destino X futuro – ou como lidamos com a tirania da T.I.N.A (There is no alternative)

destino X futuro – ou como lidamos com a tirania da T.I.N.A (There is no alternative)

Márcio Scalercio, historiador

 

Apenas na abertura do milênio, que uma editora brasileira resolveu fazer chegar às prateleiras das poucas livrarias pátrias a obra do historiador inglês Tony Judt. Gosto de pensar que historiadores deveriam abraçar como uma de suas principais tarefas a luta ferrenha contra o esquecimento. E não estou meramente a me referir ao esquecimento individual, das pessoas singulares – falo do esquecimento coletivo, comunitário, do tipo que abarca sociedades inteiras.
Tony Judt era inglês, historiador e judeu. Na mocidade fez parte de uma organização de esquerda do movimento sionista. Com o tempo, desencantou-se com o projeto sionista e passou a ser um crítico da política israelense, especialmente após a Guerra dos Seis Dias (1967) e o grave problema da ocupação dos territórios que deveriam pertencer ao povo palestino. O tema, claro, é complicado, e a crítica de Judt, repleta de nuances e assuntos para debate. Mas sobre isso, ao menos nesse ensaio, vou ficando por aqui. Quem desejar, confira as posições do autor em dois ensaios – “Vitória amarga: A Guerra dos Seis Dias de Israel” e “O país que não queria crescer” – constantes na obra “Reflexões sobre um século esquecido, 1901-2000”, (Rio de Janeiro, Editora Objetiva, 2007).
Judt era de esquerda, caminhando nas amplas e diversificadas fileiras da social democracia europeia. Na Inglaterra, certamente, inclinava-se a ser um eleitor do Partido Trabalhista. Mas não era de modo algum um esquerdista doutrinário. Em um de seus livros, figura um ensaio em que ataca vigorosamente a obra “A era dos extremos”, do historiador também inglês, judeu e de esquerda Eric Hobsbawm. Segundo Judt, seu colega, ao produzir uma história do século XX, peca pela superficialidade com que trata dos regimes socialistas reais da União Soviética e da Europa Oriental. E, certamente, como ninguém poderia acusar Hobsbawm de “desconhecimento” acerca do tema, o modo com que lidou com a questão teria sido, mais do que qualquer outra coisa, uma “escolha”. Enfim, Judt não se conforma ao entender que Hobsbawm foi soft com Stalin e o stalinismo.
A crítica de Judt a Hobsbawm é saudável e deve ser festejada. Acredito que os intelectuais que se prezam não se detém em romper a funesta polarização que imagina exclusivamente a existência do “nós contra eles”. Não, nada disso. Persiste um complexo amálgama do “entre nós” que não pode ser deixado de lado e merece tratamento pertinaz, pois lembremos que, assim como existem as direitas, existem também as esquerdas. Para acompanhar o modismo, se existem muitos tons de branco – a velha cor dos conservares – coexistem diferentes tons de vermelho. E não estamos falando de coexistência pacífica. Não há tapetes em número suficiente para cobrir toda a gama de celeuma, e o silêncio nesses casos é definitivamente lamentável.

A cultura do esquecimento
Judt, acima de tudo, foi um historiador cujo estudo central era o século XX. Entre outros trabalhos, atesta essa afirmação o excelente “Pós-Guerra, uma história da Europa desde 1945” (Rio de Janeiro, Editora Objetiva, 2007). Suas observações sobre os efeitos da Guerra Fria no Velho Continente são valiosas e originais. O historiador escrevia ainda ensaios para revistas e jornais. Seus temas preferidos eram mais uma vez o século XX e acerca dos dilemas do presente.
Ao que parece, Judt temia o esquecimento. Apesar de estarmos apenas no iniciozinho do novo milênio, de não termos atingindo sequer a segunda vintena do novo século, lá estava Judt afirmando que o século XX já era um século esquecido. Seu temor se coaduna com a afirmação de Zygmunt Bauman, de que “nossa cultura é mais de esquecimento do que de aprendizado”.
Mas do que especificamente estamos esquecendo do grande palco de eventos momentosos que foi o século XX? Das duas guerras planetárias? Hiroshima e Nagasaki? Da Grande Depressão dos anos 30, da quebradeira das empresas e dos índices de desemprego calamitosos? Do stalinismo, do nazi-fascismo, dos dramas das sociedades totalitárias apontados, por exemplo, pela filósofa Hannah Arendt? Do holocausto? Da Guerra Fria? Das Guerras Sujas na América Latina? De tudo?
Ou pior ainda: foram esquecidos os remédios? Os consensos político-sociais que criaram os sistemas de bem-estar social; a questão de como podem ser indesejáveis os processos de concentração de renda excessivos, capazes, como lembra o próprio Judt, de corroer as sociedades por dentro. Foram esquecidos os elementos básicos da solidariedade social, que apontavam a persistência da miséria como criminosa, desumana, e que era uma responsabilidade coletiva a sua erradicação. Que a velhice não podia quedar-se abandonada e desassistida, e que os seres humanos, especialmente aqueles que exerciam os trabalhos fisicamente mais duros e exaustivos, não deveriam ser condenados a mourejar até o último suspiro. O abandono das certezas em torno de uma justiça exclusivamente punitiva; a noção de que o acesso ao sistema de saúde, educação e também à água tratada deviam ser considerados bens coletivos e universalizados.
Finalmente, uma sensação de que a mera noção de que o sexo feminino era de algum modo inferior ao masculino era ultrajante, que as mulheres deveriam abrir seus espaços, partilhar o mercado de trabalho, alcançar a igualdade civil e no mundo do trabalho, e que toda e qualquer situação discriminatória deveria ser denunciada, combatida e erradicada. A condenação radical de todo o tipo de racismo. Esses dois itens, o de gênero – bastante ampliado – e o racial, acabaram sendo descolados da pauta exclusiva dos movimentos de esquerda e abraçados por liberais e alguns grupos da esquerda moderada de forma pulverizada e desvinculada de qualquer projeto de justiça social mais abrangente.

O legado do século XX e o seu esgotamento
Esse deveria ser o legado do século XX, marcado por guerras planetárias, regimes autoritários, genocídios, limpezas étnicas, mas também com esse conjunto de medidas que procuravam evitar e tornar um pesadelo confinado ao passado as mazelas mencionadas no início desse parágrafo. É possível que a intensidade desses desastres provocados exclusivamente pelos seres humanos tenham sido esquecidos. Quanto aos remédios, o consenso, ou mesmo a correlação de forças que os sustentavam, isso tudo se desfez.
De um lado, as gerações que vivenciaram os desastres e que por isso, entendiam como imperativas as medidas que os inviabilizassem, foram envelhecendo, afastando-se do gerenciamento da sociedade, falecendo. Logo, em nossos dias, toda a geração que travou a Segunda Guerra Mundial terá perecido no mundo inteiro. Mesmo aqueles que, desde o nascimento, foram beneficiados e tiveram sua segurança social garantida pelas medidas das leis de bem-estar, não poderiam ser marcados pelas durezas de uma época que não viveram, e que só conheciam pelos relatos dos avós, pelas páginas amarrotadas dos livros escolares ou por meio das imagens nem sempre empolgantes dos documentários em preto e branco. Por outro lado, havia a voz dos críticos, sim, pois sempre deve existir o crítico. Reclamava-se da ampliação excessiva da ação do Estado. O governo se envolvia em tudo, estava em toda a parte. Certamente o crescimento da magnitude do poder do Estado produzia um estreitamento da liberdade individual. Deparava-se então, em primeiro lugar, lá pelas plagas do hemisfério Norte, com um problema considerado de fundo, filosófico e também conceitual: se a “ideia de Ocidente” e de “civilização ocidental” poderia aceitar passivamente o enfraquecimento de um de seus principais valores, a noção de autonomia individual.
Além de tudo, por meio de um viés pragmático, todo o sistema era terrivelmente caro de se manter. Juntamente com o poder do Estado e dos serviços que passara a prestar, ampliara-se deveras a peso fiscal. Aos empreendedores privados, devido aos impostos esmagadores, sobrava-lhes menos capital para investir e gerar empregos. Ao mesmo tempo, os generosos programas governamentais de ajuda aos pobres, na verdade, preservavam a pobreza. Os pobres deixavam murchar qualquer iniciativa de procurar ganhar a vida dignamente. Passavam a viver “encostados” no assistencialismo social e não havia qualquer estratégia de saída dos programas. A dependência em relação aos programas de ajuda tornara-se uma situação permanente.
Pairam ainda dois dados relevantes adicionais que concorreram para a quebra desse legado do século XX. O primeiro é que, desde o fim da Segunda Guerra Mundial até meados da década de 70, a economia planetária viveu um período de enorme prosperidade econômica. Nunca, desde que isso começou a ser aferido, as médias de crescimento haviam sido tão elevadas. O primeiro choque do petróleo de 1973 parece ter contribuído decisivamente para comprometer tais índices de prosperidade. O crescimento menor produziu um azedume mais exaltado para a sustentação das despesas públicas, para muitos, exageradamente alargadas. Em segundo lugar, a falência da URSS e a desagregação dos regimes socialistas da Europa Oriental. A opção política marxista parecia ter sido eliminada para sempre. O temor de uma revolução da classe trabalhadora se distanciava cada vez mais. Para alguns, não havia mais razão para o capital fazer concessões, rifar alguns anéis para preservar todos os dedos. Os erros da URSS, dos regimes socialistas reais serviram de argumento para comprometer os projetos de esquerda, a defesa do bem-estar social e de um papel mais vigoroso do Poder Público. “Nada disso funciona” – diziam – “Vejam o que aconteceu com a União Soviética, com a Romênia, com a Bulgária. Vejam a China Vermelha se abrindo para o capitalismo”. A morte da União Soviética deveria condenar também os projetos da esquerda democrática, da social democracia.

A era da T.I.N.A e dos números dotados de militância
Como este é um ensaio, sinto-me liberado de alguns rigores acadêmicos – mas não se preocupem, mantenho a observância aos mais veneráveis e necessários. Não lembro onde vi pela primeira vez o acrônimo TINA (There is No Alternative). Pode ter sido na obra de Tony Judt; ou em algum texto de Bauman e Bordoni – aproveito para recomendar vivamente aos interessados a leitura de “Estado de crise” – Rio de Janeiro, Zahar, 2016 – desses dois autores, obra que me deixou assaz impressionado. Pode ter sido num livro de Todorov. Ficarei a dever a exatidão e contarei com a generosidade do distinto leitor. De qualquer modo, a TINA resume de modo admirável as políticas de cunho liberal-conservadoras que hegemonizam o nosso tempo, quer em termos globais, quer nos patamares nacionais.
Não existe alternativa para a pauta que defende a austeridade no Poder Público. E quem nos diz isso são os números. Os números, absolutos, indiscutíveis, imparciais, incontornáveis atestam esta afirmação categórica. Assim sendo, a verdade inabalável, escudada nesses números que estão acima de qualquer contestação – já que são simplesmente, absolutamente, inapelavelmente números – é que todos os vestígios que ainda restam do velho sistema de securidade social devem ser varridos do mapa. As medidas duras devem ser adotadas, já que sem elas o crescimento econômico será medíocre ou inexistente, a geração de empregos será insuficiente e, o pecado dos pecados, a inflação há de se elevar. Índices de crescimento econômico razoável são a única saída para todos nós. Se isso for alcançado, se os devidos sacrifícios forem assumidos, aceitos sem grandes altercações, não se preocupem: o capital, as corporações, os empreendedores de sucesso hão de resolver tudo e a prosperidade há de ser gerada para todos.

Não há alternativa – já que estamos falando de números, de exatidões, de infalibilidade, não há campo para debate político, para a politização dessa necessidade. Eu disse números – isso significa que essa questão não é política, é técnica. A política é uma atividade suja, mesquinha, tomada pelos oportunistas. Distanciemo-nos do campo político e entreguemos a responsabilidade aos técnicos, aos matemáticos, aos economistas, a todos aqueles que sabem manejar as complexas realidades representadas por números. Esses personagens não são nem políticos, nem ideólogos. Podem ser tão exatos como seus amigos de estimação, os números.
Alternativa? Não existe. Como você se atreve a contestar os números? Como um jornaleiro, um pedreiro, uma escriturária, um professor de gramática, uma médica, um jogador de bilhar etc. ousam problematizar coisas que não entendem, segredos aos quais não estão iniciados, o sombrio mistério dos números? O grande público, o eleitor, o contribuinte, seja qual for o modo para a designação dessa gentalha ignorante, só tem um único papel nesse jogo: o de referendar, legitimar nos rituais da democracia dos modernos a imposição determinada pelos números. Isso devido ao fato de não se desejar o velho método de um remédio horripilante imposto por um regime autoritário ou por um ditador sanguinário. O que é requerido é que a política amarga seja aceita voluntariamente pela maioria, e assim, escudada por esse bom senso majoritário, acatada por todos.
Nada de alternativa possível, pois a dívida pública precisa ser paga. A temática que envolve o caso, ganha contornos dos mistérios da velha alquimia. Trata-se de uma espécie de pedra filosofal capaz de converter papel em ouro. E o metal precioso, por sua vez, é digitalizado, e por meio da rede mundial de computadores, ganha uma mobilidade que nenhuma fronteira política é capaz de deter. Lá vai ele, daqui para lá, e depois para acolá, às vezes passando por aqui de novo. Os contratos devem ser respeitados. Trata-se do polo indispensável para a dançarina evoluir, executar seus movimentos sensuais, atraentes, lascivos. Havendo hesitação no pagamento da dívida pública, nos deparamos com a mais possível modalidade de apocalipse: o colapso do mercado financeiro global.

Destino
Desse modo, em nosso mundo contemporâneo, essa forma muito peculiar de mobilizar os números e esse discurso que nos diz, “não há alternativa, tudo o que você pode fazer é precisamente o que eu quero”, alcança uma dimensão antiga, o patamar de destino. O conceito de destino antecede a construção clara do patamar de vontade. Está escrito, traçado e os videntes, os profetas, todos aqueles que têm algum acesso aos desígnios dos deuses, podem vaticiná-lo. O modo pelo qual é brandida debaixo dos nossos narizes a TINA assemelha-se à tirania do destino. Se não podemos discutir, se não devemos contestar, se só nos resta a resignação, então estamos nada mais nada menos do que diante de um destino.
Os liberais-conservadores substituíram o debate público, a disputa, o enfrentamento de ideias, quer dizer, os recursos da democracia dos modernos pela velha, antiga e definitivamente pré-moderna categoria do destino. O conhecimento técnico, quando é manipulado para substituir o debate político, na verdade coloca para escanteio como inconveniente, incompetente e trapalhão a dimensão da escolha. Isso contribui para o avanço do sentimento de descrédito em relação ao sistema e às instituições políticas. A democracia necessariamente fenece.

Nada de novo sob o sol
Não podemos sequer dizer que a bandeira do destino determinista seja uma criação original dos liberais conservadores contemporâneos. O destino tem um matiz de origem religioso, sobrenatural, o desejo dos deuses, ou de Deus. Mas no século XIX, uma de suas modalidades pseudo-cientifizou-se com o darwinismo social. A existência de um punhado de ricos e um oceano de pobres foi legitimada por uma forma de “seleção social das espécies”. Já no espectro das esquerdas, temos a contribuição do determinismo marxista. Afinal, a história convertida em ciência, segundo essa interpretação, nos mostra a inevitável marcha da humanidade na direção de um futuro socialista radioso. É o destino vermelho, inevitável, cientificamente determinado.
E todo aquele que se opuser, ou é um cego, ou é um reacionário ou um inimigo do povo. Para ele, instituiu-se o conceito de lata de lixo da história, o destino dele, de suas ideias e de todos que pensam como ele. Nada desviará a história de sua marcha. No universo do destino, tudo marcha, quer os números dos liberais conservadores contemporâneos, quer a humanidade e a história dos marxistas de botequim. No final das contas o que é comprometido é a nossa autonomia de escolha pela via do debate público. As diferentes opções são esmagadas pela única coisa possível a fazer. A TINA também marcha. A TINA nos atropela.

A necessidade imperiosa da retomada da dimensão de futuro
O futuro é incerto. O futuro é enigmático. O futuro é passível de disputa. Falar em futuro e encontrar a pluralidade. Clausewitz dizia, ao falar em sua teoria da guerra, que um dos elementos essenciais da guerra era a incerteza. E qual era, segundo o prussiano, o grande gerador de incerteza? Precisamente os seres humanos. A incerteza é humana, demasiadamente humana. Reside nas nossas dúvidas, nas nossas preferências, na nossa mortalidade, e por que não, no nosso senso de oportunidade. A ideia de futuro restaura essa dimensão humana da incerteza, que proporciona o conflito, que inscrito nas regras do jogo da democracia dos modernos, um conflito cujo meio não é a borduna, é o debate e a disputa de ideias.
Creio que quando um historiador como Tony Judt preocupa-se com o “esquecimento”, exibe na verdade uma necessidade de combater o plano sobrenatural de destino, de inevitabilidade, procurando a restauração da noção humana de futuro, de incerteza passível de disputa. Uma superação da tirania da TINA, pois, com a restauração do futuro, retoma-se também o espaço de debate público e da política.
O articulista é professor do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio
scalercio@link.com.br

 

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