Democratização do ódio – Um relato incomodado sobre o caso brasileiro

Democratização do ódio – Um relato incomodado sobre o caso brasileiro

Paulo Henrique Paschoeto Cassimiro, cientista social

 

Durante os acontecimentos recentes na pequena cidade de Charlottesville, nos Estados Unidos, um dos editores do portal Breitbart – apontado como uma das principais fontes de notícias que alimentam os “alt-right”, a extrema-direita norte americana – acusava a grande mídia de ignorar o “outro lado” das manifestações de ódio que tomavam as ruas: para ele, um “protesto a favor da liberdade de expressão” organizado por “conservadores patrióticos” havia sido inesperadamente tomado por uma “onda de bandeiras nazistas”, transformando o evento em uma manifestação do “fascismo de direita”. Contudo, continua ele, a imprensa havia insistido em ignorar o “outro lado” do fascismo, aquele organizado pela esquerda, clamando pela “morte aos nazistas” e atacando os supremacistas com a palavra de ordem “não há lugar pra vocês na América”. O autor conclui afirmando que o governador democrata do estado da Virginia preferiu usar palavras de ordem que ressaltavam o ódio ao movimento “Unir a Direita”, “ao invés de chamar ao diálogo, ou mesmo tentar explicar o que seria um razoável e fácil argumento contra as bandeiras nazistas e as manifestações com tochas em mãos” .1
O artigo – escrito por Raheem Kassam, um jovem ativista da nova direita inglesa –, ao ignorar intencionalmente a desproporção entre as manifestações de ódio da extrema direita – mobilizadora de problemas históricos dos Estados Unidos como o argumento supremacista, o racismo e a evocação de símbolos confederados – e a reação supostamente violenta dos manifestantes que buscavam negar o discurso de unidade racial como uma “manifestação legítima” de liberdade de expressão, converte-se em um apelo farsesco à democracia. A tentativa de naturalizar a negação do outro como uma forma aceitável de discurso político, capaz de ser assimilada em um espaço público democrático, ataca a democracia em um de seus pilares essenciais: a tolerância compreendida como “reconhecimento sem reconciliação”.2
Com a ideia de “reconciliação” podemos entender os esforços em reduzir a diversidade do conflito social à recomposição de uma unidade imaginada – racial, étnica, cultural, religiosa etc. O nacionalismo tem sido, pelo menos desde o final do século XIX, a forma política por excelência de expressão dessas demandas por reconciliação como forma de lidar com a crescente complexidade das sociedades em processo de democratização. Nos últimos dez anos o nacionalismo tem ressurgido com grande força como reação à incapacidade das instituições liberal-democráticas em lidar com os desafios colocados pela crise econômica e pela globalização: o desemprego e a precarização do trabalho, a insegurança social diante de um Estado que reduz sua esfera de intervenção e a complexidade social gerada pelos fluxos migratórios são alguns dos elementos que alimentam novos apelos por “reconciliação”. Porém, tais demandas contemporâneas ultrapassam os limites políticos que a democracia liberal estabelece para o conflito social; a ideia jurídico-política da “neutralidade do Estado” diante da diversidade de identidades sociais é colocada em dúvida na proporção em que aumentam a instabilidade econômica e a descrença nas instituições representativas.
Como resultado desse processo, cada vez mais formas organizadas de ódio e de negação do outro assumem maior protagonismo no conflito político e social. Contudo, as expressões atuais de manifestação do ódio ultrapassam as mobilizações tradicionais de ativismo político: com a ampliação do acesso à internet e da capacidade de interação e comunicação por meio das redes sociais, o ódio difuso, cujos protagonistas são anônimos e de difícil identificação, tem sido um recurso usual de manifestação política. Longe de reduzir-se a países nos quais o problema do nacionalismo tem formas mais bem definidas, a radicalização do espaço público e a reorganização dos discursos de ódio tem surtido efeitos políticos evidentes também no Brasil e, da mesma forma, a internet tem assumido um papel essencial nesse processo.

As redes sociais, o ódio e a desinformação
Há pouco mais de dois anos, uma declaração do romancista italiano Umberto Eco causou grande repercussão ao afirmar que a internet havia munido da possibilidade de expressão “uma legião de imbecis”.3 A frase, citada isoladamente, não nos deixa compreender a totalidade de seu argumento. Se retomarmos o restante do discurso, pronunciado em uma premiação na Universidade de Turim, veremos que Eco aponta para as transformações que promovem a possibilidade de concentração e reunião de discursos de desinformação e ódio: antes espalhado e desarticulado, a expressão do ódio encontrou nas redes sociais uma nova maneira de reunir promotores e mesmo de articular novas formas de organização e mobilização política. Muitos e diversos são os papéis que a internet pode assumir para a organização do ódio, desde a articulação de redes internacionais para a ação de grupos terroristas até a mobilização para manifestações políticas locais, como no caso dos acontecimentos recentes em Charlottesville.
Um dos aspectos catalizadores da expansão e difusão do ódio nas redes é a desinformação sistemática promovida na internet. A desinformação, ou seja, o processo de divulgação de uma informação falsa, com a finalidade de confundir ou induzir ao erro, tem sido apontado como um dos problemas centrais da ampliação do acesso à internet. Em um artigo publicado na revista Nature Human Behavior um grupo de pesquisadores da área de redes e informação digital aponta que a expansão da desinformação aprofunda-se na medida em que a quantidade massiva de informações expande-se, enquanto o tempo de atenção disponível para a assimilação da informação, não, levando a uma “correlação fraca entre qualidade e popularidade da informação”.4 Do ponto de vista político, a rapidez na difusão da desinformação e a incapacidade da maioria dos usuários das redes em distinguir informações confiáveis e fontes seguras tem sido um terreno fértil para a germinação de acusações infundadas e teorias conspiratórias, como já apontava há aproximadamente dez anos um dos criadores da rede mundial de computadores, Tim Berners-Lee: “Na internet, o pensamento de culto pode se espalhar muito rapidamente e, de repente, um culto que reunia 12 pessoas com problemas pessoais profundos pode encontrar uma fórmula para tornar-se muito confiável. Uma espécie de teoria da conspiração pode se espalhar para milhares de pessoas e ser profundamente prejudicial”.5
Ofilósofo e politólogo francês Pierre-André Ta­guieff, estudioso das formas de mobilização política do ódio nos séculos XX e XXI, afirma que um dos efeitos paradoxais da demanda por “transparência” nas democracias é que, à medida que a difusão da informação é facilitada, ampliam-se as suspeitas e explicações políticas conspiratórias; dito de outro modo, a “publicidade” democrática não é nunca suficientemente esclarecedora para eliminar toda a suspeita de manipulação.6 O autor aponta que alguns dos fundamentos da democracia contemporânea – a secularização, a relativização dos valores, a dessacralização do poder – pressupõem um estado de indeterminação que alimenta, por outro lado, o desejo por uma “fonte segura” de certezas: a complexidade e quantidade inassimilável de informações levam à busca de explicações que reatribuam sentido e coerência ao conflito social. Essa ânsia pode levar a respostas simplistas que, no entanto, se pretendam capazes de revelar a “dominação oculta” por trás da confusão aparente da democracia.
Todas essas questões trazidas pela expansão e difusão da informação colocam um novo desafio para pensar a ação política no século XXI. A participação e a liberdade de manifestação nas democracias liberais são pensadas a partir da existência de um espaço público no qual se articulam opinião pública, mobilização política e busca de consensos; assim, a vitória eleitoral de um projeto político pressupõe a manutenção da existência de competição política e do reconhecimento da legitimidade dessa competição. Dito de outro modo, só existe competição democrática na medida em que o reconhecimento do outro como um “adversário legítimo” é mantido. Contudo, as novas fórmulas de mobilização do ódio não só desafiam o modelo da esfera pública liberal-democrática enquanto negam a legitimidade de um adversário – convertido em “inimigo”, aquele que deve ser alijado da participação política –, mas principalmente porque partem do pressuposto que a verdadeira luta política se dá a partir daquilo que está “oculto”. Assim, a manifestação política converte-se em uma perseguição constante para desvelar os mecanismos do mal na política; quase sempre encarnados em grupos sociais, instituições ou movimentos políticos perfeitamente distinguíveis (e na maioria das vezes minoritários).

A radicalização da política no Brasil:
o consenso impossível
Muitos têm sido os esforços para entender a história recente de expansão da mobilização e radicalização da política no Brasil desde os eventos de junho de 2013. As narrativas que buscam dar sentido às grandes manifestações populares que ocuparam as ruas do país naquele momento são diversas e radicalmente distintas: desde explicações que apontam para novas formas de mobilização dos movimentos sociais e novas formas de contestação até aquelas que explicam os acontecimentos como o renascimento de um tipo de mobilização claramente antidemocrática. À esquerda e à direita, heróis e vilões são apontados: novos movimentos sociais, black blocs, combatentes anticorrupção, liberais pela redução do Estado, anticomunistas, classe média pacifista, classe média fascista etc. Se é bem verdade que, como afirma o cientista político André Singer, o “travejamento fundamental da ordem não foi questionado”.7 para muitos, contudo, 2013 funciona como um novo “momento fundacional” da política brasileira: ali é possível encontrar o início de narrativas de mobilização ideológica que não cessaram de produzir efeitos políticos até hoje. Como aponta ainda Singer, as jornadas de Junho são também “Jornadas de Juno”: a imensa diversidade de posições e sentidos ideológicos tornam o movimento uma cabeça com mil faces, cada uma delas apontando para um sentido diferente e que dão a nova “cara” do espectro ideológico da política brasileira.
Algo que podemos apontar nessa barafunda política que ocupa a nossa vida pública nos últimos quatro anos é que a heterogeneidade de 2013 antecipa em muitos sentidos o colapso do modelo de conciliação entre elites políticas que vigorou no Brasil nos últimos 20 anos. Quando o então presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha anunciou a abertura do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, no dia 2 de dezembro de 2015, caia o último véu que mascarava a ruína do presidencialismo de coalizão no Brasil. Louvado desde a década de 90 como um modelo capaz de criar estabilidade em um regime com alta fragmentação partidária no Legislativo e com um Executivo fortalecido em suas prerrogativas desde a Constituição de 88, o presidencialismo de coalizão8 representou, do ponto de vista das articulações e composições das elites políticas, uma ascendência do Executivo sobre o Legislativo através da incorporação de uma ampla composição partidária pela distribuição de cargos e funções no Estado, legando ao presidente uma base parlamentar sólida e razoavelmente estável.
Após o momento inicial de redemocratização, no qual o governo Sarney seria sustentado por uma aliança entre PDS (mais tarde PFL) e PMDB, num contexto em que o sistema político ainda se recompunha com o surgimento de novas forças partidárias, o governo subsequente, o de Fernando Collor, teria imensa dificuldade em compor maiorias parlamentares. O impeachment de Collor em 1992 – acarretado, entre outros motivos, pela instabilidade da relação do executivo e de sua base minoritária com a maioria opositora no Congresso – rearticulou os partidos em uma nova base para garantir a governabilidade do vice, Itamar Franco: dos três grandes partidos de oposição a Collor, PMDB, PSDB e PT, apenas o último não compôs a ampla base de apoio do novo governo; associaram-se a eles o PFL e o PTB, partidos de direita e antigos aliados de Collor, e partidos de esquerda, como o PDT e o PSB.9 Em 1994, Fernando Henrique Cardoso – eleito por uma aliança entre PSDB, PFL e PTB – recomporia uma ampla coalizão, com a agregação de outros partidos, incluindo o PMDB, que havia optado por lançar candidatura própria. O presidencialismo de coalizão manteve sua trajetória sólida na primeira década dos anos 2000, mesmo após um período inicial de incertezas diante da eleição de Lula, logo superado pela assimilação de importantes partidos de direita à base de governo petista. Em todo esse período, o parlamento foi marcado pela presença da agenda do Executivo, sem desconsiderar, evidentemente, as concessões políticas que o presidente deveria fazer às demandas das elites políticas – concessões acentuadas quando da ascensão da esquerda ao poder, recuando em muitas agendas progressistas diante da necessidade de estabilidade com a base amplamente conservadora.
A desagregação da base parlamentar da presidente Dilma – já prenunciada pela profunda dificuldade em negociar com o Congresso nos primeiros meses do segundo mandato – desafiou a trajetória das coalizões partidárias no Brasil. A velocidade com que os antigos aliados da administração petista se rearticularam em torno de um novo governo – e de um novo projeto político – mostrou uma inversão na lógica do presidencialismo de coalizão: o governo Temer havia sido resultado não de um Executivo eleito que compunha amplas bases parlamentares, mas, ao contrário, de uma composição parlamentar que, através do mecanismo do impeachment, compôs uma alternativa política à “ingovernabilidade” do governo Dilma. A expressão “parlamentarismo de cooptação”, que setores da imprensa e analistas políticos passaram a utilizar para designar o governo de Michel Temer, ilustra bem a virada na compreensão geral sobre a crise no sistema político brasileiro. Diante do avanço nas acusações contra o presidente e da necessidade de passar no Congresso a agenda econômica, resultado da composição do governo com as forças de mercado, a instabilidade do governo Temer tornou-o ainda mais refém da barganha com o parlamento, ocultando, por trás de uma ampla maioria, a manutenção da “ingovernabilidade”.
Caberia então perguntar qual a relação que pode ser traçada entre as “novas” expressões ideológicas da política brasileira emergidas das manifestações de 2013 e a crise institucional e política escancarada com o impeachment de Dilma Rousseff? Gostaríamos aqui de sugerir a hipótese de que a crise e o subsequente impeachment da presidente não foi apenas resultado do desgaste do governo com as bases parlamentares, ou da possibilidade vislumbrada por setores políticos de recompor um governo com a exclusão da esquerda, impondo uma agenda neoliberal que havia sido derrotada nas urnas; associados a esses dois fatores fundamentais, há também a presença crescente nas elites políticas no parlamento de uma agenda que, evidenciada com as manifestações de 2013, expõe a radicalização e aprofundamento da mobilização política articulada em torno de discursos de ódio e exclusão do outro. Essa agenda identificou na esquerda no poder um mal contra o qual valores “patrióticos” e “religiosos” deveriam se unir; ao mesmo tempo, a ação do governo petista foi vinculada a um plano maior, de ares conspiratórios, que daria conta da associação entre um projeto revolucionário global e o ciclo das esquerdas na América Latina. A radicalização do espaço público cria a oportunidade de converter essas novas manifestações em forças políticas organizadas, expandindo-se eleitoralmente.

O Anticomunismo Redivivo
Na confusa diversidade de posições manifestadas nas ruas em 2013, uma delas destacou-se, ganhando mais força a partir das grandes mobilizações pró-impeachment em 2015: o anticomunismo. Cartazes com os dizeres “não à ditadura comunista no Brasil” ou “chega de doutrinação marxista” ilustraram a identificação entre o governo petista e o avanço do projeto comunista no Brasil. De maneira resumida podemos explicar o anticomunismo como um discurso que pressupõe que a esquerda, por meio da conquista eleitoral do poder, estaria operando lentamente um solapamento das instituições e dos valores democráticos no país; o projeto ultrapassaria assim a simples busca pelo sucesso eleitoral, mas seria sustentado efetivamente por sua parte “oculta”, que revelaria uma vinculação internacional entre projetos políticos diversos com finalidade revolucionária.
Uma das principais fontes da retórica anticomunista tem sido a vinculação histórica entre o PT e outros partidos e movimentos revolucionários de esquerda, através do Foro de São Paulo. Em artigo recente para o blog da Veja, o jornalista Felipe Moura Brasil sintetiza a perspectiva anticomunista sobre a organização, definida por ele como “o maior inimigo do Brasil e do continente nas últimas décadas”:10 criado em 1990 por Lula e Fidel Castro, o Foro de São Paulo articula projetos políticos em toda a América Latina, construindo uma rede de solidariedade entre partidos e movimentos de esquerda. Porém, o Foro não reuniria apenas partidos políticos: as FARC – movimento revolucionário de guerrilha colombiano ligado ao narcotráfico – tiveram participação na organização, atestadas por declarações de um de seus líderes à Folha de São Paulo, Raul Reyes, e do ex-presidente venezuelano Hugo Chávez. A participação de políticos e intelectuais orgânicos do PT nos encontros do Foro – como Marco Aurélio Garcia, José Dirceu, Valter Pomar, Raul Pont, além do próprio Lula – reforça a importância dada ao evento. O artigo da Veja expõe longamente um conjunto de provas mostrando a conexão entre o PT e o Foro de São Paulo, sintetizando, em verdade, os esforços que um grupo de jornalistas e ativistas políticos em torno do filósofo Olavo de Carvalho realizam desde 2002 no portal Mídia Sem Máscara para recolher material mostrando a vinculação do projeto de esquerda brasileiro com um movimento maior da esquerda revolucionária latino-americana.
Oque seria uma legítima arma de combate político-eleitoral – ressaltar a vinculação do PT com os partidos e movimentos de esquerda para mobilizar o voto conservador – converteu-se em uma tentativa de vincular a totalidade das ações políticas e administrativas do PT em um esforço para aprofundar o “movimento revolucionário” no Brasil. A explicação conspiratória do “comunismo” passou a ser mobilizada para explicar todas as alianças políticas, as decisões econômicas e as agendas sociais da esquerda: a aliança com partidos de direita por meio da divisão de cargos no executivo e da corrupção e desvio do recurso público, os acordos com o grande empresariado nacional e com os bancos, as tentativas – mesmo tímidas – de impor uma agenda vista pela esquerda como progressista no campo da moral, a tentativa de regular a imprensa, tudo isso seria explicado pelos esforços em direção a um grande projeto de cooptação da sociedade civil e de aparelhamento do Estado em direção a um projeto político revolucionário. Essa lógica não deixa de fora, evidentemente, os avanços sociais: políticas de transferência de renda e de redução da pobreza não seriam senão formas de converter as massas miseráveis em um exército disponível para o projeto político da esquerda.
A retórica anticomunista tem uma longa história no Brasil. Seu uso tem sido instrumento para organizar forças políticas desde os anos 20. O célebre “plano Cohen” – uma suposta conspiração comunista forjada entre os integralistas, segundo testemunho de seu maior líder, Plinio Salgado – foi usado pelo general Góes Monteiro como instrumento para justificar a suspensão do regime constitucional durante o Estado Novo.11 Durante a República de 46 a 64, a retórica anticomunista ganharia grande influência na opinião pública com o surgimento da UDN; a expressão “udenismo” passou desde então a manifestar um moralismo de classe média contra a mobilização populista das massas, o comunismo e a corrupção promovida pelo Estado varguista. Como mostrou o cientista político Jorge Chaloub,12 o udenismo tem uma longa permanência no debate político brasileiro, presente em discursos que apontam os vícios inerentes ao modelo varguista de Estado e as virtudes de uma sociedade civil que busca organizar-se de maneira independente. As manifestações contra a corrupção no governo Dilma demonstram uma notável presença de elementos “udenistas”: a forte mobilização das classes médias, a identificação entre o tamanho do Estado e a corrupção, a tentativa de distinguir a mobilização da sociedade civil independente e democrática e as massas manipuladas pelos partidos e movimentos sociais irrigados com as benesses do Estado. A crença em uma cruzada contra a corrupção e contra a esquerda associou-se nas manifestações de 2015 para atribuir uma nova identidade ao problema do Estado brasileiro: os últimos 13 anos de governo petista não haviam apenas mantido o modelo corrupto, ineficiente e populista de Estado erigido na Era Vargas; agora ele também serviria ao projeto revolucionário da esquerda em direção ao solapamento dos valores e da liberdade política.
O argumento anticomunista está sustentado, sobretudo, em um recurso retórico de pouca capacidade analítica, mas de grande força persuasiva: o movimento em direção a um suposto processo revolucionário explicaria, então, qualquer tipo de ambiguidade real entre a ideologia política da esquerda e as concessões oferecidas à “direita” – os bancos, o empresariado, os partidos conservadores – durante o período de governo; a evidente coerência entre determinados movimentos e projetos políticos da esquerda com a agenda “comunista” reforça o argumento, totalizando alguns elementos e produzindo uma explicação global e verossímil do fenômeno político. Ao fim, a própria oposição ao governo petista seria, em verdade, apenas um factoide criado para dar aparências de democracia ao processo de busca de hegemonia, na medida em que o próprio PSDB – de origem social-democrata – seria uma vertente do “socialismo Fabiano”.13 Todo esse processo aponta para o que Taguieff indicava como as duas etapas fundamentais do extremismo: simplificar e denunciar.14
As redes sociais têm sido protagonistas na mobilização da sociedade civil em torno de discursos do tipo que acabamos de descrever; uma rápida busca pela internet nos revela um sem-número de sites, blogs, grupos em redes sociais e diversas formas distintas de divulgação e compartilhamento de informações que associam a esquerda brasileira ao compromisso revolucionário do comunismo. É bem verdade que o tamanho real da capacidade de mobilização política das redes sociais e a sua conversão em ganho eleitoral efetivo ainda é dificilmente mensurável; porém, não é desprezível ressaltar que o uso do anticomunismo nas redes tem tido claramente a função de definir contornos claros de um “inimigo” e designar as “razões” pelas quais as forças de oposição ao “projeto hegemônico do comunismo” – ligadas à “nação”, aos “valores tradicionais”, à “liberdade” etc – precisam se articular politicamente. Longe de buscarmos aprofundar a simplificação radical e os aspectos conspiratórios do argumento de “redução ao comunismo” gostaríamos de ressaltar os uso político do “inimigo eleito” e o direcionamento eleitoral do ódio. Porém, antes de retomarmos esse tema, um outro ponto essencial da radicalização no cenário brasileiro precisa ser traçado.

Cristo contra a besta revolucionária
Em um vídeo datado de julho de 2016, facilmente encontrável no Youtube sob o título “A luta contra o comunismo – Marco Feliciano”15 , o deputado federal Pastor Marco Feliciano descreve sua compreensão do contexto político nacional desde as manifestações de 2013. Para ele, uma “história da mudança ideológica no Brasil” precisa recuar três meses antes das manifestações de junho, para um episódio ocorrido na Comissão de Direitos Humanos na Câmara dos Deputados, quando o PSC (Partido Social Cristão) passa a ocupar a presidência daquela Comissão. Para o deputado, a vitória dos conservadores naquele momento representou a primeira derrota do “posicionamento comunista ideológico do PT”: esse caso teria demonstrado que era possível enfrentar sem medo a esquerda, argumento ilustrado com um versículo bíblico que diz “resisti ao diabo, e ele fugirá de vós”. A ascensão do deputado Marco Feliciano – reeleito em 2014 como o terceiro deputado federal mais votado de São Paulo, com aproximadamente 400 mil votos, quase o dobro de votos que havia obtido na eleição anterior, 211 mil – é testemunho do notável crescimento do voto evangélico no Brasil: entre as eleições de 2010 e 2014 a bancada evangélica na Câmara saltou de 70 para 80 deputados,16 além do crescimento no total de votos de alguns de seus representantes mais importantes. Contudo, o que pretendemos ressaltar aqui é menos o movimento e o desempenho parlamentar da bancada, e sim a clara redução da disputa política ao esforço de denunciar o “inimigo” nos discursos e na atuação política de alguns de seus integrantes mais influentes.
A politização de questões de moral e de costumes não deveria espantar, especialmente na medida em que a relação entre o eleitorado evangélico e a composição de uma bancada vista como responsável pela defesa de seus interesses se aprofunda; porém, a construção de um voto de identidade evangélica em contraste com o voto da esquerda tem transformado a agenda religiosa numa forma de construir uma polaridade extrema na esfera pública; dito de outro modo, apontar a esquerda como um inimigo que necessariamente precisa ser alijado da disputa legítima serve para subsumir diversas questões políticas relevantes – de ordem econômica, institucional e social – a uma dicotomia fundamental: aquela que opõe o “crente” ao “comunista”, ou seja, o amigo ao inimigo. Assim, a possibilidade de disputa política, negociação e busca de consensos fica prejudicada por uma barganha fundamental: conquistar o apoio do voto evangélico pressupõe, em primeiro lugar, não pautar uma agenda considerada “progressista” e, em segundo lugar, alijar o máximo possível estratos da representação identificados com a esquerda do processo político legítimo.
Uma das vozes mais militantes na construção dessa polaridade entre evangélicos e esquerda é o pastor Silas Malafaia. Um estudo da empresa de big data Stilingue, publicado no início do ano, aponta Malafaia como o quarto maior influenciador político do Twitter no Brasil.17 A pesquisa opera a seleção de palavras-chave relacionadas com política para mapear a repercussão dos perfis de pessoas públicas. Longe de mensurar o tamanho real da influência política do pastor, a pesquisa, contudo, revela claramente a atuação política do líder religioso, um esforço evidente de influenciar o seu público nas pautas nacionais. A atuação do pastor Malafaia para direcionar o voto evangélico contra a esquerda tem sido constante, tendo se destacado em 2010 e 2014 pelo apoio ao PSDB contra a presidente Dilma Rousseff e, mais recentemente, pela campanha ostensiva contra o candidato do PSOL, Marcelo Freixo, à Prefeitura do Rio de Janeiro. O argumento, em todos os casos, abre mão de uma discussão sobre agenda política ou sobre um projeto nacional e parte diretamente para a evocação da necessidade de combater a crescente expansão do mal – encarnado na esquerda – na vida social brasileira. Malafaia contrasta aqueles que “seguem Cristo” e aqueles que “seguem Marx”, enquanto os primeiros estão em acordo com os “valores fundamentais da civilização judaico-cristã”, na defesa dos direitos humanos, da justiça, da família e da proteção à vida, os segundos “veneram Fidel Castro e Che Guevara”, assassinos “cuja ideologia, a mais perversa na humanidade, está falida em todo mundo”.18

Mas e a luta de classes? Os usos do ódio da esquerda
A retórica radicalizante de personalidades como Malafaia pretende ocultar a construção do ódio como forma de mobilização política através do apelo à defesa dos valores tradicionais contra a expansão da ameaça revolucionária, gestada não só nas instituições políticas, mas principalmente através de um amplo processo de doutrinação nas escolas e universidades e da mobilização política de partidos e setores da sociedade civil vinculados ao projeto da esquerda. É evidente que não faltam exemplos de discursos de ódio por parte da esquerda: a própria ideia de luta de classes pressupõe a identificação de um inimigo cuja eliminação é condição para a emancipação da classe protagonista do processo histórico, o proletariado. A esquerda historicamente tem apelado a reduções e simplificações radicais do conflito social e dos processos econômicos para mobilizar suas bases. O uso sem critério e intencionalmente pouco definido de palavras como “elites”, “conservadores”, “burguesia” e “fascismo”, na busca do efeito político sobre os militantes e demais ouvidos simpáticos à agenda de esquerda alimenta em grande medida o espírito simplificador do extremismo conspiratório do qual a própria esquerda é hoje vítima. O ex-presidente Lula se notabilizou por uma retórica inflamada contra as elites que “governam o Brasil há 500 anos”,19 produzindo não só o efeito de homogeneizar toda a história política que o antecedeu, ressaltando seu papel messiânico, mas especialmente ocultando que a governabilidade da administração petista dependeu em grande parte de uma conciliação com setores importantes das elites políticas e econômicas tradicionais. Mais recentemente, a vulgarização de um vocabulário relacionado aos movimentos identitários e de minorias tem contribuído para fortalecer a busca por uma “identidade conservadora” contrastante. Da mesma forma, não faltam testemunhos pontuais de “doutrinação” da esquerda em escolas e universidades; um breve período de convivência em cursos de humanidades em universidades públicas revela a evidência incontornável de que um local pensado para estimular a liberdade de reflexão não costuma ser exatamente um espaço onde a diversidade ideológica é bem recebida.
Contudo, o discurso “antiesquerdista” superdimensiona a capacidade de mobilização da retórica radical da esquerda e, principalmente, sua conversão em capital eleitoral efetivo, o que remete novamente ao problema da desproporção entre a presença de discursos ideológicos nos espaços públicos e a ação política real. Na realidade, a reduzida representatividade da esquerda sempre inviabilizou o avanço de projetos que despertam a preocupação dos conservadores; mesmo nos 13 anos em que a esquerda esteve no poder com o PT, a timidez do governo em avançar com pautas dessa natureza revelava o esforço em manter apaziguada a base partidária que sustentava a coalizão petista. Um exemplo importante – por simbolizar o princípio desgaste entre o governo Dilma e sua base no Congresso – foi a derrota na Câmara do decreto do executivo que regulamentava os conselhos populares, vistos por seus adversários como uma forma de institucionalizar formas de participação “bolivarianas” aparelhadas pela esquerda.20

Pode o ódio ser representado?
A falsa impressão – acentuada com as redes sociais – de que a luta ideológica acontece em igualdade de condições e que repercute em igual medida para públicos com capacidade de influência política proporcional mascara, em verdade, uma estratégia política: aumentar o tamanho, a importância e a força do inimigo reforça a capacidade de organizar o ódio – e, por conseguinte, o medo – em torno de um projeto político distinto. Em todos os casos, o discurso do ódio é a aposta para converter a crise em capital político: manter a narrativa da ameaça que o adversário oferece aos “valores fundamentais” da sociedade fortalece o apelo a uma alternativa “salvacionista” que poderia reduzir o conflito político e reestabelecer uma “harmonia” pregressa.
Testemunhos notáveis podem ser encontrados tanto à esquerda quanto à direita. Desde que assumiu a presidência do PT em junho, a senadora Gleisi Hoffmann tem apostado na radicalização do discurso do partido, fortalecendo a ideia salvacionista de que um retorno do PT e de Lula ao poder em 2018 seria a única alternativa à inevitável catástrofe que a direita impinge à democracia brasileira desde o impeachment. Nas palavras da senadora, repensar o projeto de esquerda no Brasil seria, inevitavelmente, entregar-se ao jogo político da direita: “Não somos organização religiosa, não fazemos profissão de culpa, tampouco nos açoitamos. Não vamos ficar enumerando os erros que achamos para que a burguesia e a direita explorem nossa imagem”.21 Ao recusar-se a refletir criticamente sobre o percurso da esquerda no poder nos últimos 13 anos e as inevitáveis contradições emergentes das alianças com forças conservadoras para a manutenção da governabilidade, a senadora sinaliza e dá o tom do que deve ser o discurso do partido daqui em diante, apostando na polarização e na radicalização para buscar mobilizar novamente o eleitorado de esquerda e capitalizar eleitoralmente o discurso de ódio a um adversário genérico designado pela expressão “direita”.
Contudo, a grande novidade política que o discurso de ódio gerou nos últimos anos no Brasil é a impressionante ascensão do deputado federal Jair Bolsonaro. Dono de uma retórica popular e agressiva, identificando inimigos claros – a esquerda, o comunismo, a “ideologia de gênero”, o bolivarianismo – o deputado saltou de 120 mil votos em 2010 para impressionantes 464 mil votos em 2014, tornando-se o deputado federal mais votado no Rio de Janeiro. Bolsonaro reúne várias das características que identificam historicamente o discurso da extrema-direita no mundo: nacionalismo extremado, mobilização da violência como forma de resolução de conflitos sociais, defesa de valores tradicionais e antiesquerdismo radical. Recentemente, buscando conectar-se com o eleitorado evangélico, Bolsonaro trocou o PP pelo PSC e foi batizado nas águas do Rio Jordão em Israel pelo presidente do partido, Pastor Everaldo. A personalidade política de Bolsonaro, ocupando um espaço vazio na cena política nacional desde a morte do ex-deputado Enéas Carneiro, tem apontado para um potencial crescimento eleitoral: na última pesquisa do Datafolha Bolsonaro aparece como o segundo candidato com maior intenção de votos (16%), atrás apenas do ex-presidente Lula (30%).22 Nas diversas simulações de possibilidades eleitorais feitas pela pesquisa (sem Lula, sem envolvidos na Lava-Jato, com Dória etc.) o deputado permanece em segundo na maioria delas. A grande fragmentação eleitoral que 2018 permite antever favorece sobremaneira a candidatura de Bolsonaro, dada a ausência de um outro candidato que polarize com ele um discurso semelhante, aumentando a chance de vermos o deputado num eventual segundo turno.
Longe de esgotarmos as possibilidades eleitorais do ódio, convém por fim nos perguntarmos sobre que tipo de democracia pode ser representada num cenário político como o que acabamos de esboçar. Se o povo e os trabalhadores estão cooptados pela esquerda, como pressupõe o discurso “anticomunista”, quem é o principal ator de massa nessa democracia? Se todas as tentativas de reconhecimento de minorias ou de uma educação para a pluralidade de identidades no mundo contemporâneo ofende aos valores tradicionais, como o discurso religioso afirma, que tipo de liberdade individual permanece viva e quais as garantias para a preservação da laicidade do Estado? Se a “direita” se confunde com boa parte das tradicionais elites políticas e do grande empresariado nacional, quais serão as forças econômicas e que tipo de coalizão partidária poderá sustentar um eventual retorno da esquerda? E por fim, se a salvação da crise política encarna-se em uma figura messiânica, portadora de soluções providenciais, cuja identidade não é construída pela disputa de projetos políticos em um espaço democrático, mas contra a imagem difusa e genérica do “inimigo”, que tipo de concorrência política democrática teremos? Essas são algumas das perguntas que precisam ser respondidas se acreditarmos que a alternativa à crise política é a construção de novos consensos democráticos, e não a guerra civil.

O autor é professor de Teoria Política na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ)
phpcassimiro@gmail.com

NOTAS DE RODAPÉ

1. Fonte: http://www.breitbart.com/big-government/2017/08/12/gov-mcauliffe-in-charlottesville-no-place-in-america-for-alt-right-refuses-to-condemn-antifa/

2. A expressão “reconhecimento sem reconciliação” é de autoria do filósofo francês Yves Charles Zarka. Ver: Zarka, Y. C. Difícil tolerância. A coexistência de culturas em regimes democráticos. São Leopoldo: Editora Unisinos, 2013.

3. Fonte: http://www.lastampa.it/2015/06/10/cultura/eco-con-i-parola-a-legioni-di-imbecilli-XJrvezBN4XOoyo0h98EfiJ/pagina.html

4. Fonte: https://www.nature.com/articles/s41562-017-0132

5. Fonte: http://www.telegraph.co.uk/technology/3358458/Internet-is-fostering-disinformation-says-webs-creator.html

6. Taguieff, P.A. La Foire aux Illuminés. Ésoterisme, teorie du complot, extremisme. Paris: Fayard, 2005, p.59.

7. Singer, A. “Brasil, junho de 2013: Classes e ideologias cruzadas”. Novos estud. – CEBRAP no.97, São Paulo, Nov. 2013.

8. A expressão “presidencialismo de coalizão” ganha espaço acadêmico no Brasil especialmente a partir de um artigo, publicado em 1988 pelo cientista político Sergio Abranches, intitulado “O presidencialismo de coalizão: o dilema institucional brasileiro”. In Dados – Revista Brasileira de Ciências Sociais. Rio de Janeiro: IUEPERJ, Vol.1, 1988.

9. Sallum, B. O Impeachment de Fernando Collor. Sociologia de uma crise. São Paulo: 34, 2015, pgs. 363-383.

10. Fonte: http://veja.abril.com.br/blog/felipe-moura-brasil/conheca-o-foro-de-sao-paulo-o-maior-inimigo-do-brasil/#

11. O testemunho de Plínio Salgado sobre o plano Cohen encontra-se em: Trindade, H. A tentação fascista no Brasil. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2016.

12. Chaloub, J. “Os resquícios de 1964: populismo e udenismo no debate político atual”. Revista Insight: Inteligência, Ano XVII, n.65, 2014.

13. http://midiasemmascara.org/arquivos/2015-07-08-19-51-31/

14. Taguieff, P.A. La Foire aux Illuminés. Op. cit., p. 316.

15. O vídeo foi acessado no dia 31 de agosto de 2017, no link: https://www.youtube.com/watch?v=ukBGopjoqKw

16. Fonte: https://oglobo.globo.com/brasil/bancada-evangelica-cresce-14-deve-prejudicar-causas-lgbt-14178049

17. Fonte: http://veja.abril.com.br/blog/a-origem-dos-bytes/twitter-os-maiores-influenciadores-politicos-da-rede/

18. Fonte: https://noticias.gospelprime.com.br/malafaia-evangelicos-nao-apoiar-comunistas/

19. Fonte: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2015/11/13/o-que-nos-fizemos-em-12-anos-a-elite-nao-fez-em-100-diz-lula-no-abc.htm

20. Fonte: http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,camara-derruba-decreto-de-conselho-popular-de-dilma,1584579

21. Fonte: https://oglobo.globo.com/brasil/favorita-presidencia-do-pt-gleisi-hoffmann-diz-que-partido-nao-fara-autocritica-21432830

22. Fonte: http://g1.globo.com/politica/noticia/lula-tem-30-bolsonaro-16-e-marina-15-aponta-pesquisa-datafolha-para-2018.ghtml

 

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