Desenvolvimento não se improvisa

Desenvolvimento não se improvisa

Joaquim Levy

 

Para o Brasil renascer há que se pensar qual país se deseja. A partir dos objetivos eleitos, podemos desenhar uma estratégia e construir um consenso em torno dela. Essa formulação tem de incluir princípios éticos e institucionais, a compreensão da dinâmica econômica mundial e de nossa inserção nela, além de vetores econômicos que alinhem expectativas e esforços. Com isso, o governo pode articular uma visão e dar clareza às suas prioridades e ações, permitindo ao setor privado investir, criando riqueza, emprego e oportunidades para a população. Quando nenhuma visão é articulada, as pessoas e empresas tomam a decisão possível, que é a de minimizar riscos, investimentos, exposição e, no limite, partir.

O país que se deseja é forte, mais rico, sustentável e capaz de influenciar o resto do mundo sem entrar em conflitos. Um país onde a violência e o receio de perder a saúde não sejam a maior preocupação das pessoas. Para se chegar lá, é preciso reconhecer não só os traços positivos da nação, como o otimismo, mas superar algumas fraquezas, especialmente a tolerância com a desigualdade entre os brasileiros e com o não cumprimento da lei.
O Brasil é um país de otimismo. Acariciados pela natureza e confortados pela imensidão do nosso território que faz as ameaças geopolíticas parecerem distantes, sentimos que tudo se arruma e amanhã será igual a hoje, sem maiores riscos. Esse otimismo não é totalmente irracional e nos torna mais resilientes aos choques diários. Mas ele não pode virar complacência.

Diminuir a desigualdade é indispensável. Em um país com menos de 200 milhões de pessoas em um mundo em que nossos competidores têm uma população bem maior, cada uma delas conta para o sucesso do Brasil. O avanço da inclusão social, ainda que modesto, foi o que houve de mais importante e positivo nos últimos 20 anos. Mas ele não se sustenta apenas com programas de transferência de renda. Uma educação de resultados é chave para vencer nessa área, como demonstrado em países tão diversos como Coreia do Sul, Israel, e Chile, além do exemplo contundente da China dos últimos 15 anos.

Enfrentar o patrimonialismo e o cerceamento da concorrência e da equidade de oportunidades, assim como o favorecimento daqueles perto do poder, também é indispensável para vencermos a desigualdade, permitindo maior eficiência na economia e a plena expressão do potencial do país.

Também precisa haver compromisso profundo e sincero com o cumprimento das leis. Um quarto de século depois do final do governo Collor e do escândalo do Orçamento Federal, a credibilidade do processo político e das relações entre as forças econômicas e o poder político tem de ser recuperada. Não basta o encarceramento de alguns políticos, especialmente se nisso houver um caráter vicário, de absolvição de cada um de nós. Tampouco se encaixa na passiva aceitação de que o progresso no arcabouço legal desejado seja alcançado através de acomodações políticas que transigem com comportamentos não obedientes à métrica estabelecida pela lei e pelos princípios expressos pela maioria da sociedade. Esse é um dilema sério, superado nas democracias de sucesso pelo respeito às leis por parte de cada um de nós e pela limitação clara do espaço para a barganha política, restringindo de maneira objetiva o escopo de ganho pessoal ou das agremiações partidárias nessas funções.

Escolher como objetivo um país mais igual, onde todos tenham oportunidade e espaço para a diversidade de vozes e experiências de cada um, e em que não apenas a justiça alcance a todos, mas onde o cumprimento da lei seja um valor coletivo, é sinônimo de querermos uma nação próspera e pacífica, com um mercado mais amplo, onde nos e nossos filhos vão poder se realizar, ir atrás dos seus sonhos com fundada esperança e exercer seus talentos para benefício próprio e dos outros. É também o caminho para o país ser respeitado, avançando seus interesses e exercendo uma legítima liderança ao redor do mundo.

A mensagem do entorno econômico

Entender como se chegou à crise econômica atual ajuda a fundamentar a estratégia para sermos vencedores em um período de profundas mudanças tecnológicas, sociais e econômicas em todo o planeta.

O principal engano do governo em 2011-2014 foi não entender que as boas condições em que a economia brasileira vivia deviam-se à combinação das políticas anticíclicas dos principais países do mundo na esteira da grande crise financeira de 2008 com os benefícios das políticas econômicas prudentes mantidas pelo Brasil entre 2003 e 2008. Nunca antes na história econômica mundial houve tamanha coordenação de políticas econômicas ao redor do mundo como a partir de 2009, e em poucas ocasiões chegou o Brasil a uma crise global com a economia tão em ordem.

A forte resposta macroeconômica dos EUA, a reação chinesa e o fortalecimento do G20 evitaram uma depressão mundial como nos anos 1930 e favoreceram o Brasil, aumentando a demanda por produtos e ativos nacionais, em contraste com a dinâmica habitual na esteira de um choque nas economias centrais. Tradicionalmente, um choque nessas economias leva o investidor internacional a liquidar seus ativos nas economias periféricas para ajudar a pagar suas dívidas. A retração da demanda nas economias centrais também se traduz na rápida queda da procura por matérias-primas, com fortes reflexos nos seus preços. Esse é o mecanismo de tenazes que motivou inúmeras crises em países periféricos desde o século XIX. É aquele explicado por Celso Furtado no seu livro “Formação Econômica do Brasil“ (Fundo de Cultura, 1959) e ilustrado no episódio do fechamento da empresa bananeira no livro “Cem Anos de Solidão“, de Gabriel García Márquez. E foi o que não aconteceu em 2009-2012.

A resposta do governo americano à crise de 2008 incluiu a estatização do setor das hipotecas residenciais e a injeção de liquidez em empresas chaves, não só bancárias, mas até fábricas de automóveis, cujas revendedoras eram esteios da economia de milhares de municípios. A isso se somou a compra de grande quantidade de ativos financeiros pelo Banco Central americano (FED), dando liquidez às empresas em geral e indiretamente financiando o Tesouro.
A compra de ativos longos pelo FED deprimiu a taxa de juros de longo prazo dos ativos “sem risco” e gerou a busca generalizada por retornos mais altos (yield search), estimulando o apetite pelo risco e tornando os ativos nos países emergentes “baratos”. Isso promoveu as aquisições de empresas e a apreciação da moeda brasileira no período, assim como o confortável financiamento do nosso déficit em conta corrente. Essa dinâmica foi ainda embalada pelo “crescimento da classe média” e a credibilidade econômica herdada das políticas seguidas a partir dos anos 1990. Ao invés da tradicional fuga de capital, houve forte influxo.

A resposta chinesa à crise pautou-se por substituir o enfraquecimento da demanda externa pelo incentivo à demanda interna, com a expansão do investimento em infraestrutura (trem de alta velocidade, energia, imobiliário) e estímulo à renda e ao consumo dos trabalhadores, assim como às despesas públicas correntes na saúde e educação, ainda que o investimento continuasse a representar a maior contribuição ao crescimento do PIB. A expansão da construção civil sustentou maior demanda por vários metais e energia; o aumento do poder aquisitivo dos chineses, com efeito multiplicador sobre a maioria dos países emergentes, também alavancou a demanda por energia e por alimentos como carne e frango, assim como pelos grãos usados na sua produção. O preço das matérias-primas subiu ao invés de cair.

Os reflexos das políticas anticíclicas dos EUA e da China foram erroneamente interpretadas pelo governo como o “descolamento das economias emergentes” e licença para gastar e tomar riscos. Após uma grande expansão fiscal em 2010, acompanhada de um desavisado relaxamento monetário, o governo iniciou 2011 com um aperto monetário e fiscal a contragosto e uma deriva parafiscal visando “sustentar o crescimento”.

Tendo pela primeira vez na história a possibilidade de fazer política anticíclica para valer em 2009-2010, o governo acreditou que havia descoberto caminhos nunca antes imaginados, demonstrando o valor salutar do gasto público.

Não percebeu que o tamanho da nossa Previdência Social já é um estabilizador automático muito significativo, e que políticas anticíclicas discricionárias são raras no Brasil não por falta de vontade ou conhecimento, mas porque o país em geral não chega a crises com os benefícios de 10 anos de responsabilidade fiscal, política monetária disciplinada e grande estoque de reservas internacionais.

Da ilusão de que o Brasil tinha amplo espaço para tomar risco surgiram os grandes projetos “estruturantes” (Belo Monte, pré-sal acelerado, estádios da Copa), investimentos populares (Minha Casa, Minha Vida), e programas de mérito, mas não necessariamente sustentáveis ou eficientes (Pronatec e Ciência sem Fronteiras). A popularidade dos títulos de longo prazo da dívida pública entre investidores estrangeiros permitiu ainda que o Tesouro injetasse quase meio trilhão de reais no BNDES, transformando o banco em uma cornucópia que financiou a taxas de juros subsidiadas jatinhos privados, caminhões e colheitadeiras, além de estimular “campeões nacionais”, como telefônicas, frigoríficos e estaleiros. Essa expansão fiscal e parafiscal, que colocou grande pressão na política monetária e no controle da inflação, intensificou-se à medida que as condições externas começaram a se modificar e os investidores privados se retraíram.

A maré no mundo começou a mudar quando o então presidente do FED, Ben Bernanke, quis demonstrar antes de deixar o cargo que era capaz de trazer a política monetária americana de volta à normalidade. A simples ameaça de desaceleração do programa de compras de ativos pelo FED causou convulsões nos mercados em 2013, que só foram amenizadas quando sua sucessora no comando do FED, Janet Yellen, mostrou-se muito gradualista. Também por essa época, a China experimentou os limites da política anticíclica, com esgotamento do surto de infraestrutura e preocupação com o crescimento acelerado do crédito às empresas e imobiliário – fator impeditivo para a abertura da conta de capitais que alguns setores do governo chinês cogitavam com grande interesse. O esfriamento desses setores levou os preços das matérias-primas como cobre, ferro e petróleo a cair. O impacto no Brasil não se fez esperar.

A desaceleração do investimento privado no Brasil passou a ser visível em 2013. Para ela contribuíram tanto as incertezas no mundo, inclusive na Europa continental, quanto ações do governo brasileiro, como a reforma do setor elétrico no fim de 2012. Essa reforma aumentou a insegurança dos investidores, já preocupados com a condução das licitações das estradas federais e os problemas crescentes na Petrobras, inclusive por conta da repressão aos preços dos combustíveis quando a empresa fazia grandes gastos com o desenvolvimento do pré-sal e com algumas refinarias. Com a cautela do setor privado, o crescimento do PIB e do emprego passou a ser mantido cada vez mais pelas despesas públicas, em uma trajetória insustentável.

Esse processo se cristalizou em 2015, após a eleição presidencial, na esteira da intensificação da queda do preço do petróleo e do minério de ferro, fonte de pressão adicional sobre dois esteios da economia brasileira, a Petrobras e a Vale. Também se revelou o enorme desequilíbrio fiscal criado pela política de subsídio aos empréstimos do BNDES, pelas expansão extraordinária do financiamento agrícola, e pela repressão ao preço dos combustíveis. Tomou-se conhecimento, além disso, do gravíssimo problema de governança da Petrobras associado ao pagamento de propinas por fornecedores, que levou a um impasse na publicação dos seus balanços e ao risco iminente da aceleração de sua dívida, com efeitos potenciais catastróficos sobre a dívida pública e o sistema financeiro brasileiro. A esses elementos se juntou a contração do crédito ofertado pelos bancos, cautelosos com a deterioração do desempenho da economia e das empresas desde 2013 e sob a atenta supervisão do Banco Central.

O resultado da confluência desses fatores, agravados pelos desdobramentos da Operação Lava Jato, foi uma contração significativa do consumo das famílias, trazido para os níveis de 2012, e uma enorme queda do investimento público e privado (-25%), que voltou aos níveis de 2008.

É dessa recessão iniciada em 2014 que o Brasil está tentando sair ainda neste início de 2018, quando se percebe uma incipiente recuperação do consumo, favorecido pelo efeito benigno da super safra de 2017 na inflação e pelas injeções parafiscais, como a liberação do saldo do FGTS para todos os vínculos de trabalho cessados antes dos finais de 2016, equivalente a 0,5% do PIB.

Olhando para frente, é importante que se evitem outros equívocos e que se entenda bem nossas vantagens e limitações. De um lado, a tranquilidade nos mercados financeiros, mantida pela acomodação dos bancos centrais e certa complacência dos investidores, e que favoreceu o país ao longo da crise econômica e política, é sensível a riscos geopolíticos. A reforma tributária nos EUA afetará, não se sabe quanto, os fluxos de capitais. Além disso, a economia mundial está cada vez mais impactada pelo amadurecimento de tecnologias que favorecem a automação de serviços, como o processamento de dados gigante (big data), o celular de grande capacidade de processamento de dados (smartphone) e algoritmos de inferência (inteligência artificial), assim como pela transformação da atividade industrial com a impressão 3D e novos materiais que modificam os parâmetros dessa produção.

As consequências das novas tecnologias para o mercado de trabalho e para o comércio internacional são ainda difíceis de avaliar, mas há estimativas de que até metade dos empregos atuais poderia desaparecer em 20 anos, inclusive muitos daqueles associados ao varejo, transportes e manufatura, o que alteraria as estratégias de crescimento do país em desenvolvimento de maneira drástica. Esse é um tema de estudo do G20 em 2018, que avaliará também o possível esvaziamento da classe média e a concentração do emprego nas atividades criativas (ciências) ou interpessoais (cuidado de terceiros). Também há implicações para o consumo, que tende a se associar menos à propriedade de bens e mais à fruição dos serviços por eles proporcionados, como nos veículos ou residências compartilhadas. A Ásia está na frente desse movimento, que tem o risco de aumentar ainda mais a clivagem entre os países adiantados e com trabalhadores treinados e aqueles menos preparados. Vale observar que algumas das empresas de maior capitalização na bolsa de valores brasileira estão em setores declinantes nos EUA, como varejo e locadoras de veículos.

Comparando-se os três grandes setores econômicos, avalia-se que os custos de produção de bens físicos continuarão caindo e sua demanda desacelerando pela mudança de hábitos de consumo e gradual satisfação das exigências básicas nos países pobres, enquanto os serviços deverão crescer, especialmente aqueles digitais, e se apreciarem, caso de saúde, viagens, restaurantes, e infraestrutura. A demanda por produtos agrícolas – fonte de crescimento do Brasil nos últimos 25 anos – deve desacelerar nos próximos dez anos, com a saciedade por comida nos países da Ásia. Essa procura tende a ser mais atendida pela possível abertura de novas áreas de plantio na África. A mudança pode ser mais rápida se houver uma ruptura na forma das pessoas se alimentarem, inclusive para aumentar sua longevidade e diminuir as emissões de metano.

Outro mega risco econômico é o da mudança climática, que afetará os preços relativos dos combustíveis fósseis e exigirá o reforço e o redesenho de infraestruturas. As implicações para o Brasil vão do escrutínio do custo benefício do pré-sal, cujo tempo de amortização dos investimentos (payback period) deve ser reduzido para menos de 15 anos, à urgência na expansão de uma infraestrutura não agressiva, e especial cuidado com a evolução das geleiras andinas, verdadeiro regulador do clima na Amazônia e, por força dos ventos, também na Região Sudeste. O cumprimento do compromisso de reflorestamento de 12 milhões de hectares feito na convenção do clima em Paris em 2015 e compatível com o novo código florestal será importante para amenizar o risco de secas e dar competitividade à nossa agricultura em um mercado cada vez mais sensível à conservação ambiental.

O Brasil precisa se dar conta de que a gradual recuperação das economias adiantadas e as transformações na Ásia e mesmo em outros países da América Latina, especialmente os andinos, afetam a atratividade do país para investidores internacionais e domésticos, como observado pela crescente diversificação internacional dos últimos. Nesse campo, a defasagem da infraestrutura brasileira, presa entre a incapacidade fiscal e política de sustentar um investimento público de qualidade e os obstáculos à expansão das concessões, vai nos colocando em posição cada vez mais desfavorável, deprimindo o nosso crescimento potencial.

Elementos para uma estratégia de crescimento

A estratégia de crescimento para o Brasil deve seguir dois eixos, em sintonia com as transformações da economia mundial. O primeiro é o do reordenamento do Estado e de sua relação com o cidadão, incluindo a responsabilidade fiscal. O segundo é o do impulso à educação, ciência e inovação. Ambos são indispensáveis para evitar maior atraso em relação ao resto do mundo e responder às oportunidades à nossa volta, aproximando-nos do objetivo de uma sociedade sã, próspera e inclusiva.

Esses eixos estão assentados sobre o estímulo à oferta e ao aumento da produtividade, motores do crescimento sustentável. A melhora da educação, ao favorecer a inclusão, também sustenta a demanda. A responsabilidade fiscal, reduzindo o patrimonialismo e dando transparência ao setor público, incentiva os investimentos, que aumentam a demanda no primeiro momento e a oferta quando completos.

Esse balanço entre oferta e demanda é essencial para superar a crise e estava presente já no ajuste de 2015. Na época, a necessidade de realinhar preços e reduzir a dívida pública e o crédito estatal, somada à queda do valor das exportações e contração do crédito privado, significavam que a demanda doméstica iria se contrair. Daí a ênfase nas ações do lado da oferta, com (i) uma mini reforma da Previdência Social (pensões e auxílio doença) e do seguro-desemprego, (ii) reorganização e refinanciamento do setor elétrico e troca do comando da Petrobras com publicação dos balanços e início do saneamento financeiro, (iii) estabelecimento de uma trajetória para entrada do Brasil na OCDE com vistas a diminuir o custo e aumentar o acesso à poupança internacional, (iv) redução de desonerações ineficientes em aumentar o emprego ou produtividade das empresas, (v) transformação do relacionamento do contribuinte com o poder público, com a reforma do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) e a regularização de capitais brasileiros no exterior com uma lei de “repatriação” confiável (Regime Especial de Regularização Cambial e Tributária-RERCT), que gerou R$ 50 bilhões de receita sem aumento da carga tributária, além de (vi) mudança nos editais de leilões de infraestrutura para facilitar a entrada de novas empresas e estímulo ao mercado de capitais, com alteração dos tetos de investimento em instrumentos de dívida privada (debêntures de infraestrutura) por investidores institucionais, e (vii) reequilíbrio dos programas de crédito público e eliminação dos passivos do Tesouro com o BNDES e Banco do Brasil, entre outras medidas. Na mesma linha se incluem a aprovação na Câmara da lei de terceirização, a tentativa de reforma do ICMS no Senado e o projeto de introdução do crédito financeiro no PIS-Cofins, enviado ao Planalto.

Ao iniciar 2018, os elementos não concluídos dessa agenda continuam prioritários. A reforma tributária é essencial para diminuir os custos das empresas e trazer-lhes segurança, inclusive sobre a localização geográfica dos investimentos, no caso do ICMS. O crédito financeiro nos tributos indiretos permitirá grande simplificação, com ganhode produtividade na contabilidade e gestão das empresas, e eficiência na fiscalização da Receita, especialmente se houver a cobrança on-line pelos bancos. Sem a simplificação tributária nossas empresas continuarão saindo do país, especialmente as de tecnologia que se beneficiam da capacidade de trabalho remoto proporcionada pelas tecnologias digitais. Cada vez mais a inovação, mesmo desenvolvida ou financiada por brasileiros, está offshore, enquanto países como Israel, Cingapura e mesmo a Índia se tornam imãs para esse setor.

É necessário concluir a reforma da Previdência, com a introdução da idade mínima, atenção em relação aos efeitos fiscais das mudanças nas regras trabalhistas, e foco na implementação da reforma constitucional de 2003, que prevê o regime de capitalização para o financiamento dos benefícios dos funcionários públicos acima do teto do INSS, medida indispensável quando grande parte desses funcionários ganha muito acima desse teto.

Olhando para os próximos anos, a reforma da função pública com o uso intensivo das novas tecnologias é uma oportunidade que não pode ser desperdiçada. No nível nacional e subnacional haverá uma grande transição demográfica do funcionalismo e o governo tem que aproveitar a ocasião para redesenhar a forma com que presta serviços, reduzindo o custo da máquina pública e democratizando o acesso a seus serviços. Há muitos exemplos a se inspirar nessa área, do maximalismo da economia da Estônia a iniciativas de grande sucesso como no México de 2011 para cá, todas abrindo novas oportunidades para as empresas e indivíduos.

Novas tecnologias também poderão transformar a educação. Para acelerar a capacitação da nossa população precisamos de ferramentas digitais complementando a ação dos professores. Os testes nacionais como o ENEM apontam nessa direção, revelando talentos e ilhas de excelência no ensino público e privado em diversas geografias e camadas sociais. Algumas experiências de implementação de um currículo especificado semana a semana, complementado pelo treinamento dos docentes, ensino digital (aulas e exercícios) e testes de alta frequência que permitem identificar o progresso e necessidade dos alunos com velocidade e precisão são extremamente encorajadores. Testes frequentes no primeiro e segundo grau, não voltados essencialmente a premiar ou sancionar os professores, mas a acompanhar os alunos e intervir de forma precisa, aumentariam dramaticamente a produtividade do nosso ensino. Os recursos existem, ainda que possam requerer maior flexibilidade no seu uso, permitindo essa estratégia ser democratizante e compatível com o reconhecimento do papel único do professor, garantindo sua dignidade e desenvolvimento profissional.

Seguir uma estratégia bem definida em áreas em que o Brasil desenvolveu algumas vantagens tecnológicas e que ajudariam a orientar novos investimentos teria alto retorno. É o caso de se rever os objetivos e condições dos centros de ciência e tecnologia em todo o país e definir um programa para sua recuperação e desenvolvimento, com conclusão de investimentos. O acelerador de partículas em Campinas, o programa nuclear, especialmente da Marinha, o programa espacial e mesmo o complexo de desenvolvimento biotecnológico são exemplos de áreas de interesse nacional e grande repercussão econômica impactadas por eventos desorganizadores de 2004 para cá e que necessitam de um tratamento estratégico, robusto e integrado. O mesmo vale para a base de Alcântara e o cumprimento dos compromissos firmados com a Embraer para produção do avião de reabastecimento aéreo, entre outros. O envolvimento da área econômica para entender e orientar os efeitos multiplicadores sobre o investimento privado e emprego dessas e outras iniciativas, como o programa Brasil-Suécia de desenvolvimento do avião de caça, é relevante. Dados os vultosos recursos canalizados para a ciência e tecnologia desde os finais dos anos 1990 e a centralidade dessas atividades para o desenvolvimento de qualquer nação, um sistema de priorização de ações bem definido e avaliação de resultados aberto ao público é imperativo.

A necessidade de planejamento público e eleger prioridades de médio prazo não é contrária ao bom funcionamento da economia de mercado, se acompanhada de prudência fiscal e periódica prestação de contas. Na verdade, o crescimento econômico das principais economias ocidentais se deu com o apoio desse tipo de planejamento, por vezes determinado por razões de segurança nacional. O Brasil não pode querer ser diferente. A verdadeira jabuticaba nacional é achar que o mercado substitui com sucesso um aparelho de Estado organizado, capaz de planejar e executar suas prioridades mantendo a transparência.

Não é o caso de mitificação de antigos órgãos, como o Geipot1, nem tampouco de insistir na improvisação e opacidade do PAC, mas reconhecer que é indispensável haver um núcleo de planejamento de Estado bem estabelecido e que as mudanças estruturais no Brasil decorreram de planos abrangentes e detalhados. A experiência nesse sentido é clara, incluindo aquela da Comissão Mista Brasil-EEUU, financiada pelos EUA, estabelecida em julho de 1951 – nascedouro do BNDES –, ou, de forma menos estruturada, a do “Brasil em Ação”, contratado à consultoria Booz Allen pelo governo Fernando Henrique. Esse tema merece estar no centro das propostas do Poder Executivo e é ingrediente importante para o setor privado se desenvolver em novas direções.

Sua abordagem deve ir além das generalidades, incluindo propostas de mecanismos de eficiência e transparência na eleição de prioridades, definição, contratação e execução de projetos. O uso de consultorias externas ou da experiência de instituições financeiras multilaterais, corrente em muitos países que se transformaram, pode ser útil, especialmente havendo um núcleo capacitado no Estado para liderá-lo. A ação supletiva do Tribunal de Contas nessas áreas indica o quanto o Executivo precisa melhorar.

Finalmente, no tema recorrente das infraestrutura, houve progressos de 2015 para cá, com o esclarecimento de prioridades e reversão de algumas ações insustentáveis. Mas a real profissionalização do comando de muitas das agências reguladoras, a resolução dos passivos da Lava Jato e o fortalecimento do mercado de capitais para ajudar no financiamento dos projetos são necessidades urgentes e bem conhecidas. Não há muita novidade nisso, mas é como quando se vai ao médico esperando uma pílula mágica e ele receita melhor alimentação, exercício e sono regrado. Pode ser desapontador, mas é o necessário agora e parte da reestruturação do Estado, fator indispensável para se iniciar nova fase de crescimento. Agir por aí também ajudará a melhorar a dinâmica do funcionalismo, valorizando o aspecto de serviço público das principais carreiras. É o caminho para evitar sua subordinação política indevida e também reduzir o risco do setor público se tornar uma casta voltada para si mesma. A história ensina que a realização desse risco traz polarização e não contribui para a construção de um país próspero, com igualdade de oportunidades e em paz.

Conclusão

O Brasil sempre soube resolver seus problemas em paz, apesar de alguma turbulência quando alterações na ordem econômica mundial afetaram de maneira persistente o nosso país, como no intervalo entre o ocaso napoleônico e a expansão do café, quando a economia brasileira se fechou e a instabilidade política foi a tônica até a coroação de D. Pedro II. Nossa história também indica que, apesar do “novo” ser sempre atraente, caráter, experiência de governo, moderação e abertura de pensamento são preciosos, especialmente em um tempo em que a democracia convencional está sendo testada ao redor do globo. Um dos governantes que mais progresso trouxe ao país foi o veterano Conselheiro Rodrigues Alves, herdado do império e repetidas vezes presidente de São Paulo. Sua experiência e índole contribuíram para a retomada do crescimento depois dos tropeços do começo da República. Em contraste, Hermes da Fonseca, arquétipo do “novo” estranho à política mas promovido por alguns expoentes desta, trouxe uma instabilidade apenas parcialmente mitigada pela mineirice do seu sucessor.

Assim, com princípios éticos, objetivos em que o povo se reconheça e linhas de ação que permitam o saneamento fiscal e a melhora significativa da formação dos jovens, a recuperação econômica tenderá a se fortalecer e encontrar seu caminho, contribuindo para a solução de outros problemas da população. Os ingredientes básicos são, assim, clareza de objetivos e meios na política econômica e social, buscando eficiência e equidade, e a capacidade de projetar esperança quando novas tecnologias e a fluidez na economia mundial podem representar riscos, mas têm grandes possibilidades de melhorar a vida de cada brasileiro. Com eles, há fortes motivos para termos confiança na retomada econômica e no sucesso da democracia.

O autor é ex-ministro da Fazenda e doutor em Economia
joaquim_dc2006@hotmail.com

 

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