, no crescente espaço que eles ocupam no nosso cotidiano e na nossa consciência coletiva. Do lado negativo, o abandono progressivo da região do espiritual e do papel das pessoas e das relações com elas. Essa mudança tem consequências: o relacionamento com o outro, com a alteridade, deteriora entropicamente. De relações afetivas, nas que expressamos e recebemos emoções, inclusive as com carga negativa, mas com um suposto de continuidade temporal (se esperava que essas relações durassem), passamos a relações funcionais, instrumentais, relações para atingir um objetivo qualquer, desde o sucesso em alguma iniciativa política ou empresarial até um orgasmo. Não são relações em si, são “relações para”, condicionadas a uma finalidade exterior a elas. São instrumentais. Atingido o objetivo, a raison d’être da relação, ela murcha, perde significado e importância. Com isso, duram menos e são menos catárticas. As relações funcionais de curta duração, entre pessoas, mesmo em número maior, são importantes, mas não substituem as relações em si e para si, que são seu próprio objeto, catárticas. Deixam um vazio.12

Mas esse é o objeto de outras publicações.

 

O autor é professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP-UERJ)

soares.glaucio@gmail.com

 

NOTAS DE RODAPÉ

  1. A capa foi incluída pelo L.A. Times na lista das dez mais impactantes: http://www.latimes.com/entertainment/la-et-10magazinecovers14-july14-pg-photogallery.html
  2. Revisiting Time’s ‘Is God Dead?’ Cover, 21 de Junho de 2014.
  3. Jean-Baptiste Michel e Erez Lieberman Aiden “What we learned from 5 million books”, Filmed July 2011 at TEDxBoston 2011. Ver, também, Culturomics: what can you learn from five million books? Também disponível em ScienceNode.
  4. Jean-Baptiste Michel, Yuan Kui Shen, Aviva P. Aiden, Adrian Veres, Matthew K. Gray, The Google Books Team, Joseph P. Pickett, Dale Hoiberg, Dan Clancy, Peter Norvig, Jon Orwant, Steven Pinker, Martin A. Nowakand e Erez Lieberman Aiden, Quantitative Analysis of Culture Using Millions of Digitized Books em Science 16 Dec 2010: DOI: 10.1126/science.1199644.
  5. Gláucio A. D. Soares, Ascensão e Queda do Marxismo: os dados que

saem dos livros. Revista Insight Inteligência, Rio de Janeiro, ano 15, n.

59, p. 54-62, 10 dez. 2012. 4º trimestre. Versão modificada para publicação. Disponível em: <http://www.insightinteligencia.com.br/59/PDFs/pdf3.pdf>.

  1. Os dados disponíveis para o estudo científico das religiões sofrem de muitas lacunas. A ARDA estimula a melhoria dos dados e das análises, incluindo entre seus working papers vários que merecem leitura cuidadosa.
  2. God Is Not Dead: Google’s Ngram Viewer Reveals Two Centuries of Religious Trends, Huffpost Religion, 07/21/2015 07:31 am ET | Updated Jul 21, 2015.
  3. David Briggs, The Latest ‘God-in-the-bod’ Research: How One Kind of Faith Can Help Young Women — and Men — Take Their Body Image Higher em Huffpost Religion, 02/23/2016 08:10 am ET | Updated Feb 23, 2016.
  4. O uso do bigrama Jesus Cristo foi uma opção necessária devido ao uso de Jesus e de Cristo como nomes próprios de cidadãos comuns e também como exclamações. O bigrama reduz esses erros.
  5. Ver Ruut Veenhoven, nome que associo a essas pesquisas, na Erasmus University, em Rotterdam, Happiness Economics Research Organization, onde foi desenvolvido, inclusive um data base mundial, o World Database of Happiness. Acessar em http://worlddatabaseofhappiness.eur.nl/
  6. Não somente coisas, mas outros sentimentos e emoções não duradouros.
  7. Em conversa, muitas pessoas, homens e mulheres, admitem ter acordado no meio da noite sem saber exatamente quem estava ao seu lado na cama; muitos achavam aquela presença incômoda. Obviamente não são relações entre pessoas, mas uma relação entre o ator ou atora e um objeto.

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